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08/08/2022

Maya com catapora

É difícil encontrar um homem bom (1953) | Flannery O’Connor

Viagem de família dá errado. É o preferido da Amy. (Ela parece tão meiga na superfície, não?) Amy e eu não costumamos ter o mesmo gosto, mas desse eu gosto.
Quando ela me contou que era seu preferido, pensei em coisas estranhas e maravilhosas sobre sua pessoa, coisas que não tinha imaginado, lugares escuros que posso querer visitar.
As pessoas contam mentiras chatas sobre política, Deus e amor. Você descobre tudo que precisa saber sobre uma pessoa com a resposta desta pergunta: Qual é o seu livro preferido?
A.J.F.

Na segunda semana de agosto, pouco antes de Maya começar o jardim de infância, ela começa a usar óculos (aros redondos e vermelhos) e pega catapora (bolinhas redondas e vermelhas). A.J. amaldiçoa a mãe que falou que a segunda vacina de catapora era opcional, porque essa doença é uma desgraça. Maya está miserável, e A.J. fica miserável porque ela está miserável. As marcas povoam seu rosto, e o ar-condicionado quebra, e ninguém consegue dormir na casa. A.J. traz toalhinhas frias para ela e tira a pele de gomos de tangerina e coloca meias nas mãos dela e fica de guarda ao lado da cama.
Terceiro dia, quatro da manhã, Maya pega no sono. A.J. está exausto, mas inquieto. Ele pediu a uma atendente da loja que pegasse umas provas no porão. Infelizmente, a atendente é nova, e pegou livros da pilha RECICLAR, e não da pilha LER. A.J. não quer deixar Maya sozinha então decide ler uma das provas rejeitadas. No topo da pilha, uma fantasia juvenil em que o personagem principal está morto. Eca. Duas das coisas de que menos gosta (narradores post mortem e juvenis) em um livro. Joga a carcaça de papel de lado. O segundo na pilha são as memórias de um senhor de oitenta anos, um solteirão, que foi jornalista científico para vários jornais do meio-oeste dos EUA e que casou aos setenta e oito anos. A esposa morreu dois anos depois do casamento, aos oitenta e três. Desabrochar tardio, de Leon Friedman. A.J. parece se lembrar do livro, mas não sabe por quê. Ele abre e um cartão cai: AMELIA LOMAN, PTERODACTYL BOOKS. Sim, lembrou.
Claro, ele encontrou Amelia Loman nos anos seguintes àquele desajeitado primeiro encontro. Trocaram um punhado de e-mails cordiais, e ela vem três vezes ao ano reportar os melhores prospectos da Pterodactyl. Depois de passar mais ou menos umas dez tardes com ela, chegou recentemente à conclusão de que ela é boa no que faz. Conhece bem sua lista e as principais tendências literárias. Sempre bem-humorada, mas sem forçar a barra. É gentil com a Maya, sempre se lembra de trazer um livro da linha infantil da Pterodactyl pra menina e nunca a menospreza. Acima de tudo, Amelia Loman é profissional e nunca menciona o mau comportamento de A.J. quando se conheceram. Nossa, ele foi terrível com ela. Como penitência, decide dar uma chance ao Desabrochar tardio, embora ainda não seja nem um pouco seu tipo.
Tenho oitenta e um anos e, estatisticamente falando, deveria ter morrido 4,7 anos atrás”, o livro começa.
Às cinco da manhã, A.J. fecha o livro e lhe dá um tapinha.
Maya acorda, se sentindo melhor. “Por que tá chorando?”
Estava lendo”, responde A.J.

Ela não reconhece o número, mas atende no primeiro toque.
Alô, Amelia? É o A.J. Fikry da Island. Não achei que fosse atender.”
É verdade”, ela diz rindo. “Sou a última pessoa no mundo que ainda atende o telefone.”
Sim, acho que é.”
A Igreja católica quer me santificar.”
A santa Amelia, que atendeu o telefone.”
A.J. nunca ligou antes. “Ainda estamos combinados pra daqui quinze dias ou precisa cancelar?”, Amelia pergunta.
Ah, não, não é isso. Só queria deixar uma mensagem, na verdade.”
Amelia fala monotamente: “Olá, deixe seu recado após o sinal. Bip”.
Hum.”
Bip”, Amelia repete. “Vai, deixa o seu recado.”
Hum, oi, Amelia. Aqui é o A.J. Fikry. Acabei de ler um livro que você me recomendou…”
Ah, é? Qual?”
Que estranho. A caixa postal parece estar falando comigo. É um de muitos anos atrás. Desabrochar tardio, de Leon Friedman.”
Não brinca comigo, A.J. Esse era meu favorito absoluto de quatro listas de inverno atrás. Ninguém queria ler. Eu amei. Ainda amo! Mas eu sou a rainha das causas perdidas.”
Acho que era a capa”, A.J. diz sem saber direito o que falar.
Péssima capa. Pés de gente velha, flores”, concorda Amelia. “Como se alguém quisesse pensar em pés enrugados, ainda mais comprar um livro com isso. A capa da brochura também não ajudou — preto e branco, mais flores. Mas as capas sempre são os enteados ruivos do mercado editorial. Colocamos a culpa de tudo nelas.”
Não sei se lembra, mas me deu Desabrochar tardio quando nos conhecemos”, A.J. diz.
Amelia faz um pausa. “É? É, faz sentido. Quando comecei na Pterodactyl.”
Bem, você sabe, memórias literárias não fazem meu estilo, mas essa é espetacular, à sua maneirazinha. Sábia e…” Ele se sente nu ao falar de coisas que realmente ama.
E…”
Escolha exata de palavras colocadas no lugar exato. Esse é o maior elogio que posso dar. Só estou arrependido de ter demorado tanto para ler.”
Sei bem como é. Por que resolveu ler agora?”
Minha filhinha estava doente, então…”
Ah, coitada da Maya! Espero que não seja nada grave!”
Só catapora. Fiquei acordado a noite toda com ela, e era o livro mais próximo.”
Que bom que leu”, diz Amelia. “Implorei para que todo mundo que eu conheço lesse, e ninguém meu ouviu, só minha mãe, e mesmo ela foi difícil convencer.”
Às vezes os livros só nos encontram no momento certo.”
Isso não serve de consolo para o sr. Friedman”, acrescenta Amelia.
Bom, eu vou encomendar uma caixa da brochura também lamentavelmente encapada. E, no verão, quando todos os turistas estiverem aqui, talvez possamos chamar o sr. Friedman para um evento.”
Se ele estiver vivo até lá”, diz Amelia.
Ele está doente?”, pergunta A.J.
Não, mas ele tem, tipo, noventa anos!”
A.J. ri. “Bem, Amelia, vejo você daqui a quinze dias, então.”
Talvez na próxima você me ouça quando eu disser que é ‘o melhor livro da lista de inverno’!”
Provavelmente não. Sou velho, tenho minhas manias, do contra.”
Não é tão velho”, ela diz.
Se comparado com o sr. Friedman, acho que não.” A.J. dá uma tossidinha. “Quando estiver aqui, poderíamos sair pra jantar ou algo do tipo.”
É normal representantes e livreiros repartirem o pão, mas Amelia detecta certo tom na voz de A.J. Ela esclarece: “Podemos ver a lista durante o jantar”.
Sim, claro”, A.J. responde rápido demais. “É uma viagem tão longa até Alice. Vai estar com fome. Fui mal-educado por não ter oferecido das outras vezes.”
Vamos almoçar então. Preciso pegar a última balsa para Hyannis.”

A.J. decide levar Amelia ao Pequod’s, o segundo melhor restaurante de frutos do mar em Alice Island. El Corazon, o melhor, não abre para almoço, e mesmo se abrisse teria parecido romântico demais para o que é, apenas uma reunião de negócios.
A.J. chega primeiro, o que lhe proporciona tempo para se arrepender da escolha. Ele não ia ao Pequod’s desde que teve a Maya e acha a decoração vergonhosa, pra turista. A elegante toalha de linho branco não distrai dos arpões, redes e casacos de chuva pendurados nas paredes, ou do capitão, entalhado em um tronco, que dá as boas-vindas com um balde de balas de caramelo salgado de cortesia. Uma baleia de fibra de vidro com minúsculos olhos tristes está postada no teto. A.J. sente o julgamento da baleia: Devia ter escolhido o El Corazon, camarada.
Amelia está cinco minutos atrasada. “Pequod, como no Moby Dick”, ela comenta. Está usando um vestido que parece feito com uma toalha de mesa de crochê por cima de uma combinação rosa vintage. Seu cabelo loiro e encaracolado está enfeitado com uma margarida artificial e ela calça galochas, apesar do dia ensolarado. A.J. pensa que as galochas a deixam parecida com um escoteiro, em alerta e preparado para o desastre.
Gosta de Moby Dick?”, ele pergunta.
Odeio”, ela responde. “E não digo isso sobre muitas coisas. Os professores obrigam a leitura, e os pais ficam felizes que os filhos estão lendo algo de ‘qualidade’. Mas é forçando as crianças a ler livros assim que faz com que pensem que odeiam ler.”
E não quis cancelar quando viu o nome do restaurante?”
Ah, eu pensei nisso”, ela diz com alegria na voz. “Mas então avisei a mim mesma que é o nome do restaurante e provavelmente não implica na qualidade da comida, não muito. E eu li umas resenhas na internet, parecia delicioso.”
Não confiou em mim?”
Eu gosto de pensar sobre o que vou comer antes de ir ao lugar. Eu gosto de”, ela estica a palavra, “an-te-ci-par”. Abre o menu. “Eles têm vários drinques com nomes de personagens.” Vira a página. “Enfim, se eu não quisesse comer aqui, teria inventado alguma alergia a frutos do mar.”
Alergia fictícia. Que feio da sua parte.”
Agora não vou poder usar esse truque com você.”
O garçom está vestido com uma camisa branca com babados em conflito com seus óculos pretos e cabelo espetado. O look é pirata hipster. “Ahoy, marinheiros”, o garçom fala sem empolgação. “Querem provar um coquetel temático?”
Prefiro os drinques tradicionais, mas quem resiste a um coquetel temático?”, ela pergunta. “Um Queequeg, por favor.” Ela pega a mão do garçom. “Espera. É bom?”
Hum”, diz o garçom. “Os turistas parecem gostar.”
Bom, se os turistas gostam”, ela diz.
Hum, só pra conferir, você quer dizer que vai querer ou não?”
Com certeza, quero”, diz Amelia. “Venha o que vier.” Ela sorri para o garçom. “Não vou colocar a culpa em você se for péssimo.”
A Pterodactyl”, ele repete.
Ela passa pela lista, pulando sem dó aqueles de que ele não vai gostar, enfatizando as apostas da editora e usando os adjetivos mais sofisticados para os preferidos. Com alguns clientes, menciona quando tem frases na quarta capa recomendando o livro, aqueles elogios hiperbólicos feitos por autores consagrados. A.J. não é um desses clientes. Na segunda ou terceira reunião, ele se referiu a esses textos como “diamantes de sangue do mercado editorial”. Ela o conhece melhor agora, e nem é preciso dizer que o processo ficou menos doloroso. Ele confia mais nela, é o que ela pensa, ou talvez a paternidade o tenha deixado mais mole. (É prudente não dizer isso em voz alta.) A.J. promete ler vários exemplares.
Em menos de quatro anos, espero”, diz Amelia.
Farei o meu melhor para ler em três.” Faz uma pausa. “Vamos pedir a sobremesa. Deve ter uma baleia split ou coisa do tipo.
Amelia geme. “Que trocadilho péssimo.”
Se não se importa com a pergunta: por que o Desabrochar tardio era seu livro preferido daquela lista? Você é jovem…”
Não tão jovem. Tenho trinta e cinco.”
Ainda é jovem”, diz A.J. “O que eu quero dizer é que não deve ter feito muito do que o autor descreve. Olho pra você e, tendo lido o livro, imagino o que fez você gostar.”
Ora, ora, sr. Fikry, essa pergunta é muito pessoal.” Dá um gole do segundo Queequeg. “O principal motivo foi a qualidade da escrita, claro.”
Claro. Mas não é o suficiente.”
Digamos que eu já tinha ido a muitos, muitos encontros ruins quando o livro chegou à minha mesa. Sou romântica, mas às vezes esses tempos em que vivemos não me parecem muito românticos. Desabrochar tardio é um livro sobre a possibilidade de encontrar um grande amor em qualquer idade. Clichê, eu sei.”
A.J. assente.
E você? Por que gostou?”, Amelia pergunta.
Qualidade da prosa, blá-blá-blá.”
Achei que essa resposta era proibida!”
Você não quer ouvir minhas histórias tristes, quer?”
Claro que quero. Adoro histórias tristes.”
[…]

Gabrielle Zevin, in A vida do livreiro A. J. Fikry

25/07/2022

Island Books


[...]
Há apenas uma compilação de contos na lista de Amelia, um estreante. Não leu inteira, e o tempo dita que provavelmente não lerá, mas gostou da primeira história. Uma classe da sexta série nos Estados Unidos e outra na Índia participam de um programa internacional de correspondência. O narrador é um menino indiano na classe americana que passa informações erradas e engraçadas sobre a cultura indiana para os colegas americanos. Ela tosse para limpar a garganta, que ainda está terrivelmente seca. “O ano em que Bombaim virou Mumbai. Acho que vai ser especialmente int…”
Não.”
Eu nem contei do que se trata.”
Disse que não.”
Mas por quê?”
Você sabe que só está me contando desse livro porque sou descendente de indianos e pensa que vai ser especialmente interessante pra mim. Não é?”
Amelia se imagina pegando o computador arcaico e jogando na cabeça dele. “Estou lhe contando porque falou que gosta de contos! E é o único de contos na minha lista. E só pra você saber”, agora ela mente, “é maravilhoso, do começo ao fim. Mesmo sendo um autor estreante.
E quer saber o que mais? Eu amo estreantes. Amo descobrir algo novo. É em parte por isso que tenho esse emprego.” Amelia fica de pé. Sua cabeça lateja. Será que anda bebendo demais? Sua cabeça lateja e seu coração palpita. “Quer minha opinião?”
Na verdade, não. Quantos anos você tem? Vinte e cinco?”
Sr. Fikry, esta loja é uma graça, mas se continuar com esse, esse, esse”, quando criança, gaguejava, e isso de vez em quando volta quando está transtornada; tosse outra vez, “esse jeito atrasado de pensar, logo não haverá mais Island Books.”
Amelia deixa o Desabrochar tardio e o catálogo sobre a mesa. Tropeça nos livros do corredor ao ir embora.
A balsa seguinte só sai dali a uma hora, então ela aproveita pra ir a pé pela cidade. Uma placa de bronze do lado de fora do Bank of America comemora o verão que Herman Melville passou ali, na época em que o edifício era o Alice Inn. Pega o celular e tira uma foto de si com a placa. Alice é legal, mas não acha que vai ter motivo pra voltar logo.
Manda uma mensagem para o chefe, em Nova York: Acho que não vamos ter pedidos da Island. :-(
O chefe responde: Não esquenta. Uma continha de nada, e a Island costuma pedir logo antes do verão, quando os turistas chegam. O dono da loja é esquisitão, e o Harvey costumava ter mais sorte com a lista de primavera/verão. Você vai ter também.
Às seis, A.J. fala pra Molly Klock ir embora. “Está gostando da Munro?”, pergunta.
Ela bufa. “Por que tá todo mundo me perguntando isso hoje?” Só a Amelia tinha perguntado, mas Molly gosta de exagerar.
Acho que é porque você está lendo.”
Molly bufa outra vez. “Tá o.k. As pessoas são, sei lá, humanas demais às vezes.”
Acho que essa é a intenção da Munro”, ele diz.
Sei lá. Prefiro os clássicos. Até segunda.”
Algo tem que ser feito a respeito de Molly, pensa A.J. ao girar a placa para o lado FECHADO. Apesar de gostar de ler, Molly é uma péssima vendedora de livros. Mas ela trabalha só meio período, e é tão chato treinar uma pessoa nova, e pelo menos ela não rouba. Nic tinha contratado a garota, então devia ter visto algo na rabugenta srta. Klock. Talvez no verão A.J. tenha energia para despedi-la.
A.J. expulsa os últimos clientes (está irritado com um grupo que estuda química orgânica e não comprou nada, mas ficou acampado desde as quatro na seção de revistas — tem certeza de que um deles entupiu a privada também), e depois lida com as notas fiscais, uma tarefa tão deprimente quanto parece. Por fim, sobe as escadas para o apartamento na sobreloja, onde mora. Pega uma embalagem de curry congelado e coloca no micro-ondas. Nove minutos, de acordo com as instruções. Parado ali, pensa na garota da Pterodactyl. Parecia uma viajante no tempo, direto de Seattle dos anos 90, com suas galochas de estampa de âncora e o vestido floral de brechó e o suéter bege esfiapado e o cabelo na altura dos ombros que parecia ter sido cortado na cozinha pelo namorado. Namorada? Namorado, decide. Pensa na Courtney Love, na época em que casou com o Kurt Cobain. A boca rosa durona diz Ninguém é capaz de me machucar, mas os olhos azuis suaves dizem Sim, você é capaz e provavelmente me machucará. E ele fez aquela flor de menina enorme chorar. Parabéns, A.J.
O cheiro do curry fica mais forte, mas ainda faltam sete minutos e meio.
Ele precisa de uma tarefa. Algo físico, mas não cansativo.
Ele vai até o porão para desmontar caixas com seu estilete. Corta. Achata. Empilha. Corta. Achata. Empilha.
A.J. se arrepende de seu comportamento com a representante. Não foi culpa dela. Alguém devia ter avisado a ele que Harvey Rhodes tinha morrido.
Corta. Achata. Empilha.
Alguém provavelmente tinha avisado. A.J. apenas olha e-mails por cima, nunca atende ao telefone. Será que houve funeral? Não que A.J. teria ido de qualquer maneira. Ele mal conhecia Harvey Rhodes. Obviamente.
Corta. Achata. Empilha.
No entanto… Tinha passado horas com o homem nos últimos seis anos. Só conversaram sobre livros, mas o que, nessa vida, é mais íntimo do que livros?
Corta. Achata. Empilha.
E como é raro achar alguém com seus gostos! A única briga que tiveram foi a respeito de David Foster Wallace. Na época do suicídio do Wallace. A.J. detestou o tom reverente dos tributos. O homem tinha escrito um livro razoável (apesar de indulgente e grande demais), alguns artigos modestamente perspicazes e não muito mais.
Infinite Jest é uma obra de arte”, dissera Harvey.
Infinite Jest é um teste de resistência. Se der conta de chegar ao fim, não tem escolha a não ser dizer que gostou. Se não, tem que lidar com o fato de que desperdiçou semanas da sua vida”, retrucara A.J. “Estilo sem substância, meu amigo.”
O rosto de Harvey ficara vermelho ao se debruçar sobre a mesa. “Você fala isso de todo escritor que nasceu na mesma década que você!”
Corta. Achata. Empilha.
Quando ele sobe, o curry já esfriou. Esquenta de novo na bandeja de plástico, provavelmente vai ter câncer.
Leva a bandeja para a mesa. A primeira garfada queima. A segunda está congelada. Comida pronta de supermercado. Ele joga a bandeja na parede. Quão pouco ele tinha significado para Harvey e quanto Harvey tinha significado para ele.
A desvantagem de morar sozinho é que, qualquer bagunça que faça, você mesmo tem que limpar.
Não, a verdadeira desvantagem de morar sozinho é que ninguém se importa se está chateado. Ninguém se importa por que um homem de trinta e nove anos jogou uma bandeja de plástico com curry do outro lado do cômodo, como uma criança. Ele se serve de uma taça de vinho. Abre a toalha sobre a mesa. Vai até a sala. Abre a redoma de vidro com controle de temperatura e retira Tamerlane. De volta à cozinha, ele o coloca na mesa, à sua frente, apoiado contra a cadeira onde Nic costumava sentar.
Saúde, sua bela bosta”, ele fala para o fino volume.
Ele termina a taça. Serve-se de outra e, depois que termina essa, promete a si mesmo que irá ler um livro. Talvez um velho querido como Velha escola, de Tobias Wolff, embora seu tempo certamente seria mais bem gasto com algo novo. Sobre qual aquela representante bobinha não parava de falar? Desabrochar tardio… Argh. Ele tinha falado sério. Não há nada pior que memórias fofinhas de viúvos. Ainda mais quando se é um viúvo, como A.J., havia vinte e um meses. A representante era nova — não era sua culpa que não soubesse de sua entediante tragédia pessoal. Nossa, ele sentia saudade da Nic. De sua voz e seu pescoço e até de suas axilas. Ásperas como língua de gato, e no fim do dia, cheirava a leite pouco antes de talhar.
Três taças depois, desmaia na mesa. Tem apenas um metro e setenta e sessenta e cinco quilos, e nem tinha forrado o estômago com o curry. Não vai avançar na sua pilha de leitura esta noite.
Ajay”, Nic sussurra. “Vai pra cama.”
Ao menos, ele sonha. O objetivo de toda bebedeira é chegar a este estado.
Nic, sua esposa fantasma de sonho bêbado, o ajuda a ficar de pé.
Você é uma desgraça, seu nerd. Sabia disso?”
Ele faz que sim.
Curry congelado e vinho tinto de cinco dólares.”
Estou seguindo as tradições de minha ascendência.”
Ele e o fantasma arrastam os pés para a cama.
Parabéns, sr. Fikry. Está se tornando um alcoólatra de carteirinha.”
Desculpa”, ele diz, e ela o coloca na cama.
Seu cabelo castanho está curto, “Cortou o cabelo, meio moleca”, ele diz. “Que estranho.”
Você foi horrível com aquela menina hoje.”
Foi por causa do Harvey.”
Óbvio.”
Não gosto quando as pessoas que eu conheço morrem.”
É por isso que não manda a Molly Klock embora?”
Ele assente.
Não pode continuar assim.”
Posso”, diz A.J. “Estou. E vou.”
Ela o beija na testa. “O quero dizer é que eu gostaria que não continuasse.”
Ela vai embora.
O acidente não tinha sido culpa de ninguém. Ela tinha levado um autor para casa após um evento durante a tarde. Provavelmente corria para pegar a última balsa de automóveis para Alice. Possivelmente tinha desviado para não atropelar um veado.
Possivelmente foram as estradas de Massachusetts no inverno. Não havia como saber. O policial no hospital perguntou se ela tinha tendências suicidas. “Não”, respondeu A.J. “De jeito nenhum.” Ela estava grávida de dois meses. Ainda não tinham contado a ninguém. Já tinham se frustrado antes. Na sala de espera do necrotério, ele desejou ter contado. Ao menos teriam tido um breve período de felicidade antes… Ainda não sabia como chamar isso. “Não, não tinha tendências suicidas.” Fez uma pausa. “Era uma péssima motorista que achava que dirigia bem.”
Sim”, disse o policial. “Não foi culpa de ninguém.”
As pessoas gostam de falar isso”, retrucou A.J. “Mas foi culpa de alguém. Dela. Que coisa idiota ela foi fazer. Que coisa idiota e melodramática ela foi fazer. Que jogada de Danielle Steel, Nic! Se fosse um romance, eu pararia de ler agora. Eu jogaria o livro do outro lado da sala.”
O policial (que não lia muito, a não ser o popular Jeffery Deaver durante as férias) tentou direcionar a conversa de volta à realidade. “É verdade. Você é o dono da livraria.”
Minha esposa e eu somos”, A.J. corrigiu sem pensar. “Nossa, acabei de fazer aquela coisa idiota, quando o personagem esquece que a esposa morreu e usa ‘nós’ sem querer. Que clichê. Senhor”, parou para ler o distintivo do policial, “Lambiase, você e eu somos dois personagens de um romance ruim. Sabia disso? Como é que viemos parar aqui, pô? Você deve estar pensando, Pobre coitado, e hoje à noite vai abraçar seus filhos mais apertado porque é isso que personagens nesse tipo de romance fazem. Sabe de que tipo de livro estou falando, não sabe? O tipo de ficção literária que faz sucesso que, tipo, segue um personagem coadjuvante sem importância por um tempo pra parecer coisa do Faulkner, efusivo. Olha como o autor gosta das pessoas comuns! Até seu nome. Policial Lambiase é o nome perfeito para um tira clichê de Massachusetts. Você é racista, Lambiase? Porque o seu tipo de personagem tem que ser racista.”
Sr. Fikry”, o policial Lambiase dissera, “tem alguém para quem possa telefonar?” Ele era um bom policial, acostumado às diversas maneiras como os que perdem um ente querido podem ter um colapso. Pousou a mão sobre o ombro de A.J.
Sim! Isso mesmo, policial Lambiase, é exatamente o que deve fazer neste momento! Está atuando perfeitamente. Por acaso você sabe o que o viúvo deve fazer agora?”
Ligar para alguém”, respondeu Lambiase.
Sim, deve ser isso mesmo. Mas já liguei para os meus sogros.” A.J. assentiu. “Se fosse um conto, nossa conversa acabava aqui. Um pequeno desvio irônico. Por isso, não há nada mais elegante na prosa que um conto, sr. Lambiase.
Se fosse Raymond Carver, você me ofereceria pouco conforto e a escuridão baixaria e tudo isso teria fim. Mas isso… isso está me parecendo mais um romance. Emocionalmente, quero dizer. Vou demorar um pouco para chegar ao fim. Sabe?”
Não sei, não. Nunca li Raymond Carver”, disse o policial Lambiase. “Eu gosto de Lincoln Rhyme. Conhece?”
O criminologista tetraplégico. Escreve bem para o nicho. Já leu contos?!”
Talvez na escola. Contos de fadas. Ou, hum, O menino e o alazão? Eu acho que devo ter lido O menino e o alazão.”
Esse é uma novela.”
Ah, desculpa. Eu… Espera, tem um com um policial que me lembro de ter lido no colegial. Uma coisa de crime perfeito, acho que é por isso que lembro. Um policial é morto pela esposa. A arma é uma carne congelada, e ela serve pro outro…”
“‘Cordeiro ao matadouro’”, disse A.J. “O conto se chama ‘Cordeiro ao matadouro’ e a arma é um pernil de cordeiro.”
Sim, é esse!” O policial ficou felicíssimo. “Você entende do assunto.”
É um texto muito conhecido. Meus sogros devem estar pra chegar. Desculpa ter me referido a você como ‘personagem coadjuvante sem importância’. Fui rude, e, até onde a gente sabe, eu sou ‘personagem coadjuvante sem importância’ na grande saga do Policial Lambiase. Um tira é um protagonista mais provável que um livreiro. Você, meu caro, tem seu próprio nicho.”
Hum”, disse Lambiase, “você deve ter razão. Voltando ao assunto. Como policial, meu problema é a sequência de eventos. Tipo, ela coloca a carne…”
Cordeiro.”
Cordeiro. Então ela mata o cara com um pedaço de cordeiro congelado depois coloca o negócio no forno sem nem descongelar. Não sou nenhum chef de cozinha, mas…”
Nic já tinha começado a congelar quando retiraram o carro da água, e no necrotério seus lábios estavam azuis. A cor lembrou a A.J. do batom preto que ela tinha usado no lançamento do último livro qualquer sobre vampiros. Ele não gostou nada da ideia de adolescentes tontinhas pulando pela Island com seus vestidos de formatura, mas Nic, que tinha gostado daquele maldito livro de vampiro, e a mulher que o escreveu insistiram que a formatura de vampiros seria boa para os negócios e também divertida. “Você lembra o que é diversão, né?”
Vagamente”, ele dissera. “Faz muito tempo, antes de me tornar livreiro, quando eu tinha fins de semana e noites solitários, no tempo em que eu lia por prazer, lembro que havia diversão. Tão, tão vagamente. Sim!”
Me deixe refrescar sua memória. Diversão é ter uma esposa inteligente, bonita e tranquila com quem você passa todos os dias trabalhando.”
Ele ainda conseguia vê-la naquele vestido absurdo de cetim preto, o braço direito abraçado à coluna da varanda e seus graciosos lábios pintados em linha reta. “Tragicamente, minha esposa virou uma vampira.”
Pobrezinho.” Cruzou a varanda e o beijou, deixando a marca de batom como uma contusão. “A única coisa que lhe resta fazer é se tornar um vampiro também. Não tente resistir. É a pior coisa. Você tem que ser descolado, nerd. Me convide para entrar.”

Gabrielle Zevin, in A vida do livreiro A. J. Fikry

17/07/2022

O diamante do tamanho do Ritz (1922) / F. Scott Fitzgerald


Tecnicamente, uma novela. Mas novela é algo difícil de definir mesmo. Porém, caso se encontre entre pessoas que fazem questão de tais distinções — e eu costumava ser esse tipo de pessoa —, é melhor saber a diferença. (Se por acaso for parar numa universidade da Ivy League*, provavelmente vai encontrar tais pessoas. Arme-se com conhecimento contra esse grupinho arrogante. Mas estou divagando.) Edgar Allan Poe define conto como legível em uma sentada. Suponho que “uma sentada” fosse algo mais longo no seu tempo. Mas divago outra vez.
Conto excêntrico e inovador sobre as dificuldades em ser dono de uma cidade feita de diamantes e os esforços que os ricos fazem para proteger seu estilo de vida. Fitzgerald em sua melhor forma. O Grande Gatsby é deslumbrante, mas esse romance às vezes me parece enfeitado de mais, como um jardim topiário. O formato de conto é um negócio mais confortável e bagunçado para ele. Diamante respira como um gnomo de jardim encantado.
Em referência a esta inclusão: preciso mesmo fazer o óbvio e contar que pouco antes de conhecer você eu também tinha perdido algo de valor imenso, embora fosse mera especulação?

A.J.F.

* Eu tenho minhas opiniões sobre isso. Lembre que uma boa educação pode ser encontrada em lugares não usuais.

Embora não se lembre de como chegou ali e de ter tirado a roupa, A.J. acorda na cama apenas de cueca. Lembra que Harvey Rhodes está morto; lembra que foi um babaca com a representante bonitinha da Pterodactyl; lembra que jogou o curry; lembra que tomou uma taça de vinho e brindou ao Tamerlane. Depois disso, nada. Sob o seu ponto de vista, a noite tinha sido um triunfo.
Sua cabeça lateja. Ele sai do quarto esperando encontrar os detritos de curry. O chão e as paredes estão limpos. A.J. procura uma aspirina no armário enquanto silenciosamente se parabeniza por ter tido a previdência de limpar a comida. Senta-se à mesa e nota que a garrafa de vinho também foi para o lixo. Estranho ter sido tão meticuloso, mas não foi a primeira vez também. Ele é um bêbado limpinho. Olha para o outro lado da mesa, onde tinha deixado o Tamerlane. O livro não está mais lá. Talvez tenha apenas imaginado tirá-lo da redoma.
Ao caminhar para a sala, o coração de A.J. compete com a cabeça. No meio do caminho, vê que a caixa de vidro com fechadura de combinação e controle de temperatura, que protege o Tamerlane do mundo, está escancarada e vazia.
Ele veste um roupão e o tênis de corrida, que não teve muito uso nos últimos tempos.
A.J. corre rua Captain Wiggins abaixo com seu roupão xadrez encardido esvoaçando atrás de si. Ele parece um super-herói deprimido e subnutrido. Vira na Main e corre na direção da sonolenta delegacia de polícia de Alice Island. “Fui roubado!”, anuncia. Foi uma corrida curta, mas A.J. respira com dificuldade. “Por favor, alguém me ajude!” Ele tenta não se sentir como uma senhora cuja bolsa foi roubada.
Lambiase pousa sua xícara de café sobre a mesa e observa o homem perturbado de roupão. Reconhece o dono da livraria e o homem cuja bela e jovem esposa dirigiu para dentro do lago um ano e meio atrás. A.J. parece muito mais velho que da última vez, embora Lambiase entenda que isso é o esperado.
Certo, sr. Fikry”, diz Lambiase, “me conte o que aconteceu.”
Alguém roubou o Tamerlane.”
O que é o Tamerlane?”
É um livro. Um livro muito valioso.”
Só pra esclarecer: você quer dizer que alguém furtou um livro da loja.”
Não. Era meu livro, da minha coleção pessoal. É uma seleção de poemas do Edgar Allan Poe, muito rara.”
Então, é, tipo, seu livro preferido?”, pergunta Lambiase.
Não. Eu nem gosto. É uma porcaria. Porcaria de primeira. É só…” A.J. hiperventila. “Merda.”
Fique calmo, sr. Fikry. Estou só tentando entender. Você não gosta do livro, mas tem valor sentimental?”
Não! Porra de valor sentimental nenhum. Tem muito valor financeiro. O Tamerlane é tipo o Honus Wagner dos livros raros! Sabe do que eu tô falando?”
Claro, meu vovô era colecionador de cartões de beisebol”, Lambiase assente. “Valioso assim?”
A.J. não consegue falar rápido o suficiente. “Foi a primeira coisa que o Edgar Allan Poe escreveu, quando ele tinha dezoito anos. Exemplares são muito raros porque a tiragem foi de cinquenta cópias, e publicado no anonimato. Em vez de ‘Edgar Allan Poe’, está ‘por um bostoniano’ na capa. Os exemplares são vendidos por mais de quatrocentos mil dólares, dependendo das condições e do humor do mercado de livros raros. Eu planejava leiloar daqui a uns dois anos, quando a economia melhorasse um pouco. Meu plano era fechar a loja e me aposentar com a renda.”
Desculpa a pergunta, mas por que guardou algo tão valioso em casa e não num cofre de banco?”
A.J. balança a cabeça. “Não sei. Burrice. Acho que gostava dele por perto. Gostava de olhar pra ele e lembrar que eu podia parar a hora que quisesse. Eu guardava numa redoma com segredo. Achei que já era seguro o suficiente.” Em sua defesa, há muito pouco roubo em Alice Island, exceto na alta temporada. Estamos em outubro.
Então, alguém arrombou a redoma ou sabia a combinação?”
Nenhuma das duas coisas. Eu fiquei bêbado ontem à noite. Idiotice da porra, mas tirei o livro pra olhar. Companhia ridícula, eu sei.”
Sr. Fikry, o Tamerlane estava segurado?”
A.J. enfia a cabeça entre as mãos. Lambiase entende que não. “Eu achei o livro faz um ano, uns dois meses depois que minha esposa morreu. Eu não queria gastar mais dinheiro. Não fui atrás. Sei lá. Um milhão de razões idiotas, mas a principal é que eu sou idiota, policial Lambiase.”
Lambiase não se dá ao trabalho de corrigir para Delegado Lambiase. “Eu vou fazer o seguinte. Primeiro, nós vamos abrir uma queixa. Depois, quando a investigadora chegar — ela só faz meio período durante a baixa temporada —, eu vou enviá-la para sua casa para procurar por digitais e outras provas. Talvez ela ache algo. A outra coisa que podemos fazer é ligar para casas de leilão e pessoas que lidam com esse tipo de coisa. Se é tão raro quanto está dizendo, vão notar se um exemplar desconhecido surgir no mercado. Coisas assim não têm um tipo de registro de quem era o dono… como é que fala mesmo?”
Procedência.”
Isso, exato! Minha esposa assistia a Antiques Roadshow. Já viu esse programa?”
A.J. não responde.
E por último: alguém mais sabia sobre o livro?”
A.J. bufa. “Todo mundo. A irmã da minha esposa, Ismay, dá aula pro colegial. Ela anda preocupada comigo desde que a Nic… Sempre me importuna pra sair da loja, sair da ilha. Mais ou menos um ano atrás, ela me arrastou pra um ‘família vende tudo’ deprimente em Milton. Ele estava numa caixa junto com outros cinquenta livros, todos sem valor nenhum, exceto o Tamerlane. Paguei cinco dólares. As pessoas não tinham ideia do que possuíam em mãos. Me senti um merda por tirar deles, se quer saber a verdade. Não que isso importe agora. Enfim, Ismay achou que seria bom para os negócios e educacional e a porra toda se eu exibisse na loja. Então eu deixei a redoma na loja o verão passado. Acho que você nunca vai à livraria.”
Lambiase olha para os próprios sapatos, uma vergonha oriunda de centenas de aulas de literatura no colegial, nas quais reprovava por não ler os textos básicos. “Não leio muito.”
Você lê romance policial, certo?”
Boa memória”, diz Lambiase. Na verdade, A.J. se recorda perfeitamente dos gostos literários das pessoas.
Deaver, né? Se gosta dele, tem um escritor novo de…”
Claro, vou passar lá qualquer hora. Tem alguém pra quem eu possa telefonar? A irmã de sua esposa é a Ismay Evans-Parish, certo?”
A Ismay tá…” Nesse instante, A.J. congela, como se alguém tivesse apertado seu botão de pause. Seus olhos ficam sem expressão e seu queixo cai.
Sr. Fikry?”
Por quase trinta segundos, A.J. fica congelado e depois volta a falar como se nada tivesse acontecido. “A Ismay está trabalhando, e eu tô bem. Não precisa telefonar.”
Você ficou fora do ar um minutinho agora”, disse Lambiase.
Quê?”
Você apagou.”
Nossa. É só uma crise de ausência. Eu costumava ter muitas quando era criança. Agora é raro, só quando estou estressado.”
Devia ver um médico.”
Não, tá tudo bem. De verdade. Só quero achar meu livro.”
É melhor”, insiste Lambiase. “Sua manhã foi muito traumática, e eu sei que mora sozinho. Vou levar você ao hospital e ligo para os seus sogros te encontrarem lá. Enquanto isso, vou ver se o pessoal aqui consegue descobrir alguma coisa sobre o livro.”

No hospital, A.J. espera, preenche formulários, espera, tira a roupa, espera, faz exames, espera, veste-se novamente, espera, faz mais exames, espera, tira a roupa de novo, e, por fim, é examinado por uma clínica-geral de meia-idade. Não está preocupada com a crise. Os testes, porém, revelaram que a pressão sanguínea e o colesterol estão no limite entre aceitável e alto para um homem de trinta e nove anos. Pergunta a A.J. sobre seu estilo de vida. Ele responde com sinceridade: “Eu não sou um alcoólatra, mas gosto de beber até desmaiar uma vez por semana, no mínimo. Fumo de vez em quando e sobrevivo com uma dieta composta por comida pronta congelada. Quase nunca passo fio dental. Costumava correr longas distâncias, mas agora não faço exercício nenhum. Moro sozinho e não tenho nenhum relacionamento importante. Desde que minha esposa morreu, também odeio meu trabalho.”
Só isso?!”, a médica pergunta. “Você ainda é jovem, sr. Fikry, mas o corpo tem um limite. Se está tentando se matar, eu conheço métodos mais fáceis e rápidos. Você quer morrer?”
Ele não tem uma resposta imediata.
Porque, se quer mesmo morrer, posso colocá-lo sob observação psiquiátrica.”
Eu não quero morrer”, diz A.J. um tempinho depois. “Só acho difícil estar aqui o tempo todo. Acha que sou louco?”
Não. Eu entendo por que se sente assim. Está enfrentando uma barra. Comece com exercícios”, ela recomenda. “Vai se sentir melhor.”
O.k.”
Sua mulher era uma graça”, diz a médica. “Eu costumava frequentar o clube do livro para mães e filhas que ela organizava na livraria. Minha filha trabalha meio período pra você.”
Molly Klock?”
Klock é o nome do meu marido. Eu sou a dra. Rosen.” Ela toca no crachá.
No lobby, A.J. se depara com uma cena familiar. “Você poderia me dar um autógrafo?”, uma enfermeira com roupa cirúrgica rosa pergunta, entregando um livro velho para um homem com paletó de veludo cotelê e cotovelos reforçados.
Com prazer”, responde Daniel Parish. “Como se chama?”
Jill, como na canção de ninar Jack and Jill. E Macy, como a loja. Li todos os seus livros, mas este é meu preferido. Tipo, de longe.”
Essa é a opinião popular, Jill da canção.” Daniel não está brincando. Nenhum de seus outros livros vendeu tanto, nem de longe, quanto o primeiro.
Nem sei dizer quanto ele significa pra mim. Tipo, eu fico emocionada só de pensar.” Ela baixa a cabeça e os olhos, em deferência, como uma gueixa. “Foi o que me fez querer ser enfermeira! Eu comecei aqui faz pouco tempo. Quando descobri que você morava na cidade, ficava torcendo para que aparecesse aqui um dia.”
Quer dizer que torcia para eu adoecer?”, pergunta Daniel, sorrindo.
Não, claro que não!” Ela fica vermelha, depois bate no braço dele. “Seu…! Seu malvado!”
Sim”, responde Daniel. “Eu sou, de fato, malvado.”
A primeira vez que Nic vira Daniel Parish comentara que ele tinha a aparência de um apresentador de telejornal regional. Na volta para casa, já tinha revisto sua opinião. “Olhos muito pequenos para um âncora. Seria o homem do tempo.”
Ele tem uma voz poderosa”, A.J. dissera.
Se aquele homem dissesse que a tempestade tinha passado, você acreditaria. Provavelmente até mesmo se estivesse debaixo dela”, ela comentara.
A.J. interrompe o flerte. “Dan”, chama, “pensei que tinham chamado sua esposa.” A.J. não quer ser sutil.
Daniel pigarreia. “Ela não está se sentindo muito bem, por isso eu vim. Como você tá, velhinho?” Daniel chama A.J. de “velhinho” apesar de ser cinco anos mais velho.
Perdi minha fortuna e a médica falou que vou morrer, tirando isso, fantástico.” O sedativo lhe deu perspectiva.
Maravilha. Vamos beber.” Daniel vira-se para a enfermeira Jill e sussurra algo em seu ouvido. Quando devolve o livro para ela, A.J. nota que ele escreveu seu telefone. “Venha, rei do vinho!”, chama Daniel, indo na direção da saída.
Apesar de amar livros e ser dono de uma livraria, A.J. não gosta muito de escritores. Acha-os desleixados, narcisistas, bobos e, em geral, desagradáveis. Tenta evitar conhecer quem escreveu os livros que ama por temer parar de amá-los. Por sorte, não ama os livros de Daniel, nem o primeiro e popular. Quanto ao homem? Bem, ele diverte A.J., até certo ponto. Tudo isso pra dizer que Daniel Parish é um dos melhores amigos dele.

A culpa é minha”, diz A.J. depois da segunda cerveja. “Devia ter contratado seguro. Guardado num cofre. Não devia ter pegado, bêbado. Não importa quem roubou, não posso dizer que minha conduta tenha sido correta.” O álcool mais o sedativo está deixando A.J. meloso, filosófico. Daniel lhe serve outro copo.
Não faça isso, A.J. Não se culpe.”
É um alerta, isso que é”, diz A.J. “Vou diminuir a bebida.”
Depois dessa cerveja”, Daniel brinca. Brindam. Uma garota com cara de ainda estar no colegial entra no bar, usando shortinho jeans tão curto que seu bumbum aparece. Daniel levanta a caneca para ela. “Bela roupa!” A menina lhe mostra o dedo. “Você precisa parar de beber. Eu preciso parar de trair a Ismay”, diz Daniel. “Mas quando vejo um short desse, minha determinação é posta à prova. Essa noite foi absurda. A enfermeira! Esses shorts!”
A.J. bebe. “E o livro?”
Daniel dá de ombros. “É um livro. Vai ter páginas e capa. Vai ter trama, personagens, complicações. Vai refletir anos de estudo, refinamento e prática da minha arte. Por isso tudo, será menos popular que o primeiro que escrevi aos vinte e cinco.”
Coitado”, A.J. diz.
Tenho certeza de que você ganha o Prêmio de Coitado do Ano, velhinho.”
Sorte a minha.”
O Poe é um péssimo escritor, sabe? E ‘Tamerlane’ é o pior. Cópia sem graça de Lorde Byron. Seria outra coisa se fosse a primeira edição de uma porra que prestasse. Devia ficar feliz de ter se livrado daquilo. Eu odeio livros de colecionador de qualquer modo. As pessoas se derretendo por carcaças de papel. As ideias é que importam, cara. As palavras”, diz Daniel Parish.
A.J. termina a cerveja. “Você, meu caro, é um idiota.”
A investigação dura um mês, o que, para a polícia de Alice Island, é um ano. Lambiase e sua equipe não encontram evidência física relevante na cena. Além de descartar a garrafa de vinho e limpar o curry, o criminoso também apagou todas as impressões digitais do apartamento. Os investigadores interrogam os funcionários de A.J. e também seus amigos e conhecidos em Alice. Esses interrogatórios não resultam em nada incriminatório. Nenhum negociante de livros ou casa de leilão relata novos exemplares de Tamerlane. (Claro, casas de leilão são notoriamente discretas quanto a esses assuntos.) A investigação é considerada não resolvida. O livro sumiu, e A.J. sabe que nunca mais o verá.
A redoma de vidro é inútil agora, e A.J. não sabe o que fazer com ela. Não tem outros livros raros. No entanto, foi cara, quase quinhentos dólares. Um vestígio de esperança nele quer acreditar que algo melhor aparecerá para ocupar o lugar. Quando comprou, disseram que também serviria para armazenar charutos.
Não há mais aposentadoria no horizonte, e A.J. lê provas, responde e-mails, atende o telefone e até escreve uma ou outra chamada para as prateleiras. À noite, depois de fechar a loja, volta a correr. Há muitos desafios em corridas de longa distância. Um dos maiores é onde colocar as chaves de casa. No fim, A.J. decide deixar a porta aberta. Não há nada de valor.

Gabrielle Zevin, in A vida do livreiro A. J. Fikry