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02/02/2026

O jantar


O jantar em cinco minutos sou eu e minha mãe numa mesa de quatro lugares, grande demais, frente a frente. Os lugares vazios são Nicolas, em São Paulo, e meu pai, no céu, no paraíso, reencarnado ou no cemitério, dependendo da perspectiva. “O que você tem, Marquinhos?”, minha mãe, eu olhando para a minha mão direita, envergonhado, a certeza do gozo que não veio entre os dedos, um prazer, desejo, que ainda não compreendo, ou finjo não compreender, e meu corpo talvez compreenda, o pau duro, ou finja não compreender, o gozo negado. “O que houve, Marquinhos?” Respondo que nada, esquecendo a mão, erguendo o prato para minha mãe me servir, ela ainda me serve, mas com ela nunca pode ser nada, para dona Marlene alguma coisa é sempre alguma coisa, e o silêncio dos outros, então, um pesadelo, e ela: “É seu pai, não é?” E voltamos ao assunto de todos os dias, o assunto que ela não me deixa esquecer; digo que não é nada, depois, pensando melhor, falo que estava pensando na aula do bar mitzvah, e ao receber o prato de volta, cheio, “Você precisa se alimentar bem, meu filho”, minha mãe pergunta se pode contar uma história, e sorri, forçado, melancólica, mas sorri. Aceno com a cabeça que sim, mas nem precisava, a pergunta retórica, a história iniciada, o tom didático de minha mãe quando conta uma história que esconde uma moral: “Quando fiz meu bat mitzvah...” e desligo, cabeça no meu Jesus gay de olhos azuis, e escuto palavras: “Sua avó, seu pai, comunidade judaica da Tijuca, vestido...”, mas só penso nele, nos seus olhos, na sua bunda, e meu pau endurece novamente, ele compreende, sim, e sorrio mastigando o frango, e minha mãe me vê sorrindo e diz: “Sente saudade do seu pai, né?”, e a vontade é responder que não, sinto raiva, sinto raiva de você também, meus olhos mostram, a sobrancelha arqueada, eu com o pau duro, começando a me entender e a ter medo e ela lembrando do meu pai, e meu pai é só a imagem de um homem calvo caído no chão, raquete na mão, morrendo, morto, e eu gritando, para ele, por ele, por alguém, por socorro, e ele apagado na quadra, mas meu pai tem de novo os olhos abertos, segundos antes, e grita: “Bate como homem, porra!”, e vira o rosto, quica a bola duas, três vezes e saca forte, tenho raiva, toda ela reunida na empunhadura da raquete, e respondo o saque com força, ódio, “Como homem, porra!”, aliso sem perceber meu pau ainda duro por debaixo da mesa, testo a empunhadura, e com a mesma força que rebati aquele saque aperto meu pau, e escuto o som metálico da bola se prendendo na grade, e quando olho para a quadra é meu pai no chão, morrendo, e quando tudo acaba é meu pai no chão, morto, e eu desperto por outra pergunta de minha mãe: “Tudo bem, Marquinhos?”, eu de novo olhando para a minha mão direita.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

26/01/2026

jamais perguntei por quê


Eu queria que ele fosse uma menina. Achava que seria menina. Com sete meses, o médico disse que poderíamos fazer uma ultrassonografia para saber o sexo, última novidade na época, mas não quis. “É menina. Tenho certeza.” O enxoval já estava pronto, mas Sarinha nasceu um menino, para a minha decepção. Nos primeiros meses só o vestia de rosa e amarelo, até que cresceu e passou a usar as roupinhas do Nicolas que eu tinha guardado.
Demorou quase uma semana para decidirmos por um nome, e no final Afonso sugeriu Marcos por não existir feminino possível. Tinha medo, confessou-me mais tarde, que eu continuasse a chamar o filho de Sara. Continuei, mas sem pronunciar palavra. No meu silêncio sempre foi ela, minha menininha.
Marquinhos não quis ir ao enterro do pai. Não deu explicações, e também não pedi. Nos meses seguintes passou a ir com certa frequência ao cemitério, primeiro sem contar para ninguém, depois comentando brevemente com Nicolas ou com o avô, e eu ficava sabendo dias depois. Mas jamais perguntei por quê.
Talvez se culpasse pela morte do pai. Ele, adolescente, querendo se mostrar homem a cada segundo, arrotando na mesa de jantar, gritando palavrões pelo telefone. Uma bola mais curta, um voleio maldoso, e o pai correu do fundo de quadra até a rede. Rebateu a bola, quase sem forças, e ela passou lenta para o lado da quadra do filho. Que o arrasou em um golpe forte, certeiro e a bola morreu entre as tranças do alambrado soltando um barulho metálico.
E o pai ajoelhou-se com a mão no coração, para nunca mais levantar.
Imagino isto tudo, as nuances, os possíveis lances da partida, se o ponto que matou meu marido era decisivo ou apenas um 15-15, sem ameaça de quebra de saque no início de um game. Afonso adorava jogar tênis, sentia-se rico, realizado. Morreu em quadra. Marquinhos nunca contou quase nada daquele jogo, do último ponto, da última palavra de Afonso, da penúltima. Disse apenas, entre lágrimas, que o pai morrera.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

22/01/2026

“Você demorou.”


 “Você demorou.” Minha mãe. “Estava preocupada.” Minha mãe. “Você sabe que fico preocupada quando demora.” Minha mãe. “Por que demorou?” Minha mãe. “Voltei a pé, mãe.” “A pé? Mas é muito longe! E o dinheiro que te dei para voltar de metrô?” “Esqueci”, minto. Podia mentir muito mais, sempre menti para ela, vivo mentindo, conto com a ajuda dos outros para mentir, senão seria impossível. Desta vez rabi Shlomo. Voltei à sinagoga, tremendo, não lembro bem como cheguei lá, mas cheguei, o que falei, mas falei, como saí de lá, mas saí, como voltei para casa, mas voltei, aqui estou, minha mãe me bombardeando de perguntas, por que demorou, onde estava, minto, e agora: “Como foi a aula?”, “Posso marcar o bar mitzvah?”, “O que aprendeu?”, e começa a falar em hebraico para me testar, um hebraico com sotaque carioca, não o mesmo hebraico de rabi Shlomo, não o mesmo hebraico de Moisés, Moisés falava hebraico?, tenho que estudar, o hebraico de mamãe não tem nenhuma sacralidade, não passa de uma centena de palavras aprendidas há quase quarenta anos, não os quarenta anos de Moisés, e nunca mais usadas. “Vou para o quarto”, digo, “Tenho que estudar para a próxima aula.” Ela aquieta-se, que mãe judia não quer escutar isso? Vou para o quarto estudar. Ela se delicia com a resposta, enxuga as mãos secas no pano de prato pendurado na barra do vestido, sorri, o filho em casa, o filho obediente que vai para o quarto estudar sem ela nem pedir, mazel tov, dona Marlene, mazel tov. Mas é mentira. Sei lidar com mamãe, a vida inteira tentando ser o que ela queria, primeiro menina, Sara, errei já no nascimento, depois bom filho, esportista, e então o jogo de tênis e papai morto quando tentou fazer um voleio, e agora judeu, o bom menino judeu. Fracasso a cada tentativa, mas dissimulo, para ela sei dissimular, preciso. Fecho a porta do quarto: um erro. O espelho atrás da porta, eu refletido no espelho, um homem com olhos azuis de Jesus que brilha por trás do reflexo, uma piscadela me chamando, um dibuk, rabi Shlomo diria, diria se eu tivesse contado a verdade, outra morte, outra morte na minha frente, primeiro papai, agora Jesus, um Jesus gay me cortejava na estação do metrô, o barulho dele batendo no vidro e subindo, o eco desse barulho, depois o baque seco, pesado, do corpo dele batendo no teto do metrô, as pessoas gritando, aqueles olhos lindos gritando, azuis, lindos, para mim, azuis, para mim, para mim, para mim, Mariquinhos, Mariquinhas, Mariquinhos. Agora é mamãe que grita, “Marquinhos”, desperto, nu, na frente do espelho, “Marquinhos, o jantar em cinco minutos”, nu, na frente do espelho, pau duro, nu, na frente do espelho, pau duro, me masturbo para o Jesus gay de olhos azuis, um dibuk, me masturbo com força, raiva, até que não gozo em minha mão, mesmo fazendo toda a força o desejo permanece preso, incurável, incubado. Mariquinhos, Mariquinhas, dibuk. Limpo minhas mãos secas no lençol.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

16/01/2026

“Vi...”


 “O Marquinhos voltou”, escuto. Um dos meninos mais adiantados cochicha. Acha que não ouvi, finjo que não ouvi. “Mariquinhos”, ele diz, e abaixo a cabeça, sento no banco de madeira esperando minha vez. Sei que ele me olha, sei que me olham. Mariquinhos, Mariquinhas, na escola é só o que escuto, Mariquinhos, um apelido-acusação, condenação. Treze anos recém-completos e já condenado pela vida inteira. Carrego essa morte no corpo, essa culpa que transborda pela minha timidez, cabeça baixa, os olhos azuis de Jesus me olhando e chamando de Mariquinhos, vem, Mariquinhos, um dibuk, falaria o rabi Shlomo, falará rabi Shlomo, um dibuk te convidando para aceitar o que nem ainda aceitou mas já tem sua condenação, Mariquinhos, Mariquinhas voltou. “Por que choras, Marcos?”, a voz rouca, áspera, rabi Shlomo com a mão na minha cabeça, a antessala vazia, aonde foram todos?, aonde o menino adiantado, que sabe a reza em hebraico, que me chama de Mariquinhos mesmo aqui, na casa sagrada, e eu ainda posso estar aqui?, penso, e de novo Mariquinhos, uma mão pesada no meu ombro, Mariquinhos?, mas a mão é do rabi, e ele não me chamaria assim, os tufos da orelha parecem não parar de crescer quando olhados daqui de baixo, lembram aqueles desenhos animados em que o monstro solta fumaças pelas orelhas, penso, e pelo nariz, agora vejo, também o nariz do rabi solta fumaça de pelos, e de novo Mariquinhos, está me escutando?, a voz áspera, “Marcos, está me escutando?”, talvez, agora sim. “Venha, vamos entrar”, e ele me levanta do banco de madeira, rabi Shlomo me levanta do banco de madeira, a mão dele é quente, “Vamos”, ele diz, e vou, “Senta aqui”, e sento, “Fala para mim o que aconteceu, o que está acontecendo, Marquinhos”; e falo, e conto, tudo. Menos a minha participação. “Rabi, vi uma pessoa se matar.”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

10/01/2026

... o Livro não fala



Eu tinha acabado de sair da sinagoga, prometido ao rabi Shlomo que não faltaria mais às aulas. Ele tinha me dado uma bronca com palavras sérias, pesadas, citando o Antigo Testamento de cor, passagem por passagem, exemplo por exemplo. Fez-me prometer que estudaria o Livro, que seguiria os ensinamentos. A sinagoga ficava perto da praça Saens Peña, e de lá para casa eram duas estações do metrô. Eu sempre gostei de ir no último vagão, e estava esperando pelo próximo trem – o anterior saíra quando eu descia as escadas. Caminhei para o lado esquerdo, penúltima porta. Sempre ia ali, como uma mania, superstição, mesmo sendo errado acreditar em crendices de que o Livro não fala. Ele veio andando em minha direção, olhando nos meus olhos desde muito longe. Quarenta metros e aquele olhar que eu ainda nem percebia ser azul me desafiando, 30 metros, sedução. Seu corpo frágil, esguio, um pouco mais alto do que eu, mas magro, quase magro demais. Os olhos azuis nos meus, 20 metros, e eu nem acreditava. De repente o Livro, rabi Shlomo, Moisés e seus olhos ferozes de verdade, a Verdade – mas ele tinha os olhos de Jesus, ele tinha a bondade de Jesus nos gestos, ele tinha a sensualidade que Jesus tinha ao abençoar os pobres. Dez metros, e ele tão gay quanto eu desejo não ser, tão afeminado, e olhava nos meus olhos, cinco metros, a calça jeans apertada no corpo, a cintura baixa, uma camisa azul, um azul-marinho contrastando com os olhos claros dele. Ele passa e me convida com os olhos, me intima com os lábios finos, finos, vermelhos, sua palidez excessiva contrastando com a minha pele amarelada, marcada de espinhas que não sei controlar. Ele para, de costas, sua bunda, sua bunda é magrinha, linda, e imagino que ele não pode ter gostado de mim, isso não teria explicação, mas ele vira novamente, me olha de cima a baixo, sorri, sorri triste, e se vira novamente.

Penso em ir até ele, quero ir até ele, mas e Moisés?, e o rabi Shlomo com seus tufos de pelos esfumaçando as orelhas, e o inferno logo ali na religião alheia?; ele talvez seja um enviado do diabo, escuto o rabi falando em meu cérebro, ele é um dibuk querendo te atrair, e seu tom de voz é alto, altíssimo, grave. Mas é o metrô que chega, ouço o barulho, vejo as luzes amarelas do farol na curva. Quando a porta do metrô se abrir, entrarei na mesma porta que ele, penso, vou parar ao lado dele, segurarei sua mão por um segundo apenas e ele vai entender que... ele volta a olhar para mim; ele voltou a olhar para mim, e se jogou. Atirou-se na frente do metrô. O corpo ricocheteou no vidro do maquinista, e subiu, subiu, veloz, e os gritos, meu grito mais alto do que todos, e o corpo dele desceu e caiu, inerte, no teto do segundo vagão, e o barulho do freio do metrô não consegue abafar os gritos, o meu grito, o metrô para 50 metros adiante e vou correndo em sua direção, e ele está em cima do segundo vagão, morto, mas ainda lindo, branco, sem marcas aparentes de sangue, mas morto, o braço quase pendendo pela porta que abre e fecha sem ninguém passar por ela, todos gritam, e ele morto, lindo, seus olhos agora sem vida, o azul sem viço é branco, sua cabeça estirada no teto do metrô, na minha direção, e a boca aberta, seu esgar parece um sorriso, um sorriso de convite, para mim. Corro para fora da estação e vomito. A sinagoga ali do lado, duas esquinas apenas. Preciso falar com o rabi Shlomo, confessar essa morte que carrego, outra, pedir perdão ao que não ouso pronunciar o nome pelo pecado ensejado. Mas só consigo pensar nele, em sua beleza, em seus olhos azuis, e volto para a estação do metrô, salto a roleta, os seguranças estão lá embaixo tentando controlar os populares, chego perto do corpo, “Ninguém se aproxima”, grita um dos seguranças, travo, tenho medo, medo da culpa, receio que alguém tenha me visto sorrindo para ele, alguém tenha escutado meus pensamentos sobre a bunda dele, seus olhos, alguém diga que a culpa por aquela morte é minha – e sei que é!, tenho certeza que é!, fui eu quem o empurrei com meus olhares insistentes. Sinto medo, pânico, culpa, e volto a sair correndo da estação.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

04/01/2026

“De quantos meses?”



De quantos meses?”, meu pai perguntou, e arqueou as sobrancelhas negras de pelos abundantes já naquela época. “Sete semanas”, respondi. Mentalmente ele fez as contas por alguns segundos que me pareceram cômicos minutos. Meu pai sempre foi péssimo com números, e mesmo assim, ironia, era relojoeiro.
Eu tinha apenas 21 anos, nem dois meses de casamento, e já estava grávida. Casei virgem numa época que casar virgem já estava ficando ultrapassado numa cidade como o Rio. Mas nós morávamos na Tijuca, e ainda se mantinham muitas tradições entre aquelas paredes decoradas com quadros do Muro das Lamentações misturados com caçadas em fazendas inglesas.
Pai, foi na lua de mel”, resolvi me antecipar. “O ginecologista fez as contas comigo e chegamos a essa conclusão. O Afonso já sabe, mamãe também. Vamos ter o bebê. Vou parar de trabalhar por uns meses, mas depois volto, está tudo acertado.”
Nunca voltei.
Nicolas tomava todo o meu tempo, foi um menino difícil, eu era nova, inexperiente, nervosa, e procurava atendê-lo, mimá-lo de todas as maneiras possíveis. Mamou no peito até quase os 2 anos, mamadeira até 6, até que um dia parou, sem explicação. De 6 para 7 anos mudou, ficou calado, na época eu e Afonso brigávamos muito, eu queria voltar a trabalhar, ele não queria, pedia outro filho. Com 10, tudo passou, Nicolas readquiriu o viço, a confiança, já falava em ser médico, gostava de esportes, o pai o levava para o jogo do Botafogo no Maracanã, passeio a pé. Voltavam cabisbaixos, anos de jejum, mas refletiam felicidade mesmo assim; depois do jogo sempre paravam num bar; hambúrguer e batatas fritas para Nicolas, chope e chope para Afonso. Então veio a notícia: grávida novamente, quase 12 anos entre os filhos, eu ainda nova, 33. Nicolas não lidou bem com o fato de não ser mais o centro das atenções. Parou de trazer amigos da escola, recusava os apelos do pai para jogarem futebol na Quinta da Boa Vista, como faziam antes do nascimento do Marquinhos. Com o irmão sempre manteve relação de distância, não brincou com o bebê, jamais implicou com a criança, caçoou do pré-adolescente, e deu conselhos ao menino que com 17 foi embora de casa para não mais voltar.
Nicolas queria ser cirurgião cardiologista, sempre quis, desde quando brincava com o joguinho da operação da Estrela, ou empurrava uma ambulância de plástico pelo tapete da sala fazendo barulho com a boca imitando a sirene, operava bonecos do Falcon, fazia curativos na própria testa sem nenhum corte. Depois que o pai morreu numa quadra de tênis, ele passou a detestar a especialidade que escolhera, a profissão com que lutara contra nossa precariedade financeira para abraçar, queria desistir do sonho.
E desistiu.
Recusou convites de especialização nas áreas mais badaladas. Desinteressou-se da carreira, dele mesmo, casou-se com uma gói que engravidou sem querer já em São Paulo. Tornou-se um oftalmologista medíocre, daqueles que atendem apenas casos de miopia, consulta paga pelo plano de saúde, não operam ou são convidados para congressos. Trabalha de segunda à sexta, apenas no período da tarde, e se dá por satisfeito, tendo clientes ou não.
Quando de fato se separou, o casamento já tinha acabado há cinco anos. Apenas a inércia mantinha Nicolas e Mônica juntos, ele pesando 115 quilos de massa parada e ela 93 de doces à tarde.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

31/12/2025

Papai



O mostrador dos batimentos cardíacos é o de cima, em azul. Controlo suas variações mesmo sabendo que nada posso fazer. Geralmente não passa dos 75 batimentos por minuto, nada alarmante, mas um pouco alto para um senhor de 88 anos em repouso. Os médicos não ligam, dizem ser natural, o coração é forçado a uma atividade maior por causa da precariedade do funcionamento dos pulmões, o da esquerda comprometido, o da direita aguentando, com a ajuda do oxigênio artificial, o trabalho dos dois. Mas apenas sem nenhum esforço. Ele jamais poderia andar, ou teria outro AVC, o terceiro. O que me traz a questão elementar, um paradoxo: em coma ele vive, se acordasse e tentasse se mexer para se acomodar melhor na cama, morreria em segundos.
Com meu marido foi assim. Morte quase instantânea, jogando tênis com o Marquinhos, meu filho mais moço. Ataque cardíaco fulminante. Foi o tempo de dobrar os joelhos, apoiar a mão esquerda no chão, a direita espalmada no coração, e escorar a queda. Nunca mais se levantou. Reconstruo a cena que a boca chorosa de meu filho contou para mim, para os médicos e, por telefone, bem mais tarde, para Nicolas, seu irmão mais velho, que estava trabalhando, plantão, quando isso aconteceu. Fazia o primeiro ano de residência médica no hospital mais badalado da cidade. Queria ser cirurgião cardíaco, terminou como oftalmologista, especialização em São Paulo. Nunca mais voltou a morar no Rio.
Quando o Afonso foi enterrado, a família acabou junto com ele. Um breve suspiro de cinco anos, enquanto o Marquinhos ainda estava no colégio, mas, depois que ele foi para Israel, nos limitamos a mim e a papai, com Nicolas em alguns fins de semana, depois eu, papai, Nicolas e sua esposa, depois eu, papai, Nicolas e sua esposa e Patrick, meu neto, mas aí então só nos feriados e, mesmo assim, nem todos, apenas os religiosos do nosso lado: Yom Kipur, Pessach e Roshashana. No meu aniversário eles não vinham. Mônica nasceu no mesmo dia que eu, 2 de outubro. Com o tempo, restou apenas o Natal, festa dos outros, na casa de outra família, em São Paulo. E mesmo assim parei de ir depois que papai passou a morar comigo.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

25/12/2025

Toda noite o mesmo sonho


Mas tenho medo. Toda noite o mesmo sonho. Meu pai acorda, cutuca meu ombro com seu dedo médio arroxeado e me pergunta por que ele precisa continuar lutando para não morrer. Eu tento dizer que não tenho resposta para isso, mas minha boca parece colada, costurada por alguma linha que cirze meus lábios, e não consigo emitir som. Ele então caminha para a cama, devagar, pé ante pé, mesmo em sonho respeitando a idade e a doença que tem, deita, ajeita as cobertas, fecha os olhos e volta a dormir seu sono definitivo.
Quando acordo procuro por seus apelos negros, fechados. Falta-me coragem de soprar a resposta que sei, ele sabe, nos seus ouvidos. Dizer-lhe que vá, nada o prende deste lado. Mas sempre recuo, jamais passo do sussurro mental. Temo falar em voz alta a verdade, pois em seguida teria que pensar em mim, no que seria de mim depois que ele se fosse, quando não estivesse mais neste hospital, inerte nesta cama.
A situação de um jeito esdrúxulo me é cômoda, o café da manhã pago pela empresa de saúde, o almoço e jantar ao alcance de um elevador, o sofá-cama sempre com lençóis limpos e esterilizados. A semana transcorre de maneira natural, uma sucessão de dias, que no início eu contava pela programação da televisão. Foi perdendo a graça, as novelas não são tão boas como antigamente, as manchetes do dia, com a idade descobrimos, nos são irrelevantes. O próximo passo foi decorar o menu do restaurante do hospital: na segunda-feira, frango; na terça, peixe; na quarta, macarrão; quinta, novamente frango; na sexta, carne vermelha; sábado, feijoada – o que no início achei um absurdo, depois estranho, e ultimamente engraçado; e no domingo, peixe. Assim descobria o dia da semana, era confortável, previsível, e o que preciso neste hospital, na minha vida, é dessa previsibilidade morna, grudenta. Se sábado é dia de feijoada em todos os restaurantes, por que não no do hospital? Mas um dia veio carne na segunda-feira, macarrão na terça, peixe na quarta e na quinta, e desisti deste método.
Finalmente, o dinheiro. Não conto mais os dias da semana, mas sei quando é sexta-feira: o dinheiro acaba. Assim, encontrei um equilíbrio provisório, pelo menos até o preço das refeições aumentar.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

20/12/2025

Marlene e Marquinhos




Os lençóis brancos realçam os contornos do corpo, as pernas magras, os joelhos alinhados pelas mãos de outros. O peito frágil, escamado, costelas aparentes, não respira por si só, os pulmões não conseguem sustentar o natural sobe e desce, e o ar entra pela boca, máscara de oxigênio. Os olhos do negro ameaçador que na minha infância tanto temi e admirei foram encobertos por uma névoa branca, constante, e rezo para que as pálpebras estejam abaixadas toda vez que entro no quarto.
Sempre estão.
Seus braços são como galhos mortos, finos, que não conseguem gerar folhas ou frutos, apenas restam colados junto ao corpo, árvore de raiz seca. A pele, casca arroxeada pelas picadas de sangue extirpado e jamais devolvido, as mãos caídas, mero canal de entrada dos remédios que o mantém vivo.
Ele tem 88 anos, meu pai, Natan.
Estou neste hospital há quase dois meses, ele sempre deitado, coma induzido, e eu esperando que algo aconteça. E apenas uma coisa pode acontecer. Minha vida é uma eterna espera, e aguardo sentada numa cadeira acolchoada, olhando pela janela – uma vista de prédios e casas velhas, a cidade em ondulações de calor que não passam pelo vidro, eternos 22 graus comandados por um controle remoto invisível. De turno em turno uma enfermeira vem e troca o soro dele, de dois em dois dias lhe dão banho e mudam o jogo de cama. Antes eram mais vezes, mas viram que não há necessidade, ele não se mexe, as sondas eliminam as únicas sujeiras possíveis, tem menos vida do que se tivesse enterrado, comida de vermes.
Saio apenas para almoçar e jantar, sempre ao meio-dia e às seis da tarde, retorno em 25 minutos, três a mais nas sextas-feiras, quando atravesso a rua para tirar dinheiro no caixa eletrônico. No início era um mantra, “Vai para casa, dona Marlene”, entoado por médicos e enfermeiras, mas com o tempo desistiram de falar comigo e passaram a falar sobre mim, cochichos e olhares atravessados enquanto davam banho de gato em meu pai. Nas últimas semanas ninguém mais fala comigo e, com isso, nada digo também. O silêncio sempre me pareceu a condição natural, e se agora posso mantê-lo por horas, dias, isso não chega a me fazer triste. Ou será que minto?
Não faço planos. Apenas espero calada que ele morra para que possamos sair deste hospital. Ele com destino certo; eu, não.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

15/12/2025

“Que Sérgio, papai?”



Aconteceu assim: papai tinha acabado de sair de casa, disse que iria cortar o cabelo e fazer a barba, depois passaria na farmácia. Eu falei que o cabelo dele não estava grande, a barba sim, mas eu poderia ajudá-lo a raspar; também disse “Farmácia entrega”, mas ele falou que precisava sair um pouco de casa, e concordei, mas tinha receio. Papai não andava bem naqueles dias, reclamava de falta de ar, dor no corpo e de cabeça, tonteira, e para uma pessoa como ele que não externava dores, com medo de se tornar um peso, aquilo era sinal de preocupação.
Voltou, papai?”, perguntei, quando ele passou por mim, na sala, menos de cinco minutos depois de ter saído. Ele não respondeu, o olhar obstinado, toda a força do corpo reunida para caminhar, pé ante pé, até a poltrona em que sempre sentava para dormilicar ou assistir à TV. Perguntei novamente, outra coisa: “Está tudo bem?” Ele levou a mão ao rosto, a mão grande de papai, peluda, a carne macia da palma vazando, cobrindo até as bochechas, e demorou-se com ela parada em frente aos olhos, depois desceu, devagar, até o colo. Os olhos permaneceram fechados por um tempo, depois se abriram.
Pega um copo d’água”, ele disse, a primeira frase desde que voltara, e saí correndo para a cozinha sem esperar pela segunda. Voltei com o copo d’água, dei em sua mão, mas o copo escorregou e se espatifou. “Não tem problema”, eu disse. Ele olhava para mim, mas seus olhos não diziam nada. Eu não sabia se ia para a cozinha pegar um pano, um segundo copo d’água, ou se ficava ao seu lado. “Quer que ligue para o doutor Samuel?”, perguntei. A resposta: “Uma mulher me chamou de Sérgio na rua.” Eu não entendi, aquilo não fazia sentido, e repeti a pergunta sobre ligar para o médico. “Ela não perguntou se eu era o Sérgio. Ela tinha certeza de que eu era o Sérgio.” Entrei no jogo, ainda confusa. “Que Sérgio, papai?” Ele até então olhava para a frente, para um horizonte à altura da minha barriga, mas dessa vez reagiu à pergunta, olhou para mim, o olhar de papai recuperado, forte, desafiador. A voz também saiu pesada, áspera: “Como que Sérgio? O Sérgio dela!” “E quem é o Sérgio dela, papai?” Ele voltou a olhar para o horizonte, desfocado. Esperei alguns segundos, mas nada, ele longe, eu ali, insegura. “Vou ligar para o médico”, e corri até o telefone sem fio, o número do doutor Samuel na memória do aparelho, número 3. Voltei e meu pai seguia com o olhar confuso, distante, a voz saiu baixa dessa vez: “Acho que o Sérgio dela sou eu.”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

09/12/2025

Sérgio?


Uma mulher me parou na rua e me chamou de Sérgio.
Senti-me diminuído.
Toda a minha personalidade ruindo com aquela afirmação: “Sérgio.”
A entonação: “Sérgio?!”
Não como pergunta, mas espanto: “Não está me reconhecendo, Sérgio?”
Quem é Sérgio? Outra pessoa. Eu não mais com o meu rosto, minha marca. Envelhecido. Envelheci e virei Sérgio.
Sinto-me menor agora, ainda menos importante.
Como se até o corpo, única coisa que fica, dizem, não mais me pertencesse. Até ele me abandonou e lembra um Sérgio qualquer. Quando eu morrer, daqui a pouco, minha alma, se existir, se existir como o Livro diz – o meu ou o de Ana, convertida –, vai planar para algum lugar. Aqui, nem a casca fica, ela já foi, partiu antes. Não tenho mais no corpo minha impressão digital, meu reflexo no espelho, o que o mundo vê no meu rosto poderia ser qualquer um, Sérgio.
Ela insistiu: “Sérgio.” Não que tenha repetido. Foi apenas um olhar mais demorado quando eu disse que não era o Sérgio, que meu nome era Natan. Deveria ter seguido caminho, passos lentos, mas ainda meus. Não. Fiquei preso na afirmação, mesmo negada. Parei. Os olhos dela nos meus, me reduzindo a Sérgio, quase como se não fosse permitido que eu não fosse o Sérgio, ou quem sabe ela tivesse a certeza de que eu fosse Sérgio e estivesse mentindo, mas por que eu estaria mentindo, por que Sérgio mentiria para ela?, penso agora. De repente um homem e uma mulher, velhos, ambos, ela um pouco menos do que eu, estacam na rua, olhos nos olhos, uma frase-afirmação entre eles, parados, uma resposta que não encontra eco. “Não sou Sérgio.” Mas quem consegue se mexer?, não eu, aniquilado, esvaído das últimas forças.
Ela foi embora pesando seus passos, contrariada, eu diria ofendida, eu era Sérgio e, negando, recusara que ela fosse, que ela fosse quem quer que seja, ela mesma. O que importa era a rejeição. Eu não sendo Sérgio, ou fingindo não ser Sérgio, matava o encontro, a história, apagava o passado, o passado dela. Ela foi embora, eu fiquei ali, entregue. Não sabia mais para onde estava indo, por que não estava em casa, quem eu era, se não Sérgio, como tinha tanta certeza que não era ele?
Dei meia-volta e retornei para casa, já o apartamento de Marlene: “Voltou, papai?”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

03/12/2025

“Terá de ser em segredo”



Ana disse não. Com veemência.
Assim não quero.”
Meu ditado não fazia milagre nem em casa de relojoeiro. O que poderia fazer? Para se ter uma filha precisa-se de dois, para adotar também. Não me lembro de como foi o jantar, do que fizemos depois, se fizemos alguma coisa, mas mais tarde, na cama, cada um virado para um lado, ela disse, a voz tímida cortando o negrume do quarto:
Como seria?”
Horas depois. A retomada depois de longa pausa me surpreendeu. “Não sei”, respondi, “mas posso me informar. Acredito que precisamos entrar com um processo de adoção e esperar.”
Não é isso”, ela disse, ainda sem se mexer, quase como se não fosse ela quem estivesse falando, considerando. Eu já virara, estava sentado na cama.
E o que é?”, perguntei, tentando ser gentil, tom de voz afável, mão acarinhando os ombros tensos dela.
Como seria ter uma filha de um ventre não judeu?”
O assunto me pareceu menor, quase ínfimo. Com que direito um casal que perdeu cinco filhos na barriga pode ser questionado sobre o assunto? Então sofrimento acumulado não conta numa hora dessa?
Mas não disse nada.
Nem Ana.
Por um tempo.
Até que sentou.
E disse: “Terá de ser em segredo.”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

28/11/2025

O relógio nunca pode andar para trás



O relógio nunca pode andar para trás, nem que eu queira. Consertar relógios sempre foi adiantá-los, dar mais uma volta no ponteiro até chegar à hora certa. Mesmo que para isso seja preciso girar o ponteiro quase 12 horas. Voltar um minuto no relógio de corda é impossível. Falei isso para um cliente, explicando a demora do conserto, e foi o que chamam de clique. Fechei a loja 25 minutos mais cedo e tudo. Adiantei o relógio e fui para casa.
Ana estava de costas, no fogão, e disse sem virar-se: “O jantar ainda não está pronto, você chegou mais cedo”, e no tom de voz a tristeza desvelada, o quinto aborto, ferida ainda cicatrizando, mesmo um mês passado é pouco tempo, a mesma ferida, o mesmo local.
Eu não disse oi, boa-noite, o que teremos para jantar. A frase saiu engasgada, presa na garganta do trabalho para casa, a frase que explicava tudo, a ideia que eu considerava genial, o óbvio finalmente revelado: “Consertar relógios sempre é adiantá-los.”
E então o silêncio. Os pratos na mesa, dois, talheres, dois garfos, duas facas, cadeiras, duas, copos, dois. Eu e Ana, e na barriga dela o vazio e não mais o desequilíbrio desejado.
E ao ganhar peso, minha voz, a frase parecia boba, esvaziada, sem sentido, Ana sequer virou-se. Tampou a panela, desligou o fogão: “O jantar está pronto.”
No arranhar de voz o choro do dia inteiro, solitário, e eu agora chegava em casa e falava aquela frase, o filho morto, o quinto, não nascido, a vida não tinha explicação, e eu querendo explicar tudo com uma frase sobre relógios, um provérbio de relojoeiro. Ana não falou nada, pegou um dos pratos, o meu, e começou a preparar, arroz, e não perguntou se eu queria arroz, feijão, e não perguntou se eu queria feijão, ou se o meu feijão era por cima ou por baixo do arroz, ela sabia o que eu queria, o que gostava, como gostava, batata cozida e bife de panela.
Acuado, disse a frase novamente: “Consertar relógios sempre é adiantá-los.”
Dessa vez num tom diferente, acima, a frase realmente parecendo um provérbio de relojoeiro, daquelas que se entalha numa placa de madeira, desenha-se um relógio colorido nela e pendura no fundo da loja para um cliente dar um sorriso, outro menear com a cabeça e apontá-la, concordando, outro não entender e esconder sua ignorância no silêncio.
Ana não esboçava reação. Há um mês ela não esboçava reação, e eu sempre tentando animá-la, consertá-la, não fica assim, vamos continuar tentando, D’us sabe o que faz, vamos sair hoje, nos divertir, ao teatro, ao cinema, mas nada tirava Ana daquele mutismo, nada consertava, nenhuma frase adiantava, e então eu chego em casa, mais cedo, adiantado, o jantar ainda cozinhando, Ana de costas, os pratos na mesa, dois, vazios, os copos na mesa, dois, vazios, virados para evitar as moscas, as cadeiras empurradas até o limite, embaixo da mesa, escondidas, e então eu digo que consertar relógios é adiantá-los, e Ana não entende, nem quer entender, o que aquilo, aquela frase sobre consertar pode consertar de fato.
Mas eu explico, finalmente eu explico, e a frase desde o início dizia tudo, a ideia, o conceito, a solução: “Consertar relógios sempre é adiantá-los.” E isso era: “Por que não adotamos?”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

24/11/2025

“Quer que faça seu prato?”

Às vezes tenho uns pensamentos de velho: avaliar toda a vida numa tarde. Tenho tempo demais agora que me resta pouco tempo, depois da aposentadoria, mulher morta, filha também viúva que lava, passa e cozinha. Para mim faltam interesses, e os dias são divididos entre comida, remédios e sono. O pior é que já não durmo bem, apenas cochilo, seguidas e rápidas vezes, e comer também não chega a ser um prazer, os dentes podres, a dentadura apertada demais, só uso para sair, e mesmo assim é mais um trabalho que uma facilidade, colocar no copo com Corega, escovar, limpar; o almoço dá azia, a janta não cai bem, o café da manhã tem digestão lenta.
Resta tanto tempo, mesmo com o desfecho próximo, que às vezes tenho pensamentos de velho. Sempre soube que Ana seria a mulher da minha vida, naquela época não havia outra alternativa, a mulher com que o sujeito casava era inapelavelmente a mulher de sua vida. Mas nunca dei muita atenção ao tamanho do amor que eu tinha por ela. Se falar que nos beijávamos o tempo todo, mentiria. Nunca fomos de beijo. Se falar que nosso desejo um pelo outro era grande, exageraria. Quando casamos e queríamos nosso filho, antes de Marlene, fazíamos o nosso papel, sim. Mas depois das sucessivas gestações sem nascimento, menos, muito menos, quase nunca. Ana não reclamava, eu não pedia.
Com o tempo começamos a falar muito menos também, nossas conversas eram as conversas sobre Marlene, ou sobre Marlene e a relojoaria, ou sobre Marlene e a conversão tardia de Ana ao catolicismo. Mentira, disso não conversávamos. Eram brigas, apenas.
Nunca entendi. Judia por 62 anos, mãe judia em mais da metade desse tempo, e então: “Fui à igreja hoje.” E então: “Me confessei essa tarde.” E então: “Vem comigo.” E quando não: “Vou ser batizada. Não peço que vá.”
Não fui. Nem Marlene e o marido. Nem os netos. Ela voltou sorrindo. Domingo. Não falou nada, não precisava. Foi direto para o quarto, trocou de roupa, foi para a cozinha, colocou o avental, cortou cebola, picou alho, lavou o arroz, refogou, salgou, cobriu com água e a tampa da panela, deixando uma brecha para o vapor sair, tirou da geladeira a salada do dia anterior, o peixe do shabat, e então: “A comida está pronta”, mas eu no umbral da porta, olhando, ela cega, sorrindo, leve, eu com uma inveja daquela leveza, com raiva, ciúmes, ela, surpresa. “Você está aí? Me ajuda a colocar a mesa?” Eu espumando, minha esposa convertida, batizada, mas não reagi, fingi ignorar aquela paz suja que os lábios dela traziam, aquela traição em vida. “Vamos comer?” Ela já sentada, os pratos na mesa, o suco gelado de caixinha, os talheres alinhados. Sentei, sentamos, frente a frente. Ela fechou os olhos, rezou uma Ave-maria e sorriu: “Quer que faça seu prato?”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

13/11/2025

Papai morava comigo

Papai morava comigo. Éramos dois fantasmas num apartamento de fundos que via pouca luz do dia, três quartos, poucas vozes. A televisão ligada sempre no volume máximo, Globo News, papai depois de velho fingia ser jornalista. “A Bolsa caiu hoje.” Assunto estúpido, eu pensava, o assunto mais longe da realidade possível, impossível de ser retrucado. Mas seu Natan escolhia puxar esse assunto no jantar, sopa a maioria das vezes, ou purê de batata, os dentes dele estragados, a teimosia em não querer usar a dentadura encomendada pelo neto, paga pelo neto. “A Bolsa caiu hoje”, repetiu. Alzheimer. Mamãe morrera com Alzheimer e eu pensava que era questão de dias até que papai, sempre esquecido, preso no seu mundo interior de rigidez, desse sinal da doença. “Pega um copo d’água, minha filha”, ele pediu, e o copo d’água do lado dele, em cima da mesa, e apontei com os olhos e dedos, olha o copo aí, papai, mas sem falar, e ele limpou os olhos com as costas da mão, pegou o copo, bebeu e voltou a falar na Bolsa. Alzheimer.
Nunca vi meu pai chorando, nem depois de velho. Quando mamãe morreu, cedo, aos 64 anos, quase minha idade atual, cedo demais, meu pai não chorou. Por um tempo ainda trabalhou na loja de oito às sete, até as cinco às sextas, como se nada tivesse acontecido. Afonso já morrera, Nicolas em São Paulo, Marquinhos em Israel. Ia almoçar to dos os dias lá em casa, me fazer companhia, “Você fica muito sozinha sem os meninos e Afonso”, dizia. Mas o nome de Afonso ele não falava, mencionava apenas os meninos, o ponto final com a frase incompleta. Um dia disse, com o mesmo tom de voz que falou que “A Bolsa caiu hoje”, que ia se aposentar.
Vou vender a loja.”
Na época ainda comia de tudo, menos carne vermelha, porque lhe dava azia, e sempre falava isso repetindo a entonação e o gestual, a mão enorme repousando sobre o estômago, o esgar da boca, o lado esquerdo do rosto esboçando a careta com que o direito convivia diariamente.
Papai veio morar comigo muito depois, relutou até quando pôde, “Deixar meu apartamento...”, repetia, a frase com reticências de uns vinte pontinhos, pausa de segundos. “Não quero.” Pedia desculpas mas não podia aceitar o convite. Porém já almoçava e jantava aqui, passava o dia cochilando no quarto de hóspedes. Não deixava o apartamento porque aquele dois quartos na Tijuca fora tudo que conseguira juntar trabalhando por 60 anos. Sem a mulher e o trabalho, sair do apartamento seria assumir o fim da vida. Pensar sobre a vida.
Um dia, cinco anos depois, como falou “A Bolsa caiu hoje” ou “Vou vender a loja”, disse “Vou aceitar a sobremesa.” Levantei-me e fui pegar a compota de pêssego na geladeira. Quando estava de costas, ele disse, no mesmo tom de voz, como se tivesse decidido naquela hora: “Vou aceitar seu convite.”
Falou com vergonha.
Quando voltei à mesa trazendo a compota, o prato e os talheres, ele tinha os olhos baixos. Não precisei responder nada, combinar coisa alguma. Ele mesmo tratou da mudança como quem cumpre seu último trabalho. Colocou o apartamento para vender, cuidou dos papéis, chamou o caminhão e um dia disse, depois do jantar: “Já vou me deitar.” Reticências. “Boa-noite, filha.”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

03/06/2025

Sono intermitente


Quase duas horas da manhã. O sono intermitente. Não sei se estava acordado ou dormindo, ninguém ao meu lado para perguntar. Levanto da cama, os olhos borrando o quarto, o corpo fazendo carga nos joelhos, equilíbrio é palavra sem significado depois de certa idade, certas doenças. Olho pela janela com a esperança de que seja ela quem chega ao carro que barulha na porta do prédio. Bobagem, Ana nunca dirigiu ou teve costume de sair sem mim à noite. Afasto a cortina apenas o suficiente para espiar o rapaz que salta do táxi, guarda o troco no bolso de trás da calça jeans e espera que o porteiro lhe abra a porta.
Afasto-me da janela. Sento na cama. Deito. Demoro a fazer cada movimento. Sou todo demora agora. De primeira, a perna não atende ao comando do cérebro, os joelhos doem, sempre, em pé mais do que sentado ou deitado. Olhos abertos. No teto, o ventilador de madeira, imóvel, despenca sua pele-verniz. Quantas vezes virei de um lado para o outro da cama buscando a memória de sua companhia?
Levanto novamente, com custo: sede, urina, barulho? Nada disso. Sei que levanto para expulsar da mente a imagem de Ana e meu afeto por ela. Quantifico sentimento, sim. Afeto é diferente de amor, mas também chama por saudade. Tentar colocar meu corpo de pé exige tudo de mim, não resta espaço para devaneios. Olho pela janela, rosto co lado no vidro, nem quente nem gelado, procurando através de sua lente encontrar Ana despontando na esquina. Deito novamente na cama, devagar, mãos apoiadas primeiro, depois deixar o peso do corpo derramar-se sobre o colchão. Caio torto, mas não importa, a cama grande, latifúndio improdutivo. Desta vez fecho os olhos. Com força. Ana sempre tinha o mesmo pesadelo, logo que dormia, pensamento inaugural do sono. Sonhava que eu a deixava. As formas variadas, iguais: eu revelava que tinha outra família, depois ia embora, morria; dizia que não a amava mais, ia embora, morria; a pedia em casamento no ponto mais alto de uma roda-gigante, ia embora, morria.
Ana acordava chorando, eu já de olhos abertos, vigília premeditada. Ela ensejava dizer alguma coisa, eu a abraçava, abortando qualquer tentativa. Mesmo assim sempre me contava o sonho, pesadelo, com detalhes, e no final reforçava, resumindo: “Você me deixava, morria.”
Um mosquito zumbiu no meu ouvido. Estalei minhas palmas na direção do barulho. Insucesso. O som persistiu e eu abri os olhos, acendi o abajur. O quarto é um silêncio de paredes brancas e porta-retratos nas mesas de cabeceira. Ana testemunha calada, sorriso eternamente congelado, uma felicidade agora totalmente despropositada. Numa foto está vestida de noiva, mas não é a minha preferida. A que mais gosto é dela um pouco mais velha, no dia em que trouxemos Marlene, mas na foto só Ana aparece, não olha para a câmera ou para mim, o fotógrafo, olhava para a filha, um bebê já gorducho, dormindo no berço.
O mosquito sumiu. Olho para o lado, o travesseiro dela intocado, intocável, os lençóis não desfeitos, o edredom no lugar, as três almofadas que Ana usava no final sem marca de uso, peso. A Ana do final da vida vai se apagando, a não ser nesses detalhes. Lembro dela mais jovem, quase bonita, judia. É com essa Ana que casei e continuo casado, mesmo depois de sua morte.
Decido ligar o ventilador para encontrar o mosquito, e é claro que com isso quero ganhar tempo, mesmo perdendo. As duas mãos apoiadas na cama, as pernas fincadas no chão, levantar, pôr-se de pé, caminhar, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, os primeiros passos ainda pedindo ajuda do cérebro, depois não. O ventilador agora rodando, muito barulho, suas pás fazendo um movimento que não é o de 360 graus, algo como 390, descendo um tanto mais, mergulhando justamente no lado intocado da cama.
Não escuto ou vejo o mosquito, desligo o ventilador. Ele parece agradecer, zumbindo de maneira diferente, quase como se colocasse a língua para fora e ofegasse depois de um pique curto. Já passou da idade, passamos.
Fecho a porta do quarto, e no espelho vejo em minha testa uma marca vermelha, a memória da mordida do mosquito, uma pontinha de sangue extirpado. Ainda me faz companhia, de um modo. Ana também, mas foi embora, morreu.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

27/05/2025

História de família

Nunca quis saber a história da minha família. Meu pai chegou ao Brasil no início do século XX, com 20 e poucos anos. E isto é tudo que sei. Por que veio, não sei. Nunca tive curiosidade para perguntar. Ou talvez tenha tido essa curiosidade tarde demais, papai morreu cedo demais, eu jovem demais quando assumi a vida dele, o trabalho na relojoaria, único jeito de ganhar a vida. Quando percebi já era ele. Meu pai morreu aos 45 e eu com 19, filho único, precisava trabalhar para sustentar minha mãe e no ano seguinte, já casado, também Ana. Trabalhar era debruçar em relógios, encomendar peças, pagar o aluguel da lojinha, sair da Tijuca às seis e meia da manhã, pegar dois bondes e chegar à relojoaria na Senhor dos Passos às oito em ponto. Sempre vivi preso ao relógio. Todos os dias, menos sábados e domingos.
Assumir a vida dele era sorrir timidamente para a clientela, usar ternos escuros, caminhar de cabeça baixa. Eu fiz tudo isso, foi tudo tão natural. Com 19 anos eu era papai, a vida inteira pela frente não queria dizer mais nada. Meu destino traçado desde então. E cumprido.
Minha mãe falava que ser relojoeiro era um excelente negócio. Relógios serão relógios para sempre, e graças a Deus sempre estragam, e também graças a Ele as pessoas sempre têm carinho por relógios e não compram outro, querem consertá-los. “E se comprarem, que seja conosco”, ela falava, sorrindo, mas séria, educativa. E a melhor coisa, mamãe me disse, cochichando: “Relógios são fáceis de consertar, qualquer um, até você, pode ganhar a vida assim.”
Mamãe estava certa. Consertar relógios sempre foi fácil. É um dos mecanismos de mais simples engenharia. Uma criança mais espertinha de 8 anos poderia fazer o serviço, eu com 19, 78, ao me aposentar. Geralmente os problemas se resumem a uma peça que esgarça ou que se solta pelo contato brusco do relógio com alguma superfície, ou à bateria que finda. Com as ferramentas certas, encomendando peças novas, sorrindo e prometendo consertar o estimado relógio que está na família há tanto tempo, o precioso presente do pai, marido, esposa, era possível ganhar a vida sem muito suor. Desde que também se vendam uns relógios novos e caros de vez em quando.
Talvez eu tenha um talento que sempre me facilitou o labor, talvez não. Mas passei quase 60 anos consertando relógios e nunca falhei. Poucas vezes aconselhei que o dono desistisse, mas eram casos de relógios vagabundos, em que a peça nova sairia mais cara que um novo. Minha sinceridade e competência me mantiveram no negócio até hoje-ontem, numa época em que quase ninguém manda consertar relógios. Quando me aposentei e entreguei a lojinha alugada, o mundo já aposentara a minha profissão, a profissão do meu pai.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

24/06/2023

Em paz

Parece que envelheço em semanas, não em horas. Os dias passam rápido nesse marasmo em que o calendário perdeu todo o sentido. O porteiro me cumprimentou com quatro dentes a mais nessa manhã, entregou a correspondência em mãos. Então soube que estávamos em dezembro, o livro de ouro aberto na mesa da portaria, ao lado da central de interfone. Ignorei. Retribuí apenas com o obrigado habitual, bom-dia. “Fique com Deus, seu Natan”, ele fez questão de falar. Cada vez que ouço Deus saltar da boca de uma pessoa que não parou para pensar na existência Dele por mais de cinco minutos na vida, fico irritado. Hoje em dia Deus e Jesus são sinônimos, e é impossível pagar um táxi, dar uma esmola, ou se despedir da faxineira sem que uma dessas entidades abstratas invada seus ouvidos. Dizem Deus, Jesus, como poderiam dizer Meu Amo, Senhor, Alah, Adonai. Falam Deus o abençoe e acreditam que têm esse poder, evocar a piedade de um ser supremo para uma pessoa que lhe fez um pequeno favor.
Ana era religiosa, ainda mais depois da doença, das doenças, e combati esse fanatismo silenciosamente dentro da minha própria casa durante nossos 46 anos de casamento. Antes, sempre, judia, no final, inexplicavelmente, católica. Na mesma frase em que me contou que estava com câncer nos pulmões acrescentou que Deus sabia o que estava fazendo, e aquilo me irritou tanto que, em vez de confortá-la, gritei para ela esquecer aquela merda de Deus.
Esperei que ela chorasse, respondesse, mas. Nada. Os olhos se diluindo em piedade, as lágrimas represadas não desceram, e ela ergueu a cabeça, segurou minhas mãos e me pediu calma. Calma, pensei, mas você tem câncer! Continuou, como se tivesse me ouvido:
Eu estou em paz. Nunca me senti tão em paz, Natan.”
E nos olhos negros dela, absurdamente brilhantes com aquela poça d’água que não desabava, eu via que ela estava mesmo em paz, calma, obscenamente calma. Mas Ana não estava apenas com câncer, estava esquecida, e aquela felicidade imunda que ela encenava só me apontava que, quando o câncer chegou, Ana já não era ela mesma. Ela me puxou para um abraço e finalmente chorei, por nós dois. Ana me reconfortou, puxando minha cabeça para o seu ombro, a mão espalmada na minha nuca:
Ficaremos bem.”

Flávio Izhaki, in Amanhã não tem ninguém

22/05/2023

Não tem ninguém

Natan e Marlene

Envelhecer é um processo lento. Dizem. Não concordo. No meu caso foi tudo muito rápido; de repente inválido, ou quase. De uma hora para outra incapaz de levantar o braço mais de 60 graus, atravessar o sinal correndo sem sentir palpitação, ficar na chuva e não pegar resfriado, pneumonia. Ainda ontem era boliche no fim de semana, vai e vem de clientes na relojoaria, eu como dono e único funcionário, viagem de carro nas férias, seis horas dirigindo. Ana como testemunha da minha vitalidade, virilidade, Marlene gritando por atenção no banco de trás.
Natan, pega a lata de atum no armário”, ela me pediu num sábado à tarde.
Tentei esticar o braço, as pernas, mas de repente o joelho cedeu, caí no chão. Ana se assustou, virou-se nervosa, tentou me levantar já perguntando se eu estava bem, se tinha me machucado. Respondi que estava bem, mas as palavras não saíram. Disse que achava que tinha perdido a voz, mas as palavras não saíram. Ana me olhava ansiosa, o rosto contraído. “O seu rosto”, ela falou. Não, o seu, pensei, o seu rosto. Mas ela repetiu: “O seu rosto. Tenta mexer a boca.” E eu mexi. Mas ele não mexeu. “Tenta mexer”, ela repetiu. E então entendi que não estava mexendo o rosto, a boca, o braço direito, o joelho dobrado, a perna adormecida. Todo um lado do meu corpo paralisado, incapaz. Subitamente meu corpo já não me pertencia.
Lembro de cada esgar em sua boca ligando para a ambulância, das palavras explicando como eu estava, da paralisia. Ficou em silêncio alguns segundos, escutando, depois colocou a mão tampando o bocal, não sei bem por que, e perguntou se eu estava entendendo a situação: “A ambulância já vem, meu amor.” E ela nunca me chamava de amor. Não respondi, assenti com a cabeça, com os olhos. Ela sorriu, e se permitiu derramar a primeira lágrima, pesada, caudalosa: “Ele fez com os olhos que entende o que aconteceu. Ok. Rápido, por favor.”
Ela sentou comigo no chão da cozinha: “Tá gelado”, disse. Eu não sentia nada. Abraçou-me e puxou minha cabeça para o seu colo, acariciando meu rosto, o lado direito do meu rosto, e o que sentia era uma memória de contato físico, a saudade de um formigamento que não existia, um silêncio entre peles.
A ambulância não demorou. A humilhação de sair do edifício numa maca, as pessoas na rua se aproximando, curiosidade. Meus olhos procurando contato, falar pela boca, explicar quem eu era, o que estava sentindo, não sentindo. As portas da ambulância se fecharam e olhei para Ana. Ela segurava minha mão. O tempo todo segurando um membro morto, eu não sentia nada, uma carne inválida, esvaída de toda sua força. “Vai dar tudo certo, meu amor”, novamente amor, pensei. Tentei sorrir, confortá-la. Mas lembrei que não conseguia. E as lágrimas dela continuavam, não mais tímidas, solitárias, mas acompanhadas pelo fungar do nariz – bastava que Ana chorasse para que o seu nariz entupisse. “Não chora, meu amor”, ela disse e limpou as minhas lágrimas, e assim soube que eu também chorava, involuntariamente.

Flávio Izakhi, in Amanhã não tem ninguém

15/05/2023

Amanhã não tem ninguém | Prólogo


Quando se começa a apertar, não há volta.”
Herta Müller

Você vai no carro com o seu avô.” Bisavô, eu quis dizer, mas o rabino já tinha fechado a porta da Kombi e agora éramos eu, o caixão do meu bisavô e o motorista – um rapaz apenas alguns anos mais velho que defendia sua responsabilidade com um bigode ralo.
Eu abri o vidro do carro fazendo uma força incrível para girar a manivela, a porta gemendo como se fosse desmontar. O rapaz colocou a chave na ignição da Kombi, o motor acordou, espreguiçando-se com um arroto, um barulho assustador, nem um pouco solene. O carro todo tremelicava, minhas bochechas ondulavam. Chamei o rabino e a voz saiu como um soluço engasgado pelo motor da Kombi. “O que eu tenho que fazer?”, perguntei. Ele me olhou, impaciente, gelado, e perguntou a minha idade. “Treze”, respondi. “Você fez o bar mitzvah, não é?” A pergunta, uma afirmação. Não, a resposta verdadeira. Sim, a esperada, e assenti positivamente, um aceno de cabeça comicamente exagerado pelo tremer do carro. Com o corpo do meu bisavô morto na Kombi, sob o mesmo teto do meu bisavô que trabalhou por 60 anos, rezava todas as sextas e jejuava no Yom Kipur, eu disse que sim, menti.
O rabino fechou os olhos, a pálpebra parecendo ter o peso da minha mentira, e disse, ainda sem abrir os olhos: “Então pense nele, reze por ele.”
Um solavanco, o carro começou a andar, o caixão dando leves quiques na parte de trás da Kombi. “Não se preocupe”, o motorista, “não vai soltar. O caixão está bem preso.” O carro passou pelo portão do Chevra Kadisha e o calor então era absurdo, só me vinham à mente os ternos negros do meu bisavô e a história que a minha avó sempre contava sobre o dia em que ele teve que assumir o negócio do pai, falecido, aos 19 anos, que do trabalho dele dependiam a mãe e ele próprio, sem isso não teriam dinheiro para a comida no mês seguinte. E eu ali, bastava pensar nele, sobre ele, e já morrendo de medo e preocupação em falhar.
O rabino tinha dito: “Pense nele, reze por ele”, mas rezar eu não podia, sabia e muito mais não tinha conhecimento sobre aquela pessoa morta cujo corpo, caixão, quicava numa Kombi branca em pleno sol de meio-dia, meu bisavô. Meu contato com ele fora mínimo; ele no Rio, eu em São Paulo. Ele velho, muito velho desde que nasci e nos últimos anos com o corpo desmilinguindo em pele e osso, o olhar apagado pela névoa branca que tirava o viço dos olhos, a boca levemente torta quando falava. Pense nele. Tentei, e minha última lembrança, a primeira que veio, foi do dia em que ele me dera seu canivete gasto, a lâmina enferrujada, alaranjada pelo desuso. Ele me entregou o canivete e eu olhei como se perguntasse: o que vou fazer com isso?, e meu bisavô disse, em seu tom baixíssimo, um sopro quase inaudível, que com ele eu poderia cortar a camisa quando uma pessoa da família morresse, em sinal de luto. Logo arregalei os olhos, pensando que presente mais fúnebre, triste, chato, inútil, mas depois fiquei imaginando quem seria a pessoa da família que poderia morrer. Acho que não agradeci, baixei a cabeça, esperava um presente mais interessante, tive medo que a pessoa que morresse fosse meu pai, minha mãe. Não: definitivamente meu pai, o neto dele. Levantei a cabeça, já pensando em retornar o presente, ele sorria triste, e tossiu – meu bisavô vivia tossindo; talvez minha memória mais forte dele seja essa, ele sempre tossindo, acenando para a minha avó, sua filha, trazer um cinzeiro de prata que ele chamava de minha escarradeira, enquanto a baba pendia entre a boca e a escarradeira, o cinzeiro, num equilíbrio improvável que poderia durar minutos, valsa demorada, dois para lá, um para cá – até que entendi que aquele canivete seria usado para cortar minha roupa justamente no dia da morte dele.
Apalpei meus bolsos, desperto depois de mais uma curva e um rufar do caixão – um lamento? –, em busca do canivete. Nada nos bolsos da calça, procurei na mochila, bolso da frente, e lá estava, mesma forma, o mesmo peso, mas não era. Meu celular. Tinha esquecido o canivete, relegado ao fundo de uma gaveta e logo agora a lembrança, o peso na consciência. Olhei novamente para trás, o corpo do meu bisavô. Em seguida, serpenteando pela avenida Brasil, uma rabiola de carros seguindo a Kombi, primeiro o do meu pai, com minha avó na frente, seu olhar duro, distante.
O motorista perguntou: “Seu avô?” “Bisavô”, disse, contente em finalmente conseguir retificar. “Posso fazer outra pergunta?” Respondi que sim, quase agradecendo a ele por me puxar daquele emaranhado de lamentações e culpa: “Por que vocês enterram com caixão fechado?” Vocês, nós judeus. Eu, judeu. Simples, uma pergunta boba, e acho que até sorri, a resposta esgueirando-se entre os caninos; mas ela não saiu, ficou presa, enclausurada, e minha boca fechou-se levando com a demora o sorriso. Vasculhei minhas lembranças, as aulas de judaísmo que não frequentei pela decisão de ignorar o bar mitzvah, com o apoio da minha mãe e a anuência calada do meu pai, descrente, e nada. O silêncio pesando, os segundos correndo mais que a Kombi; o motorista repetiu a pergunta, um tom acima, acreditando que eu não tinha ouvido.
Por que vocês enterram com caixão fechado?”
Não sei.”
Um fiapo envergonhado de voz. Ele olhou da avenida para os meus olhos, e enxergou a culpa, a vergonha, e novamente para a avenida, em silêncio. Aquela situação não poderia se prolongar mais. “Quanto tempo ainda?”, perguntei.
Quinze minutos.”

Flávio Izhaki, in Amanhã não tem ninguém