Injustiça
em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.
Martin
Luther King Jr.
Lembram-se
quando em 2015, na Etiópia, mais ou menos por essa altura do ano, o
presidente americano Barack Hussein Obama, discursando na sede da
União Africana em Adis Abeba, disse “Ninguém deve ser presidente
para toda vida”? Aquelas palavras correram o mundo e devem ter
incomodado muitos dos nossos líderes africanos a quem a carapuça
terá servido. “Quem ele pensa que é?”, devem ter desabafado
para os seus botões ou para os seus mais fiéis conselheiros. Não
foi a primeira vez que o filho de pai queniano ousara apontar o dedo
à forma como estão organizados os nossos governos. “África não
precisa de homens fortes, precisa de instituições fortes” é
outra frase que lhe ficou popular, proferida aquando da visita ao
Gana em 2009.
À
luz das mais recentes mortes de afro-americanos pela mão da polícia,
aproveito esses dois momentos em que Obama se dirigiu aos nossos
líderes com recomendações e conselhos, para pesquisar o que os
nossos chefes de Estado lhe disseram sobre a crise humanitária que
se sente nas cidades norte-americanas junto das comunidades mais
pobres e que afeta em particular as minorias negra e latina. Obama
nunca deixou de reconhecer que os Estados Unidos vivem uma crise
racial; contudo, não me lembro de ver nenhum líder africano
aproveitar uma visita oficial à Casa Branca e deixar um recado ao
seu homólogo sobre a questão da brutalidade policial. No ano
passado, o presidente nigeriano Muhammadu Buhari reuniu-se com Barack
Obama em Washington. Um dia antes, a 19 de julho, Samuel DuBose, 43,
pai de treze, foi morto numa operação de trânsito em Cincinnati.
Mas críticas de Buhari à violência policial nem uma vírgula, e
não foi por falta de slogans do tipo #BringOurGirlsBack para
inspirar e galvanizar as nossas figuras de Estado. Desde a absolvição
de George Zimmerman em 2013, o homem que tirara a vida de Trayvon
Martin, o movimento #BlackLivesMatter está presente, ainda que,
reconheçamos, com menos mediatismo e engajamento do que a campanha
de sensibilização internacional conseguiu reunir em torno do
sórdido sequestro das jovens estudantes de Chibok por parte do Boku
Haram na Nigéria.
A
17 de julho de 2014, Eric Garner perdeu a vida em Nova York. A
polícia alegou que o vira vender cigarros ilegalmente. Depois de uma
discussão, no vídeo que se tornou viral, um dos agentes aplicou-lhe
uma chave de braço, levando-o ao chão. Sem ar, ainda conseguiria
soltar as palavras, repetidas onze vezes: “Não consigo respirar”.
Em menos de vinte segundos, morria asfixiado. Tudo isso aconteceu
vinte dias antes da realização da Cimeira Estados Unidos-África,
que juntou em Washington, DC, a convite do presidente Obama, diversos
líderes nacionais, chefes de Estado e de governo, de cinquenta
nações africanas. Angola esteve representada pelo vice-presidente
Manuel Vicente. Nenhum daqueles governantes proferiu palavras de
solidariedade nem sequer aproveitou o momento para apontar o dedo ao
fato da justiça americana ilibar abusos de autoridade e crimes
cometidos por agentes policiais mesmo quando captados em vídeo. Nem
precisariam ir tão longe e interferir em assuntos internos de outro
Estado, mas contudo não lhes teria ficado mal aproveitar a ocasião
então, ou agora, diante do absurdo que é vermos vidas
desperdiçadas. Para citar o abolicionista Frederick Douglass: “Onde
a justiça é negada, onde a pobreza é imposta, onde a ignorância
prevalece e onde todas as classes são levadas a sentir que a
sociedade é uma conspiração organizada para oprimir, roubar e
degradá-las, nem pessoas nem propriedades estarão a salvo”.
Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

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