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11/06/2023

Ateus

Enfrentemos os factos. Há anos (muitos já), o famoso teólogo alemão Hans Küng escreveu esta verdade: “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros”. Jamais se disse nada tão verdadeiro. Aqui não se nega (seria absurdo pensá-lo) o direito a adoptar cada um a religião que mais lhe apeteça, desde as mais conhecidas às menos frequentadas, a seguir os seus preceitos ou dogmas (quando os haja), nem sequer se questiona o recurso à fé enquanto justificação suprema e, por definição (como por de mais sabemos), cerrada ao raciocínio mais elementar. É mesmo possível que a fé remova montanhas, não há informação de que tal tenha acontecido alguma vez, mas isso nada prova, dado que Deus nunca se dispôs a experimentar os seus poderes nesse tipo de operação geológica. O que, sim, sabemos é que as religiões, não só não aproximam os seres humanos, como vivem, elas, em estado de permanente inimizade mútua, apesar de todas as arengas pseudo-ecuménicas que as conveniências de uns e outros considerem proveitosas por ocasionais e passageiras razões de ordem táctica. As coisas são assim desde que o mundo é mundo e não se vê nenhum caminho por onde possam vir a mudar. Salvo a óbvia ideia de que o planeta seria muito mais pacífico se todos fôssemos ateus. Claro que, sendo a natureza humana isto que é, não nos faltariam outros motivos para todos os desacordos possíveis e imagináveis, mas ficaríamos livres dessa ideia infantil e ridícula de crer que o nosso deus é o melhor de quantos deuses andam por aí e de que o paraíso que nos espera é um hotel de cinco estrelas. E mais, creio que reinventaríamos a filosofia.

José Saramago, in O caderno

05/04/2022

Sem Deus, não poderia existir a palavra “ateu”

Há uma coisa clara a levar em conta: eu não posso dizer em consciência que sou ateu, ninguém pode dizer, porque o ateu autêntico seria alguém que viveria numa sociedade onde nunca teria existido uma ideia de Deus, uma ideia de transcendência e, portanto, nem mesmo a palavra “ateu” existiria nesse idioma. Sem Deus, não poderia existir a palavra “ateu” nem a palavra “ateísmo”. Por isso digo que, em consciência, não posso dizer tal coisa. Mas Deus está aí, portanto falo dele, não como uma obsessão.

José Saramago, in As palavras de Saramago

09/11/2021

Um ateu como eu

 Sou um espírito profundamente religioso. E digo-lhe, usando um pouco da minha ironia habitual, que é preciso ter-se um altíssimo grau de religiosidade para fazer um ateu como eu. No sentido etimológico de religião, tomada como aquilo que liga, o que sinto é essa grande ligação a tudo, àquilo que está aqui à mão, que somos nós, ao que nos rodeia, esta terra pequena que é a nossa terra, a outra maior, o continente, o globo.”

José Saramago, in As palavras de Saramago

19/10/2021

Ateu coerente

Penso que para se ser um ateu coerente faz falta um alto grau de religiosidade. O ateísmo não é incompatível com uma postura religiosa. Nem se trata de substituir Deus pela humanidade. É mais um sentimento de uma grandeza imensa que tem a ver com o Universo. E isto é suficiente, porque ainda que eu não coloque Deus nesse Universo, a minha posição é o que chamamos de transcendente, uma palavra que se costuma utilizar pensando em Deus e que eu utilizo noutra direção. O que me transcende é a matéria, a Terra, toda ela, com os seus mares e as suas multidões. E a minha religiosidade começa, se você preferir, na relação que tenho com o meu país.

José Saramago, in As palavras de Saramago

28/01/2021

Acerca de ateus e cristãos

          Perguntaram um dia a alguém se havia ateus verdadeiros. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos verdadeiros?

Denis Diderot, in Pensamentos filosóficos

24/02/2017

Em nome de Deus

Os problemas de Deus não me preocupam. Preocupam-me os problemas dos homens que inventaram um Deus que não faz mais que nos fazer passar péssimos bocados. Talvez Deus exista — eu não creio —, mas não tem sentido que nos matemos em nome de Deus.”
José Saramago, in As palavras de Saramago

18/04/2013

Sobre ateus, agnósticos e religiosos

“O primeiro passo é respeitar o próximo. Mas eu acrescentaria um ponto de vista: quando uma pessoa diz ‘eu sou ateu’, acredito que está assumindo uma postura arrogante. A posição mais rica é a daquele que duvida. O agnóstico pensa que ainda não encontrou a resposta, agora o ateu tem certeza, 100%, de que Deus não existe. Tem a mesma arrogância de quem garante que Deus existe, tal como esta cadeira sobre a qual estou sentado. Nós, religiosos, somos crentes, não damos por certa Sua existência. Podemos percebê-la em um encontro muito, muito, mas muito profundo, mas nunca O vemos. Recebemos respostas sutis. A única pessoa que, segundo a Torá, explicitamente falava com Deus, cara a cara, era Moisés. Aos outros – Jacó, Isaac – a presença de Deus chegava em sonhos ou em refrações. Dizer que Deus existe, como se fosse mais uma certeza, também é uma arrogância porque tenho de ter a mesma humildade que exijo do ateu. O exato seria dizer – como Maimônides enuncia em seus treze princípios de fé – ‘eu acredito com fé plena que Deus é o Criador’. Seguindo a mesma linha de Maimônides, podemos dizer o que Deus não é, mas não podemos assegurar o que Deus é. Podemos mencionar suas qualidades, seus atributos, mas de jeito nenhum podemos lhe dar forma. Eu recordaria ao ateu que há uma perfeição na natureza que está enviando uma mensagem; podemos conhecer suas fórmulas, mas nunca sua essência.”
Rabino Abraham Skorka, in Sobre o Céu e a Terra