terça-feira, 10 de outubro de 2023

Philando Castile e Alton Sterling


Injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.
Martin Luther King Jr.

Lembram-se quando em 2015, na Etiópia, mais ou menos por essa altura do ano, o presidente americano Barack Hussein Obama, discursando na sede da União Africana em Adis Abeba, disse “Ninguém deve ser presidente para toda vida”? Aquelas palavras correram o mundo e devem ter incomodado muitos dos nossos líderes africanos a quem a carapuça terá servido. “Quem ele pensa que é?”, devem ter desabafado para os seus botões ou para os seus mais fiéis conselheiros. Não foi a primeira vez que o filho de pai queniano ousara apontar o dedo à forma como estão organizados os nossos governos. “África não precisa de homens fortes, precisa de instituições fortes” é outra frase que lhe ficou popular, proferida aquando da visita ao Gana em 2009.
À luz das mais recentes mortes de afro-americanos pela mão da polícia, aproveito esses dois momentos em que Obama se dirigiu aos nossos líderes com recomendações e conselhos, para pesquisar o que os nossos chefes de Estado lhe disseram sobre a crise humanitária que se sente nas cidades norte-americanas junto das comunidades mais pobres e que afeta em particular as minorias negra e latina. Obama nunca deixou de reconhecer que os Estados Unidos vivem uma crise racial; contudo, não me lembro de ver nenhum líder africano aproveitar uma visita oficial à Casa Branca e deixar um recado ao seu homólogo sobre a questão da brutalidade policial. No ano passado, o presidente nigeriano Muhammadu Buhari reuniu-se com Barack Obama em Washington. Um dia antes, a 19 de julho, Samuel DuBose, 43, pai de treze, foi morto numa operação de trânsito em Cincinnati. Mas críticas de Buhari à violência policial nem uma vírgula, e não foi por falta de slogans do tipo #BringOurGirlsBack para inspirar e galvanizar as nossas figuras de Estado. Desde a absolvição de George Zimmerman em 2013, o homem que tirara a vida de Trayvon Martin, o movimento #BlackLivesMatter está presente, ainda que, reconheçamos, com menos mediatismo e engajamento do que a campanha de sensibilização internacional conseguiu reunir em torno do sórdido sequestro das jovens estudantes de Chibok por parte do Boku Haram na Nigéria.
A 17 de julho de 2014, Eric Garner perdeu a vida em Nova York. A polícia alegou que o vira vender cigarros ilegalmente. Depois de uma discussão, no vídeo que se tornou viral, um dos agentes aplicou-lhe uma chave de braço, levando-o ao chão. Sem ar, ainda conseguiria soltar as palavras, repetidas onze vezes: “Não consigo respirar”. Em menos de vinte segundos, morria asfixiado. Tudo isso aconteceu vinte dias antes da realização da Cimeira Estados Unidos-África, que juntou em Washington, DC, a convite do presidente Obama, diversos líderes nacionais, chefes de Estado e de governo, de cinquenta nações africanas. Angola esteve representada pelo vice-presidente Manuel Vicente. Nenhum daqueles governantes proferiu palavras de solidariedade nem sequer aproveitou o momento para apontar o dedo ao fato da justiça americana ilibar abusos de autoridade e crimes cometidos por agentes policiais mesmo quando captados em vídeo. Nem precisariam ir tão longe e interferir em assuntos internos de outro Estado, mas contudo não lhes teria ficado mal aproveitar a ocasião então, ou agora, diante do absurdo que é vermos vidas desperdiçadas. Para citar o abolicionista Frederick Douglass: “Onde a justiça é negada, onde a pobreza é imposta, onde a ignorância prevalece e onde todas as classes são levadas a sentir que a sociedade é uma conspiração organizada para oprimir, roubar e degradá-las, nem pessoas nem propriedades estarão a salvo”.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

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