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15/08/2026
06/08/2025
Pedra de pedra
pedra de pedra de pedra
o que a faz tão concreta
senão a falta de regra
de sua forma assimétrica
incapaz de linha reta?
talvez a sua dureza
que mão alguma atravessa
tateia mas não penetra
o amálgama dos átomos
no íntimo da molécula?
será por estar parada
com sua presença discreta
sobre o chão mimetizada
obstáculo na pressa
onde o cego pé tropeça?
pedra de pedra de pedra
impenetrabilidade
íntegra ilesa completa
igual na luz ou na treva
do Cáucaso ou da Sibéria.
o que a faz tão concreta
de pedra de pedra pedra?
será sua superfície
que expõe a mesma matéria
da entranha mais interna?
casca que continua
por dentro do corpo espesso
e encrua até o avesso
sem consistência secreta
repleta apenas de pedra?
de pedra pedra de pedra
pousada em cima da terra
alheia à atmosfera
que a faz repousar pesada
no berço de sua inércia.
com sua massa compacta
onde planta não prospera
e nem bactéria medra
sobre a crosta que o sol cresta
até o seu nome empedra.
penha de penha de penha
fraga rocha roca brenha
por que se faz tão concreta?
por sua idade avançada
ou por rolar pela estrada?
talvez por estar inteira
entre uma e outra beira
de sua forma coesa
que se transforma em areia
quando o tempo a desintegra?
ou só porque não anseia
ser outra coisa e não esta?
nem pessoa nem floresta
nem mesmo a mera matéria
que a ideia não alcança?
Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si
01/02/2025
Coleção de esquecimentos
eu
tenho uma coleção de esquecimentos
e
apenas duas mãos pra ver o mundo
meu
dia passa inteiro num segundo
mas
nada abafa a voz dos pensamentos
nem
frontal e nem melatonina
eu
tenho as saudades de um soldado
do
que haveria de ser o meu passado
de
tudo que escapou da minha sina
desculpas,
culpas, lapsos de sinapses
impregnam
minha corrente sanguínea
e
sigo apassivando a carne ígnea
e
aplainando os vértices dos ápices
eu
sou o super-homem submisso
às
rotas da rotina e ao tempo escasso
enquanto
esqueço do próximo passo
anoto
um outro novo compromisso
queria
estar a sós comigo mesmo
e
ter a eternidade toda em torno
desfalecer
no fogo desse forno
até
me desfazer como um torresmo.
Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si
18/01/2025
Pedra de pedra
pedra
de pedra de pedra
o
que a faz tão concreta
senão
a falta de regra
de
sua forma assimétrica
incapaz
de linha reta?
talvez
a sua dureza
que
mão alguma atravessa
tateia
mas não penetra
o
amálgama dos átomos
no
íntimo da molécula?
será
por estar parada
com
sua presença discreta
sobre
o chão mimetizada
obstáculo
na pressa
onde
o cego pé tropeça?
pedra
de pedra de pedra
impenetrabilidade
íntegra
ilesa completa
igual
na luz ou na treva
do
Cáucaso ou da Sibéria.
o
que a faz tão concreta
de
pedra de pedra pedra?
será
sua superfície
que
expõe a mesma matéria
da
entranha mais interna?
casca
que continua
por
dentro do corpo espesso
e
encrua até o avesso
sem
consistência secreta
repleta
apenas de pedra?
de
pedra pedra de pedra
pousada
em cima da terra
alheia
à atmosfera
que
a faz repousar pesada
no
berço de sua inércia.
com
sua massa compacta
onde
planta não prospera
e
nem bactéria medra
sobre
a crosta que o sol cresta
até
o seu nome empedra.
penha
de penha de penha
fraga
rocha roca brenha
por
que se faz tão concreta?
por
sua idade avançada
ou
por rolar pela estrada?
talvez
por estar inteira
entre
uma e outra beira
de
sua forma coesa
que
se transforma em areia
quando
o tempo a desintegra?
ou
só porque não anseia
ser
outra coisa e não esta?
nem
pessoa nem floresta
nem
mesmo a mera matéria
que
a ideia não alcança?
Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si
28/02/2024
Velha infância | Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Davi Moraes e Pedro Baby, 2003
A
carioca Marisa Monte (1967) e o baiano Carlinhos Brown surgiram –
junto com Cássia Eller, Ed Motta e Adriana Calcanhotto – como as
melhores novidades da MPB nos anos 1990. Originais, talentosos,
independentes e muito diferentes entre si, os dois se tornaram
parceiros com a belíssima “Segue o seco”, gravada por Marisa em
1994, um grande sucesso de público e de crítica.
Desde
o início triunfal de sua carreira, aos 20 anos, com o megassucesso
“Bem que se quis” (versão de Nelson Motta de “E pò che fà”,
do italiano Pino Daniele) e a extraordinária regravação de
“Comida”, dos Titãs, Marisa se aproximou de Arnaldo Antunes, que
foi seu primeiro parceiro quando ela começou sua carreira de autora
em seu segundo disco, com a canção “Beija eu” (1990) e seguiu
como seu principal parceiro, ao lado de Brown, até hoje.
O
paulistano Arnaldo Antunes surgiu como compositor e frontman
dos Titãs nos anos 1980 e dez anos depois era considerado o melhor
letrista de sua geração. Com o início de sua carreira solo em
1992, começou a compor com vários parceiros, e uma das mais
frequentes e de mais sucesso foi Marisa Monte, pela perfeita
sincronia que encontravam entre letra e música.
Em
2002, juntando suas diferentes origens, formações e estilos, a
carioca, o paulista e o baiano criaram os Tribalistas e produziram o
maior sucesso do ano no Brasil e um dos discos brasileiros de maior
sucesso na França, na Itália, em Portugal, na Espanha e na
Argentina em 2003, mesmo sem fazerem nenhuma apresentação pública
ou entrevista do grupo.
O
extraordinário sentido rítmico e popular de Brown se uniu à
musicalidade de Marisa, desenvolvida no jazz, no samba e na música
clássica, e à inteligência poética clássica e vanguardista de
Arnaldo para criar a melhor síntese da MPB do terceiro milênio com
os Tribalistas.
Entre
grandes sucessos do disco, como “Já sei namorar”, “Carnavália”,
“Um a um”, “O amor é feio”, o maior foi “Velha infância”.
Além dos três Tribalistas, foram coautores os guitarristas Davi
Moraes (filho de Moraes Moreira) e Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes),
numa síntese de quatro décadas de música brasileira e como
expressão do espírito de brincadeira entre amigos que inspirou o
disco.
“E
a gente canta / E a gente dança / E a gente não se cansa / De ser
criança / A gente brinca / Na nossa velha infância.”
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
18/11/2023
24/09/2023
15/08/2023
25/03/2022
As coisas
As
coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, duração,
densidade, cheiro,
valor, consistência,
profundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, duração,
densidade, cheiro,
valor, consistência,
profundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.
Arnaldo Antunes
14/12/2020
29/10/2020
20/02/2020
07/02/2020
11/12/2019
23/04/2019
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