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14/05/2026

Menino numa festa de Natal

1

O miúdo que andava à mãozinha

As crianças são gente estranha que nos aparece nos sonhos e nas visões. Antes da quadra natalícia e na própria véspera de Natal, eu encontrava muitas vezes na rua, a uma esquina, um rapazinho dos seus sete anos, não mais. Fazia um frio de rachar, terrível, mas o garoto vestia quase como no verão, apenas embrulhando à volta do pescoço uns farrapos quaisquer; portanto, alguém o agasalhava para o mandar para a rua. Andava à mãozinha, termo técnico que significa pedir esmola. O termo foi inventado pelos próprios rapazes. Há muitíssimos como ele, que se nos metem à frente do caminho e uivam qualquer coisa decorada; mas este não uivava, falava de maneira inocente e natural e olhava-me nos olhos com confiança; portanto, estava em início de carreira. Às minhas perguntas, respondeu que tinha uma irmã, desempregada e doente; talvez fosse verdade. Mais tarde vim a saber que estes meninos são aos bandos e que são postos à mãozinha, nem que o frio seja terrível, e que, se não conseguirem arranjar nada espera-os com certeza o espancamento. Depois de juntar uns copeques, o rapazinho volta, de mãos vermelhas e enregeladas, para uma cave qualquer onde está a embebedar-se uma corja de “pessoal da ganga”, desses que “tendo largado o trabalho no sábado, não voltam a ele antes de quarta-feira à tarde”. Ali, nesses covis, embebedam-se com eles as suas mulheres famintas e espancadas, ao lado piam as suas crianças de peito também esfomeadas. Vodca, imundície, depravação, mas sobretudo vodca. O garoto, quando chega com os copeques da pedincha, é logo mandado à taberna buscar mais álcool. Por divertimento, também a ele lhe vertem às vezes alguma vodca na boca e riem-se quando ele, de respiração entrecortada, tomba no chão quase desmaiado.

... e impiedoso vertia-me
na boca a vodca abominável...

Quando o miúdo cresce um pouco, metem-no rapidamente nalguma fábrica, mas tudo o que ganhar será obrigatoriamente entregue ao mesmo “pessoal da ganga” para a bebedeira. Porém, ainda antes da fábrica, essas crianças tornam-se verdadeiros delinquentes. Vagueiam pela cidade e conhecem os lugares nas caves onde podem penetrar e pernoitar sem serem vistos. Um deles dormiu várias noites no cubículo de um guarda-portão, dentro de um cesto, e o guarda nem chegou a reparar nele. Tornam-se ladrões, evidentemente. O roubo já é uma paixão mesmo para crianças de oito anos, às vezes sem terem a consciência de que cometem um ato criminoso. Acabam por suportar tudo — o frio, a fome, os espancamentos — apenas com o fito numa coisa, a liberdade, e fogem do seu “pessoal da ganga” para enveredarem por uma vagabundagem já independente. Esta criatura selvagem, às vezes, não compreende nada — onde vive, a que nação pertence, se Deus existe, se o czar existe; contam-se coisas inacreditáveis destes miúdos, contudo são factos reais.

2

O menino na festa do Natal de Cristo

Como sou romancista, parece que inventei uma «história». Porque escrevo “parece”? Sei bem que a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar, em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio, frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.

Fíodor Dostoiévski, em A Submissa e Outras Histórias

08/11/2023

5 | Baal

Estou, pois, em Paris... Não penseis, porém, que vos contarei muito de Paris enquanto cidade. Acho que já lestes tanto sobre Paris em russo que estais fartos. Além disso, já lá fostes e, com certeza, vistes tudo melhor do que eu. Além de que eu, no estrangeiro, detestava guiar-me pelo guia, ver as coisas por encomenda, por obrigação do viajante, por isso, nalguns sítios, deixei passar curiosidades tão importantes que até tenho vergonha de o dizer. Em Paris passou-se o mesmo. Por isso não vou especificar as minhas falhas, mas antes dar uma definição geral de Paris, um epíteto, e insisto neste termo de epíteto. Ei-lo: Paris é a mais moral e virtuosa cidade de todo o globo terrestre. Que ordem! Que sensatez, que relações definidas e firmes ali se estabeleceram! Como tudo está bem garantido e regularizado! Como toda a gente anda contente, como todos tentam convencer-se de que estão contentes e felizes! Por fim, até que ponto toda a gente se tem esforçado que chega mesmo a ter certeza de estar feliz e contente, e que... e que... chegou ao ponto final! Mais adiante já não é possível, não há sequer caminho. Não ides acreditar que eles tenham parado, gritareis que eu exagero, que tudo isto é uma biliosa calúnia patriótica, que, francamente, nem tudo poderia passar assim por completo. Mas, meus amigos: logo no primeiro capítulo avisei-vos de que talvez viesse a dizer-vos mentiras terríveis. Deixai-me, então, à vontade. Também já sabeis por certo que, ao mentir, o faço com a convicção de que estou a dizer a verdade. A meu ver, isso é quanto basta. Portanto, deixai-me falar à vontade.
Sim, Paris é uma cidade surpreendente. E que conforto, que comodidades de todo o gênero para quem tem direito às comodidades, e, repito, que ordem em tudo, a ponto de se poder dizer que a cidade é toda uma calmaria de ordem. Volto sempre a esta ordem. A sério, mais um pouco e Paris, com o seu milhão e meio de habitantes, transforma-se numa universitária cidadezinha alemã, petrificada na calmaria e na ordem, do gênero de uma qualquer Heidelberga. Tem toda a tendência para isso. Quem disse que não pode existir uma Heildelberga em formato gigantesco? Que regulamentação em tudo! Compreendei-me bem: não é tanto uma regulamentação exterior, que nesse aspeto é insignificante (de uma insignificância relativa, é claro), mas uma regulamentação interior, espiritual, que provém da alma. Paris estreita-se, de boa vontade se humilha, encolhe-se enternecidamente. Neste sentido não tem comparação, por exemplo, com Londres! Estive em Londres apenas oito dias, e, pelo menos na sua aparência, oferece-nos cenários amplos, perspetivas vivas, peculiares e sem regulamentação; assim se gravou Londres na minha memória! Nesta cidade é tudo gigantesco e nítido na sua originalidade. É possível até iludirmo-nos no meio desta originalidade. Cada traço forte, cada contradição, convive com a sua antítese, caminhando a par, mas contradizendo-se sem se excluírem mutuamente. Ao que parece, toda esta diversidade insiste em existir e vive a sua vida própria; e, pelos vistos, as facetas contrastantes não criam obstáculos umas às outras. No entanto, também aqui decorre a mesma luta persistente, surda e já inveterada, a luta de morte do princípio pessoal, comum a todo o Ocidente, com a necessidade de conviver, de formar comunidade, seja de que maneira for, de se acomodar no formigueiro comum; nem que seja assim: transformando-se em formigueiro, mas acomodar-se de modo a que os indivíduos não se devorem uns aos outros — para não se chegar à antropofagia! Neste sentido, observa-se a mesma coisa que em Paris: a mesma vontade desesperada de, por desespero, a pessoa se agarrar ao statu quo, de arrancar do seu ser, pela raiz, todos os desejos e esperanças, de amaldiçoar o futuro, em que tem pouca fé (talvez mesmo os próprios guias do progresso), e venerar Baal. Por favor, sobretudo não vos deixeis porém arrebatar pelo estilo elevado: tudo isto apenas se consciencializa na alma dos intelectos de vanguarda, mas nota-se, por instinto, inconscientemente, na atividade quotidiana de toda a massa. Mas o bourgeois de Paris, por exemplo, está quase satisfeito, conscientemente, e tem a certeza de que tudo está a correr como deve, e é mesmo capaz de nos dar uma sova se duvidarmos de que as coisas têm de ser assim, e bate-nos, porque, até hoje, ele receia qualquer coisa, apesar de estar convencido de que tudo está bem. Em Londres é igual, mas, em contrapartida, que cenários amplos, esmagadores! O próprio aspeto exterior é diferente do de Paris. Esta cidade em azáfama dia e noite, inabarcável como o mar, os uivos e os guinchos das máquinas, as vias-férreas por cima dos prédios (e em breve também por debaixo dos prédios(1)), toda aquela ousadia de empreendimento, toda aquela aparente desordem que, na sua essência, é a ordem burguesa no seu grau superior, aquele Tamisa poluído, aquele ar impregnado de pó de carvão; aqueles magníficos bulevares e parques, aqueles cantos terríveis da cidade, como Whitechapel, com a sua população seminua, selvagem e faminta. A City com os seus milhões e o comércio internacional, o palácio de cristal, a exposição universal... Sim, a exposição é impressionante. Sentimos ali o poder formidável que juntou todo aquele sem-fim de pessoas, vindas de todo o mundo para se unirem num único rebanho; temos a consciência de uma gigantesca ideia; sentimos que ali já tinha sido alcançada alguma coisa, que ali havia vitória, triunfo. É como se começássemos até a ter medo de qualquer coisa. Por mais independentes que sejamos, por vezes sentimos um medo súbito e incompreensível. Não será isto, realmente, o ideal alcançado? — pensamos. — Não será o fim procurado? Não será isto, de facto, um “rebanho único”(2)? Não deveremos tomá-lo pela verdade absoluta e imobilizarmo-nos definitivamente? Tudo isto é tão solene, triunfante e orgulhoso que nos corta a respiração. Olhamos para estas centenas de milhares, para estes milhões de pessoas que, obedientemente, afluem aqui de todo o globo terrestre — pessoas que vieram com uma única ideia e que, silenciosas e persistentes, se apertam neste palácio gigantesco, e sentimos que aqui aconteceu qualquer coisa de definitivo, que qualquer coisa aconteceu e terminou. É uma espécie de quadro bíblico, uma Babilónia, uma profecia do Apocalipse desenrolando-se aos nossos olhos. Sentimos que é necessária muita resistência e negação espiritual para não cedermos, para não nos curvarmos perante o facto, para não obedecermos a esta sensação e não divinizarmos Baal, ou seja, não tomarmos o que existe e vemos por nosso ideal...
Mas é absurdo, direis, de uma absurdez doentia, são nervos, é exagero. Ninguém vai chegar a este ponto, ninguém vai tomar isto por seu ideal. Além disso, a fome e a escravidão não perdoam e vão, mais e melhor do que tudo, trazer a negação e conceber o ceticismo. Ora, os cevados diletantes que passeiam aqui por divertimento podem, evidentemente, criar à vontade cenas apocalíticas e irritar os próprios nervos, exagerando e espremendo bem de cada fenômeno, em prol de alguma autossatisfação, sensações fortes...
Sim — respondo —, admitamos que fui influenciado pela decoração, não o contesto. Mas se vísseis como era orgulhoso o espírito potente que criou esta gigantesca decoração e com que soberba este espírito estava convicto da sua vitória, do seu triunfo, também tremeríeis de medo por aqueles sobre quem paira e reina este espírito orgulhoso, com a sua soberba, teimosia e cegueira. Sob o poder desta grandeza enorme, deste orgulho gigantesco do espírito reinante, da perfeição solene das suas criações, também a alma faminta se resigna, se submete, e procura a salvação na genebra e na depravação, e começa a acreditar que as coisas têm de ser mesmo assim. O fato oprime, as massas ficam empedernidas e assimilam o “chinesismo”(3), ou então, se o ceticismo as toca, procuram com soturnidade e maldições a salvação em algo do gênero do mormonismo. Ora, em Londres, podemos ver massas populares em números e ambientes como não se veem em mais lado algum do planeta. Disseram-me, por exemplo, que nas noites de sábado se derrama e espalha por toda a cidade, como um mar, meio milhão de operários e de operárias fabris, concentrando-se nalguns bairros, e durante toda a noite, até às cinco da manhã, desvairam-se num sabat, ou seja, empanturram-se e embebedam-se como porcos para toda a semana. Gastam nisso todas as poupanças da semana, tudo o que, entre maldições, ganharam com o seu trabalho duro. Os feixes grossos de candeeiros a gás dos talhos e das mercearias iluminam as ruas. Organiza-se uma espécie de baile para esses escravos brancos. O povo aperta-se nas tabernas abertas e nas ruas. As cervejarias estão enfeitadas como palácios. Está tudo bêbado mas sem alegria, é tudo soturno, sombrio e estranhamente tácito. O silêncio suspeito e triste somente é interrompido de vez em quando pelas pragas e pelas rixas sangrentas. Toda a gente tem pressa de se embebedar até à perda dos sentidos... As mulheres não ficam atrás dos homens e embebedam-se com eles; as crianças correm e gatinham no meio dos adultos. Numa dessas noites, já passava da uma da manhã, perdi-me e vi-me a vaguear demoradamente pelas ruas no meio da infindável multidão deste povo soturno, perguntando pelo caminho quase só por gestos, porque não conheço uma palavra de inglês. Consegui que me indicassem o caminho, mas a impressão do que vi iria atormentar-me ainda por três dias. Povo é povo, por todo o lado, mas aqui era tudo tão gigantesco, tão gritante, que se me tornou palpável o que antes eu apenas imaginava. Não é tanto o povo que vemos aqui, mas mais a perda sistemática, obediente e estimulada da consciência. E sentimos, olhando para esses párias da sociedade, que, durante muito tempo ainda, não se cumprirá para eles a profecia, não lhes serão estendidos os ramos de palmeira e as vestes brancas, e que, durante muito tempo ainda, eles vão clamar em direção do trono do Todo-Poderoso: “Até quando, Senhor?” E eles próprios o sabem e, entretanto, vão-se vingando da sociedade com os seus mórmones, tremedores(4), peregrinos... Espantamo-nos com a estupidez das gentes por se tornarem “tremedoras” ou peregrinas, mas não percebemos que há nisso o afastamento da nossa fórmula social, um afastamento persistente e inconsciente; um afastamento instintivo, custe o que custar, em prol da salvação; o afastamento de nós todos, com repugnância e pavor. Esses milhões de indivíduos, abandonados e expulsos do banquete humano, apertando-se e atropelando-se nas trevas do subterrâneo para onde foram lançados pelos irmãos mais velhos, batem às portas, às apalpadelas (sejam quais forem as portas), e procuram a saída para não sufocarem na cave escura. Há aqui uma última, uma desesperada tentativa de se unirem no seu grupo, na sua própria massa, e de se separarem de tudo, nem que seja da imagem humana, apenas para viverem à sua maneira, para não estarem conosco...
Vi em Londres mais uma multidão semelhante a esta, uma multidão que não poderemos ver em lado nenhum senão em Londres. O cenário também era sui generis. Quem já esteve em Londres foi, pelo menos uma vez, a High Market. É um quarteirão onde de noite, nalgumas ruas, se concentram milhares de prostitutas. As ruas são iluminadas por feixes de lampiões de gás, coisa de que entre nós não se faz a mínima ideia. Os magníficos cafés pululam, ornamentados de espelhos e ouro. É aqui que elas se juntam, e é aqui que elas também encontram abrigo. É medonho entrarmos no meio daquela multidão de estranhíssima composição. Há velhas e há jovens beldades em frente das quais paramos, pasmados. Não há em todo o mundo mulheres tão belas como as inglesas. São tantas que quase não cabem nas ruas, o aperto é grande. A multidão não cabe nos passeios e invade a calçada. Alguém anseia constantemente por caçar alguém, alguém que se atira ao primeiro passante que aparece com um cinismo desavergonhado. As roupas, aqui, vão dos brilhantes trajos caros aos farrapos; as diferenças de idades são bruscas: tudo junto. Nesta multidão monstruosa tanto se incorpora um vagabundo como um ricaço titular. Ouvem-se pragas, altercações, vozes que convidam e, baixinho, o sussurro de uma beldade ainda tímida. E, aqui e ali, que belezas! Rostos como os dos keepsake(5). Lembro-me de que uma vez entrei num “Casino” ribombante de música. Dançava-se, a multidão era enorme. A decoração era magnífica. Porém, mesmo no meio da festa, a soturnidade nunca abandona os ingleses: dançam muito sérios, até sombrios, executando os passos como que por obrigação. Em cima, na galeria, vi uma rapariga e parei, espantado: nunca vira nada de semelhante àquela beleza ideal. Estava sentada a uma mesinha na companhia de um jovem que parecia um gentleman rico e, por todos os indícios, nada habitué dos casinos. Talvez o jovem apenas a quisesse ver e o encontro tivesse sido combinado para ali. Ele falava pouco, sempre em frases sacudidas, como se não dissesse o que lhe apetecia dizer. Silêncios longos interrompiam a conversa. Ela também estava muito triste. Os seus traços de rosto eram ternos, finos, havia qualquer coisa de oculto e triste no seu olhar belo e um pouco orgulhoso, alguma coisa de pensador e angustiado. Dava ares de tísica. Pelo seu porte era com certeza de um desenvolvimento superior ao de todas as desgraçadas mulheres que ali estavam: senão, que significado tem o rosto humano? Entretanto, bebia a genebra que o jovem lhe pagara. Por fim, ele levantou-se, apertou-lhe a mão, despediram-se. O jovem saiu do casino, e ela, com manchas espessas de vermelho que se lhe acenderam nas faces por causa do álcool que bebeu, entrou na multidão de mulheres à procura de cliente e desapareceu entre ela. Em High Market vi mães que traziam para o negócio as suas filhas menores. Garotas de doze anos apanham-nos pela mão e insistem que vamos com elas. Lembro-me de ter visto na multidão da rua uma menina de seis anos, não mais, esfarrapada, suja, descalça, exausta e espancada; viam-se-lhe as nódoas negras no corpinho através dos farrapos que lhe serviam de roupa. Andava ali como que inconsciente, sem pressa, vagueando entre a multidão sabia-se lá para quê; talvez tivesse fome. Mas o que mais me pasmou foi o ar dela: a amargura e o desespero na carinha daquela pequena criatura eram tamanhos, a maldição que carregava em si era tanta e tão antinatural que era muito doloroso olhar para ela. Ia meneando a cabeça desgrenhada, como se raciocinasse consigo mesma, abria os braços, gesticulava, depois juntava as mãos e apertava-as contra o corpinho nu. Voltei atrás e dei-lhe meio xelim. Pegou na moedinha de prata, olhou-me nos olhos como uma demente, com um espanto assustado, e logo fugiu de mim, como se tivesse medo de que eu lhe tirasse o dinheiro. Em geral, matéria brejeira...
Então, uma noite, na multidão dessas mulheres perdidas e de homens depravados, uma senhora furou apressadamente de entre a multidão e fez-me parar. Estava toda de preto, com um chapéu que lhe cobria quase toda a cara; não consegui vê-la bem, lembro-me apenas do seu olhar perscrutador. Disse qualquer coisa que não percebi, num francês macarrônico, meteu-me na mão um papelinho e seguiu rapidamente em frente. Perto da janela iluminada de um café, olhei para o papel: era um pequeno quadrado de papel; de um lado estava impresso: “Crois-tu cela?”(6). Do outro lado, também em francês: “Eu sou a ressurreição e a vida...”(7), etc., e várias outras linhas conhecidas. Tendes de concordar que é um episódio original. Mais tarde explicar-me-iam que aquilo era propaganda católica, que pulula por todo o lado, persistente, incansável. Eles ora distribuem estes papelinhos nas ruas, ora livrinhos com excertos do Novo e do Velho Testamento. Dão-nos aquilo tudo de graça, impingem-no-lo, metem-no-lo à força nas mãos. São muitos os propagandistas, homens e mulheres. A propaganda deles é sofisticada, bem calculada. Um padre católico descobre uma família operária pobre e mete-se lá dentro. Encontra um doente deitado, por exemplo, no meio dos seus andrajos, no chão úmido, rodeado de filhos asselvajados pela fome e pelo frio, a mulher faminta, muitas vezes bêbada. O padre dá de comer a todos, veste-os, aquece-os, trata do doente, compra os medicamentos, torna-se amigo da casa e, por fim, converte-os a todos ao catolicismo. Por vezes, aliás, também acontece que, recuperado o doente, o padre seja corrido à pancada e aos insultos. Mas o padre não desiste, vai a outros. Expulsam-no de lá também; aguentará tudo, mas por fim há de apanhar alguém. O pastor anglicano, esse, não visita os pobres. Os pobres não podem entrar na igreja, porque não têm dinheiro para pagar o lugar no banco. Os casamentos entre operários e entre os pobres em geral reduzem-se, muitas vezes, a uniões de facto, porque o casamento legítimo fica caro. A este propósito, direi que muitos maridos batem terrivelmente nas mulheres, mutilam-nas, e fazem-no normalmente com os atiçadores com que mexem as brasas nas lareiras. O atiçador, entre eles, é já um instrumento consagrado de espancamento. Pelo menos, nos jornais, quando se noticiam brigas nas famílias, mutilações e assassínios, o atiçador é sempre mencionado. Os filhos, mal crescem um pouco, vão para a rua e misturam-se com a multidão, acabando muitas vezes por não voltar para junto dos pais. Os sacerdotes e os bispos anglicanos são orgulhosos e ricos, como ricas são as suas paróquias, e engordam de consciência perfeitamente tranquila. São grandes pedantes, muito cultos, e acreditam a sério e com solenidade na sua dignidade moral, no seu direito de pregarem sermões de uma moral calma e convencida, e de engordarem e viverem para os ricos do país. É a religião dos ricos, e já sem máscara. Pelo menos tudo é racional e sem disfarces. Estes professores de religião e moral, convencidos até à estupidez, têm uma espécie de divertimento: o missionarismo. Fazem as suas andanças por todo o globo terráqueo, entram no interior de África para converterem um selvagem e descuram o milhão de selvagens que há em Londres, porque estes não têm dinheiro para lhes pagar. Ora, os ingleses ricos e, em geral, todos os bezerros de oiro de lá, são extremamente religiosos, sombria, tenebrosa e originalmente religiosos. Os poetas ingleses, desde os primórdios dos tempos, gostam de cantar a beleza das residências dos sacerdotes de província, as suas casas sombreadas pelos carvalhos e pelos castanheiros centenários, as suas esposas virtuosas e as suas filhas dotadas da beleza ideal, loiras e de olhos azul-celestes.
Quando passa a noite e desponta o dia, o mesmo espírito orgulhoso e sombrio volta a voar majestosamente por sobre a cidade gigantesca. A cidade não se preocupa com o que se passou de noite nem vê o que à sua volta se passa de dia. Baal reina e nem sequer exige obediência, tão seguro está dela. A fé em si próprio é nele infinita; com desprezo e calma, só para se desfazer dos importunos, distribui uma esmola organizada, e depois disso é impossível abalar a sua presunção. Baal não desvia (ao contrário do que se passa em Paris), não desvia os olhos de certos fenômenos selvagens, suspeitos e preocupantes da vida. A pobreza, o sofrimento, o protesto e o embrutecimento das massas não o preocupam minimamente. Com desdém, deixa que todos esses fenômenos suspeitos e sinistros medrem ao lado da sua vida, perto, à vista. Não tenta, como um parisiense, convencer-se e animar-se a si mesmo, cobarde e forçadamente, e dizer a si próprio que está tudo bem e calmo. Não esconde os pobres em qualquer lado, como se faz em Paris, para que não o incomodem e não lhe perturbem o sono sem necessidade. O parisiense, como o avestruz, gosta de enfiar a cabeça na areia para não ver os caçadores que se aproximam. Em Paris... Mas, credo, o que estou eu a fazer? Não estou em Paris... Mas quando, meus senhores, quando é que eu, finalmente, aprendo a ser disciplinado?…

(1) O primeiro caminho de ferro subterrâneo (metropolitano) foi construído em Londres de 1860 a 1863. (NT)
(2) “[...] e haverá um só rebanho e um só Pastor”, S. João 10,16. (NT)
(3) Nos meados do século XIX, o termo “chinesismo” utilizava-se para a definição da estagnação política, quando os estratos mais baixos da população obedeciam servilmente ao despotismo dos detentores do poder. (NT)
(4) Os tremedores (triassuni) são uma seita religiosa que pratica nos seus rituais os métodos extáticos de oração: “tremem” e “profetizam” com palavras incompreensíveis (apareceram na Rússia na segunda metade do século XIX). (NT)
(5) Keepsake (ing.), álbum de gravuras com bustozinhos femininos representando belezas ideais. (NT)
(6) “Acreditas nisso?” (fr.). (NT)
(7) Evangelho segundo S. João 11, 25. (NT)

Dostoiévski, in A Submissa e Outras Histórias

02/11/2023

4 | Capítulo nada desnecessário para o viajante

Conclusão definitiva: será verdade que “o francês não tem bom senso”?

Pois é, como é que o francês não terá bom senso? — interrogava-me ao observar os novos passageiros, quatro franceses que acabavam de entrar na nossa carruagem. Eram os primeiros franceses que eu encontrava na sua própria terra, se não contarmos os alfandegários em Arcelin, donde partíramos havia pouco. O pessoal aduaneiro tinha sido muito simpático, tinha despachado rapidamente o que era preciso despachar, e eu regressara à carruagem muito satisfeito com o meu primeiro passo em França. Antes de Arcelin, no nosso compartimento de oito lugares, só estávamos dois na altura, eu e um senhor suíço, homem simples e modesto, de meia-idade, um interlocutor amabilíssimo com quem conversei duas horas sem parar. Agora éramos seis e, para minha surpresa, com a entrada dos nossos novos companheiros de viagem, o suíço tornou-se de repente muito taciturno. Tentei continuar a conversa com ele, mas ele, visivelmente, apressou-se a dá-la por finda, respondendo-me com secura evasiva, quase com repulsa; virou-se para a janela e pôs-se a contemplar a paisagem; não tardou a pegar no seu guia alemão e a mergulhar nele. Deixei-o em paz e centrei a atenção nos meus novos companheiros de viagem. Era gente um pouco estranha. Sem bagagem, sem uma trouxa sequer, um pacote, sem estarem vestidos de maneira a que minimamente os identificássemos como viajantes. Nem pareciam viajantes. Todos envergavam sobrecasacas ligeiras, muito gastas, coçadas, pouco melhores do que as que usam entre nós os impedidos dos oficiais ou os servos domésticos dos proprietários rurais médios. Camisas sujas, gravatas de cores berrantes e também bastante sujas; um deles tinha no pescoço uns restos de lenço de seda, daqueles lenços que nunca se tiram e acabam por se impregnar de uma libra de gordura depois de quinze anos de contacto permanente com o pescoço do seu portador. O mesmo portador tinha ainda botões de punho com diamantes falsos do tamanho de avelãs. Por outro lado, tinham todos um certo chique, um ar donairoso. Pareciam os quatro da mesma idade, talvez dos seus trinta e cinco anos, e, embora de fisionomias muito diferentes, eram contudo muito parecidos: as caras gastas, as formais barbichas francesas, todas elas talhadas de maneira bastante semelhante. Via-se logo que era gente que passou por tudo e para todo o sempre adotou uma expressão azeda mas extremamente prática. Pareceu-me também que todos se conheciam, mas não tenho lembrança de que tenham trocado entre eles uma palavra sequer. Para mim e para o suíço não queriam olhar, e assobiavam com indiferença, acomodavam-se ao lugar com indiferença, olhavam pela janela da carruagem com a mesma indiferença persistente. Acendi um cigarro e, por não ter mais nada que fazer, comecei a observá-los. Veio-me à cabeça a pergunta: afinal, que gente é esta? Trabalhadores não eram, bourgeois também não. Seriam militares na reserva, uns quaisquer demi-solde ou coisa do gênero? Aliás, não me preocupava muito com eles. Uns dez minutos depois, chegados à estação seguinte, todos os quatro, um após outro, saltaram do comboio, a porta fechou-se e arrancamos. Neste percurso, o comboio não demora quase nada nas estações: dois ou três minutos e logo se põe a andar, e bem, velozmente.
Mal ficamos sozinhos, o suíço fechou o seu guia, pô-lo de lado e olhou para mim com satisfação e evidente desejo de continuar a conversa.
Aqueles senhores não fizeram uma viagem lá muito grande — comecei, olhando para ele com curiosidade.
Porque já estava previsto fazerem só de estação a estação.
Conhece-os?
Conheço-os?... Mas são polícias...
Como? Que gênero de polícias? — perguntei, espantado.
Pois é... eu vi logo que o senhor não ia desconfiar.
Acha... que são espiões? (Custava-me ainda a acreditar.)
São, e estiveram aqui por causa de nós.
Tem a certeza?
Oh, absoluta! Já passei por aqui várias vezes. Indicaram-nos a eles logo na alfândega, quando viam os nossos passaportes, comunicaram-lhes os nossos nomes, etc. A seguir, eles entraram no comboio para nos seguirem.
Mas para que precisavam eles de nos seguir se já nos tinham visto? O senhor não acaba de dizer que lhes deram os nossos dados na estação anterior?
Deram, e os nossos nomes. Mas não era suficiente. Agora, puderam observar-nos em pormenor: a cara, a roupa, o saco de viagem, enfim, todos os pormenores do nosso aspeto. Repararam de certeza nos seus botões de punho. O senhor sacou da cigarreira, então pode ter a certeza de que notaram também a cigarreira, com todas as minúcias, sabe como é, com o máximo de particularidades, todas as particularidades. É que o senhor, em Paris, poderia desaparecer, mudar de nome (isto é, se fosse suspeito). Pois bem, todos esses pormenores podem ser úteis à instrução. Tudo isso, desde os primeiros dados logo naquela estação, são comunicados por telégrafo para Paris. E, em Paris, é tudo guardado nos arquivos para o que der e vier. Além disso, todos os hoteleiros têm de comunicar à polícia todos os dados sobre os hóspedes estrangeiros, também em pormenor.
Mas tantos porquê, logo quatro? — perguntei, ainda um pouco perplexo.
Oh, eles têm-nos cá em grandíssimo número. Pelos vistos, desta vez há poucos estrangeiros, se houvesse mais eles distribuíam-se pelas carruagens.
Mas, por amor de Deus, eles nem sequer olharam para nós. Estavam sempre a olhar para a janela.
Não se preocupe, viram tudo... Foi por causa de nós que eles entraram.
Ora, ora — pensei —, e ainda dizem que “o francês não tem bom senso” — e (confesso-o com vergonha) olhei com desconfiança para o suíço: “E tu, meu amigo, não serás da mesma comandita? Não estarás agora a fazer teatro?” — passou-me pela cabeça, mas só por um instante, acreditai. É absurdo, mas nada a fazer: estão sempre a passar-nos pela cabeça, involuntariamente, certas coisas...
O suíço não estava a enganar-me. No hotel onde me hospedei registaram de imediato todos os meus dados, até aos mínimos sinais particulares, e comunicaram-nos para quem de direito. Pela prontidão e minúcia com que nos observam para a descrição dos sinais particulares pode concluir-se que também toda a nossa vida posterior no hotel, todos os nossos passos, por assim dizer, serão registados escrupulosamente. No entanto, desta minha primeira vez, a mim, pessoalmente, não incomodaram muito e fizeram o meu registo discretamente, não deixando porém de me fazer as perguntas habituais que constam do livro de hóspedes: quem é, como é, donde vem, com que fim, etc. No segundo hotel em que tive de me hospedar por já não ter encontrado vaga no meu anterior Hôtel Coquillière, após a minha ausência de oito dias por ter ido a Londres, trataram-me com mais franqueza. Este segundo hotel, o Hôtel des Empéreurs, tinha um aspeto mais patriarcal, em todos os sentidos. O dono e a dona eram de facto pessoas muito boas e extremamente delicadas; tratava-se de um casal já idoso, incrivelmente atento aos seus hóspedes. No próprio dia da minha instalação no hotel, à noite, a hoteleira apanhou-me no átrio e pediu-me para ir ao escritório. O marido também lá estava, mas a mulher, pelos vistos, era quem punha e dispunha no negócio.
Desculpe — começou ela, muito educada —, precisamos dos seus sinais particulares.
Mas já os dei... têm o meu passaporte.
Sim, mas... votre état?
Este “votre état” é uma coisa bastante confusa e nunca me agradou. O que poderia escrever? Viajante? — é demasiado abstrato. Homme de lettres? — não me teriam qualquer respeito.
Vamos escrever “propriétaire”, o que acha? — propôs a hoteleira. — Será melhor.
Oh, sim, será o melhor — apoiou o marido.
Está escrito. Agora: qual o objetivo da sua vinda a Paris?
Como viajante, de passagem.
Humm, pois, pour voir Paris. Desculpe, monsieur, a sua estatura?
Estatura como?
Que altura tem?
É como vê, média.
Com certeza que é média, monsieur... Mas é desejável saber-se com mais precisão... Acho, acho... — continuava ela, duvidando e aconselhando-se, com os olhos, com o marido.
Acho que tantos centímetros — decidiu o marido, determinando a olho a minha altura.
Mas para que precisam disso? — perguntei.
Oh, é ne-ces-sário — respondeu a hoteleira, esticando amavelmente a palavra “necessário” e apontando a minha altura no livro. — Agora, monsieur, cabelo? Loiro, humm... bastante claro... liso...
Apontou também as características do meu cabelo.
Se me permite, monsieur — continuou, largando a pena, levantando-se da cadeira e aproximando-se de mim com um ar muito amável —, ponha-se aqui, dê só dois passos, mais perto da janela. Tenho de ver a cor dos seus olhos. Humm, claros...
E de novo, com o olhar, pediu o conselho do marido. Pelos vistos, amavam-se muito.
Mais para o acinzentado — observou o marido. — Voilà. — Piscou o olho à mulher, apontando para qualquer coisa acima do seu sobrolho, mas percebi muito bem o que ele tinha em mente: é que tenho uma pequena cicatriz na testa, e o homem queria que a mulher apontasse também este meu sinal particular.
Permita-me agora uma pergunta — disse eu à hoteleira quando o exame acabou —, será que vos exigem toda essa informação?
Oh, monsieur, é mesmo ne-ces-sária!...
Monsieur! — apoiou-a o marido com um ar muitíssimo grave.
Mas no Hôtel Coquillière não me interrogaram sequer.
Não pode ser — disse a hoteleira com vivacidade. — Eles podem ser responsabilizados por isso. Ou então observaram-no sem dizerem nada, mas de certeza que observaram. Ora, nós aqui somos mais simples e sinceros com os nossos hóspedes, acolhemo-los aqui como em família. O senhor vai ficar satisfeito conosco. Vai ver...
Oh, monsieur!... — confirmou o marido solenemente, e até se lhe pintou uma certa ternura na cara.
Sim, era um casal honestíssimo e amabilíssimo, pelo menos nas minhas relações ulteriores com eles. Mas a palavra “ne-ces-sá-rio” não era dita em tom de desculpa ou de carinho, mas no sentido literal de necessidade e quase em conformidade com as suas convicções.
Estou, pois, em Paris…

Dostoiévski, in A Submissa e Outras Histórias

22/10/2023

A Árvore de Natal da Casa de Cristo


Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por tédio, soprava esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esfumar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde, num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. “Faz muito frio aqui”, refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava ali, e o menino já ganhava a rua.
Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas narinas dos cavalos que galopam; através da neve gelada o ferro dos cascos tine contra a calçada; todos se apressam e se acotovelam, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não a vê.
Eis uma rua ainda: como é larga! Vão esmagá-lo, certamente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos que não podem se dobrar, nem mesmo se mover.
De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e sentadas estão quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou.
Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não pôde fechar os dedinhos para segurá-la.
O menino apertou o passo para ir mais longe — nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar — de verdade — e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça.
O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. “Aqui, pelo menos”, refletiu ele, “não me acharão: está muito escuro.”
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como perto de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e dormiria! Como seria bom dormir nesse lugar! “Mais um instante e vou ver outra vez os bonecos”, pensou o menino, que sorriu à lembrança: “Podia jurar que eram vivos!”
... E de repente pareceu-lhe que a mãe lhe cantava uma canção. “Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!”
Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino — murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.
Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos — mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu voo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! — exclamava a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça...
Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? — pergunta ele, sorrindo e mandando-lhes beijos.
Isto... é a árvore de Natal de Cristo — respondem-lhe. — Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...
E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...
E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Dostoiévski, in Antologia de Contos

19/10/2023

O duplo | Capítulo I


Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular(1) Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo a seu redor é de fato real ou uma continuação dos seus desordenados devaneios. Logo, porém, os sentidos do senhor Golyádkin começaram a registrar com mais clareza e precisão as suas impressões habituais, corriqueiras. As paredes empoeiradas de seu pequeno quarto, escurecidas pela fumaça, cobertas de um tom esverdeado meio sujo, a cômoda de mogno, as cadeiras de mogno, a mesa pintada de vermelho, o divã turco coberto por um encerado vermelho com florzinhas verdes e, por fim, a roupa tirada precipitadamente na véspera e largada como uma rodilha sobre o divã se apresentaram a ele com sua feição familiar. Por último, o dia cinzento de outono, turvo e enlameado, espiou pela vidraça embaçada de sua janela com um ar tão zangado e uma careta tão azeda que o senhor Golyádkin já não teve como duvidar de que não se encontrava em algum reino dos confins, mas na cidade de Petersburgo, na capital, na rua Chestilávotchnaya, no quarto andar de um prédio bastante grande, imponente, em seu próprio apartamento. Feita tão importante descoberta, o senhor Golyádkin fechou convulsivamente os olhos, como se lamentasse ter acabado de sair do sono e desejasse retomá-lo por um minuto. Mas ao cabo de um minuto se levantou da cama de um salto, é provável que por ter finalmente atinado com a ideia em torno da qual vinham gravitando até então seus pensamentos difusos e fora da devida ordem. Depois de pular da cama, correu imediatamente para um pequeno espelho redondo que estava em cima da cômoda. Embora sua figura morrinhenta, acanhada e bastante calva fosse exatamente daquele tipo insignificante que à primeira vista não chamaria a atenção exclusiva de ninguém, seu dono parecia gozar de plena satisfação com o que acabara de ver. “Ah, seria uma coisa — disse o senhor Golyádkin a meia-voz —, seria mesmo uma coisa se hoje eu cometesse alguma falha, se, por exemplo, acontecesse alguma esquisitice — me brotasse uma espinha estranha ou me viesse alguma outra contrariedade; se bem que por enquanto a coisa não anda mal; por enquanto tudo vai bem.” Muito contente com o fato de que tudo ia bem, o senhor Golyádkin devolveu o espelho ao seu antigo lugar e, apesar de estar descalço e continuar metido na roupa com a qual costumava recolher-se para dormir, correu até a janelinha e com grande afinco pôs-se a procurar com os olhos alguma coisa no pátio do prédio, para o qual davam as janelas do seu apartamento. Pelo visto, o que ele procurava no pátio também o deixou plenamente satisfeito; um sorriso de contentamento tornou seu rosto radiante. Aliás, depois de primeiro espiar por cima do tabique do cubículo de Pietruchka, seu criado, e constatar que ele não estava ali, foi pé ante pé até a mesa, abriu uma gaveta, remexeu em seu fundo, bem na parte de trás, por fim tirou de debaixo de velhos papéis amarelados e outros rebotalhos uma carteira verde surrada, abriu-a com cuidado e olhou com cautela e prazer para o seu bolso mais afastado e secreto. É provável que o maço de notinhas verdes, cinzentas, azuis, vermelhas e outras notinhas multicores também tenha olhado de um jeito muito amável e aprobativo para o senhor Golyádkin: com ar radiante, ele pôs a carteira aberta sobre a mesa à sua frente e esfregou as mãos com toda a força em sinal de imenso prazer. Por fim tirou aquele seu maço, o mais consolador maço de notas e, pela centésima vez desde a véspera, começou a recontá-las, separando cuidadosamente nota por nota com o polegar e o indicador. “Setecentos e cinquenta rublos... uma quantia formidável! Uma quantia agradável — continuou ele com voz trêmula, um pouco debilitada pelo prazer, apertando o maço na mão e sorrindo de modo significativo —, é uma quantia muito agradável. Agora eu queria ver alguém achar essa quantia insignificante! Uma quantia assim pode fazer um homem ir longe...”
Entretanto, o que está acontecendo? — pensou o senhor Golyádkin — por onde anda Pietruchka?” Ainda metido na mesma roupa, deu mais uma espiada por cima do tabique. Mais uma vez, Pietruchka não estava atrás do tabique, vendo-se apenas um samovar preparado ali no chão, zangado, irritado, fora de si, ameaçando continuamente transbordar e matraqueando com fervor alguma coisa em sua linguagem esdrúxula, velarizando e ciciando para o senhor Golyádkin, talvez querendo dizer: pegue-me, boa alma, pois já fervi tudo o que tinha que ferver e estou pronto.
Diabos que o carreguem! — pensou o senhor Golyádkin. — Aquele finório preguiçoso pode acabar fazendo um homem perder as estribeiras; onde andará batendo pernas?” Tomado de uma justa indignação, foi à antessala, formada por um pequeno corredor em cujo final ficava a porta do vestíbulo, entreabriu de leve essa porta e viu seu serviçal cercado por um bom grupo de criados de toda espécie — uma gentalha de serviços domésticos e eventuais. Pietruchka contava alguma coisa, os outros escutavam. Pelo visto nem o tema da conversa nem a própria conversa agradaram ao senhor Golyádkin. No mesmo instante ele chamou Pietruchka e voltou ao quarto totalmente insatisfeito, até desolado. “Esse finório é capaz de atraiçoar alguém por uns trocados, principalmente seu amo — pensou consigo —, e já atraiçoou, na certa me atraiçoou, sou capaz de apostar que me atraiçoou por uns tocados”
E então...?
Trouxeram a libré, senhor.
Veste e vem cá.
Tendo vestido a libré e com um sorriso tolo nos lábios, Pietruchka entrou no quarto do amo. Uniformizado, estava estranho a mais não poder. Era uma libré verde, de criado, muito usada, com galões dourados embranquecidos pelas falhas e, pelo visto, feita para um homem uns setenta centímetros mais alto. Nas mãos segurava o chapéu, também com galões e plumas verdes, e tinha na cintura uma espada de criado em uma bainha de couro.
Por último, para completar o quadro segundo seu hábito predileto de andar sempre em traje caseiro, também agora Pietruchka estava descalço. O senhor Golyádkin examinou Pietruchka por completo e pelo visto ficou satisfeito. A libré evidentemente havia sido alugada para alguma solenidade eventual. Dava para notar ainda que, enquanto era examinado, Pietruchka olhava para seu amo com uma expectativa meio estranha e acompanhava todos os seus movimentos com uma curiosidade incomum, o que perturbava demais o senhor Golyádkin.
Bem, e a carruagem?
A carruagem também veio.
Pelo dia inteiro?
Pelo dia inteiro. Vinte e cinco rublos em papel.
E as botas, trouxeram?
Trouxeram as botas também.
Pateta, não consegues falar direito(2). Traze-as aqui.
Depois de manifestar sua satisfação com o fato de que as botas haviam servido, o senhor Golyádkin pediu que lhe preparassem o chá, a água para se lavar e barbear. Barbeou-se com muito cuidado e de igual modo lavou-se, sorveu o chá às pressas e passou à sua paramentação principal, completa: vestiu as calças quase inteiramente novas, depois o peitilho com botões de bronze, o colete com florzinhas muito claras e agradáveis, pôs uma gravata de seda multicor e, por último, vestiu o uniforme também novinho em folha e de corte esmerado. Ao vestir-se, várias vezes olhou embevecido para as suas botas, levantando a cada instante ora uma, ora outra perna, deleitando-se com seu feitio e sempre murmurando alguma coisa, de raro em raro fazendo um trejeito expressivo pensando em seus ardis. Aliás, nessa manhã o senhor Golyádkin estava no auge da dispersão, porque quase não notou as risotas e trejeitos que Pietruchka lhe dirigia ao ajudá-lo a vestir-se. Por fim, tendo providenciado tudo o que era preciso e terminado de vestir-se, o senhor Golyádkin meteu sua carteira no bolso, deleitou-se em definitivo com Pietruchka, que calçara as botas e, assim, também estava de todo pronto, e observando que tudo já estava feito e não havia mais o que esperar, desceu sua escada correndo, agitado e com um pequeno tremor no coração. A carruagem azul, enfeitada de uns brasões, aproximou-se estrondosamente do alpendre. Pietruchka, piscando para o cocheiro e alguns basbaques, pôs seu amo na carruagem; com uma voz inusual e contendo a custo o riso imbecil, gritou: “Vamos lá”, pulou sobre o pedal e, entre ruídos e estrondos, tilintando e estrepitando, a carruagem azul disparou rumo à avenida Niévski. Mal ela transpôs o portão, o senhor Golyádkin enxugou convulsivamente as mãos e caiu numa risada baixinha e silenciosa, como homem de temperamento alegre que conseguira fazer uma coisa formidável, coisa essa que o deixara cheinho de alegria. É bem verdade que logo após o acesso de alegria, o riso deu lugar a um estranha expressão de preocupação estampada no rosto do senhor Golyádkin. Apesar do tempo úmido e nublado, ele abriu ambas as janelas da carruagem e, com ar preocupado, começou a observar quem passava à direita e à esquerda, logo assumindo um aspecto conveniente e grave mal percebia que alguém o espiava. Na curva da rua Litiêinaia para a avenida Niévski, a mais desagradável das sensações o fez estremecer, e ele, fazendo uma careta como um coitado de quem por acaso acaso pisaram um calo, retraiu-se às pressas, até com pavor, ao canto mais escuro de sua carruagem. Ocorre que encontrou dois colegas, dois jovens funcionários da mesma repartição em que servia. Como pareceu ao senhor Golyádkin, os dois funcionários, por sua vez, também estavam tomados de extrema perplexidade por terem encontrado seu colega daquela maneira; um deles chegou a apontar com o dedo o senhor Golyádkin. Este teve até a impressão de que o outro havia gritado o seu nome, coisa, sem dúvida, muito inconveniente na rua. Nosso herói escondeu-se e não respondeu. “Que criançolas! — começou ele de si para si. — Ora bolas, o que há de estranho aqui? Um homem numa carruagem; um homem precisou estar numa carruagem, então alugou uma carruagem e pronto. São simplesmente uns calhordas! Eu os conheço — simples criançolas que ainda precisam de umas pancadas. Só querem tirar cara ou coroa quando ganham seus vencimentos e sair por aí batendo pernas, é só o que querem. Eu diria a todos eles umas coisas, mas só que...” O senhor Golyádkin não concluiu e ficou petrificado. Uma esperta parelha de cavalos de Kazan, muito familiar a ele e atrelada a uma elegante drójki(3), ultrapassou sua carruagem pela direita. Um senhor que estava na drójki viu por acaso o rosto do senhor Golyádkin (que com bastante imprudência espichara o pescoço pela janela da carruagem), também pareceu extremamente surpreso com tão inesperado encontro e, curvando-se até onde pôde, passou a olhar com a maior curiosidade e simpatia para o canto da carruagem em que nosso herói tentara esconder-se a toda pressa. O senhor da drójki era Andriêi Filíppovitch, chefe da repartição onde o senhor Golyádkin trabalhava como auxiliar do chefe de seção. Ao notar que Andriêi Filíppovitch o havia reconhecido por completo, que olhava de olhos arregalados e que não havia nenhuma possibilidade de esconder-se, o senhor Golyádkin ficou todo vermelho. “Faço uma reverência ou não? Respondo ou não? Confesso ou não? — pensava nosso herói numa aflição indescritível — ou finjo que não sou eu, mas outra pessoa surpreendentemente parecida comigo, e ajo como se nada tivesse acontecido? Isso mesmo, não sou eu, não sou eu, e pronto! — dizia o senhor Golyádkin tirando o chapéu para Andriêi Filíppovitch e sem desviar o olhar. — Eu, eu vou indo — murmurava a contragosto —, não vou nada mal, absolutamente não sou eu, Andriêi Filíppovitch, absolutamente não sou eu, e pronto.” Mas a drójki logo ultrapassou a carruagem e o magnetismo do olhar do chefe cessou. No entanto ele continuava corando, sorrindo, balbuciando algo com seus botões... “Fui um imbecil por não ter respondido — pensou enfim —, devia simplesmente ter dito com ousadia e uma franqueza não desprovida de dignidade: sabe como é, Andriêi Filíppovitch, também fui convidado para o jantar, e pronto!” Depois, lembrando-se de repente de que metera os pés pelas mãos, nosso herói inflamou-se como o fogo, franzindo o cenho e lançou um terrível olhar desafiador para o canto dianteiro da carruagem, um olhar que se destinava a reduzir de uma vez a cinzas todos os seus inimigos. Por fim, movido por alguma inspiração, deu um puxão repentino no cordão preso ao cotovelo do cocheiro, parou a carruagem e ordenou o retorno para a Litiêinaia. É que o senhor Golyádkin, provavelmente para sua própria tranquilidade, sentiu uma urgência de dizer algo muitíssimo interessante ao seu médico Crestian Ivánovitch. E embora conhecesse Crestian Ivánovitch há bem pouco tempo — visitara seu consultório apenas uma vez, na semana anterior, levado por certas necessidades —, todavia se diz que o médico é como um confessor: esconder alguma coisa dele seria uma tolice, e a obrigação dele é conhecer o paciente. “Pensando bem, será que tudo isso está certo? — continuou nosso herói, descendo da carruagem à entrada de um prédio de cinco andares na rua Litiêinaia, onde mandou o cocheiro parar seu carro —, será que tudo isso está certo? Será decente? Será oportuno? De resto, que importa? — continuou ele, subindo a escada, tomando fôlego e contendo as batidas do coração, que tinha o hábito de bater em todas as escadas alheias — que importa? ora, vou tratar de assunto meu e nisso não há nada de censurável... Seria uma tolice eu me esconder. Darei um jeito de fazer de conta que vou indo, que entrei por entrar, que estava passando ao lado... E ele verá que é assim que deve ser.”
Assim raciocinava o senhor Golyádkin subindo ao segundo andar e parando diante da sala nº 5, em cuja porta estava afixada uma plaqueta com o letreiro:

Crestian Ivánovitch Rutenspitz
Doutor em medicina e cirurgia

Depois de parar, nosso herói apressou-se em dar à sua fisionomia um aspecto decente, atrevido, mas não desprovido de certa amabilidade, e preparou-se para puxar o cordão da sineta. Uma vez preparado para puxar o cordão da sineta, pensou de imediato e bem a propósito se não seria melhor deixar para dia seguinte e que, por enquanto, não havia grande necessidade daquilo. Mas como o senhor Golyádkin ouviu de repente os passos de alguém na escada, mudou imediatamente sua nova decisão e, no mesmo instante, porém com o ar mais resoluto, puxou o cordão da sineta à porta de Crestian Ivánovitch.

Notas do tradutor:
1. Embora o título tenha algo de pomposo, o cargo de conselheiro titular pertence à nona classe funcional na escala burocrática do serviço público russo. É um simples amanuense, sem chances de progressão social.
2. Segundo um costume da língua russa, Pietruchka deveria, em sinal de deferência, pronunciar um “s” no final da palavra, como era praxe em sua condição social.
3. Carruagem leve, aberta, de quatro rodas.

Dostoiévski, in O duplo

09/09/2023

A propósito da neve úmida | 10


Quinze minutos depois eu andava de um lado para o outro no quarto, numa impaciência furiosa, e de minuto a minuto aproximava-me do biombo e dava uma espiada em Liza pela fresta. Ela estava sentada no chão com a cabeça recostada na cama e provavelmente chorava. Mas não ia embora e era isso que me irritava. Desta vez ela já sabia de tudo. Eu a ofendera definitivamente, mas... não vale a pena contar. Ela adivinhou que o arroubo de minha paixão não passava de vingança, de uma nova humilhação para ela, e que ao meu ódio anterior, quase sem objeto, agora se acrescentava um ódio por ela que já era pessoal, invejoso... Aliás, não afirmo que ela tenha entendido tudo isso claramente, mas em compensação ela compreendeu perfeitamente que eu sou uma pessoa vil e que não tinha condição de amá-la.
Eu sei, vão me dizer que isso é inverossímil – alguém ser assim tão mau e idiota como eu me mostrei. Talvez acrescentem ainda que é inverossímil que alguém não a amasse ou, pelo menos, que não desse valor ao seu amor. Por que seria inverossímil? Em primeiro lugar, eu já não tinha capacidade de amar, porque, repito, amar para mim significava tiranizar e dominar moralmente. Toda a minha vida eu nunca pude nem ao menos imaginar outro tipo de amor e cheguei ao ponto de que, agora, às vezes penso que o amor, na realidade, consiste no direito que o objeto do amor voluntariamente concede de ser tiranizado. E também nos meus devaneios no subsolo eu não imaginava o amor de outra forma que não fosse uma luta que se iniciava sempre do ódio e terminava com a submissão moral, depois da qual eu não tinha ideia do que fazer com o objeto submetido. E que haveria de inverossímil, se eu já estava tão podre moralmente, tão distante da “vida viva”*, a ponto de um momento antes ocorrer-me censurá-la e causar-lhe vergonha dizendo que ela teria vindo à minha casa para ouvir “palavras compassivas”, porém eu mesmo não pude adivinhar que ela tinha vindo não por palavras compassivas, e sim para me amar, pois para a mulher é no amor que está contida toda a sua ressurreição, a sua salvação de qualquer tipo de desastre e todo o seu renascer, e não pode se manifestar de outra forma que não seja essa. Verdade seja dita, eu já não a odiava tanto no momento em que corria pelo quarto e a espiava pela fresta do biombo. Eu apenas me sentia terrivelmente incomodado por sua presença ali. Queria que ela desaparecesse. “Tranquilidade” era o que eu queria; queria ficar sozinho no subsolo. A “vida viva” me sufocava tanto, devido à minha falta de costume, que até respirar estava difícil.
Mas passaram-se mais alguns minutos e ela não se levantava, como se estivesse em letargia. Cometi a indignidade de bater de leve no biombo para lembrar-lhe... De repente ela estremeceu, ergueu-se prontamente e começou a procurar seu lenço, seu chapéu, seu casaco, como se quisesse fugir para longe de mim... Dois minutos depois ela saiu lentamente de trás do biombo e me lançou um olhar cheio de tristeza. Sorri com raiva, aliás, um sorriso forçado, por educação, e me virei para evitar seu olhar.
Adeus – disse ela, dirigindo-se para a porta. De repente corri para ela, tomei sua mão, abri-a e coloquei ali... e tornei a fechá-la. Depois virei-me imediatamente e corri para o outro canto, para pelo menos não ver...
Neste momento eu já ia mentindo, quase escrevi que fiz aquilo sem querer, sem pensar, por tolice, porque tinha perdido a cabeça. Mas não quero mentir e por isso digo sinceramente que foi por raiva que abri a mão dela e coloquei lá... Tive a ideia de fazer isso no momento em que eu corria de um lado para o outro no quarto, enquanto ela permanecia sentada atrás do biombo. Porém o que eu posso dizer com certeza é que fiz aquela crueldade, mas não de coração, embora tivesse sido intencional, e que a fiz devido à minha cabeça ruim... Essa crueldade era tão falsa, intelectual, inventada, livresca, que eu mesmo não aguentei nem um minuto – inicialmente, corri para um canto, para não ver, mas depois, envergonhado e desesperado, atirei-me atrás de Liza. Abri a porta de entrada e fiquei de ouvido atento.
Liza! Liza! – chamei na direção da escada, mas a meia-voz, sem firmeza...
Não houve resposta, mas pareceu-me ouvir seus passos nos degraus inferiores.
Liza! – gritei mais alto.
Nenhuma resposta. No mesmo instante ouvi abrir-se vagarosamente, rangendo, a porta de vidro que dava para a rua, e depois ouvi-a fechar-se pesadamente. Sua batida ecoou pela escada.
Ela partiu. Voltei para o quarto, pensativo. Estava me sentindo terrivelmente mal.
Parei junto à mesa, perto da cadeira onde ela estivera sentada, e fiquei olhando estupidamente para frente. Um minuto depois, repentinamente estremeci todo: bem diante de mim, sobre a mesa, vi... em uma palavra, vi uma nota azul amassada de cinco rublos, a mesma que instantes atrás eu colocara em sua mão. Era a mesma nota; não havia outra na casa. Significava que ela conseguira atirá-la sobre a mesa no instante em que eu corria para o canto.
E então? Eu podia esperar que ela fizesse aquilo. Podia mesmo? Não. Eu era tão egoísta, tinha tão pouco respeito pelos outros, que nem fui capaz de imaginar que até ela faria aquilo. Isso eu não pude suportar. Passado um instante, fui vestir-me às pressas, enlouquecido, joguei sobre mim a primeira coisa que encontrei e sai correndo atrás dela. Ela não poderia ter dado nem duzentos passos quando saí pela porta da rua.
Tudo estava calmo lá fora, a neve caía em flocos quase perpendicularmente, deixando um tapete macio na calçada e na rua deserta. Não se via um transeunte, não se ouvia um som. Melancólica e inutilmente brilhavam os lampiões. Corri uns duzentos passos até a encruzilhada e parei. “Para onde ela terá ido? E para que estou correndo atrás dela? Para quê? Para cair de joelhos na sua frente, soluçar arrependido, beijar seus pés, implorar seu perdão? Eu até desejava isso; meu peito estava inteiramente dilacerado e jamais, jamais me lembrarei com indiferença daquele momento. “Mas, para quê?”, pensei. “Por acaso não irei odiá-la talvez amanhã mesmo, precisamente por ter beijado seus pés hoje? Por acaso eu não soube hoje novamente, pela centésima vez, o quanto valho? Será que não irei torturá-la?”
Fiquei ali parado na neve, vasculhando atentamente a névoa espessa e pensando sobre isso.
Não será melhor”, fantasiava eu mais tarde, já em casa, tentando abafar com minhas fantasias a dor lancinante no meu coração “não será melhor que ela carregue para sempre consigo a humilhação? A humilhação é uma forma de purificação; é a consciência mais corrosiva e dolorosa! Amanhã mesmo minha presença teria sujado sua alma e extenuado seu coração. Mas a humilhação não morrerá nunca dentro dela e, por pior que seja a imundície que a espera, a humilhação vai elevá-la e purificá-la.... pelo ódio... hum... talvez também pelo perdão... Por outro lado, será que tudo isso tornará sua vida mais fácil?”
E de fato agora eu mesmo estou colocando uma questão ociosa: é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?
Era isso que me passava pela mente, em casa naquela noite, quase a ponto de morrer com a dor que trazia na alma. Eu nunca havia suportado tanto sofrimento e remorso. Mas será que poderia existir a menor dúvida de que, quando saí correndo de casa, eu não voltaria da metade do caminho? Nunca mais encontrei Liza e nem ouvi falar dela. Acrescento ainda que durante muito tempo fiquei satisfeito com a frase sobre a utilidade da humilhação e do ódio, apesar de eu mesmo naquela ocasião quase ter adoecido de angústia.
Mesmo agora, quando já se passaram tantos anos, isso tudo me vem à memória de maneira excessivamente ruim. Tenho tido muitas lembranças ruins agora, mas... não será melhor terminar aqui estas notas? Parece-me que cometi um erro ao começar a escrevê-las. Pelo menos fiquei envergonhado durante todo o tempo que levei para escrever esta narrativa: consequentemente, isto já não é literatura, e sim um castigo correcional. Pois fazer longos relatos de como estraguei minha vida apodrecendo moralmente num canto, com as deficiências do ambiente, desabituando-me da vida e com meu ódio vaidoso no subsolo – por Deus que não é interessante. Um romance precisa de um herói, e aqui foram reunidos intencionalmente todos os traços para um anti-herói, e, o que é mais importante, tudo isso vai produzir uma impressão muito desagradável, porque nós todos nos desacostumamos da vida, uns mais, outros menos, e nos desacostumamos ao ponto de sentirmos às vezes uma certa repugnância pela verdadeira “vida viva”, e por isso não podemos suportar que nos façam lembrar dela. Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira “vida viva” é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irrequietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, deem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e a bater com os pés: “Fale somente sobre si mesmo e sobre suas misérias no subsolo, mas não ouse dizer todos nós”. Permitam-me, senhores, eu não estou me justificando quando digo todos. E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a si próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais “vivo” que os senhores. Olhem com mais atenção! Nós nem sabemos onde vive essa coisa viva, o que ela é, como chamá-la! Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente ficaremos confusos, perdidos – não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar. Até mesmo nos é difícil ser gente – gente com seu próprio e verdadeiro corpo e sangue; sentimos vergonha disso, achamos que é um demérito e nos esforçamos para ser uma espécie inexistente de homens em geral. Somos natimortos, e há muito tempo nascemos não de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Estamos tomando gosto. Em breve vamos querer nascer da ideia, de algum modo. Mas basta, não quero mais escrever “do subsolo”...
Entretanto, aqui não terminam as “notas” desse paradoxista. O autor não resistiu e prosseguiu com elas. Mas nós também pensamos que é possível terminar por aqui.

* A ideia de “vida viva” era bastante frequente na literatura e na imprensa do século XIX na Rússia, especialmente entre os eslavófilos. No romance O adolescente, de Dostoiévski, o personagem Versílov assim a define: “[...] a vida viva, ou seja, aquela que não é mental nem inventada, [...] deve ser algo terrivelmente simples, aquilo que é mais comum e que se lança aos olhos de cada um, diariamente e a cada instante [...]”. (N.T.)

Dostoiévski, in Notas do Subsolo