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15/07/2015

Construo-me, construa-se

Julga que se conhece, se não se construir de algum modo? E julga que eu posso conhecê-lo, se não o construir à minha maneira? E julga que me pode conhecer, se não me construir à sua maneira? Só podemos conhecer aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento pode ser esse? Não será essa forma a própria coisa? Sim, tanto para mim como para si; mas não da mesma maneira para mim e para si: isso é tão verdade que eu não me reconheço na forma que você me dá, nem você se reconhece na forma que eu lhe dou; e a mesma coisa não é igual para todos e mesmo para cada um de nós pode mudar constantemente. E, contudo, não há outra realidade fora desta, a não ser na forma momentânea que conseguimos dar a nós mesmos, aos outros e às coisas. A realidade que eu tenho para si está na forma que você me dá; mas é realidade para si, não é para mim. E, para mim mesmo, eu não tenho outra realidade senão na forma que consigo dar a mim próprio. Como? Construindo-me, precisamente.”
Luigi Pirandello, in Um, Ninguém e Cem Mil

05/04/2015

Máscara

O caos, se existe, é deliberado; o mecanismo, quando existe, é também deliberado. Não por mim, mas pela própria história, pelas próprias personagens, e logo se descobre que frequentemente é proposital e desvendado no próprio ato de construí-lo e estabelecê-lo. É a máscara para uma representação, o jogo dos papéis; aquilo que desejamos ou devemos ser; aquilo que parecemos ser aos outros; enquanto o que somos, até certo ponto, nem nós mesmo sabemos. É metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos; a construção, frequentemente complexa, que fazemos de nós mesmos ou que os outros fazem de nós. Portanto, um mecanismo sim, em que cada qual deliberadamente, repito, é a marionete de si mesmo e, por fim, o chute que faz voar toda barraca.”
Luigi Pirandello, in Advertência sobre os escrúpulos da fantasia

29/03/2015

Verossimilhança

Porque a vida, por todos os seus descarados absurdos, grandes e pequenos, dos quais está tranquilamente repleta, tem o inestimável privilégio de poder prescindir daquela estúpida verossimilhança, à qual a arte se crê obrigada a obedecer.
Os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros. Ao contrário dos da arte que, para parecerem verdadeiros, precisam ser verossímeis. E sendo verossímeis, deixam de ser absurdos.
Um acontecimento da vida pode ser absurdo; uma obra de arte, se é obra de arte, não. De onde se deduz que tachar uma obra de arte de absurda e inverossímil, em nome da vida, é idiotice. Em nome da arte, sim; em nome da vida, não.”
Luigi Pirandello, in Advertência sobre os escrúpulos da fantasia

25/03/2015

O fantasma da minha vida


Se eu começar a correr”, pensei, “ela me seguirá!”
Passei a mão na testa com força, com medo de estar ficando louco, de transformar aquilo numa obsessão. Mas era isso mesmo! O símbolo, o fantasma da minha vida era aquela sombra: eu era esse aí no chão, à mercê dos pés dos outros. Era o que restava de Mattia Pascal, falecido na Stìa: sua sombra pelas ruas de Roma.
A sombra tinha um coração, mas não podia amar; tinha dinheiro, mas qualquer um podia roubá-lo; tinha uma cabeça, apenas para pensar e compreender que era a cabeça de uma sombra e não a sombra de uma cabeça. Nada mais que isso!
Luigi Pirandello, in O falecido Mattia Pascal

18/12/2013

Do bem e do mal

“O homem, quando sofre, faz uma ideia muito especial do bem e do mal, ou seja, do bem que os outros lhe deveriam fazer e que ele pretende como se do seu sofrimento derivasse um qualquer direito a ser compensado, e do mal que pode fazer aos outros como se igualmente o seu sofrimento o autorizasse a praticá-lo. E se os outros não lhe fazem o bem quase por dever, ele acusa-os; e de todo o mal que ele faz, quase por direito, facilmente se desculpa.”
Luigi Pirandello, in O Falecido Mattias Pascal