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09/03/2016

Velhos amigos


Eram dois amigos. Um mais velho, outro menos velho. Velhos amigos velhos é o que eram um do outro. O mais velho se dizia cansado. O menos velho era um eterno apaixonado. Pelo amor. Certo dia, o menos velho ficou conhecendo Ariane, razão de viver do mais velho. Logo o menos velho tirou o sossego de Ariane – tirou outras coisas também - e destruiu sua virtude. O mais velho passou a sentir uma angústia, assim, sem explicação. Ariane, uns enjoos que sabia muito bem explicar. E o mais velho, enjoou de Ariane, o que era previsível e de fácil explicação.
Paulo Ferreira, 65, securitário aposentado, de Brasília - DF, revisor de texto em atividade, escrevinhador das madrugadas por teimosia.

05/08/2015

Fumacinha do frio


Era inverno e o friozinho matinal dava preguiça de ir à escola. Toooooinnnnn! Tocou o sinal. Já ninguém estava, só o frio. A menina entrou correndo pelo pátio e subiu as escadas com os cachinhos balançando. Parou atrasada no lance da escada para ver da janela a névoa de algodão que pairava no jardim. Foi aí que aconteceu. Com a boca entreaberta soltou, por acaso, o ar da respiração. Para sua surpresa, saiu uma fumacinha branca da boca, mágica. Sob encanto, soltou um riso largo. Nunca mais se esqueceu disso.
Regina Fernandes, in ideiasehistorias.blogspot.com.br

23/02/2014

Ah, é? - 01

“Domingo inteiro em pijama, coça o umbigo. Diverte-se com os pequenos anúncios. Em sossego na poltrona, entende as borbulhas do gelo no copo de bebida. Uma velhice tranquila, regando suas malvas à janela, em manga de camisa. Única dúvida: ganhará o concurso de palavras cruzadas?”
Dalton Trevisan, in ministórias

22/01/2014

Um conto vazio


Pensava a mil por hora e por isso andava sempre cansada...
Achava ter a vida uma beleza exaustiva e alinhar os pensamentos dava-lhe muito trabalho.
Costumava costurá-los como uma colcha de retalhos, mas não suportava cobrir-se com ela.
Foi quando, em um dia estranhamente verde, um gato entrou por sua janela, e, ao puxar um fio, desfez toda a colcha que estava sobre a cômoda, emaranhou-se em linhas e desapareceu no horizonte.
E ela então, obtendo alguns instantes de pausa ao perder os pensamentos, encontrou-se em sua essência e sorriu sinceramente.
Ana Carolina Paegle tem 29 anos e mora em Barcelona

25/11/2013

Duelos


O bom e o mau no centro do vilarejo. Caminham para se encontrarem e decidirem o duelo. Poucos afoitos observam a cena. O mocinho está ensanguentado; o outro, o fazendeiro que domina a região, confiante e destemido. O silêncio é quebrado pelo vento, que traz sufocante poeira.
Mais que o destino em uma bala, o confronto emblemático simboliza os eternos embates humanos.
A imagem é nítida. Posso vê-los cada vez mais próximos. Decididos, andares firmes e olhares penetrantes, ambos. Mãos próximas aos colts. Mas o fazendeiro sacou primeiro e...
Clic.
- Bem, vou ver se começou a novela.
Outro duelo.
Elilson José Batista. Potiguar de Pau dos Ferros. Editor do blog Rapadura Cult. Especial para o Projeto Cem Palavras – Contos.