Quando
eu tinha vinte e um anos e trabalhava na Casa de Cultura da Mulher
Negra, fui apresentada a uma série de autoras negras. Na biblioteca,
que levava o nome de Carolina Maria de Jesus, eu soube da existência
dessa grande escritora brasileira. E foi lá também que fui
apresentada à obra de Toni Morrison, Maya Angelou e Alice Walker.
Sinto que fui abraçada por essas mulheres em meus períodos de
incertezas e nos momentos em que me sentia perdida. Fui abraçada por
essa literatura que me salvou muitas vezes da tristeza e da
incompreensão.
Alice
Walker lançou uma editora ativista, a Wild Tree Press, para poder
publicar seus livros e de outras mulheres negras nos Estados Unidos,
num momento em que o catálogo das editoras era predominantemente
branco. Seu livro De amor e desespero: histórias de mulheres
negras marcou o início da minha vida adulta, assim como os
poemas de Angelou como “Ainda assim eu me levanto” e “Mulher
fenomenal”. Essas mulheres negras tão distantes geograficamente me
afagaram em muitas noites de solidão. Quando não estava
trabalhando, passava horas lendo. Comecei a escrever na revista da
organização, Eparrei, e tive a oportunidade de entrevistar
diversas lideranças do movimento de mulheres negras, com as quais
aprendi muito. Participei da organização de eventos importantes
como o Seminário Pós-Durban, em 2002, sobre a grande conferência
internacional que acontecera no ano anterior; e o Seminário Nacional
de Educação e Cultura Afro-Brasileira, em 2004. Essas experiências
foram fundamentais para me botar no prumo. Para que eu pudesse
entender quais seriam meus objetivos de vida, entender que a vida
poderia ser mais.
Mas,
de fato, a literatura escrita por mulheres negras foi um bálsamo e
uma dádiva. Morrison é uma das minhas favoritas, sou capaz de ficar
horas assistindo a suas entrevistas, aprendendo com sua postura e
elegância, sobretudo com suas palavras. Essas mulheres negras mais
velhas me deram colo quando eu deixei de ter as minhas mais velhas
aqui. Ao mesmo tempo que me desafiaram a olhar o mundo, vó,
trouxeram incômodos necessários para se refletir. Elas foram tão
marcantes que eu ainda não consigo acreditar que escrevi o prefácio
da edição brasileira de Eu sei por que o pássaro canta na
gaiola, de Angelou (Oprah Winfrey escreveu o prefácio da edição
original). Assim como ainda me é inacreditável ter escrito o
prefácio de uma edição de O olho mais azul, meses antes do
falecimento de Toni Morrison, com a autorização de seu agente.
Indiquei o livro quando fui curadora de um clube de livros e ele foi
reeditado no Brasil. Ter assinado aquele texto e vê-lo publicado em
um livro da minha autora favorita me tocou profundamente. E me senti
mais conectada ainda. Senti como um presente da ancestralidade, como
se as mais velhas mostrassem que seguem cuidando de mim.
Recentemente
tive um sonho muito gratificante com algumas anciãs. Elas estavam
numa floresta, sentadas, todas de branco. Uma delas trazia uma longa
trança em seus cabelos grisalhos. Quando eu chegava, elas começavam
a me aplaudir. Acordei e senti uma paz de espírito como há muito
não sentia.
De
alguma forma, escrever para você me conectou ainda mais com minha
ancestralidade. Hoje já não choro de dor. Sinto saudade, como não?
E lembro com alegria dos momentos que tivemos. Se estou triste,
procuro ver o mar. Se não posso, imagino que estou no mar e Iemanjá
surge com seus seios fartos, passa água na minha cabeça e me aninha
em seu colo. Ela conversa comigo, diz para eu não ter medo, e eu vou
me acalmando, deixando a tristeza sair.
Se
antes eu amava tomar sorvete em dia quente, hoje tento amar com a paz
de um viajante sem rumo. Se antes falava com a inexpressão de meias
palavras, com a ânsia de quem extravasa, hoje consigo falar em
silêncio. Se antes desejava como quem quer enxugar um pranto
doloroso, com a euforia das compras de fim de ano, hoje desejo com a
serenidade da noite por um dia de sol. Se antes eu queria as coisas
como tempestade de granizo em telhado de vidro, hoje as quero com a
força do parto gerando vida, com a alegria de quem come maçã do
amor em festa junina. Se antes amava com a sede do deserto, hoje amo
saciada com a paciência de quem tira água de um poço. O que quero
dizer, vó, é que hoje eu não tenho pressa.
Recebo
cartas e mensagens de mulheres mais velhas que rezam por mim. Uma
delas disse que acende velas por mim todos os dias. A verdade é que
você nunca deixou de cuidar de mim ou enviar quem cuidasse. As
mulheres negras salvaram a minha vida.
Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó
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