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12/07/2016

Decoro

Eu não pertenço ao reino da vontade,
Nem tenho a ilusão de frequentá-lo,
Mas, mesmo sujeito à necessidade,
Não me conforta a estirpe de vassalo.

Não detenho a pejada liberdade,
Para rogar ao rei o nobre halo,
E como seguidor da hombridade,
Não ponho a honra a troco de regalo.

Que a conquista daquilo que anseio,
Não seja à custa do suor alheio,
Tampouco resultado de injustiça.

Que a virtude me seja um benefício,
Pois que não há ao homem maior vício,
Que a traição em nome da cobiça.
Zenóbio Oliveira

21/01/2016

Invernada no sertão

O sertanejo amola a enxada,
Bate estaca na cerca, troca arame,
Faz o broque da malva e do velame,
Ara as terras da serra e da baixada,
Quando a nuvem destampa a invernada,
Corta a terra, abre cova, põe o grão,
E espera, do céu, a redenção,
E da terra, a fartura pro seu lar,
O inverno chegou para animar
O caboclo sofrido do sertão.

Em mil regos água se derrama,
Rebentando nas pedras do serrote,
Bezerro pelo prado dá pinote,
Galinha cacareja, cisca a grama,
Marmeleiro ligeiro pega rama,
Passarada entoa uma canção,
Mané Besta na ponta dum mourão,
Faz firula por não saber cantar,
O inverno chegou para animar,
O caboclo sofrido do sertão.

Papa-sebo bicora uma saúva,
Berra um bode ao longe, a vaca muge,
A ovelha se farta na babuge,
Abrem flores nas “Toucas de Viúva,”
Natureza celebra quando a chuva,
Se despenca do céu e cai no chão,
Cada vivo renasce numa ação,
Que o milagre da chuva fez brotar,
O inverno chegou para animar,
O caboclo sofrido do sertão.
Zenóbio Oliveira

07/12/2015

Eita bixiga taboca, isso só tem no sertão

Xarope de Malvarisco,
Pra curar tosse puxada,
Um rosário na portada,
Pra proteger de corisco,
Um cordão de São Francisco,
Pra frear assombração,
Catuaba com limão,
Pra animar velho coroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um pirão de Sabaru,
Na hora da gororoba,
Café de Mangirioba,
Com o mel do Capuxu,
Melador de Cumaru,
Pra curar constipação,
Uma piraca a carvão,
Pra espantar muriçoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Uma tigela de fuba,
Peneirada em urupemba,
Um cavalo de catemba,
De talo de carnaúba,
Reza braba que derruba,
Mau-olhado e maldição,
Duas moças num pilão,
Caçulando uma paçoca
Eita bixiga taboca
Isso só tem no sertão.

O povo escutando um jogo,
Num rádio antigo da SEMP,
Um bule em riba da trempe,
Com café pegando fogo,
Uma galinha com gogo,
Babando que só o cão,
Um galo ciscando o chão,
Doido pra achar minhoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Tarrafa malha miúda,
Pra pesca de sabaru,
Banha de tejuaçu,
Pra dor de garganta aguda,
O chá da folha de arruda,
Pra descer menstruação,
Ninho de palha no chão,
Pra deitar galinha choca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um baú na camarinha,
E um monte de troço dentro,
Uma horta de coentro,
No terreiro da cozinha,
Um poleiro de galinha,
Nos dois ganchos dum pinhão,
E o roçado de feijão,
Precisando duma broca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Quixó, fojo, landuá,
Arataca e arapuca,
Tocaia, facho, cumbuca,
Mundé de pegar preá,
Anzol, rede de pescar,
Negaça, sangra, alçapão,
Garrucha, funda, facão,
E espingarda de soca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Batata de macambira,
Pra fazer ração bovina,
Uma cerca de faxina,
Amarrada com embira,
Cortiço de Jandaíra,
Pendurado no oitão,
Um pinto na plantação,
Pinicando tamboroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.
Zenóbio Oliveira

12/05/2015

Carne de veado

Luiz Campos

O poeta e violeiro mossoroense Luiz Campos pediu a um caçador amigo, um quilo de carne de veado e recebeu a negativa do mesmo, que justificou o não com a história de que já havia prometido tudo a um outro amigo, empresário.
Passados alguns dias, Luiz cantava num bar, na Lagoa do Mato, quando o homem, o dito caçador o interpelou pedindo um mote. Luiz então aproveitou a ocasião e cantou:

Nada dou de valor ao caçador,
Que de amizade leal não tem um tico,
Só bajula um sujeito quando é rico,
E esquece o poeta cantador,
Pois matou um veado corredor,
E um quilo da carne não me deu,
Quando acaba diz que é amigo meu,
Mas é corno, é sacana e é safado,
É veado que mata outro veado,
e vai dar prum veado amigo seu.

Fonte: zenobiooliveirablogspot.com.br

05/11/2013

Quem dera

Quem dera fosse o amor a coisa prática,
Sob o pleno exercício do domínio,
Sujeito aos mandos do raciocínio,
À luz da lógica axiomática.

Fosse, quem dera, a coisa carismática,
Sentença proferida em vaticínio,
A predestinação de um fascínio,
Calculada ao rigor da matemática.

Se fosse o amor a lei dos agnósticos,
Ou a causa fiel dos prognósticos,
Das prenunciações d’algum profeta,

Estaria no livro dos sensatos,
Nas preces comoventes dos beatos,
E não pungindo a alma do poeta.
Zenóbio Oliveira

24/12/2012

Noel num vem

Im todo ano é igual
Se aprochegando o Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do céu
E arrisca é dele num vim.

Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de brinquedo
Só se vê mermo im retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os dedo.

Me diga, o caba que veve
Nas frialdade das neve
No mei daquelas lonjura
Que diabo vem vê pra cá?
Só se for pa esturricar
No oco dessa quentura.

Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no sertão
Pra cumer preá cum fava?

Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num pissui
Se nas estrada da roça
As vez inté as carroça
Se ingancha nos pidrigúi!?

Inda duvido tombem
Que os animá que ele tem
Nesses camim lhe carregue
No mei desses carrapicho
Só sendo que aqueles bicho
Vai ter os casco dum jegue.

O natal de nossas banda
Num tem os carrim que anda
Nem robô que conta estora
Num tem trenzim que apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e chora.

Nós tem buneca de trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.

Nós tem buneco de barro
Tem as nota de cigarro
E os cachorro de areia
Tudo coisa de arremedo
Foi num foi se esfola um dedo
Chutando bola de meia.

Vamo dexar de ilusão
Que o véi da televisão
Cum baiba branca na cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.

Não vá pensar que é quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem fuxica
Mais eu lhe digo: se aquete
Que esse veim da charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio Oliveira, poeta mossoroense

15/11/2012

Noel num vem

In todo ano é igual
Se aprochegando o Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do céu
E arrisca é dele num vim.

Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de brinquedo
Só se vê mermo im retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os dedo.

Me diga, o caba que veve
Nas frialdade das neve
No mei daquelas lonjura
Que diabo vem vê pra cá?
Só se for pa esturricar
No oco dessa quentura.

Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no sertão
Pra cumer preá cum fava?

Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num pissui
Se nas estrada da roça
As vez inté as carroça
Se ingancha nos pidrigúi!?

Inda duvido tombem
Que os animá que ele tem
Nesses camim lhe carregue
No mei desses carrapicho
Só sendo que aqueles bicho
Vai ter os casco dum jegue.

O natal de nossas banda
Num tem os carrim que anda
Nem robô que conta estora
Num tem trenzim que apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e chora.

Nós tem buneca de trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.

Nós tem buneco de barro
Tem as nota de cigarro
E os cachorro de areia
Tudo coisa de arremedo
Foi num foi se esfola um dedo
Chutando bola de meia.

Vamo dexar de ilusão
Que o véi da televisão
Cum baiba branca na cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.

Não vá pensar que é quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem fuxica
Mais eu lhe digo: se aquete
Que esse veim da charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio de Oliveira

14/04/2012

Menina de Ouro

A saleta da casa lotérica estava empanzinada com tanta gente. Era preciso perguntar mais de uma vez para descobrir onde era o rabo da fila, que serpenteava numa aglomeração atrapalhada. Duas atendentes pra dar conta desse povo e mais uma para os clientes preferenciais, que formavam uma fila menor, composta por idosos, grávidas, mulheres com crianças de colo, portadores de deficiência e, claro, alguns amigos da moça do guichê.
Na fila comum se contava, assim por cima, umas quarenta pessoas, na outra, umas dez.
Tem de tudo numa fila: tem a senhora que difama a falta de estrutura do lugar; tem sempre alguém lembrando a lei dos trinta minutos como prerrogativa popular; tem o amigo da pessoa da vez, com um carnê na mão, pedindo um favorzinho de última hora e tem aquele cara que, de quando em quando, tenta lhe confundir sobre qual seja seu verdadeiro lugar. Nesse dia um cidadão chegou a ganhar três posições e só não conseguiu a minha, porque na hora virei cavalo do cão e tive a solidariedade do rapaz a minha frente. Vade retro...
O que mais chamou a atenção, porem, foi uma mocinha de uns vinte e poucos anos que adentrou o recinto e foi direto para a fila preferencial, atraindo para si todos os olhares desconfiados. Nada lhe justificava a atitude. Jovem, aparência sã e um corpo de fazer inveja a juventude de Elizabeth Savala.
Sob olhadelas e buchichos, serena e altiva, não se descompôs e cinco minutos mais tarde estava na boca da cabina. Virou-se para a porta e acenou para outra mocinha que lhe entregou uma criança de uns quatro anos mais ou menos. Ela escanchou a menina no quadril e, com a ajuda da amiga retirou de um saco um punhado de papéis de água, luz e outras contas indistintas. Pagou, pôs a garotinha no chão e saiu olhando de canto para os bestas que estavam naquela formação pandemônica há mais de uma hora.
Vendo toda a facilidade e rapidez no atendimento àquela jovem que usou o jeitinho para obter uma espécie de permissão especial da lei, não contive o entusiasmo e gritei: Moça, me empreste a menina!
Zenóbio Oliveira, escritor e radialista mossoroense

02/02/2012

Destino


De posse do meu sonho alcandorado,
Vestido pelas cores da aurora,
Lancei-me menino pela vida afora,
Viçoso, tenro, crente, esperançado.

A vida sujeitou-me ao triste fado,
Ao duro dissabor, sorte caipora...
Sem glórias, nem paixões carrego agora,
Um fardo de angústias do passado.

Pela estrada que caminho a esmo,
Eu procuro, disperso de mim mesmo,
Os restos do meu sonho de outrora,

Mas, até a saudade do que fui,
Num mar de sofrimento se dilui
Num vento de incerteza se evapora.

Zenóbio Oliveira, poeta e radialista mossoroense

25/01/2012

O menino que comia pastel

A padaria burburinhava. O balconista tentava a todo custo ordenar os pedidos da clientela afobada. Do lado de fora, um garoto andrajoso, comia um pastel, sentado no batente abrasado da porta, totalmente apartado daquela situação aborrecida. A absorção do olhar espichado no acepipe denunciava a esfomeação de um jejum prolongado. Fome é bicho desgraçado. Deixa o sujeito ensimesmado diante do alimento que devora. O menino tentava, simplesmente, matar quem lhe matava. Certo que aquele bocado não representava uma refeição adequada para o sustento de um dia inteiro, mas era sua tábua de salvação no momento, o que já justificava o ato de voracidade.
Diante da cena, pus-me a imaginar os desperdícios das comilanças nos salões abastados. O filme da lembrança se misturava à realidade presencial dos meus olhos, numa exposição patética da desigualdade humana. Repugnei de pronto todo àquele discurso hipócrita que alardeia a cidadania. Perante situações desse tipo, nota-se que essa história de que a criança é o futuro não passa de jargão elitista de um país sem futuro.
Toda essa conversa de garantias estatutárias dos direitos infantis serve tão somente para preencher os espaços das estantes palacianas.  As crianças famintas, drogadas e prostituídas que enchem nossas ruas, são a verdade cruel de um hoje que pode não avistar o amanhã.
O menino acabou o petisco e a expressão do rosto pedinchão denotava seu estado de insaciabilidade. Ofereci-lhe então mais alguns pastéis. Ele enfiou-os pelos bolsos, manchando de óleo a bermuda já surrada. Perguntei se não iria comê-los. Disse que mais tarde, quando se juntasse às suas duas irmãs. Caminhou pela calçada, parou mais adiante, virou-se, agradeceu e seguiu rua acima até sumir na curteza da minha visão.

Zenóbio Oliveira, poeta, escritor e radialista mossoroense

14/01/2012

A rotina da vida sertaneja

Em cada mão se arrebenta um calo
E o suor espesso pelo seu corpo escorre
Um sangue fervente em cada veia corre
E um sol de fogo, ardente, a castigá-lo.

Quando vestido em sombra o dia morre
As mãos dolentes a Deus pedem regalo
O corpo alquebrado pede abalo
E o estômago vazio pede porre.

E na tipóia, o sertanejo, em noite insone,
Espera que o vigor não lhe abandone,
Pois o amanhã lhe trará mesma peleja,

De enxada, terra seca e luta apenas,
Vai vivendo assim, a duras penas,
A rotina da vida sertaneja.

Zenóbio Oliveira, poeta e radialista mossoroense

22/12/2011

Contradições

Disseram-me um dia que o amor
Seria a causa dos meus sacrifícios,
Das renúncias que me causam dor
E das entregas que se tornam vícios.

Disseram-me, também, que os meus suplícios
São meus caminhos pra o jardim em flor
E que são todos os meus benefícios
As consequências do meu dissabor.

Mas não pude seguir esses caminhos,
Simplesmente por não poder acreditar
Que é preciso andar sobre espinhos

Para ao jardim em flor poder chegar.
E sem renúncias meus atos são mesquinhos,
Talvez porque nunca aprendi a amar.

Zenóbio Oliveira, poeta e radialista mossoroense

29/11/2011

Inédito, no Rapadura Cult*

Arquivo Morto


Meu coração é um livro de memórias,
Um calhamaço de amores vagos,
Composto de capítulos aziagos,
De esperanças frustradas e inglórias.

Um caderno de páginas irrisórias,
Em que o destino, de poucos afagos,
Escreve, inexorável, os estragos,
Causados por paixões contraditórias. 

Uma obra que guarda em seus volumes,
Fascículos de mágoas e ciúmes,
Tomos de desgosto e de despeito, 

Um romance de dores e ressábios,
Esquecido em velhos alfarrábios,
Nos baús antigos do meu peito.

Zenóbio Oliveira, escritor e radialista mossoroense. 

02/11/2011

Brazilian language

Depois do stress da semana resolvi que estava precisando de um happy hour, então fui ao Shopping, ao Mossoró West Shopping.
Saí bem cedo para evitar o rush.
No Box de entrada uma voz me orientou a retirada do tiket de acesso. Estacionei, entrei para o hall e fui à praça de alimentação comer um Sandwich. O garçon me trouxe o menu. Pedi um cheeseburger com coca-cola. Enquanto comia, observei o lugar. Algumas pessoas, nas mesas, navegavam na internet com seus notebooks, já que o estabelecimento possui Wi-fi (Wireless Fidelity), outras comiam apressadas, seus lunchs diets e lights. Um casal, ao meu lado, pagava a conta com Mastercard, enquanto a filha via, no Youtube, um clip da Beyoncê na tela, touchscreen, do seu iphone de última geração.
Saí do fast food e fui dar um tour pelas dependências do empreendimento, que abrigava muita gente naquele domingo. O vozerio promíscuo me fez lembrar o zumbido das feiras da infância, lá no mercado da minha São Sebastião. O burburinho é igual, o que muda é a estampa. Os meninos se divertiam nas máquinas de Game e as mocinhas bisbilhotavam o showcase das lojas, em busca de algo fashion. Outros jovens apenas caminhavam pelos corredores ouvindo seus Mp3 para corroborar a marca de geração readphone.
 Já estava indo embora e, quando passava novamente pela praça de alimentação, fui reconhecido por um amigo que não via há tempos. Seu grito me chamou atenção:
- Diga meu brother! Senta aí, vamos tomar uma Skol!
- Fica pra próxima, respondi e me despedi com um até logo. Compreensivo, ele me desejou sorte.
- Ok, Brother!
- Tchau!

Zenóbio Oliveira, poeta e radialista mossoroense.

20/10/2011

A rua é pública?

Lembro-me que nas peladas de mirim no chão piçarrado da Rua 7 de Setembro, lá na minha infância longínqua, sempre havia um menino que era excluído do jogo e ficava no meio do “campo” atrapalhando. Quando convidado a sair, proclamava aquela frase, que para minha doce inocência, mais parecia um decreto revestido de uma sentença irrevogável:
- A rua é pública!
Por um bom tempo acreditei na legitimidade dessa asserção. Em mim, porém, a infante inocência não evoluiu para uma ignorância juvenil, nem para o agravamento de uma cegueira intelectual adulta e hoje a luz da experiência aclara em mim outra certeza:
- A rua tem dono!
E não são poucos.
O dono do botequim transforma a via em grande pátio para a seresta do fim de semana; o senhor do restaurante dispõe dela para oferecer refeições ao ar livre; o líder comunitário ou religioso a usa como espaço de eventos; o rapaz da quadrilha junina a fecha para os ensaios e apresentações; o político também faz seu comício ali... Nestes casos, a apropriação é temporária, como uma espécie de comodato.
Na posse vitalícia da rua, o exemplo mais destacado fica por conta dos estacionamentos privativos para instituições e autoridades. Regalia ao prefeito e ao seu secretariado, ao vereador, ao juiz, ao promotor. A adequação do espaço público às necessidades específicas da população está prevista na Resolução 302 do CONTRAN. Vagas destinadas aos veículos de aluguel, de carga e descarga, conduzidos ou transportando portadores de deficiência física e idosos, ambulâncias, além de viaturas policiais, compreendem tudo que a lei determina.
Portanto, qualquer outra prescrição que não atenda os dispositivos desta Resolução, constitui-se manobra política e promoção de privilégio para favorecer os “amigos do rei”, agredindo vergonhosamente o princípio democrático e ferindo criminalmente o direito legal.

Zenóbio Oliveira, poeta e radialista mossoroense 

06/10/2011

Preguiça Judicial

Maria de Seu Chico três vinténs,
Casou-se com Titico de Honório,
E resolveram os dois, que o casório,
Iria ser com repartição de bens.
Consolidada a partilha dos teréns,
Documento em cartório foi lavrado,
Terras, imóveis, troços, gado,
Pertenceria, assim, a cada qual,
Só que a primeira querela do casal,
Foi parar no birô do magistrado.

É que Maria ganhou uma novilha,
Dada pelo pai, ele, seu Chico,
Que cruzou com um garrote que Titico
Também tinha ganhado da família,
Só que o documento da partilha,
Não previa esse tipo de emperro,
E justamente por causa desse erro,
Estão, há tempo, na justiça a debater,
Num processo de litígio pra saber,
Qual dos dois é o dono do bezerro.

E enquanto espera uma sentença,
Essa novela de Maria com Titico,
Passeia pelas rodas de fuxico,
O que aumenta mais a malquerença.
A demora consolida a desavença,
E a lerdeza forense, essa preguiça,
Atiça neles o fogo da cobiça,
Pois no gado foi num foi nasce uma cria,
Tanto é, meu patrão, que hoje em dia,
Quase todo o curral tá na justiça.

Zenóbio Oliveira