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20/08/2018

Longe que só a gota

Enquanto eu fiquei aqui a noite toda relembrando minha chegada que está por acontecer daqui a pouco, por volta do meio-dia, no meio da praça, Karina era só calada.
Cá, muito entre nós, desconfio que ela tenha, lá com ela, alguma sombra de medo de que eu não chegue, o que seria um fiasco, desta vez ainda pior do que o primeiro. Disse ela que não.
Disse também que estava ocupada demais, quando vieram lhe chamar pra festa, e mandou dizer que não ia, não, que não havia de sair de casa só pra presenciar minha chegada, ainda mais com um sol quente desses, e que se fosse parar seu serviço pra ficar vendo invenção minha, não faria outra coisa na vida.
Concluiu dizendo que não era o Antônio de antes que ela queria ver, mas o de agora, ficou olhando bem pra mim, assim, com esse seu olhar ao meio, me deu meia dúzia de beijos e foi lá pra dentro se desculpando que tinha mais o que fazer.
De vez em quando passa aqui na minha frente, assim como quem não quer nada, querendo, talvez, elogio. Queria eu que todo querer seu fosse fácil desse jeito.

Por aí não se fala de outra coisa, mais um pouco ele vai chegar e haja festa no meio do mundo pra receber Antônio.
Daqui até o outro lado da Terra há de se ouvir os pipocos dos fogos.
Está em cima da hora.
E como cada palavra é sempre a última palavra, antes da próxima, e as próximas palavras é o tempo que vai dizer daqui pra frente, eu, Antônio de dona Nazaré, de Karina, ou de Nordestina, vou ficando por aqui mesmo.
Mais não posso contar, em parte porque só sei contar até aqui, em parte porque tenho que ir ali sossegar o coração de Karina, já vai bater meio-dia e esse Antônio que não chega?
Calma, Karina.
É justo que chegue um pouco atrasado, pois lá de onde Antônio vem é longe que só a gota.
Adriana Falcão, in A máquina

14/08/2018

De cor e salteado

Karina foi aprendendo de cor e salteado as histórias de Antônio.
Foi não foi, chegava até a florear umas passagens: “Não foi assim que aconteceu, Antônio, tá lembrado não que foi de outro modo?”, vá lá entender por que mulher gosta tanto de corrigir o homem.
Com o passar do tempo os dois foram usando cada vez menos pontos de interrogação em suas conversas e, por falta de ainda ter o que explicar, gastaram todos os entre parênteses. Não faziam economia de adjetivo um com o outro quando estavam sozinhos, à noite, principalmente.
Se ela queria, ele inventava, se ele inventava, ela queria, e nessa levada nem sentiam o tempo passar, ou então era o tempo que fazia o favor de passar desapercebido por eles pra jamais tornar os dias repetitivos.

A vida deu pra melhorar, felizmente, e de tanto passar o tempo, ano após ano, 25 anos, seis meses e 17 dias acabaram se passando.
Nem parece.
O dia em que Antônio prometeu chegar finalmente chegou hoje.
Agora só falta chegar a hora prometida, meio-dia, e com ela chegar Antônio.
Aqui, em dois mil e pouco, tudo já está exatamente do jeito que ele disse que estaria.
Medo virou lenda, falta virou sobra, palavra virou fato, Nordestina virou livro, alegria virou moda, Antônio virou gente e, deixando a modéstia de lado, até que virei gente importante.

No meio da praça agora tem um pé de caju que dá flor o ano todo, onde tinha a estação construíram um cinema, ali onde antes ficava a bica hoje tem até estátua de Antônio, só que com minha cara de antes.
Mas é claro que eu não consegui dormir a noite inteira.
Fiquei aqui lembrando dos detalhes daquele dia há, 25 anos, seis meses e 17 dias exatos, quando cheguei aqui, vindo lá do tempo que era meu naquele tempo, e encontrei tudo assim, coisa por coisa.
Veja só que vai e vem, cada coisa que vi naquele dia virou palavra que contei, pra depois então ir virando coisa outra vez, até ficar tudo de novo cada coisa no seu canto, que nem assim como está agora.
Deve ser bem por esse motivo que há quem ache que tem que se dar tempo ao tempo, eita povinho pra gostar de achar, esse.
Adriana Falcão, in A máquina

06/08/2018

Antônio, o Contador

Ilustração: Fernando Vilela 

Diante de tamanha falta de delicadeza, a Antônio só restava botar sua máquina nas costas, pegar Karina pela mão e ir-se embora pro seu canto.
Não sei de onde ainda tirou coragem pra apresentar seu derradeiro argumento: “Esperem. O tempo há de passar e então vocês vão ver se eu não vou chegar lá, de hoje a 25 anos, seis meses e 17 dias exatos, aqui no meio da praça, por volta do meio-dia.”
Uma prova indiscutível, a de Antônio, com o único defeito que só ia servir dali a muito tempo.
Paciência.
Os dois saíram de cabeça levantada, sem se importar com calúnia ou risadagem, eita povinho pra cometer injustiça era aquele.
Já em casa, depois de matarem a saudade sem nenhuma pena da coitada, Antônio e Karina atravessaram três dias conversando, ela só ouvindo e ele só contando.

Assim como ficou famoso, Antônio foi logo sendo esquecido.
Só se lembravam dele poucas vezes por dia, na hora do café, ou na hora de dormir, ora sem a menor consideração, ora com a maior curiosidade.
E o mais engraçado não foi justamente isso?
Acreditando ou não na sinceridade de Antônio, por via das dúvidas todo mundo ficou com vontade de conhecer o seu próprio destino. Primeiro vinha um, em seguida outro, eles todos indagando por notícias do futuro e a todos eles Antônio respondia.
Contou que no meio da praça ia nascer um pé de caju que daria flor o ano todo, que onde tinha a estação iam construir um cinema, e que ali, onde agora ficava a bica, ia ter até estátua de Antônio.
Anunciou que, no futuro, medo tinha virado lenda, falta tinha virado sobra, Nordestina tinha virado livro, palavra tinha virado fato e alegria tinha virado moda.
Fez saber, a quem se mostrava interessado, que lá na frente as noites eram sempre claras devido à enorme quantidade de luzes.
Preveniu a vizinha do lado, a senhora abandonou de vez esse negócio de cozinhar pra fora, dedicou-se ao corte e costura e tornou-se pessoa bem-sucedida.
Avisou pro fiteiro que este tinha ingressado na Marinha.
Pra quem se considerava desiludido, Antônio surpreendeu a todos contando a quantidade de feito que eles haviam de fazer ainda.
Tudo quanto era moça vitalina queria saber de uma coisa somente e algumas ficavam muito felizes. “Você casou, sim. Teve até cinco meninas.” “Já você casou sete vezes e estava com cara que ia completar uma dezena ainda.”
Pra uma mãe recém-parida com o menino no braço, Antônio disse sorrindo: “Seu filho também há de se chamar Antônio e será Ministro da Fazenda”, no que a mãe correu até o cartório pra ver se chegava a tempo de impedir que o pai o registrasse Edmílson.
Dona Nazaré foi a única que não quis saber o seu destino, “Se ele quisesse que eu o conhecesse, se apresentava mais cedo”, e toda vez que tocavam no assunto tapava os ouvidos e saía cantando.

O tempo foi passando no seu próprio tempo, seis meses, um ano, dez anos, e deu de acontecer algo muito interessante. Mesmo duvidando que aquilo fosse verdade, o povo se agradou tanto das histórias que se pôs a copiar as ideias de Antônio.
Cada um foi arrumando sua própria vida de acordo com o que ele contava: “Como é que eu não pensei nisso antes? Mas olhe que burrice a minha”, cada qual mais decidido a ser feliz a todo custo.
Foram, bem aos pouquinhos, fazendo o mundo ficar assim, ficar assado, justo como Antônio dizia, até que foi ficando igualzinho.
De vez em quando se ouvia um comentário:
Veja só que coincidência, mas não é que aconteceu mesmo o que Antônio disse?”
No meio da praça plantaram um pé de caju com mania por flor de nascença, a aparição de luz novata na noite deu pra afugentar o medo do escuro, a vizinha do lado dedicou-se ao corte e costura, o fiteiro decidiu ingressar na Marinha, um monte de desiludidos por vida se decretou fazedor, a mãe de Antônio Domingos de Lima, ex-Edmílson, obrigou o filho a varar não sei quantas noites estudando economia.
Depois os comentários foram virando conversa, que foram virando assunto, que foram virando palestra, até que não se falava em outra coisa no mundo e não havia quem tomasse decisão nenhuma sem ouvir Antônio primeiro.
Quanto mais o tempo passava, mais o mundo se parecia com o que Antônio contava. Virou contador, Antônio, quem diria?
Adriana Falcão, in A máquina

31/07/2018

"Que sujeito mais sem palavra!"

Assim que ele deu de cara com as setecentas lâminas da máquina da morte doidinhas pra torá-lo ao meio, as setecentas lâminas que ele mesmo tinha instalado, todas setecentas, Antônio deu um pulo pra cima, respeite o pulo de Antônio, e foi vento que as lâminas toraram somente.
E no que seus dois pés pisaram o chão novamente e o povo viu que ele estava ali, dos pés à cabeça, todo inteiro, foi aí que começou a vaia.
Repare mesmo que azar o de Antônio. O instante em que ele saiu colou com o instante em que ele chegou, sem nem uma brecha no meio. Quem olhava pra ele pensou que ele tinha estado o tempo todo ali, mas é claro, e o mundo inteiro duvidou que Antônio tinha ido ao futuro mesmo. Uns achavam até graça, pensando que era piada, outros tinham era raiva, pensando, que desaforo.
Pela primeira vez na história ninguém ganhou aposta, nem um lado, nem o outro, e por fim ficou tudo empatado. Perdeu quem apostou que Antônio iria ao futuro, perdeu também quem apostou na morte dele.

O que se comentava pelo mundo era que Antônio farrapou, “que sujeito mais sem palavra que não foi a futuro algum nem morreu morte nenhuma, tudo que fez foi dar um pulo pra cima, atração muito da besta inclusive, coisa que qualquer um teria feito com a maior facilidade”.
Em defesa própria, Antônio sustentou que foi ao futuro de fato, mas se atrapalhou um pouco no caminho da volta: por isso regressou no mesmo instante em que tinha partido, por pura infelicidade, e esse era o motivo dessa confusão toda.
Contou ainda o que tinha visto lá, na frente, em dois mil e pouco, dali a 25 anos, seis meses e 17 dias mais precisamente.
Quem já viu disso, menino?
Ainda mais num lugar sem futuro desses.
Agora ficou doido de vez.
Deixe de conversa.
Mas esse Antônio já inventa.
Fui, não foi, fui sim, não estou dizendo?”
O que ele dizia não valia era mais nada.
O mundo inteiro desprezou cada palavra de Antônio, que tristeza, o mundo inteiro se pôs a rir de Antônio, o mundo inteiro, menos Karina, obviamente.
Adriana Falcão, in A máquina

24/07/2018

Saudade de Karina

Ele ainda ficou por aqui um pedacinho, tentando entender detalhe por detalhe, com o propósito de aprender tudo bem aprendido pra poder repetir direito depois, em melhor dizendo, antes.
De uma hora pra outra disse que já estava pronto pra voltar, e se disse que estava era porque estava mesmo.
Ou então era saudade de Karina. Não fazia nem um dia que Antônio não a via e no entanto parecia que fazia um quarto de século, mais ou menos.
Na hora da despedida o povo todo lhe desejou, “boa sorte, Antônio”, e arrematou com um pedido: “agora volta lá e conta tudo pra gente”.
Foi então que lhe ocorreu, justamente nessa hora, que enquanto Karina devia estar lá no passado, esperando por notícia, sem saber como e nem onde ele estaria por agora, ele se encontrava aqui com um problema idêntico. Como é que não tinha pensado nisso antes, minha nossa, o que teria acontecido a Karina nesses 25 anos, seis meses e 17 dias?
Se tudo tinha mudado tanto nesse tempo todo, perigava ela ter mudado também, e aí então como é que seria?
E se ela tivesse morrido?
E se estivesse doente?
E se estivesse com outro?
E se havia uma outra Karina agora, será que havia de haver um outro Antônio?
Eita dúvida desgraçada se queria saber disso ou não queria.
Pela segunda vez então Antônio sentiu um medo medonho, mas seu coração disse pra sua cabeça, vá, e sua cabeça disse pra sua coragem, vou, e sua coragem respondeu, vou nada, mas seus olhos não ouviram e resolveram que era a Karina de antes que eles queriam ver, não a de agora, se é que essa existe, e, se essa existe, ele preferia não saber como ela era.

Foi nesse instante exatamente que tudo começou a voltar pra trás novamente, e dessa vez Antônio entendeu tudo, pois havia deixado de ser marinheiro de primeira viagem.
Não era o tempo que estava passando danado por ele, era ele que estava danado passando pelo tempo, percorrendo o mesmo caminho que tinha percorrido antes, só que em sentido inverso. Tentou rezar a Ave-Maria, mas não conseguia chegar no Ave-Maria, em parte porque estava doidinho das ideias, em parte porque não estava acostumado a rezar de trás pra frente, e quando o tempo parou de passar de repente por ele, num solavanco, em melhor dizendo, quando ele, num solavanco, parou de passar pelo tempo de repente, deu-se a doidice.
Do jeito que vinha embalado, Antônio parou de vez, assim, sem nenhum aviso, estremecendo todas as ideias do juízo, e o exato momento de sua volta no tempo coincidiu com o exato momento de sua ida.
Tudo estava no mesmíssimo ponto que ele tinha deixado, meio-dia em ponto, e só restava dizer Ave-Maria, e foi isso mesmo que ele disse.
Cinco, quatro, três, dois, um, Ave-Maria, e Antônio ainda ouviu seu coração dizer pra sua cabeça, vá, e sua cabeça dizer pra sua coragem, vou, e sua coragem responder, vou nada, mas ele não ouviu, e quando as setecentas lâminas da máquina da morte botaram pra funcionar, todas elas ao mesmo tempo, na maior ligeireza, o mundo todo que estava esperando pra ver tripa de Antônio, sangue de Antônio, osso de Antônio virar pó, não viu foi coisa nenhuma.
Adriana Falcão, in A máquina

19/07/2018

Danado passando pelo tempo


No que o tempo se danou a passar desatinado por ele, só por ele, logo por ele que demorava a entender as coisas direito, Antônio tentou rezar a Ave-Maria, mas não conseguia chegar no agora e na hora de nossa morte, amém, em parte porque estava doidinho das ideias, em parte porque não sabia mais se agora era agora mesmo, se era a hora da sua morte, amém, ou se não era.
Foi então que percebeu que não era o tempo que estava passando danado por ele, ele é que estava danado passando pelo tempo, como quem olha pela janela de um ônibus que está correndo pra frente, e por um minuto apenas, um cochilo, um nó no entendimento, ou algo parecido, tem a impressão de que o ônibus está parado e é a estrada que está correndo pra trás.
A isso devia se dar um nome difícil, mas o nome não importava, importava a comparação.
Ele, Antônio, era o ônibus, enquanto o tempo era a estrada, um correndo, outro parado, só o que se movia era ele, Antônio, logo ele de quem diziam, que sujeito parado, esse povo já gosta de difamar os outros.
De repente, o tempo parou de passar, num solavanco.
Em melhor dizendo, foi ele que, num solavanco, parou de passar de repente pelo tempo.
Do jeito que vinha embalado, parou de vez, assim, sem nenhum aviso, estremecendo todas as ideias do juízo.
Que aquilo não era agora, disso Antônio tinha certeza.
Morte também não era.
Coisa igual ele nunca tinha visto pela única razão de que coisa igual ainda estava por existir lá no tempo dele.
E se agora não era mais agora, pelo menos não era o agora que ele conhecia, nem era a hora da sua morte, amém, se agora era outro tempo, bem ali, na sua frente, que tempo era esse, ora essa?

Foi chegando logo e perguntando que danado de tempo era aquele.
Era ali por dois mil e pouco.
Mais precisamente 25 anos, seis meses e 17 dias depois do dia em que ele tinha partido, por volta do meio-dia.
A praça, a cidade, o povo, o mundo todo estava em festa.
Havia mesmo de chegar em data importante.
Pelo jeito, havia chegado em cima da hora.
E houve quem lhe entregasse presente, houve quem risse, quem chorasse, houve até quem se descabelasse por ver Antônio de perto.
Enquanto os de lá comemoravam sua partida, os daqui comemoravam sua chegada.
Houve quem gritasse, três vivas pro cabra que mudou o mundo, houve quem os três vivas gritasse, soltaram fogos e tudo, e só então Antônio teve certeza de que aquela festa toda era mesmo pra ele.

Ele nunca podia imaginar que ia encontrar o mundo assim sem nenhum defeito.
Estava tudo perfeito, quem diria, bem que Antônio tinha dito que havia de caprichar no presente.
Por mais que jurasse, por Deus Nosso Senhor, quando voltasse pra trás e contasse o que viu, é claro que iam dizer que era mentira.
Quem já viu disso, menino?
Agora ficou doido de vez.
Deixe de conversa.
Mas esse Antônio já inventa.
Se não dissessem, iam pensar, e, se pensassem, até que não era sem motivo.
Quem havia de julgar que seria possível um negócio daqueles?
Adriana Falcão, in A máquina

12/07/2018

Pro outro tempo, pro outro mundo


Não parava de cantar, Antônio, afirmando que ia pra outro tempo enquanto o povo todo desconfiava que era pro outro mundo que ele ia, e só se ouvia o martelo martelando lá dentro, toc, toc, toc, e quando os sete dias se passaram, o oitavo dia acordou e deu de cara com a máquina da morte prontinha.
Mas ficou bonita demais, dava até gosto ficar vendo.
E isso anda?”
Não andava.
Voa?”
Não voava.
Nada?”
Não.
Claro que não cabia na compreensão de ninguém, como é que Antônio diz que vai pra outro tempo se essa máquina não sai do canto? E ele até se irritava, isso aí é a máquina da morte, eu é que sou a máquina do tempo.
E o povo duvidando: “E é, é? Desde quando?”.

O tão esperado dia da morte do tão falado Antônio tinha chegado, e Nordestina nunca imaginou que a reta que ele tirava de sua casa até o meio da praça fosse um dia ficar tão famosa.
Tinha até banda tocando quando ele saiu pela porta carregando sua máquina nas costas.
Cada passo que dava era da maior importância e houve quem lhe entregasse presente, houve quem lhe dissesse bobagem, houve quem risse, quem chorasse, houve até quem se descabelasse por ver Antônio de perto.
Dona Nazaré estava muito ocupada no tanque quando foram lhe chamar pra festa e mandou dizer que não ia, não, que nunca viu meninos pra sujarem roupa como aqueles, e que se fosse parar de fazer seu serviço pra ficar vendo invenção de Antônio, não faria outra coisa na vida.
Karina não aceitou lugar de honra, nem copo d’água, nem cafezinho, se misturou à multidão e seguiu com os olhos a procissão de Antônio sozinho. No que ele passou em sua frente, fez em nome do pai como os outros, fazendo de conta que não era com ela.
A primeira parte da promessa ele já tinha cumprido.
Olha o mundo todo ali, olhando para Nordestina.
Só restava cumprir o resto.

Faltando somente um minuto pra hora marcada, às 11h59 exatamente, Antônio entrou na máquina de sua própria morte, feita com suas próprias mãos, e todos os olhos, todos os ouvidos, todas as câmeras e todos os microfones do mundo apontaram pra ele, um patrocínio Alisante Karina, ele vai morrer de amor por você.
Se pudesse divulgar o que estava sentindo, sem trazer inquietação ao coração de Karina, talvez Antônio tivesse confessado ali mesmo, pro mundo todo ouvir, que estava com um medo desgraçado, sabe o verbo medo?
Nem parecia.
Quem olhava pra ele, ou seja, o mundo inteiro, não diria nunca que se tratava de um homem que sentia um frio no espinhaço.
E foi então que deu a hora certinha que Antônio tinha marcado pra partir, meio-dia em ponto, cinco, quatro, três, dois, um, Ave-Maria, e seu coração disse pra sua cabeça, vá, e sua cabeça disse pra sua coragem, vou, e sua coragem respondeu, vou nada, mas Antônio não ouviu, e quando as setecentas lâminas da máquina da morte botaram pra funcionar, todas elas ao mesmo tempo, na maior ligeireza, o mundo todo que estava esperando pra ver tripa de Antônio, sangue de Antônio, osso de Antônio virar pó, não viu foi coisa nenhuma.
Adriana Falcão, in A máquina

01/07/2018

Medo da morte não tenho

Ilustração: Fernando Vilela

Medo da morte é coisa que não tenho.
Já olhei nos olhos dela, já conheci seus no entanto, já discordei de suas ideias, já lhe expliquei, ponto por ponto, cada uma de minhas crenças. Nem estou atrás de desavença, nem é nada pessoal, não.
Nada contra ela.
Mas esse jeito de se chegar, assim, toda se chegando, se fazendo de bondosa pra enganar o sujeito, isso é coisa de gente com duas caras. Como a morte não é gente e só é uma, não entramos em acordo. Pois não havia de ser um bichinho de nada, mesmo tendo por nome bactéria, que ia derrubar Antônio. No quinto dia de febre levantei-me da cama, encarei-a bem na cara dela, mesmo pra desafiá-la, e ela, ‘Venha’, e eu, ‘Vou nada’, e ela, ‘Então tome, febre do rato’, e eu, ‘Desavie daqui, peste bubônica’.”

Medo da morte, é? É medo da morte?
Tenho não, graças a Deus.
Graças a Deus e a meus dois pés que no que viram ela deram pra dançar sem nunca ter aprendido. E ela doida vindo pra mim, e eu doido me indo dela, e quanto mais eu dançava, mais cansada ela ficava, botava os bofes pra fora, até que bateu quatro horas e bateu a preguiça junto.

Nela, é claro.
Quem já viu homem apaixonado preguiçoso?
O dia raiou e eu dançando.
O tempo passou e eu vivendo.
Quando minha hora chegar eu vou com ela.
Mas ela vai ter que aprender a dançar forró primeiro.”

Medo da morte que eu conheço é o medo que ela tem de mim, desde o dia em que bateram na minha porta: ‘Quem é?’, ‘Sou eu’, ‘É a morte, é?’, ‘E então?’, ‘Então vá entrando que eu estava mesmo precisando levar uma prosa com a senhora’.
Sentou-se.
Sentei-me na frente dela.
E, só pra começar, desfiei um versinho que fiz com a pouca literatura que tenho e o muito amor que tenho por Karina, verso ligeiro, coisa pouca, conversa pra três dias somente. O caso é que tomei gosto pelo troço, embalei-me no improviso, e mês e meio depois ela abriu a boca num bocejo, mas só foi cochilar depois de dois anos. Conversa vai, conversa vem, 15 anos se passaram e me deu vontade de cantar.
Sabe vontade?
Uma musiquinha só, coisinha besta, mas a morte disse: ‘Espere. Eu vou ali adiantar um servicinho e outro dia eu venho’.
Tu viesse?
Ainda hoje todo dia eu canto, pro caso dela passar por perto, pois se tem coisa que morte não se agrada é de cantoria, alegria e verso, de riso, de boniteza, de conversa de menino, tampouco cor amarela.”
Adriana Falcão, in A máquina

18/06/2018

Tudo virou Antônio

Era gente que só a praga, e chegando mais, de um, de dois, de dez.
Cada casa de Nordestina virou hotel, cada quintal virou acampamento, e haja comida praquele povo todo. Nunca se mataram tantos bodes, fora as galinhas, e, na falta dessas, qualquer criatura de Deus que se prestasse a guisado.
E era tanta palavra pelo mundo contando o que estava acontecendo, palavra francesa, japonesa e italiana, que não sobrava palavra nenhuma pra se comentar outro assunto.
Tudo virou Antônio e Antônio virou de tudo.
Virou nome de estrela no céu, nome de filé à moda, virou até nome de gripe, uma gripe chamada Antônio. Virou nome de todo menino que nasceu naquele tempo.
Antônio José do Nascimento.
Antônio Péricles de Souza.
Antônio Pedro Barbosa de Almeida, que depois virou só Tonho.
Antônio Viana de França, que depois virou Toinho.
Antônio Benedito de Azevedo, que depois virou bandido.
Antônio Gonçalves da Silva, que depois virou artista.
Antônio Domingos de Lima, que depois virou ministro.
Os oito dias se passavam e ele trancado, pois construir uma máquina da morte não é fácil, não, o cabra tem que possuir muita geometria.
Karina vinha diariamente implorar “Faça isso não”, e ele, “Faço, pois já dei minha palavra”, e ela chorava, e ele dizia: “Pra que tanta agonia se eu só vou dar uma chegadinha no futuro e volto logo?” “Volta logo como, se o futuro é muito longe?” “Não vou tão longe assim, não. Vou andar somente uns 25 anos pra frente, exatamente o tempo que tenho pra trás, contando do dia que nasci até o dia de minha partida.” Aí é que ela se agoniava ainda mais: “Isso tudinho?” “Nem um dia a mais, nem um dia a menos, eu prometo, Karina. Vou apenas multiplicar minha idade por dois, depois desmultiplico e pronto.” Qualquer argumento, por melhor que fosse este, jamais seria suficiente pra sossegar o coração de Karina. Por isso, só pra distraí-la, convencê-la e acalmá-la, ou então só pra se amostrar mesmo, Antônio ia contando suas histórias pra multidão que se juntava na porta da casa.
Ia desafiando a morte enquanto ela nem resposta dava.
Adriana Falcão, in A máquina

10/06/2018

Ao vivo!

Vão transmitir a morte de Antônio ao vivo.
Antônio de dona Nazaré?
O moço do café.
Número 19 da folha de pagamento.
Diz que ele foi chamado pra apresentar programa de televisão.
A bandeja onde ele servia café vai até a leilão.
Antônio vai ser enredo de escola de samba, Antônio.
E ele não vai morrer?
Vai morrer ou não vai?
Marque um X no lugar do sim ou do não e concorra a uma noite de amor no Motel Centauro.
Um rapaz honesto, trabalhador, uma grande perda pra sociedade nordestinense, trata-se de uma tragédia.
A Prefeitura já está tomando as devidas providências. O corpo de Antônio será velado na Câmara dos Vereadores, de onde será transportado em carro aberto pro local escolhido pela família pro sepultamento. O Coral Infantil da Escola Municipal se apresentará durante o enterro, caso Antônio morra mesmo como se espera. Caso contrário, o cerimonial já está organizando outro evento à altura pra substituir o enterro de Antônio, provavelmente com a participação do grupo musical Os Condenados.
Um louco vai se matar lá na Paraíba.
Paraíba não, Pernambuco.
Isso é conversa.
Isso é a fome.
Isso é a seca.
Isso é o cúmulo.
Nordestino promete morrer de amor na frente das câmeras.
Nordestina se prepara pra receber milhares de pessoas.
A morte anunciada de Antônio da Silva atrai romeiros, turistas e curiosos ao sertão.
A morte do ano.
A morte do século.
Mais notícias nas páginas 23 e 24.
O Brasil inteiro reza por Antônio.
A brazilian man dies in the name of love.
A televisão está chegando. A televisão? Aqui em Nordestina?
Mas só sendo.
Adriana Falcão, in A máquina

05/06/2018

A diferença entre querer muito e querer somente

Chegou cansado, mais pelo que ainda tinha de fazer do que pelo tanto que já tinha feito, com o peso da responsabilidade pesando em cima de sua cabeça, e o medo e a certeza travando um duelo lá dentro. O corpo de Antônio agora andava inclinado pra frente, puxado pela palavra obrigação, no plural, pois eram muitas as que ele tinha. A pior de todas era a obrigação de dar tudo certo, essa era a mãe das outras e também a cria delas.
Se fosse pessoa organizada, teria ido logo pra casa começar seu trabalho, mas sua teimosia obrigou-o a passar antes na rua de baixo, só pra dar um beijo em Karina.
Nem bem dobrou a esquina e já viu logo que ela tinha estado todos esses dias no portão, esperando por ele, com os olhos apertados até menos que a metade, pra poder enxergar mais longe.
Fingiu que acreditou que ela só foi lá fora refrescar um pouco e fez que não reparou que seu coração estava batendo muito apressado.
E quem disse que ela queria deixar ele ir embora mais nunca?

A falta de Antônio tinha ensinado Karina a conhecer melhor a diferença entre querer muito e querer somente.
Ele só conseguiu ir pra casa com ela dormindo.
Por não saber ninar com cantiga, botou Karina pra dormir com um exagero de promessas, abraços e beijos, beijos, abraços e promessas, tudo isso aos berros, de primeiro.
Como é coisa do amor sossegar, os dois foram se acalmando aos poucos, perdendo a pressa, descolando os pedaços um do outro, por partes.
Quando só restava uma mecha de cabelos dele na mão dela, Antônio conseguiu escapulir e saiu, devagar, fingindo que não estava saindo.
Chegou em casa com o dia amanhecendo.
Antes de dormir rezou um Santo Anjo do Senhor e ainda conversou um pouco com seu amigo tempo, mas foi só pra acertar os detalhes da viagem.
Adriana Falcão, in A máquina

29/05/2018

Ofereço minha vida, serve?

Ilustração: Fernando Vilela

Uma vez que nunca tinha pedido sequer um favor pro tempo, por não ser coisa de Antônio ficar se aproveitando de ninguém por amizade, estava claro que o tempo não ia lhe negar ajuda justo em hora tão necessitada.
Por isso, resolveu chamar a atenção do mundo com a espetacular atração do sujeito que podia ir ao futuro, e dessa maneira levar o mundo pra Nordestina assim mesmo, do jeito que o mundo estava. Quando voltasse do futuro, aí, sim, ia poder consertar o mundo que tinha dado a Karina de presente, pois, além da vontade, teria o conhecimento, a técnica e a prática.
Ia dar certinho.
O mundo ia se agradar de um sujeito que viajasse no tempo e Karina ia se agradar do presente que tinha ganhado.
O único problema era sua falta de experiência no assunto, mas pra tudo tem que ter uma primeira vez, e então Antônio resolveu que era aquilo o que ele faria, não tinha o menor motivo pra não ser, não havia como dar pra trás, era aquilo mesmo, inclusive porque outra coisa não era, estava decidido, e decisão decidida em véspera de dia 13 tem o voto dos anjos e ponto, parágrafo.
Depois de dar umas voltas pelo mundo foi diretamente pra emissora de televisão.
A fila de candidatos pra aparecer na TV rodava o quarteirão e a cabeça de Antônio pensava.
O quarteirão era do tamanho de Nordestina e a cabeça de Antônio pensava.
Anoiteceu, amanheceu, anoiteceu, amanheceu e a cabeça de Antônio pensava.
A mulher 853 da fila tinha oito ovos com casca, todos oito dentro do bucho, mesmo sem ser bicho que põe ovo. A moça 1.115 e a 1.116 se estranhavam disputando um só marido. Uma olhava de banda e coiceava tal qual bicho. A outra desafiava. Uma ameaçava ir, não ia, e a outra dava meia-volta, cismada. O rapaz 510 desengolia relógios que nunca tinha engolido, todos eles marcando hora exata, por isso achava que ia ser o escolhido. Aconteceu que quando chegou a vez de Antônio, o homem lá da televisão ficou numa dúvida danada.
Eu, Antônio de dona Nazaré, dou minha palavra que vou pra outro tempo, mais precisamente pro futuro. Mas não só vou ao futuro por ir, fui e pronto, não. A minha ida há de ser proveitosa, pois vou a negócios.”
O cidadão que viajava no tempo prometia ser um grande espetáculo.
E quem podia garantir que Antônio ia ao futuro mesmo?
A única garantia que podia oferecer era sua palavra.
É pouco”, o homem lá da televisão falou, “vai que na hora agá, tudo pronto, todo mundo esperando pra ver, e o negócio dá errado? É melhor não arriscar”, e foi logo chamando o número do próximo.
Espere”, Antônio gritou, “se minha palavra é garantia pouca ofereço então minha vida, serve?” E o homem lá da televisão se mostrou interessado.

Eu, Antônio de dona Nazaré, dou minha palavra que vou pra outro tempo, mais precisamente pro futuro, com a finalidade de melhorar o mundo que vou dar de presente a Karina. Partirei de hoje a oito dias, saindo do meio da praça de Nordestina, porém voltarei logo. E, se acaso o negócio der errado e eu não cumprir minha promessa, então não me interessa mais viver e aí dou minha palavra que morro. Mas não vou morrer só assim, morri e pronto, não. A minha há de ser morte importante, cheia de aparato, morte de encher a vista dos homens e fazer tapar os olhos das mulheres, deixando só um buraquinho entre os dedos. Pois a máquina da morte, construída por mim mesmo, vai abrir meu peito e esgarçar ele todinho, esgarçar mais um pouquinho, até ficar aparecendo tudo lá dentro, os sentimentos sentindo, as veias se abrindo, o sangue correndo, e vai destampar meu estômago, pra deseninhar as tripas, uma por uma, como se fosse um novelo, vai desemparelhar um pulmão do outro, separando assim, pra mostrar o que é que tem no meio, então vai arrancar meu coração e jogá-lo pra plateia, salpicando o mundo de sangue, enquanto, aí, sim, eu vou morrendo aos pouquinhos, sofrendo até morrer da morte mais linda que alguém já morreu na vida. Eu vou morrer de amor, no meio do sertão, nos braços da seca, com a quentura fervilhando as ideias, enquanto tiver ideia, a vida desistindo de viver, indo embora, a vista turvando, o juízo evaporando, até o finalzinho, aquela hora em que a pessoa pensa com ela mesma, e agora, hein? Então não pensa mais nada e acabou-se.”

Dito isso, e não tendo mais nada pra dizer, voltou pra Nordestina com a finalidade de inventar a máquina de sua própria morte e construí-la com suas próprias mãos, mesmo sabendo que não ia precisar dela.
Quando o povo ainda estava indo, ele já estava voltando.
Agora não tinha mais dúvida, existia mesmo a tal placa “Bem-vindo a Nordestina”, e pra provar que não era mentira podia atestar até que o “vindo” estava meio apagado.
No que avistou a cidade, Antônio concluiu dois pensamentos.
Um era que ninguém sabia como Nordestina era bonita daquele ângulo.
O outro era que agora todo mundo ia ficar sabendo.
Adriana Falcão, in A máquina