Mostrando postagens com marcador James Joyce. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador James Joyce. Mostrar todas as postagens

12/02/2020

Depois da corrida

Os carros vieram em disparada rumo a Dublin, correndo juntos como balas na pista da Naas Road. Na crista da montanha em Inchicore os espectadores haviam se reunido em grupos para ver os carros acelerando rumo à linha de chegada, e por aquele canal de pobreza e inércia o Continente desfilava a riqueza e a indústria. De vez em quando os grupos de pessoas animavam a grata plateia de oprimidos. Essa simpatia, no entanto, era para os carros azuis – os carros dos amigos franceses.
Os franceses, além do mais, tinham conseguido uma vitória técnica. A equipe havia feito uma corrida consistente, ficado em segundo e em terceiro lugar, e haviam noticiado que o piloto do carro alemão vencedor era belga. Assim, os carros azuis receberam uma dupla salva de boas-vindas quando chegaram à crista da montanha, e cada grito de boas-vindas era recebido com sorrisos e acenos de cabeça pelos ocupantes do carro. Em um desses carros construídos com tanto esmero havia um grupo de quatro jovens cujo ânimo parecia estar muito acima do simples galicismo de sucesso: na verdade, esses quatro jovens eram quase hilários. Eram Charles Ségouin, o proprietário do carro; André Rivière, um jovem eletricista nascido no Canadá; um enorme húngaro chamado Villona e um jovem muito elegante chamado Doyle. Ségouin estava de bom humor porque tinha recebido algumas encomendas adiantadas (estava prestes a abrir um salão de automóveis em Paris) e Rivière estava de bom humor porque seria nomeado gerente do estabelecimento; esses dois jovens (que eram primos) também estavam de bom humor devido ao sucesso dos carros franceses. Villona estava de bom humor porque tinha comido um almoço muito agradável; e além disso era um otimista nato. O quarto integrante do grupo, no entanto, parecia empolgado demais para sentir-se genuinamente feliz.
Tinha cerca de 26 anos de idade, um bigode marrom-claro macio e olhos cinzentos de aspecto inocente. O pai, que havia começado a vida como Nacionalista, tinha mudado de ideia muito tempo atrás. Ganhou dinheiro como açougueiro em Kingstown e depois de abrir lojas em Dublin e nos subúrbios multiplicou esse dinheiro muitas e muitas vezes. Além do mais, tinha sido afortunado o bastante para garantir alguns contratos com a polícia e no fim acabou rico o suficiente para figurar nos jornais de Dublin como um príncipe mercante. Tinha mandado o filho à Inglaterra para que fosse educado em uma grande universidade católica e depois mandou-o à Universidade de Dublin para estudar Direito. Jimmy não levou os estudos muito a sério e andou pelo mau caminho durante algum tempo. Tinha dinheiro e era popular; e dividia o tempo de maneira um tanto curiosa entre círculos musicais e automobilísticos. Depois foi passar um semestre em Cambridge para viver a vida. O pai, bastante crítico, mas no fundo orgulhoso dos excessos do filho, pagou as contas e trouxe-o para casa. Foi em Cambridge que conheceu Ségouin. Os dois eram pouco mais do que conhecidos mas Jimmy gostava muito da companhia de alguém que tinha visto tantos lugares e tinha fama de ser dono de alguns dos maiores hotéis da França. Valia a pena conhecer uma pessoa assim (o pai concordava) mesmo se não fosse a excelente companhia que era. Villona também era divertido – um pianista brilhante –, mas, infelizmente, muito pobre.
O carro seguia alegre com a carga de jovens hilários. Os dois primos estavam no banco da frente; Jimmy e o amigo húngaro estavam atrás. Sem dúvida Villona estava de excelente humor; cantarolou uma melodia em um baixo profundo por vários quilômetros da estrada. Os franceses atiravam risadas e palavras leves por cima dos ombros e muitas vezes Jimmy precisava se curvar à frente para captar uma frase espirituosa. Não era muito agradável, já que quase sempre era necessário fazer uma tentativa astuta de adivinhar o significado e gritar uma resposta adequada contra o forte vento. Como se não bastasse, a cantoria de Villona confundiria qualquer um – e o barulho do carro também.
Mover-se em alta velocidade através do espaço provoca alegria; a notoriedade também; a posse de dinheiro também. Essas eram três boas razões para o entusiasmo de Jimmy. Naquele dia tinha sido visto por muitos amigos na companhia daqueles três homens do Continente. No controle Ségouin havia-o apresentado a um dos competidores franceses e, em resposta ao confuso murmúrio elogioso, o rosto moreno do piloto havia revelado uma fileira de dentes brancos reluzentes. Depois dessa honraria foi bom retornar ao mundo profano dos espectadores em meio a cutucões e olhares de admiração. Quanto ao dinheiro – de fato controlava uma quantia significativa. Ségouin talvez não achasse a quantia tão significativa assim, mas Jimmy, que apesar de alguns erros temporários no fundo tinha instintos confiáveis, sabia muito bem a dificuldade que tinha sido juntá-la. Até então esse conhecimento tinha mantido os gastos dentro dos limites de uma extravagância ponderada, e se antes havia demonstrado consciência em relação ao esforço latente no dinheiro ao tratar dos simples caprichos de uma inteligência superior, quanto mais não teria agora, prestes a apostar a maior parte da fortuna! Para ele aquilo era coisa séria.
Claro, o investimento era bom e Ségouin tinha dado a entender que era graças a um favor da amizade que aquela mixaria de dinheiro irlandês seria incluída no capital da empresa. Jimmy respeitava a astúcia do pai nos negócios e nesse caso foi o pai quem primeiro sugeriu o investimento; havia dinheiro a ser feito no setor automobilístico, rios de dinheiro. Além do mais, Ségouin tinha um ar inconfundível de riqueza. Jimmy começou a traduzir o opulento carro em que estava sentado em dias de trabalho. Como andava macio! Com que estilo haviam corrido pelas estradas rurais! A jornada tinha tocado com magia no verdadeiro pulso da vida, e o valente mecanismo dos nervos humanos esforçava-se por responder ao trajeto sacolejante do célere animal azul.
Eles desceram a Dame Street. A rua estava agitada com os buzinaços dos motoristas e os gongos dos impacientes condutores dos bondes. Próximo ao Banco Ségouin parou e Jimmy e o amigo desceram. Um pequeno grupo de pessoas reuniu-se no caminho para prestar homenagem ao motor roncante. Naquela noite os quatro jantariam juntos no hotel de Ségouin e, nesse meio-tempo, Jimmy e o amigo, que estava ficando com ele, iriam para casa se arrumar. O carro se afastou devagar em direção à Grafton Street enquanto os dois jovens abriam caminho em meio aos observadores. Caminharam rumo ao norte com um estranho sentimento de decepção nesse exercício, enquanto a cidade suspendia os pálidos globos de luz na névoa do entardecer de verão.
Na casa de Jimmy esse jantar foi considerado uma ocasião e tanto. Um certo orgulho misturou-se à apreensão dos pais, e também uma certa ânsia por agir depressa e com naturalidade, pois os nomes das grandes cidades estrangeiras têm pelo menos essa virtude. Jimmy ficou com um ótimo aspecto depois de se arrumar e, quando estava no corredor dando uma última ajeitada nos laços da gravata, o pai deve ter sentido uma satisfação até mesmo comercial por ter assegurado ao filho qualidades muitas vezes incompráveis. Assim, o pai foi especialmente amistoso com Villona e expressou um respeito genuíno pelas conquistas estrangeiras; mas a sutileza do anfitrião deve ter se perdido para o húngaro, que estava começando a sentir um profundo desejo pelo jantar.
O jantar estava excelente, extraordinário. Ségouin, pensou Jimmy, tinha um gosto muito refinado. O grupo aumentou com a chegada de um jovem inglês chamado Routh que Jimmy tinha visto na companhia de Ségouin em Cambridge. Os jovens fizeram a refeição em um confortável recinto iluminado por lâmpadas elétricas. Travaram uma conversa volúvel e pouco reservada. Jimmy, com a imaginação desperta, vislumbrou a juventude impetuosa dos franceses misturada à rígida elegância das maneiras inglesas. Uma imagem graciosa, pensou, e também justa. Ele admirou a destreza com que o anfitrião conduzia a conversa. Os cinco jovens tinham gostos variados e estavam com a língua solta. Villona, com imenso respeito, começou a revelar ao inglês um tanto surpreso as belezas do madrigal inglês e a deplorar a perda dos instrumentos antigos. Rivière, em uma iniciativa não muito engenhosa, resolveu explicar para Jimmy o triunfo dos mecânicos franceses. A voz ribombante do húngaro estava prestes a ridicularizar os alaúdes espúrios dos pintores românticos quando Ségouin pastoreou o grupo rumo aos caminhos da política. Esse era um terreno agradável para todos. Jimmy, sob a generosa influência da bebida, sentiu o ímpeto oculto do pai acordar dentro de si: e enfim despertou o apático Routh. O calor no interior do cômodo dobrou de intensidade e a tarefa de Ségouin ficava mais difícil a cada instante: corria-se até mesmo o risco de desavenças pessoais. O anfitrião sempre alerta fez um brinde à Humanidade no primeiro momento oportuno e, depois que todos beberam, abriu uma janela com um gesto prenhe de significado.
Naquela noite a cidade usava a máscara de uma capital. Os cinco jovens caminharam pelo Stephen’s Green em uma tênue nuvem de fumaça aromática. Conversaram alegres e em voz alta com os casacos pendurados nos ombros. As pessoas abriam caminho para eles. Na esquina da Grafton Street um homem gordo e baixo estava ajudando duas belas mulheres a entrar num carro aos cuidados de outro homem gordo. O carro se afastou e o homem gordo e baixo percebeu o grupo.
– André.
– É o Farley!
Uma torrente de conversa veio a seguir. Farley era americano. Ninguém sabia direito qual era o assunto da conversa. Villona e Rivière eram os mais ruidosos, mas todos estavam exaltados. Entraram em um carro, espremendo uns aos outros em meio a muitas risadas. Trafegaram ao lado da multidão, a essa altura transformada em cores suaves, ao som de sinos alegres. Pegaram o trem na Westland Row e em poucos instantes, como pareceu a Jimmy, estavam saindo da Kingstown Station. O condutor saudou Jimmy; era um senhor de idade.
– Boa noite, senhor!
Era uma noite amena de verão; o porto estendia-se como um espelho negro logo abaixo. Seguiram em frente de braços dados, cantando Cadet Roussel em uníssono, batendo os pés a cada:
– Ho! Ho! Hohé, vraiment!
Entraram em um barco a remo no cais e foram em direção ao iate do americano. Lá haveria comida, música, cartas. Villona disse, convicto:
– Que bonito!
Havia um piano na cabine. Villona tocou uma valsa para Farley e Rivière, Farley fazendo as vezes de cavalheiro e Rivière de dama. Logo veio uma quadrilha improvisada, e os homens inventaram passos na hora. Quanta alegria! Jimmy participou com vontade; aquilo, enfim, era viver a vida. Então Farley perdeu o fôlego e gritou Chega! Um homem trouxe uma ceia leve, e os jovens sentaram-se por mera convenção. Mesmo assim, beberam: era um hábito boêmio. Beberam a Irlanda, a Inglaterra, a França, a Hungria, os Estados Unidos da América. Jimmy fez um discurso, um longo discurso, e Villona dizia Mais! Mais! sempre que havia uma pausa. Houve muitos aplausos quando sentou. Deve ter sido um bom discurso. Farley deu-lhe um tapa nas costas e riu alto. Que sujeitos alegres! Que ótimos companheiros!
Cartas! Cartas! Limparam a mesa. Villona retornou em silêncio ao piano e tocou de improviso. Os outros jogaram rodada atrás de rodada, lançando-se à aventura com vontade. Beberam à saúde da Dama de Copas e da Dama de Ouro. Jimmy sentiu de maneira obscura a falta de uma audiência: todos pareciam muito espirituosos. As apostas estavam muito altas e o papel começou a circular. Jimmy não sabia direito quem estava ganhando mas sabia que estava perdendo. Mas a culpa era dele mesmo porque muitas vezes confundia as cartas e os outros precisaram calcular o quanto devia. Eram companhias formidáveis mas ele queria que parassem: estava ficando tarde. Alguém fez um brinde ao iate The Belle of Newport e em seguida alguém sugeriu um grande jogo para encerrar.
O piano havia parado; Villona devia ter subido ao convés. Foi um jogo terrível. Eles pararam logo antes do fim para beber à sorte. Jimmy percebeu que a decisão seria entre Routh e Ségouin. Quanta emoção! Jimmy também estava empolgado; mas ele perderia, claro. Quanto havia assinado em dívidas? Os homens ficaram de pé para jogar as últimas cartas, falando e gesticulando. Routh ganhou. A cabine estremeceu com a comemoração dos jovens e as cartas foram guardadas. Os ganhos foram recolhidos. Farley e Jimmy sofreram as maiores perdas.
Ele sabia que se arrependeria pela manhã, mas naquele instante estava feliz com o descanso, feliz com o estupor negro que haveria de cobrir aquela insensatez. Apoiou os cotovelos na mesa e pôs a cabeça entre as mãos, contando as pulsações nas têmporas. A porta da cabine se abriu e ele viu o húngaro de pé em uma nesga de luz cinzenta:
– Já é dia, senhores!
James Joyce, in Dublinenses

04/02/2020

Arábia

A North Richmond Street, por ser uma rua sem saída, era silenciosa, exceto na hora em que a Christian Brothers’ School soltava os garotos. Uma casa desabitada de dois andares ficava no fundo da rua, afastada dos vizinhos em um terreno quadrado. As outras casas da rua, cientes das vidas decentes que abrigavam, olhavam umas para as outras com rostos marrons imperturbáveis. O antigo morador da nossa casa, um padre, havia morrido na saleta dos fundos. Um cheiro de mofo causado pelo longo tempo de enclausuramento pairava sobre todos os cômodos, e o quarto de despejo atrás da cozinha estava cheio de velhos jornais inúteis. No meio deles encontrei alguns livros encadernados em brochura, com páginas curvas e emboloradas: The Abbot, de Walter Scott, The Devout Communicant e The Memoirs of Vidocq. Gostei mais deste último porque as páginas estavam amareladas. O jardim negligenciado atrás da casa tinha uma macieira e arbustos tortos em meio aos quais encontrei a enferrujada bomba de bicicleta do falecido morador. Ele tinha sido um padre muito caridoso; no testamento, deixou todo o dinheiro para instituições e todos os móveis da casa para a irmã.
Quando os dias curtos do inverno chegavam, a noite caía antes do jantar. Quando nos encontrávamos na rua as casas pareciam sombrias. O céu acima das nossas cabeças tinha um tom de violeta em constante mudança, e as lâmpadas da iluminação pública erguiam as débeis lanternas para o alto. O ar frio era cortante e brincávamos até ficar com o corpo avermelhado. Nossos gritos ecoavam pela rua silenciosa. A rota da brincadeira levava-nos pelos becos escuros e lodacentos atrás das casas, onde passávamos pelo corredor da morte formado pelas tribos rústicas dos barracos antes de chegar às portas dos fundos de jardins escuros e gotejantes que soltavam odores das borralheiras e às estrebarias onde um cavalariço alisava e escovava um cavalo ou tirava música das fivelas nos arreios. Quando voltávamos mais uma vez para a rua a luz das cozinhas havia preenchido esses espaços. Se o meu tio aparecesse na esquina, escondíamo-nos na sombra até vê-lo devidamente em casa. Ou se a irmã de Mangan saísse até a soleira da porta e chamasse o irmão para o jantar nós a observávamos da nossa sombra enquanto procurava para cima e para baixo da rua. Esperávamos para ver se ela ia continuar na rua ou entrar e, se continuasse na rua, abandonávamos a nossa sombra e caminhávamos até os degraus da casa de Mangan com um ar resignado. Ela ficava à nossa espera, com a silhueta desenhada pela luz da porta entreaberta. O irmão sempre a provocava antes de obedecer e eu ficava na balaustrada olhando para ela. O vestido ondulava quando ela mexia o corpo e as suaves cordas do cabelo balançavam de um lado para o outro.
Toda manhã eu ficava na sala observando a porta dela. A cortina ficava a um dedo do parapeito para que eu não fosse visto. Quando ela saía até a soleira da porta o meu coração dava um pulo. Eu ia depressa até o corredor, pegava os meus livros e a seguia. Mantinha aquela figura morena sempre no meu campo de visão e, quando chegávamos no ponto em que nossos caminhos se separavam, eu apertava o passo e a ultrapassava. Isso se repetia manhã após manhã. Eu nunca tinha conversado com ela, a não ser por umas poucas palavras casuais, porém mesmo assim seu nome era como um chamado para todo o meu sangue tolo.
A imagem dela me acompanhava até nos lugares mais hostis ao romance. No entardecer de sábado quando a minha tia saía para fazer as compras eu precisava carregar alguns pacotes. Caminhávamos pelas ruas iluminadas, sendo empurrados por bêbados e pechinchadoras em meio aos xingamentos dos trabalhadores, às litanias estridentes dos vendedores que ficavam de guarda junto dos barris de bochechas de porco e às melodias anasaladas dos cantores de rua, que entoavam um come-all-you sobre O’Donovan Rossa ou uma balada sobre os problemas em nossa terra natal. Para mim todos esses barulhos formavam uma única sensação de vida: eu imaginava estar carregando o meu cálice em segurança no meio de uma horda de inimigos. Em certos momentos o nome dela surgia em meus lábios em estranhas orações e elogios que nem eu compreendia. Muitas vezes meus olhos ficavam rasos de lágrimas (eu não sabia por quê) e de vez em quando uma torrente do meu coração parecia derramar-se em meu peito. Eu pensava pouco no futuro. Não sabia se devia ou não falar com ela nem, caso falasse, como poderia explicar minha confusa adoração. Mas o meu corpo era como uma harpa e as palavras e os gestos dela eram como dedos correndo sobre as cordas.
Certa noite fui até a saleta dos fundos onde o padre havia morrido. Era uma noite escura e chuvosa e não se ouvia nenhum barulho na casa. Por um vidro quebrado eu ouvia a chuva cair sobre a terra, as pequenas agulhas incessantes de água brincando nos canteiros encharcados. Uma janela ou uma lamparina distante cintilava logo abaixo de mim. Agradeci por ver tão pouco. Todos os meus sentidos pareciam querer esconder-se atrás de um véu e, sentindo que eu estava prestes a escapar, apertei a palma das mãos até que tremessem, murmurando: Meu amor! Meu amor! várias vezes.
Por fim ela falou comigo. Quando dirigiu as primeiras palavras a mim fiquei tão confuso que eu não sabia o que responder. Ela me perguntou se eu estava indo para a Arábia. Não lembro se respondi sim ou não. Seria um bazar esplêndido, disse-me; ela adoraria ir.
– E por que você não vai?, perguntei.
Enquanto falava ela girava um bracelete de prata ao redor do pulso. Ela não ia, disse, porque naquela semana haveria um retiro no convento. O irmão e outros dois garotos estavam brigando por causa dos bonés e eu estava sozinho na balaustrada. Ela segurava uma das barras, inclinando a cabeça na minha direção. A luz em frente à nossa porta batia na curva branca do pescoço, iluminava os cabelos que se aninhavam por lá e, ao cair, iluminava a mão na balaustrada. A luz caía na lateral do vestido e pegava a borda branca de uma anágua, mal e mal visível enquanto continuava à vontade.
– Sorte sua, disse ela.
– Se eu for, vou trazer alguma coisa pra você.
Que loucuras destruíram meus pensamentos na vigília e no sono depois daquele entardecer! Eu queria aniquilar os aborrecidos dias de espera. Perdi a paciência com as tarefas escolares. À noite no meu quarto e durante o dia na sala de aula a imagem dela surgia entre mim e a página que eu me esforçava por ler. As sílabas da palavra Arábia chamavam-me através do silêncio em que minha alma banhava-se e lançavam sobre mim um encanto oriental. Pedi para ir ao bazar na noite de sábado. Minha tia ficou surpresa e disse que esperava que não fosse um evento maçônico. Eu respondia poucas perguntas durante a aula. Vi a expressão do meu professor passar da afabilidade ao rigor; não queria que eu começasse a relaxar nos estudos. Eu não conseguia organizar meus pensamentos divagantes. Perdia a paciência com as coisas sérias da vida que, por ficar entre mim e o meu desejo, pareciam uma brincadeira infantil, uma monótona e aborrecida brincadeira infantil.
Na manhã de sábado lembrei o meu tio de que eu queria ir ao bazar no entardecer. Ele estava mexendo na chapeleira do corredor, procurando a escova de chapéu, e me respondeu com laconismo:
– Sim, menino, eu sei.
Enquanto ele estava no corredor eu não podia ir para a sala da frente e ficar na janela. Saí de mau humor e caminhei devagar em direção à escola. Fazia um frio implacável e o meu coração logo me deixou em dúvida.
Quando cheguei em casa para o jantar o meu tio ainda não havia passado em casa. Mas ainda era cedo. Fiquei olhando para o relógio durante algum tempo e, quando o tique-taque começou a me irritar, saí da sala. Subi a escada e ganhei a parte superior da casa. Os cômodos altos frios vazios e escuros me libertaram e fui de uma peça à outra cantando. Da janela da frente eu vi os meus amigos brincando na rua lá embaixo. Os gritos chegavam fracos e indistintos até mim, e com a testa encostada contra o vidro frio olhei para a casa escura onde ela morava. Talvez eu tenha passado uma hora lá, sem ver nada além da figura vestida de marrom projetada pela minha imaginação, com a luz da lamparina projetada na curva do pescoço, na mão pousada sobre os balaústres e na barra por baixo do vestido.
Quando voltei a descer encontrei a sra. Mercer sentada ao pé do fogo. Ela era uma senhora falastrona, viúva de um penhorista, que colecionava selos por algum motivo religioso. Precisei aturar os mexericos durante o jantar. A refeição prolongou-se por mais de uma hora e mesmo assim meu tio não chegou. A sra. Mercer pôs-se de pé para ir embora: pediu desculpas por não poder esperar mais, mas já passava das oito horas e ela não gostava de ficar fora até tarde porque o ar noturno lhe fazia mal. Depois que ela se foi eu comecei a andar de um lado para o outro com os punhos crispados. Minha tia disse:
– Acho que você vai ter que adiar o bazar hoje à noite.
Às nove horas ouvi a chave do meu tio na porta do corredor. Ouvi-o falando sozinho e ouvi o balanço da chapeleira ao receber o peso do sobretudo. Eu sabia interpretar esses sinais. Quando ele havia percorrido metade do caminho até o prato eu pedi o dinheiro para ir ao bazar. Ele tinha esquecido.
– As pessoas estão todas na cama a essa hora, disse.
Eu não sorri. Minha tia disse em tom enérgico:
– Você não pode dar o dinheiro para ele e deixar que ele vá? Você já o deixou esperando o suficiente.
Meu tio pediu desculpas pelo esquecimento. Disse que acreditava no velho adágio: Nem só de trabalho vive o homem. Perguntou aonde eu ia e, quando eu respondi pela segunda vez, perguntou se eu conhecia A despedida do árabe ao corcel. Quando saí da cozinha ele estava prestes a recitar as linhas de abertura do poema para a minha tia.
Apertei o florim com força na minha mão enquanto descia a Buckingham Street rumo à estação. A visão das ruas repletas de compradores e iluminadas a gás fez com que eu relembrasse o propósito da jornada. Acomodei-me em um assento de terceira classe no vagão de um trem deserto. Depois de um atraso insuportável o trem afastou-se lentamente da estação. Avançou em meio a casas em ruínas e atravessou o rio cintilante. Na Westland Row Station uma multidão de pessoas se amontoou ao redor das portas; mas os cabineiros afastaram-nas, dizendo que era um trem especial para o bazar. Continuei sozinho no vagão deserto. Em poucos minutos o trem parou ao lado de uma plataforma de madeira improvisada. Passei para a estrada e vi no mostrador iluminado de um relógio que faltavam dez minutos para as dez. À minha frente, uma enorme construção ostentava o nome mágico.
Não consegui encontrar nenhuma entrada de seis pence e, com medo de que o bazar estivesse fechado, passei depressa por uma roleta depois de entregar um xelim a um homem de aspecto cansado. Me vi em um grande saguão circundado na metade da altura por uma galeria. Quase todas as bancas estavam fechadas e a maior parte do saguão estava às escuras. Reconheci um silêncio como o que envolve as igrejas depois da missa. Caminhei timidamente em direção ao centro do bazar. Algumas pessoas estavam reunidas ao redor das bancas que seguiam abertas. Em frente a uma cortina que trazia as palavras Café Chantant escritas com lâmpadas coloridas, dois homens contavam dinheiro em uma bandeja. Fiquei escutando o tilintar das moedas.
Depois de lembrar com dificuldade por que eu tinha ido ao bazar, fui até uma das bancas e examinei vasos de porcelana e jogos de chá floridos. Na porta, uma moça estava conversando e rindo com dois jovens cavalheiros. Percebi o sotaque inglês e escutei vagamente a conversa.
– Ah, eu nunca disse uma coisa dessas!
– Ah, claro que disse!
– Ah, não disse não!
– Ela não disse?
– Disse. Eu ouvi.
– Ah, que... mentira!
Ao me ver, a moça se aproximou e perguntou se eu gostaria de comprar alguma coisa. O tom de voz não era muito encorajador; ela parecia ter falado comigo movida por um sentimento de dever. Olhei com humildade para os grandes jarros que se erguiam como guardas orientais em ambos os lados da sombria entrada da banca e murmurei:
– Não, obrigado.
A moça mudou a posição de um dos vasos e voltou para os dois jovens. Os três retomaram a mesma conversa. Por uma ou duas vezes a moça olhou por cima do ombro na minha direção.
Me demorei um pouco em frente à banca, mesmo sabendo que a minha permanência era inútil, para fazer com que o meu interesse nas mercadorias dela parecesse mais real. Depois me virei devagar e atravessei o bazar pelo meio. Deixei os dois pence caírem contra os seis pence no meu bolso. Escutei uma voz gritar do alto da galeria que as luzes seriam apagadas. A parte superior do saguão ficou totalmente às escuras.
Ao olhar para a escuridão me vi como uma criatura movida e vilipendiada pela vaidade; e meus olhos arderam de raiva e de angústia.
James Joyce, in Dublinenses

28/01/2020

Os dois Ulisses


O Ulisses de Homero e o Ulisses de Dante se encontram no Ulisses de James Joyce. Encontram-se, mas não se fundem, transformam-se em dois personagens: Leopold Bloom, o Ulisses de Homero segundo Joyce, cuja aventura é uma volta para casa, e Stephen Dedalus, o Ulisses de Dante segundo Joyce, cujo exílio é uma aventura sem volta.
No texto de Ulysses, Joyce descreve Dedalus como um “partidor centrifugal” e Bloom como um “ficador centripedal”. Na odisséia de um dia só que compartilham, os dois andam pelas margens da sociedade de Dublin como dois exilados na sua própria terra. Mas Bloom é um cidadão atrás de uma reintegração com sua sociedade e seu lar, Stephen é um poeta atrás de uma missão poética, a de criar a consciência da sua raça, como confessou em outro livro, quanto mais longe de Dublin melhor.
Bloom, como o Ulisses de Homero, reencontra sua casa e sua Penélope no fim. O fim de Dedalus é desconhecido, mas seu destino provável é um desastre, como o do Ulisses que Dante viu no Inferno. Mas, dos dois, o único que poderia escrever Ulysses seria Dedalus. Pelo menos o “Ulysses” de Joyce.
Os Ulisses se dividem entre os que partem e os que ficam, ou entre os que voltam e os que seguem no exílio. O velho do Restelo, de Camões, não entende os que partem, e buscam o mundo quando já têm Portugal. Os que querem, inexplicavelmente, trocar a paz pela descoberta, a família pela aventura, a sabedoria pelo conhecimento. Enfim, o Tejo pelo mar. A origem do nome “Lisboa”, por sinal (divagação tipo nada a ver), é “cidade de Ulisses”.
Joyce escolheu ser um “partidor”. O centro da sua ficção “centrifugal” foi sempre Dublin, mas uma Dublin vista de longe, reconstruída na memória como metáfora — como a Florença que expulsou Dante, e que ele continuou a habitar em pensamento e verso pelo resto da vida. Ou até voltar, velho, quando a reintegração é apenas uma fatalidade física, tipo todo morto volta para casa, não uma escolha consciente, ou literária.
De longe, Dedalus e Dante podem transformar a cidade que abandonaram em mito e poesia, cantar sua universalidade e lamentar sua corrupção sem serem distraídos pela realidade. De mais longe ainda, em Finnegans Wake, sua biografia cifrada da humanidade, Joyce pode usar Dublin como a metáfora definitiva, uma metáfora de tudo. De longe, pedra e gente viram linguagem e qualquer cidade vira literatura.
Todas as grandes narrativas religiosas têm uma cidade no seu centro, tornada mítica pela distância. As pedras de Jerusalém são nada comparadas com a Jerusalém do livro, com a promessa e com a lamentação da promessa perdida, na linguagem poética do exílio. Meca é o centro de outro sistema simbólico, ou de outra literatura sobre uma integridade perdida e desejada, construída não em cima de uma pedra, mas em cima de uma distância. Os dois Ulisses representam, no fim, duas formas de distância do nosso centro, do que nos reintegra ou do que nos revela. A casa ou a descoberta, a sabedoria ou o conhecimento. Eles são dois tipos de exilados, o que volta, como o Ulisses de Homero, ou o que segue, como o Ulisses de Dante. O Ulisses bipartido de Joyce volta e segue.
Leopold Bloom (que Joyce fez judeu) tem a sua Jerusalém à mão, não precisa mais do que voltar para o número 7 da Eccles Street e os braços bem fornidos de Molly para sair do exílio. Stephen Dedalus prefere continuar a aventura. Partirá de Dublin, escreverá Ulysses e Finnegans Wake e se não “fabricar a consciência ainda irrealizada da sua raça na forja da sua alma”, como era sua intenção, pelo menos causará algum efeito na linguagem da sua espécie. Reduzindo tudo, que remédio, às dimensões da nossa alma portuguesa, ele deixará o Tejo e escolherá o mar. Escolherá a distância.
Ficar, de certa maneira, é renunciar ao conhecimento, talvez a forma mais perfeita de sabedoria. Nenhuma revelação, nenhuma epifania, nenhuma literatura, apenas uma entrega à sua cidade e às suas circunstâncias e às inevitabilidades da casa. No fim, na morte, todos os Ulisses voltam, não importa de que exílio.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

23/07/2019

As duas faces de Ezra Pound

Poeta e caçador de talentos literários ficou deslumbrado pelos textos de James Joyce e lhe procurou editores. Na Segunda Guerra Mundial repetiu as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus


Ilustração: Fernando Vicente 

A biblioteca do barco que me leva a Anchorage é pequena e pulquérrima. Com exceção de uma coleção de clássicos cuja letra microscópica os coloca fora de meu alcance, seus romances de aeroporto, de autores desconhecidos, me deixam frio, tanto como suas biografias de jogadores de beisebol, ases das corridas e do ringue, os livros de autoajuda e as fofocas de Hollywood. Mas, perdido nas estantes de Current Affairs encontro um livro de um jovem professor de Harvard, Kevin Birmingham, que é de muito proveito: O Livro mais Perigoso. James Joyce e a Batalha por Ulisses.
Versa sobre muito mais do que dizem seu título e subtítulo, ou seja, os contratempos que James Joyce passou com seus livros, pela cegueira e covardia dos editores do Reino Unido e dos Estados Unidos que, temerosos pela censura, as multas e os julgamentos, não se atreviam a publicá-los. O caso de Joyce é único: foi famoso antes de ter um só livro editado.
E, em boa parte, isso se deveu a esse extraordinário caçador de talentos literários que foi o poeta Ezra Pound. É bem conhecido o que ele fez por T. S. Eliot e o tempo que dedicou (renunciando ao que lhe tomava escrever) para corrigir A Terra Sem Vida. Mas provavelmente fez ainda muito mais para que o gênio de Joyce fosse reconhecido e, sobretudo, publicado. Soube dele pela primeira vez em 1914, pelo poeta W. B. Yeats, que lhe aconselhou que pedisse uma colaboração de Joyce a uma antologia dedicada à literatura irlandesa que Pound preparava. Ele o fez e Joyce, que era totalmente desconhecido, além de sua colaboração, lhe enviou vários contos de Dublinenses e fragmentos de Retrato do Artista quando Jovem, para os quais procurava editor. O deslumbramento de Pound ao ler esses textos está documentado em suas cartas. Como homem prático que era, de imediato inundou de relatórios os melhores editores ingleses e norte-americanos, exortando-os a publicar esses primeiros livros de Joyce que, lhes garantia, eram de altíssima qualidade literária e de uma grande originalidade. As respostas que recebeu são de dar nojo: nenhuma reconhecia o menor talento literário em Joyce. Afirmavam que haviam recusado seus livros porque eram mal escritos e pior organizados, tinham estruturas deficientes, além de vulgares e ordinários. Para que se arriscar a receber uma multa e processos por esses livros que não passariam por nenhuma censura se, além do mais, eram tão medíocres?
Pound não deu o braço a torcer. Respondeu a todas essas objeções com argumentos literários, acusando os editores de cegos e medíocres e afirmando que o jovem escritor irlandês estava revolucionando a literatura de seu tempo e, em especial, a prosa literária da língua inglesa. Seu entusiasmo contagiou duas mulheres extraordinárias: Harriet Weaver, diretora de uma pequena revista literária inglesa, The Egoist, onde apareceriam os primeiros contos de Dublinenses e capítulos de Retrato do Artista quando Jovem, e Margaret Anderson, que em 1918 começou a publicar episódios de Ulisses na revista que dirigia nos Estados unidos, The Little Review. As duas enfrentaram ações judiciais por sua ousadia. Impertérritas, continuaram empenhadas em divulgar a obra de James Joyce e, inclusive, lhe enviaram dinheiro para ajudá-lo a sobreviver apesar de suas crônicas crises econômicas e do que gastava em oculistas.
Ao contrário dos editores da época, muitos escritores e livreiros (entre esses, a primeira editora de Ulisses, Sylvia Beach, a criadora da Shakespeare and Company, a livraria norte-americana de Paris) ficaram muito impressionados ao tomar conhecimento dos textos de Joyce. Ainda que provavelmente nenhum tenha demonstrado isso como Valery Larbaud (que seria o primeiro tradutor ao francês de Ulisses), que, após ler em The Little Review os fragmentos do grande romance de Joyce, lhe escreveu uma carta oferecendo-lhe sua casa (com uma criada) e sua grande biblioteca, além de sua célebre coleção de soldadinhos de chumbo. Joyce se mudou para lá com Norah, sua mulher, e seus dois filhos e por um bom tempo pôde continuar trabalhando com tranquilidade nesse romance que lhe tomaria mais de sete anos.
Ainda que a primeira edição em livro de Ulisses tenha aparecido em Paris em 1922 graças a Sylvia Beach, somente 12 anos depois – 1934 – um juiz de Nova York – John Woolsey – em uma memorável sentença autorizou a circulação do romance, que apareceria pouco depois já na edição da Random House. A sentença de Woolsey foi reproduzida nessa nova edição e abriria desde então um precedente decisivo a todas as tentativas de proibir a circulação de obras “atrevidas e desavergonhadas” nos Estados Unidos. Uma sentença semelhante foi emitida na Inglaterra nesse mesmo ano.
Nos dois países a reação da crítica foi muito semelhante. Quase todos os que escreveram sobre o romance reconheceram – alguns a contragosto – o gênio de Joyce e as extraordinárias novidades que o livro trazia tanto no domínio da língua como na estrutura da narração desse dia tão minuciosamente descrito de Leopold Bloom. Mas quase todos eles denunciavam a vulgaridade atroz do palavreado “pestilento” com o qual se expressavam não só os personagens como o próprio narrador e, principalmente, no longo monólogo final de Molly Bloom, que alguns chamaram de “insolente” e até mesmo “demoníaco”.
Cedo ou tarde todos eles reconheceriam que o romance seria a partir de então algo radicalmente diferente graças a Joyce e a sua prodigiosa realização. Esse sucesso se deveu em boa parte ao instinto e aos esforços de Ezra Pound. No extraordinário ensaio que dedicou ao livro foi o primeiro a reconhecer que desde o surgimento de Ulisses todos os romancistas contemporâneos, incluindo os que nunca o leram, seriam discípulos de Joyce; e isso também reconheceu William Faulkner, outro romancista fora do comum que provavelmente nunca teria escrito sua saga sulista sem as lições que recebeu lendo Joyce.
O serviço que Ezra Pound prestou ao autor de Ulisses não consistiu somente em encontrar editores para seus textos; também conseguiu mecenas que o ajudaram economicamente e lhe permitiram, por exemplo, operar tantas vezes seu olho direito. Quando se conheceram pessoalmente, em Paris, em 1918, Ezra Pound já estava havia quatro anos multiplicando esforços para divulgar a quem chamaria de “o renovador da cultura do Ocidente”. Pound é a figura mais simpática que aparece no livro de Kevin Birmingham.
É difícil identificar esse homem generoso e altruísta com o Ezra Pound que, durante a Segunda Guerra Mundial, pedia na rádio italiana que os jovens soldados norte-americanos desertassem de suas fileiras e repetia todas as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus. Por isso foi capturado pelo Exército norte-americano e levado por toda a Itália em uma jaula, como um louco furioso. Depois, nos Estados Unidos, um tribunal, para não o fuzilar por traição à pátria, o declarou louco. E passou alguns anos em um manicômio. Em nossos dias, na Itália fascista de Matteo Salvini, uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que CasaPound. Georges Bataille escreveu que o ser humano é uma jaula onde habitam os anjos e os demônios. Em poucas pessoas isso foi tão evidente como no caso de Ezra Pound.
Mario Vargas Llosa, in www.elpais.com/brasil. Link aqui

14/08/2018

Leitores de Porto Alegre e uma bailarina no ar

Minha recente temporada gaúcha começou em São Paulo, na Casa de Francisca, onde Arrigo Barnabé interpretou várias canções de Lupicínio Rodrigues.
Com sua voz de crocodilo, rouca e ironicamente romântica, Arrigo interpretou canções de amor e angústia, canções de dor com humor e sarcasmo do grande compositor gaúcho.
Caixa de ódio, o nome desse show imperdível, diz muito sobre Lupicínio e suas musas fisgadas em dancings e bailes de outrora em Porto Alegre, uma cidade que me atrai cada vez mais, apesar do frio, do chuvisco incessante, do vento gelado que alfineta até os ossos e nos dá uma sensação de que ali o inverno é uma estação bem definida, diferente do inverno paulistano: temperamental, volúvel, poluído.
As águas do Guaíba, cobertas pela névoa; mas em algum momento vi manchas marrons dos rios que formam o delta. E ilhas ao longe. Depois andei por ruas mal iluminadas do centro, quase desertas na noite invernal, e me lembrei de um romance fino e perturbador: Os ratos. Até os pipoqueiros e estivadores ouviram falar da obra de Dyonélio Machado; a moça que me vendeu um guarda-chuva já havia lido também O louco do Cati, e quando passei em frente ao edifício da antiga Globo, me lembrei dos livros publicados por essa editora: clássicos estrangeiros traduzidos por grandes poetas, romancistas e críticos literários.
Esses livros de capa amarela atravessavam o Brasil e chegavam às livrarias da rua Henrique Martins, no centro de Manaus; depois entravam no quarto que eu dividia com um dos meus tios. “Os livros que vêm do Sul”, dizia meu tio, folheando e farejando o objeto cultuado, que à noite ele lia no quintal, deitado numa rede iluminada por um candeeiro enganchado no galho de um jambeiro.
Os livros que vêm do Sul: nunca esqueci essa frase nem a visão do leitor ao relento.
Em Porto Alegre me encontrei com muitos jovens interessados por literatura. Nada de autoajuda, nem de cabanas, crepúsculos e congêneres. Dizem que esse interesse é por causa do inverno, da reclusão constrangida pelo frio prolongado. Será?
Há bons leitores em todos os climas e latitudes, a razão mais plausível do interesse pela leitura é a qualidade do ensino no Rio Grande do Sul.
Disse isso ao meu amigo gaúcho Serguei Barzican, que me convidou para assistir a um encontro literário em que ele seria o mediador de um debate sobre a tradução de Finnegans Wake, a obra de James Joyce que foi lida na íntegra por um punhado de tradutores e críticos.
“Uma noite de domingo em homenagem à literatura de vanguarda”, disse Serguei, conduzindo o carro por bairros que eu desconhecia.
Numa rua escura paramos diante de um pequeno galpão iluminado: uma fábrica antiga que se tornara um lugar de encontros literários.
Foi uma noite inesquecível para mim, e tensa para Serguei, porque não é mole mediar uma mesa sobre o Finnegans Wake.
Ouvi os comentários dos dois debatedores sobre a obra de Joyce, depois ouvi com prazer trechos do Finnegans Wake, extasiado com a melodia do pesadelo noturno e cíclico, com a loucura inventiva do irlandês genial. Quando acordei, quer dizer, quando abri os olhos, vi um corpo navegando no espaço, não era uma visão alucinante, e sim uma bailarina, presa na cintura por um cabo enganchado numa viga da estrutura metálica. Nesse momento a leitura foi interrompida porque os debatedores discordavam sobre uma ou duas palavras da tradução. Um deles dizia que o mais correto era: “Finda domingo”. O outro afirmava que o neologismo “Segundalba” era mais apropriado, mais fiel ao original. De qualquer modo, entendi que o domingo declinava e que a segunda-feira despontava no pesadelo de uma personagem ou do leitor.
Os dois gaúchos discutiam com fervor e, quando o fervor tomou ares de uma exaltação ríspida, o pobre Serguei Barzican entendeu que o seu papel de mediador era inútil. Serguei olhava para o céu e via o corpo da bailarina morena que ia e vinha com movimentos de artista circense, o rosto da moça parecia alheio às duas vozes que agora duelavam em inglês, um inglês áspero, com algo do sotaque gaúcho. Mas era o rosto silencioso da bailarina que falava mais alto, o corpo belíssimo flutuando livremente no espaço fora do tempo. E que braços e pernas voadores, tchê! Quanto equilíbrio e harmonia e perfeição!
Aos poucos a plateia foi se esquecendo de “Finda domingo” e “Segundalba”, eu mesmo abstraí essas palavras beligerantes e me entreguei à magia corporal da bailarina no ar, agradecendo a James Joyce e a seus dois leitores por essa visão sublime na noite gelada de um domingo gaúcho que chegava ao fim.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

17/01/2016

Um encontro (trecho)

Foi Joe Dillon quem nos apresentou ao Velho Oeste. Ele tinha uma pequena biblioteca formada por edições antigas de The Union Jack, Pluck e The Halfpenny Marvel. Todo entardecer depois da escola a gente se encontrava no quintal da casa dele e promovia batalhas contra os índios. Ele e Leo, o preguiçoso e gorducho irmão mais novo, resistiam no celeiro da estrebaria enquanto tentávamos tomá-lo de assalto; ou então travávamos uma batalha campal no gramado. Mas, por melhor que lutássemos, nunca ganhávamos os cercos nem as batalhas, e todas as nossas investidas terminavam com a dança da vitória de Joe Dillon. Os pais dele iam à missa das oito toda manhã na Gardiner Street e o perfume tranquilo da sra. Dillon dominava o corredor da casa. Mas ele brincava de um jeito intenso demais para nós, que éramos mais jovens e mais tímidos. Parecia um índio quando zanzava pelo quintal com um velho pano de chá na cabeça, batendo numa lata com o punho e gritando:
– Ya! Yaka, yaka, yaka!
Ninguém acreditou quando disseram na escola que tinha vocação para a vida eclesiástica. Mesmo assim era verdade.
Um espírito de desobediência se espalhou entre nós e, sob essa influência, diferenças de cultura e de constituição foram deixadas de lado. Nos reunimos em um grupo, uns por orgulho, uns pela brincadeira e outros pelo que mais parecia um temor; e entre esses últimos índios relutantes que tinham medo de parecer diligentes ou pouco robustos estava eu. As aventuras narradas na literatura do Velho Oeste eram distantes da minha natureza, mas pelo menos me revelaram uma rota de fuga. Eu preferia certas histórias americanas de detetive em que às vezes apareciam garotas desleixadas, corajosas e bonitas. Mesmo que não houvesse nada de errado com essas histórias e que por vezes tivessem uma pretensão literária, circulavam em segredo na escola. Um dia quando o padre Butler estava ouvindo as quatro páginas de História Romana o desastrado do Leo Dillon foi descoberto com um exemplar de The Halfpenny Marvel.
– Essa página ou essa? Essa aqui? Dillon, de pé, agora! Mal o dia havia... Prossiga! Que dia? Mal o dia havia raiado... Você estudou em casa? O que é que você tem no bolso?
O coração de todos palpitou quando Leo Dillon entregou a revista e todos adotaram uma expressão inocente. O padre Butler folheou as páginas com a testa franzida.
– Que porcaria é esta?, perguntou. O cacique apache! É isso o que você está lendo em vez de estudar História Romana? Não quero mais saber dessas bobagens aqui no colégio. O autor dessa história deve ser um borra-tintas que escreve em troca de bebida. Fico surpreso ao ver que garotos que tiveram uma educação como a de vocês leiam esse tipo de coisa. Eu até entenderia se vocês fossem... alunos da National School. E agora, Dillon, eu o aconselho sinceramente a trabalhar direito, senão...
Essa reprimenda durante as nossas sóbrias horas de estudo acabou com boa parte da glória do Velho Oeste para mim e o rosto confuso e inchado de Leo Dillon despertou uma das minhas consciências. Mas quando a influência restritiva da escola ficou para trás eu comecei a sentir sede de emoções fortes, da fuga que somente aquelas crônicas da desordem pareciam me oferecer. As guerras de faz de conta ao entardecer no fim tornaram-se tão enfadonhas para mim quanto a rotina da escola pela manhã porque eu queria que aventuras de verdade acontecessem comigo. Mas aventuras de verdade, refleti, não acontecem com pessoas que ficam em casa: precisam ser buscadas em lugares distantes.
James Joyce, in Dublinenses

24/07/2013

Dádiva de uma certeza

"Ninguém presta à sua geração maior serviço do que aquele que, seja pela sua arte, seja pela sua existência, lhe proporciona a dádiva de uma certeza."
James Joyce