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04/07/2023

O Deus de cada homem

Goethe truly says that every man’s God is as that man; is not then the God of the greatest man the greatest God?

Goethe diz, com verdade, que o Deus de cada homem é como esse homem; não será então o Deus do maior homem o maior Deus?

Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

11/11/2020

Severidade

Se tomardes a vida com excessiva severidade, que atração tem? Se a manhã não vos convidar a novas alegrias e se à noite não esperardes nenhum prazer, valerá a pena vestir-se e despir-se?”

Goethe, in Egmont

22/07/2020

Da palavra

Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de – com a máxima imediaticidade e adequação possíveis – fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão.
Que cada um tente fazê-lo. Verificará que é muito mais difícil do que se costuma pensar. Porque para os homens, infelizmente, as palavras são de um modo geral toscos substitutos. Na maior parte das vezes o homem pensa ou sabe melhor do que aquilo que exprime.
Johann Wolfgang von Goethe, in Máximas e Reflexões

02/01/2019

Pensamentos noturnos

Lastimo-vos, ó estrelas infelizes,
Que sois belas e brilhais tão radiosas,
Guiando de bom grado o marinheiro aflito,
Sem recompensa dos deuses ou dos homens:
Pois não amais, nunca conhecestes o amor!
Continuamente horas eternas levam
As vossas rondas pelo vasto céu.
Que viagem levastes já a cabo!,
Enquanto eu, entre os braços da amada,
De vós me esqueço e da meia-noite.
Johann Wolfgang von Goethe

10/07/2018

Do entendimento humano

Houve muita gente que se ocupou da crítica da razão. Por mim, gostaria que dispuséssemos de uma crítica do entendimento humano. Seria por certo um benefício para a nossa espécie poder-se demonstrar de modo convincente ao entendimento comum até onde pode ele chegar, limite este que coincide exatamente com aquilo de que esse mesmo entendimento necessita para a plenitude da sua vida terrena.
O entendimento ilimitado, ao qual se rende o entendimento de cada indivíduo, e contra o qual a razão nada pode, ainda que nem sempre a nossa experiência sensível se conforme.
Goethe, in Máximas e reflexões

15/03/2018

Pensar e agir

Pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos, isso ainda o é mais.”
Goethe

04/01/2018

Essa força criadora

O maior mérito do homem consiste sem dúvida em determinar tanto quanto possível as circunstâncias e em deixar-se determinar por elas tão pouco quanto possível. Todo o universo está perante nós como uma grande pedreira perante o arquiteto, o qual só merece esse nome se com a maior economia, conveniência e solidez constituir, a partir dessas massas acidentalmente acumuladas pela Natureza, o protótipo nascido no seu espírito. Fora de nós, tudo é apenas elemento. Sim, até posso dizer: tudo o que há em nós também. Mas no fundo de nós próprios encontra-se essa força criadora que nos permite produzir aquilo que tem de ser e que não nos deixa descansar, nem repousar, enquanto não o tivermos realizado, de uma maneira ou de outra, fora de nós ou em nós.
Johann Wolfgang von Goethe, in Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister

26/11/2017

Viver "com" e "em" alguém

Há uma grande diferença entre viver com alguém e viver em alguém. Pessoas há em quem somos capazes de viver sem que consigamos viver com elas. E há os casos inversos. Só uma extrema pureza do amor e da amizade está em condições de juntar as duas coisas.
O homem só pode viver com os que se lhe assemelham. E ao mesmo tempo não pode viver com eles, porque não suporta que alguém se lhe assemelhe eternamente.
Quando duas pessoas estão inteiramente satisfeitas uma com a outra, podemos ter quase sempre a certeza de que estão ambas enganadas.
Goethe, in Máximas e reflexões

16/01/2017

Protótipo

O maior mérito do homem consiste, sem dúvida, em determinar tanto quanto possível as circunstâncias e em deixar-se determinar por elas tão pouco quanto possível. Todo o universo está perante nós como uma grande pedreira perante o arquiteto, o qual só merece esse nome se com a maior economia, conveniência e solidez constituir, a partir dessas massas acidentalmente acumuladas pela Natureza, o protótipo nascido no seu espírito. Fora de nós, tudo é apenas elemento. Sim, até posso dizer: tudo o que há em nós também. Mas no fundo de nós próprios encontra-se essa força criadora que nos permite produzir aquilo que tem de ser e que não nos deixa descansar, nem repousar, enquanto não o tivermos realizado, de uma maneira ou de outra, fora de nós ou em nós.”
Johann Wolfgang von Goethe

10/11/2016

Antes louco, agora sábio

É porque então eu era louco que hoje sou sábio. Oh, filósofo, que nada vês senão o instantâneo, como é curta a tua vista! Teu olhar não foi feito para seguir o labor subterrâneo das paixões.”
Goethe

12/10/2016

Prólogo do autor

Está o Poeta no seu camarim, passeando e falando consigo mesmo, antes de compor o livro

Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.

Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações subtis
que exalais, vem tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!...
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?

Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh vida! oh labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.

Cá ’stão os bons d’outrora, entes que já gozaram
horas de oiro, e também... como elas se escoaram.
Não me hão-de ouvir agora os mesmos, bem o sei,
para quem noutro tempo os versos meus cantei.
Sumiu-se, aniquilou-se aquela amiga turba,
que nem com som mortiço os ecos já perturba.
Vibra meu canto agora a ignota multidão,
cujo aplauso, ai de mim! me aperta o coração;
e os a quem meu cantar outrora foi jucundo, 
erram, se inda alguns há, dispersos pelo mundo.

Ai, plácida mansão, de espíritos morada!
revive na saudade, há tanto descorada!

Começa em vagos sons meu estro a palpitar,
qual de uma harpa eólia o triste delirar...
Já sinto estremeções; o pranto segue ao pranto,
e o duro coração se abranda por encanto.

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
Goethe, in Fausto (tradução de António Feliciano de Castilho)

19/09/2016

A cultura

A cultura é um resultado, não uma soma. É possível mostrar que se conhece os gregos num poema onde nem se fala deles nem se é influenciado por eles.
A experiência é uma forma de cultura. Hegel, ao criticar Goethe, disse, numa das suas grandes frases, que ele tinha “toda a pobreza da juventude”.
Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

04/08/2016

A vida é apenas um sonho

Que a vida é apenas um sonho outros já disseram, mas também a mim esta ideia persegue por toda a parte. Quando penso nos limites que circunscrevem as ativas e investigativas faculdades humanas; quando vejo que esgotamos todas as nossas forças em satisfazer nossas necessidades, que apenas tendem a prolongar uma existência miserável; quando constato que a tranquilidade a respeito de certas questões não passa de uma resignação sonhadora, como se a gente tivesse pintado as paredes entre as quais jazemos presos com feições coloridas e perspectivas risonhas - tudo isso, Guilherme, me deixa mudo. meto-me dentro de mim mesmo e acho aí um mundo! mas antes em pressentimentos e obscuros desejos que em realidade e ações vivas. e então tudo paira a minha volta, sorrio e sigo a sonhar, penetrando adiante no universo.
Que as crianças não sabem o porquê de desejarem algo, todos os pedagogos estão de acordo. Mas que também homens feitos se arrastem como crianças, titubeando sobre a face da terra, e, exatamente como elas, não saibam de onde vêm e para onde vão, até mesmo que não têm um fim determinado para suas ações, igualmente governados por biscoitos, balas e chibatas, ninguém faz gosto em acreditar. Quanto a mim, parece-me que não há realidade mais palpável do que essa.
Concordo de boa vontade, até porque sei o que vais me dizer a respeito disso, que são exatamente essas as pessoas mais felizes. Essas mesmas que, como crianças, vivem o dia-a-dia sem pensar no futuro, arrastam suas bonecas por aí, vestem-nas, despem-nas, e volteiam cheias de respeito diante da gaveta onde mamãe chaveia os bombons, e quando logram êxito, fazendo com que ela os dê, devoram-nos estufando a boca e gritando: Mais!… Sim, estas é que são criaturas felizes!
A coisa também vai bem para aqueles que dão um título imponente para seus trabalhos vagabundos, ou até para seus sofrimentos, e os descrevem como obras gigantescas feitas em prol da salvação e da prosperidade do gênero humano… Feliz daquele que consegue proceder assim! Mas aquele que reconhece em sua humildade onde tudo isso vai parar, quem vê quão gentil é o burguês ao ornamentar seu jardinzinho e elevá-lo à categoria de paraíso; quem tem noção de como o infeliz se arrasta infatigável pelo caminho, sob seu fardo, interessado apenas em contemplar por um minuto a mais a luz do sol – este, asseguro, também é tranquilo e, ao construir um mundo dentro de si, é feliz do mesmo jeito por ser humano. E então, por mais limitado que esteja em seus movimentos, ele mantém no coração a doce sensação da liberdade, sabendo que poderá deixar o seu cárcere quando quiser.
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Werther

11/05/2016

Acerca de homens sensatos

- Oh! Essa gente sensata! – exclamei, sorrindo. – Paixão! Embriaguez! Loucura! Vocês, os razoáveis, permanecem tão calmos, tão indiferentes, condenando os bêbados, repelindo os tresloucados, e seguem seu caminho como um sacerdote e agradecem a Deus, como um fariseu, por Ele não os ter feito iguais aos outros. Mais de uma vez embriaguei-me, vivi paixões que me levaram à beira da loucura, e de nada me arrependo, pois dessa forma compreendi por que homens notáveis, de todos os tempos, que fizeram alguma coisa expressiva, alguma coisa grande, foram chamados de bêbados ou loucos. Entretanto, mesmo na vida mais comum, quando alguém realiza algo inesperado, diferente, é insuportável ouvirmos a acusação: “Esse homem está bêbado, está fora de si!”. Os homens sensatos são uma vergonha!”
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Werther

02/03/2016

Coração

Ele também aprecia mais o meu raciocínio e o meu talento do que este coração, sem dúvida o meu único orgulho, a fonte de tudo, de toda energia, de toda ventura e de toda desgraça. Ah, o que eu sei, qualquer um pode saber… Mas o meu coração é só meu.”
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Wether

20/02/2016

Regras

Muito pode se dizer em proveito das regras, como também em louvor da sociedade burguesa. Um homem que se conduz segundo essas regras nunca produzirá nada de mau gosto ou ruim, assim da mesma sorte, um homem educado segundo as leis e o decoro jamais poderá ser um vizinho intolerável, nem um insigne bandido. Não obstante, diga-se o que se disser, toda regra destrói o verdadeiro sentimento e a verdadeira expressão da natureza.”
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Werther

12/02/2016

A vida humana é apenas um sonho

Que a vida humana é apenas um sonho outros já disseram, mas também a mim esta ideia persegue por toda a parte. Quando penso nos limites que circunscrevem as ativas e investigativas faculdades humanas; quando vejo que esgotamos todas as nossas forças em satisfazer nossas necessidades, que apenas tendem a prolongar uma existência miserável; quando constato que a tranquilidade a respeito de certas questões não passa de uma resignação sonhadora, como se a gente tivesse pintado as paredes entre as quais jazemos presos com feições coloridas e perspectivas risonhas ─ tudo isso, Guilherme, me deixa mudo. Meto-me dentro de mim mesmo e acho aí um mundo! Mas antes em pressentimentos e obscuros desejos que em realidade e ações vivas. E então tudo paira a minha volta, sorrio e sigo a a sonhar, penetrando adiante no universo.
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Werther

30/01/2016

Vocês, os razoáveis

Oh! Essa gente sensata! - exclamei, sorrindo. - Paixão! Embriaguez! Loucura! Vocês, os razoáveis, permanecem tão calmos, tão indiferentes, condenando os bêbados, repelindo os tresloucados, e seguem seu caminho como um sacerdote e agradecem a Deus, como um fariseu, por Ele não os ter feito iguais aos outros. Mais de uma vez embriaguei-me, vivi paixões que me levaram à beira da loucura, e de nada me arrependo, pois dessa forma compreendi por que homens notáveis, de todos os tempos, que fizeram alguma coisa expressiva, alguma coisa grande, foram chamados de bêbados ou loucos. Entretanto, mesmo na vida mais comum, quando alguém realiza algo inesperado, diferente, é insuportável ouvirmos a acusação: “Esse homem está bêbado, está fora de si!”. Os homens sensatos são uma vergonha!”
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Werther

25/01/2016

O homem

Que é o homem, esse semideus tão enaltecido? Não lhe faltam forças precisamente quando lhe são necessárias? Seja quando manifeste a alegria ou mergulhe na dor, não é bruscamente detido, bruscamente levado de volta ao sentimento frio e limitado de si mesmo, no momento em que aspirava perder-se na vastidão do infinito?”
Goethe, in Os sofrimentos do jovem Werther

23/12/2015

Nossa profissão de fé

É preciso repetir de vez em quando a nossa profissão de fé e exprimir em voz alta aquilo que valorizamos e aquilo que condenamos. Os nossos adversários também não deixam de o fazer.”
Goethe