Eu
amava ver minha mãe se arrumar pra sair, se maquiar. Quando ela não
estava em casa, eu abria as gavetas de sua penteadeira e cheirava
seus batons Encore. Ela usava um cor de vinho que a deixava muito
bonita. Ela se perfumava com Toque de Amor e se sentia a mulher mais
cheirosa do mundo. Bom, era o que eu achava, mesmo quando algumas
colegas na escola diziam que aquele era um perfume de pobre.
Minha
mãe sempre teve uma aura de magia e nobreza, mesmo usando marcas
populares. Dona Erani possuía uma elegância encantadora: o jeito
que passava o batom, abria a tampa do perfume, desenrolava os bobes
do cabelo soltando os grampos com suavidade. Eu a admirava de longe,
observando o modo delicado com o qual ela passava hidratante no
corpo, abotoava a camisa, desamassava as calças de linho. Em
determinado momento, porém, tudo isso se perdeu. Entre uma traição
do meu pai aqui, outra lá, minha mãe foi se esquecendo de si mesma,
mas eu sempre a vi com o brilho nos olhos da menina fascinada pela
mulher.
E,
como disse, ela tinha pressa. Nas festas de suas amigas, ela sempre
nos levava. Nunca foi daquelas mães que não se divertem porque
precisava arrumar um lugar quieto pra gente dormir. Nunca saiu mais
cedo de uma festa porque nós estávamos com sono. Nos seus raros
momentos de diversão, ela realmente aproveitava. E eu adorava quando
ela sentava para beber cerveja, rir, dançar. Ela ficava calma, e a
gente conseguia quase tudo o que queria. Longe do meu pai, numa roda
de samba no quintal de uma casa simples, ela se abria. Quando eu
ficava cansada, pedia para deitar em seu colo. Sem baixar o tom de
voz ou pedir para o tamborim parar, ela me aninhava e seguia contando
causos, comendo, curtindo a festa. Eu simplesmente amava ouvir o som
abafado de sua voz enquanto um dos meus ouvidos estava encostado em
seu peito. De sentir o cheiro do perfume e do batom vinho Encore
misturado com odor de cerveja e carne de segunda. Tocar a pele macia
do seu colo e me achar importante por estar na mesa dos adultos. Eu
também tinha pressa, pressa e desejo de aproveitar cada momento raro
em que minha mãe parecia ser só minha.
Ela
sempre nos arrumava de forma impecável. Conforme fomos crescendo, se
saíssemos de casa com as pernas ruças — acinzentadas pela falta
de hidratante —, sem passar desodorante ou sem limpar os olhos
direito, era bronca na certa. “Preto tem que andar arrumado”, ela
dizia passando o dedo na língua e limpando nossos olhos com a
saliva.
E
ela era tão obcecada com isso que podia nos bater caso não
estivéssemos com o uniforme limpo e passado e as pernas reluzentes.
“O mundo não vai te ensinar com amor”, minha mãe justificava.
Não demorou muito para entender o porquê. Foram várias as vezes em
que escutei que eu era uma neguinha fedida, mesmo sendo uma das
crianças mais cheirosas da escola. Ou que meu cabelo era sujo e
cheio de piolhos, mesmo minha mãe cuidando sempre. Toda vez que
algum cheiro ruim surgia na sala de aula, as outras crianças diziam
que deviam ser os “negros fedidos”. Tínhamos, então, que estar
sempre impecáveis, senão havia punição severa — em casa ou fora
dela.
Somos
de tempos diferentes, vó, e para mim não é aceitável que se bata
em crianças — mas eu compreendo vocês duas. Talvez a minha mãe
nunca tivesse sido amada sem sentir dor. Sabe, Toni Morrison diz que
“o amor nunca é melhor do que o amante, que quem é mau ama com
maldade e quem é violento ama com violência”. Com isso não quero
dizer que vocês eram más e violentas, mas que o sistema que as
violentou confinou vocês numa situação em que a violência era a
única saída. E, mesmo assim, apesar de toda maldade que lhes foi
infligida, vocês amaram. Houve a transcendência pelo amor. Vó,
você me amou incondicionalmente. Minha mãe, apesar das cicatrizes e
traumas, me aninhava nas minhas noites de insônia, esquentava leite
com mel nos meus dias de dor, me arrumava como se eu fosse a menina
mais bonita do mundo. E se hoje minha filha não sabe o que é uma
surra, é porque nossa linhagem ancestral sobreviveu ao que nos foi
imposto.
Mas
por mais que eu tenha tentado me afastar da educação rígida de
vocês, algumas coisas permaneceram. Broncas intermináveis — com
as mãos na cintura, como vocês faziam — quando Thulane apronta,
olhar feio quando ela se intromete em coisas que não são da alçada
dela. Eu sou capaz de ficar horas contando a história de vocês
quando ela ousa tirar notas medianas na escola. Ela precisa saber de
onde veio para escolher para onde vai, não pode se achar superior a
vocês, precisa entender que vida dela é resultado da vida de vocês.
E é claro que eu evoco minha mãe quando ela me responde
atravessado: “Ah, Thulane, se eu falasse assim com a sua avó, eu
não teria dentes…”.
Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó
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