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22/07/2020

Ela gira

Teoricamente sabemos que a Terra gira, mas não percebemos; o solo que pisamos não parece mexer-se e vivemos tranquilos; o mesmo acontece com o tempo de nossas vidas.”
Marcel Proust, in Em busca do tempo perdido

24/08/2019

Proust no casulo

Em muitas de suas fotografias, Marcel Proust aparece vestido com um clássico e frondoso sobretudo. Evitava dele se afastar: era seu casulo. Usava-o mesmo quando estava em casa, sozinho, debruçado sobre seus escritos. O casaco foi uma espécie de escudo protetor, último recurso de um homem hipersensível para se contrapor aos golpes do real.
Um século depois, a jornalista italiana Lorenza Foschini, autora de Sobretudo de Proust (Rocco, tradução de Mario Fondelli), reencontra o célebre sobretudo guardado em uma caixa de papelão no Museu Carnavalet, em Paris. O museu é dedicado à preservação da história da capital francesa; Marcel Proust é, ainda hoje, a alma da cidade.
Descreve Lorenza, sem dissimular o espanto: “O sobretudo está diante de mim, acomodado no fundo da caixa, em cima de uma folha branca que quase parece um lençol, enrijecido pelo forro de papel que a preenche: parece realmente vestir um morto”. Das mangas, como lagartas, saem tufos de papel de seda. O casaco parece estufado, o que reafirma a presença perpétua de Proust em seu interior. Descreve Lorenza ainda: “Tenho a impressão de estar vendo um boneco sem cabeça e sem mãos”. Tão vivo quanto o próprio escritor a quem vestiu, o sobretudo resiste como um destroço.
É trespassado na frente e fechado por uma fileira dupla de botões. Aflita, Lorenza o desabotoa, em busca de algum segredo – talvez um rasto do espírito do escritor. Nada encontra. Nervosa, chega a revistar os bolsos, mas só esbarra com o vazio. O que, na verdade, ela encontra? A morte de Marcel Proust, sua ausência definitiva – buraco de que o sobretudo é uma casca. Em uma das laterais da caixa, só então, ela percebe a inscrição fria: “Sobretudo de Proust”. Lorenza agradece ao diretor do museu, Jean-Marc Léri, e se vai. Como se saísse de um velório que atravessasse um século.
Dentro do sobretudo, Lorenza já sabe enquanto desce as escadarias do museu, se guarda não só um fantasma, mas um livro. O livro que agora estou a ler. Conta a história do célebre casaco, que, mais que uma peça de roupa, é uma relíquia. Quase sagrada, ou talvez sagrada mesmo – se alteramos um pouco a ideia de sagração.
Logo após a morte de Proust, em 1922, o sobretudo foi recolhido por seu irmão, o doutor Robert Proust, famoso cirurgião parisiense, que também se tornou o responsável por seus manuscritos. Eles incluíam longos trechos inéditos de La recherche. Esses manuscritos, assim como o casaco, foram parar, mais tarde, nas mãos do colecionador e industrial do perfume, Jacques Guérin. Relíquias, assim como almas perdidas, percorrem tortuosos caminhos até encontrarem seu descanso.
Em torno da história do sobretudo, o livro de Lorenza traz à cena outros célebres personagens da intelectualidade parisiense, como Violette Leduc, Pablo Picasso e Erik Satie. É Paris, um pouco, que ressuscita naquele casaco. Essas celebridades, contudo, simplesmente murcham diante da peça de roupa perdida em que Proust se escondeu ao longo de tantos anos e dentro da qual – como um bicho-da-seda em seu casulo – produziu seu tesouro. Hoje, observado por olhos distraídos, não passa de um invólucro qualquer. Uma velharia. Não é qualquer um que consegue enxergar, naquela roupa roída pelo tempo, a presença perpétua de uma alma.
O pequeno livro de Lorenza segue o fascínio dos historiadores contemporâneos pela história das miudezas. É escrito no estilo de um falso romance, mas pode ser também (e talvez seja mesmo) uma reportagem. Não importa. Em associações rápidas, ele evoca outras peças do vestuário de grandes escritores de que só com dificuldade separamos seus donos. Invólucros também, em que alguns nacos da vida se perpetuam.
Penso no célebre turbante de Simone de Beauvoir. Na peruca (ou falsa peruca, pois os cabelos também enganam) que certa vez avistei, como folhas murchas, escorrendo na cabeça da portuguesa Agustina Bessa Luís. As batas esvoaçantes e exageradas de Vinicius de Moraes, em sua temporada baiana, e também de Hilda Hilst, em seu sítio místico de Campinas. O antigo colete de cavaleiro do apocalipse usado na Normandia, em seus últimos dias, pelo francês Alain Robbe-Grillet, paradoxalmente, chefe da escola do Novo Romance.
Os ternos impecáveis de José Saramago. As camisas amarfanhadas de Nelson Rodrigues. As echarpes elegantes que ainda hoje Lygia Fagundes Telles, como uma rainha, desfila pelas livrarias de São Paulo. Os cabelos longos e inacreditáveis de Ferreira Gullar, que evocam poetas que o precederam, mas, de certo modo, desmentem seus versos. As bermudas vagabundas de João Antônio.
A lista dessas pequenas intimidades é interminável. São detalhes, quase desprezíveis, a que poucos atribuem importância e que, talvez, não mereçam importância mesmo. Contudo, observados de certa perspectiva, eles anotam um estilo. M ais que um estilo: se parecem com os selos de cera que, no passado, vedavam as cartas secretas.
São sintomas, na verdade, de corpos – manifestações sutis, em uma cabeça, um pescoço, um tronco, uma perna, sinais de alguma coisa que, antes delas, já se apresenta na obra. São expressões, talvez vícios, como no caso de Proust, e, no entanto, é preciso levá-las a sério. Uma fotografia de Marcel Proust com seu sobretudo tirada em Evian no ano de 1905 resume o que tento dizer. Ali está um estilo, não porque esteja escrito, mas porque está vestido. Porque toma a frente da cena e transforma seu portador em um segredo. Uma parte, portanto, da própria ficção, que nada mais é do que a arte de ocultar mostrando.
Proust fez de todos nós, como observou William Sansom, “computadores ambulantes, carregando conosco as gravações do passado”. Não passamos, talvez, de filmes projetados do nosso passado que, capturados no presente, destinam a nós, sim, a nós mesmos, homens de carne e osso, e não a peças lendárias como o sobretudo, um aspecto irreal. Poucas coisas são tão reais, ainda hoje, quanto o sobretudo de Marcel Proust. Ele carrega dentro de si não um homem, mas um mundo que jamais perderemos.
José Castello, in Sábados inquietos

22/07/2018

O gênio transforma, transporta

Mas o gênio, e mesmo o grande talento, provém menos de elementos intelectuais e de afinamento social superiores aos alheios, que da faculdade de os transformar, de os transportar. Para aquecer um líquido com uma lâmpada elétrica, não se deve conseguir a lâmpada mais forte possível, mas uma cuja corrente possa deixar de iluminar, ser desviada e produzir, em vez de luz, calor. Para passear pelos ares, não é necessário ter o automóvel mais possante, mas um automóvel que, deixando de correr por terra e cortando com uma vertical a linha que seguia, seja capaz de converter em força ascensional a sua velocidade horizontal. Assim, os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado, que têm a conversação mais brilhante, a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder, deixando subitamente de viver para si mesmos, de tornar a sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se reflita, por mais medíocre que aliás pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido.”
Marcel Proust, in À sombra das raparigas em flor

07/06/2018

Arte e dor

Não é apenas a arte que põe encanto e mistério nas coisas mais insignificantes; esse mesmo poder de relacioná-las intimamente conosco é reservado também à dor.”
Marcel Proust, in A fugitiva

24/06/2017

Imperceptível

Teoricamente sabemos que a Terra gira, mas nós não percebemos; o solo que pisamos não parece mexer-se e vivemos tranquilos; o mesmo acontece com o tempo de nossa vida”.
Marcel Proust

02/10/2015

Não temer no amor

“Por isso não se deve temer no amor, como na vida habitual, tão-somente o futuro, mas também o passado, o qual não se realiza para nós muitas vezes senão depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler.”
Marcel Proust, in Em busca do tempo perdido - vol. 5 - A Prisioneira

19/04/2015

Sonho

Um homem que dorme sustenta em círculo, a seu redor, o fio das horas, a ordenação dos anos e dos mundos. Ao acordar, consulta-os por instinto e neles verifica, em um segundo, o ponto da terra em que se localiza, o tempo que transcorreu até o seu despertar; mas essa ordem pode se confundir e romper. Se, pela madrugada, após uma insônia, o sono vem surpreendê-lo durante a leitura, numa posição bem diferente daquela em que costuma dormir, basta seu braço erguido para parar e fazer recuar o sol, e no primeiro minuto ao despertar já não mais saberá as horas, achando que mal acaba de se deitar. Se adormecer em posição ainda mais desusada e diversa, por exemplo depois do jantar, sentado numa poltrona, então a reviravolta será completa nos mundos fora de órbita, a poltrona mágica o fará viajar a toda velocidade no tempo e no espaço, e, no momento de abrir as pálpebras, julgará estar deitado alguns meses antes, numa região diferente.
Bastaria, no entanto, que eu estivesse dormindo no meu próprio leito e que meu sono fosse profundo, para relaxar-se a tensão do meu espírito; então, este perdia o plano do local onde eu adormecera, e quando eu despertasse no meio da noite, como ignorasse onde me encontrava, nem mesmo saberia, no primeiro instante, quem era; tinha somente, na sua simplicidade primitiva, o sentimento da existência tal como pode palpitar no íntimo de um animal; era mais carente que o homem das cavernas; aí então a lembrança - não ainda do lugar em que estava, mas de outros onde havia morado e onde poderia estar - me chegava como um socorro do alto para me livrar do nada de onde não poderia sair sozinho; num segundo, eu passava por sobre séculos de civilização e a imagem confusamente entrevista de lampiões de querosene, e depois, de camisas de gola virada, recompunham aos poucos os traços originais do meu próprio eu.”
Marcel Proust, in No caminho de Swann

02/02/2015

Não percebemos

“Teoricamente sabemos que a Terra gira, mas nós não percebemos; o solo que pisamos não parece mexer e vivemos tranquilos; o mesmo acontece com o tempo de nossa vida.”
Marcel Proust

31/07/2014

Sabedoria

“A sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas.”
Marcel Proust

25/05/2014

Nenhuma luz

“No salão de Madame Verdurin, o autor faz tocar Beethoven e um protegido, pintor, antegozando o sarau, chega a dizer: ‘Não será preciso nenhuma luz e ele que toque a Sonata ao Luar no escuro, para melhor se esclarecerem as coisas.'”
Marcel Proust, in Em busca do tempo perdido

28/03/2014

Marcos

"Tão múltiplos são os interesses de nossa vida que não é raro que, numa mesma circunstância, os marcos de uma felicidade que ainda não existe estejam pousados ao lado da agravação de um mal de que sofremos."
Marcel Proust

30/11/2013

Mudanças

“Os seres não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível mas eterna do mundo, nós os consideramos como imóveis num instante de visão, demasiado breve para que seja percebido o movimento que os arrasta. Mas basta escolher na nossa memória duas imagens suas, tomadas em instantes diferentes, bastante próximos no entanto para que eles não tenham mudado em si mesmo, pelo menos sensivelmente, e a diferença das duas imagens mede a deslocação que eles operavam em relação a nós.”
Marcel Proust, in Sodoma e Gomorra

16/11/2013

Faculdades adormecidas

“É em geral com o nosso ser reduzido ao mínimo que nós vivemos, a maioria das nossas faculdades adormecidas, porque repousam no hábito, que sabe o que cumpre fazer e não necessita delas.”
Marcel Proust, in À Sombra das Raparigas em Flor

14/05/2013

Marcha eterna do mundo

“Os seres não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível, mas eterna do mundo, nós os consideramos como imóveis num instante de visão, demasiado breve para que seja percebido o movimento que os arrasta. Mas basta escolher na nossa memória duas imagens suas, tomadas em instantes diferentes, bastante próximos, no entanto, para que eles não tenham mudado em si mesmo, pelo menos sensivelmente, e a diferença das duas imagens mede a deslocação que eles operavam em relação a nós.”
Marcel Proust, in Sodoma e Gomorra

28/02/2013

Não percebemos

“Teoricamente sabemos que a Terra gira, mas nós não percebemos; o solo que pisamos não parece mexer-se e vivemos tranquilos; o mesmo acontece com o tempo de nossa vida”.
Marcel Proust

22/02/2013

Música: Luz

“Não será preciso nenhuma luz e ele que toque a Sonata ao Luar no escuro para melhor se esclarecerem as coisas.”
Marcel Proust

03/02/2012

Coragem aparente


“O soldado está convencido de que tem diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte. Esse é o amuleto que preserva os indivíduos - e às vezes os povos - não do perigo, mas do medo ao perigo; na verdade, da crença no perigo, motivo pelo qual o desafiam em certos casos, sem que sejam necessariamente bravos”. 
Marcel Proust, in À Sombra das Raparigas em Flor

21/12/2011

Coragem aparente

“O soldado está convencido de que tem diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte. Esse é o amuleto que preserva os indivíduos - e às vezes os povos - não do perigo, mas do medo ao perigo; na verdade, da crença no perigo, motivo pelo qual o desafiam em certos casos, sem que sejam necessariamente bravos”.
Marcel Proust, in À Sombra das Raparigas em Flor