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04/04/2024

Para registro

As nuvens e as estrelas não promoveram esta guerra
os córregos não informaram nada
se a montanha vomitou pedras de fogo no rio
ela não estava escolhendo um lado
a chuva que fracamente balançava sob as folhas
não tinha opinião política

e se aqui ou ali uma casa
repleta de esgoto não tratado
ou que envenenou quem lá vivia
com lentas exalações, ao longo dos anos
as casas não estavam em guerra
nem estavam os prédios lacrados com estanho

buscando recusar abrigo
para velhas sem-teto e crianças de rua
eles não tinham qualquer política para mantê-las na rua
ou morrendo, não, as cidades não eram o problema
as pontes não eram guerrilheiras
as autoestradas queimaram, mas não com ódio

Até mesmo as milhas de arame farpado
esticadas em volta de humilhantes abrigos temporários
projetados para manter os indesejáveis
a uma distância segura, longe da vista
mesmo as tábuas que precisavam absorver
ano após ano, tantos sons humanos

tantos profundos vômitos, lágrimas
sangue lentamente encharcando
não se ofereceram para isso
As árvores não se voluntarizaram para ser cortadas em tábuas
nem os espinhos para rasgar a carne
Olhe em volta para tudo isso

e pergunte que assinaturas
estão estampadas nas ordens, e traçadas
no canto das plantas dos prédios
Pergunte onde estavam as mulheres analfabetas,
barrigudas, as bêbadas e loucas,
aquelas que você teme mais do que tudo:
pergunte onde você estava.

Adrienne Rich (tradução de André Caramuru Aubert)

06/03/2024

Delta

Se você pegou este entulho para o meu passado
revolvendo-o em busca de fragmentos para vender
saiba que eu há muito segui em frente
para dentro, para o coração da matéria

Se você pensa que pode me agarrar, pense melhor:
minha história flui em mais de uma direção
um delta do leito do rio se abrindo
com seus cinco dedos abertos.

Adrienne Rich (tradução de André Caramuru Aubert)

03/03/2024

Vigilância noturna

E agora, do lado de fora os muros
de rocha negra, sem ver.
Com que palidez, dormindo, você jaz.
Amor: meu amor é só um suspiro
soprado na vidraça e dissolvido.
Tudo, até mesmo você
clama silenciosamente por socorro, a teia
da aranha é rasgada pela chuva,
os gansos voam para dentro da nuvem negra.
O que eu posso fazer por você?
o que eu posso fazer por você?
Pode o toque de um dedo remendar
Aquilo que o toque de um dedo quebrou?
Olhos azuis agora, de cabelos amarelos,
eu permaneço em meu antigo pesadelo
ao lado dos trilhos, enquanto você,
e de novo e de novo e sempre você
se arrasta para os vagões da morte.
Algumas vezes você sorri para mim
e eu — eu sorrio de volta.
Quão doce o aroma das rosas do chefe da estação!
Quão puros, quão de pôsteres as cores deste sonho.

Adrienne Rich (tradução de André Caramuru Aubert)

21/02/2024

Paisagem perfeita

Nós precisávamos aceitar o mundo como ele era:
A babá sentada passiva no parque
Era raramente abordada por algum príncipe de mentira.
As manhãs pareciam iguais e imutáveis
Nas salas da individualidade nas quais acordávamos e ficávamos
Observando hoje se desdobrar como ontem.

Nossos amigos não eram beldades do outro mundo,
Nem sabiam seduzir com palavras; nossos amantes falharam
Agora e sempre quando o que mais buscamos é a perfeição,
Ou nos esconder no armário, quando os céus trovejavam.
A humanidade surgia para nos assombrar em todos os lugares,
Crua, defeituosa e exigindo mais do que podíamos dar.

E o tempo estava sempre em disparada como um bonde
Pelas ruas de uma cidade estrangeira, cidades que vimos
Se abrindo em grandes e ensolaradas praças
Nós não encontraríamos novamente, nenhum mapa poderia mostrar —
Jamais aquelas fontes jorraram sob aquela mesma luz,
Aquelas árvores douradas, aquelas estátuas verdes e brancas.

Adrienne Rich (tradução de André Caramuru Aubert)

13/02/2024

Atrás do motel

Um homem está debaixo de um carro seminu
uma criança brinca de tourada com um pano rasgado
pinheiros enlutados envoltos na névoa
uma mulher fala ao telefone, olha no espelho
brincando com o puxador metálico da gaveta

Ela viu o seu mundo esfregado e limpo, o pano
que o limpou desintegrado na névoa
ou dando o último suspiro na crosta de um espelho
Ela viu sua vida se fechar como uma gaveta
acordou em algum outro lugar, nua

Ele sente sua pele como se ela estivesse na névoa
como se seu rosto se mostrasse em espelho algum
Ele precisa dos parafusos que largou numa gaveta perdida
rasteja para dentro do mundo dos pinheiros com suas mãos
apenas, esfrega sua chave-inglesa com um pano encharcado de óleo

encara a mulher falando no espelho
a qual trancou o telefone na gaveta
enquanto de novo e de novo, com um pano rasgado
na beira do pinheiral atrás do motel depauperado
uma criança provoca a besta chifruda feita de névoa.

Adrienne Rich (tradução de André Caramuru Aubert) 

24/01/2024

Esta noite nenhuma poesia servirá

Te vi andando descalça
dando uma longa olhada
para as pálpebras da lua nova

depois esparramada
dormindo pesado, nua em seus cabelos negros
dormindo mas não ignorante
dos que não dormiram não dormem
por aí

Hoje eu penso
nenhuma poesia
servirá

Sintaxe da rendição:

verbo pilota o avião
advérbio modifica a ação

verbo alimenta o substantivo à força
submerge o sujeito
substantivo sufocando
verbo desgraçado segue fazendo

agora diagrame a frase.

Adrienne Rich (Tradução: André Caramuru Aubert)