19/10/2023

O duplo | Capítulo I


Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular(1) Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo a seu redor é de fato real ou uma continuação dos seus desordenados devaneios. Logo, porém, os sentidos do senhor Golyádkin começaram a registrar com mais clareza e precisão as suas impressões habituais, corriqueiras. As paredes empoeiradas de seu pequeno quarto, escurecidas pela fumaça, cobertas de um tom esverdeado meio sujo, a cômoda de mogno, as cadeiras de mogno, a mesa pintada de vermelho, o divã turco coberto por um encerado vermelho com florzinhas verdes e, por fim, a roupa tirada precipitadamente na véspera e largada como uma rodilha sobre o divã se apresentaram a ele com sua feição familiar. Por último, o dia cinzento de outono, turvo e enlameado, espiou pela vidraça embaçada de sua janela com um ar tão zangado e uma careta tão azeda que o senhor Golyádkin já não teve como duvidar de que não se encontrava em algum reino dos confins, mas na cidade de Petersburgo, na capital, na rua Chestilávotchnaya, no quarto andar de um prédio bastante grande, imponente, em seu próprio apartamento. Feita tão importante descoberta, o senhor Golyádkin fechou convulsivamente os olhos, como se lamentasse ter acabado de sair do sono e desejasse retomá-lo por um minuto. Mas ao cabo de um minuto se levantou da cama de um salto, é provável que por ter finalmente atinado com a ideia em torno da qual vinham gravitando até então seus pensamentos difusos e fora da devida ordem. Depois de pular da cama, correu imediatamente para um pequeno espelho redondo que estava em cima da cômoda. Embora sua figura morrinhenta, acanhada e bastante calva fosse exatamente daquele tipo insignificante que à primeira vista não chamaria a atenção exclusiva de ninguém, seu dono parecia gozar de plena satisfação com o que acabara de ver. “Ah, seria uma coisa — disse o senhor Golyádkin a meia-voz —, seria mesmo uma coisa se hoje eu cometesse alguma falha, se, por exemplo, acontecesse alguma esquisitice — me brotasse uma espinha estranha ou me viesse alguma outra contrariedade; se bem que por enquanto a coisa não anda mal; por enquanto tudo vai bem.” Muito contente com o fato de que tudo ia bem, o senhor Golyádkin devolveu o espelho ao seu antigo lugar e, apesar de estar descalço e continuar metido na roupa com a qual costumava recolher-se para dormir, correu até a janelinha e com grande afinco pôs-se a procurar com os olhos alguma coisa no pátio do prédio, para o qual davam as janelas do seu apartamento. Pelo visto, o que ele procurava no pátio também o deixou plenamente satisfeito; um sorriso de contentamento tornou seu rosto radiante. Aliás, depois de primeiro espiar por cima do tabique do cubículo de Pietruchka, seu criado, e constatar que ele não estava ali, foi pé ante pé até a mesa, abriu uma gaveta, remexeu em seu fundo, bem na parte de trás, por fim tirou de debaixo de velhos papéis amarelados e outros rebotalhos uma carteira verde surrada, abriu-a com cuidado e olhou com cautela e prazer para o seu bolso mais afastado e secreto. É provável que o maço de notinhas verdes, cinzentas, azuis, vermelhas e outras notinhas multicores também tenha olhado de um jeito muito amável e aprobativo para o senhor Golyádkin: com ar radiante, ele pôs a carteira aberta sobre a mesa à sua frente e esfregou as mãos com toda a força em sinal de imenso prazer. Por fim tirou aquele seu maço, o mais consolador maço de notas e, pela centésima vez desde a véspera, começou a recontá-las, separando cuidadosamente nota por nota com o polegar e o indicador. “Setecentos e cinquenta rublos... uma quantia formidável! Uma quantia agradável — continuou ele com voz trêmula, um pouco debilitada pelo prazer, apertando o maço na mão e sorrindo de modo significativo —, é uma quantia muito agradável. Agora eu queria ver alguém achar essa quantia insignificante! Uma quantia assim pode fazer um homem ir longe...”
Entretanto, o que está acontecendo? — pensou o senhor Golyádkin — por onde anda Pietruchka?” Ainda metido na mesma roupa, deu mais uma espiada por cima do tabique. Mais uma vez, Pietruchka não estava atrás do tabique, vendo-se apenas um samovar preparado ali no chão, zangado, irritado, fora de si, ameaçando continuamente transbordar e matraqueando com fervor alguma coisa em sua linguagem esdrúxula, velarizando e ciciando para o senhor Golyádkin, talvez querendo dizer: pegue-me, boa alma, pois já fervi tudo o que tinha que ferver e estou pronto.
Diabos que o carreguem! — pensou o senhor Golyádkin. — Aquele finório preguiçoso pode acabar fazendo um homem perder as estribeiras; onde andará batendo pernas?” Tomado de uma justa indignação, foi à antessala, formada por um pequeno corredor em cujo final ficava a porta do vestíbulo, entreabriu de leve essa porta e viu seu serviçal cercado por um bom grupo de criados de toda espécie — uma gentalha de serviços domésticos e eventuais. Pietruchka contava alguma coisa, os outros escutavam. Pelo visto nem o tema da conversa nem a própria conversa agradaram ao senhor Golyádkin. No mesmo instante ele chamou Pietruchka e voltou ao quarto totalmente insatisfeito, até desolado. “Esse finório é capaz de atraiçoar alguém por uns trocados, principalmente seu amo — pensou consigo —, e já atraiçoou, na certa me atraiçoou, sou capaz de apostar que me atraiçoou por uns tocados”
E então...?
Trouxeram a libré, senhor.
Veste e vem cá.
Tendo vestido a libré e com um sorriso tolo nos lábios, Pietruchka entrou no quarto do amo. Uniformizado, estava estranho a mais não poder. Era uma libré verde, de criado, muito usada, com galões dourados embranquecidos pelas falhas e, pelo visto, feita para um homem uns setenta centímetros mais alto. Nas mãos segurava o chapéu, também com galões e plumas verdes, e tinha na cintura uma espada de criado em uma bainha de couro.
Por último, para completar o quadro segundo seu hábito predileto de andar sempre em traje caseiro, também agora Pietruchka estava descalço. O senhor Golyádkin examinou Pietruchka por completo e pelo visto ficou satisfeito. A libré evidentemente havia sido alugada para alguma solenidade eventual. Dava para notar ainda que, enquanto era examinado, Pietruchka olhava para seu amo com uma expectativa meio estranha e acompanhava todos os seus movimentos com uma curiosidade incomum, o que perturbava demais o senhor Golyádkin.
Bem, e a carruagem?
A carruagem também veio.
Pelo dia inteiro?
Pelo dia inteiro. Vinte e cinco rublos em papel.
E as botas, trouxeram?
Trouxeram as botas também.
Pateta, não consegues falar direito(2). Traze-as aqui.
Depois de manifestar sua satisfação com o fato de que as botas haviam servido, o senhor Golyádkin pediu que lhe preparassem o chá, a água para se lavar e barbear. Barbeou-se com muito cuidado e de igual modo lavou-se, sorveu o chá às pressas e passou à sua paramentação principal, completa: vestiu as calças quase inteiramente novas, depois o peitilho com botões de bronze, o colete com florzinhas muito claras e agradáveis, pôs uma gravata de seda multicor e, por último, vestiu o uniforme também novinho em folha e de corte esmerado. Ao vestir-se, várias vezes olhou embevecido para as suas botas, levantando a cada instante ora uma, ora outra perna, deleitando-se com seu feitio e sempre murmurando alguma coisa, de raro em raro fazendo um trejeito expressivo pensando em seus ardis. Aliás, nessa manhã o senhor Golyádkin estava no auge da dispersão, porque quase não notou as risotas e trejeitos que Pietruchka lhe dirigia ao ajudá-lo a vestir-se. Por fim, tendo providenciado tudo o que era preciso e terminado de vestir-se, o senhor Golyádkin meteu sua carteira no bolso, deleitou-se em definitivo com Pietruchka, que calçara as botas e, assim, também estava de todo pronto, e observando que tudo já estava feito e não havia mais o que esperar, desceu sua escada correndo, agitado e com um pequeno tremor no coração. A carruagem azul, enfeitada de uns brasões, aproximou-se estrondosamente do alpendre. Pietruchka, piscando para o cocheiro e alguns basbaques, pôs seu amo na carruagem; com uma voz inusual e contendo a custo o riso imbecil, gritou: “Vamos lá”, pulou sobre o pedal e, entre ruídos e estrondos, tilintando e estrepitando, a carruagem azul disparou rumo à avenida Niévski. Mal ela transpôs o portão, o senhor Golyádkin enxugou convulsivamente as mãos e caiu numa risada baixinha e silenciosa, como homem de temperamento alegre que conseguira fazer uma coisa formidável, coisa essa que o deixara cheinho de alegria. É bem verdade que logo após o acesso de alegria, o riso deu lugar a um estranha expressão de preocupação estampada no rosto do senhor Golyádkin. Apesar do tempo úmido e nublado, ele abriu ambas as janelas da carruagem e, com ar preocupado, começou a observar quem passava à direita e à esquerda, logo assumindo um aspecto conveniente e grave mal percebia que alguém o espiava. Na curva da rua Litiêinaia para a avenida Niévski, a mais desagradável das sensações o fez estremecer, e ele, fazendo uma careta como um coitado de quem por acaso acaso pisaram um calo, retraiu-se às pressas, até com pavor, ao canto mais escuro de sua carruagem. Ocorre que encontrou dois colegas, dois jovens funcionários da mesma repartição em que servia. Como pareceu ao senhor Golyádkin, os dois funcionários, por sua vez, também estavam tomados de extrema perplexidade por terem encontrado seu colega daquela maneira; um deles chegou a apontar com o dedo o senhor Golyádkin. Este teve até a impressão de que o outro havia gritado o seu nome, coisa, sem dúvida, muito inconveniente na rua. Nosso herói escondeu-se e não respondeu. “Que criançolas! — começou ele de si para si. — Ora bolas, o que há de estranho aqui? Um homem numa carruagem; um homem precisou estar numa carruagem, então alugou uma carruagem e pronto. São simplesmente uns calhordas! Eu os conheço — simples criançolas que ainda precisam de umas pancadas. Só querem tirar cara ou coroa quando ganham seus vencimentos e sair por aí batendo pernas, é só o que querem. Eu diria a todos eles umas coisas, mas só que...” O senhor Golyádkin não concluiu e ficou petrificado. Uma esperta parelha de cavalos de Kazan, muito familiar a ele e atrelada a uma elegante drójki(3), ultrapassou sua carruagem pela direita. Um senhor que estava na drójki viu por acaso o rosto do senhor Golyádkin (que com bastante imprudência espichara o pescoço pela janela da carruagem), também pareceu extremamente surpreso com tão inesperado encontro e, curvando-se até onde pôde, passou a olhar com a maior curiosidade e simpatia para o canto da carruagem em que nosso herói tentara esconder-se a toda pressa. O senhor da drójki era Andriêi Filíppovitch, chefe da repartição onde o senhor Golyádkin trabalhava como auxiliar do chefe de seção. Ao notar que Andriêi Filíppovitch o havia reconhecido por completo, que olhava de olhos arregalados e que não havia nenhuma possibilidade de esconder-se, o senhor Golyádkin ficou todo vermelho. “Faço uma reverência ou não? Respondo ou não? Confesso ou não? — pensava nosso herói numa aflição indescritível — ou finjo que não sou eu, mas outra pessoa surpreendentemente parecida comigo, e ajo como se nada tivesse acontecido? Isso mesmo, não sou eu, não sou eu, e pronto! — dizia o senhor Golyádkin tirando o chapéu para Andriêi Filíppovitch e sem desviar o olhar. — Eu, eu vou indo — murmurava a contragosto —, não vou nada mal, absolutamente não sou eu, Andriêi Filíppovitch, absolutamente não sou eu, e pronto.” Mas a drójki logo ultrapassou a carruagem e o magnetismo do olhar do chefe cessou. No entanto ele continuava corando, sorrindo, balbuciando algo com seus botões... “Fui um imbecil por não ter respondido — pensou enfim —, devia simplesmente ter dito com ousadia e uma franqueza não desprovida de dignidade: sabe como é, Andriêi Filíppovitch, também fui convidado para o jantar, e pronto!” Depois, lembrando-se de repente de que metera os pés pelas mãos, nosso herói inflamou-se como o fogo, franzindo o cenho e lançou um terrível olhar desafiador para o canto dianteiro da carruagem, um olhar que se destinava a reduzir de uma vez a cinzas todos os seus inimigos. Por fim, movido por alguma inspiração, deu um puxão repentino no cordão preso ao cotovelo do cocheiro, parou a carruagem e ordenou o retorno para a Litiêinaia. É que o senhor Golyádkin, provavelmente para sua própria tranquilidade, sentiu uma urgência de dizer algo muitíssimo interessante ao seu médico Crestian Ivánovitch. E embora conhecesse Crestian Ivánovitch há bem pouco tempo — visitara seu consultório apenas uma vez, na semana anterior, levado por certas necessidades —, todavia se diz que o médico é como um confessor: esconder alguma coisa dele seria uma tolice, e a obrigação dele é conhecer o paciente. “Pensando bem, será que tudo isso está certo? — continuou nosso herói, descendo da carruagem à entrada de um prédio de cinco andares na rua Litiêinaia, onde mandou o cocheiro parar seu carro —, será que tudo isso está certo? Será decente? Será oportuno? De resto, que importa? — continuou ele, subindo a escada, tomando fôlego e contendo as batidas do coração, que tinha o hábito de bater em todas as escadas alheias — que importa? ora, vou tratar de assunto meu e nisso não há nada de censurável... Seria uma tolice eu me esconder. Darei um jeito de fazer de conta que vou indo, que entrei por entrar, que estava passando ao lado... E ele verá que é assim que deve ser.”
Assim raciocinava o senhor Golyádkin subindo ao segundo andar e parando diante da sala nº 5, em cuja porta estava afixada uma plaqueta com o letreiro:

Crestian Ivánovitch Rutenspitz
Doutor em medicina e cirurgia

Depois de parar, nosso herói apressou-se em dar à sua fisionomia um aspecto decente, atrevido, mas não desprovido de certa amabilidade, e preparou-se para puxar o cordão da sineta. Uma vez preparado para puxar o cordão da sineta, pensou de imediato e bem a propósito se não seria melhor deixar para dia seguinte e que, por enquanto, não havia grande necessidade daquilo. Mas como o senhor Golyádkin ouviu de repente os passos de alguém na escada, mudou imediatamente sua nova decisão e, no mesmo instante, porém com o ar mais resoluto, puxou o cordão da sineta à porta de Crestian Ivánovitch.

Notas do tradutor:
1. Embora o título tenha algo de pomposo, o cargo de conselheiro titular pertence à nona classe funcional na escala burocrática do serviço público russo. É um simples amanuense, sem chances de progressão social.
2. Segundo um costume da língua russa, Pietruchka deveria, em sinal de deferência, pronunciar um “s” no final da palavra, como era praxe em sua condição social.
3. Carruagem leve, aberta, de quatro rodas.

Dostoiévski, in O duplo

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