sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Cartas para minha avó

Eu amava ver minha mãe se arrumar pra sair, se maquiar. Quando ela não estava em casa, eu abria as gavetas de sua penteadeira e cheirava seus batons Encore. Ela usava um cor de vinho que a deixava muito bonita. Ela se perfumava com Toque de Amor e se sentia a mulher mais cheirosa do mundo. Bom, era o que eu achava, mesmo quando algumas colegas na escola diziam que aquele era um perfume de pobre.
Minha mãe sempre teve uma aura de magia e nobreza, mesmo usando marcas populares. Dona Erani possuía uma elegância encantadora: o jeito que passava o batom, abria a tampa do perfume, desenrolava os bobes do cabelo soltando os grampos com suavidade. Eu a admirava de longe, observando o modo delicado com o qual ela passava hidratante no corpo, abotoava a camisa, desamassava as calças de linho. Em determinado momento, porém, tudo isso se perdeu. Entre uma traição do meu pai aqui, outra lá, minha mãe foi se esquecendo de si mesma, mas eu sempre a vi com o brilho nos olhos da menina fascinada pela mulher.
E, como disse, ela tinha pressa. Nas festas de suas amigas, ela sempre nos levava. Nunca foi daquelas mães que não se divertem porque precisava arrumar um lugar quieto pra gente dormir. Nunca saiu mais cedo de uma festa porque nós estávamos com sono. Nos seus raros momentos de diversão, ela realmente aproveitava. E eu adorava quando ela sentava para beber cerveja, rir, dançar. Ela ficava calma, e a gente conseguia quase tudo o que queria. Longe do meu pai, numa roda de samba no quintal de uma casa simples, ela se abria. Quando eu ficava cansada, pedia para deitar em seu colo. Sem baixar o tom de voz ou pedir para o tamborim parar, ela me aninhava e seguia contando causos, comendo, curtindo a festa. Eu simplesmente amava ouvir o som abafado de sua voz enquanto um dos meus ouvidos estava encostado em seu peito. De sentir o cheiro do perfume e do batom vinho Encore misturado com odor de cerveja e carne de segunda. Tocar a pele macia do seu colo e me achar importante por estar na mesa dos adultos. Eu também tinha pressa, pressa e desejo de aproveitar cada momento raro em que minha mãe parecia ser só minha.
Ela sempre nos arrumava de forma impecável. Conforme fomos crescendo, se saíssemos de casa com as pernas ruças — acinzentadas pela falta de hidratante —, sem passar desodorante ou sem limpar os olhos direito, era bronca na certa. “Preto tem que andar arrumado”, ela dizia passando o dedo na língua e limpando nossos olhos com a saliva.
E ela era tão obcecada com isso que podia nos bater caso não estivéssemos com o uniforme limpo e passado e as pernas reluzentes. “O mundo não vai te ensinar com amor”, minha mãe justificava. Não demorou muito para entender o porquê. Foram várias as vezes em que escutei que eu era uma neguinha fedida, mesmo sendo uma das crianças mais cheirosas da escola. Ou que meu cabelo era sujo e cheio de piolhos, mesmo minha mãe cuidando sempre. Toda vez que algum cheiro ruim surgia na sala de aula, as outras crianças diziam que deviam ser os “negros fedidos”. Tínhamos, então, que estar sempre impecáveis, senão havia punição severa — em casa ou fora dela.
Somos de tempos diferentes, vó, e para mim não é aceitável que se bata em crianças — mas eu compreendo vocês duas. Talvez a minha mãe nunca tivesse sido amada sem sentir dor. Sabe, Toni Morrison diz que “o amor nunca é melhor do que o amante, que quem é mau ama com maldade e quem é violento ama com violência”. Com isso não quero dizer que vocês eram más e violentas, mas que o sistema que as violentou confinou vocês numa situação em que a violência era a única saída. E, mesmo assim, apesar de toda maldade que lhes foi infligida, vocês amaram. Houve a transcendência pelo amor. Vó, você me amou incondicionalmente. Minha mãe, apesar das cicatrizes e traumas, me aninhava nas minhas noites de insônia, esquentava leite com mel nos meus dias de dor, me arrumava como se eu fosse a menina mais bonita do mundo. E se hoje minha filha não sabe o que é uma surra, é porque nossa linhagem ancestral sobreviveu ao que nos foi imposto.
Mas por mais que eu tenha tentado me afastar da educação rígida de vocês, algumas coisas permaneceram. Broncas intermináveis — com as mãos na cintura, como vocês faziam — quando Thulane apronta, olhar feio quando ela se intromete em coisas que não são da alçada dela. Eu sou capaz de ficar horas contando a história de vocês quando ela ousa tirar notas medianas na escola. Ela precisa saber de onde veio para escolher para onde vai, não pode se achar superior a vocês, precisa entender que vida dela é resultado da vida de vocês. E é claro que eu evoco minha mãe quando ela me responde atravessado: “Ah, Thulane, se eu falasse assim com a sua avó, eu não teria dentes…”.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

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