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06/08/2025

Pedra de pedra

pedra de pedra de pedra
o que a faz tão concreta
senão a falta de regra
de sua forma assimétrica
incapaz de linha reta?

talvez a sua dureza
que mão alguma atravessa
tateia mas não penetra
o amálgama dos átomos
no íntimo da molécula?

será por estar parada
com sua presença discreta
sobre o chão mimetizada
obstáculo na pressa
onde o cego pé tropeça?

pedra de pedra de pedra
impenetrabilidade
íntegra ilesa completa
igual na luz ou na treva
do Cáucaso ou da Sibéria.
o que a faz tão concreta
de pedra de pedra pedra?
será sua superfície
que expõe a mesma matéria
da entranha mais interna?

casca que continua
por dentro do corpo espesso
e encrua até o avesso
sem consistência secreta
repleta apenas de pedra?

de pedra pedra de pedra
pousada em cima da terra
alheia à atmosfera
que a faz repousar pesada
no berço de sua inércia.

com sua massa compacta
onde planta não prospera
e nem bactéria medra
sobre a crosta que o sol cresta
até o seu nome empedra.
penha de penha de penha
fraga rocha roca brenha
por que se faz tão concreta?
por sua idade avançada
ou por rolar pela estrada?

talvez por estar inteira
entre uma e outra beira
de sua forma coesa
que se transforma em areia
quando o tempo a desintegra?

ou só porque não anseia
ser outra coisa e não esta?
nem pessoa nem floresta
nem mesmo a mera matéria
que a ideia não alcança?

Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si

01/02/2025

Coleção de esquecimentos

eu tenho uma coleção de esquecimentos
e apenas duas mãos pra ver o mundo
meu dia passa inteiro num segundo
mas nada abafa a voz dos pensamentos

nem frontal e nem melatonina
eu tenho as saudades de um soldado
do que haveria de ser o meu passado
de tudo que escapou da minha sina

desculpas, culpas, lapsos de sinapses
impregnam minha corrente sanguínea
e sigo apassivando a carne ígnea
e aplainando os vértices dos ápices

eu sou o super-homem submisso
às rotas da rotina e ao tempo escasso
enquanto esqueço do próximo passo
anoto um outro novo compromisso

queria estar a sós comigo mesmo
e ter a eternidade toda em torno
desfalecer no fogo desse forno
até me desfazer como um torresmo.

Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si

18/01/2025

Pedra de pedra

pedra de pedra de pedra
o que a faz tão concreta
senão a falta de regra
de sua forma assimétrica
incapaz de linha reta?

talvez a sua dureza
que mão alguma atravessa
tateia mas não penetra
o amálgama dos átomos
no íntimo da molécula?

será por estar parada
com sua presença discreta
sobre o chão mimetizada
obstáculo na pressa
onde o cego pé tropeça?

pedra de pedra de pedra
impenetrabilidade
íntegra ilesa completa
igual na luz ou na treva
do Cáucaso ou da Sibéria.
o que a faz tão concreta
de pedra de pedra pedra?
será sua superfície
que expõe a mesma matéria
da entranha mais interna?

casca que continua
por dentro do corpo espesso
e encrua até o avesso
sem consistência secreta
repleta apenas de pedra?

de pedra pedra de pedra
pousada em cima da terra
alheia à atmosfera
que a faz repousar pesada
no berço de sua inércia.

com sua massa compacta
onde planta não prospera
e nem bactéria medra
sobre a crosta que o sol cresta
até o seu nome empedra.
penha de penha de penha
fraga rocha roca brenha
por que se faz tão concreta?
por sua idade avançada
ou por rolar pela estrada?

talvez por estar inteira
entre uma e outra beira
de sua forma coesa
que se transforma em areia
quando o tempo a desintegra?

ou só porque não anseia
ser outra coisa e não esta?
nem pessoa nem floresta
nem mesmo a mera matéria
que a ideia não alcança?

Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si

28/02/2024

Velha infância | Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Davi Moraes e Pedro Baby, 2003

A carioca Marisa Monte (1967) e o baiano Carlinhos Brown surgiram – junto com Cássia Eller, Ed Motta e Adriana Calcanhotto – como as melhores novidades da MPB nos anos 1990. Originais, talentosos, independentes e muito diferentes entre si, os dois se tornaram parceiros com a belíssima “Segue o seco”, gravada por Marisa em 1994, um grande sucesso de público e de crítica.
Desde o início triunfal de sua carreira, aos 20 anos, com o megassucesso “Bem que se quis” (versão de Nelson Motta de “E pò che fà”, do italiano Pino Daniele) e a extraordinária regravação de “Comida”, dos Titãs, Marisa se aproximou de Arnaldo Antunes, que foi seu primeiro parceiro quando ela começou sua carreira de autora em seu segundo disco, com a canção “Beija eu” (1990) e seguiu como seu principal parceiro, ao lado de Brown, até hoje.
O paulistano Arnaldo Antunes surgiu como compositor e frontman dos Titãs nos anos 1980 e dez anos depois era considerado o melhor letrista de sua geração. Com o início de sua carreira solo em 1992, começou a compor com vários parceiros, e uma das mais frequentes e de mais sucesso foi Marisa Monte, pela perfeita sincronia que encontravam entre letra e música.
Em 2002, juntando suas diferentes origens, formações e estilos, a carioca, o paulista e o baiano criaram os Tribalistas e produziram o maior sucesso do ano no Brasil e um dos discos brasileiros de maior sucesso na França, na Itália, em Portugal, na Espanha e na Argentina em 2003, mesmo sem fazerem nenhuma apresentação pública ou entrevista do grupo.
O extraordinário sentido rítmico e popular de Brown se uniu à musicalidade de Marisa, desenvolvida no jazz, no samba e na música clássica, e à inteligência poética clássica e vanguardista de Arnaldo para criar a melhor síntese da MPB do terceiro milênio com os Tribalistas.
Entre grandes sucessos do disco, como “Já sei namorar”, “Carnavália”, “Um a um”, “O amor é feio”, o maior foi “Velha infância”. Além dos três Tribalistas, foram coautores os guitarristas Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes), numa síntese de quatro décadas de música brasileira e como expressão do espírito de brincadeira entre amigos que inspirou o disco.
E a gente canta / E a gente dança / E a gente não se cansa / De ser criança / A gente brinca / Na nossa velha infância.”

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

25/03/2022

As coisas

As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, duração,
densidade, cheiro,
valor, consistência,
profundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.

Arnaldo Antunes

28/09/2014

Meio Fio - Rita Lee



Onde quer que eu vá
Levo em mim o meu passado
E um tanto quanto do meu fim
Todos os instantes que vivi
Estão aqui
Os que me lembro
E os que esqueci

Carrego minha morte
E o que da sorte eu fiz
O corte e também a cicatriz

Mas sigo meu destino
Num yellow submarino
Acendo a luz
Que me conduz
E os deuses me convidam

Para dançar
No meio fio
Entre o que tenho
E o que tenho que perder
Pois se sou só, eu só
Flutuando no vazio
Vou dando voz ao ar que eu receber

Pra ficar comigo
Corro, salto me equilibro
Entre minha neta e minha avó
Fico firme, sigo adiante
Ante o perigo
Vejo o que me aflige virar pó

Às vezes, acredito em mim
Às vezes, não acredito
Também não sei se devo duvidar

Mas sigo meu destino
Num yellow submarino
Acendo a luz
Que me conduz
E os deuses me convidam

Para dançar
No meio fio
Entre o que tenho
E o que tenho que perder
Pois se sou só, eu só
Flutuando no vazio
Vou dando voz ao ar que receber
Composição: Arnaldo Antunes e Roberto de Carvalho