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07/10/2022

Capítulo 4 | Cuidado com o labirinto

Vem com força, beijando a ponta dos postes, a cabeça do beija-flor, a pelagem do cachorro, os fios de prata, energizando, fortalecendo, brilhando o alumínio jogado no chão, reluzindo nos sacos pretos cheios de coisas descartáveis, clareando as costas do menino, iluminando a pipa, brilhando o cerol, o sol vem com força.
Foi comprar pão, as moedas balançavam no bolso e isso o irritava, tentava pensar em outra coisa, talvez a última música que tinha ouvido.
Ao passar pela frente da casa, notou a calçada molhada e ouviu o barulho de água.
A vizinha que a alguns dias alimentava uma cadela agora estava lavando o quintal. Meias finas até o joelho, uns cinquenta anos de vida e um cabelo seco coberto por uma grossa touca de lã, feita por ela mesma.
Continuou a andar, agora na outra calçada, um barulho de vassoura, não de piaçava, mas dessas modernas, de material sintético, coloridas e mais duras.
O que seria aquilo? Parecia que todo mudo estava lavando a calçada.
Resolveu parar, voltou alguns passos e olhou para a vizinha, atrás dela dois cachorros presos, com tapetes por baixo das patas, para não molhar. Do outro lado, dois anões de jardim o olhavam como se estivessem zangados, ele não tinha coragem de olhar direto em seus olhos de gesso.
Olhei dentro dos olhos parados das estátuas de gesso daquele quintal arrumado e sem vida, a mulher continuava a lavar, lavava o que já estava limpo.
Passou a mão pelos bolsos, num deles uma colher, no outro certificou-se de que as chaves estavam lá, tocou em mais metais, moedas.
Enveredou pela esquina, foi pouco o esforço, avistou as fezes de algum cachorro, pensou em pisar, talvez até escorregar nela, seria legal, uma vez escorregou numa chapa de raios X, caiu e levantou rapidamente, a vergonha de alguém ter visto era pior do que o tombo em si, mas se divertiu, em casa não conseguia parar de rir, ainda mais quando olhou a chapa e viu duas costelas quebradas, pobre diabo.
Calixto não conseguia parar de andar, andar fazia com que não pensasse.
Parou em frente à padaria, olhou por alguns segundos e continuou a caminhar, o livro em sua mão agora pesava uns dois quilos.
A rua tinha uma subida, alguns matos cresciam vencendo o concreto, talvez até algum cocô de cachorro, no fundo um bom fertilizante, os tivesse nutrido, ou a urina de jovens que voltavam dos bailes a noite.
Algum jovem que urinou forte demais naquele dia, pois acabara de gozar nas pernas de uma menina que conheceu dentro do salão.
Morena, cabelos longos, pernas torneadas como a de um jogador de futebol, aulas de axé.
A porra corria pelos músculos, descendo rapidamente, onde encontraria nada mais do que o chão frio e minutos depois a morte dos espermatozoides, essas coisas acontecem pensou ele, talvez só com os outros, mas acontecem.
Já caminhava por mais de quarenta minutos quando chegou a uma rua conhecida.
Estava se aproximando do serviço, pensou em continuar andando, não queria que as coisas parassem de novo, mas as pernas doíam, as solas dos pés se faziam notar, afinal só percebemos certas coisas quando nos incomodam.
Não podia continuar por muito tempo. Foi quando viu aquele senhor, carregando a carroça cheia de papelão, parou em frente a ele e lhe deu o livro, o homem estranhou, mas logo em seguida agradeceu, Calixto continuou a caminhar, o homem jogou o livro na carroça, devia pesar pouco, mas, junto com o papelão, seria molhado e daria alguns centavos.
O portão chegou e quase bateu no seu peito, os vizinhos daquela velha casa o olhavam, sempre olharam e para sempre olhariam.
Sempre me senti invisível, talvez fosse meu superpoder, cada ano que ganhava eu era menos notado, e hoje ninguém nem sequer sabe que existo, essa é a impressão que tenho.
Mãos nos dois bolsos, tentando lembrar onde estava a maldita chave, achou, enfiou na fechadura e destrancou, deu o primeiro passo, o pensamento na ligação, na quantidade de créditos que ainda tinha naquele cartão, tinha que ligar, não podia deixar.
Entrou na casa, atirou as chaves na mesa, nela um livro, olhou a capa e, por mais que tivesse raiva, não conseguia largar o amor pela literatura daquele que menosprezava seu sentimento de amizade, no fim não devia ter se aproximado daquele autor, já fora advertido que as obras são o que há de melhor nos autores, quem lhe disse isso acertou.
Havia falado com o autor algumas vezes, em alguns momentos de angústia chegava a discar os primeiros números, mas logo desistia, tinha noção de que não era seu amigo, de que não era nada dele, e sempre lia mais algumas páginas para se acalmar. Quando se lembrava do assunto, lhe vinha o labirinto, sempre teve medo dessa palavra, as palavras na sua ideia das coisas são perigosas, ainda mais uma que não demonstrasse saída, labirinto, era algo que realmente temia.
Uma vez se pegou olhando para o espelho, encarando seus próprios olhos, notando seu próprio semblante, por uns segundos se perdeu, teve medo quando recobrou os sentidos, viu o perigo de quase ultrapassar o portal, acreditava nisso, no portal para o outro lado, e sabia de muitos que dessa entrada não voltaram.
Quando olho para o espelho, sempre termino me perguntando, quem é esse cara afinal?
Sinto saudade da minha filha, de ver ela todas as manhãs, acordar e ir ver ela dormindo, quando acordava punha fogo na casa, correria pra lá e pra cá, não mexe nisso, não pode pegar isso aí, suas perguntas me davam um sentimento de ser útil para alguém, de saber algo e poder compartilhar.
Filhos criados longe dos pais são frios.
Ali era seu trabalho, nada de muito complexo, procurar holerites, cada caixa tinha uma inicial, se fosse r, cheia de Raimundos, Ronaldos, Robertos, se fosse um c, Carolinas, Cecílias, Carlas, Cristinas.
De vez em quando alguém pedia algo mais, uma ficha de pagamento, um fundo de garantia, tudo pelo nome, tudo organizado.
Todos os dias a mesma coisa, de manha um café SL na vendinha e no início da tarde um almoço PF acompanhado de um refrigerante CC.
Calixto, desde que entrou naquele arquivo, que mais parecia um depósito de lixo no começo, fez questão de organizar tudo. Cada caixa tinha um número, a pasta indicava o que tinha dentro da caixa, e cada sala abrigava um certo tipo de documento. Uma só para holerites e fundos de garantia, outra só para notas fiscais enviadas e recebidas, e a última, que ficava no fundo da casa, continha documentos diversos, papéis como contas de água, luz e aluguel.
Esse dia era especial, chegaria alguém não programado, alguém que lhe ajudaria, estava desconfiado, é verdade. Afinal por que colocar outro cara com ele, para um serviço de que dava conta? Mas outros pensamentos lhe vinham, e eram mais convincentes do que uma substituição.
Foi ao banheiro, passou água nos pequenos fios atrás da nuca, lavou o rosto, para tirar um pouco do brilho, e secou com papel higiênico. Foi para a frente da casa, abriu a porta e sentou calmamente na cadeira, à beira da mesa que ficava de frente para a porta, se passasse alguém naquele momento e visse a cena, com certeza acharia estranho, no mínimo mórbido, mas ninguém o veria, essa era a verdade, o muro tinha um metro e vinte de altura, mas eram as grades que completavam a invisibilidade de quem estava dentro da residência.
Alguém chegou, olhou os dois pés de rosa que insistiam em crescer no quintal, também notou os matos já altos e algumas pedras que, com certeza, foram usadas por alguém há muito tempo para fazer um jardim, sem conseguir êxito.
Bateu uma mão na outra e Calixto escutou as palmas, levantou como se fosse um diretor de multinacional num momento muito importante, conferiu o zíper da calça jeans para ver se estava fechado, bateu as mãos por cima do bolso para conferir o relevo das chaves e sentiu no outro a colher novamente, por último colocou a mão para trás e bateu na carteira, que trazia alguns trocados, velhas fotos e anotações.
Finalmente chegou à porta e perguntou primeiro quem era.
Sou o Hamilton, foi o departamento pessoal da Robson Canto que me mandou.
Entrou. Um jovem moreno, cabelos enrolados, com excesso de gel, calça de sarja, camisa colada no corpo com os mamilos salientes, magro e muito curioso.
Então é aqui que está o nosso arquivo? Legal cara, eu sou o novo funcionário.
Calixto não queria pegar na mão do rapaz, mas isso fora inventado muito antes, era uma forma de mostrar que não se estava armado, e não se podia fugir disso, ele odiava, mas sabia.
Seja bem-vindo.
Obrigado, você que é o Calixto, o encarregado daqui?
Sou sim, o patrão de todo esse império.
O jovem entrou, viu os fios do telefone presos a pequenos pregos, viu o carpete desbotado, as paredes deterioradas, marcadas pelo tempo que age igual com as pessoas, transformando-as em caricaturas de si mesmas, leves lembranças do brilho que um dia tiveram.
Está estranhando a casa? Bom, ela é velha, assim como o salário é defasado, mas em compensação o trabalho aqui é simples, vou te passar tudo aos poucos, mas não tem segredo, você já trabalhou com arquivo?
Não. Na verdade trabalhei com vendas em farmácia, e em lojas de roupa no fim do ano.
Bom, creio que essa experiência não vai servir, mas te passo tudo e você não vai ter dificuldade, cada caixa ali tem uma letra do nosso alfabeto, cada letra significa a inicial de um nome, então se formos procurar os documentos do senhor Antônio por exemplo, você vai na caixa do A, retira o Antônio do mês de janeiro, depois vai na caixa do mês de fevereiro e assim por diante.
E aquelas caixas ali?
Bom, essas são numeradas, existem duzentos e sessenta e cinco caixas, todas estão nesse controle, através dele você acha a relação do que precisa, eu classifiquei por cor, cada sobrenome a mais tem uma cor, mas isso você pega também, o mais difícil são as fichas de empregados, que ficam arquivados na outra sala, te passo depois que você aprender essa sala aqui.
É sempre assim tranquilo? Ou tem uns momentos de correria?
Bom, na maioria das vezes é calmo, mas como trabalhamos para uma empresa de terceirização, às vezes eles mandam um setor todo embora, e aí você imagina, um deles resolve pôr a empresa no pau e convence os outros, acaba um sendo testemunha do outro e entram com ação coletiva, aí é osso, tem que pegar documento de todo mundo, então imagina quinze ou vinte pastas de uma vez, e puxar todos os anos desses caras, mês a mês, então deve ser por isso que eles te mandaram aqui, devem ter perdido algum contrato e aí já viu, demissão em massa.
Nossa, eu não imaginava.
Esse ramo aqui tem suas particularidades, saber a história da demissão do funcionário é bem bacana, a gente pode ligar no RH e perguntar, sempre eles falam e a gente se diverte.
Mas como ver alguém perder o emprego pode ser engraçado?
Ah, a gente tem que ser neutro, veja por exemplo o caso da semana passada, do vigilante que pedia o crachá de identificação para a faxineira toda vez que ela tinha que passar por ele, ela começou a se irritar, e ele continuava a pedir o crachá, disse que aquilo era perseguição, mas o segurança continuava a pedir sempre o crachá, trinta vezes por dia se ela passasse por ali, numa discussão ela lhe prometeu vingança, um belo dia ele foi pegar seu uniforme no armário e estava todo picotado, não deu outra, ele foi até ela no meio do hospital e deu duas coronhadas na cabeça dela, então é justa causa pra ele, e a gente tem que separar tudo, tô com a foto dele aqui na minha mesa.
Nossa! Pensei mesmo que fosse só papel.
Tem sempre gente atrás do papel, meu jovem, se soubessem disso não havia morrido tanta gente no Holocausto, veja a foto do animal.
Cara de bravo.
Bravo com empregada, deve ser um cabra muito triste pra perder a vida assim.
Senhor Calixto, ele foi indiciado?
Senhor não, por favor só Calixto, e não, ele não foi indiciado, mas perdeu o trampo.
Calixto, e o Doutor Robson vem aqui?
Muito difícil, no começo ele até vinha, mas, depois que abriu várias filiais, não tem tempo pra nada.
Hamilton viu um crucifixo na parede e perguntou se Calixto era católico.
Calixto olhou para ele e não disse nada.

Ferréz, in Deus foi almoçar

26/09/2022

Capítulo 3 | A vida não é um ensaio

O minimercado estava vazio, os últimos atentados a pessoas que compravam SL (Sem Logo): alimentação fabricada pelo governo vigente, tinha feito os consumidores sumirem. Nem as recentes campanhas do governo conseguiram influenciar a população.
Pegou o item da prateleira e, antes de chegar no caixa, parou outra vez para ver alguns livros, muita coisa realmente tinha acabado, mas eles continuavam ali, firmes e fortes, foi escolhido por um, pagou com seu cartão regimental e foi para casa tentando ler enquanto andava: “Simples de usar e pronto em minutos”. Entretenimento de massas, o velho ciclo dos tabloides ingleses cheios de ilustrações feitas com xilografia que tratava de fofocas da época para um público analfabeto.
Em casa, antes de começar a preparar o líquido negro, pegou o manual de instruções.
Coloque a água no recipiente, aconselhamos não ultrapassar a válvula de segurança.” Hoje as poucas revistas que sobraram têm fotos gigantes, ninguém quer ler, as pessoas querem é passar, virar página. “Colocar o pó de café no funil e pressionar levemente, não recomendamos usos de outras substâncias que podem obstruir o orifício do filtro.” E depois de tempos surgiram os terríveis de um centavo, com seu baixo custo de qualidade editorial, em 1830. “Limpe em círculo o anel de borracha e lados de funil, pois qualquer partícula de café pode privar de fechar hermeticamente e deixar escapar o vapor.” Tinham oito páginas e eram vendidos pra um público operário. “Mantenha a cafeteira em posição vertical e gire ao contrário as duas partes, isto evitará de umedecer o café. A gravura mostra a melhor posição da mão.” A origem de Doc Savage foi popular na década de 1930 e ressurgiu na década de 1960 com uma série de reimpressões. “Leve a cafeteira ao fogo. Assim que você conferir que o líquido subiu totalmente para a parte superior, estará pronto seu delicioso café.” Enquanto o ocultismo se infiltrava pela cultura popular, o progresso na tecnologia de impressão criava novos tipos de entretenimento de massas. “Deve limpar a parte superior e o tubo para o qual o café sobe. Simples de usar e pronto em minutos.”
Calixto desligou o livro, fechou a cafeteira, jogou o manual de instruções fora e saiu para a rua. Foi confirmar se ainda existia o sol.
As coisas se mexiam, balançavam interminavelmente, foi quando percebeu seu cadarço desamarrado, ia se abaixar, mas as coisas a sua volta não paravam de balançar. Tudo se movimentava, o leve inclinar do queixo já lhe dava outra visão, o ato de andar era pela primeira vez percebido dessa forma, tudo ganhava outro ritmo.
Começou a reparar nos sacos de lixos em cada esquina, próximos aos postes. Postes que eram as árvores modernas rodeados por sacos de lixos, que podiam tomar o lugar das flores na nova paisagem, flores estas levemente beijadas por pássaros não orgânicos, feitos de folhas de jornais, que já serviram para vender apartamentos, escapamentos, mesas, fogões, verdades e candidaturas.
O homem criou a cidade, modelou seus jardins, fez da sua forma o tudo de novo, e também foi criado de outra forma por essa cidade.
Datas, dias, minutos e segundos, atrasos, interesses, ganhos e perdas, a vida era assim agora. Ele sorriu levemente, o homem é o único ser capaz de fazer uma armadilha para si mesmo.
Carros, apartamentos, pequenos bares, shoppings, tudo congestionado, tudo limitado, emparedado, fechado. A sensação de sair dessas coisas era indescritível, se tivesse uma pena por assalto ou homicídio, tanto fazia. Prisão ou shopping center? Não precisava olhar tudo para saber o que existia realmente, mas por mais que olhasse não saberia dizer o que era a verdade.
No olho a olho, os curiosos não passariam de três centímetros da primeira camada. O resto está protegido, muito bem guardado, controlado como sempre deveria ter sido.
O sorriso acabou, os lábios secos desabaram quando a mandíbula deixou a gravidade exercer sua força. Não era alegre, era triste, tudo muito triste, parecido com a fortaleza da solidão, onde até o homem mais forte do mundo procurava abrigo.
Quanto tempo tinha sido prisioneiro já não sabia mais, pagar apartamento, condomínio, IPVA, seguro, mensalidade da escola, ração do cachorro, trinta e cinco segundos para entrar na garagem do prédio, dois minutos para chegar o elevador, um mês de férias, de cinco a sete dias para o ciclo menstrual de Carol, janeiro é época de comprar material, julho é férias, dezembro, Natal, compromissos, compras, comprar compromissos.
Calixto decidiu entrar no ônibus, ia para o frio como se vai para um templo de almas perdidas.
As coisas se mexiam, ele sabia que ultimamente em sua vida estava tudo parado, mas quando andava as coisas se mexiam. As ruas inclinavam, os carros tremiam e as pessoas balançavam.
Sempre pensou no álcool e sempre conseguiu entender o jeito que se dá na realidade, tanto faz o tipo de escape, de bebidas ao famoso tarja preta, a solução era só uma, quem sair por último apague o sol.
Pensou em puxar a corda, talvez uma corda imaginária do lado esquerdo do seu corpo, na altura de sua cabeça.
Talvez até um pouco mais alta, assim subindo uns dez centímetros, para que seu braço alcançasse, uma corda que disparasse um sinal, o motorista diria: “alguém vai descer?” E ele responderia que sim.
Talvez estivesse cansado dessa vida, talvez descesse: era isso.
Ele responderia: “Motorista, pare a vida que eu quero descer do mundo!”.
Não percebeu quem entrou no ônibus, via as outras pessoas como vultos. Nunca as olhava diretamente, talvez isso fosse um erro numa cidade grande, já que aquele vulto chegou à sua frente e anunciou o assalto.
Nunca passei por isso antes.
Olhava agora para a ponta do revólver.
Os passageiros se sacudiam mesmo com o ônibus parado, o homem mirava ora em um, ora em outro, para tentar manter o controle.
O cobrador já estava abrindo a caixa de dinheiro e pegando as notas menores para tentar enganar o ladrão, que olhava agora para todos os passageiros, tentando achar algum com o corte reco ou de camisa social solta na parte da cintura. Esses eram os sinais de um policial à paisana.
Não achou, sorte dos passageiros. O cobrador agora passava o dinheiro para o ladrão, que demonstrava tranquilidade até que Calixto se levantou, a arma foi mirada para sua cabeça e ele levantou as mãos.
Não atire, por favor!
Então senta logo, tiozinho, que porra, gritou o assaltante.
Mas eu quero te pedir uma coisa e... Antes de terminar a frase o assaltante chegou mais a frente e gritou cuspindo.
Ninguém vai descer dessa porra!
Todos os passageiros tinham vontade de sair correndo e, com aquela ação de Calixto, ficaram mais agitados ainda, mas, vendo que ele não sentava, o assaltante perguntou o que ele queria.
Calixto deu um passo para frente e abaixou as mãos vagarosamente.
Eu queria que você me desse um tiro.
O assaltante não entendeu. Ninguém entendeu. Nem o rapaz sentado ao lado de Calixto, que estava muito mais próximo, entendeu.
A verdade era que todos escutaram, mas não quiseram acreditar.
Você quer o quê?
Poxa! Eu sei que é meio embaraçoso, mas eu queria que você me desse um tiro, pode ser só um, aqui bem no peito.
Calixto levantou a mão esquerda na altura do peito e apontou para onde achava estar seu coração.
Você é maluco, caralho? Senta logo aí nessa porra, seu engraçadinho.
Não!
Calixto tenta argumentar, com as mãos agora para frente.
O senhor não entendeu, eu tenho cinquenta dinheiros na carteira, eu pago pela bala.
O assaltante voltou a olhar para todo mundo, no rosto de cada passageiro a mesma expressão de curiosidade, aonde será que aquele velho queria chegar com isso? Talvez ganhar tempo? Foi quando o assaltante olhou para o cobrador, e este balançou os ombros querendo dizer: eu num conheço esse maluco nem imagino o que ele quer com isso, e o assaltante já com o dinheiro das passagens no bolso falou que ia descer e que todos ficassem calmos.
Calixto lhe dirigiu a palavra mais uma vez e insistiu.
Mas senhor, com todo respeito, me dá um tiro, pode ser só um, é minha chance, nada é por acaso, o senhor tem que me balear, um tiro poderia resolver tudo.
O assaltante, antes de descer, olhou com piedade para Calixto e falou:
Tenho meus problemas, velho. Resolve o seu.
O ônibus ficou parado por mais cinco minutos depois que o assaltante desceu, e ninguém quando saiu falou com Calixto, que permaneceu sentado com cara de quem perdeu algo valioso, algo que nunca poderá recuperar novamente.
Eu perdi algo nesse dia, não sei bem o que, mas sinto isso muito forte, vou caminhando agora para casa, minha fuga, meu espaço.
Logo que viro a esquina a passos lentos, vejo ela dando ração para uma cadela, ela chama o animal com carinho, Samira, Samira.

Ferréz, in Deus foi almoçar

10/09/2022

Capítulo 1 | Aprenda com o abandono

É dia, alguém leva outra pessoa para juntos não chegarem.
Alguém leva toda a culpa para outro inocentar.
Alguém descobre que tudo que tem é nada.
É dia, alguém atravessa uma linha tênue.
Estou sozinho agora, em algum lugar minha pequena dorme, e finalmente estou sozinho agora.
Meu nome não é o mesmo, e nem foi antes, mas eu tenho alguns motivos para não querer ser chamado.
Cruza a sala, ao banheiro ele chega.
Mais atenção às coisas que geralmente já viraram rotina.
Barbear.
Em algum lugar uma letra de amor é escrita, e uma poesia é rasgada.
Em alguma casa, um pequeno espelho reflete um nariz que podia ser mudado.
A descarga foi dada; a porta, fechada; o zíper, puxado; o chinelo, recolocado; o botão, abotoado; a descarga, terminada; o ralo, lotado; o rosto, parado; o calor, acumulado no assoalho; a vida, passada; o futuro, usado.
Saiu.
A estrada, o caminho, as luzes, tudo à sua volta era algo pintado, uma cidade cenográfica.
Quando saio para caminhar, sempre nos primeiros minutos recrio tudo à minha volta, e não sou eu mais o que já fui, e não sou eu mais o que todos querem que seja. Em alguns minutos, nos primeiros passos, eu sou simplesmente alguém andando, usufruindo do grande nada.
Como nada daquilo parecia real, era prisioneiro de um pretenso e não conseguido conforto.
Lembrou-se da época de férias, tentava sentir a liberdade. Na praia em um ano, no sítio em outro, longe da casa, do conforto que seu pai passou a vida toda construindo.
Agora era só um corpo indo comprar SL em algum dos 1.127 minimercados do governo espalhados pela cidade, depois voltaria cheio de caixas e comeria, comeria rápido para ir ao trabalho, arquivar, arquivar documentos que não podiam ficar ao tempo, tentava potencializar seu trabalho, achar alguma importância para que fizesse sentido ir lá todos os dias, na maioria das vezes não encontrava nenhum motivo, mas mesmo assim ele ia.
O ônibus demoraria uma eternidade para passar, não se arrependeu de ter ido a pé, mas ter que pegar ônibus para voltar o angustiava, queria mudar a rotina, sempre o mesmo farol, o mesmo posto de gasolina, ao menos no ônibus daria para ir lendo, claro que ele pensou que iria sentado, pensou errado.
Chegou no serviço com dez minutos de atraso, na porta do arquivo a secretária da central esperava para recolher alguns documentos, disse um leve bom-dia e abriu a porta, ela entrou e viu os documentos na mesa, perguntou se podia levar.
Calixto balançou a cabeça afirmativamente depois resolveu explicar.
Esperou muito? Acabei me atrasando um pouco.
Não, senhor, acabei de chegar, por falar em atraso, já lhe falaram, Senhor Calixto, que o Feng Shui ajuda na vida da pessoa?
Hã?
Que, por exemplo, ioga dá mais vivacidade?
Não.
O senhor é muito reservado, não que isso seja um defeito, mas, por exemplo, no seu caso, até uma religião como a Assembleia de Deus seria bom, tira dor, a solidão e até a amargura da pessoa.
Calixto olhou para ela, um olhar gelado, não entendia o que estava acontecendo, quem ela pensava que era, não sabia nada dele, nunca tinham trocado nem sequer três palavras durante esses anos todos, aquela era a conversa mais longa que já tinha tido com alguém em toda a empresa, continuou olhando e disse um obrigado forçado. Ela então disse de quais documentos precisava e o nome do segurança, o caso era insólito, segurança do hospital Pinel, João Luar Saxies ficava todo o tempo de serviço olhando os internos, quando num dia perdeu a razão, os amigos diziam que de tanto vigiar louco acabou se tornando um deles.
Calixto foi até a terceira prateleira, começou a procurar e a localizar os papéis, pegou um envelope e entregou para ela.
Ela tentou voltar ao assunto da religião, Calixto virou as costas e foi para a outra sala, quando voltou ela não estava mais lá.
Sentou junto à máquina de escrever, a mesa toda cheia de papéis, notas fiscais que deveriam ter sido preenchidas, ele pensa naquela estranha conversa, religião, de repente ele poderia ir a algum culto ou reza, pra ver se melhorava mesmo seu astral, na cidade do Valdomiro, ou numa das fazendas dos dissidentes, mas se eles tiram amargura, dor, solidão, o que restaria dentro dele?
Prepara-se para o relatório, põe três folhas de papel na máquina, ajeita entre elas duas folhas de papel-carbono.
Bate quinze teclas seguidas e na décima sexta erra, assusta-se, levanta, vai ao arquivo, tira algumas pastas, consulta o termo do antigo relatório, a mesma palavra que ele usava de seis em seis meses, mas que nunca lembrava, senta e começa a datilografar novamente.
Abre a gaveta, pega o líquido que faz ele ter nova chance, muda de ideia, abre a gaveta, de dentro retira uma borracha dura. Já pela metade, apaga o pequeno erro, repete nas duas cópias, dá uma soprada para afastar os inoportunos farelos da borracha.
Bate mais vinte e seis teclas, erra no acento, volta para a gaveta, faz a mesma merda novamente, retira a borracha, volta a borracha, assopra, morre aos poucos.
Anda pelos corredores e verifica as janelas, todas fechadas, tranca a casa, sai.
Resolveu descer dois pontos antes e continuar andando, para num pequeno bar e compra uma lata de cerveja, quando foi abrir, o anel da lata deu um pequeno beliscão em seu dedo. Bebia a cerveja, andava e dava uma chupada na ponta do dedo que estava ardendo.
A casa se aproximou, bateu a mão no bolso e enfiou, pegou na colher, deixou-a lá e foi para o outro bolso, retirou a chave, entrou e, tirando os sapatos, colocou a lata no braço do sofá.
Notou o canto da estante nesse dia, tentou se apegar a alguma coisa para não olhar novamente para o que podia ser o portal que sempre o atraía, mas ele não teria coragem de olhar, não naquele dia.
Começou a perceber os discos, olhar calmamente para as fitas de vídeo, via o excesso de coisas, tomou a decisão de não adquirir mais nada.
Sentimentos que se transformavam em produtos, tempos passados que refletiam alguma desculpa de lembrança.
Sabia que o entulho dentro da sua cabeça já o afetara muito durante a madrugada passada, não precisava começar a revirar tudo novamente.
Passaram-se alguns segundos, tudo voltou ao normal, pegou a foto na estante, limpou a poeira, estava da mesma forma, os poucos cabelos raspados, os óculos, o ralo cavanhaque sempre torto, a camiseta azul já desbotada, olhou para si, levantou o braço esquerdo e tocou no queixo, o mesmo cavanhaque, passou a mão pela cabeça, o mesmo corte, há quanto tempo ele era ele mesmo já não sabia.
Pensou em sair, mas já andara demais, estava na hora de ficar em casa, só assim não seria um transeunte passando rapidamente, esbarrando, incomodando, não seria a maquiagem da mulher vaidosa, o menino apontando e rindo de algo que ainda não entendia.
Prometeu não sair tão desprotegido, afinal eles acham sempre que sabem algo, mas a profundidade do que mostra só ele controla.
Não que isso funcione, afinal com a idade tinha certeza de que já tinha várias personalidades.
Quando passo em frente a uma casa de relaxamento, sou puto, quando ando em frente a uma igreja sou santo, faço o sinal da cruz, quando visito minha mãe deito no sofá, sou criança esperando o café com leite e o pão com manteiga esquentado de uma forma que só ela sabe fazer, quando vou na casa de algum amigo, se for do tempo da escola, até os apelidos da época são usados, se for à casa de vizinhos, as brincadeiras do bairro.
Não é por consideração que visitamos alguém, é por querer sentir algo que valha a pena.
Se a felicidade é um ponto de vista, Calixto estava cego.

Ferréz, in Deus foi almoçar