Eu tinha acabado de sair da sinagoga, prometido ao rabi Shlomo que não faltaria mais às aulas. Ele tinha me dado uma bronca com palavras sérias, pesadas, citando o Antigo Testamento de cor, passagem por passagem, exemplo por exemplo. Fez-me prometer que estudaria o Livro, que seguiria os ensinamentos. A sinagoga ficava perto da praça Saens Peña, e de lá para casa eram duas estações do metrô. Eu sempre gostei de ir no último vagão, e estava esperando pelo próximo trem – o anterior saíra quando eu descia as escadas. Caminhei para o lado esquerdo, penúltima porta. Sempre ia ali, como uma mania, superstição, mesmo sendo errado acreditar em crendices de que o Livro não fala. Ele veio andando em minha direção, olhando nos meus olhos desde muito longe. Quarenta metros e aquele olhar que eu ainda nem percebia ser azul me desafiando, 30 metros, sedução. Seu corpo frágil, esguio, um pouco mais alto do que eu, mas magro, quase magro demais. Os olhos azuis nos meus, 20 metros, e eu nem acreditava. De repente o Livro, rabi Shlomo, Moisés e seus olhos ferozes de verdade, a Verdade – mas ele tinha os olhos de Jesus, ele tinha a bondade de Jesus nos gestos, ele tinha a sensualidade que Jesus tinha ao abençoar os pobres. Dez metros, e ele tão gay quanto eu desejo não ser, tão afeminado, e olhava nos meus olhos, cinco metros, a calça jeans apertada no corpo, a cintura baixa, uma camisa azul, um azul-marinho contrastando com os olhos claros dele. Ele passa e me convida com os olhos, me intima com os lábios finos, finos, vermelhos, sua palidez excessiva contrastando com a minha pele amarelada, marcada de espinhas que não sei controlar. Ele para, de costas, sua bunda, sua bunda é magrinha, linda, e imagino que ele não pode ter gostado de mim, isso não teria explicação, mas ele vira novamente, me olha de cima a baixo, sorri, sorri triste, e se vira novamente.
Penso em ir até ele, quero ir até ele, mas e Moisés?, e o rabi Shlomo com seus tufos de pelos esfumaçando as orelhas, e o inferno logo ali na religião alheia?; ele talvez seja um enviado do diabo, escuto o rabi falando em meu cérebro, ele é um dibuk querendo te atrair, e seu tom de voz é alto, altíssimo, grave. Mas é o metrô que chega, ouço o barulho, vejo as luzes amarelas do farol na curva. Quando a porta do metrô se abrir, entrarei na mesma porta que ele, penso, vou parar ao lado dele, segurarei sua mão por um segundo apenas e ele vai entender que... ele volta a olhar para mim; ele voltou a olhar para mim, e se jogou. Atirou-se na frente do metrô. O corpo ricocheteou no vidro do maquinista, e subiu, subiu, veloz, e os gritos, meu grito mais alto do que todos, e o corpo dele desceu e caiu, inerte, no teto do segundo vagão, e o barulho do freio do metrô não consegue abafar os gritos, o meu grito, o metrô para 50 metros adiante e vou correndo em sua direção, e ele está em cima do segundo vagão, morto, mas ainda lindo, branco, sem marcas aparentes de sangue, mas morto, o braço quase pendendo pela porta que abre e fecha sem ninguém passar por ela, todos gritam, e ele morto, lindo, seus olhos agora sem vida, o azul sem viço é branco, sua cabeça estirada no teto do metrô, na minha direção, e a boca aberta, seu esgar parece um sorriso, um sorriso de convite, para mim. Corro para fora da estação e vomito. A sinagoga ali do lado, duas esquinas apenas. Preciso falar com o rabi Shlomo, confessar essa morte que carrego, outra, pedir perdão ao que não ouso pronunciar o nome pelo pecado ensejado. Mas só consigo pensar nele, em sua beleza, em seus olhos azuis, e volto para a estação do metrô, salto a roleta, os seguranças estão lá embaixo tentando controlar os populares, chego perto do corpo, “Ninguém se aproxima”, grita um dos seguranças, travo, tenho medo, medo da culpa, receio que alguém tenha me visto sorrindo para ele, alguém tenha escutado meus pensamentos sobre a bunda dele, seus olhos, alguém diga que a culpa por aquela morte é minha – e sei que é!, tenho certeza que é!, fui eu quem o empurrei com meus olhares insistentes. Sinto medo, pânico, culpa, e volto a sair correndo da estação.
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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