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16/01/2026

Para ler bem

 “É preciso ser um inventor para ler bem.”

Ralph Waldo Emerson, em The American scholar, 1837

01/11/2019

Linguagem

LINGUAGEM é a terceira utilidade que a natureza põe à disposição do homem. A natureza é o veículo do pensamento, e em nível triplo.

1. As palavras são signos de fenômenos naturais.
2. Certos fenômenos naturais são símbolos de certos fenômenos espirituais.
3. A natureza é o símbolo do espírito.

1. As palavras são signos de fenômenos naturais.
Recorrer à história natural há de nos ajudar na história sobrenatural; recorrer à criação exterior nos dará uma linguagem para as entidades e transformações da criação interior. Cada palavra utilizada para expressar um fato moral ou intelectual, se delineada desde sua raiz, baseia-se em um empréstimo feito a alguma manifestação natural.
Direito quer dizer reto; errado quer dizer torto. Espírito é essencialmente vento; transgressão é o cruzamento de uma linha; supercílio é o levantar da sobrancelha. Dizemos coração para expressar a emoção, cabeça para denotar o pensamento; e pensamento e emoção são palavras tomadas às coisas sensíveis e atribuídas à natureza espiritual. A maior parte do processo pelo qual se cumpre essa transformação foi ocultado de nós nos remotos tempos da formação da linguagem; mas a mesma tendência pode ser observada diariamente nas crianças. As crianças e os selvagens usam apenas substantivos ou nomes, que convertem em verbos e aplicam aos atos mentais análogos a essas mesmas coisas.

2. Mas essa origem de todas as vozes que transmitem um significado espiritual – fato tão conspícuo da história das línguas – é a menor das dúvidas que temos da natureza. Não apenas as palavras são emblemáticas: as coisas mesmas o são. Cada fenômeno natural é um símbolo de um fenômeno espiritual. Cada manifestação da natureza corresponde a um estado da mente, e a esse estado da mente só podemos descrever apresentando sua manifestação natural como sua imagem. Um homem enfurecido é um leão, um homem astuto é uma raposa, um firme é uma rocha ou um sábio é uma luz. O cordeiro é a inocência; a serpente, o insidioso rancor; as flores expressam para nós as afeições delicadas. Luz e escuridão são nossa forma habitual de nos referir ao saber e à ignorância; o ardor, nossa expressão usual da paixão amorosa. A distância que divisamos atrás de nós e a que divisamos adiante são, respectivamente, nossas imagens de lembrança e esperança.
Quem, ao observar a corrente de um rio, não relembra o fluir de todas as coisas? Lança nele uma pedra, e os círculos que se propagam são o belo modelo de toda influência.
O homem é consciente de uma alma universal que está dentro ou por trás de sua vida individual, de onde as essências da Justiça, da Verdade, do Amor e da Libertade surgem e brilham como em um firmamento. Esta Alma Universal – que não é minha, nem vossa, nem daquele outro, senão que nós somos dela, somos sua propriedade e seus hóspedes – ele chama Razão. E o céu azul em que a terra de cada qual está enterrada, o céu com sua calma eterna e seus orbes perpétuos, é o modelo da Razão. Aquilo que, intelectualmente considerado, chamamos Razão, se considerado em relação à natureza, chamamos Espírito.
O Espírito é o Criador. O Espírito porta consigo a vida. E em todas as épocas e países, o homem o incorporou em sua linguagem como o PAI.
Vê-se facilmente que essas analogias nada têm de felizes ou caprichosas, senão que são constantes e impregnam a natureza. Não são sonhos de uns poucos poetas, dispersos aqui e ali, senão que o homem é um analogista e estuda as relações em todos os objetos. Localizado no centro dos seres, um raio de relação o une com todos eles.
E não é possível com prender ao homem sem esses objetos, nem a esses objetos sem o homem. Tomado em si mesmo, nenhum fenômeno da história natural tem valor, é estéril como um só sexo; mas case-o com a história humana, e se preencherá de vida. Floras inteiras, todos os volumes de Lineu e Buffon, são áridos catálogos de acontecimentos naturais; mas o mais trivial destes acontecimentos, os hábitos de uma planta, os órgãos de um inseto ou o trabalho que realiza ou o ruído que emite, empregados para ilustrar um feito da filosofia intelectual ou de algum modo associados com a natureza humana, afetam-nos de uma maneira intensa e gratificante. A semente de uma planta, – a que comoventes analogias com a natureza do homem já não deu lugar esse pequeno fruto em todo tipo de discursos, até chegar à voz de Paulo, que compara o cadáver do homem com uma semente – “semeia-se um corpo natural, ressuscita um corpo espiritual.” O ao ano; essas são quantidades certas de luz e calor elementares; porém, não há acaso na intenção de uma analogia entre a vida do homem e as estações? E não extraem as estações grandeza ou pathos dessa analogia? Os instintos da formiga têm muito pouca importância, considerados como coisa de formiga; mas enquanto um raio de relação parte dela e alcança o homem, a pequena escrava é vista como uma atleta de corpo pequeno e grande coração, e todos os seus hábitos (inclusive aquele que, segundo se diz, foi descoberto recentemente: o de que nunca dorme) se tornam sublimes.
Por causa dessa radical correspondência entre as coisas visíveis e os pensamentos humanos, os salvagens, que só têm o que é necessário ter, conversam mediante figuras. A medida que voltamos nas idades históricas, a linguagem se torna mais pictórica, até que ao chegar à sua infância é poesia total, ou seja, que todos os acontecimentos espirituais sejam representados por símbolos naturais.
Comprova-se que os mesmos símbolos compõem os elementos primitivos de todas as linhas. Observou-se, ademais, que as expressões idiomáticas de todas as línguas se aproximam umas das outras nas passagens de maior força e eloquência. E assim como é a primeira língua, é também a última. Essa dependência direta entre a linguagem e a natureza, essa conversão de um fenômeno externo em um modelo de algo vinculado com a vida humana, nunca perde a capacidade de nos comover. É isto o que dá à prática de um vigoroso fazendeiro ou lenhador esse cativante atrativo que todos saboreiam. O poder de um homem para ligar cada um de seus pensamentos com seu símbolo apropriado e então proferi-lo, depende da simplicidade de seu caráter, vale dizer, de seu amor à verdade e de seu anseio de comunicá-la sem perda. À corrupção do homem segue-se a corrupção da linguagem. Quando a simplicidade do caráter e a soberania das ideias são quebradas pelo predomínio de desejos secundários – o desejo de riquezas, de prazeres, de poderio, de fama –, e a duplicidade e a falsidade tomam o lugar da simplicidade e verdade, o poder adquirido sobre a natureza como intérprete da vontade se perde em certo grau; deixam de criar-se novas imagens, e as antigas palavras são pervertidas para representar coisas que não são; se recorre a um papel-moeda, ainda não há linguotes que o respaldem nas arcas públicas. A seu devido tempo, a fraude se torna manifesta, e as palavras perdem toda sua faculdade de estimular o entendimento ou as emoções.
Em toda nação civilizada, muito tempo atrás, podem ser encontradas centenas de escritores que, durante um breve lapso, creem e fazem outros creer que contemplam e enunciam verdades, quando em realidade, não vestem por si mesmos a um só pensamento com suas roupagens naturais, senão que se alimentam inconscientemente da linguagem criada pelos escritores primordiais do país, a saber, aqueles que se atêm fundamentalmente à natureza.
Mas os homens sábios abrem seus caminhos através desta dicção putrefata e voltam a enlaçar as palavras com as coisas visíveis; de modo tal que uma linguagem figurativa é de imediato uma convincente garantia de que quem a emprega terá estabelecido uma aliança com a verdade e com Deus. Quando nosso discurso se eleva por sobre o conhecido e se inflama com a paixão ou se exalta com o pensamento, investe-se de imagens. Se o homem que dialoga seriamente presta atenção aos seus processos intelectuais, descobrirá que uma imagem material mais ou menos luminosa surge em sua mente junto com cada pensamento e lhe proporciona sua veste. Por isso, a boa literatura e a oratória brilhante são perpétuas alegorias.
Esse imaginário é espontâneo. São a fusão da experiência com a ação presente da mente. É a própria Criação. Isto é a atuação da Causa Original através dos instrumentos que ele já criou.
Os fatos podem sugerir as vantagens que a vida no campo oferece a uma mente poderosa, em relação a vida artificial e opressiva das cidades. Nós sabemos que a natureza nos ensina mais coisas do que podemos transmitir pela vontade. Sua luz penetra para sempre no espírito, e nos esquecemos da sua presença. O poeta ou o orador criado nos bosques, cujos sentidos se nutriram ano após ano de suas equânimes e apaziguadoras transformações, sem que houvesse se proposto nem lhe prestado atenção, não esquecerá as lições quando estiver em meio ao estrépito das cidades ou ao tumulto da política. Muito tempo depois, sacudido entre a agitação e o terror nas assembleias nacionais – na hora da revolução –, reaparecerão ante ele essas imagens solenes em seu brilho matinal, como símbolos e palavras adequados às ideias que os acontecimentos do momento despertam. Ao chamado de um nobre sentimento, voltam a balançar as florestas, a murmurar os pinheiros, a correr as águas cintilantes do rio, a mugir o gado nos montes, tal como o viu e ouviu em sua infância. E junto com essas formas, são postos em suas mãos os feitiços da persuasão, as chaves do poder.

3. Desta maneira os objetos nos auxiliam na expressão de significados particulares. Porém, que linguagem gigantesca para transmitir essas minúsculas informações! Necessitava ela destas nobres raças, desta profusão de formas, desta hoste de orbes no céu, para dotar ao homem do dicionário e da gramática de seu idioma comunitário? Ao usar este grande código para despachar nossos assuntos mais banais, sentimos que não lhe demos ainda o destino que merece, nem somos capazes de lhe dar. Nos assemelhamos a viajantes que cozinham ovos nas cinzas de um vulcão.
Vemos a linguagem, sempre pronta a investir o que queremos comunicar, e ao mesmo tempo não podemos evitar de nos perguntar se os caracteres não serão significativos em si mesmos. As montanhas, as ondas do mar, o céu, não têm nenhum outro significado além dos que deliberadamente lhes damos quando os empregamos como emblemas de nosso pensamento? O mundo é emblemático. As partes da oração são metáforas, porque a natureza toda é uma metáfora da mente humana. As leis da natureza moral respondem as da matéria, como um rosto ao outro no espelho. “O mundo visível e a relação que guardam suas partes são o quadrante em que se estampa o invisível” . Os axiomas da física traduzem as leis da ética: “O todo é maior do que suas partes”, “A reação é igual à ação”, “Um objeto de menor peso pode elevar a outro de maior peso, sendo a diferença compensada mediante o tempo”, e muitas proposições similares têm um sentido ético ao mesmo tempo que físico. O sentido destas proposições é muito mais amplo e universal quando aplicado à vida humana, e não quando é limitado ao uso técnico.
Analogamente, as frases históricas memoráveis e os provérbios dos povos consistem, em geral, em um fenômeno natural tomado como imagem ou parábola de uma verdade moral. Assim, temos: “Pedra que rola não junta musgo”; “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”; “Um aleijado pelo bom caminho chega antes que um atleta pelo caminho errado”; “O ferro tem de ser golpeado quando está em brasas”; “Vinho doce dá vinagre amargo”; “A última gota é a que faz transbordar o copo”; “As árvores mais grossas são as que melhor afundaram suas raízes”, e assim sucessivamente.
Em seu sentido primário, esses são fatos triviais, mas se os repetimos é por seu valor analógico. E o que é válido para os provérbios também é para as fábulas, parábolas e alegorias.
Essa relação entre a mente e a matéria não é o produto da fantasia de um poeta, senão fruto da vontade de Deus, e todos os homens estão livres para conhecê-la. Isto lhes aparece ou não lhes aparece. Quando em horas fortuitas meditamos sobre esse milagre, o homem sábio duvida se, em todas as demais horas, não estava cego e surdo.
Podem estas coisas ser, E envolver-nos como nuvem de verão, Sem nosso especial espanto?”
Pois o universo se torna então transparente e é atravessado pela luz de leis superiores a nossa. É esse o problema que afinal provocou o assombro e o estudo de todos os grandes gênios, desde que o mundo começou; desde a era dos egípcios e dos brâmanes até a de Pitágoras, Platão, Bacon, Leibnitz, Swedenborg. Aí, senta-se a Esfinge à beira do caminho, e de época para época – cada profeta que surge trata de decifrar seu enigma. O espírito parece ter a necessidade objetiva de se manifestar em formas materiais; e o dia e a noite, o rio e a tormenta, o mamífero e o pássaro, o ácido e o alcalino, preexistem como ideias necessárias na mente de Deus, e são o que são em virtude de atributos precedentes no mundo do espírito. Um feito é o ponto final, a emanação última do espírito. A criação visível fecha a circunferência do mundo invisível. “Objetos Materiais,” disse um filósofo francês, “são necessariamente uma espécie de scoriae dos pensamentos substanciais do Criador, que devem sempre preservar uma exata relação com sua origem primeira; em outras palavras, a natureza visível precisa ter um lado espiritual e moral”.
Essa doutrina é abstrusa e, através das imagens de “vestuário”, “escória”, “espelho” e companhia, pode estimular a fantasia; nós devemos convocar a ajuda de mais vitais e sutis expositores para torná-la simples. “Cada escritura é para ser interpretada pelo mesmo espírito que a concebeu”, é a lei fundamental do criticismo. Uma vida de harmonia com a natureza, o amor pela verdade e virtude, purgarão os olhos para entender seu texto. Em níveis, podemos chegar a conhecer o sentido primitivo dos objetos permanentes da natureza, para que o mundo possa ser para nós como um livro aberto, e cada forma um significante da sua vida oculta e causa final.
Um novo interesse nos surpreende, enquanto, sob a perspectiva sugerida agora, contemplamos a temerosa extensão e multitude dos objetos, já que “todo objeto, visto corretamente, libera uma nova faculdade da alma.”
O que era verdade inconsciente passa a integrar, quando o interpretamos e definimos em um objeto, o domínio do saber: uma nova arma no arsenal do poderio humano.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza A Bíblia do Naturalismo

27/10/2019

Natureza

Para estar em solidão, um homem necessita apartar-se tanto da sociedade como de seu próprio quarto. Eu não estou só quando leio e escrevo, ainda que ninguém esteja comigo. Se o homem há de estar só, que olhe as estrelas.
Os raios que vêm desses mundos celestiais se interporão entre ele e o que o toca. Diria-se que a atmosfera teria sido feita transparente com esta intenção: brindar ao homem, nos corpos celestes, com a presença perpétua do sublime.
Vistos os astros desde as ruas da cidade, quanta é a sua grandeza! Se as estrelas aparecessem apenas uma noite em mil anos, como creriam nelas os homens e as adorariam, e preservariam por muitas gerações a lembrança da cidade de Deus que lhes foi mostrada! Sem embargo, esses emissários da beleza chegam noite após noite e alumbram o universo com seu sorriso admonitório.
Os astros despertam certa reverência, pois ainda que sempre estejam presentes, são inacessíveis; mas todos os objetos naturais exercem análoga impressão quando a mente está aberta a seu influxo. A natureza nunca mostra uma aparência vulgar. Nem o mais sábio dos homens pode lhe arrancar seu segredo, nem é capaz de acalmar sua curiosidade descobrindo toda sua perfeição. Para os espíritos sábios, a natureza jamais foi um brinquedo; as flores, os animais, as montanhas refletiram a sabedoria de seus melhores anos, tal como haviam deleitado a simplicidade de sua infância.
Quando falamos da natureza deste modo, temos em mente um sentido diverso, sobretudo poético. Queremos significar a impressão global que causam os múltiplos objetos naturais. Isso é o que distingue o pedaço de pau, que tem diante de si o lenhador, da árvore do poeta. A encantadora paisagem que contemplei esta manhã é composta indubitavelmente de umas vinte ou trinta fazendas. Miller é o dono daquele campo, Locke daquele, e Manning do arvoredo mais adiante. Porém, nenhum deles possui a paisagem. Há uma qualidade no horizonte, da qual nenhum homem é dono; só o é aquele cuja visão pode integrar todas as partes, vale dizer, o poeta. É a melhor parte das fazendas desses homens e, no entanto, seus títulos de propriedade não lhes dão direito sobre isso.
Para falar francamente, poucos adultos são capazes de ver a natureza. A maioria das pessoas não vê o sol.
Ao menos, têm uma visão muito superficial dele. O sol ilumina unicamente o olho do homem, mas resplandece em contrapartida no olho e no coração do menino. O amante da natureza é aquele cujos sentidos interiores e exteriores ainda seguem amoldados verdadeiramente um ao outro; aquele que conservou em sua maturidade o espírito da infância. Seu relacionamento com o céu e com a terra se torna parte de seu sustento diário. Em presença da natureza, um deleite selvagem flui através do homem, a despeito dos seus infortúnios reais. A natureza diz: Eis aqui a minha criatura, e apesar de suas impertinentes aflições, comigo estará contente. Não só o sol e o verão, senão cada hora e cada estação do ano rendem seu tributo de prazer; cada hora e cada mudança correspondem um distinto estado mental, desde o meio-dia sufocante até a tenebrosa meia-noite. A natureza é um cenário que se adapta igualmente bem a uma peça cômica ou trágica.
Quando alguém está são, o ar é um licor de incríveis virtudes. Cruzando sobre a neve fresca um campo despovoado, sob um céu nublado e crepuscular, e sem que me venha à mente nenhum augúrio particularmente bom, senti uma satisfação perfeita. Estou contente à beira do temor. Na mata, um homem também se desprende de seus anos, como uma serpente de sua pele, e em qualquer etapa de sua vida é sempre um menino. Na mata, está a perpétua juventude. Nessas plantações de Deus reinam a santidade e o decoro, luzem as galas e atavios de um festival perene, e o visitante não vê como poderia se cansar de tudo aquilo nem em mil anos. Na mata, retornamos à razão e à fé. Ali sinto que nada haverá de acontecer-me na vida – nenhuma desgraça, nenhuma calamidade (que não danifique minha vista) – sem que a natureza o possa curar. De pé sobre a terra nua, banhada minha fronte pelo ar leve e erguido ao espaço infinito, todo mesquinho egoísmo se dilui. Me converto em um globo ocular transparente; nada sou: tudo vejo; as correntes do Ser Universal me circulam; sou uma porção de Deus. O nome do meu amigo mais íntimo me soa então estranho e acidental; o sermos irmãos, o sermos conhecidos, o ser amo ou ser servo é uma minúcia e uma moléstia. Sou o amante de uma beleza incontível e imortal. Nos lugares silvestres, encontro algo mais caro e próximo a mim do que nas ruas ou povoados. Na paisagem tranquila e, especialmente, na distante linha do horizonte, o homem contempla algo tão belo como sua própria natureza.
O maior deleite que os campos e os bosques comunicam é a sugestão de uma oculta relação entre o homem e os vegetais. Não estou só, nem ignorado. Fazem-me sinais e eu lhes respondo. O balanço das ramas em meio a tormenta é para mim novo e antigo. Toma-me de surpresa e, apesar disso, não me é desconhecido. Seu efeito é semelhante ao do alto pensamento ou à emoção sublime que me invade quando julgo que estou raciocinando com acerto ou que estou trabalhando corretamente.
Mas o poder de produzir esse encanto não reside na natureza, sem dúvida, senão no homem ou na harmonia de ambos. É preciso fazer uso desses prazeres com grande moderação; pois a natureza nem sempre se disfarça com roupa de festa, e a mesma cena que ontem perfumava e reluzia como para que dançassem as ninfas, hoje está coberta de melancolia. A natureza tem sempre as cores do espírito. Para um homem acometido pela calamidade, o calor de sua própria lareira seria em si mesmo triste.
Há também uma espécie de desprezo pela paisagem, o que sente aquele que acaba de perder um amigo querido, e então o céu já não é tão vasto e nem tão valiosa é a população sobre a qual se estende.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza – A Bíblia do Naturalismo

24/10/2019

Bens Materiais

Quem quer que examine a causa final do mundo discernirá uma multiplicidade de usos que chegam a fazer parte desse resultado. Todos eles admitem ser incorporados a algumas das seguintes classes: Bens Materiais, Beleza, Linguagem e Disciplina.
Sob o nome geral de Bens Materiais, incluo todas as vantagens que nossos sentidos devem à natureza. O que, é claro, trata-se de um benefício temporário e mediato, tal qual seus serviços para a alma. Ainda que módico, é perfeito em seu gênero, e a única utilidade da natureza que todos os homens apreendem. A miséria do homem parece uma petulância infantil quando exploramos a firme e pródiga provisão que tem sido feita para seu suporte e delícia nessa bola verde que o faz flutuar através dos céus.
Que anjos inventaram estes esplêndidos ornamentos, estas ricas conveniências, este oceano de ar acima, este oceano de água abaixo, este firmamento de terra entre os dois?
Este zodíaco de luzes, esta tenda de nuvens respingantes, esta malha listrada de climas, este quádruplo ano? Feras, fogo, água, pedras e milho o servem. O campo é a um só tempo o seu piso, sua oficina, seu jardim e sua cama.
Mais servos esperam ao homem Do que ele tomará conhecimento.”
A natureza, em sua cooperação com o homem, é não só o material, mas também o processo e o resultado. Todas as partes trabalham incessantemente nas mãos umas das outras para o proveito do homem. O vento espalha a semente; o sol evapora o mar; o vento sopra o vapor para o campo; o gelo, do outro lado do planeta, condensa neste a chuva; a chuva sustenta a planta; a planta sustenta o animal; e, assim, as contínuas circulações de caridade divina nutrem o homem.
As artes práticas são reproduções ou novas combinações criadas pelo engenho do homem, a partir dos mesmos benfeitores naturais. Este já não precisa esperar as brisas favoráveis: graças à máquina a vapor, torna realidade a fábula do saco de Éolo e transporta os duzentos e trinta ventos na caldeira de seu barco. Para reduzir a fricção, pavimenta o caminho com barras de ferro, e, subindo a um vagão carregado de homens, animais e mercadorias, lança-se a percorrer o país de povo em povo, como uma águia ou uma andorinha pelo ar. E, tudo somado, como chegou a mudar a face da Terra desde a era de Noé até a de Napoleão! O homem pobre tem cidades, barcos, canais, pontes. Vai ao correio, e a raça humana leva seus recados; à livraria, e a raça humana lê e escreve para ele acerca de tudo o que acontece; aos tribunais, e as nações reparam seus agravos pessoais. Levanta sua casa no caminho, e a raça humana vai todas as manhãs, de pá na mão, retirar a neve para lhe dar passagem.
Mas não há necessidade de elementos específicos nessa categoria de usos. O catálogo é interminável, e os exemplos tão óbvios, que eu devo deixá-los para a reflexão do leitor, com a observação geral de que este benefício venal diz respeito a um bem adicional. Um homem é alimentado, não por poder ser alimentado, mas por poder trabalhar.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza - A Bíblia do Naturalismo

19/10/2019

Beleza

A mais nobre necessidade do homem é servida pela natureza, nomeadamente: o amor à Beleza.
Os antigos gregos chamavam ao mundo kosmos, beleza.
A constituição de todas as coisas ou o poder plástico do olho humano são tais, que as formas primordiais como o céu, a montanha, a árvore e o animal nos provocam deleite em si e por si mesmas. Um gozo que surge de seu perfil, cor, movimento e maneira de agrupá-las. Isso parece dever-se em parte ao olho mesmo, que é o melhor dos artistas. Mediante a ação recíproca de sua estrutura e das leis da luz, produz-se a perspectiva, que integra cada massa de objetos – qualquer que seja seu caráter em um colorido e bem sombreado globo, de tal modo que ali onde os objetos individuais são vulgares e anódinos, a paisagem que eles compõem é bem acabada e simétrica.
E, assim como o olho é o melhor dos compositores, a luz é a primeira entre os pintores. Não há objeto tão execrável que não se torne bonito sob a luz intensa. E o estímulo que esta oferece aos sentidos, e uma espécie de infinitude que possui, como o espaço e o tempo, fazem com que toda a matéria se alvoroce. Até um cadáver tem sua beleza peculiar. Mas, aparte essa graça geral difundida pela natureza, quase todas e cada uma das formas são agradáveis aos olhos, como provam nossas intermináveis imitações de algumas delas: a bolota, a uva, a pinha, a espiga de trigo, o ovo, as asas e o corpo da maioria dos pássaros, a garra do leão, a serpente, a borboleta, as conchas marinhas, as chamas, as nuvens, os brotos, as folhas e as formas de numerosas árvores, como a palmeira.
Para um melhor exame, podemos distribuir em três partes os aspectos da Beleza:

1. Em primeiro lugar, a mera percepção das formas naturais é um gozo. Tanto necessita o homem do influxo das formas e ações da natureza que, em suas funções inferiores, parecem jazer dentro dos confins dos bens materiais e da beleza. Ao corpo e a mente viciados por uma tarefa ou uma companhia perniciosas, a natureza os cura e lhes devolve seu templo. O comerciante ou o letrado que se aparta do estrépito e do tumulto das ruas e olha o céu e os bosques, volta a ser um homem. Em sua calma eterna, reencontra-se consigo mesmo. O olho parece exigir para sua saúde um horizonte. Nunca nos cansamos, contanto que possamos ver longe o bastante.
Porém, em outras horas, a Natureza satisfaz apenas com seu encanto, sem mescla alguma de benefício corpóreo.
Contemplo desde o cume da colina que se instala detrás da minha casa o espetáculo do amanhecer, desde a aurora até o pôr-do-sol, e sinto o que um anjo sentiria. As largas, esbeltas franjas de nuvens flutuam como peixes no mar de luz purpúrea. Desde a terra, como se fosse uma praia, observo esse mar silente. Imagino-me participando de suas rápidas transformações; o ativo encantamento move minha poeira, e eu me dilato e inspiro, em uníssono com a brisa matinal. Como nos diviniza a natureza com uns poucos e baratos elementos! Dá-me a saúde e o dia, e toda a pompa dos imperadores se me tornará ridícula. A aurora é minha Assíria, o crepúsculo e o claro da lua são minha Pafos e inimagináveis reinos de fantasia; o largo meio-dia será a Inglaterra dos meus sentidos e entendimento; a noite, minha Alemanha da filosofia mística e sonhos.
Não menos excelso – salvo pelo fato de que nossa suscetibilidade é menor de tarde – foi o delicioso crepúsculo de ontem. No poente, as nuvens se dividiam e voltavam a se dividir em flocos rosados com tons de indizível maciez, e o ar de janeiro era tão vivo e suave que entrar em casa causaria um pesar. O que é que queria nos dizer a natureza? Acaso não tinha nenhum significado o vívido repouso do vale detrás do moinho, que nem Homero nem Shakespeare haviam podido recriar em palavras para mim? As árvores desfolhadas se tornam flamejantes espirais no ocaso, sobre a tela de fundo do Leste azulado, e as estrelas dos mortos cálices das flores, e cada tronco seco e cada restolho queimado de geada contribuem em algo com a muda música.
Os habitantes das cidades supõem que a paisagem do campo só é amável durante metade do ano. Eu me comprazo com a graça da cena invernal e creio que nos chega tanto como as influências cordiais do verão. Para o olho atento, cada momento do ano tem sua própria beleza, e em um mesmo lugar do campo contempla-se hora após hora um quadro que não se viu jamais e que jamais se voltará a ver. Os céus mudam a cada instante e refletem sua glória ou sua desdita pelas planícies abaixo.
De uma semana para outra, o estágio das plantações nas fazendas vizinhas altera a expressão da terra. A sucessão das plantas locais nos pastos e caminhos, silencioso relógio mediante o qual o tempo marca as horas estivais, faria perceptíveis até as divisões do dia a um fino observador.
Revoadas de pássaros e insetos, pontuais como as plantas, seguem-se umas às outras, e em um ano cabem todos. Nas águas correntes, a variedade é ainda maior. Em julho, nos baixios de nosso amável rio, florescem em grandes leitos as pontederias azuis, frequentadas por borboletas amarelas em contínuo movimento. A arte não pode rivalizar com esta pompa de ouro e púrpura. O rio está, em verdade, perpetuamente engalanado, e enverga a cada mês um novo adorno.
Mas esta beleza da natureza que se vê e sente como tal é a menor de suas partes. Os espetáculos do dia, a orvalhada manhã, o arco-íris, montanhas, hortos floridos, estrelas, o claro da lua, as sombras na água quieta e assim sucessivamente, se perseguidos com demasiado afinco, tornam-se meros espetáculos e zombam de nós com sua irrealidade. Saia de sua casa para ver a lua, e não passa de lantejoula; não será tão agradável como quando sua luz alumbra a sua viagem indispensável. Quem pode capturar a beleza que tremeluz nas amarelas tardes de outubro? Tente pegá-la, e já se foi; é apenas uma miragem vista pelas janelas da diligência.

2. A presença de um elemento superior, a saber, o elemento espiritual, é essencial para sua perfeição. A alta e divina beleza que pode ser amada sem enlanguescimento é aquela que se encontra combinada com a humana vontade. A beleza é o selo que Deus põe sobre a virtude.
Toda ação natural é graciosa; o é também todo ato heroico, que faz resplandecer o lugar e sua audiência. As grandes ações nos ensinam que o universo é propriedade de todos e de cada um dos indivíduos que nele habitam. Cada ser racional tem por dote e herança a natureza inteira. É sua, se assim o deseja. Pode desfazer-se dela, fugir a algum rincão e abdicar de seu reino, como o faz a maioria dos homens, mas sua própria constituição lhe confere direitos intrínsecos sobre aquele mundo, e o levará em seu interior em proporção à energia de seu pensamento e de sua vontade.
Todas as coisas pelas quais os homens aram, constroem ou navegam obedecem à virtude”, disse Salústio.
Os ventos e as ondas...” – diz Gibbon – “...acompanham sempre os mais hábeis marinheiros.”
O mesmo ocorre com o sol e a lua e todas as estrelas.
Quando se leva a cabo um ato nobre – talvez, por sorte, em um cenário de grande beleza natural; quando Leônidas e seus trezentos mártires levam todo um dia para morrer, e primeiro o sol e logo a lua vêm vê-los naquele íngreme desfiladeiro das Termópilas; quando Arnold Winkelried, nos altos Alpes, sob a sombra da avalanche, reúne ao seu lado um feixe de lanças austríacas para dar passagem a seus camaradas; não têm direito esses heróis a ornar com a beleza do lugar a beleza de suas façanhas? Quando a caravela de Colombo se aproxima das costas da América – tendo adiante os selvagens alinhados na praia, saídos de suas cabanas de juncos; por trás o mar, e de ambos os lados as montanhas arroxeadas do arquipélago das Bahamas –, cabe separar o homem desse quadro vívido?
Não está revestido pelas formas do Novo Mundo, com suas filas de palmeiras e suas matas como cortinas legítimas? A beleza natural sempre se filtra furtiva como o ar, e envolve as grandes ações. Quando Sir Harry Vane era arrastrado pelas ladeiras de Tower Hill, sentado em um trenó a caminho da morte, como o grande defensor das leis inglesas, alguém na multidão gritou para ele “Jamais te sentastes em um trono mais glorioso!”. Charles II, para intimidar os cidadãos de Londres, ordenou que o patriota Lord Russell fosse conduzido à forca em um carro aberto, passando pelas ruas principais da cidade. “No entanto,” agrega seu biógrafo, “a multidão imaginava ver a liberdade e a virtude sentadas ao seu lado.” Na vida privada, em meio a sórdidos objetivos, um ato de verdade ou heroísmo parece atrair para si simultaneamente o céu como templo e o sol como vela. A natureza estende seus braços para acolher o homem, bastando apenas que seus pensamentos sejam de igual grandeza. Voluntariamente, ela segue os seus passos com o rosa e o violeta, e cede suas linhas de graça e imponência para adornar sua criança querida. Basta deixar que seus pensamentos sejam de igual abrangência, e a moldura se ajustará ao quadro. Um homem virtuoso vive em uníssono com as obras da natureza e se converte na figura central da esfera visível. Homero, Píndaro, Sócrates, Fócion, se associam apropriadamente em nossa memória com a geografia e o clima da Grécia. O céu e a terra visíveis simpatizavam com Jesus. E na vida comum, quem quer que haja visto uma pessoa de caráter forte e gênio feliz, terá notado o quão facilmente arrasta consigo todas as coisas – os seres humanos, as opiniões, a época – e a natureza se subordina a um homem.

3. Ainda há outro aspecto sobre o qual a beleza do mundo pode ser vista, nomeadamente, quando se transforma em um objeto do intelecto. Além da relação das coisas com a virtude, elas têm uma relação com o pensamento. O intelecto busca a ordem absoluta das coisas, tal como se estivessem na mente de Deus, sem as cores da afeição. As faculdades intelectual e ativa parecem suceder-se uma a outra, e a ação exclusiva de uma gera a ação exclusiva da outra. Há algo mutuamente hostil entre ambas, que é como os períodos alternados de alimentação e trabalho nos animais; cada qual preparando e sendo seguido pelo outro. Assim faz a beleza, que, quanto às ações, como temos visto, vem sem que a busquemos, e vem porque não a buscamos, permanecendo para a apreensão e busca do intelecto; e então, por sua vez, do poder ativo. Nada divino morre. Tudo o que é bom se reproduz eternamente. A beleza da natureza reforma a si mesma na mente, e não para a contemplação estéril, mas para uma nova criação.
Todos os homens são em algum grau impressionados pela face do mundo; alguns homens até o deleite. Este amor pela beleza é o Gosto. Outros têm esse amor em tal excesso que, não satisfeitos em admirar, procuram incorporá-lo em novas formas. A criação de beleza é a Arte.
A produção de uma obra de arte lança alguma luz sobre o mistério da humanidade. Uma obra de arte é uma síntese ou epítome do mundo. É, em miniatura, o resultado ou expressão da natureza; pois ainda que as obras da natureza sejam inumeráveis e todas distintas entre si, o resultado ou expressão de todas elas é similar e único. A natureza é um mar de formas fundamentalmente semelhantes e até unitárias. Uma folha, um raio de sol, uma paisagem, o oceano, exercem um efeito análogo sobre o espírito. O comum a todos eles, essa perfeição e harmonia, é a beleza. O padrão da beleza está dado pelo circuito inteiro de formas naturais, pela totalidade da natureza; os italianos expressaram isso ao definir a beleza como “il piú nell’uno.” Nada é suficientemente belo por si só: o belo somente o é como um todo. Um objeto qualquer é belo unicamente na medida em que sugere esta graça universal. O poeta, o pintor, o escultor, o músico, o arquiteto procuram concentrar esta radiação do mundo em um só ponto, e em seus diversos trabalhos cada qual trata de satisfazer o amor à beleza que o estimula a criar. Assim é a Arte, uma natureza passada através do alambique do homem. Assim, na arte, a natureza opera através da vontade de um homem pleno da beleza das primeiras obras daquela. O mundo existe, portanto, para a alma, com o fim de satisfazer o anseio de beleza. Este elemento chamo de um fim último. Com respeito ao motivo pelo qual a alma busca a beleza, nada se pode indagar nem responder. Em seu sentido mais amplo e profundo, a beleza é uma das expressões do universo. Deus é a suma justiça; a verdade, a bondade e a beleza são diferentes rostos dessa mesma totalidade. Mas a beleza da natureza não é um fim último.
É a arauta de uma beleza interior e eterna, e em si mesma não constitui um bem sólido e satisfatório. Deve ficar como uma parte, e todavia não como a última ou mais alta expressão da causa final da Natureza.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza - A Bíblia do Naturalismo

13/10/2019

Releitura

Bem ao lado do criador de uma grande frase figura aquele a quem primeiro ocorre citá-la. Muitos lerão um livro antes que alguém pense em citar certa passagem. Mas, assim que isso é feito, aquela linha será citada de leste a oeste. […] de fato, é tão difícil se apropriar dos pensamentos de outros como inventá-los. Pois sempre uma transição abrupta, alguma mudança repentina de temperatura ou de ponto de vista trai a inserção do alheio.
Ralph Waldo Emerson, in Quotation and Originality

04/10/2017

Engano próprio

É impossível para um homem ser enganado por outra pessoa que não seja ele próprio.”
Ralph Waldo Emerson

17/01/2017

Acerca do caráter

Suponho que homem algum pode violar a sua natureza. Todos os ímpetos da nossa vontade são torneados pela lei do nosso ser, assim como as desigualdades dos Andes e do Himalaia se tornam insignificantes na curvatura da esfera. Tampouco importa como o meças e experimentes. Um caráter é como um acróstico ou como uma estância alexandrina: lido para diante, para trás, ou de través, diz sempre o mesmo.
(...) Passamos pelo que somos. O caráter fala mais alto do que a nossa vontade. Os homens imaginam que podem patentear as suas virtudes ou os seus vícios somente através de ações ostensivas, e não se dão conta de que, a todo o momento, a virtude e o vício exalam o seu alento.
Ralph Waldo Emerson, in A confiança em si mesmo

19/08/2014

Vexame de pensar

“Uma seita ou um partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem do vexame de pensar.”
Ralph Waldo Emerson

28/07/2014

Enfrentar o medo

“Foi um grande conselho o que ouvi certa vez, dado a um jovem: ‘Faça sempre o que tiver medo de fazer.’”
Ralph Waldo Emerson

01/09/2013

Raciocínio e experiência

"Os nossos conhecimentos são a reunião do raciocínio e experiência de numerosas mentes."
Ralph Waldo Emerson

25/07/2013

Auscultar o próprio coração

“Nos nossos contatos quotidianos seguimos a multidão, deixamo-nos levar por esperanças e temores subalternos, tornamo-nos vítimas das nossas próprias técnicas e implementos, e desusamos o acesso que temos ao oráculo divino. É apenas enquanto a alma dorme que nos servimos dos préstimos de tantas maquinarias e muletas engenhosas. De que servem os telégrafos? Qual a utilidade dos jornais? O homem sábio não aguarda os correios nem precisa ler telegramas para descobrir como se sentem os homens no Kansas ou na Califórnia durante uma crise social. Ele ausculta o seu próprio coração. Se eles são feitos como ele é, se respiram o mesmo ar e comem o mesmo trigo, se têm mulheres e filhos, ele sabe que a sua alegria e ressentimento atingem o mesmo ponto que o seu. A alma íntegra está em perpétua comunicação telegráfica com a fonte dos acontecimentos, dispõe de informação antecipada, qual despacho particular, que a exime e alivia do terror que oprime o restante da comunidade.”
Ralph Waldo Emerson, in Progresso da Cultura

01/03/2013

Estou sempre cercado de mim mesmo

"Se tremo à opinião pública, como chamamos, ou à ameaça de assalto, ou a maus vizinhos, ou à pobreza, ou à mutilação, ou a boatos de revolução, ou de homicídio? Se tremo, que importa a causa? Os nossos próprios vícios tomam formas diversas, de acordo com o sexo, idade, ou temperamento, e, se tementes, prontamente nos alarmamos. A cobiça, ou a malícia que me entristecem, quando as atribuo à sociedade, pertencem-me. Estou sempre cercado de mim mesmo. Por outro lado, a retidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual.
É uma desgraça recorrermos a fatos para confirmação da nossa palavra e dignidade. O capitalista não procura o seu corretor a cada instante para tomar conta dos seus lucros, em moeda corrente. Contenta-se em ler nas cotações da Bolsa que as suas ações subiram. O mesmo transporte que a ocorrência dos melhores acontecimentos me proporcionaria, devo aprender a experimentar, ainda mais puro, na verificação de que a minha posição melhora a cada passo e já comanda os acontecimentos que desejo. Tal exultação só se deteria diante da previsão de uma ordem de coisas tão singular que viesse a atirar nas sombras mais profundas todas as nossas conquistas."
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

24/02/2013

Caráter

"Os homens de caráter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão refletida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a ação até que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ação preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou má, era de fácil predição. Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um fato, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o fato é o negativo. A vontade é o norte, a ação é o pólo sul. O caráter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só veem na ação o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar.
Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de caráter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um fato, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e dai não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.
Uma dada ordem de acontecimentos não tem poder para lhes garantir a satisfação proporcional ao grau de imaginação de que são dotados. O espírito da bondade transcende qualquer série de circunstâncias, ao passo que a prosperidade pertence a um determinado espírito e introduz a força e a vitória, seus frutos naturais, em qualquer ordem de acontecimentos."
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

09/02/2013

O caráter aspira à largueza

“Quando vemos um grande homem, imaginamos uma semelhança com alguma personalidade histórica e profetizamos a sequência do seu caráter e do seu destino, dedução que necessariamente falhará. Ninguém jamais resolverá o problema do seu caráter, de acordo com os nossos prognósticos, mas de acordo com a própria orientação, personalíssima e sem precedente.
O caráter aspira à largueza; não se deve misturar com as pessoas, nem ser julgado por episódios colhidos na velocidade da vida quotidiana ou em poucas ocasiões. Como um grande edifício, necessita de perspectiva. Não pode formar, e provavelmente não forma, relações rapidamente; e não devemos desejar explicações precipitadas, seja na ética popular ou na nossa própria, da sua ação.
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

04/02/2013

O momento é tudo

“A vida caminha precipitadamente. Perseguimos alguns esquemas flutuantes ou somos perseguidos por algum medo ou autoridade atrás de nós. Mas, se, de repente, encontramos um amigo, paramos; o nosso calor e a nossa pressa tornam-se ridículos. Ora a pausa, ora o domínio são necessários e também a força para encher o momento dos eflúvios do coração. O momento é tudo, em todas as relações nobres. Uma pessoa divina é a profecia do espírito; um amigo é a esperança do coração. A nossa ventura espera pela concretização destas duas em uma.
Os séculos estão a dilatar essa força moral. Toda a força é a sombra ou o símbolo daquela. A poesia é alegre e forte quando extrai nessa fonte a sua inspiração. Os homens só inscrevem os seus nomes no mundo quando estão cheios deste. A história tem sido ignóbil; as nossas nações têm sido a gentalha; nunca vimos um homem: essa forma divina que ainda não conhecemos, mas apenas o sonho e a profecia de tal; não conhecemos os modos majestosos que lhe são peculiares e que acalmam e exaltam o observador.
Um dia veremos que a energia mais particular é a mais pública, que a qualidade afina com a quantidade e a grandeza de carácter atua na sombra e socorre aos que nunca a viram. O que de grandeza já apareceu são os princípios e estímulos para que prossigamos nesse sentido. A história daqueles deuses e santos que o mundo tem escrito, e depois adorado, são provas de caráter.”
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

24/01/2013

Bom leitor, bom livro

“É o bom leitor que faz o bom livro; em cada livro, ele encontra trechos que parecem confidências ou apartes ocultos para qualquer outro e evidentemente destinados ao seu ouvido; o proveito dos livros depende da sensibilidade do leitor; a ideia ou paixão mais profunda dorme como numa mina enquanto não é descoberta por uma mente e um coração afins.”
Ralph Waldo Emerson, in Sociedade e Solidão

22/01/2013

As tarefas na vida

“A vida traz a cada um a sua tarefa e, seja qual for a ocupação escolhida, álgebra, pintura, arquitetura, poesia, comércio, política — todas estão ao nosso alcance, até mesmo na realização de miraculosos triunfos, tudo na dependência da seleção daquilo para que temos aptidão: comece pelo começo, prossiga na ordem certa, passo a passo. É tão fácil retorcer âncoras de ferro e talhar canhões como entrelaçar palha, tão fácil ferver granito como ferver água, se você fizer tudo na ordem correta. Onde quer que haja insucesso é porque houve titubeio, houve alguma superstição sobre a sorte, algum passo omitido, que a natureza jamais perdoa. Condições felizes de vida podem ser obtidas nos mesmos termos. A atração que elas suscitam é a promessa de que estão ao nosso alcance. As nossas preces são profetas. É preciso fidelidade; é preciso adesão firme. Quão respeitável é a vida que se aferra aos seus objetivos! As aspirações juvenis são coisas belas, as suas teorias e planos de vida são legítimos e recomendáveis: mas você será fiel a eles? Nem um homem sequer, receio eu, naquele pátio repleto de gente, ou não mais que um em mil. E, se tentar cobrar deles a traição cometida, e os faz relembrar de suas altas resoluções, eles já não se recordam dos votos que fizeram. [...] A corrida é longa, e o ideal, legítimo, mas os homens são inconstantes e incertos. O herói é aquele imovelmente centrado. A principal diferença entre as pessoas parece ser a de que um homem é capaz de se sujeitar a obrigações das quais podemos depender — é obrigável; e outro não é. Como não tem a lei dentro de si, não há nada que o prenda.
Ralph Waldo Emerson, in Considerations by the Way

21/12/2012

Maior realização

“Ser você mesmo em um mundo que está constantemente tentando fazer de você outra coisa é a maior realização.”
Ralph Waldo Emerson

07/09/2012

“É fácil viver no mundo conforme a opinião do mundo: é fácil na solidão viver conforme a própria opinião; mas grande homem é o que, no meio da multidão, conserva com plena serenidade a independência da solidão.”
Ralph Waldo Emerson