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19/12/2017

Mais do mesmo

Veja bem, na minha pequena cidade de Caledonia, em Iowa, temos um único mercado com uma única caixa, chamada Susie; três igrejas; o prefeito, que trabalha meio expediente no prédio onde também funcionam os correios; dois restaurantes que servem os mesmos pratos do dia, só que em dias alternados, e outros catorze comércios locais. As coisas aqui são tão estáveis quanto a própria terra, e parece que é disso mesmo que as pessoas gostam. Ninguém nunca me disse que eu deveria manter em segredo minhas idas ao penhasco, mas os adultos têm dessas coisas: as regras mais importantes são as que nunca são ditas, e são as que vão deixá-los nunca são ditas, e são as que vão deixá-los com mais raiva se você desrespeitá-las.”
Crystal Chan, in Passarinho

27/12/2015

A morte de Passarinho


Meu avô parou de falar no dia em que matou meu irmão, John. Seu nome foi John até vovô dizer que ele se parecia mais com um Passarinho pelo jeito como vivia subindo e saltando das coisas. O apelido pegou. O cabelo grosso e preto de Passarinho era todo arrepiado, exatamente como as penas da cabeça de um melro, dizia vovô, que apostava que um dia meu irmão também voaria. Vovô sempre falava isso, e ninguém tinha prestado muita atenção até o dia em que Passarinho saltou de um penhasco, o penhasco no fim de uma pradaria de capim alto, o penhasco com uma queda de uns bons cem metros até o leito seco do rio, bem lá embaixo. Sua toalhinha de banho azul foi encontrada perto de seu corpo, presa em um arbusto, a toalha que lhe servia de asas. Desde então, vovô nunca mais falou. Nem uma palavra sequer.
No dia em que Passarinho tentou voar, os adultos tinham saído para procurá-lo — todos, menos mamãe e vovó. Isso porque, naquele mesmo dia, eu nasci. E ninguém jamais me chamou por nenhum outro nome senão Joia, embora às vezes eu quisesse ser chamada de outra coisa. Meus pais sempre disseram que meu nome é Joia porque sou preciosa, mas às vezes acho que é porque começa com J, assim como John, e porque eles sentem saudade dele e não queriam me dar um nome comum, como Jenny ou Jackie. John tinha um nome comum, e agora está morto.
Eu completava doze anos, e todo mundo deveria estar feliz. Só que era difícil ficar feliz com vovô trancado no quarto o dia inteiro, como faz todos os anos no meu aniversário. Papai e mamãe prepararam um bolo com cobertura de baunilha e granulado colorido para mim, me deram presentes (meias da loja de um dólar, mas muito fofas), e nós três fomos ao cemitério visitar Passarinho e minha avó. Sempre vejo filmes em que as crianças ganham grandes festas de aniversário, com música, chapeuzinhos, presentes enormes e até mesmo pôneis, e imagino que seria legal ter um aniversário assim. Especialmente com pôneis. Pelo menos uma vez. No entanto, sempre tenho que dividir meu dia especial com o silêncio atrás da porta fechada do vovô, com o silêncio no cemitério e com o silêncio que pesa entre as palavras dos meus pais.
Mamãe e papai lavaram a louça usada para preparar meu bolo e foram para a cama, mas eu não consegui dormir, como não conseguia todo ano no meu aniversário. Ficava imaginando como Passarinho era, que tipo de irmão ele teria sido e o que se passa na cabeça de meninos de cinco anos quando se atiram de penhascos.
Então, fiz o que costumo fazer quando não consigo dormir: vesti minha calça jeans e uma blusa de manga comprida, passei repelente e saí de casa escondida, sob o céu noturno salpicado de estrelas. Há um carvalho enorme no terreno do sr. McLaren, um pouco mais à frente na estrada, no qual eu sempre subo, o mais alto que consigo, e me reclino no tronco morno e robusto. Fico ali, observando o arco que a lua descreve ao percorrer o céu e ouvindo o guizalhar dos grilos, ou o farfalhar das folhas do carvalho, ou o canto abafado de uma coruja.
Por um momento, pensei em ir até o penhasco de onde meu irmão voara, mas sabia que não era uma boa ideia ir lá à noite.
Crystal Chan, in Passarinho

18/10/2015

Buracos

Não gosto de chorar na frente das pessoas, porque isso revela os buracos que temos por dentro. Acho que, com tanto choro nos últimos dias, eu tinha mais buracos do que pensava.”
Crystal Chan, in Passarinho

18/09/2015

Onde se esconde a alegria?

Mordi o lábio. Quem eram aquelas pessoas? Onde estava toda aquela alegria, e onde ela se esconde depois de abandonar uma família? Será que vai para outra família, funde-se à terra ou se dissolve no ar como a fumacinha de nossa respiração no inverno? E se a alegria não vai embora, então por que não sobrou nem um pouco para mim?
Crystal Chan, in Passarinho

21/02/2015

Os lugares são como as pessoas

“Foi então que percebi que, de muitas formas, os lugares são como as pessoas: pensam nas pessoas queridas quando estão longe, esperam elas voltarem e ficam felizes quando isso acontece.”
Crystal Chan, in Passarinho

27/01/2015

Corações não usam palavras


“Ficamos assim por muito tempo, no quarto quentinho e reconfortante, com nosso coração escancarado. Aprendi, naquele momento, que corações não usam palavras para falar, ao contrário do que dizem os filmes e as músicas. Acho que precisam de muito mais espaço. Enfim, tudo que sei é que meu coração estava com uma febre alta e terrível naquele dia, e que, no silêncio, vovô trouxe consigo uma chuva refrescante.”
Crystal Chan, in Passarinho

08/12/2014

Visitas ao penhasco

“Em todo caso, eu não contaria sobre minhas visitas ao penhasco, porque os adultos não ouvem o que as crianças têm a dizer. Não de verdade. Se ouvissem, olhariam nos meus olhos quando eu falo, olhariam de verdade, sincera e profundamente, dispostos a escutar o que quer que saísse da minha boca, prontos para qualquer coisa. Não conheço nenhum adulto que já tenha olhado para mim desse jeito, nem mesmo meus pais. Por isso, as coisas boas, tudo de bom que já vi e presenciei, incluindo as idas ao penhasco, eu guardo para mim mesma. Minha família não faz parte disso.”
Crystal Chan, in Passarinho