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03/03/2024

Posfácio | Bônus Track


As 101 melhores, ou mais bonitas, ou mais importantes canções brasileiras não existem.
Podem-se fazer várias listas de 101 canções, umas tão boas quanto outras, por gênero, por época, por importância histórica ou sucesso popular, além da excelência melódica, harmônica, rítmica e poética. Poderiam ser até 1.001, tal a criatividade e a diversidade dos compositores brasileiros nos últimos 101 anos.
Uma das grandes qualidades da música brasileira é a variedade inigualável de gêneros, estilos, ritmos e misturas musicais, de Belém a Porto Alegre, em épocas distintas e sob múltiplas influências, que representam nossa diversidade étnica e cultural. Entre as inúmeras canções lindas, alegres, dramáticas, românticas, divertidas, trágicas, políticas, sociais, dos mais variados ritmos e estilos, que se tornaram populares e marcaram seu tempo, algumas tocaram especialmente o Brasil, nos nossos melhores e piores momentos, e se tornaram trilha sonora de nossa história pessoal e coletiva.
Mas listas de músicas que marcam a vida de cada um são como impressões digitais: não há duas iguais. Das que mais tocaram o coração do Brasil, estas 101 estão entre as mais bonitas, populares, importantes e originais. Mas muitas outras, que não cabem em um só livro, também formam uma riquíssima coleção de canções de vários estilos e gerações.
Bastaria a obra musical de Tom Jobim, de Dorival Caymmi, de Ary Barroso, de Noel Rosa ou de Chico Buarque para compor uma lista inestimável de mais bonitas, mais importantes, mais originais. Porém há muitas outras, além das já citadas nas informações sobre a obra dos compositores das 101: a maior qualidade da música brasileira é sua diversidade.
Grandes músicas que marcaram o coração do Brasil, como “É o amor”, de Zezé di Camargo, megassucesso sertanejo nos anos 1990 e depois gravada por Maria Bethânia; sucessos eternos da Jovem Guarda, como “Vem quente que eu estou fervendo” e “O bom”, de Eduardo Araújo e Carlos Imperial, e “Negro gato”, de Getúlio Côrtes; belas canções do estilo romântico popular que foi chamado de brega, como “Sonhos” e “Sozinho”, de Peninha, e “Dia de domingo” e “Me dê motivo”, de Sullivan e Massadas, também fizeram história.
Entre tantas tão boas, não faltam grandes clássicos do samba-canção, como “Molambo” (Jaime Florence e Augusto Mesquita), “Saia do caminho” (Custódio Mesquita e Evaldo Rui), “Chuvas de verão” (Fernando Lobo), “Canção de amor” (Chocolate e Elano de Paula), “Chove lá fora” (Tito Madi), e os mais recentes “Beijo partido” (Toninho Horta), “Jura secreta” (Suely Costa e Abel Silva) e “Simples carinho” (João Donato e Abel Silva).
O mundo do samba também contribui com incontáveis clássicos. Entre eles, destacam-se “Jura” e “Gosto que me enrosco” (Sinhô), “Agora é cinza” (Bide e Marçal), “Antonico” e “Contrastes” (Ismael Silva), “Mulata assanhada” e “Na cadência do samba” (Ataulfo Alves), “Falsa baiana” e “Escurinho” (Geraldo Pereira), “Segredo” e “Ave Maria no morro” (Herivelto Martins), “De conversa em conversa” (Lúcio Alves e Haroldo Barbosa) e “Pra que discutir com madame?” (Haroldo Barbosa e Janet Almeida), “Camisa listrada” (Assis Valente), “Canta Brasil” (Alcyr Pires Vermelho e David Nasser), “Adeus América” (Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa), “A fonte secou” (Monsueto Menezes, Raul Moreno e Marcléo), “Volta por cima” (Paulo Vanzolini), “Senhora liberdade” e “Coisa da antiga” (Wilson Moreira e Nei Lopes), “Vou festejar” (Jorge Aragão, Dida e Neoci) e “O samba é meu dom” (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro).
As marchinhas de Carnaval são um capítulo especial da música brasileira, fazendo crônica social e crítica de costumes com alegria e humor em clássicos como “Alá-lá-ô” (Haroldo Lobo e Antônio Nássara), “Yes, nós temos bananas” e “Jardineira” (João de Barro), “Sassaricando” (Jota Júnior, Luís Antônio e Oldemar Magalhães), “Balzaquiana” (Nássara e Wilson Batista), “Marcha do gago” (Armando Cavalcanti e Klécius Caldas), até “Folia no matagal” (Eduardo Dussek e Luis Carlos Góes).
São muitas as canções imortais da bossa nova, não só de Tom Jobim, mas de Carlos Lyra (“Você e eu”, “Sabe você” e “Coisa mais linda”, com Vinicius de Morais, e “Se é tarde me perdoa”, “Saudade fez um samba” e “Lobo bobo”, com Bôscoli), de Roberto Menescal (“Nós e o mar”, “Ah, se eu pudesse” e “Rio”, com Ronaldo Bôscoli, e “Bye Bye Brasil”, com Chico Buarque), de Luiz Bonfá (“Manhã de Carnaval”, com Antônio Maria), do grande estilista João Donato (“Naquela estação”, com Caetano Veloso e Ronaldo Bastos, “A Paz”, com Gilberto Gil, “Brisa do mar”, com Chico Buarque).
A tradição romântica brasileira emociona e encanta com valsas e modinhas, desde “Linda Flor” (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto Marques Porto) e “Casinha pequenina” (autor desconhecido, 1906), a clássicos de Custódio Mesquita, como “Nada além” (com Mário Lago) e “Mulher” (com Sady Cabral). E tantas outras, como “Boa noite amor” (José Maria de Abreu e Francisco Matoso), “Lábios que beijei” (J Cascata e Leonel Azevedo), “Curare” (Bororó), “Eu sonhei que tu estavas tão linda” (Lamartine Babo), “Nova ilusão” (José Menezes e Luiz Bittencourt), “Vida de bailarina” (Chocolate e Américo Seixas), “A saudade mata a gente” (João de Barro e Antônio Almeida) e “Começar de novo” (Ivan Lins e Vitor Martins).
A obra de Roberto e Erasmo Carlos, os maiores hitmakers da nossa história, em sua diversidade de temas e estilos, constitui-se, por si só, em uma trilha sonora dos sentimentos brasileiros de várias gerações, com canções de alta qualidade como “Além do horizonte”, “Do fundo do meu coração”, “Café da manhã”, “Cavalgada”, “Jesus Cristo”, “Sua estupidez”, “Amada amante”, “O portão”, “As curvas da estrada de Santos”, “Se você pensa”, “Sentado à beira do caminho”... São tantas emoções, há tanto tempo.
Além dos clássicos já listados, o rock brasileiro também produziu grandes músicas que marcaram época com humor, alegria e irreverência, desde “Ando meio desligado”, dos Mutantes, e “Metamorfose ambulante”, de Raul Seixas, aos seminais Blitz (“Você não soube me amar”, de Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Guto Barros e Zeca Mendigo) e Gang 90 e as Absurdettes, de Júlio Barroso (“Perdidos na selva”, com Guilherme Arantes), “Corações psicodélicos” (com Lobão) e “Nosso louco amor” (com Herman Torres). Destacam-se ainda o RPM de Paulo Ricardo e Luiz Schiavon (“Louras geladas”); Lobão com “Vida bandida” e “Chorando no Campo” (com Bernardo Vilhena), “Décadence avec élégance” e “Nostalgia da modernidade”, uma fabulosa mistura de samba e rock pesado; Léo Jaime (“Rock da cachorra”), Ritchie e Bernardo Vilhena (“Menina veneno”), e Cazuza, que começou no rock e fez o que quis do jeito que quis (“O tempo não para”, com Arnaldo Brandão, “Faz parte do meu show”, com Renato Ladeira, “Maior abandonado” e “Blues da piedade”, com Roberto Frejat, e “Eu preciso dizer que te amo”, com Dé Palmeira e Bebel Gilberto).
A moderna canção nordestina produziu pérolas como “À primeira vista”, de Chico César, “É d’Oxum”, de Gerônimo, “Anunciação” e “Vou danado pra Catende”, de Alceu Valença, e “Canção da despedida”, de Geraldo Vandré e Geraldo Azevedo. Acrescentam-se ainda clássicos na voz de Dominguinhos, como “De volta pro aconchego” (com Nando Cordel) e “Só quero um xodó” (com Anastácia), até “Paciência” (Lenine) e “Esperando na janela” (Targino Gondim).
E frevos que incendiaram as ruas: de “Evocação”, de Nelson Ferreira, a “Frevo mulher”, de Zé Ramalho, “Festa do interior”, de Moraes Moreira e Abel Silva, e “Banho de cheiro”, de Carlos Fernando.
Das modinhas e choros ao funk e o tecnobrega, a música brasileira acompanha os movimentos do país com canções que contam a história de um tempo e dos sentimentos dos brasileiros com qualidade, quantidade e diversidade.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

28/02/2024

Velha infância | Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Davi Moraes e Pedro Baby, 2003

A carioca Marisa Monte (1967) e o baiano Carlinhos Brown surgiram – junto com Cássia Eller, Ed Motta e Adriana Calcanhotto – como as melhores novidades da MPB nos anos 1990. Originais, talentosos, independentes e muito diferentes entre si, os dois se tornaram parceiros com a belíssima “Segue o seco”, gravada por Marisa em 1994, um grande sucesso de público e de crítica.
Desde o início triunfal de sua carreira, aos 20 anos, com o megassucesso “Bem que se quis” (versão de Nelson Motta de “E pò che fà”, do italiano Pino Daniele) e a extraordinária regravação de “Comida”, dos Titãs, Marisa se aproximou de Arnaldo Antunes, que foi seu primeiro parceiro quando ela começou sua carreira de autora em seu segundo disco, com a canção “Beija eu” (1990) e seguiu como seu principal parceiro, ao lado de Brown, até hoje.
O paulistano Arnaldo Antunes surgiu como compositor e frontman dos Titãs nos anos 1980 e dez anos depois era considerado o melhor letrista de sua geração. Com o início de sua carreira solo em 1992, começou a compor com vários parceiros, e uma das mais frequentes e de mais sucesso foi Marisa Monte, pela perfeita sincronia que encontravam entre letra e música.
Em 2002, juntando suas diferentes origens, formações e estilos, a carioca, o paulista e o baiano criaram os Tribalistas e produziram o maior sucesso do ano no Brasil e um dos discos brasileiros de maior sucesso na França, na Itália, em Portugal, na Espanha e na Argentina em 2003, mesmo sem fazerem nenhuma apresentação pública ou entrevista do grupo.
O extraordinário sentido rítmico e popular de Brown se uniu à musicalidade de Marisa, desenvolvida no jazz, no samba e na música clássica, e à inteligência poética clássica e vanguardista de Arnaldo para criar a melhor síntese da MPB do terceiro milênio com os Tribalistas.
Entre grandes sucessos do disco, como “Já sei namorar”, “Carnavália”, “Um a um”, “O amor é feio”, o maior foi “Velha infância”. Além dos três Tribalistas, foram coautores os guitarristas Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes), numa síntese de quatro décadas de música brasileira e como expressão do espírito de brincadeira entre amigos que inspirou o disco.
E a gente canta / E a gente dança / E a gente não se cansa / De ser criança / A gente brinca / Na nossa velha infância.”

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

07/01/2024

À procura da batida perfeita | Marcelo D2 e Davi Corcos, 2003


Desde o Planet Hemp, que ajudou a criar em 1993, Marcelo D2 vinha fazendo uma mistura certeira de rap e punk rock com forte sotaque carioca e uma incendiária mensagem pela liberação da maconha, com grande sucesso popular e algumas prisões.
Mas foi em seu segundo disco solo, À procura da batida perfeita, lançado em 2003, que o MC carioca Marcelo Maldonado Peixoto (1967) deu seu pulo do gato. A canção-título é uma espécie de carta de intenções da nova vertente em que ele passou a investir, fundindo rap com samba e outros ritmos brasileiros.
Sigla em inglês para “ritmo e poesia”, o rap nasceu na periferia de Nova York em fins dos anos 1970 e se espalhou como rastilho de pólvora pelos grandes centros urbanos do mundo. Embora Jair Rodrigues tenha gravado, ainda nos anos 1960, o samba-rap “Deixa isso prá lá”, no Brasil, os primeiros representantes autênticos surgiram em São Paulo, nos anos 1980, como a dupla Thaíde e DJ Hum e depois os radicais Racionais MC’s.
Mas foi com a malandragem e o balanço cariocas de Marcelo D2 que o gênero ganhou sonoridade e sotaque diferenciado e se espalhou pelo Brasil. Enquanto o rap paulista era mais pesado e agressivo, o carioca era mais leve e suingado e com uma temática libertária e hedonista de sexo e drogas. Os sinais disso já estavam em seu primeiro álbum solo, Eu tiro é onda (1998), em que usou samples de gravações brasileiras, incluindo a de Baden Powell para “Canto de Ossanha”, mas foi em “À procura da batida perfeita” que D2 acertou na alquimia.
Composta em parceria com o tecladista e produtor Davi Corcos (1977), a música usa como base uma gravação de Luiz Bonfá, “Bonfa nova”, com D2 explorando as semelhanças entre o canto-fala de MCs e de partideiros, o scratch funcionando como uma cuíca e o peso e a cadência do bumbo valorizando tanto o rap como o samba. Sem ligar para as cobranças de puristas do samba e do rap, criou seu “chiclete com banana” do terceiro milênio, saudando “os arquitetos da música brasileira” e apontando um novo caminho para o rap nacional.
A pergunta sem resposta é: por que, com a riqueza rítmica da música brasileira e a tradição do partido-alto e dos cantadores nordestinos, demorou tanto a aparecer um rap com base rítmica brasileira?
Após o lançamento de “À procura da batida perfeita”, herdeiros de Luiz Bonfá ameaçaram abrir um processo de plágio, mas não foram em frente. Além da cada vez mais controversa questão de autoria na era dos samples, nessa música a discussão prometia render muito mais. Afinal, a melodia de “Bonfa nova” lembra muito a de “Saudade fez um samba”, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, lançada por João Gilberto em seu primeiro LP, em 1959, enquanto a de Bonfá saiu num disco que o violonista fez em 1962, o LP Brazil’s King of Bossa Nova and Guitar.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

30/12/2023

Resposta ao tempo | Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, 1998


Como o resto do mundo, o Brasil não ficou imune à invasão do bolero, que nasceu em Cuba, no início do século XX, e, a partir dos anos 1940, se espalhou pela América Latina, tendo grande influência no samba-canção, até o surgimento da bossa nova, quando começou a perder espaço como “cafona”. Mas o “dois pra lá, dois pra cá” de João Bosco e Aldir Blanc sempre tem vez na MPB, como “Resposta ao tempo”, lançado em 1998 por Nana Caymmi no álbum de mesmo nome, que virou um fenômeno de execução nas rádios brasileiras. Escolhida para ser o tema de abertura da minissérie Hilda Furacão, a gravação também se transformou no maior sucesso popular de Nana, uma diva até então restrita a um público mais sofisticado.
Aldir Blanc já tivera algumas boas experiências com o gênero em suas parcerias com João Bosco, geralmente exercendo o seu habitual e corrosivo humor, mas no bolero com o pianista e arranjador carioca Cristóvão Bastos (1947) preferiu explorar um lirismo profundo em forma de um diálogo com o tempo.
E o tempo se rói / Com inveja de mim / Me vigia querendo aprender / Como eu morro de amor / Pra tentar reviver.”
A música, a letra e a interpretação apaixonada de Nana fizeram de “Resposta ao tempo” a canção ideal para a minissérie baseada no romance do escritor mineiro Roberto Drummond. A letra de Aldir não faz menção alguma ao enredo ou a personagens – a história de uma jovem da sociedade que troca um casamento seguro pela prostituição na Belo Horizonte dos anos 1950 –, mas, em suas reflexões sobre o tempo e a existência, são muitos os pontos de contato com a história.
Essas impressões e sensações são reforçadas pela melodia e pelo belíssimo arranjo de Cristóvão Bastos, que, como compositor, tem parcerias também com Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Abel Silva e Elton Medeiros.
Lançado com a insuperável gravação de Nana, “Resposta ao tempo” virou um clássico que não parou de atrair outras grandes vozes, como Milton Nascimento, Leila Pinheiro, Simone e Fafá de Belém.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

19/12/2023

Futuros amantes | Chico Buarque, 1993


Chico Buarque pode ter dezenas de músicas em qualquer lista de melhores, mas, para quem escolheu estas 101, esta é a sua canção mais bonita.
Um dos maiores clássicos do Chico Buarque maduro, lançado no álbum Paratodos, de 1993, quando completou 49 anos, “Futuros amantes” é uma deslumbrante canção de nítidas formas e inspiração jobinianas, uma bossa nova lenta e melancólica, cantando o destino dos amores num futuro remoto, “milênios depois”:
E quem sabe, então / O Rio será / Alguma cidade submersa / Os escafandristas virão / Explorar sua casa / Seu quarto, suas coisas / Sua alma, desvãos.”
Com fino artesanato e delicadeza de sentimentos, Chico montou uma canção para a eternidade, como se fosse a carta de um náufrago numa garrafa jogada ao mar. Quando foi lançada, alguns aficionados da MPB imaginaram que havia uma sutil homenagem a “Cidade submersa”, o também lento samba que Paulinho da Viola havia escrito e gravado 20 anos antes. Mas na época do lançamento Chico contou que esta tinha sido a primeira imagem que lhe veio à cabeça quando começou a fazer a melodia no violão: “Eu tinha que ir atrás da explicação dessa cidade submersa. Aí eu coloquei os escafandristas, e surgiu a história de um amor adiado, um amor que fica para sempre”, explicou numa entrevista em um documentário dirigido por Roberto de Oliveira.
Homenagem inconsciente ou não, o restante da letra e a melodia de “Futuros amantes” realmente seguem caminhos bem diferentes dos trilhados por Paulinho em seu samba. Dois anos após o autor apresentá-la ao mundo em Paratodos, foi a vez de Gal Costa fazer outra impecável gravação, no álbum Mina d’água do meu canto, com repertório dividido entre composições de Chico e Caetano Veloso.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

03/12/2023

Lanterna dos afogados | Herbert Vianna, 1989


Do pop adolescente de “Óculos” à pioneira fusão de rock, reggae, ritmos nordestinos e africanos de “Alagados”, os Paralamas do Sucesso sinalizavam alta versatilidade e muito bom gosto desde a sua entrada em cena. Herbert Vianna ampliou e aprofundou essas características ao mergulhar fundo no mundo das baladas, fazendo em 10 minutos, enquanto andava de moto com a namorada, a bela e melancólica “Lanterna dos afogados”, inspirada em um bar citado no romance Jubiabá, de Jorge Amado.
Uma noite longa / Pra uma vida curta / Mas já não me importa / Basta poder te ajudar / Eu tô na lanterna dos afogados / Eu tô te esperando / Vê se não vai demorar.”
A música foi lançada no álbum Big bang (1989), quinto dos Paralamas, mas o segundo que faziam reforçado nos palcos por um tecladista e um naipe de sopros. A instrumentação aumentada também foi levada aos estúdios, estimulando o guitarrista, cantor e principal compositor do grupo a navegar por melodias e harmonizações mais ousadas, além do então restrito universo do pop brasileiro.
Arnaldo Antunes, no texto de apresentação do disco, apontou-a como a canção-síntese de Big bang, ressaltando a proposta de dubiedade do verso “Eu tô na lanterna dos afogados”, que viu como uma “fossa paradoxal”, aliviada pela visão de uma “luz no túnel dos desesperados”, com algo “entre a fossa e troça”.
Consagrada pela crítica, “Lanterna dos afogados” também bateu no gosto do grande público e foi o principal sucesso do disco e uma das mais executadas do ano nas rádios brasileiras. Cinco anos depois, ganhou outra vigorosa interpretação, na voz rascante de Cássia Eller. E continuou no repertório de cantoras consagradas como Daniela Mercury, Gal Costa, Maria Gadú e Claudia Leitte, e até do grupo emo Fresno, que gravou uma versão emocionada, em 2010.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

15/11/2023

Brasil | Cazuza, George Israel e Nilo Romero, 1988


Escrita no calor da hora, como um desabafo contra os desmandos e ladroagens dos políticos naquele final conturbado dos anos 1980, “Brasil” continua mais atual do que nunca. O país pouco avançou em questões éticas e morais, a sua cultura política apodreceu e os escândalos se sucedem, cada vez maiores.
Talentoso, original e abusado, Cazuza foi o porta-voz da indignação nacional do momento, falando grosso e debochando das nossas misérias e da nossa impotência contra os vilões de sempre. Coloquial como se estivesse numa roda de bar, ele se colocava à margem da sociedade, barrado na “festa pobre” e condenado a consumir “a droga que já vem malhada / antes de eu nascer”.
Com uma sucessão de imagens agressivas e dramáticas, montou um mosaico em que desencanto e deboche se juntam numa declaração de amor e ódio ao país, um retrato amargo de uma “grande pátria desimportante” que, apesar de tudo, ele não pretendia trair.
Parceria com o baixista e produtor Nilo Romero (1960) e com o saxofonista George Israel (1960), “Brasil” foi lançada no terceiro álbum solo de Cazuza, Ideologia (1988), quando ele já tinha sido diagnosticado como soropositivo e estava com as emoções à flor da pele, expressando seus sentimentos com a raiva e a liberdade dos que estão marcados para morrer.
Na sua fase final, a celebração dos excessos e do hedonismo foram trocados por reflexões amargas e desilusões contundentes sobre o Brasil, como na faixa-título do disco, em que pedia “uma ideologia, eu quero uma pra viver”, ou na antológica “O tempo não para” (com Arnaldo Brandão):
Tua piscina está cheia de ratos / tuas ideias não correspondem aos fatos / O tempo não para.”
Regravada por Gal Costa, “Brasil” foi usada como tema de abertura da novela Vale tudo, da Rede Globo (1988), e levou dois troféus do Prêmio Sharp (que depois se tornou o Prêmio da Música Brasileira): Música do Ano e Composição Pop-Rock do Ano, e ainda o de Álbum Pop-Rock do Ano por “Ideologia”.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

09/11/2023

Comida | Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, 1987


Lançada pelos Titãs em seu quarto álbum, Jesus não tem dentes no país dos banguelas, de 1987, “Comida” se tornou uma das músicas mais emblemáticas do espírito da banda. Cantada por Arnaldo Antunes, foi o segundo single do disco e um sucesso nas rádios como uma nova forma de manifesto político e social anárquico, indo muito além dos slogans ideológicos e partidários, numa das melhores letras da década:
A gente não quer só comida / a gente quer comida, diversão e arte.”
E finalizando com os versos antológicos:
A gente não quer só dinheiro / A gente quer dinheiro e felicidade / A gente não quer só dinheiro / A gente quer inteiro e não pela metade.”
A nova democracia ampliava as demandas sociais, já não bastavam os velhos slogans políticos, era preciso querer o impossível.
Arnaldo Antunes (1960) tinha feito a primeira frase, a ideia-mãe, mas não conseguia avançar. Quando o grupo começou a trabalhar no repertório do novo álbum, mostrou a frase ao guitarrista Marcelo Fromer (1961-2001) e ao tecladista e cantor Sérgio Britto (1959), e juntos criaram a melodia e desenvolveram a letra. Como Britto relembrou no livro Titãs: Todas as canções (1984-2001), num primeiro momento, eles acharam que a música tinha ficado meio monocórdica, e adicionaram novos versos e uma marcante frase musical no teclado. Na hora de gravar, tentaram até uma versão acústica, mas acertaram em cheio com um funk eletrônico pesado, produzido por Liminha e inspirado em Prince.
Comida” foi uma das primeiras músicas de um grupo de rock adotadas por intérpretes de MPB, a partir de Marisa Monte, abrindo seu disco de estreia MM (1988), e depois foi cantada por Maria Bethânia, Ney Matogrosso e até pelo grupo de pagode Exaltasamba.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

04/11/2023

Coração em desalinho | Monarco e Ratinho, 1986

Monarco e Ratinho

Regravada em 1999 por Zeca Pagodinho no disco Ao vivo, esta canção tinha sido lançada, mas sem tanta repercussão, pelo próprio sambista em seu álbum de estreia, em 1986. Em seguida, no novo século e já com status de clássico, “Coração em desalinho” também voltou nas vozes de cantoras como Maria Rita e Leila Pinheiro, como uma das pérolas da parceria de Monarco e Ratinho, também responsáveis por outro grande sucesso no repertório de Zeca Pagodinho, “Vai vadiar”.
Apesar de ser o criador da melodia e da primeira parte da letra, Monarco registrou a parceria com Ratinho em nome de seu filho, o também compositor Mauro Diniz, porque a editora que administrava as suas músicas estava atrasando o repasse de direitos autorais, e ele achou que seria melhor arrecadar pela editora das músicas de Mauro.
Hildemar Diniz, o Monarco, nasceu em 17 de agosto de 1933, e chegou a Oswaldo Cruz, o bairro onde está sua Portela, na adolescência. Aos 20 anos, emplacou seu primeiro samba e foi convidado para a seleta ala de compositores da escola. Atual presidente da Velha Guarda da Portela, ele tem uma coleção de sambas gravados por alguns dos principais intérpretes brasileiros e, desde 1976, também vem lançando discos como cantor.
Seu parceiro Ratinho é a prova de que português também faz samba. E muito bem. Nascido na região do Alto Douro, no norte de Portugal, em 5 de março de 1948, e batizado como Alcino Correia Ferreira, tinha 4 anos quando sua família se mudou para o Rio de Janeiro. Muito jovem Ratinho mostrou queda pela música e logo venceu por sete vezes a disputa de samba-enredo da Caprichosos de Pilares. Morto aos 62 anos, em 2010, deixou muitos sambas em parceria com Zeca Pagodinho, Mauro Diniz, Marquinho PQD e Arlindo Cruz.
Monarco começou a escrever a música que virou “Coração em desalinho” em 1981, inicialmente como um samba-enredo para a Unidos do Jacarezinho. Mas desistiu da ideia depois de, na quadra da escola, conhecer e se encantar com um samba de outros concorrentes. Algum tempo depois, mudou a letra e pediu a Ratinho que fizesse a segunda parte. Samba pronto, Monarco pretendia oferecer a Martinho da Vila, mas foi convencido pelo produtor Milton Manhães a apostar num novo cantor que se preparava para gravar seu primeiro disco: Zeca Pagodinho, que levou “Coração em desalinho” a clássico do samba.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

26/10/2023

Alagados | Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 1986


Um dos melhores grupos surgidos no rock brasileiro dos anos 1980, os Paralamas do Sucesso começaram a se diferenciar de seus contemporâneos graças a seu terceiro álbum, Selvagem?, de 1986, que tinha como faixa de abertura “Alagados”, uma crônica social de como vivia (e ainda vive) parte da população carente no Brasil. Assinada por Herbert Vianna (1961), Bi Ribeiro (1961) e João Barone (1962), esta música também funcionou como uma carta de intenções da nova fase do trio, depois de um início fortemente influenciado pelo rock-reggae do Police. A letra avançava além das questões existenciais adolescentes e urbanas de seu grande sucesso anterior, “Óculos”, e, musicalmente, promovia uma perfeita integração do rock com ritmos dançantes do Terceiro Mundo, onde muitos vivem misérias semelhantes.
No estúdio caseiro montado no apartamento da avó de Bi, começaram a preparar o repertório de Selvagem?, dispostos a se descolar da marcante influência do Police, adicionando ao seu reggae branco a pulsação do dub jamaicano, novos ritmos dançantes de Salvador e muito afropop contemporâneo.
A partir de levadas do baixo e riffs de guitarra, eles apostavam nos grooves, formatando cada composição antes de pensar nas letras, que tiveram que se integrar ao ritmo e ao clima musical. A inspiração para “Alagados” foi a memória de Herbert de seu breve período de estudante de Arquitetura na Ilha do Fundão, quando passava diariamente em frente à Favela da Maré, uma paisagem degradada semelhante à das palafitas de Alagados, em Salvador, ou da cidade jamaicana de Trenchtown, ambas citadas no refrão da música, gravada num dueto vocal com Gilberto Gil.
A temática social e a sonoridade diferenciada para os padrões da época deram um upgrade aos Paralamas, como a perfeita fusão do rock com ritmos brasileiros, africanos e caribenhos, que, na década seguinte, influenciaria o trabalho de grupos como Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre SA, Skank e O Rappa.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

11/10/2023

Será | Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, 1984



Inspirada na urgência do movimento punk, com um discurso político contundente e libertário, a Legião Urbana se tornou uma das bandas mais representativas do rock brasileiro dos anos 1980. Sucesso absoluto desde a estreia em disco, o grupo foi adotado e adorado como um porta-voz crítico da autodenominada geração Coca-Cola. Mas, além da vertente de crítica e combate, muito presente nos discos iniciais, o lado lírico e existencialista de Renato Russo foi um fator fundamental para o grupo avançar além dos limites do rock.
Faixa de abertura do arrasador disco de estreia, em novembro de 1984, “Será” tem letra de Renato Russo (1960-1996) e música dividida com o guitarrista Dado Villa-Lobos (1965) e o baterista Marcelo Bonfá (1965). Sucesso que também continua como o principal exemplo do crossover conseguido pela Legião: no início dos anos 1990, seria regravada tanto por Simone quanto pelo grupo de pagode Raça Negra.
Primeiro sucesso da Legião nas rádios, a canção permitia diversas associações, como um protesto contra a sociedade opressiva da época em versos como “Tire suas mãos de mim” e “Não é me dominando assim”, mas, antes de tudo, era uma poderosa canção de amor, tentando usar da razão para sobreviver à paixão avassaladora que o consome.
Como Renato revelou anos depois, entre as inspirações para “Será” estava a leitura de O médico e o monstro, o clássico de Robert Louis Stevenson do século XIX. A frase “Nos perderemos entre monstros / da nossa própria criação?” mostra que cada um de nós tem dentro de si tanto Dr. Jekyll quanto Mr. Hyde.
Duas décadas após a morte de Renato – aos 36 anos, em outubro de 1996 –, a dupla Villa-Lobos e Bonfá retomou a Legião, voltando aos palcos para o encanto de velhos e novos fãs. E, nos shows, “Será” tem lugar certo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

29/09/2023

Fullgás | Marina Lima e Antonio Cícero, 1984



O Brasil fervia em 1984, assolado por uma crise econômica sem precedentes, mas empolgado com a perspectiva do fim da ditadura. A campanha das Diretas Já arrebatava o país unindo políticos, artistas e intelectuais no mesmo palco e arrastando multidões às praças. Havia muita esperança no ar com o sonhado fim da ditadura e o exercício da plena liberdade criativa, em que o civismo se misturava ao romantismo, como em “Fullgás”.
Esse também foi um ano de vigorosa produção musical. Do já comentado hino sarcástico das Diretas “Inútil” a canções políticas agressivas como “Podres poderes”, de Caetano Veloso, passando por belas baladas românticas como “Fogueira”, de Angela Ro Ro, e “Me chama”, de Lobão. Abraçando esses extremos estava outro sucesso que permaneceu, “Fullgás”, da carioca Marina Lima e seu irmão, o poeta e filósofo Antonio Cícero. É um rock leve e elegante, com tempero jazzístico, que integra o sabor brasileiro ao pop internacional, funde o político ao amoroso e expressa o momento de esperança do Brasil. Seu verso de encerramento fez história, unindo o sentimento coletivo e o individual: “Você me abre seus braços / e a gente faz um país.”
Com o neologismo “Fullgás”, Marina e Cícero integram os sentidos de “a todo vapor” e da fugacidade do tempo e dos sentimentos. A canção deu nome e foi o grande sucesso do quinto disco da cantora e compositora, estabelecendo-a como autora de grande personalidade e estilo, como voz das mulheres de sua geração. Após cinco anos de carreira, o pop melodioso, o fraseado musical fluente e elegante, as letras sonoras e elaboradas de Antonio Cícero e uma atmosfera sensual criada pelos arranjos sofisticados e pela voz quente de Marina conquistavam o grande público.

Nelson Motta, 101 canções que tocaram o Brasil 

25/09/2023

Pro dia nascer feliz | Cazuza e Frejat, 1983


Lançada pelo Barão Vermelho em 1983, “Pro dia nascer feliz” dormia esquecida no segundo disco do grupo carioca até, meses depois, chegar às rádios a sensacional versão de Ney Matogrosso. Grande amigo de Cazuza, Ney tinha ouvido a canção numa fita, antes de a gravação do Barão chegar ao mercado, e insistiu para regravá-la no álbum …pois é, que saiu no fim do ano.
O impacto nas rádios deste rock cru, de letra hedonista, na voz de Ney foi tão forte que despertou o interesse de alguns programadores pela versão original do Barão. Relançada em single pela Som Livre, essa gravação, mais rascante e suja, também começou a ter grande execução, chamando atenção para a nova banda e dando o primeiro de muitos hits à dupla Frejat e Cazuza.
Rebelde e amoroso, sensível e debochado, cronista agudo de seu tempo, falando de sexo e drogas com uma linguagem original em que amores adolescentes do rock se cruzam com dramas passionais do samba-canção, Cazuza (Agenor Miranda de Araújo Neto, 1958-1990) encontrou em Roberto Frejat (1962) o parceiro ideal. O guitarrista encharcou de rock e blues aquelas crônicas cariocas de uma vida sem rédeas, levada às últimas consequências, como celebraram em “Pro dia nascer feliz”, autorretrato do artista como um assumido vagabundo em busca do prazer, “nadando contra a corrente só para exercitar / todo o músculo que sente” e sempre querendo mais.
Influenciados pelos Rolling Stones, e incentivados pelo produtor Ezequiel Neves, eles se tornaram os Jagger & Richards do rock brasileiro. Durante cerca de quatro anos, os dois produziram muito, emplacando vários sucessos, como “Bete Balanço”, “Por que que a gente é assim?” e “Todo amor que houver nessa vida”, até Cazuza sair para a carreira solo em 1985.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

20/09/2023

Coração de estudante | Wagner Tiso e Milton Nascimento, 1983


Mesmo que tenha feito sozinho letra e música de muitas canções, em suas parcerias Milton Nascimento quase sempre assina a melodia. “Coração de estudante” é das raras em que ele escreveu a letra, a partir de um tema instrumental que Wagner Tiso criou em 1983, para a trilha sonora do documentário Jango, de Sílvio Tendler.
Milton assistiu ao filme numa sessão para convidados, antes de sua estreia nos cinemas e, ao chegar em casa, com a triste melodia de Wagner rodando na cabeça e emocionado com a história do presidente deposto pelo Golpe de 1964, escreveu a letra. Coloquial e lírico, sem usar mensagens de protesto explícitas, Milton criou um hino político que tem servido para muitas causas. Foi adotado tanto na campanha pela volta das eleições diretas para presidente, em 1984, quanto, no ano seguinte, como o tema da agonia e morte de Tancredo Neves, cantada pelas multidões ao longo de todo o cortejo.
Além de estar associada a tristes lembranças, a canção continua como uma ode à generosidade da juventude e prova de fé no ser humano.
Nascido em Três Pontas, Minas Gerais, Wagner Tiso Veiga (1945) é amigo e companheiro musical de Milton desde a adolescência, quando fizeram parte do grupo The W’s Boys. Continuaram juntos em Belo Horizonte, pelos bailes da vida, indo onde o povo estava, até a consagração de Milton com “Travessia” no festival de 1967 e Wagner se tornar um dos grandes pianistas e arranjadores brasileiros.
No início dos anos 1970, Tiso liderou o grupo Som Imaginário, que jogava eletricidade, timbres e sonoridades de rock na MPB de Milton. O parceiro também esteve junto no lançamento de “Coração de estudante”, como pianista e regente da orquestra do show em São Paulo, em novembro de 1983, registrado no disco Ao vivo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

15/09/2023

Beatriz | Edu Lobo e Chico Buarque, 1983


Assim que foi lançada, em 1983, na trilha sonora de O Grande Circo Místico, “Beatriz” virou a favorita entre os muitos admiradores de Edu Lobo e se consagrou como um clássico instantâneo, com lugar de honra em qualquer lista das mais belas canções brasileiras. A lírica descrição da vida e dos mistérios de uma atriz está entre as preciosidades que Edu Lobo e Chico Buarque escreveram por encomenda do Balé do Teatro Guaíra, de Curitiba.
Revelados e consagrados durante os festivais competitivos que sacudiram o país nos anos 1960, Edu Lobo (1943) e Chico Buarque nunca deixaram as disputas minarem a amizade que se estreitou através dos anos e que virou uma parceria perfeita a partir desse musical. Desde então, em meio às suas carreiras individuais, eles já se juntaram mais três vezes em colaborações para os palcos, nas peças musicais O corsário do rei, Dança da meia-lua e Cambaio.
Naquele início dos anos 1980, quando o novo rock brasileiro começava a tomar as paradas, estourando em rádios e programas de TV, Edu e Chico velejavam contra a corrente com o complexo universo lírico de O Grande Circo Místico. A partir de um enredo inspirado num poema do alagoano Jorge de Lima, eles criaram a trilha sonora com música circense, blues, baladas, canções e valsas, como a delicada “Beatriz”, prova de fogo para intérpretes pelas surpresas e dificuldades de sua linha melódica e pelas intensas emoções da linda letra.
Sim, me leva para sempre, Beatriz / Me ensina a não andar com os pés no chão / Para sempre é sempre por um triz / Aí, diz quantos desastres tem na minha mão / Diz se é perigoso a gente ser feliz.”
No disco com a trilha original, lançado em 1983 pela Som Livre, “Beatriz” veio na voz de Milton Nascimento, no auge de sua técnica e sensibilidade. É uma versão definitiva, insuperável: só a voz de Milton, o piano de Cristóvão Bastos e um deslumbrante arranjo de cordas de Chiquinho de Moraes. Mas muitas outras gravações memoráveis foram feitas por algumas das melhores vozes do Brasil, como Zizi Possi, Mônica Salmaso, Ed Motta e Ana Carolina, todas à altura da beleza arrebatadora da canção.

Nelson Motta, in 101 canções que abalaram o Brasil

29/08/2023

O que é, o que é? | Gonzaguinha, 1982


Motivos para mágoa e revolta nunca faltaram para Gonzaguinha. Da infância e adolescência sofridas, marcadas pelos conflitos com o pai (Luiz Gonzaga), até começar sua carreira no período mais tenebroso da ditadura militar, foram muitas as pedras no caminho. Mas, a partir do fim dos anos 1970, depois de anos de guerra com a Censura e a ditadura que lhe valeram o apelido de cantor-rancor, amadureceu, teve filhos e reinventou-se como um eterno aprendiz, cantando que, apesar de todas as dores, injustiças e horrores, a vida era bonita e podia ser ainda melhor.
A vida da gente é um nada no mundo / É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo / Há quem fale que é um divino mistério profundo / É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.”
Faixa de abertura de seu 11o álbum solo, Caminhos do coração, lançado em 1982, “O que é, o que é ?” sintetiza a visão de mundo que passou a pautar o artista maduro. Na época, o Brasil vivia os estertores da ditadura militar e o país avançava na abertura política que levaria à eleição indireta de Tancredo Neves em 1985. Cada um seria livre para compor o que quisesse.
Por seu estilo festivo, sua batida empolgante, sua linguagem popular, a música foi até classificada como um paradoxal “samba-exaltação de protesto”, por traduzir o sentimento de brasileiros que apostavam na esperança e nas mudanças.
Tendo seu compositor disputado pelas grandes intérpretes da MPB depois da gravação original, “O que é, o que é?” virou clássico, com sua mensagem de fé e esperança atravessando o tempo nas vozes de Simone, Maria Bethânia, Beth Carvalho e Zé Ramalho.
De bem com a vida, Gonzaguinha, infelizmente, teve fim precoce: em 1991, aos 45 anos, morreu vítima de um acidente no carro que dirigia numa estrada do Paraná.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

28/08/2023

Noites Tropicais | Rio de Janeiro, 1957

Eu não gostava de música.
Só as de carnaval, nas chanchadas da Atlântida. O rádio era para futebol e programas humorísticos.
Com 13 anos, meus maiores interesses eram literários, esportivos e sexuais. A música, pelo menos a que se ouvia no rádio e nos discos, era insuportável para um adolescente de Copacabana no final dos anos 50. Boleros e sambas-canções falavam de encontros e desencontros amorosos infinitamente distantes de nossas vidas de praia e cinema, de livros e quadrinhos, de início da televisão e da ânsia de modernização.
Para nós, garotos de classe média de Copacabana, aqueles cantores da Rádio Nacional e suas grandes vozes, dizendo coisas que não nos interessavam em uma linguagem que não entendíamos, eram abomináveis. Gostávamos mesmo era de praia e futebol, de ver Pelé e Garrincha no Maracanã, dos folhetins de Nelson Rodrigues na Última Hora, das gostosonas da coluna de Stanislaw Ponte Preta, das crônicas de Antonio Maria sobre as noites cariocas, de pegar onda de peito no Arpoador, de romances de aventura e de comédias italianas. E de corridas de cavalos: meu grande ídolo era o jóquei Luiz Rigoni. Apostava — e perdia — no Jockey Club e nos bookmakers até o dinheiro que minha mãe me dava para o lanche no Colégio Santo Inácio. Com 14 anos comecei a nadar todos os dias de manhã nos infanto-juvenis do Fluminense e abandonei meu primeiro vício.
Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha Spica — a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil — João Gilberto cantando, “Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação.
Além de sexo e futebol, só queria saber de João Gilberto e a bossa nova, que ninguém sabia bem o que era. Minha mãe também. Ela adorava música, compunha e tocava foxes e blues no piano, e estava fascinada com João e a nova música. Com ela e meu pai fui a um show no auditório da Escola Naval, a “Operação bossa nova”, produzido e apresentado por Ronaldo Bôscoli, que vi pela primeira vez no palco, de terno e gravata, e achei charmosíssimo, explicando entre um número e outro que bossa nova era o moderno, o novo, o diferente, que era “um estado de espírito”. Foi também onde vi e ouvi pela primeira vez Nara Leão, timidíssima, cantando de uma maneira que fiquei sem saber se gostava ou não. Mas sem dúvida queria ver de novo: ela era de uma beleza estranha, tinha uma bocona, uns olhos meio caídos que lhe davam um ar de musa existencialista, um cabelo muito liso e muito escuro e uma pele muito branca, um fio de voz e um charme discretíssimo, sem dúvida ela era diferente. A cara da bossa nova.
No show, Lúcio Alves, Alayde Costa e Sylvinha Telles (que eu conhecia vagamente) e os desconhecidos Carlinhos Lyra, Oscar Castro Neves e Nara cantavam e tocavam umas músicas muito diferentes de tudo que se ouvia no rádio e na televisão, parecidas com as que João cantava. Eles se apresentavam de uma maneira mais informal e intimista, as músicas pareciam mais leves e melodiosas e as letras falavam de situações e pessoas parecidas com a vida que se levava nos apartamentos, nas praias e nas ruas de Copacabana naqueles anos bacanas.
A bossa nova era a trilha sonora que nos faltava, que nos diferenciaria dos “quadrados” e dos antigos, dos românticos e melodramáticos, dos grandiloquentes e dos primitivos, dos nacionalistas e regionalistas, dos americanos. Tínhamos uma música que imaginávamos só para nós. João Gilberto era nosso pastor e nada nos faltaria.
Em 1959, João Gilberto era um sucesso nacional, era adorado e detestado, acusado de desafinado e de afeminado, celebrado como o inventor de um novo gênero musical. Eu o ouvia apaixonadamente como o criador de uma maneira nova de cantar e tocar, com um mínimo de voz e um máximo de precisão, com harmonias e ritmos que refinavam e sofisticavam qualquer canção.
Com ele conheci a música de Tom e Vinícius, de Newton Mendonça e Carlos Lyra, de Caymmi e Ary Barroso e dos grandes mestres brasileiros, que entraram em meus ouvidos, cabeça e coração, em minha vida para sempre.
Porque antes eu não sabia nada de música, não ligava, não prestava atenção. Música não estava nos meus sonhos nem em minhas memórias. Gostava mesmo era de ler e de escrever, de ouvir e de contar histórias.

Nelson Motta, in Noites Tropicais

19/08/2023

Fera ferida | Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982


Lançada no fim de 1982, no disco anual de Roberto Carlos, que então funcionava como um aviso de que o Natal chegara, “Fera ferida” logo foi incorporada à sua longa lista de clássicos. Na letra extensa, um sofrido desabafo de alguém devastado por uma separação, Roberto e Erasmo usam imagens fortes e referências aos instintos animais para marcar a sensação de desespero do narrador. São tantos sentimentos expostos com crueza e lirismo, envolvidos por uma bela melodia romântica, mas cheia de tensões, que logo foi considerada uma das mais perfeitas composições da dupla.
A música começa feroz, com a última briga, cheia de fúria selvagem:
Acabei com tudo / Escapei com vida / Tive as roupas e os sonhos / Rasgados na minha saída.”
Depois explica as razões de ter se entregado ao amor e se decepcionado:
Animal arisco / Domesticado esquece o risco / Me deixei enganar / E até me levar por você.”
Sim, “Fera ferida” foi um sucesso animal, não só com Roberto. Em 1987, também ganhou uma bela versão de Caetano Veloso, mais pop, com arranjo de Lincoln Olivetti. Seis anos depois foi a vez de Maria Bethânia, como uma das faixas mais fortes de um disco inteiramente dedicado ao repertório do Rei, As canções que você fez pra mim, com recordes de vendagem. Sua gravação, produzida por Guto Graça Mello, é romântica e classuda, com belo arranjo de cordas. A música também foi escolhida como tema de abertura e título de uma novela que a TV Globo exibiu entre 1993 e 1994.
Fera ferida”, portanto, virou mais um elo entre três personagens que já tinham uma ligação forte. Como Caetano conta, até a metade dos anos 1960, o jovem convertido à música por João Gilberto não dava bola para a Jovem Guarda. Foi só depois de comentários da irmã quatro anos mais nova que começou a gostar das canções de Roberto e Erasmo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

10/08/2023

Como uma onda | Lulu Santos e Nelson Motta, 1982



Depois de um single com seu grupo de rock progressivo Vímana (com Lobão, Ritchie, Luis Paulo Simas e Fernando Gama) ter passado em branco, o carioca Lulu Santos (1953) iniciou carreira solo com o nome de Luiz Mauricio, também sem sucesso. Em 1976, ele havia trabalhado como músico com o jornalista, letrista e produtor Nelson Motta no musical Feiticeira, estrelado por Marilia Pêra, mas só em 1980 eles se reencontraram para iniciar uma carreira vitoriosa de hitmakers.
Nelson começou como letrista na era dos festivais, com 21 anos. Escrita em parceria com Dori Caymmi, “Saveiros” venceu o I FIC (Festival Internacional da Canção) em 1966. Em seguida, a dupla levou “O cantador” às finais no histórico festival de 1967 da TV Record. Depois do AI-5, em 1969, Nelson parou de compor, só voltando em 1977, com o provocativo rock “Perigosa”, parceria com Rita Lee e Roberto de Carvalho e sucesso nacional com as Frenéticas.
Em 1982, Nelson gravava todos os dias o talk show Noites cariocas, na TV Record do Rio, em dupla com a jornalista Scarlet Moon. Recém-casada com Lulu, ela os reaproximou e estimulou a comporem juntos. Começaram com o rock “Tesouros da juventude” e emplacaram seu primeiro hit com o surf rock “De repente Califórnia”, do filme Menino do Rio, de Antônio Calmon, um espetacular sucesso de bilheteria.
Como uma onda” foi feita originalmente para outro longa de Calmon, Garota dourada, que pretendia surfar na onda de Menino do Rio. Mas a produção se arrastou tanto que, quando o filme foi lançado (e naufragou nas salas de cinema), a música já era um grande sucesso nacional.
Apesar de ligado ao rock desde garoto, em “Como uma onda” Lulu fez um bolero. Original e moderno, com referências de música havaiana, mas um bolero pop. A letra de Nelson é inspirada no verso “A vida vem em ondas como o mar”, de Vinicius de Moraes no poema “Dia da criação”. Para que não soasse pretensiosa e metida a filosófica, foi acrescentado o subtítulo irônico de “Zen surfismo”, que sintetiza a mistura de leituras de Jorge Luís Borges, filosofia budista e a Bíblia com o hedonismo de surfistas e gatinhas de praia, os personagens de Garota dourada.
Nada do que foi será / de novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará / A vida vem em ondas como o mar / num indo e vindo infinito.”
Na certeza de que tristezas e alegrias passarão, e voltarão sempre, como no eterno retorno do filósofo grego Heráclito (540 a.C.), a música tocou o coração do público. Tanto como celebração da permanente mutação da vida, quanto como consolo para as dores do mundo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

06/08/2023

Emoções | Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1981


Lançada em novembro de 1981, como uma das dez faixas do álbum Ele está para chegar, “Emoções” contagiou imediatamente o público e se tornou um dos maiores sucessos de Roberto Carlos. Hit instantâneo com presença avassaladora nas rádios, a música batizou o show que, em dezembro, estreou no palco do Canecão, no Rio de Janeiro, e desde então virou o prefixo de abertura de todos os shows de Roberto.
Nessa parceria com Erasmo, Roberto, que estava com 40 anos, confirmava a sua paixão pelos standards, o estilo de música que imperou nos Estados Unidos até meados da década de 1950, com as big bands e seus fabulosos crooners, até o surgimento devastador do rock and roll. A letra romântica de “Emoções” é um balanço autobiográfico do privilégio de ter vivido, entre lágrimas e risos, tantas emoções, que o fizeram otimista e esperançoso com as que ainda virão.
A grande inspiração para a música e o seu arranjo foi a gravação de Frank Sinatra de “New York, New York”, lançada em 1980, com sucesso no mundo inteiro. O impactante arranjo original de “Emoções” foi escrito pelo maestro americano Torrie Zito.
Talvez por sua letra tão pessoal e identificada com Roberto, raros intérpretes ousaram regravar a música. Mas sobram regravações do autor. Desde o seu lançamento, “Emoções” nunca mais saiu dos roteiros dos espetáculos de Roberto e também teve lugar garantido nos muitos discos e DVDs ao vivo que ele vem fazendo nas duas últimas décadas, com pouco material inédito.
A carreira de Roberto Carlos não se descolou mais deste sucesso, e vice-versa. Além da turnê de lançamento do disco, a música já batizou o avião em que o cantor percorreu o Brasil na sua turnê de 1982, um perfume lançado no mercado em 2008, uma coleção de joias lançada em 2009 e uma empresa de empreendimentos imobiliários aberta em 2014. Até hoje, inclusive, dá nome ao cruzeiro marítimo que, desde 2005, ele tem feito todos os verões: “Emoções em alto mar”.
E “as emoções se repetindo”, como ondas no mar.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil