Mostrando postagens com marcador Mona Lisa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mona Lisa. Mostrar todas as postagens
19/02/2017
O Tempo
Será
preciso
explicar
o sorriso
da
Mona Lisa
para
que você
acredite
em mim
quando
digo
que
o tempo passa?
Paulo
Leminski
27/03/2016
De que ri a Mona Lisa?
Mona Lisa, de Leonardo da Vinci
Estou na Sala Da Vinci, no Louvre. Aqui penetrei encaminhado por uma seta que dizia Estou na Sala Da Vinci, no Louvre. Aqui penetrei encaminhado por uma seta que dizia “Sala Da Vinci”. É como se fosse uma indicação para uma grande avenida no trânsito de uma cidade. Não que a seta seja apelativa ou extraordinária. Mas reconheço que nela está escrito implicitamente algo mais. E como se sob aquelas letras estivesse inscrito: “Preparem o seu coração para um encontro histórico com a Gioconda e seu indecifrável sorriso”. E tanto é assim que as pessoas desembocam nesta sala e estacionam diante de um único quadro o da Mona Lisa.
Do lado esquerdo da Gioconda, dezesseis quadros de renascentistas de primeiro time. Do lado direito, dez quadros de Rafael, Andrea del Sarto e outros. E na frente, mais dez Ticianos, além de Veroneses, Tintorettos e vários outros quadros do próprio Da Vinci.
Mas não adianta, ninguém os olha.
Estou
fascinado com este ritual. E escandalizado com o que a informação
dirigida faz com a gente. Agora, por exemplo, acabou de acorrer aos
pés da Mona Lisa um grupo de japoneses: caladinhos, comportadinhos,
agrupadinhos diante do quadro. A guia fala-fala-fala e eles
tiram-tiram-tiram fotos num plic-plic-plic de câmeras sem flash.
Sim, que é proibido foto com flash, conforme está desenhado num
cartaz para qualquer um entender.
E
lá se foram os japoneses. A guia os arrastou para fora da sala e não
os deixou ver nenhum outro quadro. E assim pessoas vão chegando sem
se dar conta de que sobre a porta de entrada há um gigantesco
Veronese,Bodas de Caná. E singularíssimo, porque o veneziano
misturou a festa de Caná com a “última ceia”. Cristo está lá
no meio da mesa, num cenário greco-romano. O pintor colocou a
escravaria no plano superior da tela e ali há uma festança com a
presença até de animais.
Entrou
agora na sala outro grupo. São espanhóis e italianos. “Veja só
os olhos dela”, diz um à
sua esposa, exibindo o original senso crítico. “De qualquer lado
que se olha, ela nos olha”, diz outro parecendo ainda mais esperto.
“Mas, que sorriso!”, acrescenta outro ainda. E se vão.
Ao
lado esquerdo da Mona Lisa reencontro-me com dois quadros de Da
Vinci. Mas como as pessoas não foram treinadas para se extasiar
diante deles, são deixados inteiramente para mim. São A Virgem dos
Rochedos e São João Batista. Este último me intriga
particularmente. É que este São João assim andrógino tem uma
graça especial. E mais: tem o rosto muito semelhante ao de Santa
Ana, do quadro Santa Ana, a Virgem e o Menino, no qual Freud andou
vendo coisas tão fantásticas, que se não explicam o quadro pelo
menos mostram como o psicanalista era imaginoso.
Chegou
um bando de garotos ingleses-escoceses-irlandeses, vermelhinhos,
agitadinhos, de uniforme. Também foram postos diante da Mona Lisa
como diante do retrato de um ancestral importante. Só diante dela. O
guia falava entusiasmado como se estivesse ante o quadro de uma
batalha. E ele ali, talvez, achando graça da situação.
Enquanto
isto ocorre, estou enamorado da Belle Ferroniêre, do próprio Da
Vinci, que embora possa ser a própria Mona Lisa de perfil, ninguém
olha.
Chegou
agora um grupo de jovens surdos-mudos holandeses. Postaram-se ali
perplexos, o guia falou com as mãos e foram-se. Chegou um grupo de
africanos. E repete-se o ritual. E ali na parede os vários Rafaéis,
outros Da Vincis, do lado esquerdo os dezesseis renascentistas de
primeira linha, do lado direito os dez quadros de Rafael, Andrea del
Sarto e outros e na frente mais dez Ticianos, além dos Veroneses,
Tintorettos etc., que ninguém vê.
O
ser humano é fascinante. E banal. Vêm para ver. Não veem nem o que
veem, nem o que deviam ver Entende-se. Aquele cordão de isolamento
em torno da Mona Lisa aumenta a sua sacralidade. E tem um vigia
especial. E um alarme especial contra roubo. Quem por ali passou
defronte dela acionando sua câmera, pode voltar para a Oceania,
Osaka e Alasca com a noção de dever cumprido. Quando disserem que
viram a Mona Lisa, serão mais respeitados pelos vizinhos.
Mal
entra outro grupo de turistas para repetir o ritual, percebo que a
Mona Lisa me olha por sobre o ombro de um deles e sorri realmente.
Agora
sei de que ri a Mona Lisa.
Affonso
Romano de Sant´Anna
27/08/2015
O mito de Mona Lisa
O
historiador inglês Donald Sasson no livro “Mona Lisa” faz um
levantamento histórico das razões que levaram o quadro de Da Vinci
a se tornar a maior referência em obras de artes que o mundo já
viu.

Pense
rapidamente, qual é a pintura mais famosa do mundo? Segundo uma
pesquisa realizada na Itália, a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci ganha
disparada de qualquer outro, com mais de 73% de lembrança
espontânea. Se isso é até que relativamente fácil de se entender,
o nó da questão reside justamente no por quê?
Este
último ponto é a grande questão levantada pelo historiador inglês
Donald Sasson no livro “Mona Lisa” (editora Record). Em suas 285
páginas de texto efetivo, ele faz um levantamento histórico das
razões que levaram o quadro de Da Vinci a se tornar a maior
referência em obras de artes que o mundo já viu.
Sasson
começa da imigração de Leonardo para a França, onde ficou sob
tutela da corte real e ali desenvolveu seus trabalhos. Com
investigações feitas a partir de textos dos contemporâneos do
artista até o século 20, Sasson desenvolve sua obra. Recheado de
fatos pitorescos, o autor apresenta os motivos que tornaram Mona
Lisa, um ícone das artes visuais e popular também. Do grande
redescobrimento da pintura no século 19 e os inúmeros escritores
que falam sobre a importância da personagem comparando-a à diversas
mulheres históricas como, por exemplo, Helena de Tróia até o seu
roubo em 1991, que alavancou de vez o imaginário popular sobre a
pintura, são os pontos de destaque de sua pesquisa.
O
autor também aproveita para levantar a questão da identidade da
modelo de Da Vinci - são inúmeras teorias - e o seu enigmático
sorriso, que tornou-se tão importante quanto a própria pintura.
Diante do vulto de Mona Lisa, Sasson vê a diluição do pintor
renascentista, que vira menos “famoso” do que sua arte, coisa
muito difícil de se acontecer, principalmente no mundo atual de
grifes. Também compara a histeria coletiva a favor de Leonardo Da
Vinci diante de outros gênios, como Rafael e Michelângelo.
Dentro
deste universo recheado de idas e vindas, a criação de um mito
popular vai sendo revelada. De seu uso na publicidade, de sua
participação na arte moderna, como as inúmeras intervenções de
artistas como Marcel Duchamp e Fernando Botero, Mona Lisa guarda
inúmeras peculiaridades, como a prisão de André Breton após o
roubo da pintura e o poeta resolveu entregar outros objetos furtados
do Louvre, na França, que estavam em seu poder.
O
que Donald Sasson narra, na verdade, é o efeito estético que a obra
de arte pode causar e sua apropriação por outros suportes que
transformam uma pintura em imaginário coletivo. Analisa também a
negação pela chamada “alta cultura” de um objeto tornado
popular. Uma discussão muito interessante em épocas de mundo
globalizado.
Danilo
Corci, in revistaspeculum.wordpress.com
Assinar:
Postagens (Atom)

