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26/10/2023

Queridos estadunidenses


Queridos estadunidenses

Imagino-vos exaustos.
Tenho acompanhado as notícias. Vejo-vos atordoados, como pugilistas após um combate, cansados de defender a punho os vossos pensamentos e posicionamentos ideológicos, recolhidos no canto do ringue, com a cabeça a latejar da luta que dura desde o nascimento da América, pelos cálculos dos indígenas norte-americanos e dos descendentes dos povos escravizados. Vejo-vos à procura do norte, entre o ruído de uma multidão de espectadores entusiasmados e outros tantos agitadores profissionais que só vos conhecem dos filmes e livros. Vencedores? Diria que não existem, porque à medida que as posições se extremam, a questão que nos resta fazer é apenas uma: quem realmente sairá beneficiado desse arranca-rabo entre gringos?
Win or bust.” Temos vindo a interiorizar o mantra dos vitoriosos. Aprendemos que, seja qual for a circunstância, não esperamos nada menos do que o aplicar do esforço máximo para atingir o objetivo declarado, tendo o fracasso total como única alternativa. Os empates são inadmissíveis: ninguém se lembra deles. Não se escrevem canções, a Netflix não compra os direitos nem se vendem jornais com empates. Na política, não é diferente. O empate dói mais do que a derrota porque, ao fim de um par de dias, este desaparecerá da memória coletiva sem pompa, sem direito a placa comemorativa ou página na Wikipedia alusiva ao dia em que o bom senso reinou entre rivais.
Para quem apostou o seu dinheiro ou o seu carácter, ficar a chuchar no dedo sem poder gritar vitória, imagino que seja no mínimo frustrante. Heróis e vilões, precisa-se deles. São úteis para alimentar dogmas e utopias políticas, mesmo que o herói não tenha vocação para tal e o vilão até ajude velhinhas a atravessar a rua. Ver-vos assim acossados mete dó. Devem estar a sentir saudades dos bons velhos tempos. Pena que a Guerra Fria tenha esfriado, que a Cortina de Ferro já não exista e que a Cuba comunista, sem Fidel, já não seja bem a mesma. Nós, as minorias étnicas que conhecemos bem o sabor amargo da derrota, podemos afirmar: há de passar.
Queridos, vos quero bem. Também me virou o estômago ver a bandeira da Confederação desfilar pelos corredores da casa da democracia. Naquele momento, soou dentro de mim a melodia acompanhada dos versos: “Dormia/ A nossa pátria-mãe tão distraída/ Sem perceber que era subtraída/ Em tenebrosas transações”. O samba-exaltação é de Chico Buarque, tão genial e tão merecedor de um Nobel quanto Dylan, por ter também criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição da canção (sul) americana. E falando em canções, por favor, ouçam mais brasileiros, só vos fará bem. Eles, tal como vocês, fazem delas verdadeiras teses poéticas para entendermos a condição humana. Se jazz e blues são a vossa praia, sejam aventureiros e procurem Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha e lavem a alma no chorinho.
Lamento que não tenham resolvido, vocês que puseram o primeiro homem na Lua, essa coisa do racismo. Enquanto não o fizerem, outras nações se desculparão com a ladainha de sempre: nos Estados Unidos da América é pior. Como se existissem Olimpíadas do racismo e o ouro brilhasse sempre nos vossos pescoços. Salvo as menções honrosas para países como o Brasil e os do Leste Europeu, chega a ser poético olhar para a lista do Comité Olímpico: 1 — Estados Unidos, 1022 medalhas de ouro; 2 — Rússia, 395; 3 — Grã-Bretanha, 263; 4 — China, 227; 5 —França, 212.
Sabem, um comentário que proferi no passado e que me deixou na mira dos racistas de plantão que pululam nas redes sociais foi quando disse que todo homem negro, conscientemente ou não, à dada altura da vida, já odiou o homem branco: a sua cultura, a sua língua e o poder que exerce sobre nós, os negros. Já invejou — melhor, continua a invejar-lhe — o maior valor da humanidade, a liberdade de simplesmente existir. Desculpai trazer um assunto doloroso, mas não posso deixar de apontar que o ataque ao Capitólio foi um esfregar nas fuças de todos nós, homens, mulheres e queers que gritam “vidas negras importam”, esse tal de privilégio branco que os afetados por ele insistem em denunciar, mas todos os que dele se beneficiam insistem em negar — ou, ainda, os que sabem exatamente como o mundo funciona insistem em assobiar para o lado, como se não fosse com eles.
A violência perpetuada contra os corpos negros — nas mãos de civis, milícias, organizações racistas, grupos de extrema direita e até do próprio Estado — é a mesma violência que matou Abraham Lincoln e os dois Kennedy e subiu a colina do Capitólio e matou o agente Brian D. Sicknick. Essa raiva alimenta-se acima de tudo da indiferença cúmplice de pessoas do bem. Pagadores de impostos, devotos e amantes da lei e da ordem. Essa violência é também lucrativa, só assim podemos explicar que ainda se mantenha, agarrada ao inconsciente caucasiano onde a ideia de que a maldição divina aponta os africanos como descendentes de Caim, o primeiro homicida da história, é algo real. Eu, como fruto dessa árvore genealógica e solidário para com os irmãos e irmãs das diásporas americanas, rogo a Deus: livrai-nos dessa penitência.
Queridos estadunidenses, continuo a ter-vos afeto. Só isso explica as horas passadas colado ao ecrã a ver o repetir de imagens semelhantes às que me chegaram do norte de África há uma década, quando o jovem Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante formado em engenharia, viu ser-lhe confiscado o ganha-pão pela polícia. Além de lhe quebrarem o espírito, exigindo o jabaculê da praxe, infligiram-lhe humilhações que culminaram na sua autoimolação. Um protesto trágico contra o desemprego e a pobreza na Tunísia que deu início à Revolução de Jasmim e derrubou o ditador Ben Ali. As imagens da insurreição na sede da democracia norte-americana me fizeram lembrar as da Primavera Árabe e de todas as outras revoluções e transformações políticas que direta ou indiretamente tiveram o dedo dos Estados Unidos. Mas o que é chocante é que vós, estadunidenses patriotas, não pedis o fim de ditaduras, mas para que seja instaurada uma no vosso país.
O que a insurreição em Washington expôs não foram só as vossas divisões políticas. Eu, filho da Guerra Fria nascido e criado em Benguela, pendurado nos galhos duma mangueira no meu quintal que me servia de camarote, vi, na conturbada década de 1980, o capitalismo derrotar o socialismo marxista. Eu vi, ninguém me contou. Começou nas matas, depois no mar de Cabinda, passou para cidades e de seguida para dentrodas casas de angolanos como eu. E, de repente, o dólar nos fez confiar no seu poder divino e as kinguilas viram as sacerdotisas da economia paralela em Angola. Por isso, mas não apenas por isso, como não nos sentirmos afetados? Quer se queira, quer não, até o centro do mundo se mudar para Pequim, o vosso Capitólio é um pouco nosso também.
A maior tragédia norte-americana é o negacionismo da sua própria história. Martin Luther King, chamado a comentar a morte de John F. Kennedy, afirmou: “O padrão imperdoável da nossa sociedade foi o fracasso em prender os assassinos [de líderes dos direitos civis assassinados]”. É um julgamento severo, mas inegavelmente verdadeiro, que a causa da indiferença foi a identidade das vítimas. Quase todos eram negros. E assim a praga se alastrou até reivindicar o mais eminente dos norte-americanos, um presidente muito amado e respeitado. A indiferença talvez seja o vosso maior pecado.
Queridos estadunidenses, não vos faltaram vozes que pregassem, dos dois lados do corredor, o que acontece quando não se denuncia e condena a supremacia branca. Ouçam-nas e que Deus vos abençoe, que Deus salve os Estados Unidos da América.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

20/10/2023

Parecidos (Anthony e Alice)


Todos nós, negros, somos parecidos. Essa expressão é tão antiga quanto o Iluminismo, quando a invenção de conceitos raciais se combinou com teorias do desenvolvimento humano em estudos de figuras como Johann Friedrich Blumenbach, a quem se credita a criação de uma das primeiras classificações baseadas na raça nos idos de 1776. O antropólogo alemão fixou cinco categorias: “Caucasiano, a raça branca; mongol, a raça amarela; malaio, a raça castanha; etíope, a raça negra; e americano, a raça vermelha”. Embora se apresentasse como abolicionista, as suas teorias foram usadas para defender e implementar projetos supremacistas de conquista, usurpação e consequente desumanização de todos os que não pertencessem ao tipo caucasiano e eurocêntrico.Para o grupo étnico ao qual pertenço, ouvir esse adágio baforento para justificar a dificuldade que pessoas de outros grupos têm para diferenciar indivíduos de outras etnias é mais do que ofensivo e preconceituoso. Esse comportamento preguiçoso e estereotipado que cientistas sociais caucasianos identificaram como efeitos de outra raça pode resultar em condenações criminais indevidas, erros de identificação nos documentos de identidade, fotos trocadas na imprensa e uma panóplia de constrangimentos, generalizações e gafes que nós — os do tipo etíope, de acordo com o professor Blumenbach — tão bem conhecemos.
Nem as personalidades mais proeminentes da comunidade afrodescendente estão imunes. Samuel L. Jackson, cansado desse tipo de gafe, perguntou a um repórter que o entrevistava se este não sabia distingui-lo do ator Laurence Fishburne. Envergonhado, o jornalista desculpou-se repetidamente, a ponto de esbofetear-se de tão envergonhado que estava. Quando questionado sobre o incidente, Fishburne mostrou-se feliz de como L. Jackson lidou com o jornalista e relembrou que isso não é exclusivo do tipo etíope. Pessoas fizeram a mesma coisa com Dustin Hoffman e Al Pacino porque eles não se pareciam com os típicos galãs do cinema que vieram antes. Eu próprio conheço várias histórias, todas com pendor cômico, de leitores de Mia Couto abordarem o escritor José Eduardo Agualusa pedindo que este lhes autografasse os livros do autor moçambicano.
Essas situações — quando ocorridas na imprensa, nos estabelecimentos de ensino, nos locais de trabalho ou de convívio social — são no mínimo indigestas, mas não as podemos comparar com as tragédias que podem ocorrer quando os efeitos de outra raça se intrometem em assuntos de polícia, em que a articulação da presunção de inocência fixada pelo digesto direito romano, ei incumbit probatio, qui dicit, non qui negat (“O ônus da prova recai sobre a pessoa que afirma, não sobre quem nega”), é reconhecido como um princípio bonito em teoria, mas, na prática, para os pobres miseráveis e para os que carregam a tez mais escura, o veredito é apenas um — culpado, até que se prove o contrário.
Culpado como Anthony, de vinte anos, no dia 4 de novembro de 1981, ao lado de quatro homens negros vestidos iguais a si, diante de um espelho na sala de identificação da esquadra de polícia em Syracuse, Nova York. Do outro lado do vidro, Alice, uma estudante branca de dezenove anos esforçando-se para lembrar o rosto do homem que meses antes a havia violado sexualmente. Ela não conseguiu identificá-lo naquele momento — só mais tarde, já com Anthony sentado no banco dos réus, negando de pés juntos ter cometido tão hediondo crime, é que ela o identificou como seu agressor. Com base no depoimento desta e em um pelo púbico que, à luz da ciência forense de hoje, deixaria o caso em águas de bacalhau, o jovem Anthony foi condenado, à semelhança do enredo do premiado romance O sol é para todos, de Harper Lee.
Nos anos que se seguiram, Alice Sebold lutou para negar o papel da eterna vítima que o mundo à sua volta lhe tentou impingir e encontrou na literatura a sua salvação. Em 1999, ela contou o seu lado da história no livro de memórias Sorte, narrando com particular detalhe a violenta violação que sofreu e o trauma que nunca será apagado da sua memória. Anthony, por sua vez, passou mais de dezesseis anos na prisão e 23 no registo dos agressores sexuais até que um plot twist de proporções hollywoodianas se dá. Timothy Mucciante, um produtor executivo que trabalhava na adaptação cinematográfica de Sorte, identificou tantas discrepâncias alarmantes quando lia o livro de Alice que pagou do seu próprio bolso os serviços de um investigador privado, que recolheu e passou provas cruciais para as mãos dos advogados que acreditaram na inocência de Anthony. A 22 de novembro de 2021, Anthony Broadwater, um ex-marine do Exército americano com 61 anos, foi finalmente exonerado por um tribunal de Nova York.
Depois disso, o pedido de desculpas. A sra. Sebold, oito dias após a exoneração, falou: “Quero dizer que realmente lamento muito por Anthony Broadwater […]. Lamento ainda o fato de meu próprio infortúnio ter resultado na condenação injusta do sr. Broadwater, pela qual ele cumpriu não apenas dezesseis anos atrás das grades, mas de maneiras que ainda servem para ferir e estigmatizar, quase como uma sentença de prisão perpétua”.O pedido de desculpas, ainda que sincero, ficou aquém. Deixou de fora elementos importantes sobre a verdade e a responsabilização. Sebold conseguiu distanciar-se do homem que foi preso erroneamente por um crime cometido contra ela. Afirmou que as questões sistémicas (isto é, racistas) no sistema judicial americano não eram “um debate, ou uma conversa, ou mesmo um sussurro quando denunciei a minha violação em 1981”. Ela reconheceu o sistema que pôs um homem inocente na prisão, mas nunca reconheceu uma única vez o fato de esse mesmo sistema ser inerentemente racista. De fato, as palavras “raça” ou “racismo” ficaram omissas quando esta se dirigiu ao exonerado na sua declaração. Essa omissão, infelizmente, é uma forma de se desculpar da realidade inconveniente de que ela, na sua condição de vítima, também colaborou — ainda que involuntariamente — com esse mesmo sistema racista para pôr Anthony na prisão.
Tanto na literatura como no cinema, desde a invenção da América, não faltam exemplos de como a justiça está constantemente a mudar e a moldar-se de acordo com a conveniência de quem detém o poder. No livro O direito ao sexo, Amia Srinivasan escreve: “Para muitas mulheres negras, a injunção feminista dominante ‘Acredite nas mulheres' e a sua hashtag viral #IBelieveHer levantam mais questões do que resolvem. Em quem devemos acreditar, na mulher branca que diz que foi estuprada, ou na mulher negra ou castanha que insiste que o seu filho está sendo incriminado?”. Há uma longa e sórdida história na América de mulheres brancas acusando falsamente homens negros de estupro, e nem sempre a justiça foi tratada dentro da esfera legal. Não são poucas as canções, os livros e os artigos de jornal que dão conta de milícias brancas e corpos negros sendo linchados por terem ousado olhar para uma mulher branca. Emmett Till, o menino de catorze anos brutalmente assassinado no Mississipi em 1955, continua uma ferida aberta.
O projeto de adaptação de Sorte para o cinema foi cancelado e a editora do livro anunciou que vai deixar de o publicar até uma futura revisão. Anthony, que depois de todo o suplício não guarda um pingo de rancor no coração, perdoou Alice e está no seu direito. Ela continua a ser vítima de um crime, e ele, vítima de uma injustiça perpetrada por um sistema obcecado em caçar negros, esquecendo-se de proteger Alice, com os cuidados de que necessitava, e de proteger a inocência de pessoas que se parecem com Anthony, pois para elas o ônus da prova recai sempre sobre a pessoa que nega, nunca sobre quem acusa.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

10/10/2023

Philando Castile e Alton Sterling


Injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.
Martin Luther King Jr.

Lembram-se quando em 2015, na Etiópia, mais ou menos por essa altura do ano, o presidente americano Barack Hussein Obama, discursando na sede da União Africana em Adis Abeba, disse “Ninguém deve ser presidente para toda vida”? Aquelas palavras correram o mundo e devem ter incomodado muitos dos nossos líderes africanos a quem a carapuça terá servido. “Quem ele pensa que é?”, devem ter desabafado para os seus botões ou para os seus mais fiéis conselheiros. Não foi a primeira vez que o filho de pai queniano ousara apontar o dedo à forma como estão organizados os nossos governos. “África não precisa de homens fortes, precisa de instituições fortes” é outra frase que lhe ficou popular, proferida aquando da visita ao Gana em 2009.
À luz das mais recentes mortes de afro-americanos pela mão da polícia, aproveito esses dois momentos em que Obama se dirigiu aos nossos líderes com recomendações e conselhos, para pesquisar o que os nossos chefes de Estado lhe disseram sobre a crise humanitária que se sente nas cidades norte-americanas junto das comunidades mais pobres e que afeta em particular as minorias negra e latina. Obama nunca deixou de reconhecer que os Estados Unidos vivem uma crise racial; contudo, não me lembro de ver nenhum líder africano aproveitar uma visita oficial à Casa Branca e deixar um recado ao seu homólogo sobre a questão da brutalidade policial. No ano passado, o presidente nigeriano Muhammadu Buhari reuniu-se com Barack Obama em Washington. Um dia antes, a 19 de julho, Samuel DuBose, 43, pai de treze, foi morto numa operação de trânsito em Cincinnati. Mas críticas de Buhari à violência policial nem uma vírgula, e não foi por falta de slogans do tipo #BringOurGirlsBack para inspirar e galvanizar as nossas figuras de Estado. Desde a absolvição de George Zimmerman em 2013, o homem que tirara a vida de Trayvon Martin, o movimento #BlackLivesMatter está presente, ainda que, reconheçamos, com menos mediatismo e engajamento do que a campanha de sensibilização internacional conseguiu reunir em torno do sórdido sequestro das jovens estudantes de Chibok por parte do Boku Haram na Nigéria.
A 17 de julho de 2014, Eric Garner perdeu a vida em Nova York. A polícia alegou que o vira vender cigarros ilegalmente. Depois de uma discussão, no vídeo que se tornou viral, um dos agentes aplicou-lhe uma chave de braço, levando-o ao chão. Sem ar, ainda conseguiria soltar as palavras, repetidas onze vezes: “Não consigo respirar”. Em menos de vinte segundos, morria asfixiado. Tudo isso aconteceu vinte dias antes da realização da Cimeira Estados Unidos-África, que juntou em Washington, DC, a convite do presidente Obama, diversos líderes nacionais, chefes de Estado e de governo, de cinquenta nações africanas. Angola esteve representada pelo vice-presidente Manuel Vicente. Nenhum daqueles governantes proferiu palavras de solidariedade nem sequer aproveitou o momento para apontar o dedo ao fato da justiça americana ilibar abusos de autoridade e crimes cometidos por agentes policiais mesmo quando captados em vídeo. Nem precisariam ir tão longe e interferir em assuntos internos de outro Estado, mas contudo não lhes teria ficado mal aproveitar a ocasião então, ou agora, diante do absurdo que é vermos vidas desperdiçadas. Para citar o abolicionista Frederick Douglass: “Onde a justiça é negada, onde a pobreza é imposta, onde a ignorância prevalece e onde todas as classes são levadas a sentir que a sociedade é uma conspiração organizada para oprimir, roubar e degradá-las, nem pessoas nem propriedades estarão a salvo”.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

05/10/2023

Estratégias de sobrevivência



Hoje bateu uma saudade danada de visitar uma feira literária, conversar com leitores, assinar os seus livros, tirar a selfie de praxe e num abraço agradecer-lhes por manterem viva essa coisa tão necessária para a nossa saúde mental a que chamamos de literatura. Me deu até saudade de algo que não faço desde que me mudei para Berlim: visitar escolas do ensino secundário no Portugal mais remoto, como Vila Nova de Paiva, Penalva do Castelo, Arruda ou Sobral de Monte Agraço, lugares que nunca me ocorreria visitar se não fosse pelos livros e pela curiosidade em conhecer o outro.Colhi tanto prazer nisso que não o via como sacrifício. Contrariando os meus hábitos de notívago, despertava com uma alegria de criança aniversariante, antes do galo cantar. Vestia a minha camisa e gravata favoritas e corria para a estação de comboio de Santa Apolónia, cruzando-me no caminho com outros madrugadores como eu, lisboetas por nascimento ou afeto, africanos europeus, irmãos da diáspora que fazem parte do leque de personagens que pululam em muitas das minhas histórias.
Esses personagens me acompanharam da Flip em Paraty ao Africa Writes em Londres, do Elinga Teatro em Luanda à Escola Secundária de Penalva do Castelo, uma vila do distrito de Viseu, não muito longe de Fornos de Algodres e Mangualde. Na biblioteca da escola, um tanto retraídos, duas dezenas de alunos aguardavam pacientemente pela minha apresentação. Esforçavam-se para não perder a compostura e envergonharem os professores que estavam visivelmente mais entusiasmados com a minha visita do que aquela jovem plateia, e eu tentando esconder o nervosismo miudinho. É infinitamente mais fácil subir para cima de um palco e atuar para multidões de centenas de pessoas, no Estádio dos Coqueiros em Luanda ou no Festival Rock al Parque em Bogotá, do que ser submetido a interrogatório por um grupo de curiosos por saber o que significa ser escritor.
E na altura respondi-lhes que era o único exercício que sabia praticar para materializar em palavras aquilo que sabia sobre mim. O meu nome, por exemplo, diz mais sobre mim do que qualquer outro adjetivo que já me fora atribuído. E em Penalva do Castelo, por exemplo, havia um único aluno negro na plateia, e carrego até hoje o seu olhar de espanto ao ver-me entrar na sala, tal qual Sidney Poitier no filme Ao mestre, com carinho, como um dos poucos momentos em que senti verdadeiro orgulho das escolhas que fiz. Representatividade importa.
Não cheguei a perguntar-lhe o que sentira ao me conhecer, não foi necessário. Bastou-me ver, à medida que ia desfilando as personagens do meu mundo, e embora ele nunca tivesse lido nenhum livro meu, que lhe eram também familiares. Ele, que começara curvado para dentro de si, consternado por ter sido obrigado pela professora a ouvir a fala de um escritor angolano, ao ouvir-me nos primeiros dez minutos, inclinou-se para a frente com os olhos esbugalhados, intrigado com a curiosidade dos colegas habitualmente avessos a lenga-lengas literárias mas que ali, de braço levantado, exigiam que lhes fosse dada a oportunidade de apresentar uma questão.
E eles queriam saber tudo. Os títulos dos meus livros, os escritores que me influenciaram, a música que ouvia e até os sapatos que trazia calçados. E lhes fiz a vontade. Falei-lhes sobre a importância de lerem autores de culturas diferentes, como o escritor congolês Alain Mabanckou, que, ao sermos apresentados no festival Back to Black, no Rio de Janeiro, brindou-me com o termo sapeurs, ao reparar que não me rendera ao calor que ainda sentia naquele final de verão carioca.
As capas dos discos be-bop da Blue Note, juntamente com as fotografias de Roy DeCarava e Gordon Parks, moldaram de forma significativa o meu estilo pessoal. O traje que habitualmente uso, fato e gravata, como já aludi em momentos anteriores, não só estabelece uma ligação com as gerações pioneiras de nacionalistas africanos que surgiram nos anos após a Segunda Guerra Mundial, como também com osmentores do movimento Négritude — o levante literário de inspiração afro-franco-caribenha que teve origem na década de 1930, sustentado pela crença central de que há um vínculo cultural que une os africanos negros e os seus descendentes, não importa onde estejam no mundo. A escolha do fato e gravata também me transporta, quase como se estivesse numa cápsula do tempo, para a Angola do meu avô, onde essas peças de vestuário lhe serviam de uniforme para camuflar, resistir e sonhar.
Os sapeurs, a que o autor de Copo quebrado e Memórias de porco-espinho se referiu ao ver-me vestido de fato completo, são um grupo de dândis que se preocupam em dar um toque de classe e glamour à realidade violenta e pobre dos bairros na periferia de Brazzaville e Kinshasa. E isso dá-lhes estatuto de celebridades locais — são muitas vezes remunerados para aparecerem em cerimônias festivas, assim como em funerais, tudo pela sua postura social e pelos valores exemplares.
Lembro-me daquele aluno em Penalva do Castelo agora que, no rescaldo da morte de George Floyd, manifestações antirracismo se multiplicam um pouco por todo o mundo e muitos embarcaram numa busca espiritual, condenando atos de discriminação e derrubando estátuas de figuras históricas de conduta moral condenável. Escritores negros pedem aos seus pares brancos que revelem os valores recebidos pelas suas primeiras obras. Tudo isso no meio de uma pandemia mortífera, num mundo em que o bafo do fascismo na nossa nuca se faz sentir cada vez mais intenso. E, como escrever é a única coisa que sei fazer, faço um apelo para que nós, escritores e leitores, façamos mais. Nossas instituições literárias podem e devem fazer melhor para refletir a diversidade racial nas nossas sociedades. Autores afrodescendentes e histórias de negros já provaram que vendem, e é importante começar a olhar para além da lista dos autores negros mais vendidos. Agentes, editores, críticos e autores de grupos marginalizados: agora é hora de incluir. A nossa sobrevivência enquanto indústria depende disso.
Acordemos então. Já nos apercebemos de que a arte, aquela que conforta os perturbados e perturba os confortáveis, está moribunda. Em parte porque os seus guardiões esqueceram-se de ouvir o que pregam e, tal como Ícaro, aproximaram-se demasiado do sol. Puseram-se a serviço de interesses que insistem em tratar a arte da mesma forma que um “santa cecilier” trata as suas samambaias, essencialmente para fins ornamentais. Todas as sociedades têm os líderes, os intelectuais e os criminosos que merecem. Se só agora chegaste à festa, sê bem-vindo. Pela parte que nos toca, nós, os negros, agradecemos, mas não basta postar nas redes sociais o #blacklivesmatter. Não é suficiente assinar petição, falar mal do governo de Bolsonaro, de Trump ou lamentar a morte injustificada de mais um corpo negro na periferia.
Racismo não tem mais espaço em democracia. Se vale a pena lutar por esse ideal, que, até agora, com todas as suas falhas, continua a ser o melhor sistema político que temos, e digo isso por experiência própria, a Angola comunista não me deixou saudade, assim como acredito que o Brasil da ditadura seja algo que ninguém com o mínimo de bom senso quer ver se repetir. Então, pelo futuro dos nossos filhos, é hora de começarmos a drenar o pântano do racismo estrutural. Acordemos, porque, como disse o rapper afro-americano Killer Mike, agora é a hora de planificar, planejar, engendrar, organizar e mobilizar.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

30/09/2023

Granny Smith


Antes da língua e do verbo, antes de ouvir na rádio a Amália a cantar canções tristes e de a minha mãe me dizer que aquilo que ouvia se chamava fado. Bem antes de ler num livro de história o nome de Diogo Cão e a sua chegada à foz do rio Zaire. Antes das mil formas de cozinhar o bacalhau descritas num velho livro de receitas portuguesas na casa da minha avó. A ideia de Portugal surgiu-me desavisada. Festejávamos o regresso de um familiar de umas férias passadas em Lisboa. A sala encheu-se de histórias; fotografias de uma praça onde as pombas sem medo vinham comer na palma das mãos mostravam-se ao som do rasgar de papel de embrulho, por entre um cheiro novo, doce e frutado que invadia o ar. Nunca mais me esqueci do cheiro das maçãs de casca verde e azeda tão saborosas, tão distantes das que nos chegavam da Huíla. E as prendas… As prendas eram de cortar o fôlego. Na minha casa as crianças nunca se prenderam aos brinquedos; por isso, qualquer livro de banda desenhada me deixava nas nuvens. Mas aquela dúzia de livros Disney e Marvel fizeram de mim simplesmente o kandengue mais feliz de Benguela. De mim e de todos os miúdos lá da rua, porque esses objetos de culto pop não ficavam muito tempo na posse dos seus proprietários. Corriam o bairro todo até voltarem; muitos nunca voltavam. Raros e desejados, esses livros só eram possíveis de obter via Portugal. E foi por essa via que começou a ganhar forma em mim a ideia de Portugal, o lugar-donde-vinham-os-livros-de-BD-e-que-cheirava-a-maçãs-Granny-Smith.
Hoje, sempre que viajo por Portugal, inconscientemente procuro aquele lugar. E este fim de semana não foi exceção. As festividades carnavalescas levaram-nos até ao norte do país, à cidade berço. Amanhecemos em Guimarães e com o dia todo para domingar. Para não nos sentirmos deslocados, evitámos o registo turista e decidimos fazer o que supostamente um nato da terra faria. Uma chuva miudinha insistia em não parar, talvez por isso metade da cidade hibernava, sem que isso ofuscasse a sua beleza. A busca de um restaurante levou-nos até Vizela, onde encontrámos um que merecidamente nos fez dedicar três horas do nosso tempo e apetite. A tarde corria acelerada para o seu fim e restavam-nos poucas escolhas de entretenimento. Talvez por isso fomos naturalmente conduzidos para o interior de um shopping center. Não fizemos grandes juízos, aceitámos o fato e deambulámos por ali de montra em montra. Escolhemos um filme, Call Girl, comprámos pipocas e coca-colas e entrámos na sala que se encontrava com o maior número de pessoas. Talvez fosse por causa do efeito da protagonista Soraia Chaves, mas penso que não poderíamos ter escolhido um melhor filme para aquele fim de tarde. Ao sairmos do cinema com um sorriso estampado no rosto, sem aquela culpa que às vezes nos pesa quando seguimos determinada tendência popular, lembrei-me da satisfação que sentia depois de ler um livro de BD, quase como se saboreasse aquele lugar-donde-vinha-a-banda-desenhada; só não cheirava às maçãs.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

25/09/2023

Homem, filho e preto


Foi em Lisboa — não me lembro quem nem onde terá sido —, mas alguém questionou-me sobre o porquê do meu interesse pela escrita, o porquê de escolhê-la como profissão. A minha resposta: Quando aqui cheguei, na segunda metade dos anos 1990, o choque cultural não foi significativo. Trazia comigo a vantagem da língua e da similaridade de valores culturais e religiosos. Tirando uma ou outra característica comportamental, não havia muito a assinalar que pudesse alimentar um conflito cultural entre nós, africanos, e eles, os brancos, nativos. O único problema residia na pele: quanto mais escura, maiores as dificuldades de integração. A cor tornava palpável a pressão sociocultural sob a qual viviam os pretos, nas periferias dos grandes centros urbanos, entre dois mundos: a África umbilical, da saudade, do sonho e do orgulho de pertença, e Portugal, da adoção, da esperança, do desconhecido e da necessidade.
Na altura, o que mais me entusiasmou em Lisboa foi o fato de, pela primeira vez, me ter questionado sobre a minha existência, o que me faz homem, filho e, claro, preto. E que lugar melhor do que Lisboa para se iniciar um inquérito sobre identidade. Não imaginam o gozo que me dava, e ainda dá, identificar a carapinha, as ancas fartas, a pele morena ou moura, se preferirmos, nesse nobre povo que me deu as boas-vindas em pleno inverno, mas cuja africanidade, ainda que só celebrada de forma efusiva em São Bento (a décima ilha do arquipélago de Cabo Verde), foi suficiente para me fazer sentir em casa. Além de que me ajudou a dissipar aquele que era o nosso maior medo, o racismo. Um não problema, um não dito, que apenas ouvíamos, sentindo, nas entrelinhas, entre as sílabas engolidas na fala daqueles que nos recebiam. Era quase imperceptível, diria até que era preciso mesmo estar bastante atento para identificar um ato racial direto, salvo, claro, as vezes que gritavam “preto, vai para a tua terra!”, de fugida, no anonimato de uma janela de um bairro pacato na mais africana das capitais europeias.
À medida que fui me sentindo mais em casa, fui me apercebendo do quão pouco sei sobre os pretos. Sendo africano e conhecendo muitos iguais a mim, vivendo na mesma condição de imigrante que eu, nunca me ocorreu levantar as questões que, de repente e de forma tão pertinente, começaram a surgir. Optei, então, por ver alguns documentários e ler alguns livros. Há um que me deixou particularmente sensibilizado e, claro, passo a recomendar — Lisboa, na cidade negra, de Jean-Yves Loude — um estrangeiro, como sempre… até parece um cliché irritante, mas repete-se há tanto tempo que nos resignamos e aceitamos que a nossa história será sempre “melhor” contada por um alguém de fora —, por me introduzir lugares de uma cidade que me era familiar, lugares que frequentava, e por me apresentar personagens que eu conseguia identificar, algumas até com quem havia privado, mas que, pela proximidade ou pelo hábito de estar com elas, nunca havia questionado sobre isso de ser preto e sê-lo em Portugal.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

22/09/2023

Angolanês

 


Durante a Guerra Fria em Angola (que de fria só tinha mesmo o medo que gelava a espinha sempre que o nosso sangrento conflito civil se intensificava), aprendi desde cedo a conviver com autoritarismos de toda espécie. Quando vim ao mundo, em 1978, o país já era uma nação independente, mas, à medida que me foi sendo ensinada a arte da sobrevivência, a palavra “liberdade”, dependendo do lugar e do interlocutor, acarretava o risco de ser recebida como uma ofensa ou um sonho impossível. Isso implicava uma intervenção urgente, pois, se não nos curássemos dessa enfermidade com urgência urgentíssima, alguém pouco preocupado com a nossa saúde poderia vir bater-nos à porta de madrugada e fazer de nós um exemplo.
A liberdade, principalmente a individual, me foi apresentada como sendo coisa de louco, bêbado ou poeta. Algo que só está ao alcance de uns poucos destemidos que a história tende a nos apresentar como mártires. Liberdade para mim estava e está ainda na mesma categoria da felicidade: não as discutimos com estranhos e se, por alguma razão, sentíssemos a comichão de o fazer, teríamos de seguir meticulosamente o sigilo conspiratório digno de um romance policial, com portas trancadas, persianas corridas e o rádio ligado para congestionar os microfones que a nossa paranoia imaginava existirem escondidos nas paredes. Puro medo, mas, por via das dúvidas, púnhamos o volume do rádio no onze, pois já dizia a sabedoria popular: camarão que dorme, a onda leva.
Quando passei a residir no hemisfério norte, ainda que o estatuto de estrangeiro ditasse a forma como me relacionava com a palavra “liberdade”, foi com o uso diário e exclusivo das línguas europeias que me apercebi que dificilmente nos livraríamos dessa ressaca colonial que nos embacia a mente. Ao transformar a literatura no meu ofício, tenho feito uso do pretuguês e do inglês como um par de ferramentas nas mãos de um mecânico para desenroscar parafusos culturais, aceitando sem muito questionar o rótulo de “literatura lusófona” que me é empregue e sentindo-me ora incompleto e ora envergonhado por não estar a contribuir para a construção de uma literatura angolana descolonizada. Uma literatura que respondesse à minha inquietação: sem a presença, a compreensão e o uso das línguas que carregam as memórias dos nossos ancestrais, como poderemos gritar alto que a nossa história não começa com a chegada dos europeus a África?
Um dos livros mais importantes para estudar o uso das línguas europeias nas literaturas africanas é o seminal Decolonising the Mind: the Politics of Language in African Literature [Decolonizando a mente: as políticas da linguagem na literatura africana], de Ngũgĩ wa Thiong'o, editado nos anos 1980. A obra aborda não só questões literárias, mas também as contradições do neocolonialismo em África, as ditaduras opressivas, as guerras e os saques pornográficos dos recursos do continente patrocinados pelos países do Ocidente e pela China. Uma obra que continua a ser atual e demarca como poucas a frase de Frantz Fanon: “A língua é uma tecnologia de poder”.Como eu, os angolanos nascidos depois da independência e que cresceram nas áreas urbanas não falam as nossas línguas autóctones. Quando visitamos os nossos familiares no interior, nos vemos na situação caricata de precisar de um tradutor, que em muitos casos acabam por ser os nossos pais — a geração que abraçou a tarefa de construir não só um país, mas também a sua identidade num mundo pós-colonial. Sou-lhes grato pelos sacrifícios, mas é-me difícil compreender o porquê de terem descartado o ensino das línguas bantus aos seus filhos. A resposta com que nos têm brindado sobre as razões de tal descaso é a de que, por não pertencer a nenhuma etnia, o português foi a língua que melhor serviu ao projeto de unidade nacional em Angola.
Na década de 1950, Óscar Ribas, Tomaz Vieira da Cruz e Castro Soromenho intensificaram a dança entre as línguas de origem bantu e o português, trazendo para a literatura a linguagem dos musseques. Porém, com exceção da Bíblia, de alguns poemas e fábulas, nenhum romance foi publicado nas nossas oito línguas nativas. Mesmo que existissem, a maior parte da população não tem até hoje uma relação com a palavra escrita na sua língua materna. Por isso, a expressão oral e a música ditam como a cultura é produzida e consumida em todo o território.
A nossa dívida para com o grupo N'gola Ritmos, liderado por Liceu Vieira Dias, é eterna. Foi através da música produzida por eles nos anos 1950 que conseguimos não só resgatar muito da nossa identidade cultural, mas também vislumbrar um futuro no qual a música contemporânea angolana poderia dialogar com o passado sem comprometer em nada a sua essência. As aparições do N'gola Ritmos na televisão portuguesa, em 1964, precisam ser melhor estudadas, pois aconteceram na altura em que os movimentos de libertação combatiam nas matas o exército português. E, embarcando na ilusão do luso-tropicalismo, Portugal chamou para a metrópole Nino Ndongo, Fontinhas, Xôdo, Zé Cordeiro, Lourdes Van-Dúnem e Gégé. Cantaram em quimbundu canções de protesto e canções de dor que narram a condição do angolano — para mim, as mais belas canções do mundo.O nosso primeiro presidente, António Agostinho Neto, discursando na União dos Escritores Angolanos em 1977, disse: “O uso exclusivo da língua portuguesa, como língua oficial, veicular e utilizável atualmente na nossa literatura, não resolve os nossos problemas. E tanto no ensino primário, como provavelmente no médio, será preciso utilizar as nossas línguas. E dada a sua diversidade no país, mais tarde ou mais cedo deveremos tender para a aglutinação de alguns dialetos, a fim de facilitar o contato”. Ou seja, o que propunha era a criação do “angolanês”. Especulo o que ele diria se ouvisse o vernáculo do kuduro, derivação da linguagem dos musseques, e que acredito ser o mais próximo que conseguimos chegar do sonho do autor do “Caminho do mato”. Convido o leitor a ouvi-lo na voz de Belita Palma. É cantado em português, mas, quando o ouço, imagino-o numa versão de Aline Frazão em quimbundu.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

18/09/2023

Cuidado com o livro


Sabem do que tenho mais saudades? Do livro aberto. Sim, isso mesmo, tenho saudade de ver um livro escancarado na mão de um leitor. Já não me lembro da última vez que vi um livro a ser devorado em público. Ler em público, ou até carregar um livro debaixo do braço, passou à história, é hoje praticamente figura de museu, alimento da nostalgia de poetas, romancistas e cronistas, para se empanturrarem até arrotarem os seus desvarios e estórias, que por vaidade ou capricho masoquista se dão ao trabalho de publicar em livros, que ficarão para sempre calados.
Nutrimos pelos livros o mesmo que sentimos por certos cães: medo. As casas comerciais, cada vez mais escassas, que carregam na fachada a palavra “Livraria” são encaradas com o mesmo respeitinho que nutrimos por aquelas habitações onde nos portões se lê “Cuidado com o cão”. As nossas bibliotecas estão para nós como os canis municipais: nunca pomos lá os pés. Ninguém quer ver, ninguém está para se comover com aquela quantidade de livros abandonados, engaiolados nas prateleiras numa agonia sem fim.
Quando kandengues, nossos pais, para incutir sentido de responsabilidade, nos davam de presente livros, e com eles as mesmas recomendações que forneciam quando nos ofereciam o nosso primeiro cachorrinho: “Cuida bem dele, leva-o a passear, é o teu melhor amigo”. Nós, na emoção inicial, brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil. Quando cresceram, ou melhor, quando nós crescemos, os abandonámos com a sua coleira/prateleira num canto qualquer, até morrerem de velhice.
O desaparecimento do livro do espaço público me leva de volta ao tempo em que em Luanda, anos 1980-90, se não me falha a memória, os cães que circulavam pela cidade desapareceram de forma repentina. Dizem as más-línguas que os responsáveis seriam um grupo de cooperantes filipinos cuja culinária, de tão vasta e exótica, incluía alguns quitutes e guisados confeccionados com carne de rafeiro. Um mito urbano que alimentou o nosso imaginário coletivo durante anos e, até hoje, repousa num anexo nos fundos da nossa memória.
Caros leitores, amigos da provocação e da conversa fiada, do largo da Maianga aos cafés da Restinga, de estímulo e afeto, românticos e nostálgicos, amantes da velha e quase extinta arte da leitura, permitam-me que vos dedique estas palavras, perdoem a vaidade deste vosso humilde cronista, tão pecador como qualquer outro, mas que vos tem na mais alta estima. A vocês, caros companheiros das manhãs aborrecidas de terça-feira, cuja utilidade, para além de ser mais um dia de labuta semanal, é apenas a de nos lembrar que o fim de semana ainda vem longe.
Se tencionam iniciar uma coleção de livros, estimados leitores, eis aqui algumas informações úteis que temos a obrigação de não respeitar:

Logo a partir dos primeiros meses, todos os livros, sem exceção, devem ser vacinados anualmente contra a raiva;
Os livros não devem ter livre acesso à rua;
Ao sair com o livro, mantenha-o sob controlo, utilizando coleira e guia;
Nunca provoque um livro;
Não toque em livros estranhos, feridos ou que estejam se alimentando;
Não separe lutas entre livros, nem mexa com escritores e as suas criações;
E em caso de acidentes por mordedura: lavar o ferimento com água e sabão e procurar orientação médica; identificar o livro agressor e o seu proprietário; caso o livro seja conhecido, observar o objeto por dez dias.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas