19/10/2023

Cartas para minha avó

Quando eu tinha vinte e um anos e trabalhava na Casa de Cultura da Mulher Negra, fui apresentada a uma série de autoras negras. Na biblioteca, que levava o nome de Carolina Maria de Jesus, eu soube da existência dessa grande escritora brasileira. E foi lá também que fui apresentada à obra de Toni Morrison, Maya Angelou e Alice Walker. Sinto que fui abraçada por essas mulheres em meus períodos de incertezas e nos momentos em que me sentia perdida. Fui abraçada por essa literatura que me salvou muitas vezes da tristeza e da incompreensão.
Alice Walker lançou uma editora ativista, a Wild Tree Press, para poder publicar seus livros e de outras mulheres negras nos Estados Unidos, num momento em que o catálogo das editoras era predominantemente branco. Seu livro De amor e desespero: histórias de mulheres negras marcou o início da minha vida adulta, assim como os poemas de Angelou como “Ainda assim eu me levanto” e “Mulher fenomenal”. Essas mulheres negras tão distantes geograficamente me afagaram em muitas noites de solidão. Quando não estava trabalhando, passava horas lendo. Comecei a escrever na revista da organização, Eparrei, e tive a oportunidade de entrevistar diversas lideranças do movimento de mulheres negras, com as quais aprendi muito. Participei da organização de eventos importantes como o Seminário Pós-Durban, em 2002, sobre a grande conferência internacional que acontecera no ano anterior; e o Seminário Nacional de Educação e Cultura Afro-Brasileira, em 2004. Essas experiências foram fundamentais para me botar no prumo. Para que eu pudesse entender quais seriam meus objetivos de vida, entender que a vida poderia ser mais.
Mas, de fato, a literatura escrita por mulheres negras foi um bálsamo e uma dádiva. Morrison é uma das minhas favoritas, sou capaz de ficar horas assistindo a suas entrevistas, aprendendo com sua postura e elegância, sobretudo com suas palavras. Essas mulheres negras mais velhas me deram colo quando eu deixei de ter as minhas mais velhas aqui. Ao mesmo tempo que me desafiaram a olhar o mundo, vó, trouxeram incômodos necessários para se refletir. Elas foram tão marcantes que eu ainda não consigo acreditar que escrevi o prefácio da edição brasileira de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Angelou (Oprah Winfrey escreveu o prefácio da edição original). Assim como ainda me é inacreditável ter escrito o prefácio de uma edição de O olho mais azul, meses antes do falecimento de Toni Morrison, com a autorização de seu agente. Indiquei o livro quando fui curadora de um clube de livros e ele foi reeditado no Brasil. Ter assinado aquele texto e vê-lo publicado em um livro da minha autora favorita me tocou profundamente. E me senti mais conectada ainda. Senti como um presente da ancestralidade, como se as mais velhas mostrassem que seguem cuidando de mim.
Recentemente tive um sonho muito gratificante com algumas anciãs. Elas estavam numa floresta, sentadas, todas de branco. Uma delas trazia uma longa trança em seus cabelos grisalhos. Quando eu chegava, elas começavam a me aplaudir. Acordei e senti uma paz de espírito como há muito não sentia.
De alguma forma, escrever para você me conectou ainda mais com minha ancestralidade. Hoje já não choro de dor. Sinto saudade, como não? E lembro com alegria dos momentos que tivemos. Se estou triste, procuro ver o mar. Se não posso, imagino que estou no mar e Iemanjá surge com seus seios fartos, passa água na minha cabeça e me aninha em seu colo. Ela conversa comigo, diz para eu não ter medo, e eu vou me acalmando, deixando a tristeza sair.
Se antes eu amava tomar sorvete em dia quente, hoje tento amar com a paz de um viajante sem rumo. Se antes falava com a inexpressão de meias palavras, com a ânsia de quem extravasa, hoje consigo falar em silêncio. Se antes desejava como quem quer enxugar um pranto doloroso, com a euforia das compras de fim de ano, hoje desejo com a serenidade da noite por um dia de sol. Se antes eu queria as coisas como tempestade de granizo em telhado de vidro, hoje as quero com a força do parto gerando vida, com a alegria de quem come maçã do amor em festa junina. Se antes amava com a sede do deserto, hoje amo saciada com a paciência de quem tira água de um poço. O que quero dizer, vó, é que hoje eu não tenho pressa.
Recebo cartas e mensagens de mulheres mais velhas que rezam por mim. Uma delas disse que acende velas por mim todos os dias. A verdade é que você nunca deixou de cuidar de mim ou enviar quem cuidasse. As mulheres negras salvaram a minha vida.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

Nenhum comentário:

Postar um comentário