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03/05/2023

A Moral | III – Resignação, renúncia, ascetismo e libertação

Quando a ponta do véu de Maia (a ilusão da vida individual) se ergue ante os olhos de um homem, de tal modo que já não faz diferença egoísta entre a sua pessoa e os restantes homens, e toma tanto interesse pelos sofrimentos estranhos como pelos seus próprios, tornando-se assim caritativo até a dedicação, pronto a sacrificar-se pela salvação dos seus semelhantes – esse homem, chegado ao ponto de se reconhecer a si mesmo em todos os seres, considera como seus os sofrimentos infinitos de tudo quanto vive, e apodera-se, dessa maneira, da dor do mundo. Nenhuma miséria lhe é indiferente. Todos os tormentos que vê e tão raramente lhe são dados suavizar, todas as angústias de que ouve falar, mesmo aquelas que lhe é possível conceber, perturbam-lhe o espírito como se fosse ele a vítima.
Insensível às alternativas de bens e de males que se sucedem no seu destino, livre de todo egoísmo, penetra os véus da ilusão individual; tudo quanto vive, tudo quanto sofre, está igualmente junto do seu coração. Imagina o conjunto das coisas, a sua essência, a sua eterna passagem, os esforços vãos, as lutas íntimas e os sofrimentos sem fim; para qualquer lado que se volte, vê o homem que sofre, o animal que sofre, e um mundo que se desvanece eternamente. E une-se tão estreitamente às dores do mundo como o egoísta à sua pessoa. Como poderia ele, com tão grande conhecimento do mundo, afirmar com desejos incessantes a sua vontade de viver, prender-se cada vez mais estreitamente à vida?
O homem seduzido pela ilusão da vida individual, escravo do egoísmo, só vê as coisas que o tocam pessoalmente, e encontra aí motivos incessantemente renovados para desejar e querer; pelo contrário, aquele que penetra a essência das coisas, que domina o conjunto, chega ao repouso de todo desejo e de todo querer. Daí em diante, a sua vontade desvia-se da vida, repele com susto os gozos que a perpetuam. O homem chega então ao estado da renúncia voluntária, da resignação, da tranquilidade verdadeira, e da ausência absoluta de vontade.
Enquanto o mau, entregue pela violência da vontade e dos desejos a tormentos íntimos, contínuos e devoradores, se vê reduzido, quando se lhe esgota o manancial de todos os gozos, a saciar a sede ardente dos desejos no espetáculo das desgraças alheias, o homem penetrado da ideia de renúncia absoluta, seja qual for o seu desenlace, embora privado exteriormente de toda alegria e de todo bem, goza contudo uma aventura completa e um repouso verdadeiramente celeste. Para ele, não existe já o ardor febril, a alegria exuberante, essa alegria precedida e seguida de tantos desgostos, condição inevitável da existência para o homem que tem gosto pela vida; o que ele experimenta é uma paz inabalável, um repouso profundo, uma serenidade íntima, um estado que não podemos ver ou imaginar sem o desejarmos com ardor, porque se nos assemelha o único, justo, infinitamente superior a qualquer outro, um estado para o qual nos convidam e nos chamam o que há de melhor em nós e essa voz íntima que nos brada: sapere aude. Sentimos então que todo desejo realizado, toda felicidade arrancada à miséria do mundo são como a esmola que hoje sustenta o mendigo, para que amanhã morra de fome, enquanto a resignação é como um bem que se herdou, que coloca para sempre o feliz possuidor ao abrigo dos cuidados.
Sabemos que os momentos em que a contemplação das obras de arte nos livra dos desejos ávidos, como se pairássemos acima da atmosfera pesada da terra, são ao mesmo tempo os mais felizes que conhecemos.
Por aqui podemos deduzir a felicidade que deve experimentar o homem cuja vontade se acha apaziguada, não por alguns instantes como no gozo desinteressado do belo, mas para sempre, e se extingue mesmo inteiramente, de modo que só resta a última centelha da luz vacilante, que anima o corpo e se extinguirá com ele. Quando esse homem, após muitos e rudes combates contra o seu próprio temperamento, acaba por triunfar completamente, apenas existe como um ser puramente intelectual, como um espelho do mundo que coisa alguma perturba. Daí em diante nada há que possa causar-lhe angústia, que consiga agitá-lo; porque os mil laços do querer que nos mantêm acorrentados ao mundo e nos atormentam em todos os sentidos com incessantes dores sob a forma de desejo, receio, inveja, cólera, esses mil laços quebra-os ele. Lança um olhar para trás, tranquilo e risonho, às imagens ilusórias deste mundo que puderam um dia agitá-lo e torturar-lhe o coração; olha para elas com tanta indiferença como para o xadrez, depois de finda a partida ou para as máscaras de carnaval que se largaram de manhã e cujas figuras lograram irritar-nos ou perturbar-nos na noite de terça-feira gorda. A vida e todas as formas passam-lhe diante dos olhos como aparição passageira, como um ligeiro sonho matutino para o homem meio desperto, um sonho que a verdade trespassa já com os seus raios e que não consegue nos iludir; e, assim como um sonho, a vida também por fim se desvanece, sem transição brusca.
Se refletirmos sobre como a miséria e os infortúnios são geralmente necessários para a nossa libertação, reconheceremos que deveríamos invejar menos a felicidade do que a desgraça dos nossos semelhantes. É por essa razão que o estoicismo, que afronta o destino, é na verdade para a alma uma espessa couraça contra as dores da existência e ajuda a suportar melhor o presente; mas opõe-se à verdadeira salvação porque torna o coração endurecido. E como poderia o estóico tornar-se melhor pelo sofrimento, se é insensível a ele sob a camada de pedra com que se cobre? – Até um certo grau, esse estoicismo não é muito raro. Muitas vezes não passa de uma pura afetação, de um modo de dissimular o enfado; e quando é real, provém quase sempre da pura insensibilidade, da falta de energia, de vivacidade, de sentimento e de imaginação, necessária para sentir uma dor.
Quem se mata quer a vida, só se queixa das condições sob as quais ela se lhe oferece. Não renuncia portanto à vontade de viver, mas unicamente à vida, de que destrói na sua pessoa um dos fenômenos passageiros… É precisamente porque não pode cessar de querer que cessa de viver, e é suprimindo em si o fenômeno da vida que afirma o seu desejo de viver. Porque era justamente a dor a que se subtrai, que poderia, como mortificação da vontade, conduzi-lo à renúncia e à libertação. Sucede àquele que se mata o mesmo que a um doente que, não tendo a energia precisa para deixar terminar uma operação dolorosa mas salutar, preferisse continuar doente. O sofrimento suportado com coragem permitir-lhe-ia suprimir a vontade; mas subtrair-se ao sofrimento, destruindo no corpo essa manifestação da vontade, de tal modo que ela subsiste sem obstáculos.
Poucos homens, pelo simples conhecimento refletido das coisas, conseguem penetrar a ilusão do principium individuationis, poucos homens possuidores de uma perfeita bondade de alma, de caridade universal, chegam por fim a reconhecer todas as dores do mundo como as suas próprias, para obterem a negação da vontade. Mesmo nos que mais se aproximam desse grau superior, as comodidades pessoais, o encanto fascinador do momento, a visão da esperança, os desejos incessantemente renovados são um eterno obstáculo à renúncia, um eterno incentivo à vontade; donde resulta que personificaram nos demônios infinidade de seduções que nos tentam e atraem.
Tem portanto a nossa vontade que ser quebrada por um imenso sofrimento antes que chegue à renúncia de si própria. Quando ela percorreu todos os graus da angústia, quando após uma suprema resistência toca o abismo do desespero, o homem volta subitamente a si, conhece-se, conhece o mundo, transforma-se-lhe a alma, eleva-se acima de si mesmo e de todo sofrimento; então purificado, santificado de algum modo num repouso, numa felicidade inabalável, numa elevação inacessível, renuncia a todos os objetos dos seus apaixonados desejos, e recebe a morte com alegria. Como um pálido clarão, a negação da vontade de viver, isto é, a libertação, jorra subitamente da chama purificadora da dor.
Os próprios criminosos podem-se purificar por uma enorme dor; transformam-se inteiramente. Os crimes passados deixam de lhes oprimir a consciência; contudo, estão prontos a expiá-los pela morte e vêm de bom grado extinguir-se com eles esse fenômeno passageiro da vontade, que se lhes tem tornado estranho e como um objeto de horror. No tocante episódio de Gretchen, Goethe ofereceu-nos uma pintura incomparável e brilhante dessa negação da vontade causada por um imenso infortúnio e pelo desespero. É um modelo perfeito dessa segunda maneira de atingir a renúncia, a negação da vontade, não pelo puro conhecimento das dores do mundo inteiro, às quais nos identificamos voluntariamente, mas por uma dor esmagadora que nos acabrunhou.Uma grande dor, uma grande desgraça podem nos obrigar a conhecer as contradições da vontade de viver consigo mesmo, e mostrar-nos nitidamente a inutilidade de todos os esforços. É por esse motivo que se têm visto muitas vezes alguns homens, depois de uma existência agitada de paixões tumultuosas, reis, heróis, aventureiros, mudarem subitamente, resignarem-se, arrependerem-se, fazerem-se frades ou anacoretas. É esse o assunto de todas as histórias de conversões autênticas, por exemplo a de Raimundo Lulio: um dia uma mulher que ele amava havia muito marcou-lhe enfim uma entrevista em sua casa, ele entra no quarto, louco de alegria, mas a bela, entreabrindo o vestido, mostrou-lhe um seio corroído por um medonho cancro. Desde esse momento, como se tivesse entrevisto o inferno, converteu-se, abandonou a corte do rei de Maiorca, retirou-se para um deserto, fez penitência.
A conversão de Rancé assemelha-se muito à de Raimundo Lulio. Consagrara a mocidade a todos os prazeres e vivia, por fim, com uma dama de Monbazon. Uma noite, à hora da entrevista, encontra o quarto vazio, escuro, em desordem; tropeça em qualquer coisa, era a cabeça da amante que haviam separado do tronco; morrera subitamente, e não haviam conseguido meter o cadáver no caixão de chumbo colocado ali perto. – Torturado por uma angústia sem limites, Rancé tornou-se, em 1663, o Reformador da Ordem dos Trapistas, então completamente degenerada da sua antiga disciplina; em pouco tempo elevou-a a essa grandeza de renúncia que ainda hoje vemos, a essa negação da vontade, conduzida metodicamente por meio das mais duras privações, a essa vida de austeridade, de trabalhos incríveis que penetra o estrangeiro de um santo horror, quando, entrando no convento, observa ato contínuo a humildade desses verdadeiros frades que, extenuados de jejuns, de vigílias, de orações, de trabalhos, se ajoelha diante dele, filho do mundo e pecador, pedindo-lhe a benção. É entre o povo mais alegre, mais divertido, mais sensual e mais leviano – será preciso nomear a França? – que essa ordem, única entre todas, manteve-se intacta por entre todas as revoluções, e deve-se atribuir a sua duração à seriedade profunda que não se pode deixar de reconhecer no espírito que anima e que exclui qualquer consideração secundária. A decadência da religião não a atingiu, porque as raízes dessa ordem encontram-se nas profundidades da natureza humana, bem mais do que num dogma positivo qualquer.
Desviemos os olhos da nossa própria insuficiência, da mesquinhez dos nossos sentimentos e preconceitos, para os erguermos para aqueles que venceram o mundo, para aqueles em que a vontade, levada ao pleno conhecimento de si própria, se encontrou em todas as coisas e se negou livremente e que esperam que os últimos clarões se apaguem com o corpo que os anima; vemos então, em lugar dessas paixões irresistíveis, dessa atividade sem repouso, em vez dessa passagem incessante do desejo ao receio e da alegria à dor, em vez da esperança que coisa alguma satisfaz e que nunca se sacia e se dissipa, e de que é feito o sonho da vida para o homem subjugado pela vontade – vemos a paz, superior a toda razão, esse grande mar calmo do sentimento, esse sossego profundo, essa segurança inabalável, essa serenidade, cujo único reflexo no rosto, tais como Rafael e Correggio o pintaram, é um completo evangelho no qual nos podemos fiar: só resta o conhecimento; a vontade desapareceu.
O espírito íntimo e o sentido da vida verdadeira e pura do claustro e do ascetismo em geral é nos sentirmos dignos e capazes de uma existência melhor do que a nossa, e querermos fortificar e manter essa convicção pelo desprezo de todos os vãos gozos deste mundo. Espera-se com segurança e calma o fim desta vida livre das ilusões enganadoras, para saudar um dia a hora da morte como a da libertação.
Quietismo, isto é, renúncia a todo desejo; ascetismo, isto é, imolação refletida da vontade egoísta; e misticismo, isto é, consciência da identidade do seu ser com o conjunto das causas e o princípio do universo – três disposições da alma que se ligam estreitamente; quem fizer profissão de uma é atraído para a outra, mau grado seu. – Não há nada mais surpreendente do que ver o acordo de todos aqueles que nos pregaram essas doutrinas, por entre a extrema variedade dos tempos, dos países e das religiões, e nada mais curioso do que a segurança inabalável como o rochedo, a certeza interior com que nos apresentam o resultado da sua experiência íntima.
Não é na verdade o judaísmo com a sua máxima: “Deus viu todas as coisas que havia feito, e estavam muito boas” (Moisés, 1:31), mas o bramanismo e o budismo, que pelo espírito e pela tendência moral se aproximam do cristianismo. O espírito e a tendência moral são o que há de essencial numa religião, e não os mitos com que ela os envolve.
Essa máxima do Antigo Testamento é realmente estranha ao puro cristianismo; porque em todo o Novo Testamento trata-se do mundo como de uma coisa a que se não pertence, que não se ama, de uma coisa que está sob o poder do diabo. Isso concorda com o espírito do ascetismo, de renúncia e de vitória sobre o mundo, esse espírito que junto ao amor ao próximo e ao perdão das injúrias marca o traço fundamental e a estreita afinidade que unem o cristianismo, o bramanismo e o budismo. É no cristianismo principalmente que é necessário sondar bem a fundo as coisas e não se contentar com as aparências.
O protestantismo, eliminado o ascetismo e o celibato, que é o seu ponto capital, atingiu a própria essência do cristianismo, e desse ponto de vista pode ser considerado como uma apostasia. Viu-se bem nos nossos dias quanto o protestantismo degenerou pouco a pouco num vulgar racionalismo, espécie de pelagianismo moderno, que se resume na doutrina de um bom pai criando o mundo para que aí se divirtam muito (no que se teria redondamente enganado); e esse bom pai, sob certas condições, promete também procurar mais tarde aos seus servos fiéis um mundo muito mais belo, cujo único inconveniente é ter uma entrada tão funesta. Isso pode ser certamente uma boa religião para padres protestantes casados e esclarecidos, mas não é esse o cristianismo. O cristianismo é a doutrina que afirma que o homem é profundamente culpado pelo único fato de ter nascido e ensina ao mesmo tempo que o coração deve aspirar à libertação, que só se pode obter à custa de grandes sacrifícios, pela renúncia, pelo aniquilamento de si próprio, isto é, por uma transformação total da natureza humana.
O otimismo não é mais do que uma forma de louvores que a vontade de viver, única e primeira causa do mundo, concede sem razão a si mesma, quando se revê com gosto na sua obra; não é só uma doutrina falsa, é uma doutrina corruptora, porque apresenta a vida como um estado desejável, e dá-lhe como fim a felicidade do homem. Em vista disso, cada um imagina que possui os mais justificados direitos à felicidade e ao gozo; se contudo esses bens, como sucede frequentemente, não lhe são dados em partilha, julga-se vítima de uma injustiça – não lhe falhou o fim da sua existência –, ao passo que é bem mais justo considerar o trabalho, a privação, a miséria e o sofrimento coroado pela morte como o único alvo da nossa vida (assim fazem o bramanismo, o budismo e também o verdadeiro cristianismo), porque todos esses males conduzem à negação da vontade de viver. No Novo Testamento, o mundo é representado como um vale de lágrimas; a vida, como um meio de purificar a alma; e o símbolo do cristianismo é um instrumento de martírio.
A moral dos índios tal como é apresentada do modo mais variado e mais enérgico nos Vedas, nos Puranas, pelos poetas nos mitos e nas lendas dos santos, nas suas sentenças e regras de vida, prescreve expressamente: o amor ao próximo, com absoluto desprendimento de si mesmo, amor não só limitado aos homens mas a todos os seres vivos: a beneficência levada até o abandono do salário cotidiano obtido à custa de duro e pesado trabalho; uma bondade sem limites para com aquele que nos ofende; o bem e o amor em troca do mal que nos façam por maior que seja; o perdão alegre e espontâneo para todas as injúrias; a abstinência de todo alimento animal; uma castidade absoluta e a renúncia a todas as voluptuosidades para aquele que aspira à verdadeira santidade; o desprezo pelas riquezas, o abandono da moradia, da propriedade; uma solidão profunda e absoluta, passada em muda contemplação, junto a um arrependimento voluntário e sofrimentos lentos e horríveis para mortificar absolutamente a vontade, a ponto de morrer de fome; entregar-se aos crocodilos; precipitar-se do cimo de um rochedo do Himalaia, santificado por esse uso; enterrar-se vivo; lançar-se debaixo das rodas do carro gigantesco, que passeia as imagens dos deuses, no meio de cantos, gritos de alegria e danças. E essas prescrições, cuja origem data de mais de quatro mil anos, existem ainda no maior rigor entre esse povo, por muito degenerado que se encontre hoje. Um uso mantido há tanto tempo entre tantos milhões de homens, uma prática que impõe tão pesados sacrifícios, não pode ser a invenção arbitrária de algum cérebro alucinado, deve ter raízes profundas na própria essência da humanidade. – Acrescento que não se pode admirar assaz o acordo, a perfeita unanimidade de sentimentos que se nota, se lermos a vida de um santo ou a de um penitente cristão, e a de um índio. Por meio da variedade da oposição absoluta dos dogmas, dos costumes, dos meios, dos esforços, a vida íntima de um e de outro é idêntica.
Os cristãos místicos e os mestres da filosofia vedanta concordam ainda em considerar como supérfluas as obras exteriores e os exercícios religiosos para aquele que consegue atingir a perfeição.
Tão grande acordo entre povos tão diferentes, numa época muito remota, é uma prova evidente de que não se trata aqui, como declaram os banais otimistas, de uma aberração, de um desequilíbrio do espírito e dos sentidos; pelo contrário, é um lado essencial da natureza humana, um lado admirável que raramente se encontra e que se exprime nesse ascetismo.
Assim considerando a vida dos santos, que sem dúvida raramente nos é dado encontrar e conhecer por experiência própria, mas de quem a arte nos traça a história com uma verdade segura e profunda, devemos dissipar a sombria impressão deste nada, que flutua com o último objetivo atrás de toda a virtude e de toda a santidade, e que tememos, como a criança teme as trevas, em vez de procurarmos escapar como os índios, por meio de mitos e palavras destituídas de sentido, tais como a ressorção no Brama, ou o Nirvana dos budistas. Reconheçamos: o que resta após a supressão total da vontade não é coisa alguma para todos aqueles que estão ainda cheios da vontade de viver, é o nada. Mas também para aqueles nos quais a vontade chegou a desviar-se do seu fito, a negar-se a si mesma o nosso mundo, que nos parece tão real como todos os seus sóis e as suas vias lácteas, o que é? Nada.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

19/04/2023

A Moral | II – A Piedade

A piedade é esse fato admirável, misterioso, pelo qual vemos a linha de demarcação, que aos olhos da razão separa totalmente um ser do outro, desaparecer e o eu não se tornar de modo algum o eu.
Só a piedade é o princípio real de toda justiça livre e de toda caridade verdadeira. A piedade é um fato incontestável da consciência do homem; é-lhe essencialmente própria e não depende de noções anteriores, de ideias a priori, religiões, dogmas, mitos, educação e cultura; é o produto espontâneo, imediato, inalienável da natureza; resiste a todas as provas, e mostra-se em todos os tempos e em todos os países; em toda parte é invocada com confiança, tão grande é a certeza de que ela existe em todos os homens, e nunca é contada entre os “deuses estranhos”. O ente que não conhece a piedade está fora da humanidade, e essa mesma palavra humanidade é muitas vezes tomada como sinônimo de piedade.
Pode-se objetar a toda boa ação que nasce unicamente das convicções religiosas, que não é desinteressada, que procede do pensamento de uma recompensa ou de um castigo que se espera, enfim, que não é puramente moral. – Considerando-se o móbil moral da piedade, quem ousaria contestar que em todas as épocas, em todos os povos, em todas as situações da vida, em plena anarquia, no meio dos horrores das revoluções e das guerras, nas grandes como nas pequenas coisas, todos os dias, todas as horas, a piedade não prodigaliza os seus efeitos benéficos e verdadeiramente maravilhosos, não impede muitas injustiças, não provoca de improviso mais de uma boa ação sem esperança de recompensa, e que em toda parte onde atua só reconhecemos nela, com admiração e comoção, o puro valor moral sem mistura?
Inveja e piedade, todos têm em si esses dois sentimentos diametralmente opostos; origina-os a comparação involuntária, inevitável da nossa própria situação com a dos outros; segundo essa comparação, reage sobre cada caráter individual um ou outro desses sentimentos, torna-se uma disposição fundamental e a origem dos nossos atos. A inveja só faz elevar, engrossar, consolidar o muro que se erguia entre tu e eu; a piedade, pelo contrário, torna-o delgado e transparente, por vezes derruba-o completamente, e dissipa-se, desse modo, toda a diferença entre eu e os outros homens.
Quando travamos conhecimento com um homem, não tratamos de lhe pesar a inteligência, o valor moral, o que nos levaria a reconhecer-lhe a maldade das intenções, a escassez da razão, a falsidade dos raciocínios, e só nos despertaria desprezo e aversão; consideremos, antes, os seus sofrimentos, misérias, angústias, dores, e assim sentiremos quanto ele nos toca de perto; é então que despertará a nossa simpatia e que, em lugar de ódio e de desprezo, experimentaremos por ele essa piedade, que é o único ágape a que o Evangelho nos convida.
Se considerarmos a perversidade humana e nos dermos pressa em nos indignar com ela, é preciso imediatamente lançar os olhos sobre a miséria da existência humana e, reciprocamente, se a miséria nos assusta, considerar a perversidade; achar-se-á então que se equilibram uma à outra, e reconhecer-se-á a justiça eterna; ver-se-á que o próprio mundo é o julgamento do mundo.
A cólera, embora deveras legítima, acalma-se logo perante a ideia de que aquele que nos ofendeu é um desgraçado. O que a chuva é para o fogo é a piedade para a cólera. Aconselho àquele que não deseja preparar-se remorsos que, quando pense em vingar cruelmente uma injúria, imagine sob as mais vivas cores a sua vingança já realizada, represente-se a sua vítima presa de sofrimentos físicos e morais, em luta com a miséria e a necessidade, e diga a si próprio: eis a minha obra. Se há alguma coisa no mundo que possa extinguir a cólera é com certeza esse pensamento.
O que faz que os pais tenham geralmente maior predileção pelos filhos doentes é que a sua aparência solicita incessantemente a piedade.
A piedade, princípio de toda moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao passo que os outros sistemas de moral europeia têm para com eles pouquíssima responsabilidade e solicitude. A suposta ausência de direitos dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais, é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do ocidente, cuja origem está no judaísmo…
É preciso recordar a esses desprezadores dos animais, a esses ocidentais judaizados, que assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que o amamentou.
A piedade com os animais está tão intimamente ligada à bondade de caráter que se pode afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.
Uma piedade sem limites para com todos os seres vivos é o penhor mais firme e seguro do procedimento moral; isso não exige nenhuma casuística. Pode-se ter a certeza de que aquele que a possui nunca ofenderá ninguém, nem lhe causará dano nos seus direitos ou na sua pessoa; pelo contrário, será indulgente para com todos, perdoará a todos, prestará socorro ao seu semelhante na medida das suas forças, e todos os seus atos terão o cunho da justiça e do amor pelo próximo. Tentem alguma vez dizer: “Este homem é virtuoso, mas desconhece inteiramente a piedade”, ou então: “É um homem injusto e mau, contudo é muito sensível aos males alheios”; a contradição, nesse caso, torna-se frisante. – Nem todos têm os mesmos gostos; mas não conheço melhor súplica do que aquela com que terminam as peças antigas do teatro índio (como outrora as peças inglesas concluíam com estas palavras: “pelo rei”).
É este o sentido: 
“Que todos os seres vivos se conservem isentos de dores!”

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

15/04/2023

A Moral

A virtude, assim como o gênio, não se ensina; a ideia que se faz da virtude é estéril, e só pode servir de instrumento, como as coisas técnicas em matéria de arte. Esperar que os nossos sistemas de moral e as nossas éticas possam tornar os homens virtuosos, nobres e santos é tão insensato como imaginar que os nossos tratados sobre estética possam produzir poetas, escultores, pintores e músicos.
Não há senão três causas fundamentais das ações humanas, e nada se faz sem elas. Temos: a) o egoísmo, que quer o seu próprio bem (não tem limites); b) a maldade, que deseja o mal de outrem (vai até a extrema crueldade); c) a piedade, que quer o bem de outrem (vai até a generosidade, à grandeza de alma). Toda ação humana depende de uma dessas três causas, ou mesmo de duas.

I – O Egoísmo

O egoísmo inspira um tal horror que inventamos a delicadeza para ocultá-lo como uma parte vergonhosa; mas ele rasga todos os véus, e trai-se em todo encontro em que nos esforçamos instintivamente por utilizar cada novo conhecimento a fim de servir a alguns dos nossos inúmeros projetos. O nosso primeiro pensamento é sempre saber se tal homem nos pode ser útil para alguma coisa. Se não nos pode servir, já não tem valor algum… Suspeitamos a tal ponto desse sentimento em nossos semelhantes que, se nos suceder pedir-lhes um conselho ou um esclarecimento, perdemos toda a confiança no que nos disserem se supusermos, por um momento, que têm aí um interesse qualquer; porque pensamos imediatamente que o nosso conselheiro quer servir-se de nós como de um instrumento; e atribuímos o seu parecer não à prudência da sua razão, mas às suas intenções secretas, por muito grande que seja a primeira, por muito fracas e distantes que sejam as segundas.
O egoísmo, por natureza, não tem limites; o homem só tem um desejo absoluto, conservar a existência, eximir-se de qualquer dor, de qualquer privação; o que almeja é a maior soma possível de bem-estar, é a posse de todos os gozos de que é capaz de imaginar, e que se esforça por variar e desenvolver incessantemente. Qualquer obstáculo que surja entre o seu egoísmo e as suas cobiças excita-lhe a raiva, a cólera, o ódio: é um inimigo que é preciso esmagar. Desejaria tanto quanto possível gozar tudo, possuir tudo; não o podendo, almejaria pelo menos dominar tudo: “Tudo para mim, nada para os outros”, é a sua divisa. O egoísmo é colossal, o universo não pode contê-lo. Porque se dessem a cada um a escolha entre o aniquilamento do universo e a sua própria perda, é ocioso dizer qual a resposta.
Cada um considera-se o centro do mundo, açambarca tudo, até as próprias agitações dos impérios se consideram primeiro do ponto de vista do interesse de cada um, por muito ínfimo e distante que possa estar. Haverá contraste mais surpreendente? De um lado, esse interesse superior, exclusivo, que cada um tem por si mesmo; e, do outro, esse olhar indiferente que lança a todos os homens. Chega a ser uma coisa cômica, essa convicção de tanta gente procedendo como se só eles tivessem uma existência real, e os seus semelhantes fossem meras sombras, puros fantasmas.
Para pintar de um traço a enormidade do egoísmo numa hipérbole empolgante, cheguei a isto: Muita gente seria capaz de matar um homem para se apoderar da gordura do morto e untar com ela as botas. Só me resta um escrúpulo: será realmente uma hipérbole?
O Estado, essa obra-prima de egoísmo inteligente e raciocinado, esse total de todos os egoísmos individuais, colocou os direitos de cada um nas mãos de um poder infinitamente superior ao poder do indivíduo, e que o obriga a respeitar os direitos dos outros. É assim que são lançados na sombra o egoísmo desmedido de quase todos, a maldade de muitos, a ferocidade de alguns; a sujeição mantém-nos acorrentados, daí resulta uma aparência enganadora. Mas o poder protetor do Estado encontra-se, como às vezes sucede, sofismado ou paralisado, vê-se surgir à luz do dia os apetites insaciáveis, a sórdida avareza, a secreta falsidade, a maldade, a perfídia dos homens, e então recuamos, gritamos, como se esbarrássemos com um monstro ainda desconhecido; contudo, sem a sujeição das leis, sem a necessidade que há da honra e da consideração, todas essas paixões triunfariam constantemente.
É necessário ler as coisas célebres, a história dos tempos da anarquia, para saber o que há no íntimo do homem, o que vale a sua moralidade! Esses milhares de entes que temos à vista, obrigando-se mutuamente a respeitar a paz, são outros tantos tigres e lobos, que uma forte mordaça impede de morder. Suponha-se a força pública suprimida, a mordaça tirada, recuar-se-ia de medo ante o espetáculo que se teria à vista, e que todos imaginam facilmente; não é isto confessar quão pouco os homens se fundam na religião, na consciência, na moral, seja qual for a sua base? Todavia, é então que, em face dos sentimentos egoístas, antimorais, entregues a eles mesmos, se veria igualmente o verdadeiro instinto moral do homem revelar-se, desenvolver o seu poder, e mostrar o que pode fazer; e ver-se-ia que há tanta variedade nos caracteres morais como há variedades de inteligência, o que não é dizer pouco.
Tem a consciência origem na natureza? Pode-se duvidar. Pelo menos, há também uma consciência bastarda, conscientia spuria, que se confunde frequentemente com a verdadeira. A angústia e o arrependimento causados pelos nossos atos não são muitas vezes outra coisa senão receio das consequências. A violação de certas regras exteriores, arbitrárias e mesmo ridículas, desperta escrúpulos perfeitamente análogos aos remorsos de consciência. É por esse motivo que certos judeus ficarão obsediados com a ideia de terem fumado o cachimbo em sua casa ao sábado, contrariamente ao preceito de Moisés, capítulo XXXV, parágrafo 3º: “não se acenderá o lume no dia de sábado em vossas casas”. Certo fidalgo, certo oficial, não se consola por haver faltado numa ocasião qualquer às regras desse código dos loucos, que se chama ponto de honra, de tal modo que mais de um, não lhe sendo possível manter a sua palavra ou satisfazer as exigências do código da honra, deu um tiro nos miolos (conheço exemplos). Todavia, esse mesmo homem violará todos os dias, com a maior facilidade, a sua palavra, contanto que não tenha acrescentado este termo fatídico, este Schiboleth: pela honra.
Em geral, uma inconsequência, uma imprevidência, qualquer ato contrário aos nossos projetos, aos nossos princípios, às nossas convenções, seja de que natureza forem, e mesmo qualquer indiscrição, qualquer imperícia, qualquer grosseria, deixam após elas um verme que nos rói em silêncio, um espinho enterrado no coração. Muita gente se espantaria se visse os elementos de que se compõe essa consciência, de que formam uma ideia tão grandiosa: cerca de 1/5 de medo dos homens; 1/5 de temores religiosos; 1/5 de preconceitos; 1/5 de vaidade; 1/5 de hábito; tanto valeria dizer como o inglês: I cannot afford to keep a conscience: Não sou assaz rico para ter o luxo de uma consciência.
Embora os princípios e a razão abstrata não sejam de modo algum a origem primitiva ou o primeiro fundamento da moralidade, são contudo indispensáveis à vida moral; é como um reservatório alimentado pela fonte de toda a moralidade, mas que não corre a todo instante, que se conserva, e no momento útil pode espalhar-se onde se torna necessário… Sem princípios firmes, os instintos antimorais, uma vez postos em movimento pelas expressões exteriores, dominar-nos-iam imperiosamente. Manter a firmeza dos princípios, segui-los a despeito dos motivos opostos que nos solicitam, é o que se chama ser senhor de si.
Os atos e o procedimento de um indivíduo e de um povo podem ser modificados pelos dogmas, pelo exemplo, e pelo hábito; mas os atos considerados em si próprios são apenas imagens vãs, é a disposição do espírito que impele a praticá-los, que lhes dá uma importância moral. Esta pode conservar-se absolutamente a mesma, embora tenha manifestações exteriores completamente diferentes. Com um grau igual de maldade, um pode morrer no cadafalso, e outro acabar o mais sossegadamente possível no meio dos seus. Pode o mesmo grau de maldade exprimir-se num povo por meio de atos grosseiros, mortes, selvageria, num outro, suavemente e em miniatura, por intrigas da corte, opressões e velhacarias sutis de toda espécie; o fundo das coisas é o mesmo. Poder-se-ia imaginar um Estado perfeito, ou mesmo, talvez, um dogma inspirando uma fé absoluta nas recompensas e nos castigos depois da morte, que lograsse evitar todos os crimes: politicamente seria muito, moralmente não se ganharia coisa alguma, só os atos seriam acorrentados e não a vontade. Os atos poderiam ser corretos, a vontade permaneceria pervertida.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

20/07/2022

A religiosidade da pesquisa

O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo — uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai —, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

03/08/2021

A ciência é moral?

A aliança entre o Estado e a ciência data dos primórdios da civilização. Por milhares de anos, bem antes do início do século XVII marcar o nascimento da ciência moderna, artesãos desenvolveram ligas metálicas, arcos mais precisos, catapultas, pólvora e muitas outras invenções a serviço do Estado, tanto para defender quanto para atacar. A pedido do rei Gelão II, o grande inventor e matemático grego Arquimedes desenhou armas para proteger a cidade de Siracusa dos navios romanos. Relatos históricos (talvez um pouco exagerados) contam que construiu catapultas gigantescas e usou espelhos e lentes gigantes para incendiar as naves invasoras. De qualquer forma, a aplicação do conhecimento científico no desenvolvimento de armamentos é parte essencial da história da humanidade.
Felizmente, essa não é, me parece, a motivação principal que leva jovens a seguir uma carreira científica. A maioria escolhe ser cientista para se engajar no estudo da Natureza em todas as suas manifestações, vivas (nas ciências biológicas) e não vivas (nas ciências físicas), ou para desenvolver tecnologias que potencialmente possam melhorar a qualidade de vida da humanidade: mais conforto e energia, mais comida, mais saúde. Por outro lado, a maioria absoluta das áreas de pesquisa necessitam de fomento, seja ele proveniente do governo ou da iniciativa privada.
É aqui que nasce a aliança entre a ciência e o Estado. A intensidade dessa aliança depende de circunstâncias políticas. Tipicamente, em tempos de guerra ou durante regimes autoritários, a aliança é fortalecida e o Estado engaja cientistas para defender seus interesses estratégicos. Dentro dessa realidade, as reações dos cientistas são variadas. Por exemplo, enquanto os irmãos Wright não tiveram o menor escrúpulo em vender seus aviões para o exército americano em 1909, o uso de aviões como armas de guerra horrorizou nosso Santos Dumont, a ponto de possivelmente ter contribuído para o seu suicídio em 1932.
Na Primeira Guerra Mundial, o impacto da ciência foi essencial. Essa guerra é muitas vezes chamada de “Guerra dos Químicos”, pelo uso de gases venenosos nas frentes de batalha, com resultados devastadores para ambos os lados. Mais de 124 mil toneladas de gases venenosos foram usados, em violação da Convenção de Haia de 1899. Na Alemanha, grandes empresas como a Bayer, a Hoechst e a BASF uniram-se ao Instituto de Pesquisas Kaiser Wilhelm, sob a direção do Prêmio Nobel de Química Fritz Haber, para desenvolver bombas capazes de espalhar os gases nas trincheiras. (Haber recebeu o prêmio em 1918, quando a guerra estava terminando.)
A contratação de empresas privadas pelo Estado é típica nesses casos. Em geral, as guerras são ganhas por aqueles que detêm as tecnologias mais avançadas. Quando necessário, o Estado desenvolve complexos de pesquisa dedicados ao desenvolvimento de novas tecnologias bélicas, muitas vezes contratando times de cientistas para chefiar as pesquisas, como no caso de Fritz Haber. A aliança entre o Estado e a ciência é vista como essencial para proteger a população e a hegemonia estatal: o cientista, patriota, vê-se encurralado, sabendo, ao mesmo tempo, que seus conhecimentos podem defender seu país e comunidade e, também, a devastação que podem causar.
Se a Primeira Guerra Mundial foi a “guerra dos químicos”, a Segunda foi a dos físicos. Entre a invenção do radar em 1935, alguns anos antes da guerra e, mais dramaticamente, a bomba atômica em 1945, a aplicação de conceitos novos da física no desenvolvimento de equipamentos de detecção e armamentos de destruição teve um papel essencial na vitória dos Aliados. Por outro lado, despertou, também, uma conscientização do poder da ciência inédita na história.
Após o primeiro teste da bomba atômica no deserto de Alamogordo, no Novo México, o físico e diretor do Projeto Manhattan, J. Robert Oppenheimer, citou o Bhagavad Gita, a escritura religiosa hindu, para expressar seus sentimentos: “Agora sou a Morte, destruidora de mundos.” Para Oppenheimer e todos os demais cientistas e militares presentes no teste, ficou claro que o mundo jamais seria o mesmo. Pela primeira vez na história, o homem tinha uma arma com poder de destruição de proporções globais. Enquanto muitos cientistas eram veementemente contra o uso de armas nucleares em qualquer conflito, outros não viam outra forma de deter o inimigo.
O orgulho nacional misturado com o patriotismo, a curiosidade científica e o medo de que os nazistas pudessem, também, desenvolver a bomba atômica eram um combustível poderoso. (Após a guerra, ficou claro que os nazistas estavam longe de construir uma bomba atômica. Mas antes, durante o conflito, a informação era inconsistente.)
Mesmo assim, continua sendo um mistério como o grupo de cientistas que trabalhou no Projeto Manhattan, na maioria, indivíduos de natureza pacífica, intelectualmente abertos, e sempre dispostos a dividir o conhecimento entre si, colaborou na construção de uma arma tão nefasta. Por outro lado, uma vez que a arma foi construída, a decisão de usá-la não pertencia aos cientistas que a criaram. Este é um ponto essencial na aliança entre o Estado e a ciência: mesmo que, ocasionalmente, cientistas possam trabalhar entusiasticamente no desenvolvimento de uma nova arma, a decisão de como e onde usá-la vem do Poder Executivo, presumivelmente com o apoio do Legislativo (ou não, em regimes autoritários).
O sucesso da ciência norte-americana durante a Segunda Guerra iniciou uma nova era no fomento da pesquisa científica, tanto básica quanto aplicada. No pós-guerra, a corrida armamentista disparou, aquecida pela Guerra Fria e pelo medo de um ataque soviético. Na década de 1960, a corrida espacial pôs lenha no fogo, acelerando ainda mais o fomento da pesquisa. Tanto nos EUA quanto na União Soviética, a ciência básica era vista como essencial na geração de ideias que, potencialmente, poderiam ser usadas em tecnologias de defesa.
Em julho de 1945, Vannevar Bush, diretor do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento Científico dos EUA, declarou num relatório para o presidente Truman (iniciado sob o governo do presidente Roosevelt), intitulado “Ciência: a fronteira sem fim”: O espírito dos pioneiros ainda é vigoroso em nossa nação. A ciência oferece um território inexplorado para o pioneiro que detenha os instrumentos necessários para esse objetivo. As recompensas dessa exploração para a nação e para o indivíduo são enormes. O progresso científico é a chave essencial para a segurança nacional, para a nossa saúde, para gerar novos empregos e uma qualidade de vida mais elevada, para nosso progresso cultural.
A ciência é uma oportunidade para o indivíduo e para a nação. Não pode progredir sozinha, precisando ser apoiada pelo Estado e pela iniciativa privada. Obviamente, a pesquisa industrial é essencial, e hoje é dominante, inclusive na corrida espacial. O que é raramente discutido, mesmo que sempre esteja implícito, é a moralidade das escolhas que são (ou não) feitas por cientistas que trabalham nas diversas áreas de pesquisa. Rotular a ciência como sendo moral ou imoral não faz sentido.
A ciência em si é amoral, uma coletânea de fatos sobre o mundo natural obtidos pacientemente por cientistas, profissionais que seguem uma metodologia de análise quantitativa de dados e observações. Isso é tanto verdade para os cientistas que estudam frentes de choque em detonações explosivas, como para os cientistas, engenheiros e técnicos que desenham ou trabalham nas linhas de montagem de bombas, ou para físicos de partículas que buscam os componentes fundamentais da matéria. A questão do uso moral da ciência emerge na relação entre os cientistas e os seus patronos, sejam eles o governo ou o setor privado.
É verdade que ter uma arma não é a mesma coisa do que usar a arma. Desde o bombardeio de Nagasaki pelos EUA, nenhuma outra bomba atômica foi usada. A política de prevenção de conflitos nucleares, ao menos até agora, está funcionando. Porém, também é possível argumentar que ter uma arma é a condição essencial para usá-la. Ter uma vasta coleção de armas nucleares é uma estratégia de paz um tanto instável, assunto a que voltaremos adiante. E este é o cerne da questão na aliança entre a ciência e o Estado. A aliança é, por construção, instável.
A decisão do uso das armas, inclusive as nucleares, está nas mãos do líder do país, que é, em última instância, a pessoa responsável pelo seu uso. Não são os cientistas que decidem quais armas são usadas, ou quando. Portanto, o que dizer do cientista que trabalha nessa área? Não me parece que há uma resposta simples. Existem várias profissões que podem prejudicar ou ferir pessoas. Existem muitos modos de ferir o outro. Se o fazem dentro da indústria bélica, é porque escolheram fazê-lo, por uma ideologia de patriotismo, de orgulho nacionalista, ou porque foi o emprego que conseguiram. Porém, a decisão moral de como a ciência é usada está nas mãos daqueles que detêm o poder de ação. Por isso, é essencial que o cidadão saiba escolher seus líderes políticos. E que cientistas saibam refletir, criticamente, sobre a natureza de seu trabalho.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

01/07/2019

Do juízo moral e do religioso

O juízo moral tal como o juízo religioso baseia-se em realidades que não o são. A moral é unicamente uma interpretação de certos fenômenos, dito de forma mais precisa, uma interpretação falsa. O juízo moral, da mesma forma que o religioso, corresponde a um grau de ignorância ao qual ainda falta o conceito do real, a distinção entre o real e o imaginário: de tal forma que, a esse nível, a palavra verdade designa simplesmente coisas a que nós hoje chamamos imaginações. O juízo moral, por conseguinte, não deve ser tomado nunca à letra: porque tal constituiria unicamente um contrassenso. Porém enquanto semiótica, não deixa de ser inestimável: revela, pelo menos para o entendido, as realidades mais valiosas das culturas e dos espíritos que não sabiam o bastante para se compreenderem a si mesmos. A moral é meramente um falar por sinais, meramente uma sintomatologia: há que saber já de que se trata para obtermos proveito dela.”
Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos

14/01/2019

Eternidade e moral

Ninguém soube dizer, até os dias de hoje, o que é o bem e o mal. Será o mesmo, certamente, no futuro. Pouco importa a relatividade: só conta a impossibilidade de não fazer uso destas expressões. Sem saber o que é bem, nem o que é mal, e qualifico as ações, entretanto, em boas ou más. Se me perguntassem em razão de quê me pronuncio de tal forma, eu não saberia responder. Um processo instintivo me faz apreciar as coisas segundo critérios morais; pensando nisto em retrospectiva, não lhes encontro mais nenhuma justificação. A moral tornou-se tão complexa, e tão contraditória, porque os valores morais cessaram de se constituir em ordem da vida para se cristalizar numa região transcendente, não mantendo mais do que frágeis contatos com as tendências vitais e irracionais. Como fundaríamos, então, uma moral? A palavra bem me dá vontade de vomitar, de tão insossa e inexpressiva. A moral ordena-nos a obrar pelo triunfo do bem. De que maneira? Por meio do cumprimento do dever, do respeito, do sacrifício, da modéstia, etc... Nisto somente vejo, por minha parte, palavras vagas e vazias de sentido: frente ao fato bruto, os princípios morais revelam-se tão vãos que nós nos perguntamos se não valeria mais à pena, no final das contas, viver sem critérios. Adoraria um mundo que não tivesse nenhum, sem forma nem princípio - um mundo da indeterminação. Pois, no nosso, esses conceitos exasperam mais do que qualquer absolutismo normativo. Eu vejo um mundo de fantasia e sonho, onde debater sobre a legitimidade das normas não teria mais nenhum sentido. Uma vez que, de toda maneira, a realidade é irracional na sua essência, para quê separar o bem do mal - para quê distinguir o que quer que seja? Aqueles que sustentam que podemos, apesar de tudo, salvar a moral frente à eternidade enganam-se redondamente. Eles afirmam que apesar do triunfo do prazer, das satisfações menores e do pecado, só subsistem, diante da eternidade, a boa-ação e a realização moral. Depois das misérias e dos prazeres efêmeros, presenciamos - é o que dizem - o triunfo final do bem, a vitória definitiva da virtude. Eles não devem ter notado que se a eternidade varre as satisfações e prazeres superficiais, ela varre não menos tudo aquilo a que chamamos virtude, boa-ação e ato moral. A eternidade não conduz nem ao triunfo do bem, nem ao do mal: ela anula tudo. Condenar o epicurismo em nome da eternidade é um absurdo. Em quê meu sofrimento me faria durar mais tempo do que um bon vivant? Objetivamente falando, o que pode significar o fato de que um indivíduo estremeça na agonia, enquanto um outro chafurda na volúpia? Que soframos ou não, o vazio nos engolirá indiferente, irremediavelmente e para sempre. Não saberíamos falar de um acesso objetivo à eternidade, mas somente de um sentimento subjetivo, fruto de descontinuidades na experiência do tempo. Nada daquilo que cria o homem pode conduzir a uma vitória definitiva. Por que embriagar-se em ilusões morais, quando existem ilusões muito mais belas? Aqueles que falam da salvação moral frente à eternidade evocam o eco indefinido no tempo do ato moral, sua ressonância ilimitada. Nada é menos verdadeiro, pois aqueles que se dizem virtuosos - na verdade, simples covardes - desaparecem muito mais rapidamente da consciência do mundo do que os adeptos do prazer. De qualquer maneira, mesmo no caso contrário, o que significariam algumas dezenas de anos suplementares? Todo prazer não realizado é uma ocasião perdida pela vida. Assim, não serei eu o responsável por brandir o sofrimento ao mundo, a fim de interditar-lhe as orgias e os excessos. Deixemos os medíocres falarem das consequências dos prazeres: as da dor não são muito mais sérias? Somente um medíocre desejará, para morrer, atingir o estado da velhice. Que sofram, então, ou embriaguem-se, que bebam do cálice do prazer até a última gota, que chorem ou riam, que gritem de alegria ou desespero - nada restará de toda forma. Qualquer moral não tem outro objetivo além do de transformar esta vida numa soma de ocasiões perdidas.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

05/10/2018

Religião e Moral

Muita gente nos diz que, sem a crença em Deus, um homem não é capaz de ser nem feliz, nem virtuoso. No que diz respeito à virtude, posso falar apenas por observação, não por experiência pessoal. No que diz respeito à felicidade, nem a experiência nem a observação me levaram a pensar que quem tem fé é mais feliz ou mais infeliz, em média, do que aqueles que não a têm. É contumaz encontrar razões “grandiosas” para a infelicidade, porque é mais fácil manter o orgulho se for possível atribuir o infortúnio à falta de fé do que se for necessário atribuí-lo ao fígado. No que diz respeito à moralidade, muito depende de como se compreende esse termo. De minha parte, penso que as virtudes mais importantes são a gentileza e a inteligência. A inteligência é tolhida por qualquer credo, independentemente de qual seja, e a gentileza é tolhida pela crença no pecado e no castigo (essa crença, aliás, é a única que o governo soviético tomou do cristianismo ortodoxo).
Existem diversas maneiras práticas pelas quais a moralidade tradicional interfere naquilo que é socialmente desejável. Uma delas é a prevenção de doenças venéreas. Mais importante é a limitação da população. Avanços na medicina tornaram essa questão muito mais importante do que jamais o foi. Se as nações e raças que continuam se proliferando tanto quanto os britânicos se proliferaram há cem anos não mudarem seus hábitos relativos a esse aspecto, não haverá perspectivas para a humanidade além de guerras e pobreza. Isso é algo que todo estudante inteligente sabe, mas que não é reconhecido pelos dogmatistas teológicos.
Acredito que a decadência das crenças dogmáticas só pode trazer o bem. Não hesito em reconhecer que os novos sistemas de dogmas, como aqueles dos nazistas e dos comunistas, são ainda piores do que os antigos, mas jamais teriam conseguido se apoderar do espírito dos homens se hábitos dogmáticos ortodoxos não lhes tivessem sido incutidos na infância. A linguagem de Stalin é cheia de reminiscências do seminário teológico em que recebeu sua educação. O que o mundo precisa não é de dogma, mas de uma atitude de investigação científica, combinada à crença de que a tortura de milhões de pessoas não é desejável, seja ela infligida por Stalin ou por uma Divindade imaginada à semelhança dos que acreditam.
Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

26/10/2017

Moral

Mas o dia seguinte! o terrível dia seguinte! todos os órgãos relaxados, cansados, os nervos acalmados, os titilantes desejos de chorar, a impossibilidade de se dedicar a um trabalho contínuo, mostram-lhe cruelmente que você se entregou a um jogo proibido. A natureza medonha, despojada de sua iluminação da véspera, assemelha-se aos restos melancólicos de uma festa. A vontade, sobretudo, é atacada, de todas as faculdades a mais preciosa. Dizem, e é quase verdade, que esta substância não causa nenhum mal físico, nenhum mal grave, ao menos. Mas é possível afirmar que um homem incapaz de ação, e próprio somente aos sonhos, se portaria realmente bem, mesmo quando todos os seus membros estivessem em bom estado? Ora, conhecemos bem a natureza humana para saber que um homem que pode, com uma colherada de confeito, alcançar instantaneamente todos os bens do céu e da terra, não ganharia jamais a milésima parte destes bens pelo trabalho. É possível imaginar um Estado onde todos os cidadãos se embriagassem de haxixe? Que cidadãos! que guerreiros! que legisladores! Mesmo no Oriente, onde o seu uso é tão difundido, há governos que compreenderam a necessidade de proscrevê-lo. Na verdade, é proibido ao homem, sob pena de degradação e morte intelectual, de desordenar as condições primordiais de sua existência e de romper o equilíbrio de suas faculdades com o meio onde elas estão destinadas a se moverem, em uma palavra, de desordenar seu destino para substituí-lo por uma fatalidade de gênero novo. Lembremo-nos de Melmoth, este admirável símbolo. Seu sofrimento assustador jaz na desproporção entre suas maravilhosas faculdades, adquiridas instantaneamente por um pacto satânico, e o meio em que, como criatura de Deus, está condenado a viver. E nenhum daqueles que quer seduzir consente em comprar-lhe, nas mesmas condições, seu terrível privilégio. Na verdade, todo homem que não aceita as condições da vida, vende sua alma. É fácil perceber a relação que existe entre as criações satânicas dos poetas e as criaturas vivas que se devotam aos excitantes. O homem quis ser Deus e, em seguida, ei-lo, em virtude de uma lei moral incontrolável, posto abaixo de sua real natureza. É uma alma que se vende a granel.
Balzac pensava sem dúvida que não há para o homem vergonha maior nem sofrimento mais vívido que a abdicação de sua vontade. Eu o vi uma vez, em uma reunião onde se tratava dos efeitos prodigiosos do haxixe. Ele escutava e questionava com uma atenção e uma vivacidade divertidas. As pessoas que o conheciam supõem que ele devia estar interessado. Mas a ideia deste desejo mesmo que involuntária, chocava-o vivamente. Apresentaram-lhe um pouco de dawamesk; ele o examinou, cheirou e devolveu sem tocar. A luta entre sua curiosidade quase infantil e sua repugnância à renúncia traía-se em seu rosto de maneira tocante. Conduzia-o o amor pela dignidade. Na verdade, é difícil imaginar o teórico da vontade, este gêmeo espiritual de Louis Lambert, consentindo em perder uma parcela desta preciosa substância.
Apesar dos admiráveis serviços prestados pelo éter e pelo clorofórmio, parece-me que, do ponto de vista da filosofia espiritualista, o mesmo estigma moral se aplica a todas as invenções modernas que tendem a diminuir a liberdade humana e a indispensável dor. Não foi sem uma certa admiração que ouvi uma vez o paradoxo de um oficial que me contava a operação cruel feita em um general francês em El-Aghouat, e da qual este morreu apesar do clorofórmio. O general era um homem valente e até algo mais, uma destas almas a quem se aplica naturalmente o termo: cavalheiresco. “Não era”, disse-me ele, “o clorofórmio o que lhe faltava, mas os olhares de todo o seu exército e a música dos regimentos. Desta forma, talvez pudesse ser salvo!” O cirurgião não era da mesma opinião que o oficial; mas o capelão teria, sem dúvida, admirado este sentimento.
É realmente supérfluo, após todas estas considerações, insistir no caráter imoral do haxixe. Mesmo que eu o compare ao suicídio, a um suicídio lento, a uma arma sempre sanguinolenta e sempre afiada, nenhum espírito razoável terá em que me censurar. Mesmo que eu o associe à feitiçaria, à magia, que querem, ao operarem sobre a matéria, e por meio de arcanos, cuja falsidade não pode ser melhor provada que sua eficiência, conquistar um domínio proibido ao homem ou permitido somente àquele considerado digno, nenhuma alma filosófica criticará esta comparação. Se a Igreja condena a magia e a feitiçaria, é que elas militam contra as invenções de Deus, suprimem o trabalho do tempo e querem tornar supérfluas as condições de pureza e moralidade; e que ela, a Igreja, apenas considera legítimos, verdadeiros, os tesouros ganhos pela boa intenção assídua. Chamamos de trapaceiro o jogador que achou um meio de jogar para ganhar infalivelmente; como denominaremos o homem que quer comprar, com alguns trocados, a felicidade e o gênio? É a própria infalibilidade do meio que constitui a imoralidade, como a suposta infalibilidade da magia lhe impõe seu estigma infernal. Seria necessário acrescentar que o haxixe, como todos os prazeres solitários, torna o indivíduo inútil aos homens e a sociedade supérflua para o indivíduo, levando-o a se admirar a si próprio sem cessar e empurrando-o, dia a dia, ao abismo luminoso onde ele admira sua face de Narciso?
E se ainda, à custa de sua dignidade, de sua honestidade e de seu 1ivre arbítrio, o homem pudesse tirar do haxixe grandes benefícios espirituais, fazer dele uma espécie de máquina de pensar, um instrumento fecundo? É uma indagação que ouvi sempre ser feita e a respondo. Primeiramente, como expliquei longamente, o haxixe não revela ao indivíduo nada além do próprio indivíduo. É verdade que este indivíduo é, por assim dizer, elevado ao cubo e levado ao extremo. E como é igualmente certo que a memória das impressões sobrevive à orgia, a esperança destes utilizadores não parece à primeira vista totalmente desprovida de razão. Mas rogarei que observem que os pensamentos, dos quais contam com tirar um partido tão grande, não são realmente tão belos quanto parecem em seus disfarces momentâneos e recobertos de ouropéis mágicos. Tais pensamentos estão mais para a terra que para o céu, e devem uma grande parte de sua beleza à agitação nervosa, à avidez com a qual o espírito se lança sobre eles. Em seguida, esta esperança é um círculo vicioso: admitindo por um instante que o haxixe suscita ou pelo menos aumenta o gênio, esquecem que é da natureza do haxixe diminuir a vontade e que, desta forma, dá de um lado o que tira do outro, isto é, a imaginação sem a faculdade de dela tirar proveitos. Enfim, há que sonhar, imaginando um homem correto e vigoroso o suficiente para se preservar esta alternativa, deste outro perigo, fatal, terrível, que é o de todos os hábitos. Todos se transformam logo em necessidade. Aquele que puder recorrer a um veneno para pensar, em breve não poderá mais pensar sem veneno. É possível supor o terrível destino de um homem cuja imaginação paralisada não soubesse mais funcionar sem o recurso do haxixe ou do ópio?
Nos estudos filosóficos, o espírito humano, à imitação da marcha dos astros, deve seguir uma curva que o devolva a seu ponto de partida. Concluir é fechar um círculo. No começo, falei deste estado maravilhoso onde o espírito do homem se encontrava, às vezes, lançado como que por uma graça especial; disse que ao ansiar incessantemente a reanimação de suas esperanças e a sua elevação ao infinito ele mostrava, em todos os países e em todos os tempos, um gosto frenético por todas as substâncias, mesmo que perigosas, e, ao exaltar sua personalidade, pudessem suscitar por um instante aos seus olhos este paraíso de segunda mão, objeto de todos os seus desejos e disse, enfim, que este espírito arrojado levado, sem o saber, até o inferno, confirmava assim a sua grandeza original. Mas o homem não está tão abandonado, tão privado de meios honestos para ganhar o céu, a ponto de ser obrigado a invocar as drogas e a feitiçaria, não é necessário vender sua alma para pagar as carícias embriagantes e a amizade das huris. Que paraíso é este comprado à custa de sua saúde eterna? Imagino um homem (um brâmane? um poeta? um filósofo cristão?) colocado no árduo Olimpo da espiritualidade, à sua volta as Musas de Rafael ou de Mantegna, para consolá-lo de seus longos jejuns e de suas preces assíduas, combinam-se nas mais nobres, olham-no com seus mais doces olhares e seus mais iluminados sorrisos; o divino Apolo, mestre em tudo saber (o de Francavilla, de Albert Durer, de Goltzius ou de qualquer outro, que importa? não há um Apolo para todo homem que o mereça?), acaricia com seu arco as cordas mais vibrantes. Abaixo dele, ao pé da montanha, nas sarças e na lama, a multidão dos humanos, o bando dos párias, simula os esgares do prazer e solta urros provocados pelas dentadas do veneno; e o poeta entristecido diz a si mesmo: “Estes infortunados que não jejuaram, nem oraram e que recusaram a redenção pelo trabalho, buscam na magia negra os meios de se elevarem, de uma só vez, à existência sobrenatural. A magia os engana e acende para eles uma falsa felicidade e uma falsa luz; enquanto nós, poetas e filósofos, regeneramos nossa alma pelo trabalho sucessivo e pela contemplação; pelo exercício assíduo da vontade e pela nobreza permanente da intenção, criamos para nosso uso um jardim de beleza verdadeira. Confiantes na promessa que diz que a fé remove montanhas, realizamos o único milagre cuja licença nos foi concedida por Deus!”
Charles Baudelaire, in Paraísos artificiais

07/03/2017

Acerca de religião, moral e ciência

Muito antes de o homem estar maduro para ser confrontado com uma atitude moral universal, o medo dos perigos da vida levaram-no a atribuir a vários seres imaginários, não palpáveis fisicamente, o poder de libertar as forças naturais que temia ou talvez desejasse. E ele acreditava que esses seres, que dominavam toda a sua imaginação, eram feitos fisicamente à sua imagem, mas eram dotados de poderes sobre-humanos. Estes foram os precursores primitivos da ideia de Deus. Nascidos inicialmente dos medos que enchiam a vida diária dos homens, a crença na existência de tais seres, e nos seus poderes extraordinários, teve uma influência tão forte nos homens e na sua conduta que é difícil de imaginar por nós. Por isso, não surpreende que aqueles que se empenharam em estabelecer a ideia de moral, abarcando igualmente todos os homens, o tenham feito associando-a intimamente à religião. E o fato de estas pretensões morais serem as mesmas para todos os homens pode ter tido muito a ver com o desenvolvimento da cultura religiosa da espécie humana desde o politeísmo até ao monoteísmo.
A ideia de moral universal deve, assim, a sua potência psicológica original àquela ligação com a religião. No entanto, noutro sentido, esta associação íntima foi fatal à ideia de moral. A religião monoteísta adquiriu formas diferentes com várias pessoas e grupos. Apesar de essas diferenças não serem de forma alguma fundamentais, passaram rapidamente a ser sentidas mais fortemente do que a essência, que era comum. E, dessa forma, a religião provocou frequentemente inimizade e conflito, em vez de unir conjuntamente a espécie humana numa ideia de moral universal.
Então surgiu o crescimento das ciências naturais, com a sua grande influência no pensamento e na vida prática, enfraquecendo ainda mais, nos tempos modernos, os sentimentos religiosos das pessoas. O modo causal e objetivo de pensar — apesar de não estar necessariamente em contradição com a esfera religiosa — deixa na maioria das pessoas pouco espaço para um aprofundamento do sentido religioso. E, por causa da tradicional associação íntima entre religião e moral, isso trouxe consigo, nos últimos cem anos, mais ou menos, um enfraquecimento sério do sentimento e pensamento moral. Esta é, quanto a mim, a causa principal da crescente barbaridade dos meios políticos dos nossos dias. Considerada conjuntamente com a terrível eficiência dos novos meios técnicos, a barbárie representa já uma ameaça temível para o mundo civilizado.
É escusado dizer que estamos gratos pelo facto de a religião lutar arduamente pela realização do princípio moral. No entanto, o imperativo moral não é um assunto apenas para a igreja e a para religião, sendo sim a mais preciosa possessão tradicional de toda a espécie humana. Consideremos sob este ponto de vista a posição da imprensa ou das escolas com o seu método competitivo! Tudo é dominado pelo culto da eficácia e do sucesso, e não pelo valor das coisas e do homem em relação aos fins morais da sociedade humana. A isto deve ser acrescentada a deterioração moral resultante da dura luta econômica. A criação deliberada do sentido moral fora da esfera religiosa deve, todavia, ajudar este propósito, levar os homens a encararem os problemas sociais como uma oportunidade para desempenharem um serviço jubiloso em prol de uma vida melhor. Porque analisada sob um ponto de vista humano simples, a conduta moral não significa apenas uma rígida exigência de renúncia de algumas das desejadas alegrias da vida, mas, pelo contrário, um interesse sociável pelo bem comum para todos os homens (...) A moralidade no sentido aqui rapidamente explicado não é um sistema fixo e rígido. É, sim, uma posição segundo a qual todas as questões que ocorrem na vida podem e devem ser julgadas. É uma tarefa nunca terminada, algo sempre presente para guiar o nosso julgamento e inspirar a nossa conduta.
Albert Einstein, in Discurso (1938)

05/01/2017

Moral: mais sacrifícios do que vale

Podemos dizer sem contemplações à sociedade que aquilo a que ela chama a sua moral custa mais sacrifícios do que o que vale, e que os seus modos de proceder são falhos tanto de sinceridade como de sabedoria.
(...) Dir-se-ia que basta um grande número, que milhões de homens se encontrem reunidos, para que todas as aquisições morais dos indivíduos que os compõem se desvaneçam por completo e não restem já em seu lugar senão as atitudes psíquicas mais primitivas, mais antigas, mais brutais.
Sigmund Freud, in As Palavras de Freud

27/08/2016

Dupla moral

A humanidade tem dupla moral: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega.”
Bertrand Russell

14/03/2016

Moral

Ah, a palavra “moral”! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confusões que este termo engendrou abarcam quase toda a história das perseguições movidas pelo homem ao seu semelhante. Para além do facto de não existir apenas uma moral, mas muitas, é evidente que em todos os países, seja qual for a moral dominante, há uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo é permitido, tudo é perdoado. Ou seja, tudo o que de abominável e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiatório, “não têm moral”.
Pensar-se-á que, se realmente glorificássemos a vida e não a morte, se dessemos valor à criação e não à destruição, se acreditássemos na fecundidade e não na impotência, a tarefa suprema em que nos empenharíamos seria a da eliminação da guerra. Pensar-se-á que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a indústria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diabólico. Digo “assassinos”, porque em última análise esses homens não são outra coisa. A sangue-frio, anos antes de estalar qualquer conflito, preparam-se para obrigar os outros a obedecer-lhes; enumeram mentalmente todas as formas concebíveis de horror e destruição, e dedicam-se à tarefa calmamente, deliberadamente, implacavelmente, esperando apenas pelo momento certo para levarem à prática os seus planos.
(...) Confrontados com uma nova guerra - porque uma guerra engendra sempre outras - não poderemos esperar que estas “vítimas” se mostrem caridosas e magnânimas. Tendo sofrido contra vontade, exigirão inevitavelmente que os seus filhos e filhas paguem o mesmo tributo... Portanto, o que eu digo é que, se esta escravidão de sacrifício e vingança não é imoral, se não é a forma mais absoluta da imoralidade, então esta palavra não tem sentido. Não estamos a ser destruídos e corrompidos pelos escritos pornográficos ou obscenos; estamos a ser destruídos e condenados, em todos os sentidos, pela guerra e pelo planeamento da guerra.
Henry Miller, in O Mundo do Sexo

07/03/2016

Cultura ética

Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educação, em ordem exclusiva ao real e à prática, contribuiu para pôr em perigo os valores éticos. Não penso propriamente nos perigos que o progresso técnico trouxe diretamente aos homens, mas antes no excesso e confusão de considerações humanas recíprocas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses práticos que vem embotando as relações humanas.
O aperfeiçoamento moral e estético é um objectivo a que a arte, mais do que a ciência, deve dedicar os seus esforços. É certo que a compreensão do próximo é de grande importância. Essa compreensão, porém, só pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que é preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de ação é o que compete à religião, depois de libertada da superstição. Nesse sentido, a religião toma um papel importante na educação, papel este que só em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em consideração.
O terrível problema magno da situação política mundial é devido em grande parte àquela falta da nossa civilização. Sem cultura ética, não há salvação para os homens.”
Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

26/03/2014

A felicidade como recompensa: uma ilusão moral

“Toda essa ideia de uma felicidade como recompensa - que outra coisa seria, portanto, senão uma ilusão moral: um título de crédito com o qual se compra de ti, homem empírico, os teus prazeres sensíveis de agora, mas que só é pagável quando tu mesmo não precisas mais do pagamento. Pensa sempre nessa felicidade como um todo de prazeres que são análogos aos prazeres sacrificados agora. Ousa, apenas, dominar-te agora; ousa o primeiro passo de criança em direção à virtude: o segundo já se tornará mais fácil para ti. Se continuares a progredir, notarás com espanto que aquela felicidade que esperavas como recompensa do teu sacrifício, mesmo para ti não tem mais nenhum valor. Foi intencionalmente que se colocou a felicidade num ponto do tempo em que tens de ser suficientemente homem para te envergonhares dela. Envergonhar, digo eu, pois, se nunca chegas a sentir-te mais sublime do que aquele ideal sensível de felicidade, seria melhor que a razão jamais te tivesse falado.
É exigência da razão não precisar mais de nenhuma felicidade como recompensa, tão certo quanto é exigência tornar-se mais conforme à razão, mais autónomo, mais livre. Pois, se a felicidade ainda pode recompensar-nos - a não ser que se interprete o conceito de felicidade contrariamente a todo o uso da linguagem -, ela é então uma felicidade que não é trazida, já, pela própria razão (pois como poderiam razão e felicidade jamais coincidir?), uma felicidade que, justamente por isso, aos olhos de um ser racional, não tem mais nenhum valor.
Deveríamos, diz um antigo escritor, considerar que os deuses imortais são infelizes porque não possuem capitais, bens territoriais, escravos? Não deveríamos, antes, exaltá-los como os únicos bem-aventurados, justamente porque são os únicos que, pela sublimidade da sua natureza, já estão despojados de todos aqueles bens? - O mais alto a que podem elevar-se as nossas ideias é manifestamente um ser que, com autossuficiência absoluta, frui somente do seu próprio ser, um ser que cessa toda a passividade, que não é passivo em relação a nada, nem mesmo em relação aleis, que age com liberdade absoluta, apenas em conformidade com o seu ser, e cuja única lei é a sua própria essência.
Friedrich Schelling, in Sobre o Dogmatismo e o Criticismo

13/07/2013

O bem geral e o bem moral

“Não quero deixar passar o ensejo de indicar a diferença entre o bem em geral e o bem moral. Ambas as noções têm algo de comum e mesmo indissociável: nada pode ser considerado um bem se não tiver uma parcela de bem moral, e o bem moral é indiscutivelmente um bem. Qual é então a distinção entre as duas categorias? O bem moral é o bem absoluto, no qual se realiza totalmente a felicidade, e graças ao contato dele todas as outras coisas se podem tornar formas de bem. Exemplificando: há coisas que em si nem são boas nem são más, tais como o serviço militar, a carreira diplomática, a jurisprudência. Se estas tarefas forem realizadas conformemente ao bem moral, começam a tornar-se bens e passam, de indiferentes, para a categoria do bem. O bem, em geral, depende de estar ou não associado ao bem moral; o bem moral é em si mesmo o bem; o bem em geral está dependente do bem moral, enquanto o bem moral depende apenas de si. Tudo quanto é simplesmente um bem poderia ter sido um mal; o bem moral, pelo contrário, nunca poderia deixar de ter sido um bem.”
Sêneca, in Cartas a Lucílio

12/02/2013

Humildade

“A humildade fica perto da disciplina moral; a simplicidade de carácter fica perto da verdadeira natureza humana; e a lealdade fica perto da sinceridade de coração. Se um homem cultivar cuidadosamente essas coisas na sua conduta, não estará longe do padrão da verdadeira natureza humana. Com a humildade, ou uma atitude piedosa, um homem raramente comete erros; com a sinceridade de coração, um homem é geralmente digno de confiança; e com a simplicidade de caráter é comumente generoso: cometerá poucos erros.”
Confúcio, in A Sabedoria de Confúcio

19/08/2012

Sobre nossa moral

“A nossa moral é a cristalização de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ‘Numa prisão deve imperar o arrependimento!’. É uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consciências, mas ninguém a toma à letra, senão estávamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como é que a entendemos então? Há com certeza muito poucos que saibam o que é o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou então pensa em algo de exaltante: como é que isso se mistura com a moral? Quando é que estivemos com o rosto tão mergulhado no pó que isso nos faça sentir a bem-aventurança do arrebatamento? Ou então toma à letra uma expressão como ‘ser assaltado por um pensamento’: no momento em que sentisses no corpo um tal contato já estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer então ser lida na sua literalidade para não degenerar em mentira, mas não podemos tomar nenhuma à letra, sob pena de o mundo se transformar num manicômio! Há uma qualquer grande embriaguez que se eleva daí sob a forma de uma obscura recordação, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experiências são partes soltas e destruídas de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada”.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades