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27/12/2025

Tempo e substância

Meça, regularmente, a imensidão do tempo e a vastidão da substância. Em relação a esta, cada coisa é análoga a uma semente de figo; àquela, ao girar de uma verruma.

Marco Aurélio, em Meditações

06/11/2025

Tempo

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

15/01/2025

O tempo da delicadeza

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”, diz o texto sagrado. O amor também tem os seus tempos, e ele muda como mudam as estações.
Nos países frios, a primavera é o tempo da pressa. Os bulbos, que por meses haviam hibernado sob o gelo, repentinamente despertam do seu sono, rompem da noite para o dia a camada de neve que os cobria e exibem, sem o menor pudor, os seus órgãos sexuais coloridos e perfumados, suas flores.
Que lindas...”, dizemos. Ignoramos que aquela é uma beleza apressada. A primavera é curta. Outro inverno virá. É preciso espalhar o sêmen com urgência, para garantir a continuidade da vida. Por isso se exibem assim, em sua nudez colorida e perfumada, para atrair os parceiros do amor.
Se as plantas pensassem, teriam os mesmos pensamentos que têm os jovens quando neles desperta o sexo, em todo o seu furor de realizar-se. É só isto que importa: o coito. Passado o êxtase, vai-se o interesse, fuma-se um cigarro, vira-se para o outro lado...
O verão é o tempo em que a fúria reprodutiva já se esgotou. Tempo maduro, tempo do trabalho, dos filhos, das rotinas domésticas. Os mesmos olhos que se excitavam ao contemplar o corpo nu da pessoa amada já não se excitam. Já não sorriem nem têm palavras poéticas a dizer sobre ele. Há uma rotina sexual a ser cumprida. Vai-se o encantamento, os olhos e as mãos se cansam da mesmice e começam a procurar outros corpos, e vem a saudade da juventude que já passou. Cumprido o ato, vem o silêncio.
O outono é a estação de uma nova descoberta. Não há urgência. Nenhuma obrigação. A natureza está tranquila. Na adolescência qualquer mulher servia, porque o sexo era comandado pelas pressões vulcânicas dos hormônios e pelos genitais. Agora o que excita é o rosto da pessoa amada. O sexo deixa de ser movido pela bioquímica que circula no sangue e passa a ser movido pela beleza. O amor se torna uma experiência estética. E o que os amantes outonais mais desejam não são os fogos de artifício do orgasmo, mas aquela voz que diz: “como é bom que você exista...”.
O outono é o tempo da tranquilidade. É bom estar juntos, de mãos dadas, sem fazer nada. É bom acariciar o cabelo da amada... Esta é a grande queixa das mulheres – que para os homens a intimidade é sempre preparatória de uma transa. Talvez porque se sintam obrigados a provar que ainda são homens. O que as mulheres desejam não é prazer, é felicidade. O outono é o tempo do amor feliz.
O Chico escreveu sobre esse tempo e lhe deu o nome de “tempo da delicadeza”, na canção “Todo o sentimento”. “Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente...” Sim, preciso não dormir, preciso não morrer, porque há muito amor ainda não realizado. Vem-lhe então a memória do amor que, por descuido, não se realizou, e vai em busca da sua recuperação: “Pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez...”.
Esse verso me comove de maneira especial. Pensando no meu desajeito, na minha desatenção, vou me lembrando das coisas que derrubei, das palavras que não ouvi, das flores que pisei. E dá uma vontade de fazer o tempo voltar para poder refazer o que foi desfeito, para recolher todo o sentimento e colocá-lo no corpo outra vez...
Aí ele vai mansamente dizendo as palavras que o amor deve saber dizer, palavras que só existem no “tempo da delicadeza”. “Prometo te querer até o amor cair doente, doente...” Por isso, por causa desse tempo misterioso, é preciso amar cuidadosamente com o olhar, com os ouvidos, com a mão que tateia para não ferir... Enquanto há tempo.

***

Lembrei-me do amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, de O amor nos tempos do cólera. Tiveram de esperar 53 anos e passaram o resto da vida navegando no rio da delicadeza...

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

22/10/2024

Tempo

Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

Mário Quintana, em Caderno H

16/08/2024

Uma espécie de corrida

Atravessar de um ano para o outro parece-nos uma espécie de corrida. Chega-se daquele jeito que bem sabemos, mas com uma careta de triunfo na face…

Mário Quintana, em Porta giratória

01/08/2024

As máximas

Tenho à mão as Máximas do nosso Marquês de Maricá. Leio: “Mocidade desbragada, velhice achacosa.” Discordo e emendo: “Mocidade desbragada, velhice anedótica.” Pois os velhos que souberam estragar a mocidade, como têm coisas para contar à gente!
Quanto aos outros, são uns sujeitos tão chatos agora como deviam ter sido há cinquenta anos atrás.

Mário Quintana, em Porta giratória

17/07/2024

Tempo

Não dispõe de tempo livre para a leitura. Todavia, possui tempo para controlar a arrogância; para se sobrepor ao prazer, à dor e ao amor pelo prestígio; para não se irritar com os estúpidos e os ingratos e até para cuidar deles.

Marco Aurélio, em Meditações