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19/05/2026

Um ser livre

Não me lembro bem se é em Les données immédiates de la conscience que Bergson fala do grande artista que seria aquele que tivesse, não só um, mas todos os sentidos libertos do utilitarismo. O pintor tem mais ou menos liberto o sentido da visão, o músico o sentido da audição.
Mas aquele que estivesse completamente livre de soluções convencionais e utilitárias veria o mundo, ou melhor, teria o mundo de um modo como jamais artista nenhum o teve. Quer dizer, totalmente e na sua verdadeira realidade.
Isso poderia levantar uma hipótese. Suponhamos que se pudesse educar uma criança tomando como base a determinação de conservar-lhe os sentidos alertas e puros. Que se não lhe dessem dados, mas que os seus dados fossem apenas os imediatos. Que ela não se habituasse. Suponhamos ainda que, com o fim de mantê-la em campo sensato que lhe servisse de denominador comum com os outros homens, lhe permitisse certa estabilidade indispensável para viver, lhe dessem umas poucas noções utilitárias; mas utilitárias para serem utilitárias, comida para ser comida, bebida para ser bebida. E no resto a conservassem livre. Suponhamos então que essa criança se tornasse artista e fosse artista.
O primeiro problema surge: seria ela artista pelo simples fato dessa educação? É de crer que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.
Essa criança seria artista do momento em que descobrisse que há um símbolo utilitário na coisa pura que nos é dada. Ela faria, no entanto, arte se seguisse o caminho inverso ao dos artistas que não passam por essa impossível educação: ela unificaria as coisas do mundo não pelo seu lado de maravilhosa gratuidade mas pelo seu lado de utilidade maravilhosa. Ela se libertaria. Se pintasse, é provável que chegasse à seguinte fórmula explicativa da natureza: pintaria um homem comendo o céu. Nós, os utilitários, ainda conseguimos manter o céu fora de nosso alcance. Apesar de Chagall. É uma das poucas coisas das quais ainda não servimos. Essa criança, tornada homem-artista, teria pois os mesmos problemas fundamentais de alquimia.
Mas se homem, esse único, não fosse artista — não sentisse a necessidade de transformar as coisas para lhes dar uma realidade maior — não sentisse enfim necessidade de arte, então quando ele falasse nos espantaria. Ele diria as coisas com a pureza de quem viu que o rei está nu. Nós o consultaríamos como cegos e surdos que querem ver e ouvir. Teríamos um profeta não do futuro, mas do presente. Não teríamos um artista. Teríamos um inocente. E arte, imagino, não é inocência, é tornar-se inocente.
Talvez seja por isso que as exposições de desenhos de crianças, por mais belas, não são propriamente exposições de arte. E é por isso que se as crianças pintam como Picasso; talvez seja mais justo louvar Picasso que as crianças. A criança é inocente. Picasso tornou-se inocente.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

07/05/2025

Pierrô

(A um Pierrô de Picasso)

Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto.

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
…………………………….…
Solidão tem um rosto de antro.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

28/09/2021

Éluard, O Magnífico

Grafite de Paul Eluard (1936), de Pablo Picasso

Meu camarada Paul Éluard morreu faz pouco tempo. Era tão íntegro, tão denso, que me custou dor e trabalho acostumar com seu desaparecimento. Era um normando azul e rosa, de aspecto grave e delicado. A guerra de 14, na qual foi vítima de gases duas vezes, deixou-o para sempre de mãos trêmulas. Mas Éluard me deu em todos os momentos a ideia da cor celeste, de uma água profunda, de uma doçura que conhecia a força. Sua poesia tão pura, transparente como as gotas de uma chuva de primavera contra os cristais, fazia com que Paul Éluard parecesse um homem apolítico, um poeta contra a política. Não era assim. Sentia-se fortemente ligado ao povo da França, à sua causa e à sua luta.
Paul Éluard era firme, uma espécie de torre francesa, com essa lucidez apaixonada que não é o mesmo que a estupidez apaixonada tao comum.
Pela primeira vez, no México, para onde viajamos juntos, vi-o à beira de um abismo escuro, ele que sempre – com uma sábia perseverança – rejeitou a tristeza.
Estava abatido. Eu tinha convencido e arrastado este francês central para essas terras distantes e ali, no mesmo dia em que enterramos José Clemente Orozco, caí doente com uma perigosa tromboflebite que me manteve quatro meses preso à cama. Paul Éluard sentiu-se solitário, sombriamente solitário, com o desamparo do explorador cego. Não conhecia ninguém, as portas não se abriam para ele. A viuvez o acometeu e se sentia ali sozinho e sem amor. Dizia-me: “Precisamos ver a vida com companhia, participar em todos os fragmentos da vida. É irreal e criminosa a minha solidão.”
Chamei meus amigos e o obrigamos a sair. De má vontade o levaram a percorrer os caminhos do México e em um desses recantos se encontrou com o amor, com seu último amor: Dominique.

É muito difícil para mim escrever sobre Paul Éluard. Continuarei vendo-o vivo junto de mim, acesa em seus olhos a elétrica profundidade azul que olhava tão amplamente e de tão longe.
Saía do solo francês em que lauréis e raízes entretecem suas flagrantes heranças. Sua grandeza era feita de água e pedra e para ela subiam antigas trepadeiras, portadoras de flor e fulgor, de ninhos e cantos transparentes.
Transparência – é esta a palavra. Sua poesia era cristal de pedra, água imobilizada em sua corrente cantante.
Poeta do amor mais alto, fogueira pura do meio-dia, nos dias desastrosos da França deu o coração para sua pátria – e dele saiu o fogo decisivo para as batalhas.
Assim chegou às fileiras do partido comunista. Para Éluard, ser um comunista era confirmar com sua poesia e sua vida os valores da humanidade e do humanismo.
Não se pense que Éluard foi menos político que poeta. Muitas vezes me assombrava sua clara visão e sua formidável razão dialética. Juntos examinamos muitas coisas, homens e problemas de nosso tempo, e sua lucidez me foi útil para sempre.
Não se perdeu no irracionalismo surrealista porque não foi um imitador mas sim um criador e, como tal, descarregou sobre o cadáver do surrealismo disparos de claridade e inteligência.
Foi meu amigo de todo dia e perco sua ternura que era parte de meu pão. Ninguém me poderá dar agora o que ele levou consigo porque sua fraternidade ativa era um dos mais preciosos luxos de minha vida.
Torre da França, irmão! Inclino-me sobre teus olhos cerrados que continuarão me dando a luz e a grandeza, a simplicidade e a retidão, a bondade e a simplicidade que implantaste sobre a terra.

Pablo Neruda, in Confesso que vivi

18/11/2017

O artista: um ser político

O que vocês pensam que um artista é? Um imbecil que só tem olhos, se é um pintor, ou ouvidos se é um músico, ou uma lira em cada câmara do seu coração, se é um poeta, ou mesmo, se ele é um pugilista, apenas os seus músculos? Longe disso: ao mesmo tempo, ele também é um ser político, constantemente ciente das coisas que quebram o coração, apaixonado, pelas coisas deliciosas que acontecem no mundo, moldando-se completamente à sua imagem. Como poderia ser possível não sentir nenhum interesse nas outras pessoas, e com uma fria indiferença para separar-se da própria vida que eles trazem para ele tão abundantemente? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra.
Pablo Picasso

02/08/2016

Memórias inventadas - IV

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Mulher chorando (1937), de Pablo Picasso 

Tentei montar com aquele meu amigo que tem um olhar
descomparado, uma Oficina de Desregular a Natureza.
Mas faltou dinheiro na hora para a gente alugar um
espaço. Ele propôs que montássemos por primeiro a
Oficina em alguma gruta. Por toda parte existia gruta,
ele disse. E por de logo achamos uma na beira da
estrada. Ponho por caso que até foi sorte nossa. Pois
que debaixo da gruta passava um rio. O que de melhor
houvesse para uma Oficina de Desregular Natureza!
Por de logo fizemos o primeiro trabalho. Era o
Besouro de olhar ajoelhado. Botaríamos esse Besouro
no canto mais nobre da gruta. Mas a gruta não tinha
canto mais nobre. Logo apareceu um lírio pensativo
de sol. De seguida o mesmo lírio pensativo de chão.
Pensamos que sendo o lírio um bem da natureza
prezado por Cristo resolvemos dar o nome ao trabalho
de Lírio pensativo de Deus. Ficou sendo. Logo fizemos
a Borboleta beata. E depois fizemos Uma ideia
de roupa rasgada de bunda. E A fivela de prender silêncios.
Depois elaboramos A canção para a lata defunta.
E ainda a seguir: O parafuso de veludo, O prego
que farfalha, O alicate cremoso. E por último aproveitamos
para imitar Picasso com A moça com o olho no centro
da testa. Picasso desregulava a natureza, tentamos
imitá-lo. Modéstia à parte.
Manoel de Barros

18/06/2015

O sonho

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O Sonho (1932), de Pablo Picasso

Não se sabe ao certo o que é o sonho, se bem que muita gente tenha tentado defini-lo. Explicação erudita, ou pura demonstração de poesia, a verdade é que ele escapa a todas as definições.
E convenhamos, sua qualidade específica é exatamente a de ser indefinível.
O sonho, diria um místico, é a tentativa de Deus para corrigir a imagem do mundo, impondo-a transitoriamente aos nossos sentidos. Sim, está certo, mas muitas vezes esta imagem é a de um mundo que bem pode ser o de Deus, mas é sinistro e até mesmo da cabeça para baixo.
Já o louco ousaria pensar: o sonho é a verdade expulsa pelos homens. É a ordem, impondo sua lei nesse instante de desordem, que é o sono.
O poeta diria simplesmente – o sonho é a ordem.
Lúcio Cardoso, in Diário não íntimo

03/11/2014

Inspiração


“Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando.”
Pablo Picasso

22/10/2013

Breve consideração à margem do ano assassino de 1973

Que Ano mais sem critério
Esse de setenta e três...
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso. 
Três Pablos que se empenharam
Contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.
Três publicíssimos Pablos
Casals, Picasso, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu...
Ô ano triste e sem sorte:
-VÁ PRA PUTA QUE O PARIU!
Vinicius de Moraes

19/08/2011

Dia Mundial da Fotografia: no dia 19 de agosto de 1839, foi anunciada e apresentada ao mundo a fotografia, desenvolvida pelo francês Louis M. Daguérre

Photo: Storm clouds over a bay
Nuvens de tempestade, Baía de Nushagak. Foto: National Geographic

''Quando vemos o que pode ser expresso pela foto, nos damos conta de que tudo aquilo não pode mais ser preocupação da pintura... Por que o artista insistiria em realizar aquilo que, com a ajuda da objetiva, pode ser tão bem feito? Seria uma loucura, não? A fotografia chegou na hora certa para liberar a pintura de qualquer literatura, anedota e arte do tema. Em todo caso, um certo aspecto do tema pertence, daqui por diante, ao campo da fotografia... Não deveriam os pintores aproveitar sua liberdade reconquistada para fazer outra coisa? Seria muito curioso fixar fotograficamente, não as etapas de um quadro, mas suas metamorfoses. Talvez percebêssemos por quais caminhos o cérebro envereda para a concretização de seus sonhos. Entretanto, é realmente muito curioso observar que, no fundo, o quadro não muda, que a visão inicial permanece quase intacta, apesar das aparências. Muitas vezes vejo uma luz e uma sombra que pus no meu quadro e empenho-me em quebrá-las, acrescentando uma cor que crie um efeito contrário. Quando essa obra é fotografada, percebo que aquilo que havia introduzido para corrigir minha primeira visão desaparece, e que, definitivamente, a imagem dada pela fotografia corresponde a minha primeira visão, antes das transformações trazidas contra minha vontade.''
Pablo Picasso

12/08/2011

03/08/2011

"A qualidade de um pintor depende da quantidade de passado que traz consigo."
Pablo Picasso

28/07/2011