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27/09/2023

A bela cena

Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, não conhecia a experiência da paixão. O que ele conhecia eram os prazeres do sexo. Esgotada a orgia, o seu desejo era se livrar da mulher. A ideia de acordar com uma mulher ao lado o horrorizava. O seu horror ao amor era tal que nunca permitia que uma mulher dormisse na sua cama. Encontrava sempre uma desculpa para se livrar da companheira, levando-a de volta à casa dela. Ele se parecia com o sultão de As mil e uma noites, que, depois de uma noite de prazeres carnais, quando o sol iluminava o horizonte, fazia com que a amante fosse decapitada... Era assim que Tomas agia, como um animal caçador que abandona a caça tão logo sua fome é satisfeita.
Mas com Tereza tudo foi diferente. Não que ela tivesse algum traço especial, que a distinguisse das outras. Não era mais bonita. Por que Tomas a amou e deixou que ela passasse a noite na cama dele? Por mais que a examinasse, nada encontrava nela que pudesse ser apontado como a razão do seu amor. Eles se conheciam por um tempo tão curto! Mas, sem razões e contra a sua vontade, o fato era que ele estava apaixonado por ela.
Sua aventura com Tereza havia começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. Ela acontecera do outro lado do impulso que o levava às conquistas. Conhecera Tereza acidentalmente, num bar de uma cidadezinha do interior. Dissera-lhe, quase como brincadeira, que o procurasse se fosse à capital. E lhe dera o seu endereço. Tereza chegou à capital doente, sentindo-se perdida. Não tinha para onde ir. Foi isso que a levou a procurar Tomas. E foi aí que a história de amor começou.
Ela ardia em febre. Ele não podia fazer com ela aquilo que fazia com as outras. Não podia levá-la de volta para casa, porque ela não tinha casa. Ajoelhado à sua cabeceira, “ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas”.
Agora, a distância, pensava sobre as razões do seu amor e fazia, sem que disso se desse conta, a insólita pergunta de Santo Agostinho: “o que é que amo quando amo Tereza?”. Tudo se tornou claro de repente. Ele ficou comovido pela fragilidade de Tereza adormecida – criança amedrontada, chegando aos seus braços com um pedido de socorro.

A mulher não resiste à voz do que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz. Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar de memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.

Agora, na memória poética de Tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. Era uma parte da sua alma. Não morreria jamais.
O que é que amo quando te amo?” Tomas amava Tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. Na cena, Tereza não era Tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. E, de repente, ele deixou de ser Tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. Tereza poderia deteriorar-se ou morrer. Mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.
Amamos a bela cena antes de amar a pessoa. Amamos a pessoa porque ela completa a bela cena. Por isso Santo Agostinho, antecedendo os versos de Fernando Pessoa, escreveu em suas Confissões: “antes que te conhecesse eu já te amava”. Somos amantes antes de nos encontrar com a mulher ou com o homem que será o objeto do nosso amor. A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, seus rostos envoltos pelas sombras. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma ao lado dos sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto – ou apenas uma voz, um olhar, um gesto com a mão... – que, sem razões, ilumina um dos quadros que estava no escuro. Somos então possuídos pela certeza de que esse rosto que os olhos veem é o mesmo que está no quadro que mora nas sombras da alma. O corpo estremece. A paixão está nascendo.

Rubem Alves, in Cantos do Pássaro Encantado

29/09/2019

O parecer

No dia seguinte, a Sra. Marie me contou que o Sr. Zaturecky a ameaçara, vociferara e tinha ido reclamar; a infeliz criatura estava com a voz trêmula, à beira das lágrimas; dessa vez fiquei colérico. Compreendia muito bem que a Sra. Marie, que até agora vinha se distraindo com esse jogo de esconde-esconde (mais por simpatia por mim do que por franca alegria), agora se sentisse ofendida e visse em mim, naturalmente, a causa dos seus aborrecimentos. E se eu acrescentasse a esses agravos o fato de a Sra. Marie ter revelado o endereço de minha mansarda, de minha porta ter sido tamborilada durante dez minutos e de haverem assustado Klara, minha cólera se transformaria em fúria.
E lá estava eu a dar grandes passadas no escritório da Sra. Marie, mordendo os lábios, fervendo, imaginando uma vingança, e eis que a porta se abre e aparece o Sr. Zaturecky.
Assim que me viu, seu rosto se iluminou de felicidade. Inclinou-se e me deu bom-dia.
Chegara muito cedo, sem me dar tempo de pensar em minha vingança.
Perguntou se me haviam entregue seu recado da véspera.
Não respondi nada.
Ele repetiu a pergunta.
Sim — respondi finalmente.
E o senhor vai escrever o parecer?
Eu o via diante de mim: mesquinho, teimoso, ameaçador; via o sulco vertical que desenhava em sua testa o traço de sua única paixão; via esse traço retilíneo e compreendi que era uma linha reta determinada por dois pontos: meu parecer crítico e seu artigo; e que, exceto o vício dessa linha maníaca, nada existia em sua vida a não ser uma ascese digna de um santo. E não resisti a uma malevolência salutar.
Espero que o senhor compreenda que não tenho mais nada a lhe dizer depois do que se passou ontem — disse eu.
Não estou compreendendo.
Não tente disfarçar. Ela me contou tudo. É inútil negar.
Não estou compreendendo — tornou a repetir o homenzinho, mas, desta vez, em tom mais enérgico.
Assumi um tom jovial e quase afetuoso:
Escute, Sr. Zaturecky, não lhe quero fazer censuras. Eu também sou mulherengo, e o compreendo. Eu também, em seu lugar, faria de bom grado propostas a uma mulher bonita, se me encontrasse sozinho com ela num apartamento e ela estivesse nua por baixo de uma capa.
O homenzinho ficou lívido.
É um insulto!
Não, é a verdade, Sr. Zaturecky.
Foi aquela moça que contou isso?
Para mim ela não tem segredos.
Camarada assistente, isso é um insulto, sou um homem casado, tenho mulher, tenho filhos! — O homenzinho deu um passo à frente, obrigando-me a recuar.
É uma circunstância agravante, Sr. Zaturecky.
O que o senhor quer dizer?
Quero dizer que o fato de ser casado é uma circunstância agravante para um mulherengo.
O senhor vai retirar essas palavras! — disse o Sr. Zaturecky em tom ameaçador.
Está certo! — disse eu, conciliador. — O casamento não é necessariamente uma circunstância agravante para um mulherengo. Mas pouco importa. Já disse que não fiquei com raiva e que compreendo perfeitamente o que se passou. Mas existe mesmo assim uma coisa que está acima da minha compreensão: é que o senhor possa exigir que um homem escreva um parecer sobre seu artigo, depois de ter feito propostas à sua namorada.
Camarada assistente! É o Sr. Kalusek, doutor em letras, redator-chefe da revista O Pensamento Plástico, periódico publicado sob os auspícios da Academia de Ciências, que exige esse parecer: e o senhor deve escrevê-lo!
Escolha! O parecer ou minha namorada? O senhor não pode querer os dois!
Veja como está se comportando! — gritou o Sr. Zaturecky, dominado por uma cólera desesperada.
Coisa estranha, eu tinha de repente o sentimento de que o Sr. Zaturecky queria realmente seduzir Klara. Explodi e comecei por minha vez a gritar:
O senhor se acha com o direito de pregar moral? O senhor é quem deveria apresentar as mais completas desculpas à nossa secretária.
Virei as costas ao Sr. Zaturecky e ele saiu da sala titubeante, desamparado.
Até que enfim! — disse com um suspiro, depois desse combate difícil, mas vitorioso, e acrescentei dirigindo-me à Sra. Marie: — Acho que agora ele vai me deixar em paz com esse parecer!
Depois de um minuto de silêncio, a Sra. Marie perguntou-me timidamente:
E por que o senhor não redige o parecer?
Porque o artigo dele, minha cara Marie, é um amontoado de asneiras.
E por que o senhor não escreve um parecer dizendo que é um amontoado de asneiras?
E por que cabe a mim escrevê-lo? Por que devo fazer inimigos?
A Sra. Marie me olhava com um grande sorriso indulgente quando a porta abriu-se de novo; o Sr. Zaturecky apareceu com o braço levantado:
Vamos ver quem vai pedir desculpas!
Proferiu essas palavras com uma voz estridente e desapareceu.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

19/09/2019

Ninguém vai rir - 5

Sim, meu domicílio permanente é em Litomysl. Lá estão minha mãe e as lembranças de meu pai; cada vez que posso, saio de Praga e vou trabalhar e estudar em casa, na pequena moradia de mamãe. De modo que conservei o endereço dela como endereço permanente. Mas em Praga não fui capaz de encontrar um apartamento conveniente, como seria normal e necessário; moro em sublocação num bairro de subúrbio, sob os telhados, numa pequena mansarda completamente independente cuja existência escondo tanto quanto possível para evitar o encontro inútil de visitantes indesejáveis com minhas efêmeras companheiras.
Não poderia portanto pretender que minha reputação no prédio fosse exatamente das melhores. Além disso, durante minhas estadas em Litomysl, emprestara muitas vezes meu quarto a camaradas que se divertiam tanto que ninguém na casa conseguia pregar olho durante a noite. Tudo isso provocava a indignação de certos locatários, e estes faziam contra mim uma guerra surda, que se manifestava de vez em quando por advertências que o comitê da rua formulava a meu respeito, inclusive com uma queixa ao serviço de habitação.
Na época a que me refiro, Klara começava a achar cansativo sair de Celakovice para trabalhar em Praga, e tinha resolvido dormir em minha casa, a princípio timidamente e em casos excepcionais; depois deixou em minha casa um vestido, mais tarde vários vestidos, e no fim de algum tempo meus dois ternos estavam esmagados no fundo do armário e minha mansarda transformada em salão feminino.
Gostava muito de Klara; era bonita e me agradava que as pessoas virassem a cabeça para nos olhar quando saíamos juntos; tinha treze anos menos do que eu e essa circunstância só fazia aumentar meu prestígio junto aos meus alunos; numa palavra, tinha mil razões para me apegar a ela. No entanto não queria que soubessem que ela morava em minha casa. Temia que se voltassem contra meu valente proprietário, um homem idoso que se mostrava discreto e não se metia na minha vida; tremia em pensar que um dia ele pudesse vir, triste e contrariado, pedir-me para botar a moça na rua em defesa de sua boa reputação. Por isso Klara recebera instruções de não abrir a porta para ninguém.
Naquele dia estava sozinha em casa. Era um belo dia ensolarado e a mansarda estava sufocante. Ela estava deitada nua no meu divã e se dedicava a contemplar o teto.
Então começaram a tamborilar na porta.
Não havia o que temer, pois não há campainha na porta. As visitas, portanto, têm que bater. Klara não se deixou perturbar com esse barulho nem pensou em interromper sua contemplação do teto. Mas as batidas na porta não paravam; ao contrário, continuavam com uma tranquila e incompreensível perseverança. Klara acabou se enervando. Pôs-se a imaginar que atrás da porta estaria um senhor que levantava lenta e eloquentemente a gola do casaco e que em seguida iria lhe perguntar rispidamente por que ela não abria, o que escondia e se estava registrada nesse endereço. Cedeu a um sentimento de culpa, baixou os olhos que conservava sempre fixos no teto e procurou com o olhar o lugar em que deixara suas roupas. Mas as batidas eram tão obstinadas que ela, na sua confusão, só pôde encontrar minha capa pendurada na entrada. Enfiou-a e abriu.
No limiar da porta, em vez do rosto mau de um bisbilhoteiro, ela viu apenas um homenzinho que a cumprimentava:
O Sr. assistente está em casa?
Não, ele saiu!
É pena — disse o homem, e desculpou-se polidamente por incomodar Klara. — O Sr. assistente deve escrever um parecer sobre um artigo de minha autoria. Ele me prometeu e agora esse problema é muito urgente. Se a senhora permitir, gostaria de lhe deixar um recado.
Klara entregou ao homem papel e lápis e à noite pude ler que a sorte de seu artigo sobre Mikolas Ales estava em minhas mãos e que o Sr. Zaturecky esperava com respeito que eu redigisse a nota prometida. Acrescentou que voltaria a me procurar na faculdade.
Milan Kundera, in Risíveis amores

06/09/2019

Ninguém vai rir - 3

Um belo dia, ao terminar meu curso (ensino história da pintura), a secretária, a Sra. Marie, dama afável e idosa que me prepara o café e responde que não estou quando são ouvidas ao telefone indesejáveis vozes femininas, veio bater à porta da sala de aula. Pôs a cabeça no vão da porta e disse que havia um senhor me esperando.
Os senhores não me assustam. Deixei meus alunos e saí tranqüilo pelo corredor, onde um homem baixo, de terno preto surrado e camisa branca me cumprimentou. Depois me anunciou muito respeitosamente que se chamava Zaturecky.
Levei meu visitante para uma sala vazia, ofereci-lhe uma poltrona e iniciei a conversa com um tom jovial, falando sobre assuntos banais; do desagradável verão que atravessávamos e das exposições de Praga. O Sr. Zaturecky concordava polidamente com cada uma de minhas opiniões, mas procurava desviar a conversa para seu artigo que de súbito se ergueu entre nós, em sua invisível substância, como um irresistível ímã.
Escreveria de boa vontade um parecer sobre o seu trabalho — disse eu afinal —, mas já lhe expliquei na minha carta que ninguém me considera um especialista em pintura tcheca do século XIX e que, além disso, não estou nos melhores termos com a redação de O Pensamento Plástico, onde sou visto como um modernista inveterado, e por isso uma apreciação favorável de minha parte poderia apenas lhe ser prejudicial.
Oh! O senhor é demasiado modesto — retrucou o Sr. Zaturecky. — Como um especialista do seu porte pode ser tão pessimista sobre sua própria posição? Disseram-me na redação que tudo agora dependia da sua opinião. Se o senhor for favorável ao meu artigo, ele será publicado. O senhor é a minha única chance. Este trabalho representa três anos de estudos, três anos de pesquisas. Tudo agora está em suas mãos.
Com que indiferença e com que pobre metal forjamos nossos subterfúgios! Não sabia o que responder ao Sr. Zaturecky. Levantando maquinalmente os olhos para ele, vi uns inocentes óculos, pequenos e fora de moda, mas também uma profunda ruga enérgica traçada verticalmente na sua testa. Num breve instante de lucidez, um arrepio me percorreu a coluna vertebral. Aquela ruga atenta e teimosa não refletia apenas o martírio intelectual de seu proprietário debruçado sobre os desenhos de Mikolas Ales, mas também uma força de vontade pouco comum. Perdendo toda a presença de espírito, não conseguia mais encontrar desculpas suficientemente hábeis. Sabia que não redigiria aquele parecer, mas sabia também que não teria a força de dizê-lo diante daquele pequeno homem súplice. De maneira que comecei a sorrir e a proferir vagas promessas. O Sr. Zaturecky me agradeceu dizendo que voltaria de novo para se informar; deixei-o todo sorrisos.
Voltou efetivamente alguns dias mais tarde, consegui evitá-lo com habilidade, mas me informaram no dia seguinte que ele tornara a me procurar na faculdade. Compreendi que a coisa ia mal. Fui logo ao encontro da Sra. Marie a fim de tomar as providências que se impunham.
Por favor, Sra. Marie, se algum dia esse senhor voltar a me procurar, diga a ele que fui fazer uma viagem de estudos à Alemanha e que não estarei de volta antes de um mês. Outra coisa, todas as minhas aulas são às terças e quartas-feiras. Daqui por diante darei minhas aulas às quintas e sextas. Apenas meus alunos serão informados, não diga a ninguém e não modifique o horário. Preciso ficar na clandestinidade.
Milan Kundera, in Risíveis amores

27/08/2019

Ninguém vai rir - 2

Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou.
Eu imaginava naquela noite brindar ao meu sucesso, e de modo algum podia prever que aquilo pudesse ser o prenúncio solene do meu fim.
E porque não duvidava de nada, acordei no dia seguinte de bom humor: enquanto Klara continuava dormindo um sono feliz, peguei o artigo anexado à carta do Sr. Zaturecky e comecei a lê-lo na cama com uma indiferença divertida.
Esse artigo, intitulado Um mestre do desenho tcheco, Mikolas Ales, não merecia nem mesmo a meia hora de desatenção que eu lhe dispensava. Era um conjunto de lugares-comuns alinhados sem o menor senso de lógica.
Era, sem dúvida alguma, uma inépcia. Opinião que o Dr. Kalusek, redator-chefe da revista O Pensamento Plástico (personagem por sinal dos mais antipáticos), confirmou no mesmo dia por telefone. Ele ligou para mim na faculdade e disse: — Você recebeu a dissertação do Sr. Zaturecky? Pois bem, faça-me o favor de redigir; cinco leitores demoliram seu artigo, mas ele continua insistindo e acha que você é a única e exclusiva autoridade. Escreva em poucas linhas que o artigo não tem fundamento. Você é bem indicado para isso, pois sabe ser incisivo, e assim ele nos deixará em paz.
Mas alguma coisa em mim se revoltou. Por que deveria ser exatamente eu o carrasco do Sr. Zaturecky? Era eu por acaso quem recebia um salário de redator-chefe? Aliás, lembrava-me muito bem que a revista O Pensamento Plástico tinha julgado prudente recusar meu estudo; e também o nome do Sr. Zaturecky estava para mim fortemente ligado à lembrança de Klara, à garrafa de slivovice e a uma boa noitada. E, por último, não posso negá-lo, é humano, poderia contar nos dedos da mão e talvez num só dedo, as pessoas que me consideram como “a única e exclusiva autoridade”. Por que me tornar inimigo desse único admirador?
Terminei minha conversa com Kalusek com algumas palavras espirituosas e vagas que cada um de nós podia considerar como quisesse, ele como uma promessa e eu como uma escapatória. Desliguei firmemente decidido a jamais escrever o parecer crítico para o Sr. Zaturecky.
Apanhei então um papel de carta na gaveta e escrevi ao Sr. Zaturecky evitando cuidadosamente formular qualquer tipo de apreciação sobre seu trabalho, alegando o fato de que minhas ideias sobre a pintura do século XIX são tidas em geral como erradas, sobretudo pela redação da revista O Pensamento Plástico, de modo que minha intervenção poderia ser mais nociva do que útil; ao mesmo tempo, envolvia o Sr. Zaturecky com uma eloquência amistosa na qual não passaria despercebida uma marca de simpatia por ele.
Logo que essa carta foi posta na caixa do correio, esqueci o Sr. Zaturecky. Mas o Sr. Zaturecky não me esqueceu.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

17/08/2019

Ninguém vai rir - 1

Sirva-me mais um copo de slivovice — pediu Klara, e não fui contra. Havíamos encontrado um pretexto que não tinha nada de extraordinário para abrir a garrafa, mas que se justificava: eu acabara de receber naquele dia uma quantia bem razoável como pagamento por um longo estudo que saíra numa revista de história da arte.
Meu estudo acabara sendo publicado, embora com um certo esforço. O que escrevera eram apenas críticas e polêmicas. Por isso a revista O Pensamento Plástico, com sua redação sombria e circunspecta, recusara esse texto que eu encaminhara finalmente a uma revista concorrente, certamente menos importante, mas cujos redatores eram mais jovens e menos sensatos.
O carteiro trouxera para mim, na faculdade, uma ordem de pagamento e uma carta; uma carta sem importância, que li por alto de manhã, impressionado com minha nova projeção. Mas de volta a casa, quando se aproximava a meia-noite e a garrafa estava quase no fim, apanhei a carta na minha mesa e a li para Klara, a título de gracejo:
Prezado camarada — e se posso me permitir usar este termo — prezado colega —, perdoe a um homem, com quem o senhor nunca falou, tomar a liberdade de escrever-lhe. Dirijo-me ao senhor para pedir-lhe que leia o artigo em anexo. Não o conheço pessoalmente mas o estimo, pois o senhor a meu ver é um homem cujas opiniões, raciocínios e conclusões sempre me pareceram confirmar de maneira surpreendente os resultados de minhas próprias pesquisas...”
Seguiam-se grandes elogios aos meus méritos e uma solicitação: ele me pedia o favor de redigir um parecer crítico à revista O Pensamento Plástico, que recusava há seis meses esse texto, negando-lhe qualquer valor. Tinham dito ao interessado que minha opinião seria decisiva, de maneira que eu era a única esperança do autor, a única luz naquelas teimosas trevas.
Klara e eu trocávamos toda espécie de brincadeiras sobre esse Sr. Zaturecky, cujo nome pomposo nos fascinava. Mas brincadeiras desprovidas, claro, de qualquer intenção maldosa, pois tantos elogios me enterneciam, sobretudo com uma garrafa de excelente slivovice ao alcance de minha mão. A tal ponto que nesses instantes inesquecíveis eu amava o mundo inteiro e, não podendo dar presentes ao mundo inteiro, eu os dava a Klara — se não presentes, pelo menos promessas.
Klara, com seus vinte anos, era uma moça de boa família. O que estou dizendo, de excelente família! Seu pai, ex-diretor de banco e, portanto, representante da grande burguesia, fora expulso de Praga por volta de 1950, e instalara-se na cidade de Celakovice, a uma distância considerável da capital. A filha, mal-aceita por parte da administração, trabalhava como costureira diante de uma máquina de costura no imenso ateliê de uma confecção de Praga. Eu estava sentado diante dela e encorajava seu interesse por mim, elogiando levianamente as vantagens do emprego que eu prometera lhe arranjar com a ajuda dos meus amigos. Afirmei-lhe que era inadmissível que uma moça tão bonita perdesse sua beleza em frente a uma máquina de costura e decidi que ela devia se tornar manequim.
Klara não me contradisse e passamos a noite em feliz harmonia.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

09/08/2019

O pomo de ouro do eterno desejo

Martin estava a meu lado no seu banco e recuperava-se lentamente da decepção.
Escute — disse ele —, sua estudante de medicina é mesmo de primeira ordem?
Já disse, é do tipo da sua Georgina.
Martin me fez outras perguntas. Foi preciso que eu descrevesse mais uma vez a estudante de medicina.
Quem sabe, depois, você pode passá-la para mim — disse ele.
Quis parecer verdadeiro. — Receio que seja difícil. Iria incomodá-la o fato de você ser meu amigo. Ela tem princípios...
Ela tem princípios — repetiu Martin tristemente, e vi que ele deplorava esse fato.
Não quis atormentá-lo.
A menos que eu faça de conta que não o conheço — disse eu. — Você poderia, por exemplo, se fazer passar por outra pessoa.
Boa ideia! Por exemplo, me fazer passar por Forman, como hoje.
Os cineastas não lhe interessam. Ela prefere os esportistas.
Por que não? — disse Martin. — Tudo é possível — e estávamos novamente em plena discussão. O plano se definia de minuto em minuto, em breve iria balançar sobre nossas cabeças, na tarde que começava a cair, como um belo pomo maduro e radioso.
Permitam-me que chame a esse pomo, com certa ênfase, o pomo de ouro do eterno desejo.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

02/08/2019

O arrependimento

Estávamos saindo da cidade de B..., deixando as últimas casas e entrando na paisagem de campos e árvores, com o sol desaparecendo atrás dos morros.
Estávamos calados.
Eu pensava em Judas Iscariotes, o qual, segundo um escritor religioso, traíra Jesus Cristo por acreditar infinitamente nele; por isso não pôde esperar o milagre pelo qual Jesus deveria manifestar a todos os judeus seu poder divino; e por isso entregou-o aos esbirros para forçá-lo logo à ação. Ele o traiu porque queria apressar a hora de sua vitória.
Pena, fiquei cismando, se traí Martin, foi exatamente pela razão contrária, foi porque parei de acreditar nele (e na essência divina de sua corrida às mulheres); sou um híbrido infame de Judas Iscariotes e de Tomé, aquele que chamamos o Incrédulo. Sentia que meu pecado aumentava ainda mais minha simpatia por Martin e que a bandeira da eterna procura da mulher (essa bandeira que víamos tremular sem cessar acima das nossas cabeças) me enternecia até as lágrimas. Começava a me culpar por minha precipitação.
Seria eu capaz, um dia, de renunciar a esses gestos que significam a juventude? Que outra coisa poderia fazer senão me contentar em imitá-los, e tentar encontrar na minha vida racional um pequeno espaço para essa atividade irracional? Pouco importa que tudo isso seja um jogo inútil! Pouco importa que saiba disso! Iria eu renunciar ao jogo simplesmente porque ele é inútil?
Milan Kundera, in Risíveis amores

22/07/2019

A traição

O sol começava a se pôr lentamente sobre os telhados da cidade, o vento refrescava ligeiramente, e estávamos tristes. Em todo caso fomos até o self-service ver se a moça de calça de veludo ainda estava à nossa espera. Claro que não estava. Eram seis e meia. Voltamos para o carro. Sentimo-nos de repente como dois homens banidos de uma cidade estrangeira e de suas alegrias, e só nos restava procurar refúgio no território de nosso carro, que parecia gozar do privilégio da extraterritorialidade.
Vamos! — gritou Martin já dentro do carro. — Não faça essa cara de enterro, o principal está para acontecer.
Tive vontade de responder que só dispúnhamos de uma hora para o principal, por causa de Georgina e de seu jogo de cartas, mas preferi me calar.
Aliás — acrescentou Martin —, o dia foi bom. Cerco da garota de Puzdrany, abordagem da moça de calça de veludo; tudo está preparado para nós nesta cidade, basta que voltemos uma outra vez.
Eu nada respondi. É, o cerco e a abordagem tinham sido perfeitamente bem-sucedidos. Tudo estava em ordem. Mas tive de repente a impressão de que Martin não conseguira nada de sério neste último ano, fora os cercos e abordagens.
Fiquei olhando para ele. Seus olhos brilhavam como de costume com sua luz eternamente ávida; naquele momento senti como lhe queria bem, como eu admirava a bandeira atrás da qual ele desfilou toda a vida: a bandeira da eterna busca de mulher.
O tempo passava e Martin disse: — São sete horas.
Estacionamos o carro a uns dez metros do portão do hospital, para que eu pudesse observar a entrada pelo retrovisor.
Continuava pensando naquela bandeira. Pensei que o alvo desta procura, à medida que passam os anos, é muito menos a mulher e cada vez mais a procura em si. Com a condição de que se trate de uma busca antecipadamente inútil, podemos a cada dia perseguir um número infinito de mulheres e dessa maneira transformar a caça numa caça absoluta. É, Martin se colocava na situação da caça absoluta.
Estávamos esperando havia cinco minutos. As moças não apareciam.
Isso não me inquietava absolutamente. Que elas viessem ou não, não tinha a menor importância. Pois se viessem, poderíamos nós, em uma hora, levá-las a um chalé distante, conquistar-lhes a confiança, deitar com elas, pedir licença às oito horas e depois ir embora? Não, a partir do momento em que Martin tinha decidido que tudo deveria terminar às oito, havia reduzido nossa aventura a um jogo ilusório.
Estávamos esperando havia dez minutos. Ninguém aparecia na entrada do hospital.
Martin indignava-se e quase gritou:
Vou dar mais cinco minutos, não espero mais do que isso.
Martin não é mais jovem, pensava eu. Ama muito fielmente sua mulher. Na verdade, leva a vida conjugal mais bem-comportada que existe. Esta é a realidade. E acima dessa realidade, a nível de uma inocente e comovente ilusão, a juventude de Martin continua: juventude inquieta, turbulenta e pródiga, reduzida a um simples jogo que não chega a atravessar os limites do ringue para alcançar a vida e concretizar-se na realidade. E como Martin é o cavaleiro cego da Necessidade, dá a essas aventuras a inocência do Jogo, sem ao menos se dar conta; continua a colocar nelas todo o ardor de sua alma.
Bem, pensava eu, Martin é prisioneiro de sua ilusão, mas e eu? E eu? Por que lhe faço companhia neste jogo ridículo? Eu, que sei que tudo isto é um engano? Não seria mais ridículo ainda do que Martin? Por que fingir esperar por uma aventura amorosa quando sei muito bem que o máximo que pode acontecer é perder uma hora, estragada antecipadamente, com duas mulheres desconhecidas e indiferentes?
Foi aí que vi pelo retrovisor as duas mulheres atravessarem o portão do hospital. Mesmo a essa distância podia se notar o efeito do pó-de-arroz e do batom em seus rostos; estavam vestidas com uma elegância exagerada e o atraso estava certamente ligado a isto. Olharam em torno e se dirigiram para nosso carro.
Deixa para lá, Martin — disse eu, fingindo não ver as duas moças. — Já se passaram quinze minutos. Vamos embora. — E pisei no acelerador.
Milan Kundera, in Risíveis amores

16/07/2019

O engano de uma confiança excessiva

Dez minutos se passaram, depois um quarto de hora, e a moça não voltava.
Martin me tranquilizava:
Não tenha medo, se há uma coisa de que estou certo, é que ela voltará. Nosso número foi perfeitamente convincente e a menina estava deslumbrada.
Eu também pensava o mesmo, de sorte que ficamos esperando, cada minuto avivando nosso desejo por essa adolescente quase criança. Enquanto isso, já havíamos deixado passar a hora marcada para nosso encontro com a moça de calça de veludo. Estávamos tão absorvidos pela imagem da garota de branco que nem pensávamos em nos levantar.
E o tempo estava passando.
Escute, Martin, acho que ela não virá mais — disse finalmente.
Como é que você explica isso? Ela acreditou em nós como em Deus Pai.
É isso. Foi justamente nossa desgraça. Ela acreditou demais.
E daí? Você por acaso queria que ela não acreditasse?
Sem dúvida teria sido melhor. Uma fé muito ardente é a pior aliada. — Embalado nessa ideia comecei um discurso: — A partir do momento em que tomamos uma coisa ao pé da letra, a fé transporta essa coisa para o absurdo. O verdadeiro defensor de uma política nunca leva a sério os sofismas dessa política, mas somente os objetivos práticos que se escondem atrás dos sofismas. Pois os clichês políticos e os sofismas não são feitos para serem acreditados. Servem mais como pretexto geral de fácil aceitação; os ingênuos que os levam a sério descobrirão neles, mais cedo ou mais tarde, as contradições, começarão a se revoltar e terminarão sendo desonrosamente considerados como hereges ou renegados. Não, uma fé excessiva nunca traz algo de bom, não apenas aos sistemas políticos ou religiosos, mas até mesmo ao próprio método de que nos servimos para atrair essa moça.
Não o compreendo mais — disse Martin.
No entanto é bem compreensível: para esta moça nós fomos apenas dois senhores muito sérios e ela quis se comportar bem, como uma menina educada que cede seu lugar no bonde às pessoas mais velhas.
Mas então, por que não teria se conduzido bem até o fim?
Justamente porque teve muita confiança em nós. Levou a alface para a mãe e lhe contou tudo com entusiasmo: o filme histórico, os etruscos na Boêmia... e a mamãe...
Martin cortou-me a palavra:
É... Estou compreendendo o que se seguiu. — Depois se levantou.
Milan Kundera, in Risíveis amores

08/07/2019

A moça de branco

De repente Martin empertigou-se (movido sem dúvida por uma intuição secreta), o olhar fixo numa aléia solitária do parque por onde passava uma moça de vestido branco. Mesmo de longe, quando ainda não se podiam distinguir nitidamente as proporções de seu corpo e os traços de seu rosto, percebia-se nela um encanto especial, difícil de explicar, uma espécie de pureza ou ternura.
Quando ela passou perto de nós, vimos que era muito jovem. Não era nem menina nem moça, o que nos lançou num estado de grande excitação, fazendo com que Martin se levantasse de repente.
Senhorita, sou Forman, o diretor de cinema Sabe, o cineasta.
Estendeu a mão à menina, que com uma expressão de enorme espanto apertou-a.
Martin virou o rosto para mim e disse:
Quero lhe apresentar meu câmera.
Sou Ondricek — disse eu, estendendo a mão para a menina.
A menina fez um aceno de cabeça.
Estamos bastante atrapalhados, senhorita. Estou procurando exteriores para meu próximo filme. Meu assistente, que conhece bem a região, devia nos esperar aqui, mas não veio. Estamos sem saber por onde começar nossa visita pela cidade e arredores. Meu câmera — acrescentou Martin, com uma ponta de ironia — estuda o problema neste grosso livro alemão, mas infelizmente não vai achar nada.
Essa alusão ao livro do qual eu ficara privado uma semana me irritou. Passei ao ataque contra meu diretor.
É pena que não tenha se interessado mais por este livro. Se se ocupasse mais seriamente da preparação de seus filmes e não deixasse todo o trabalho de documentação para os assistentes, eles seriam talvez menos superficiais e conteriam menos bobagens. — Depois apresentei minhas desculpas à moça. — Perdão, senhorita. Não queríamos importuná-la com nossas discussões profissionais. Estamos preparando um filme histórico sobre a cultura etrusca na Boêmia.
Sei — disse a moça inclinando-se.
É um livro apaixonante, veja!
Entreguei o livro à moça, que o segurou com um temor quase religioso e pôs-se a folheá-lo distraidamente para atender ao que lhe pareceu ter sido uma sugestão minha.
Acho que o castelo de Pchacek não fica muito longe daqui. Era o centro dos etruscos tchecos, mas como se vai até lá? — perguntei ainda.
Fica a dois passos daqui — respondeu a moça que de repente se animara, pois o fato de conhecer o caminho para Pchacek oferecia-lhe por fim um terreno mais sólido nesse diálogo um tanto incoerente.
Como? Conhece esse castelo? — perguntou Martin simulando um grande alívio.
Claro — disse a moça. — Fica a uma hora daqui.
A pé? — perguntou Martin.
É, a pé — respondeu a moça.
Mas nós estamos de carro — disse eu.
Seja nosso navegador — disse Martin.
No entanto preferi não continuar o rito habitual do jogo de palavras, pois tenho um diagnóstico psicológico mais firme do que Martin; senti que algumas brincadeiras fáceis poderiam nos prejudicar e que uma seriedade total seria nossa melhor aliada.
Não queremos abusar de seu tempo, senhorita — disse eu —, mas se puder nos dedicar uma hora ou duas para nos mostrar os lugares que queremos ver nessa região, ficaríamos muito gratos.
Bem — disse a moça inclinando-se de novo —, eu gostaria, mas... — Só nesse momento percebemos que ela carregava uma cesta de compras onde havia dois pés de alface —; tenho de levar a alface para mamãe, mas é bem perto daqui e volto logo.
Claro, agora, tem de levar a alface para sua mãe como uma boa menina — disse. — Nós ficamos esperando aqui.
Está bem. Não vou demorar mais do que dez minutos. Ela se inclinou mais uma vez e depois foi se afastando com uma pressa em que se percebia interesse.
Nossa Senhora! — disse Martin.
De primeira ordem, não é?
Concordo. Estou disposto a sacrificar por ela as duas enfermeiras.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

30/06/2019

O elogio da amizade

Voltamos ao jardim público para examinar as duplas de moças sentadas nos bancos, mas, quando uma era bonita, o que acontecia algumas vezes, a vizinha não era.
É uma estranha lei da natureza — disse eu a Martin. — As mulheres feias esperam se aproveitar do brilho de suas amigas mais bonitas, e estas esperam brilhar com maior intensidade em contraste com a feiura; para nós isso significa que nossa amizade é submetida a constantes provas. E fico muito orgulhoso por nunca deixarmos a sorte ou o espírito de competição decidir por nós. Entre nós a escolha é sempre uma questão de cortesia. Cada um oferece ao outro a moça mais bonita, e nisso parecemos dois senhores antiquados que não conseguem entrar numa sala, por não poderem admitir que um passe na frente do outro.
É — respondeu Martin comovido e enternecido. — Você é um amigo de verdade. Vamos sentar um pouco. Estou com dor nas pernas.
E fomos nos sentar, o corpo gostosamente inclinado para trás, com o sol batendo bem na cara, deixando, por alguns minutos, sem preocupação, o mundo seguir seu curso ao nosso redor.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

22/06/2019

Uma abordagem bem-sucedida

Logo depois entrou no café uma moça de calça de veludo. Dirigiu-se ao balcão, esperou seu refrigerante e foi bebê-lo. Parou em uma mesa vizinha à nossa e bebeu sem se sentar.
Martin virou-se para ela: — Senhorita — disse ele —, não somos daqui e gostaríamos de lhe perguntar uma coisa.
A moça sorriu. Era muito bonita.
Estamos sufocando de calor e não sabemos o que fazer...
Vão tomar um banho!
Justamente. Não sabemos onde se pode tomar um banho nesta cidade.
Não existe nenhum lugar.
Como?
Existe uma piscina, mas está vazia há um mês.
E o rio?
Está sendo dragado.
Então onde podemos nos banhar?
Só existe o lago Hoter, mas fica a pelo menos sete quilômetros daqui.
Não tem importância, estamos de carro. Bastaria que nos guiasse.
Você seria nosso navegador — disse eu.
Ou melhor, nosso piloto — disse Martin.
E nossa estrela — disse eu.
A moça, tonta com esse falatório, aceitou finalmente nos acompanhar; mas ainda tinha de fazer compras e era preciso que fosse buscar o maio; marcamos encontro para dentro de uma hora exatamente no mesmo lugar.
Estávamos contentes. Ficamos olhando-a se afastar balançando lindamente o traseiro e sacudindo os cachos de seus cabelos pretos.
Você está vendo — disse Martin —, a vida é curta, é preciso aproveitar cada minuto.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

14/06/2019

A trapaça

Fomos para a grande aleia do jardim público onde passeiam os moradores da cidade. Examinamos muitas duplas de moças que passavam por nós ou estavam sentadas nos bancos, mas elas não nos agradaram muito.
Apesar disso, Martin abordou duas com as quais entabulou conversa, marcando até encontro, mas eu sabia que não era para valer. É aquilo que chamo abordagem de treinamento; exercício a que ele se dedica de vez em quando para não perder a prática.
Contrariados, saímos do jardim público e fomos para as ruas, mergulhadas no vazio e no tédio de pequena cidade provinciana.
Venha beber alguma coisa — disse a Martin. — Estou com sede.
Encontramos um prédio em cuja fachada estava escrito: “Café”. Entramos, mas havia apenas um self-service; a sala era azulejada, fria e pouco acolhedora; fomos até o balcão, onde havia uma senhora desagradável, para comprar um refrigerante, que em seguida levamos para uma mesa manchada de molho que deveria nos incitar a sair dali o mais depressa possível.
Não ligue — disse Martin —, a feiura tem em nosso mundo uma função positiva. Ninguém quer perder seu tempo; assim que chegamos a um lugar, temos pressa de ir embora: isso dá à vida o ritmo desejado. Mas não vamos nos deixar envolver. Podemos conversar uma porção de coisas protegidos pela feiura tranquila deste café.
Tomou uma soda e me perguntou: — Você já abordou sua estudante de medicina?
Claro que sim — respondi.
E como é ela? Descreva-a direito.
Descrevi a estudante de medicina, o que não me deu trabalho, se bem que a estudante de medicina não existisse. É. Isso com certeza me deixa mal, mas é assim. Eu a inventei.
Podem acreditar na minha palavra: não agi por motivos escusos, para brilhar diante de Martin ou para iludi-lo. Inventei essa estudante de medicina pela simples razão de que não podia mais suportar a insistência de Martin.
Martin é extremamente exigente no que diz respeito à minha atividade. Está convencido de que a cada dia encontro uma mulher nova. Ele me vê diferente do que sou e se lhe dissesse francamente que durante uma semana inteira não possuí novas mulheres, nem mesmo me aproximei delas, ele me tomaria por hipócrita.
Eu me vi, portanto, constrangido a contar-lhe alguns dias antes que tinha feito um cerco a uma estudante de medicina. Ele pareceu satisfeito e me estimulou a passar à abordagem. Naquele dia certificou-se dos meus progressos.
Ela é do tipo de quem?
É do tipo de...? Fechou os olhos, procurando na penumbra um termo de comparação... Depois lembrou-se de uma amiga comum: — É do tipo de Sílvia?
É muito melhor — respondi.
Martin espantou-se:
Você está brincando...
É do tipo da sua Georgina.
Sua própria mulher é para Martin o critério supremo. Martin ficou muito satisfeito com meu relato e se entregou ao devaneio.
Milan Kundera, in Risíveis Amores

06/06/2019

O jogo e a necessidade

Chegamos ao hospital de B... com excelente humor. Eram mais ou menos três e meia. Pedimos que chamassem nossa enfermeira pelo telefone da cabine do porteiro. Ela desceu pouco depois, de touca de enfermeira e blusa branca, e notei certo rubor em sua face, o que me pareceu um bom prenuncio.
Martin tomou rapidamente a palavra e a moça nos anunciou que seu trabalho terminaria às sete horas. Pediu-nos que a esperássemos a essa hora em frente ao hospital.
Você já falou com sua colega? — perguntou Martin, e a moça confirmou.
Seremos duas.
Perfeito — disse Martin —, mas não podemos colocar meu amigo diante de um fato consumado.
Bem — disse a moça —, podemos ir vê-la. Ela está na sala da cirurgia.
Atravessamos devagar o pátio do hospital e perguntei timidamente: — Você ainda está com meu livro?
A enfermeira fez que sim com a cabeça. Estava com ele e ali mesmo no hospital. Senti-me como que aliviado de um peso, e insisti em que ela fosse primeiro buscar o livro. É claro que Martin achou fora de propósito que eu preferisse abertamente um livro a uma mulher que me seria apresentada, mas foi mais forte do que eu.
Devo confessar que tinha sofrido muito durante esses poucos dias em que o livro sobre a cultura etrusca ficara fora do alcance dos meus olhos. Foi preciso um grande esforço para que suportasse isso sem reclamar, mas não queria de maneira alguma estragar o Jogo, esse valor que aprendi a respeitar desde o tempo de minha juventude e ao qual sei subordinar todos os meus interesses e desejos pessoais.
Enquanto reencontrava meu livro com emoção, Martin continuava a conversa com a enfermeira. Tinha ido tão longe que a moça prometera arranjar emprestado para a noite o chalé de um colega, perto do lago Hoter. Não podíamos estar os três mais satisfeitos e seguimos para o pequeno prédio verde onde ficava o serviço de cirurgia.
Bem nesse momento, uma enfermeira acompanhada de um médico atravessava o pátio no sentido inverso. O médico era um homem grande, magro e ridículo, com orelhas de abano, o que me fascinava. Nossa enfermeira me cutucou com o cotovelo e comecei a rir. Quando o casal se afastou, Martin virou-se para mim: — Você tem sorte, meu amigo, você não merece uma garota tão bonita!
Não ousei responder que só tinha olhado o sujeito grande e magro e formulei um elogio. No entanto, não era absolutamente uma prova de hipocrisia de minha parte. Confio mais no gosto de Martin do que no meu, pois sei que o gosto dele se baseia num interesse muito maior do que o meu. Amo em todas as coisas, inclusive no amor, a ordem e a objetividade, e admiro muito mais um conhecedor do que um diletante.
Certas pessoas julgarão talvez hipócrita, da parte do homem divorciado que sou, ao contar justamente uma de suas aventuras (seguramente nada excepcionais) qualificar-se de diletante. E, no entanto, sou um diletante. Podemos dizer que represento aquilo que Martin vive. Algumas vezes me parece que minha vida de polígamo não passa de uma imitação dos outros homens, mas não nego sentir certo prazer com essa imitação. Não posso deixar de reconhecer que existe nesse prazer qualquer coisa de inteiramente livre, gratuito, revogável, que caracteriza uma visita a uma galeria de arte, ou a descoberta de paisagens exóticas e escapa a qualquer imperativo categórico comparável ao que pressinto por trás da vida erótica de Martin. O que me impressiona em Martin é exatamente esse imperativo categórico. Quando ele pronuncia um julgamento sobre uma mulher, parece-me que a Natureza em pessoa, a própria Necessidade se exprimem por sua boca.
Milan Kundera, in Risíveis Amores