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01/08/2026

Até às alelúias!



[…]

Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas não estipula.
O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ― E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ― em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ― bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era em ramo de suicídios.
A modo que morreu? Ele foi para os infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ― a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
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Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

17/06/2026

“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou...”



[…]

No sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens. Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem malandro inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava executando! que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos, se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde, escanchada em seu cavalo. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricurí, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido! que às vezes é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua garrucha antiquíssima apontou, era um velho. Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato deu não conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de sua consciência. Ele morava numa burgueia, em choça muito de solidão, entre as touças da sempre-viva-serrã e lustro das folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope do môrro, que era de espalha-ventos. De lá do alto, a mente minha era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além. Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados, gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá ― quero dizer: Morro dos Ofícios ― redescendo, demos com o velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de quase-dôido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de piassaba; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou ― abocou a garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo. Esse era o velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido. Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo. Mas, agora, que tanto aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes de usos.Velhinho que apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali era uma faquinha e um facão cego, e um calabôca ― porrête esse que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E ele mancava estragado! por tanto que a metade do pé esquerdo faltava, cortado ― produção por picada de cobra ― urutú geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbú, ou gambás, que, jogando neles certeiramente o calabôca, sempre conseguia de caçar. Me chamou de! ― Chefão cangaceiro...
Acabando que, para me render benefício de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... ― ele disse ―; eu escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para mim... ― Aonde, rumo? ― indaguei, por comprazer. Ele piscou para o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-das-Almas... Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse, por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si? Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros? Galinhas gostam de poeira de areia ― suas asas... E o velho homem ― cujo. Ele entendia de meus dissabôres? Eu mesmo era de empréstimo. Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo. Siruiz. Alelúia só.
E o velho, no esquipático de olhar e ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas ― que é que era? que é que era?!... Eu carecia de indagar. E, mesmo ― porque a chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação incerta ― tive de indagar leixo, remediando com gracejo diversificado: ― Mano velho, tú é nado aqui, ou de donde? Acha mesmo assim que o sertão é bom?...
Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao senhor:
Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: ― ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Respondeu com uma insensatez, ar de ir me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma mão, em modo que me deu nôjo. Descemos flauteando o resto do môrro. Quando chegamos cá no acampo, as ramas dárvores já iam pegando o pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eh ― fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas, em trinta e cinco léguas ― e o caminho passava pelo São Josezinho da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse ― se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado ― é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia! que eu estou bem casado de matrimônio ― amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas ― se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutú-Branco, quantas coisas terríveis o vento-das-núvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é ― possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente... E ― mesmo ― possível o que não foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos para retrôco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de quebra-vento.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

11/06/2026

“Ah! ― choca mal, quem sai do ninho...”




          […]

Adiante vim para pedir gole dágua, todo pacífico, no rancho de um solteiro; esse deu informação de que, dez léguas em volta, o povoal ia existindo sem questão. Somente seguimos. Dali antes, a gente tinha passado o Alto-Carinhanha ― lá é que o Rei-Diabo pinta a cara de preto. Onde chegados na aproximação do lugar que se cobiçava. Dado dia e meio ― descrevendo no rumo que certo achamos logo ― se havia de ter a casa da raça do Hermógenes! Lei de que íamos dar lá, madrugando madrugada, pegando todos desprevenidos, em movível supetão. Pois o Hermógenes parava longe, em hora recruzando meus antigos rastros, estes rasgos ele não adivinhava. Aí era o meu contrabalanço. Ah! ― choca mal, quem sai do ninho...
Ao que, por isso, não tardamos; não tivessem a primeira notícia da gente. Não se tomou nem um dia de fôlego. A trote e a chouto, vencemos uma grande noite ― e demos lá, no luzir dalva. Abarcamos as condições do lugar, em cerco, entendidos uns com uns, por meio de avisos: que eram canto de acauã e assovio de macaco. Porque sempre eles deviam de ter alguns curimbabas na defesa: capangas e carabinas. Daí, só se esperou o listrar da primeira barra e a ponta da manhã estremecente. Segundo nosso uso. Demos fogo.
Digo franco: feio o acontecido, feio o narrado. Sei. Por via disso mesmo resumo; não gloso. No fim, o senhor me completa. Mas, fazia tempo que não se dava combate, e o propor da gente era tribuzana, essas ferocidades assim.
A casa da fazenda ― aquele reto claro caiado; mas era um casarão acabando o tope do morrete; enganando, até parecia torta. Varejamos o total a tiro. Aí, e o que se gritava!: azurradamente...
Aqueles que estavam lá eram homens ordinários ― derreteram debaixo do pé de meus exércitos. O que foi um desbarate! Como que já estavam de asas quebradas, nem provaram resistências: deles mal ouvi uns tiros. E a gente, nós, estouramos para o centro, a surto, sugre, destrambelhando na polvorada, feito rodeio de vento. Assaz. Do que fiz, desisto. Todos não fizeram? Volvido, receei que Diadorim não me aprovasse; mas Diadorim concordou com os fatos, em armas, em frente. O que se matou e estragou ― de gente humana e bichos, até boi manso que lambia orvalhos, até porco magro em beira de chiqueiro. O mal regeu. Deus que de mim tire, Deus que me negocíe... A vez.
De seguida, tochamos fogo na casa, pelos quinze cantos mortos. Armou incendião: queimou, de uma vez, como um pau de umburana branca... E de lá saímos, quando o fogo rareou, tardezinha. E, na manhã que veio, acampou-se em beira-dágua de sossego. A gente traspassava de cansaços, e sobra de sono. Mas, trazida presa, já em muito nosso poder, estava a merecida, que se queria tanto ― a mulher legal do Hermógenes.
Aquela mulher sabia dureza; riscava. Ela discordava de todo destino. Assim estava com um vestido preto, surrado muito desbotado; caíu o pano preto, que tinha enlaçado na cabeça, e ela não se importou de ficar descabelada. Deixaram! ela sentar, sentou. Nunca encurtou a respiração. Devia de ter sido bonita, nos festejos da mocidade; ainda era. Deram a ela de comer, comeu. De beber, bebeu. A curto, respondeu a algumas duas ou três coisas; e, logo depois de falar, apertava demais a boca fechada, estreitos finos beiços. Mas falava quase assoviado. Figuro que não mascava fumo nem cachimbava, mas mesmo assim cuspia em roda; mas não passava a sola do pé, por cima, para alimpar o chão, como é costume de se fazer, nessas condições. Adverti que estava descalça, e assim devia de ser fora do uso, decerto por causa da hora e confusão em que tinha sido pega. Se arranjou para ela par de alpercatas. Ela soubesse que não se pertencia com a gente. Aceitou meu olhar, seca, seca, com resignação em quieto ódio; pudesse, até com as unhas dos pés me matava. Enrolou a cara num xale verde; verde muito consolado. Mas eu já estava com ela ― com os olhos dela, para a minha memória. Magreza, na cara fina de palidez, mas os olhos diferiam de tudo, eram pretos repentinos e duráveis, escuros secados de toda boa água. E a boca marcava velhos sofrimentos? Para mim, ela nunca teve nome. Não me disse palavra nenhuma, e eu não disse a ela. Tive um receio de vir a gostar dela como fêmea. Meio receei ter um escrúpulo de pena; certo não temi abrir razão de praga. Muito melhor que ela não carecesse de vir. Ser chefe, às vezes é isso! que se tem de carregar cobras na sacola, sem concessão de se matar... E ela ficava assim embiocada, sem semblantes, com as mãos abertas, de palmas para cima ― como se para sempre demonstrar que não escondia arma de navalha, ou porque pedisse esmola a Deus. Lembro dessa mulher, como me lembro de meus idos sofrimentos. Essa, que fomos buscar na Bahia.
E de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando ― só extorquindo vantagens de dinheiro, mas sem devastar nem matar ― sistema jagunço. E duro capitaneei, animado de espírito. O Jalapão me viu, os todos Gerais me viram demais. Aqueles distritos que em outros tempos foram do valentão Volta-Grande. Depois, mesmo Goiás a baixo, a vago. A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está movimentante todo-tempo ― salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos... Rodeando por terras tão longes; mas eu tinha raiva surda das grandes cidades que há, que eu desconhecia. Raiva ― porque eu não era delas, produzido... E naveguei salaz. Tem as têlhas e tem as nuvens... Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?! Virei os tigres; mas mesmo virei sendo o Urutú-Branco, por demais.
Somente que me valessem, indas que só em breves e poucos, na ideia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigrí minha mãe me ralhando; os buritís dos buritís ― assim aos cachos; o existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-crôa; a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília.
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Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

04/06/2026

Treciziano, o bruto


[…]

Rasgamos sertão. Só o real. Se passou como se passou, nem refiro que fosse difícil-ah; essa vez não podia ser! Sobrelégios? Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se economizava. As estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias, atravessamos. Todos; bem, todos, tirante um. Que conto.
O que era ― que o raso não era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido, nãostante no ir em rumos incertos, sem mesmo se percurar? De melhor em bom, sem os maiores notáveis sofrimentos, sem em-errar ponto. O que era, no cujo interior, o Liso do Sussuarão? ― era um feio mundo, por si, exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até não-onde a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas ― cavalo repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou, o que deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socôrro, em az. A uns lugares estranhos. Ali tinha carrapato... Que é que chupavam, por seu miudinho viver? Eh, achamos rêses bravas ― gado escorraçado fugido, que se acostumaram por lá, ou que de lá não sabiam sair; um gado que assiste por aqueles fins, e que como veados se matava. Mas também dois veados a gente caçou ― e tinham achado jeito de estarem gordos... Ali, então, tinha de tudo? Afiguro que tinha. Sempre ouvi zum de abêlha. O dar de aranhas, formigas, abêlhas do mato que indicavam flores.
Todo o tanto, que de sede não se penou demais. Porque, solerte subitamente, pra um mistério do ar, sobrechegamos assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém não crê: em paragens, com plantas.
De justiça, digo, também! uma regra se teve, sem se saber de quem foi que veio a ideia dessa combinação. Qual foi que a gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com a maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para novidade boa.
Eu que digo. Mesmo, não era só capim áspero, ou planta peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade pintarrôxa, um mandacarú que assustava. Ou o xique-xique espinharol, cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de flôr dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho luiz-cacheiro. Ah , não. Cavalos iam pisando no quipá, que até rebaixado, esgarço no chão, e começavam as folhagens ― que eram urtigão e assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentíos de flôr belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e a maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha, muito melindrosa flôr, que também guarda muito orvalho, orvalho pesa tanto! parece que as folhas vão murchar. E herva-curraleira... E a quixabeira que dava quixabas.
Digo ― se achava água. O que não em-apenas água de touceira de gravatá, conservada. Mas, em lugar onde foi córrego morto, cacimba d água, viável, para os cavalos. Então, alegria. E tinha até uns embrejados, onde só faltava o burití! palmeira alalã ― pelas veredas. E buraco-pôço, água que dava prazer em se olhar. Devido que, nas beiras ― o senhor crê? ― se via a coragem de árvores, árvores de mata, indas que pouco altaneiras! simaruba, o aniz, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo; e gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava!

Sombra, só de gameleira,
na beira do riachão…

Assim achado, tudo, e o mais, sem sobranço nem desgosto, eu apalpei os cheios. O respeito que tinham por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços meus, os riobaldos, raça de Urutú-Branco. Além! Mas, daí, um pensamento ― que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse pensamento ― então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que quanto de mim ia tirar cobro? ― Deixa, no fim me ajeito... ― que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não conhecesse, que a bula dele é esta! aos poucos o senhor vai, crescendo e se esquecendo...
Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo formosura.
Riobaldo, escuta! vamos na estreitez deste passo... ― ele disse; e de medo não tremia, que era de amor ― hoje sei.
...Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto... Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você...
Ele disse, com o amor no fato das palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e dele. Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.
Só sei que, no meio reino do sol, era feito parássemos numa noite demais clareada. Assim figuro. Dentro de muito sol, eu estava reparando uma cena! que era um jumentinho, um jegue já selvagem caatingano, no limpo do campo caçando o que roer, assaz pelos cardos.
Eu não tinha de tomar tento em coisas mais graves? Mire veja o senhor. Picapau vôa é duvidando do ar. Que tal Zé Bebelo ― na hora me lembrei ― quando mal irado, ou quando conforme querendo impôr medo a todos! ― Norte de Minas! Norte de Minas...! ― o que bramava. E ele estava com a razão. Mas Zé Bebelo era projetista. Eu, eu ia por meu constante palpite. Usando de toda ajuda que me vinha, mas prevenido sempre contra o Maligno: que o que rança, o que azéda. As traças dele são novas sempre, e povoadas tantas, são que nem os tins de areia grãoindo em areal. Então eu não sabia?!
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade: um, troncudo, pardaz, genista, filho não sei de que terra. Assim, casta de gente?
Ah, não. Por meu bem, eu estava em todo o meu siso. Até mais. Não faço caso! ― eu disse, isto é: pensei dizendo. Eu não queria somar com aquilo nenhum; porque cheirava ao Cujo: esses estratagemas. Era do demo... ― eu tirei um enredo. Pois, então, paz... ― eu falei, me falei. ...Não faço conta... ― me prometi. Eu estava em manhas. Estive que estive no embalançar, em equilibrável. Tico tanto pensei. Mas tudo era frisado ligeiro, ligeiro, feito cavalo que pressente fúria de boi.
Aí escutei a voz ― a voz dele tremia nervosa, como de cabrito; da maneira que gritou ― à briga. Um desfeliz. Levei os olhos.
Ah, quem o homem era, eu já sabia, ele se chamava Treciziano. O bruto; para falar com ele, só a cajado. Eu sabia. Rebém, que desconfiei do demo. Ali esse Treciziano era fraco de paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do que os outros segundo esse tremor das ventas ― e pegou a malucar? Diziam que ele criava dôr-de-cabeça, e padecia de erupções e dartros. Estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma ofensa. Homem zuretado, esbrasêia os olhos. Eu, senhor de minhas inteligências, como fica dito. Eu estava podendo refleitir, em passo de jumento. ― Siô, deixa o padre ofrecer missa... ― falei para mim mesmo. Eu queria tolerar, primeiro: porque o demo não era homem para mandar em mim e me pôr em raiva. Aí, era só eu forçar calma, tenteador; depois, com palavras de energia boa, eu acautelava evitando a jerimbamba, e daí repreendia esse Treciziano, revoltoso, próprio por autoridade minha, mas sem pau nem pedra. Que dessa ― chefe eu ― o O não me pilhava…
Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas não estipula. O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ― E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ― em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ― bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo. Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era em ramo de suicídios.
A modo que morreu? Ele foi para os infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ― a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
Que, como conto. Aquele Treciziano tinha redobrado destino de triste-fim de louco. Pois nem bem três léguas andadas, daí depois, a gente saía do Liso, como que a ponto! dávamos com uma varzeazinha e um esporão de serra; chapadas, digo. Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos crondeubais da Bahia.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

28/05/2026

Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.


[…]

O que na hora achei, foi que Diadorim estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre o que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada aqueles perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde nenhum outro antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. Eu, não! o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite. Esbarramos. Era numa curta vereda, duns brejos, buritizalzinho. Acendemos fogo. Aí mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu primeiro sono, sim. O resto, foi ondas. Reprazer crú dessa espiritação ― eu ardia em mim, e em satisfa contente, feito fosse véspera duma patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral. Depois, o raso. Aí o Liso do Sussuarão ― em fundo e largo, as cinquenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me fazia voltar a seco de lá. Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim ― esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem. Para vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das môitas de caculucage. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja ― mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora. Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
Aqui, gente.
Guerreiros em minha presença! Com certo reboliço, como todos vieram, para saber daquela novidade. Declarei a eles. Todos me entenderam? Em fila ― as caras todas ficando iguais. Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser, e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim. Mas, os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem nada! Aprofundar naquele raso perverso ― o chão esturricado, solidão, chão aventêsma ― mas sem preparativos nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos para carneação, nem bogós de couro-crú derramando de cheios, nem tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as fôices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei ― mas meu coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores ― nem Suzarte, Nelson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d água.
Se o cada um que se valesse, cada um que me seguisse. ― Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro... ― eu determinei. Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me ouvindo, falou!
A gente? A gente.
Esse era um menino, eu não devia de mandar alguém conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de voltar de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor sozinho eu ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que esperei a resposta deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.
Se amanhã meu dia for, em depois-d’amanhã não me vejo.
Antes de menino nascer, hora de sua morte está marcada!
Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não passa...
Os que diziam assim eram todos eles, secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava, frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
Sol em glória. Eu pensei em Otacília; pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou, alguém, salvo a um seguinte. Aguas não desmanchavam meu torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos. Aí eu em frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha andraja coragem.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

18/05/2026

“A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes”


[…]

Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não querer, em contrários instantes! que rezassem por mim, a rogo e paga. Reza boa, de outros, singela, que mais me valesse ― essas avemariazinhas, novenas. Assim conforme Diadorim tinha expedido o recado, para minha Otacília, mediante o arrieiro de uma tropa. Pelejei por afirmar a ideia nisso, que próprio depois eu enxotava. As vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais longe, desconhecidamente. Me lembrei de um homem, de minha meninice. Um do outro lado do rio. O sujeito que escondia uma oração tão entremunhada, desguisada, que duvido mesmo um padre aquilo entendesse, e desse licença. Pois, ora, me servia. Ou a mulher que teve seu meninozinho parido no chão do rancho, no povoado dos papudos; ela me devia mercês, então não podia encaminhar a Deus, por mim, nem um louvamém? ― Só será que o arrieiro passa e vai, na Santa Catarina?... Isso perguntei a Diadorim. O que perguntei era por uma opinião. Eu queria pensar nisso, de tarde, nos repontos. De assento. Mas logo esse sossego manso me largava ― nuvenzinha dele.Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? As voltas e revoltas, eu pelejava contra o meu socôrro. Hoje, eu sei; pois sei, por que. Mas eu não falava sozinho. Figuro que estava em meu são juízo. Só que andava às tortas, num lavarinto.Tarde foi que entendi mais do que meus olhos, depois das horrorosas peripécias, que o senhor vai me ouvir. Só depois, quando tudo encurtou. Dei decreto de fim em essas esquisitices.
No que não perguntei, Diadorim me respondeu? ― ...A muita coragem, Riobaldo... Se carece de ter muita coragem... Ah, eu sabia. A coragem, eu? Aí quem era que me vencesse, nesse dever, alirolé, quem podia afrontar minha presença, feito môrro padastro? Tinha mãos e ações, que davam para lavar meus trajes. Mas, o que Diadorim disse, não me fez mossa. Dou exemplo. Do que houve e se passou, uma vez, no Carujo, um arraial triste, em antigos tempos. O povo dali fugiu, por alguma guerra ou pressa, fecharam a igrejinha com um morto lá dentro, entre as velas... Eu gostava de Diadorim corretamente; gostava aumentado, por demais, separado de meus sobejos. Aquilo, davandito, ele tinha falado solto e sem serviço, era só uma recordação, assim um fraseado verdadeiro, ditado da vida. O que não fosse destinado para ele nem para mim, mas que era para todos. Ou, então, sendo para mim, mas em outros passados, de primeiro. Ali naquele lugar, o Carujo, no reabrirem, depois de uns mêses, a igreja, o defunto tinha se secado sozinho... Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem ― é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia ― do sertão ― a toda travessia.
Só aquele sol, a assaz claridade ― o mundo limpava que nem um tremer dágua. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo. Caminho de gado.
Arte que eu achei o meu projeto.
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação, como que um perde o bom tino. Porque, viver é muito perigoso... Diadorim, o rosto dele era fresco, a boca de amor; mas o orgulho dele condescendia uma tristeza. Matéria daquilo que me desencontrava; motivo esse que me entristeceu? A nenhum. Eu já estava chefe de glórias. Nem Diadorim não duvidava do meu roteiro ― que fosse para encontrar o Hermógenes. Desse jeito a gente ia descendo ladeiras. Ladeiras areentas e com pedras, com os abismos dos lados; e tão a pique, que podiam rebentar os rabichos dos arreios, no despenhado; no ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas, feito se os pescoços deles se encompridassem; e montões de pedras para baixo rolavam. Até ri. Diadorim ainda cria mais no meu fervor em se ir perseguir o Hermógenes. Essas ladeiras era que me atrasavam. Depois dali, eu ia ter muita pressa demais.
Agora, o senhor saiba qual era esse o meu projeto! eu ia traspassar o Liso do Sussuarão!
Senhor crê, sem estar esperando? Tal que disse. Ainda hoje, eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos. Qu é que me acuava? Agora, eu velho, vejo! quando cogito, quando relembro, conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e assoprado. Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele. Eh! ― o que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor está pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como corujão que se vôa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre, o qual carrega em mão curva... No nada disso não pensei; como é que pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos, tivesse um relógio. A atravessar o Liso do Sussuarão. Ia. Indo, fui ficando airoso.
Por forma como a gente rodeou outra volta, não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser. Daí, uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a perto dele umas poucas cinco léguas! o desmenso, o raso enorme ― por detrás dos môrros. E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e aoVão-do-Cúio! esses buracões precipícios ― grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal. Isto é um vão. E num vão desses o senhor fuja de descer e ir ver, aindas que não faltem as boas trilhas de descida, no barranco matoso escalavrado, entre as moitarias de xaxim. Ao certo que lá em baixo dá onças ― que elas vão parir e amamentar filhos nas sorocas; e anta velhusca moradora, livre de arma de caçador. Mas o que eu falo é por causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa, mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana.
No que eu no meu destino não pensei. Diadorim, em sombra de amor, foi que me perguntou aquilo:
Riobaldo, tu achasses que, uma coisa mal principiada, algum dia pode que terá bom fim feliz?
Ao que eu, abirado, reagi:
Mano meu mano, te desconheço?! Me chamo não é Urutú-Branco? Isto, que hei-de já, maximé!
Diadorim persistiu calado, guardou o fino de sua pessoa. Se escondeu; e eu não soubesse. Não sabia que nós dois estávamos desencontrados, por meu castigo. Hoje, eu sei; isto é: padeci. O que era uma estúrdia queixa, e que fosse sobrôsso eu pensei. Assim ele acudia por me avisar de tudo, e eu, em quentes me regendo, não dei tino. Homem, sei? A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver.
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Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

10/05/2026

“Eu não estava de francamentes"


[…]

Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos ― vislumbre meu ― que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor! Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa... Reforço o dizer! que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim! ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu repeli?
Antes que Diadorim mesmo abrisse boca para me sorrir, me falar, eu tive de fazer uma coisa. A meio em ânsia, meio em astúcia; meio em raiva. Como foi que peguei o vivo de tal ideia, em gesto, como se deu de que me alembrei daquilo? Homem, não sei. Mas enfiei mão! por entre armas e cartucheiras, e correias de mochilas, abri à berra meu jaleco e a minha camisa. Aí peguei o cordão, o fio do escapulário da Virgem ― que em tanto cortei, por não poder arrebentar ― e joguei para Diadorim, que aparou na mão. Ia me fazer alguma pergunta, que eu não consenti, a voz dele era que mais significava. Isto é, porque eu primeiro falei, como resumo. ― Hei-á, voltar ― que o povoão está de minha espera! ― eu enfim disse: eu ainda estava respirando muito ligeiro demais.
Assim eu dava era ordem, como convinha. Eu não estava de francamentes. Para mim, um palmo, àquela hora, podia medir três braças. Apertei. Nem meu cavalo carecia disso: era eu encolher um pé, e ele já via voo. À paz! Mas Diadorim, vez de logo vir, tocou em contrário. Sustentei em esbarro meu Siruiz, a ver, querendo as curiosidades. Diadorim estava indo lá, modo de caçar e recolher o revólver, que de minha mão tinha caído. Num repousozinho de coração, calado eu agradeci à amizade dele essa fineza. Daí, vim. Sempre longe em frente, portanto que meu cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. Daí, cantei. Mesmo mal, me cantei ― por causa que via que, medeando tão grandes silêncios, era que Diadorim tomava mais sorrateiro poder em meu afeto, que não era possível concernente. Entre isso, chegamos de volta no arranchamento. Mas cheguei lá foi para ter ocupação de uma estúrdia novidade. Com os urucuianos.
O senhor estando lembrado: aqueles cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais, cabras do Alto-Urucúia. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo surgidos, e que com ele desceram o Rio Paracatú, numa balsa de talos de burití. Esses sempre mereceram pouca história da gente, por quietos e certos, bem procedidos, sujeitos de furtadas palavras. Agora eles comigo queriam um entendimento. Um Diodato, esse era o cabo deles. Formou em frente dos outros, puxando a parlagem.
Queriam conversa comigo em só, apartada. Eu apreciasse aqueles homens. A valentia deles estava por dentro de muita seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no anzol ― o povo diz. As lérias. Como contam também que nos Gerais goianos se salga o de-comer com suor de cavalo... Sei lá, sei? Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida. Mas aqueles cinco me condiziam. Admirei de ver que eles todos ainda estavam a pé, mas com dobros e bissacos nas costas, feito prontos para pedestre viagem. Sisudez deles ainda semelhava maior. Então constitui meus ouvidos, para o cabecilho, Diodato.
Praz vosso respeito, Chefe, a gente decidiram... A gente vamo-sembora. Praz vossas ordens... ― o homem me disse, assim mesmo, casmurro com serenidade. Tive de ver bem suas feições, uma cara assim aos poucos se examinava.
Entendi, mas reperguntei. O homem não coçou a cabeça. Olhos de santo de madeira. O nariz dele era bem grande, nariz que não se empinava. Só tinha a barbazinha que tem um queixo de cavalo.
O homem não coçou a cabeça. Firme disse. Queriam ir-sembora, duma vez; careciam. Ah, eles bem que conheciam a regra! que um jagunço sai do bando quando quer ― só tem que definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão pertence. As armas, eles não devolviam, porque eram deles; mas, como tinham de primeiro vindo a pé, largavam bem agora os cavalos. Pegavam era um tanto de matula ― trivial de farinha e carne-seca, e rapadura, para uns três dias, mal. Mesmo assim, era doideira, achei. Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos, alto ermo, distantes brenhas. Por que é que iam, nem esperando eu desse minha primeira ganhada?
A isso, meio acontecidos, Chefe... A conforme a gente carece, praz vosso respeito, senhor, sim... ― o homem meio respondeu, bastante sincero. Reparei no chapéu na cabeça dele, que era de couro de veado suassú-apara, com macias abas e formato muito composto. A cara dele mesmo dava um ar honrável, circunspecto, por mal que com manchas, sarro de alguma velha moléstia, semelhando nódoas de caldo de cajú. ― Sua graça, toda, é Diodato de que? ― indaguei. ― Diodato Nariz, por alcunha... ― ele disse; disse, de brancura. Conheci como eu nunca tinha dado tento d atenção naqueles homens, cuja valia. Assim que eles eram, de batismo: e o Pantaleão, Salústio João, João Tatú e O-Bispo. Naquela hora, era que eu punha tino. Nunca mais tive notícia desses. Hoje, repenso. Naquela hora, eu cogitava jeito de conservar todos em companhia. Remei minhas perguntas. Donde que eram?
Desses córregos... Do Burití-Comprido, Tamboril, Cambaúba, Virgens, Mata-Cachorro, das Cobras... Para cima da Barra-da-Vaca, Arinos,... Em sertão são. Isso, que são lugares. E que é que me adiantava saber que tinham suas ocas por lá? O que eu inventei de conhecer era donde tinham estado, quando Zé Bebelo deu com eles, que vinha voltando de Goiás. ― Ah , senhor sim, nas beiras... Roças do rio São Marcos, senhor sim, no Esparramado... Fazenda duma Dona Mogiana... Cabras dessa Dona Mogiana? Eram. Tinham sido. Mas com sua labuta de plantações. Que qualidades de crimes eles tinham feito, para principiar, crimes de boa merência? E por que era que tinham querido vir com Zé Bebelo? Isso eu quis perguntar. O que de repente perguntei:
Por via de que é que vocês desespiritaram de seguir vinda com a gente? Falei, e refuguei para não ter falado; que gabo e questão não são regra de se negociar. Mas o homem Diodato, distanciado duma minha pergunta dessas, esbarrou vez, demorão; mesmo num desajeito, ele fungava. E ele comigo não tinha ajuste, mas não queria me ofender sem a razão. Chega olhou para os companheiros, que acenavam devagar com as cabeças, mas numa maneira brandazinha de sonsa, fora de tudo o mais, para não se entender se é sestro ou anuído ― que é do jeito comum como essa gente costuma.
Ara, senhor, sim... ― por fim ele falou resposta! ― ... que a influência esmoreceu... A gente gastou o entendido... ―; e estava quase meio envergonhado.
Eu disse! ― A pois?
Não vê, Chefe, praz vosso respeito! as coisas demudaram... Que viemos com siu Zé Bebel... Vai, a gente gastou o entendido...  ― ele disse.
O que Zé Bebelo falou, quando chamou vocês?
A foi. Quando chamou, senhor sim...
Ele prometeu vantagens?
Não se diz... Chamou. Falou misturado... A gente viemos.
E o que é que falou?
Agora, a gente não sabe mais. Falou muito razoável... Falou muito razoável... Agora, com perdão vosso, a gente esquecemos, a gente gastou o entendido... Mas muito razoável falou...
De irritado, de aflêima, dei o discutir!
Pois, por que é, então, que não foram logo, com Zé Bebelo, quando Zé Bebelo se foi?
Deixamos o tempo dos outros passar... Não temos questão... Não temos questão...
Mirei e vi! o que desde de antes me invocava. Aquele homem, por uns astutos indícios, se apartando, ele desconfiasse de mim. Aqueles outros homens, os do todo sertão, das brenhas, os com as ventas largas para baixo, cada-um um cão ― o que era que eles achavam em meu ser? Repensei! ah! Ah, então, para avaliar em prova a dúvida deles, tive um recurso. A manha, como de inesperadamente de repente eu muito disse!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Senhor vendo como foi, o supetão de susto que ele teve, arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido não acreditava, o tanto que retardou para responsar, todo baixo, o: ...Para sempre...
Ah. Despedidos estavam, podiam ir. Ah.
Ah , não. A bobeia. Se ele em fato estranhou, foi somente por causa do tom de minha voz. Se foi por minha voz, foi porque, no afã de querer pronunciar sincero demais o santíssimo nome, eu mesmo tinha desarranjado fala ― essas nervosias...
E eles iam s embora, conforme desisti de sobreguardar esses homens. Do jeito, de que é que me valiam? O contrato de coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho, não é com dares e tomares. Fino que me abespinhei, por conta. Ao que aqueles homens não eram meus de lei, eram de Zé Bebelo. E Zé Bebelo era assim instruído e inteligente, em salão de fazenda? Desisti, dado. Não baboseio. E o mais? Era como alguém dizendo: ― Vai declarar seca, por esse Norte, e homem e mulher vão vir... A vida é um vago variado. O senhor escreva no caderno: sete páginas... Aqueles urucuianos não iam em cata de Zé Bebelo, conforme sem nem satisfação fiquei sabendo.Voltavam de volta para os seus recantos. Quartel de mandioca, em qualquer parte se planta; e o senhor derruba um mato, faz um chão bom, roça também se semeia... Eles foram embora, deixei levarem os cavalos. Reparti com eles alguma quantia, e com alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja... Estúrdio é o que digo, nesta verdade ― que, eu livre longe deles, desaluídos é que eles estavam comigo; mas, eu quisesse com gana o préstimo deles, então só me serviam era na falsidade... O senhor me entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim, tão suportados nas coisas deles, que... por contar o que achei: que devia de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu destino…
Mas, de desertarem de mim, então, será que era um agouro? Não sei. Que sei? Tive fé em mim sozinho. O que juro, e que sei, é que tucano tem papo!…
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

05/05/2026

“― Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela..."



[…]

O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu remorso. Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos! eram só os minutos, e, ali durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado. Assim! ― Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela... ― isto eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto! como havia de escapulir dele, do Temba, que eu tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? Mas, então, governar pudesse, eu não era o Urutú-Branco, não vinha a ser chefe de nada, coisa nenhuma! Ah, eu carecia dum jeito, dum esperto socôrro, para tentear com o Sujo em suas próprias portas, e mediante me pôr livre de fim fatal. De que modo?
Mas acontece que o instante entre o sono e o acordado era assaz curto, só perpassava, não dava pé. Eu não podia me firmar em coisa nenhuma, a clareza logo cessava. Daqueles avisos e propósitos, o montante movimento do mundo me delia, igual a um secar. E eu mesmo estava contra mim, o resto do tempo. Não estava? Todo o mundo, cada dia, me obedecia mais, e mais me exaltavam. Com o que peguei, aos poucos, o costume de pular, num átimo, da rede, feito fosse para evitar aquela inteligencinha benfazeja, que parecia se me dizer era mesmo do meio do meu coração. Num arranco, desfazia aquilo ― faísca de folga, presença de beija-flôr, que vai começa e já se apaga ― e daí já estava inteirado no comum, nas meias-alegrias! a meia-bondade misturada com maldade a meio. Agora levantava, puxava e arreava meu Siruiz, cavalo para alvoradas. Saía sozinho.
Sair na escuridão, o senhor sabe: aqueles galhos de árvores batendo na cabeça da gente. Sempre eu ia até longe; quando voltava, encontrava o pessoal se aprontando, café já coado, cavalaria em fila para a viagem. Uma vez, inda mais longe fui, do que nas outras. E dei com o lázaro.
Ele se achava como que tocaiando, no alto duma árvore, por se esconder, feito uma cobra ararambóia. Quase levei o susto. E era um homem em chagas nojentas, leproso mesmo, um terminado. Para não ver coisas assim, jogo meus olhos fora! Promovi meu revólver. Aquele de repente se encolheu, tremido; e tremeu tanto depressa, que as ramagens da árvore enroscaram um rumor de vento forte. Não gritou, não disse nada. Será que possuía sobra dalguma voz? Eu tinha de esmagalhar aquela coisa desumana.
Dum fato, na hora, me lembrei: do que tinham me contado, da vez em que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses num goiabal. O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas maduras, por uma e uma, no pé, com o fito de transpassar o mal para outras pessoas, que depois comessem delas. Uns assim fazem. Medeiro Vaz, que era justo e prestimoso, acabou com a vida dele. Isso contavam, já de dentro do meu ouvido. A quizília que em mim, ânsia forte: o lázaro devia de feder; onde estivesse, adonde fosse, lambuzava pior do que lesma grande, e tudo empestava da doença amaldita. Arte de que as goiabas de todo goiabal viravam fruta peçonhenta... ― e deu dar no gatilho: lei leal essa, de Medeiro Vaz...
O guaimoré! ― xinguei. E gritei pulhas. Acho que insultava era por de certo modo retardar meu dever? Ele não respondeu. Em ante mim, assim, ninguém não respondesse? Mas fincava de me olhar: ah, ele tinha dois olhos, no meio das folhas da folhagem. Muito coitado ele era ― o senhor esteja de acordo.
Mas, aí, foi que vi e repeli o quê que é ódio de leproso! Na cabeça daqueles olhos, eu armei minha pontaria.
E ouvi o vir dum cavaleiro. Esperei. Não dissessem que eu tinha baleado à traição o maldelazento, com escondidos de não ter testemunhas. Quem vinha? Em já madruga-manhã, tudo clareado, reconheci! Diadorim! Embolsei a arma, sem razão. Diadorim me perseguia? Vigia, Diadorim! tu pune por este?! ― eu havia de indagar, apontando o esconso do leproso. Estou aqui, te vejo é você mesmo, Riobaldo... ― ele ia dizer ― ...Riobaldo, tem tento! ... A imaginação dessa conversa, eu pensei de relance, como uma brasa chia em dentro de vasilha dágua. Assim estremeci, eu ente. Porque, do bafo mesmo de minha ideia vã, eu estava catando tal anúncio de acusação! ― Tu traz o Arrenegado... Eu e ele ― o Dê?! Então, num sutil, podia mesmo ser que ele quisesse estar tomando conta de mim? ― Aí, nem nunca, nem! ― eu rosnei, riso. Espinoteei na sela, feito acordado dum cochilo de cão. E Diadorim tropeava chegando. Mas eu virei rédea e roseteei, com brado, meu animal cumprindo! rompemos em galope que era um abismo...
E, diôgo! dianho!... Eh diôgo, eh dião...
Retos, fomos, desabalando, que um quarto-de-légua quase, por doidejo. Nós três? Que eu pensei. E esbarrei, por tanto; meu cavalo sacudiu o pescoço todo. Espiei em roda, até com a mão. Não vi o demo... Meu espírito era uma coceira enorme. Como eu ia poder contra esse vapor de mal, que parecia entrado dentro de mim, pesando em meu estômago e apertando minha largura de respirar? Aí eu carecia de negar pouso a ele. A nega. Eu quis! Eu quis?
Como olhei, Diadorim estava acolá, estacado parado no lugar, perto da árvore do homem. Por certo ele tinha enxergado a coisa viva, e estava desentendendo meu espaço, esses desatinos.
Contemplei Diadorim, daquela distância. Montado sempre, teso de consciência, ele me parecia mais alto de ser, e não bulia, por mim avistado. E o lázaro? Ah, esse, que se espertasse, que fugisse, para não falecer... Que é que adiantava que, àquela hora, os passarinhos cantassem, acabando de amanhecer o campo sertão? A enquanto sobejasse de viver um lázaro assim, mesmo muito longe, neste mundo, tudo restava em doente e perigoso, conforme homem tem nôjo é do humano.
Condenado de maldito, por toda lei, aquele estrago de homem estava; remarcado: seu corpo, sua culpa! Se não, então por que era que ele não dava cabo do mal, ou não deixava o mal dar logo cabo dele? Homem, ele já estava era morto. Que o que Diadorim dissesse; que dissesse. Que aquele homem leproso era meu irmão, igual, criatura de si? Eu desmentia. Como era que, sabendo de um lázaro assim, eu ia poder prezar meu amor por Diadorim, por Otacília?! E eu não era o Urutú-Branco? Chefe não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o defeituoso. Esporeei, voltando. Não sou do demo e não sou de Deus! ― pensei bruto, que nem se exclamasse; mas exclamação que havia de ser em duas vozes, uma muito diferente da outra. Vim feito. Tornei a empunhar o revólver. Mas completei, eu mesmo, aquilo que Diadorim decerto ia me responder: Riobaldo, tu mata o pobre, mas, ao menos, por não desprezar, mata com tua mão cravando faca ― tu vê que, por trás do pôdre, o sangue do coração dele é são e quente... Encostar nele a ponta de minha franqueira de cabo prateante? ― Toma! Tu cai no chão... Agalopando assim, joguei fora meu revólver. Joguei ― ou foi um ramo de rompe-gibão que rolou arrancando a arma de meu pulso. Cheguei, esbarrei. Meu cavalo, tão airoso, batia mão, rapava; ele deu um bufo de burro.Vi Diadorim. Mas o leprento tinha ganhado para se ir, graças que não assisti à arriação dele: decerto descendo às pressas, se escapando de gatas nas môitas de feijão-bravo. Desse, tive um cansaço enorme; pode que seja por não saber se matava ou não matava, caso ele ainda estivesse lá. Do leproso.
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Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

25/04/2026

O sertão tudo não aceita?


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Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não se prezava o meu nome. Eu ― o Urutú-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser o que não dava realce ― qualquer um podia, fazendeiro com posses, mão em políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas. Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? ― Cigano sou? ― eu pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo ― o recado enviado. Mas, à vez, balancei uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente! tudo o que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza! que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando.Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem ― a mais de meu merecimento ― e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão... Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens... Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremêdo de sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília ― me alembrei da luzinha de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém tinha me contado que assim eram assim, para gozo e sentimento. O corpo ― em lei dos seios e da cintura ― todo formoso, que era de se ver e logo decorar exato. E a docice da voz: que a gente depois viajasse, viajasse, e não faltava frescura d água em nenhumas todas as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o recado na verdade fosse outro ― o para ela vir, afoitamente, que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! ― digo. Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós ― que seguimento de coisas havia de suceder?
A bobeia, toleima. Otacília estava guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim, mire veja. O senhor saiba ― Diadorim! que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia.
Máximo me lembro é de que, na minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruirem descanso. A lá esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha nôiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito singelo! as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por oras. Por que? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também; mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite ― esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim esperando. E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim, vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato... O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio assim, como é que eu ia dizer: ― Te arreda desta minha conversa!?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: ― que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse... Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração: não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado ― por outras fortes ordens... ―; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um impossível. Demiti de tudo.
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Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas