terça-feira, 5 de maio de 2026

“― Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela..."



[…]

O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu remorso. Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos! eram só os minutos, e, ali durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado. Assim! ― Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela... ― isto eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto! como havia de escapulir dele, do Temba, que eu tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? Mas, então, governar pudesse, eu não era o Urutú-Branco, não vinha a ser chefe de nada, coisa nenhuma! Ah, eu carecia dum jeito, dum esperto socôrro, para tentear com o Sujo em suas próprias portas, e mediante me pôr livre de fim fatal. De que modo?
Mas acontece que o instante entre o sono e o acordado era assaz curto, só perpassava, não dava pé. Eu não podia me firmar em coisa nenhuma, a clareza logo cessava. Daqueles avisos e propósitos, o montante movimento do mundo me delia, igual a um secar. E eu mesmo estava contra mim, o resto do tempo. Não estava? Todo o mundo, cada dia, me obedecia mais, e mais me exaltavam. Com o que peguei, aos poucos, o costume de pular, num átimo, da rede, feito fosse para evitar aquela inteligencinha benfazeja, que parecia se me dizer era mesmo do meio do meu coração. Num arranco, desfazia aquilo ― faísca de folga, presença de beija-flôr, que vai começa e já se apaga ― e daí já estava inteirado no comum, nas meias-alegrias! a meia-bondade misturada com maldade a meio. Agora levantava, puxava e arreava meu Siruiz, cavalo para alvoradas. Saía sozinho.
Sair na escuridão, o senhor sabe: aqueles galhos de árvores batendo na cabeça da gente. Sempre eu ia até longe; quando voltava, encontrava o pessoal se aprontando, café já coado, cavalaria em fila para a viagem. Uma vez, inda mais longe fui, do que nas outras. E dei com o lázaro.
Ele se achava como que tocaiando, no alto duma árvore, por se esconder, feito uma cobra ararambóia. Quase levei o susto. E era um homem em chagas nojentas, leproso mesmo, um terminado. Para não ver coisas assim, jogo meus olhos fora! Promovi meu revólver. Aquele de repente se encolheu, tremido; e tremeu tanto depressa, que as ramagens da árvore enroscaram um rumor de vento forte. Não gritou, não disse nada. Será que possuía sobra dalguma voz? Eu tinha de esmagalhar aquela coisa desumana.
Dum fato, na hora, me lembrei: do que tinham me contado, da vez em que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses num goiabal. O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas maduras, por uma e uma, no pé, com o fito de transpassar o mal para outras pessoas, que depois comessem delas. Uns assim fazem. Medeiro Vaz, que era justo e prestimoso, acabou com a vida dele. Isso contavam, já de dentro do meu ouvido. A quizília que em mim, ânsia forte: o lázaro devia de feder; onde estivesse, adonde fosse, lambuzava pior do que lesma grande, e tudo empestava da doença amaldita. Arte de que as goiabas de todo goiabal viravam fruta peçonhenta... ― e deu dar no gatilho: lei leal essa, de Medeiro Vaz...
O guaimoré! ― xinguei. E gritei pulhas. Acho que insultava era por de certo modo retardar meu dever? Ele não respondeu. Em ante mim, assim, ninguém não respondesse? Mas fincava de me olhar: ah, ele tinha dois olhos, no meio das folhas da folhagem. Muito coitado ele era ― o senhor esteja de acordo.
Mas, aí, foi que vi e repeli o quê que é ódio de leproso! Na cabeça daqueles olhos, eu armei minha pontaria.
E ouvi o vir dum cavaleiro. Esperei. Não dissessem que eu tinha baleado à traição o maldelazento, com escondidos de não ter testemunhas. Quem vinha? Em já madruga-manhã, tudo clareado, reconheci! Diadorim! Embolsei a arma, sem razão. Diadorim me perseguia? Vigia, Diadorim! tu pune por este?! ― eu havia de indagar, apontando o esconso do leproso. Estou aqui, te vejo é você mesmo, Riobaldo... ― ele ia dizer ― ...Riobaldo, tem tento! ... A imaginação dessa conversa, eu pensei de relance, como uma brasa chia em dentro de vasilha dágua. Assim estremeci, eu ente. Porque, do bafo mesmo de minha ideia vã, eu estava catando tal anúncio de acusação! ― Tu traz o Arrenegado... Eu e ele ― o Dê?! Então, num sutil, podia mesmo ser que ele quisesse estar tomando conta de mim? ― Aí, nem nunca, nem! ― eu rosnei, riso. Espinoteei na sela, feito acordado dum cochilo de cão. E Diadorim tropeava chegando. Mas eu virei rédea e roseteei, com brado, meu animal cumprindo! rompemos em galope que era um abismo...
E, diôgo! dianho!... Eh diôgo, eh dião...
Retos, fomos, desabalando, que um quarto-de-légua quase, por doidejo. Nós três? Que eu pensei. E esbarrei, por tanto; meu cavalo sacudiu o pescoço todo. Espiei em roda, até com a mão. Não vi o demo... Meu espírito era uma coceira enorme. Como eu ia poder contra esse vapor de mal, que parecia entrado dentro de mim, pesando em meu estômago e apertando minha largura de respirar? Aí eu carecia de negar pouso a ele. A nega. Eu quis! Eu quis?
Como olhei, Diadorim estava acolá, estacado parado no lugar, perto da árvore do homem. Por certo ele tinha enxergado a coisa viva, e estava desentendendo meu espaço, esses desatinos.
Contemplei Diadorim, daquela distância. Montado sempre, teso de consciência, ele me parecia mais alto de ser, e não bulia, por mim avistado. E o lázaro? Ah, esse, que se espertasse, que fugisse, para não falecer... Que é que adiantava que, àquela hora, os passarinhos cantassem, acabando de amanhecer o campo sertão? A enquanto sobejasse de viver um lázaro assim, mesmo muito longe, neste mundo, tudo restava em doente e perigoso, conforme homem tem nôjo é do humano.
Condenado de maldito, por toda lei, aquele estrago de homem estava; remarcado: seu corpo, sua culpa! Se não, então por que era que ele não dava cabo do mal, ou não deixava o mal dar logo cabo dele? Homem, ele já estava era morto. Que o que Diadorim dissesse; que dissesse. Que aquele homem leproso era meu irmão, igual, criatura de si? Eu desmentia. Como era que, sabendo de um lázaro assim, eu ia poder prezar meu amor por Diadorim, por Otacília?! E eu não era o Urutú-Branco? Chefe não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o defeituoso. Esporeei, voltando. Não sou do demo e não sou de Deus! ― pensei bruto, que nem se exclamasse; mas exclamação que havia de ser em duas vozes, uma muito diferente da outra. Vim feito. Tornei a empunhar o revólver. Mas completei, eu mesmo, aquilo que Diadorim decerto ia me responder: Riobaldo, tu mata o pobre, mas, ao menos, por não desprezar, mata com tua mão cravando faca ― tu vê que, por trás do pôdre, o sangue do coração dele é são e quente... Encostar nele a ponta de minha franqueira de cabo prateante? ― Toma! Tu cai no chão... Agalopando assim, joguei fora meu revólver. Joguei ― ou foi um ramo de rompe-gibão que rolou arrancando a arma de meu pulso. Cheguei, esbarrei. Meu cavalo, tão airoso, batia mão, rapava; ele deu um bufo de burro.Vi Diadorim. Mas o leprento tinha ganhado para se ir, graças que não assisti à arriação dele: decerto descendo às pressas, se escapando de gatas nas môitas de feijão-bravo. Desse, tive um cansaço enorme; pode que seja por não saber se matava ou não matava, caso ele ainda estivesse lá. Do leproso.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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