Mostrando postagens com marcador Em Busca de Mim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Em Busca de Mim. Mostrar todas as postagens

05/03/2026

Capítulo 15 – O Despertar (excerto)



Garota, acorde! Garota, volte para a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça. Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você sabe quem eu sou?
SARAH JAKES ROBERTS

[...]

Morte, vida adulta, responsabilidades. Todas as coisas que nunca estudei na faculdade e sobre as quais ninguém fala. E em meio a tudo isso, o trabalho e os testes aos poucos começaram a aparecer. Não há páginas ou capacidade de memória suficientes para explicar os testes. O produtor de elenco contratado liga para um agente de acordo com as necessidades do filme, do programa de TV ou da peça em questão. Caso você se encaixe na descrição, se tiver a visibilidade que o projeto requer e se a sua agência for poderosa o bastante, será chamado para um teste.
Naquela época, quase todos os papéis para os quais eu me encaixava eram de mães com alguma dependência química. Meu agente me enviava outros. Papéis de atriz negra descrita como “bonita” ou “atraente”. Eu usava maquiagem, arrumava meu cabelo e nunca conseguia os papéis, mesmo que os produtores fossem negros. Aceitava os trabalhos que me eram dados. Voltei à Trinity Rep e atuei em duas peças. Fui trabalhar no Guthrie Theater com a famosa diretora JoAnne Akalaitis em uma peça chamada The Rover, de Aphra Behn. Voltei à Trinity Rep para atuar em Um conto de Natal, de Dickens, e em Red Noses, de Peter Barnes. Foi durante Red Noses que recebi uma ligação do meu agente em Nova York a respeito de Seven Guitars, de August Wilson. O incrível Lloyd Richards ia dirigir. Fiquei muito animada. A peça seria exibida na Broadway, mas, antes seria desenvolvida no Goodman Theatre, em Chicago, na Huntington Theatre Company, em Boston, no A.C.T. (American Conservatory Theater), em São Francisco, e no Ahmanson Theatre, em Los Angeles. Estrearíamos um ano depois no Walter Kerr Theatre, em Nova York.
Estudei o roteiro à exaustão. A personagem era Vera. Ela tinha levado um fora do namorado, Floyd Barton, que, enquanto estava na cadeia, gravou uma canção que virou um sucesso. Agora ele estava saindo da prisão e me queria ao seu lado. Era uma linda cena de mágoa, dor, saudade, amor. Era eu. Não foi preciso muito para me conectar àquela parte de mim mesma. Estava bastante nervosa para o teste, mas ao mesmo tempo muito empolgada. Era algo importante. Peguei o trem para Nova York. Já tinha tudo memorizado. Na época, não decorava todas as falas da maioria dos testes de teatro porque as cenas tinham muitas páginas.
Uma audição de TV/cinema costumava ter uma página ou duas. Uma audição de teatro podia ter nove, dez ou mais. Quando eu recebia o roteiro de última hora, precisando estudar o personagem, a peça e o contexto, às vezes sobrava pouco tempo para decorar o texto. Mas aquela foi uma das raras ocasiões em que eu sabia as falas de cor. Desde o início, elas faziam parte de mim.
Lloyd Richards, o diretor, era um homem baixinho e calado. Ele tinha dirigido a produção original de O sol tornará a brilhar, com Sidney Poitier, Ruby Dee, Diana Sands e Glynn Turman. Eu queria muito aquele trabalho. Nunca fui uma atriz supercompetitiva, nem tinha coragem de admitir quando queria alguma coisa. Deixava a vida me levar. Ficava feliz em dizer simplesmente: “Oi! Isso, meu nome é Viola Davis e sou atriz.” Mas, naquele dia, eu queria o trabalho. E a produtora de elenco, Meg Simon, queria que eu conseguisse. Ela me vira entrar e sair de testes para muitos papéis ao longo dos anos, sem nunca conseguir nada. A audição começou e eu me sentia bem, mas não incrível. Era uma cena que terminava com um monólogo sobre como Vera estava raivosa por ter sido deixada e como Floyd lhe fazia falta. Começava com raiva e aos poucos se transformava nela se lembrando do quanto sentia falta dele, do seu toque.
Houve um silêncio.
Lloyd sorriu para mim e disse em tom suave:
Quero que você repita a cena. Desta vez, gostaria que pensasse que ela não quer lidar com esses sentimentos.
Ele estava me pedindo para segurar a emoção até que eu não pudesse mais, como naqueles momentos da vida em que você tenta comunicar um pensamento a uma pessoa querida e, de repente, uma grande onda de mágoa e vulnerabilidade emerge e a surpreende. Então repeti a cena. Foi um momento mágico. O momento que requer preparação, mas também sorte, destino, Deus. É ali que tudo se alinha. Terminei a cena e Lloyd disse:
Obrigado.
Peguei o trem de volta para Providence depois de falar com meu agente e anunciar: “Acho que fui muito bem.” Tenho a tendência de subestimar meu desempenho em testes. Às vezes, você acha que fez um ótimo teste, recebe um retorno ótimo, mas não consegue o papel. Ou descobre que foi bom, mas não excelente. Ou descobre que, aos olhos do produtor, do diretor, você foi simplesmente péssimo. É como disse Whoopi Goldberg: “Fui mal muitas vezes. Fui bem algumas vezes e fui ótima apenas de vez em quando.”
No dia seguinte, descobri que tinha conseguido o papel. Chorei. Só chorei duas vezes ao saber que tinha conseguido um papel. Mas caramba, caramba. Foi o primeiro trabalho realmente grande da minha carreira, e fiquei feliz demais.
Quando fui escalada para Seven Guitars, eu tinha entregado meu apartamento em Nova York. Nunca estava em casa. Estava sempre viajando. Esse é outro aspecto do ramo sobre o qual ninguém fala. Estar longe de casa ou não ter uma. É levar uma vida de nômade. A casa onde colocam você se torna seu lar até não ser mais.
A primeira parada em Chicago foi muito difícil. As temperaturas chegavam a três graus abaixo de zero. Passei minhas folgas no sofá com o aquecedor no máximo, mais um aquecedor portátil e um cobertor enorme por cima de mim. E eu ainda tremia. Trabalhando em Chicago, minhas alegrias eram a Michigan Avenue, ir ao supermercado, malhar durante o dia e atuar à noite. Eu estava feliz. Senti que estava crescendo e mudando de uma forma surpreendente. Eu me sentia independente e segura.
Seven Guitars teve uma temporada longa. Fomos da Chicago congelante para a Huntington Theatre Company, em Boston, que naquela época tinha problema com ratos. Dá para acreditar? Estávamos relaxando na área comum e um rato passava correndo! Caramba. O grande ator sul-africano Zakes Mokae entrou para o elenco — e na época não sabíamos, mas ele estava nos primeiros estágios do Alzheimer. Ele era um homem lindo, mas não conseguia lembrar as falas de seu personagem. A coisa ficou tão ruim em Boston que a produção posicionou quatro pessoas com o roteiro em vários pontos perto do palco, prontas para gritar as falas. E falo sério, gritar mesmo.
Até que ele passou a levar o roteiro para o palco… durante a apresentação… com a plateia presente. Foi uma situação cruel e difícil, que resume o dito popular de que “o show não pode parar”. Também ilustra o pensamento de que tudo pode acontecer em cena quando se está ao vivo no teatro. É uma preparação que desafia a compreensão. E as coisas só pioraram. Quando chegamos a São Francisco, Mokae tinha sido dispensado, o que foi de partir o coração. E um ator chamado Roger Robinson, que era maravilhoso, foi contratado.
Quando você está numa produção pré-Broadway, o roteiro vai sofrendo alterações. Ainda há mudanças no texto, ensaios. Quando estávamos no A.C.T., em São Francisco, a peça tinha quatro horas de duração e nos apresentávamos nove vezes por semana em vez de oito. Durante o dia, ensaiávamos por oito horas. Estávamos exaustos. Nesse tempo, aprendi a difícil lição do que significa ser um grande produtor. A energia e a saúde do ator devem ser a prioridade. Ninguém do elenco vinha dormindo o suficiente. Nós literalmente pegávamos no sono no palco. Dormi no set enquanto esperava para subir no palco durante um ensaio técnico. Acordei assustada, sem saber onde estava. Mas também havia momentos bons, especiais e inesquecíveis. Tommy Hollis, que já faleceu, interpretava o personagem de Red Carter na peça. Ele era um verdadeiro homem do campo. Eu o amava.
Passávamos horas conversando à noite. Falávamos sobre tudo. Reclamávamos do espetáculo. Conversávamos sobre os comentários das pessoas que tinham ido assistir. Falávamos dos medos, esperanças, sonhos. Ele me fazia sanduíches de pescoço de porco com molho picante. Isso mesmo. E eu comia. Ele deixava sanduíches de peru com farofa de pão de milho e calda de cranberry na minha porta. Anos mais tarde, depois do 11 de Setembro, tentei ligar para ele como sempre fazia, mas ninguém atendeu. Alguns dias depois, tentei ligar para todas as pessoas que conhecia em Nova York pedindo que alguém fosse ao apartamento dele. Enfim, Roger Robinson foi até lá. Ele disse que dava para sentir o cheiro do corpo de Tommy em decomposição quando chegou à porta. Foi preciso chamar o porteiro para abri-la. Tommy estava morto havia uma semana. Ele era uma alma linda e conflituosa. Fiquei arrasada.
Quando chegamos a Los Angeles para apresentar Seven Guitars estávamos em êxtase. Ai, meu Deus. Todo mundo foi ver o espetáculo — Halle Berry, Angela Bassett, todo mundo. O caminho até lá foi um saco. Mas quando saímos de Los Angeles e chegamos a Nova York, em um dia chuvoso no fim de março de 1996, tínhamos uma máquina em perfeito funcionamento. Muita coisa nesse ramo é anticlimática.
Não é tão glamoroso quanto as pessoas pensam, e é bem mais solitário. Mas, cara, Broadway? Faz jus a tudo o que se acredita que esse ramo pode ser. Satisfaz tanto a parte glamorosa quanto a profissional. Satisfaz a comunidade e a camaradagem. É um sonho. Mais que o Oscar. Mais que o Emmy. Cada um desses tem seu lado negativo. A Broadway é tudo o que se imagina; faz jus a cada pedacinho do sonho.
Houve momentos na minha vida que fizeram jus às expectativas, como adotar minha bebê — o amor que você tem por um filho (mesmo quando ele o enlouquece) é tudo, perfeição absoluta, na minha opinião. Tudo bem, esse é o número um. O número dois: me casar. Eu amei! Não tive nenhum estresse. Por isso fiz três cerimônias de casamento com meu marido. Cada uma delas está entre os dias mais perfeitos de toda a minha vida. Ganhar um Oscar, um prêmio da Screen Actors Guild — alguns momentos perfeitos. Mas estrear na Broadway, no dia 28 de março de 1996, certamente fez jus às expectativas. Foi perfeito. Foi tudo o que sonhei.
Quando era uma garotinha que sonhava em ser atriz, eu dizia: “Quero que as pessoas joguem flores para mim no palco.” Aquela noite de estreia de Seven Guitars na Broadway foi muito além de fantástica pra caralho. Foi como se alguém me desse uma grande injeção de adrenalina e da droga mais feliz do mundo. Há flores no camarim. Você ganha presentes. E então entra em cena! Nunca vou muito bem na noite de estreia na Broadway. Estou sempre nervosa demais. Mas não importa. Quando a peça estreia, os críticos já assistiram. E todas as críticas saem depois da noite de estreia.
Eu me lembro de estar muito nervosa devido à ansiedade por tudo que aquilo envolvia. Esperar pelas críticas e pela forma como a peça será recebida gera essa sensação. Principalmente quando você trabalhou no espetáculo por um ano, desenvolvendo-o, fazendo cortes, substituindo atores… etc. Seven Guitars era exatamente isso, sete personagens em harmonia. Vera chega ao seu monólogo final. Ela fala sobre uma visão que teve depois de enterrar Floyd “Schoolboy” Barton, o amor de sua vida: “(…) Tentei chamar o nome de Floyd, mas nada saía da minha boca. Parecia que ele havia começado a andar mais rápido. A única coisa que posso fazer aqui é dizer adeus. Acenei para ele e ele subiu aos céus.”
Um texto chocante e que eu sabia que afetaria meus pais, que acreditavam em mitos, espíritos e rituais. Era uma peça em que não apenas poderiam ver meu trabalho, mas que tinha uma escrita que era sobre ELES. Ao fim da noite de estreia de Seven Guitars na Broadway, quando estávamos todos no palco e as luzes se acenderam, câmeras de televisão focadas no meu rosto, todos usando smokings e vestidos de gala de pé gritando e aplaudindo estrondosamente, vi MaMama e papai. Meu pai estava chorando, aplaudindo, olhando para todo mundo, e eu sabia que seu coração batia forte no peito. Ele estava lindo, com um smoking preto; sempre conseguia se arrumar bem. Minha mãe batia palmas descontroladamente. Eu os hospedara em um hotel em frente ao teatro, e eles estavam muito felizes. Era um Best Western, mas para eles era como o Four Seasons. Ter minha família e amigos lá foi tudo com que eu sonhara.
A festa aconteceu no grande salão de festas no Marriott Marquis. Halle Berry, Laurence Fishburne e outros atores maravilhosos que sempre admirei estavam lá.
Todo mundo vai à Broadway. Havia um interfone em cada camarim. Após cada apresentação, o gerente de palco lá embaixo dizia pelo interfone: “Vanessa Redgrave está aqui para ver o elenco de Seven Guitars. Denzel e Pauletta Washington estão aqui para ver o elenco. Barbra Streisand está aqui para ver Viola Davis, Rosalyn Coleman, Ruben Santiago-Hudson, Michelle Shay, Tommy Hollis e Keith David.” Todo mundo vai se encontrar com você. Literalmente. Perdi a conta de com quantas pessoas falei — produtores, diretores, agentes — enquanto atuei em Seven Guitars.
Mas antes da noite de estreia, temos que botar a mão na massa. A recompensa do trabalho vem depois. Lloyd Richards era muito bom em organizar tudo, em transformar os atores numa companhia. Ele não se importava com quem tinha o nome anunciado na fachada, com quem era o ator principal; a atuação enquanto um negócio não lhe interessava. Ele acreditava que levava muito tempo para um elenco se tornar uma companhia de atores sincronizados. Somente no último ensaio em Nova York, quando nos reuniu no palco, foi que falou sobre sua experiência e como era incrível trabalhar conosco. Ele enfim nos olhou intensamente e disse, após uma longa pausa: “Agora vocês são uma companhia!” Lloyd representava os últimos vestígios da mentalidade vanguardista. Uma mentalidade que de fato se tornou rara.
Tudo foi merecido. Seven Guitars foi uma etapa significativa do meu crescimento como atriz. Fez diferença para então tomar a decisão de me tornar atriz, depois trabalhar para ser a melhor profissional possível, e enfim pôr à prova tudo o que eu aprendera. Também me ensinou muito sobre a vida. Não há palavras para descrever “a porta do palco”. É a porta do teatro por onde o ator sai depois da performance. Geralmente, as pessoas da plateia esperam ali para falar com você. Isso não acontece quando você faz televisão ou cinema.
Muitas vezes só encontramos os fãs ou críticos quando vamos ao supermercado ou ao shopping. No teatro, você fica cara a cara com eles toda noite. Aprendi sobre a generosidade de outros atores, o comprometimento e o apoio da comunidade. E também já conheci o outro lado. A crueldade e a inveja sem limites em um ramo de muita corrupção. A inveja é a mais cruel das emoções. E o que a torna tão cruel é a falta de domínio.
Apesar do lado bom e do ruim, fui indicada para os prêmios Tony. Eu assistia à premiação todo ano. Corria para a escola no dia seguinte e perguntava a todo mundo: “Você assistiu à cerimônia do Tony ontem à noite?” Mas quase sempre ficava sozinha nessa; geralmente só eu e meu amigo do ensino médio, Angelo, é que víamos. Bem, lá estava eu recebendo uma indicação para um Tony. Fiquei sabendo ao conferir a caixa postal do meu telefone. Isso foi na época em que precisávamos pagar para ouvir nossas mensagens. Custava uns seis ou dez dólares por mês. Podíamos ligar de qualquer número a qualquer hora e ouvir nossas mensagens. Na manhã das indicações do Tony, fui a Rhode Island relaxar. Mais tarde, chequei minhas mensagens e havia uma do meu agente, Mark Schlegel, pedindo que eu ligasse de volta. Quando liguei, ele disse:
Viola. Você foi indicada ao Tony!
Eu vibrei. Estava em um telefone público. Vibrei! Peguei um ônibus até a casa dos meus pais e entrei gritando:
FUI INDICADA PARA O TONY!
Meus pais e minhas sobrinhas começaram a gritar:
Uhuuu, tia!
Eles não sabiam o que aquilo significava, mas estavam felizes por mim. Pularam ao meu redor. Em um mundo e em um ramo em que as amizades se transformam, mudam, em que confiança, amor e lealdade são efêmeros, essa lembrança se destaca como uma pérola.
Mark, meu agente, me disse:
Viola, você tem pais incríveis.
Essa afirmação me chocou.
Tenho?
Tem, sim — confirmou ele. — Eles são incríveis.
Perguntei por que ele estava dizendo isso.
Estou neste ramo há algum tempo e já vi muitos pais de atores. Eles acabam se importando mais com eles mesmos do que com os filhos. Seus pais não são assim nem de longe. Eles só querem te ver voar. Estão felizes por você.
Foi uma semente plantada que me fez olhar para os meus pais sob uma luz totalmente diferente. Essa observação me acordou.
[…]

Viola Davis, in Em Busca de Mim

15/02/2026

Capítulo 15 – O Despertar





Garota, acorde! Garota, volte para a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça. Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você sabe quem eu sou?
SARAH JAKES ROBERTS

Todo mundo tem segredos. Todo mundo. Acho que a diferença é que ou morremos com eles e deixamos que nos devorem, ou os colocamos para fora, lutamos com eles (ou eles lutam conosco) até que… nos reconciliamos. Segredos são o que nos engole.
Sempre houve um segredo que era como o prego no caixão para mim… É uma memória que está fresca na minha mente, como se tivesse acontecido ontem, mas mesmo assim… está bem distante.
Duas semanas antes da formatura, acordei enjoada e ali eu já soube. Estava grávida do homem que namorava havia sete anos. Eu me lembro de tirar minhas fotos profissionais naquela semana e de ir assistir ao filme A Bela e a Fera no cinema e tudo o que pensava era: Estou grávida. Não sabia que diabos fazer a respeito daquilo. Era uma emoção muito mais forte que o medo. Foi como se todas as decisões irresponsáveis que tomei tivessem culminado naquilo. Desde que tinha iniciado minha vida sexual, o que aconteceu tarde, não sabia o que estava fazendo. Sim, você pode aprender a prevenir uma gravidez, mas… e a amar? Como ser regrada e responsável, estar no controle, estabelecer limites? Meu Deus, até mesmo garantir que teremos dinheiro para comprar camisinha ou pílula anticoncepcional? Sentia que o único compromisso inegociável que eu tinha era com a minha carreira, e ela sugava TODA a minha energia. Os demais aspectos da minha vida me sufocavam. E agora… estava grávida.
Lembro-me de ir a uma clínica perto da Juilliard. Fui bem cedinho e tive que cancelar a primeira consulta porque tinha comido. Voltei no dia seguinte. Lembro-me de entrar em várias salas. Uma para me cadastrar e pagar. Uma para fazer outro teste de gravidez. Outra para vestir a roupa cirúrgica. Cada sala parecia uma cena saída de um filme de Stanley Kubrick na qual você está muito perto da morte. Houve alguns médicos muito gentis que me colocaram na mesa cirúrgica, e então eu apaguei.
Acordei aterrorizada. Acordei como se tivesse sido atacada. A dor era enorme! Maior do que qualquer dor que já tinha sentido na vida. Eles tinham me avisado que eu poderia sentir dor, mas, cara… Existe “o que é dito”, “o que você ouviu” e como é de verdade, e aquela dor NÃO ERA o que pensei que seria. A sala de recuperação tinha um monte de poltronas reclináveis posicionadas em círculo. Havia almofadas enormes em cada poltrona para conter o sangramento da cirurgia. Cada uma delas era ocupada por uma mulher e havia pelo menos umas 12 dessas poltronas. Eles nos deram suco de maçã e biscoitos. Ao meu redor, mulheres vomitavam em baldes e gritavam ou gemiam de dor. Uma mulher gritava: “Eu não podia ficar com esse! Eu não podia! Já tenho cinco e não tenho dinheiro nenhum!” Outra garota, que parecia ter uns 15 anos, gritava: “MAMÃE!!!! MAMÃE!! Eu quero minha MAMÃE!!!” E quanto a mim? Eu só chorei… e vomitei… e chorei até que a dor passasse. Fui para casa e sangrei muito por duas semanas. Caí em uma depressão que mudou a minha vida.
Minha nossa, lembro-me de ligar para o meu namorado, gritando com ele: “Onde você está? Por que não está aqui?” Para ele, o que eu tinha feito fora errado, e mesmo assim a chance de que ele não desse apoio para o bebê ou para mim era enorme. Não havia recursos financeiros ou emocionais — nada. Mais uma vez, tive que contar com um milagre para passar por obstáculos imensos e impactantes. A vida sempre pediu que eu contasse com milagres. Meu namorado enfim foi para Nova York ficar comigo por um dia, e depois foi embora. Foi um lembrete perfeito de que, por mais que eu tivesse pensado que havia evoluído e me tornado uma mulher madura, ainda não tinha chegado lá. Não havia como escapar dos acidentes terríveis da vida que podem fazer você paralisar por completo.
Os grandes coágulos de sangue me lembravam o tempo todo de que eu acabara com uma vida, e eu definitivamente, sem dúvidas, sabia que era uma vida… que eu trocara pela minha. Tente lidar com o peso dessa merda!!!
Minha mãe teve o primeiro filho aos 15 anos, e eu queria que minha vida fosse diferente. Aquele bebê não se encaixava nos meus sonhos. E quem eu era sem eles? Quanto maior o sonho, mais rapidamente a vergonha daquela pequena Viola do terceiro ano desapareceria. Quanto maior o sonho, mais pessoas não me chamariam daqueles nomes dos quais eu fugia. Quanto maior o sonho… mais digna eu poderia ser.
Eu me sentia quase desesperada para explicar isso a Deus e receber seu perdão… para ser expurgada.
Tenho um amigo judeu ortodoxo moderno. Ele me contou que um de seus rabinos disse o seguinte: “É inútil procurar um sentido. Em vez disso, pergunte-se: O que aprendi com isso?”
O que aprendi com tudo isso? É impossível passar pela vida livre de cicatrizes. Impossível!! É como um ringue de boxe emocional, e você passa por um round, quatro rounds ou quarenta rounds, dependendo do seu oponente. E, caramba, se seu oponente for você mesmo… você passará por quarenta. Se for Deus, mal passará por um, porque Papai do Céu vai vencer você pelo cansaço! Ele muda de forma. Você acha que está lutando com ele, gritando, dando socos, implorando por ajuda. E então ele o deixa frente a frente com… VOCÊ mesmo.
Anton Tchekhov, o grande dramaturgo russo, disse uma vez: “Enquanto você ri histericamente, sua vida está desmoronando.” É a definição do que é viver.
Meu jantar de formatura, quando terminei o curso na Juilliard, foi alegre e animado. Cedric, um dos meus melhores amigos, que se formou também, se sentou comigo no chão do quarto dele e comemos pés de porco em conserva bebendo cerveja. Chupamos até a cartilagem, os ossos de porco ricos e gordurosos cheios de vinagre. Em voz alta, proclamamos aos risos que nunca contaríamos a ninguém sobre esse jantar. Tínhamos acabado! Vencido uma guerra artística, emocional e esmagadora de egos e almas.
Eu me formei na Juilliard. E vou dizer o seguinte. Eu fora uma criança pobre e agora era uma adulta pobre. Tinha um agente figurão e… nada aconteceu. Fazia testes, recebia ligações, e então outra pessoa conseguia o trabalho. Ou eu sequer chegava a fazer testes, porque era jovem demais, velha demais, retinta demais, pouco sexy. Enquanto isso, a vida continuava. Tinha aluguel para pagar. Conta de telefone, passagem de metrô, comida, empréstimos estudantis. Toda a dura realidade sobre a qual não havia pensado. Bem, eu havia, sim, mas não entendia o peso disso tudo. A essa altura, dividia um apartamento com seis outros estudantes da Juilliard, e eles também estavam penando. Por fim, um conseguiu muitos comerciais e uma novela. Outro foi chamado para um trabalho importante fora da faculdade, mas, quando acabou voltou a fazer testes. Um saiu de Nova York, e o outro ainda estava na faculdade.
Tive dois grandes momentos de epifania. O primeiro foi que estávamos vivendo a realidade dos artistas. A mentalidade dominante nas redes sociais é a de que você precisa ser uma mulher segura e empoderada. Tem que ligar para o seu agente e dizer a ELE quais papéis você quer ou, diabos, escrevê-los para si mesma. Imploro a jovens atores que não façam isso.
Os atores privilegiados são aqueles que falam e são ouvidos. Eles são entrevistados porque chegaram ao topo da carreira e seus depoimentos são o tempo todo compartilhados nas redes sociais. Nós os consumimos e, sem ter a possibilidade de observar a realidade do ramo da atuação, aceitamos essas informações como verdadeiras. Se você chegar ao auge quando jovem e receber um salário de seis dígitos: Você. É. Privilegiado. Isso não é uma crítica. Meu Deus, todo mundo adoraria viver essa rea­lidade. Mas a batalha é definida pela falta de escolhas, e o ator que faz o comercial de uma seguradora de carros para ter um plano de saúde tem tanta integridade quanto alguém que não aceita esse trabalho para esperar pelo papel que lhe trará um Oscar.
Uma atriz já me ligou eufórica porque o comercial dela foi selecionado e ela se qualificou para ter um plano de saúde básico para si e para toda a família. Ela tem dois filhos, um com problemas de saúde. A vida acontece enquanto sua carreira acontece. A vida é difícil. Percebi que minha felicidade não está atrelada apenas à satisfação artística, mas à satisfação com a vida. Eu devia 56 mil dólares em empréstimo estudantil. Meus miomas estavam crescendo. Eu sangrava por semanas a fio. Estava muito anêmica. Tive alopecia areata. Acordei e o cabelo do lado direito da minha cabeça tinha caído. Meu couro cabeludo estava liso como bumbum de bebê. A reação imediata seria ir ao médico. E eu teria ido, se tivesse plano de saúde. Eu ia a clínicas baratas, mas miomas, anemia e alopecia requeriam cuidado especializado. Tratamento com ginecologistas e dermatologistas. Levaria anos para eu ter dinheiro para pagar um plano de saúde.
Meu outro momento de epifania foi perceber o poder, a potência e a força vital provenientes da combinação tóxica entre colorismo e machismo. Quase todos os papéis para os quais fiz teste eram de mães que sofrem com dependência química. Fiz testes para alguns papéis em produções de baixo orçamento que pediam uma mulher negra, mas sempre descrita como tendo pele clara. Sempre! Outros testes eram para novelas; e eu me via sentada na sala de espera junto com modelos.
Comédias românticas negras estavam sendo produzidas. Havia programas incríveis na TV que mostravam a garota negra bonita que tinha autonomia e era rica. Mas nenhuma daquelas mulheres se parecia comigo. Um agente me disse qual era a palavra que todos os produtores de elenco usavam no telefone: “intercambiável”. Isso significava que, mesmo que você fosse um pouquinho retinta, precisava ter o corpo menos curvilíneo, traços mais clássicos (leia-se: mais brancos). E eu não era assim.
O que torna isso ainda pior é que esse tipo de declaração não era feito apenas por executivos brancos, mas também por artistas e produtores negros. Você começa a adotar a ideologia do “opressor”. Isso vira a chave para o sucesso. Culturalmente falando, muitos acreditam nessa ideologia e adotam a crença de que se você for negra, é mais feia, mais difícil, mais masculina e mais maternal do que suas colegas de pele clara. É a mentalidade racista do colorismo, a qual muitos ainda se recusam a reconhecer.
Na minha jornada para encontrar meu caminho, o melhor papel não era o maior objetivo. Ser garçonete para pagar as contas até que aquele papel incrível surgisse não era o objetivo. Eu precisava viver: esse era o objetivo. Isso foi antes dos serviços de streaming. Os estúdios não estavam produzindo grandes papéis para atores negros, pelo menos não para atores com o meu tom de pele. As probabilidades eram: um papel incrível, ou um bom cachê, ou um bom perfil, ou apenas um trabalho. Você não ganha destaque se não trabalhar.
Eis a verdade: se você pode escolher entre fazer um teste para um excelente papel e para um ruim, você é privilegiado. Isso significa não só que você tem um ótimo agente que pode lhe abrir portas, mas também que preenche os requisitos para ser considerado para o papel. Nossa profissão, a qualquer momento, tem uma taxa de 95% de desemprego. Apenas 1% dos atores ganha 50 mil dólares ou mais por ano, e apenas quatro em cada 10 mil são famosos, e nem vamos definir o que é fama aqui. Esses quatro entre os 10 mil são as histórias que chegam à mídia. Escolher papéis, largar agentes, ganhar bem menos do que colegas do sexo masculino. Nunca se arrepender dos papéis que aceitou. E por aí vai.
Quem tem escolhas tem recursos. E as necessidades de um ator de pouco mais de 20 anos não são as necessidades das outras pessoas. Plano de saúde, hipoteca e filhos não são a prioridade da maioria dos jovens de pouco mais de 20 anos. Mesmo assim, há pessoas que almejam ser atores e não sabem que não devem dar ouvidos aos depoimentos dos privilegiados. Daqueles que são extremamente talentosos, mas também extraordinariamente sortudos. A sorte é um monstro esquivo, que escolhe quando sair de sua caverna e atacar seu alvo. É um negócio de privação.
Para cada ator que alcança a fama, existem milhares que fizeram exatamente a mesma coisa e não conseguiram chegar lá. A maioria dos atores que conheci na Juilliard, na Rhode Island College, no Circle in the Square Theatre e na competição Arts Recognition Talent Search não está mais no ramo. Acho que posso citar seis que continuaram, e a maioria você não conheceria. Isso não tem a ver com o talento deles, é a natureza desse meio. Acredite em mim quando digo que a maioria era bonita e talentosa, e alguns tinham agentes incríveis. É um jogo de uni-duni-tê que envolve sorte, networking, destino, tempo de carreira e, às vezes, talento.
Você faz testes de acordo com o nível em que está. É difícil perceber em que momento sua jornada para o topo foi mais fácil, mas a verdade é que não há facilidade. Mesmo que você faça o que a pessoa sortuda fez, há 99% de chance de as coisas não darem certo para você. Apenas mais ou menos 4% dos atores filiados ao sindicato Screen Actors Guild and American Federation of Television and Radio Artists (SAG-AFTRA) ganham o suficiente para ter direito a um plano de saúde, e isso significa que precisam ganhar pelo menos 20 mil dólares por ano. Essa é a nossa realidade.Em nossa sociedade, há o pensamento muito difundido de não aceitar nada que esteja “abaixo” de você. Essa mentalidade é algo difícil de se manter nesse ramo. Aqui está uma pergunta melhor: você quer ser ator ou quer ser um ator famoso? Se quer ser famoso, como o grande Alan Arkin disse, terá dificuldades. Se quiser ser ator, dará um jeito. Tome cuidado com atores que dizem que vivem recusando trabalhos e nunca escolheram fazer uma temporada de teatro recebendo apenas 250 dólares por semana para se sentirem realizados. A fama é inebriante.
Aos 28 anos eu estava acordando para a realidade. Estava me conscientizando do que significava ser uma mulher adulta, cuidando de mim mesma, mas também explorando como era me sentir realizada no meu ofício. Eram coisas completamente opostas. Eu também era uma grande farsa em alguns aspectos. Por um lado, estava paralisada. Tinha muito medo de procurar pela cidade e acabar encontrando um trabalho “só para pagar as contas”. Tivera tantos trabalhos assim no passado, e a ideia de ter que equilibrar isso com os testes estava pesando demais. Além disso, como eu fazia testes para teatro, cinema e TV, precisava de espaço para ensaiar. Passei anos me preparando no ônibus, no metrô e em pórticos de entrada de prédios. Eu precisava de espaço apenas para me concentrar no trabalho. Naquele primeiro ano, tudo era difícil e claustrofóbico. Tive momentos não de fome propriamente dita, mas de dificuldades. Era a realidade de ser uma atriz profissional.
Meu aluguel custava apenas 250 dólares, e às vezes era difícil conseguir até mesmo esse dinheiro. Mas eu queria ser excelente no que fazia, apesar de não saber como pagaria as contas. E por falar nelas, eu usava muito o telefone, gastava centenas de dólares e tinha contas altíssimas. Isso foi antes do celular, quando era necessário pagar por ligações de longa distância. Comia asinhas de frango todos os dias. Três xícaras de arroz branco no restaurante chinês custavam um dólar e vinte centavos. Metade disso custava sessenta centavos. As asinhas de frango custavam três dólares, e eu as comprava quando podia. Do contrário, minha proteína era arenque seco, salgado e defumado, que eu comprava nos mercados espanhóis. Dormia em um futon no chão do quarto que dividia com minha amiga Pilar. Toda a minha vida tinha sido de dificuldade e sobrevivência. Eu me sustentava desde os 17 anos. O fato de ser difícil, uma merda, não era novidade, mas o maior problema era conseguir manter a esperança e continuar acreditando em mim. Depois, encontrar uma comunidade artística que me apoiasse, enquanto eu lutava com todas as forças para sobreviver. Atuar era uma escolha, talvez uma escolha masoquista.
Meu primeiro trabalho quando saí da faculdade foi como atriz substituta de Danitra Vance, que interpretava a personagem Marisol em uma peça de José Rivera no Public Theater, fundado por Joseph Papp. Danitra foi a primeira mulher negra no Saturday Night Live e criou uma esquete famosa chamada “That Black Girl”. Era uma paródia do programa de Marlo Thomas nos anos 1970, That Girl. Danitra era extraordinária. Ela escrevia, cantava, atuava. Quando cheguei para ser sua substituta, ela tratava um câncer de mama em metástase.
Danitra ia à quimioterapia durante o dia e à noite fazia o espetáculo. Os tumores haviam se espalhado para a coluna. Eu não sabia disso até conversarmos um dia no camarim, e ela tirou a blusa. Foi a primeira vez que vi uma cicatriz de mastectomia.
Eu ganhava 250 dólares por semana e adorava. Nunca atuei ao longo das quatro ou cinco semanas em que trabalhei, mas tive uma conexão com Danitra. Lembro-me de ajudá-la a se mudar e de ouvir suas histórias. Eu adorava ouvir histórias. Quando soube que ela estava morrendo, liguei para ela e sua voz estava muito fraca.
Como você está? — perguntou ela.
Estou bem — respondi.
Eu ia reclamar sobre conseguir papéis e manter um fluxo de trabalho estável, mas tudo parecia irrelevante naquele momento.
Como você está? — perguntei.
Com raiva.
Silêncio.
Do que você está com raiva, Danitra? Eu só queria que ela falasse. A voz dela estava muito fraca e rouca. O câncer havia se espalhado e não havia nada que os médicos pudessem fazer. Ela estava morrendo.
Estou com raiva disso. Estou com raiva de estar morrendo.
Danitra, eu sinto muito.
Eu sei. Eu te amo. Estou cansada. Preciso desligar.
Um amigo em comum, Tommy Hollis, me contou uma história sobre Danitra. Ele disse que assistiu a uma performance dela chamada “The Feminist Stripper”. Elasubia no palco e começava a se despir. Havia música tocando, e ela fazia piadas enquanto tirava a roupa. Todo mundo rolava no chão de tanto rir e a aplaudia. Ela chegava às roupas de baixo e ficava de costas para a plateia, provocante, antes de tirar o sutiã. Então se virava e revelava a cicatriz da mastectomia; um grande X feito de fita a cobria. A reação era de silêncio coletivo, uma quietude implacável no ambiente. Todos foram forçados a encarar a mulher que estava naquele corpo, e não apenas o corpo em si. Tommy contou que seu coração quis sair pela boca e que nunca esqueceria aquela experiência.Ela morreu mais ou menos dois meses depois. Suas últimas palavras foram: “Vão pra rua festejar.”
[...]

Viola Davis, in Em busca de mim

26/12/2025

Capítulo 14 — Me tornando eu



Eu não vim aqui por comida. Minha barriga está cheia. Eu não vim aqui por comida. Vim por muito mais.
CANÇÃO RITUALÍSTICA MANDINGA

[…]

A abordagem acadêmica que tínhamos na Juilliard não se conectava ao trabalho da nossa vida. A ela faltava a verdadeira potência do talento artístico, aquilo que muda a humanidade. A arte tem o poder de curar a alma.
Eu precisava de cura. Antes de viajar para a África, tinha descoberto que meu relacionamento não era o que eu pensava. Aquele tempo todo David tivera outros relacionamentos. Eu estava arrasada. Minha irmã Anita me consolou, totalmente confusa com a minha frustração.
Bem, o que fez você pensar que estava em um relacionamento monogâmico?
Porque estávamos, Anita! Eu morava no apartamento dele.
Silêncio.
Morava com ele ou só ficava lá nos fins de semana, quando não tinha aula?
Anita!! Já faz anos que estou com ele — disse eu, ainda chorando.
Viola! Se não houve conversa sobre exclusividade no relacionamento, então não era exclusivo. Sinto muito. Você só pensou que era porque… Espera aí, você o ama?
Anita era bem pragmática. Amável e lógica. A sinceridade dela me fez voltar para a realidade — e doeu pra caralho.
É óbvio que eu o amo, Anita.
Como você sabe? Viola, quantos namorados você já teve? Você não sabe o que é amor.
Queria ter tido aquela conversa antes de começar a namorar. Não sabia que o amor, na verdade, tinha que servir às duas pessoas envolvidas, estabelecer limites e comunicação. Achei que tudo isso acontecesse naturalmente na relação.
Na África, aos 25 anos, senti minha vida ao mesmo tempo começando e terminando. Eu estava em um momento intermediário. A África era um elixir. Comíamos arroz jollof todos os dias fora do hotel e nos ­compounds. O prato era feito de arroz, peixe branco, batata-doce branca cozida no chão, com um molho vermelho picante sobre o peixe. Custava cinco dalais, o que equivalia a cinquenta centavos de dólar. Levávamos nossa própria tigela e eles a enchiam por cinquenta centavos, não importava quão grande fosse. Minha avidez da infância não passara. Nunca me sentia totalmente saciada, então pegava a maior tigela que encontrava. Mulheres armavam uma loja improvisada do lado de fora do hotel. Em geral, comíamos com as mãos. Quase nunca havia talheres. Espremíamos o óleo de palma da comida com a mão direita e a colocávamos na boca. A mão esquerda era usada para… bem… se limpar depois de ir ao banheiro. Isso não dava muito certo para mim.
Fomos a uma luta africana que mais parecia uma peça de teatro. Os participantes marchavam por um campo com tamboreiros logo atrás deles, e a plateia jogava moedas. Depois de fazer isso por algum tempo, eles lutavam. Os uólofes tinham uma dança chamada “dança da tartaruga”, que era equivalente ao twerk. As mulheres se agachavam com o traseiro na direção dos homens e rebolavam, balançavam e se moviam bem rápido, acompanhadas não apenas por tambores, mas por balafons, que eram precursores dos xilofones, e corás, semelhantes a violões.
Tambores feitos de couro de cabra e batiques eram verdadeiras obras de arte. Esculturas eram esculpidas em mogno e geralmente eram presenteadas como oferenda às divindades tradicionais.
A África era como o parquinho de Deus.
Descobri que a mulher que viajara conosco e parecia estar sofrendo, realmente estava mal. Ela tinha perdido a irmã e a mãe em um intervalo de semanas. Não conseguia sair do luto. Estava consumida pela dor. Ela foi à África em busca de conforto, respostas. Assim como todos nós. A enfermeira tímida tentava sair de sua zona de conforto. Era tão tímida que se sentava nos fundos quando íamos ao compound. Eu nunca a notava lá, de tão discreta que era. Às vezes, ela chorava quando pediam que dançasse, mesmo no nosso círculo de reza matinal.
Mas era inegável o encantamento sobrenatural que estava acontecendo em Banjul,Bakau e Serekunda, na Gâmbia, no oeste da África. Era inegável a transformação que estava em andamento. De repente, a ansiedade que sempre existiu no fundo do meu estômago desapareceu por completo. Eu me sentia quase inebriada. Minha pele ficou viva.
Um dia, um grupo de garotas trançou meu cabelo. Enquanto o faziam, elas riam, davam risadinhas. Não deviam ter mais que 15 anos, e eram nove delas. Estavam muito interessadas em saber mais sobre minha irmã Danielle e nosso relacionamento. Não queriam saber da Juilliard, de Nova York, de ser atriz. Não queriam saber sobre o que eu queria me tornar. Queriam saber sobre mim. Apenas sobre mim. Elas davam gritinhos, riam, batiam palmas quando eu contava o detalhe mais irrelevante a meu respeito, como o dia em que Danielle nasceu.
Um dia, fomos ao compound mandinga e um grupo de mulheres apareceu com a maquiagem mais engraçada de todas, usando roupas e sapatos grandes demais para elas e carregando tambores djembê. Chuck explicou que eram comediantes. Fiquei fascinada. Elas riam, faziam caretas e tocavam tambores muito alto, mas mal. Quando tinham a atenção de todos, elas falavam alto, gritavam, ficavam animadas e soltavam risadas exageradas. As pessoas foram se reunindo ao redor delas até que houvesse uma multidão de mulheres se abraçando, aplaudindo, rindo e soltando a voz para cantar: “Eu não vim aqui por comida. Minha barriga está cheia. Eu não vim aqui por comida. Vim por muito mais!”
Então começavam a passar uma cabaça com mingau dentro. Tinha gosto de mingau de pasta de amendoim. Todo mundo remexia o conteúdo, comia um pouco e passava adiante. Essas “comediantes” eram, na verdade, mulheres inférteis.
Na Gâmbia, ter filhos é a maior das bênçãos. Quando alguém é infértil, a crença é que Deus não ouviu o mais profundo desejo dessa pessoa e passou direto por ela. A intenção era fazer o maior barulho possível para que Deus pudesse ouvi-las lá do Céu e enviasse bênçãos. O barulho parou e olhei ao redor, para o rosto de mulheres sorrindo, gargalhando, gritando em desespero maníaco. Estavam tentando acordar Deus.
Eu chorei. Apesar dos papéis que costumo interpretar, não sou de chorar. Mas ali eu chorei. Chorei de novo quando vi uma mulher que parecia a minha mãe dançando na chuva, no casamento da filha. Ela fazia a dança lenjeng e parecia voar. Chorei quando muitas das pessoas que conhecemos nos compounds foram ao hotel para que nos apresentássemos para elas. Recebíamos comida. Elas davam gritos de alegria, riam, choravam diante de tudo o que apresentávamos, por mais que não falassem inglês. Interpretei Topsy de The Colored Museum, de George C. Wolfe. É uma personagem que se imagina em uma festa com Martin Luther King Jr.; Nat Turner bebendo champanhe do sapatinho de Eartha Kitt, Malcolm X tendo uma conversa existencialista. Então, a festa fica tão cheia que o piso começa a tremer, as paredes a se mover, e a sala inteira se ergue do chão e sai rolando e rolando até que desaparece, dentro da cabeça dela.
Sim, menino! Isso mesmo. Tem uma festa acontecendo bem aqui, porque estou dançando ao som da música que nasce da minha loucura. É por isso que, toda vez que ando pela rua, meus quadris balançam de um lado para o outro, porque estou dançando ao som da MINHA loucura! E todo esse tempo achei que tínhamos desistido de nossos tambores. Mas eles ainda estão aqui. Eles estão aqui. No meu jeito de andar, no meu vestido, no meu estilo, no meu sorriso e nos meus olhos. Estão dentro de mim, me conectando a tudo e a todos que já existiram. Então… querido, não tente me rotular ou me definir, porque não sou quem eu era há dez anos ou há dez minutos. Sou tudo isso e mais. E por mais que eu não possa viver na dor de ontem, não posso viver sem ela.”
Eles foram à loucura!!!! Eu havia perdido cada partícula de potência e crença no meu trabalho desde que entrara na Juilliard. Na Gâmbia, em meio ao meu povo, eu a reencontrei. Encontrei a festa dentro de mim. A celebração que precisa acontecer para combater a dor e o trauma da memória. Descobri que não há como criar sem usar a nossa essência.
Por dois anos, tinha pensado que a regra fosse se apagar e se negar. Era o que eu estava fazendo. Perder a voz, o discurso, o jeito de andar, o rosto… perder a negritude. Perder e enterrar a essência do que faz você ser quem é e criar algo sem alegria, mas cheio de técnica.
Depois daquele rugido estrondoso da plateia, Chuck acalmou a todos e nos chamou para formar um círculo de reza. Fizemos uma oração em agradecimento. Agradecemos a eles pela hospitalidade, pela sabedoria. Agradecemos pelo amor e dissemos que nunca os esqueceríamos. Eles choraram, gritaram e começaram achoramingar. Então, começaram a dançar e a pegar os tambores, ali mesmo no hotel. Era, ironicamente, a festa sobre a qual falei em meu monólogo. Estávamos todos pingando de suor. De repente, vi a expressão de Kris World mudar. Ela gritou: “Viola, olha!” A multidão se abriu e nos fundos da sala estava a enfermeira tímida! Eu nem sabia que ela estava ali. Ela veio entrando no círculo, dançando!!! Fazia a dança que aprendemos com os diolas, e perfeitamente!! Estava quase em transe e continuou dançando até estar na frente de Chuck Davis. Ele a encarava, e ela dançou e dançou até que suor e lágrimas rolassem pelo seu rosto.
Fui embora da África seis quilos mais magra, quatro tons mais retinta e tão mudada que eu não poderia voltar a ser o que era.
Sentia-me sempre tão deslocada na Juilliard porque não estava à vontade dentro de mim. Lutava contra uma ideologia sobre o que era um ator, tudo vinha das profundezas da supremacia branca. O conceito dos “clássicos” sendo a base de tudo. A questão é que eu estava na terra dos clássicos. Na África, existe o equivalente de cada instrumento “clássico” conhecido pela humanidade, e são mais antigos do que qualquer instrumento europeu. Havia uma proficiência “técnica” conectada aos tambores, à dança, à música, à contação de histórias. Por que interpretar personagens negros é “limitante”, enquanto atores brancos são “versáteis” ao interpretarem personagens brancos? Por que tenho que ser pequena, magra e mais clara do que uma sacola de papel pardo para ser considerada atraente? Estou interpretando uma personagem. Não é pornografia. Fui alimentada com mentiras por dois anos, e a pior parte é que acreditei nelas porque não conseguia combatê-las.
A África exorcizou esses demônios.
Quando voltei, ninguém me reconhecia. Apresentei meu espetáculo solo no meu terceiro ano com tudo o que aprendi na Gâmbia. Eu podia fazer o que quisesse e queria usar a mim mesma. Foi uma verdadeira catarse. Não carregava mais o peso do discurso, da voz e de tudo que me ensinaram e que estava me sufocando. Eu me guiava pela frase: “Pare de fazer amor com o que está te matando.”
Um ano depois, Mark Schlegel trabalhava em uma agência bastante conceituada na época, a J. Michael Bloom. Todos queriam fazer parte dela. Eles representavam os maiores nomes: Tom Hanks, Alec Baldwin, Wesley Snipes, Ethan Hawke, Sigourney Weaver, Kathleen Turner e Macaulay Culkin. Tinham todo mundo. Também era a agência do momento, provavelmente o equivalente à William Morris, CAA e UTA nos dias de hoje. Mark foi assistir a The Journey of the Fifth Horse quando interpretei uma mulher russa mais velha. Era parte fantasia, parte realismo. Eu usava uma maquiagem pesada. Ele me viu naquele papel e deixou uma mensagem no escritório da Juilliard, dizendo que queria marcar uma reunião comigo.
Eu me encontrei com ele. Mark disse que adorou meu trabalho, que via algo em mim.
Viola, você se destacou. Seu talento e seu poder se destacaram. Queria me encontrar com você.
Nosso encontro foi de sinergia, destino, um momento perfeito. Às vezes, a atmosfera dos encontros entre atores e agentes é algo na linha O que você pode fazer por mim? Você é um agente importante. Consiga audições para eu trabalhar. Me faça ganhar muito dinheiro. Mas ali estava alguém que tinha me visto de verdade, que tinha visto meu talento, minhas possibilidades. Ele me apresentou aos seus colegas da agência e disse:
Queremos fechar um contrato com você.
Tudo bem, vamos lá.
Fora para isso que eu havia entrado na Juilliard. Eles me contrataram antes mesmo que eu me formasse. Quando cheguei às audições no fim do quarto ano, já não tinha mais que me preocupar em encontrar um agente. Amigos da faculdade me disseram: “Você devia ter esperado até depois de ter feito suas cenas, assim provavelmente teria mais opções.”
Eu só precisava de um agente. A relação entre agente e ator é como um casamento. O agente tem que “entender” você. Eu era retinta, não vestia 36, não era considerada “bonita”. Depois de todas as dificuldades e tribulações passadas na Juilliard por esses motivos, pensei que seria justo ter um agente que me “enxergava”. Aquele agente seria a força motriz da minha carreira, meu defensor. Recebi talvez 22 ligações com propostas depois das minhas cenas — o que era um bom número, embora algumas pessoas tenham recebido sessenta —, mas nunca me arrependi de ter assinado contrato antes de fazê-las.
Existe nas redes sociais uma oposição direta entre a fantasia e a realidade do que é ser um ator. A maioria dos atores não quer ser artista, quer mesmo é ser famosa.
Muitos acreditam que se forem bonitos, jovens, se tiverem um ótimo agente, então voilá! É um mercado bem mais instável do que parece. Não há palavras para descrever o que ocorre quando a sorte encontra o talento. E quanto a mim? Eu só queria trabalhar. Não queria voltar para Rhode Island. Para mim, isso seria o mesmo que a morte.
Finalmente faltavam apenas duas semanas para que eu me formasse na Juilliard. As últimas duas semanas seriam o salto para minha nova vida. Depois de quatro anos honrando meu ofício, era o fim. Toda dor, alegria, sofrimento, todos os triunfos, e de repente… a exatas duas semanas do dia da graduação… acordei enjoada!

Viola Davis, in Em Busca de Mim

20/12/2025

Capítulo 14 — Me tornando eu



Eu não vim aqui por comida. Minha barriga está cheia. Eu não vim aqui por comida. Vim por muito mais.
CANÇÃO RITUALÍSTICA MANDINGA

Meus primeiros dias na Juilliard são um borrão. Em parte porque estava tentando encaixar o começo de uma fase importantíssima da minha vida na rotina que eu levava, e em parte também por causa do apartamento. Na verdade, não entendia bem os imóveis em Nova York. Para mim, todos os apartamentos se pareciam com o de George Jefferson, de Tudo em família.
Antes de aceitar minha vaga na Juilliard, precisei organizar minhas finanças. Tinha o dinheiro da Fundação Rhode Island e economias do meu trabalho diurno como atriz no Providence Performing Arts Center. Meu orçamento estava apertado.
A solução ideal parecia ser sublocar um apartamento barato em Nova York, em um prédio que tivesse o valor do aluguel estabilizado por lei. Susan Lawson, a dona do apartamento que subloquei, era uma diretora vanguardista que mais tarde chefiou o curso de teatro na ­Universidade Columbia. Ela me abordou depois de uma das peças em que estive na Trinity Rep. Contei que tinha sido aceita na Juilliard. Ela ficou impressionada e disse:
Tenho um apartamento para você.
Ai, meu Deus. Olha como Deus age. Ai, meu Deus.
É verdade. Tenho um apartamento para você. É o meu.
Susan é uma mulher elegante. Ela tinha acabado de se tornar diretora artística na Trinity Rep, assumindo o lugar de Adrian Hall. Ela estaria em Providence. Eu estaria em Nova York. Era perfeito!
Ai, meu Deus. Preciso preencher um formulário de inscrição?
Não, se você quiser é seu.
Quanto é o aluguel?
Duzentos e noventa dólares por mês.
Ai, meu Deus. Eu aceito. Aceito, sim. Sem problemas.
Ela provavelmente me perguntou: “Você não quer ver o apartamento primeiro?”, mas eu não tinha tempo para isso e só quis saber:
Como é o apartamento?
Eu adoro. Moro lá há anos. É um apartamento estilo studio.
Ela o fez parecer melhor do que realmente era.
Pensei: É o apartamento dela, e ela adora. Uma diretora do alto escalão. Apartamento dela. No Village.
Sim, vou querer alugar.
Quando cheguei ao prédio na First Avenue, entre a Second e a Third Streets, o que ficou se repetindo na minha mente foram as palavras dela: Ah, eu adoro o apartamento. Subir as escadas me fez sentir em um daqueles comerciais do Booking.com em que alguém está há horas na estrada, perdeu os sapatos, os filhos vomitaram, está cansado... Então a pessoa abre a porta do quarto do hotel e se depara com uma suíte gigantesca e suntuosa com vista para o mar. Era o que eu esperava do apartamento de Susan, o cenário para os meus anos na Juilliard. Minha expectativa era ficar deslumbrada! Minha nossa, quando abri aquela maldita porta, não foi isso que aconteceu. Foi horrível.
O lugar tinha uns quarenta metros quadrados. Havia um fogão pequeno no lado direito e prateleiras de madeira improvisadas. Abaixo delas havia uma pia branca grande e enferrujada. Era uma daquelas pias que geralmente se vê em porões. Ao lado da pia ficava a banheira. Isso mesmo. Bem no meio do apartamento tinha uma banheira com manchas de ferrugem. Pensei: Cadê a privada? Eu a encontrei no que me pareceu ser um closet minúsculo. Era uma daquelas privadas com cordinha para dar descarga. O lugar estava infestado de ratos. Infestado. Eles saíam de buracos no assoalho. À noite, dava para ouvi-los subindo e comendo todos os mantimentos nas prateleiras. Por conta da minha infância, não é surpresa que aquilo tenha me enlouquecido. Eu matava mais de dez ratos por dia. Podia ouvir as ratoeiras estalando. Em seguida, jogava a ratoeira, com rato e tudo, no lixo. De jeito nenhum eu tocaria neles!
Liguei para ela em um fim de semana:
Susan! Tem ratos no seu apartamento!— Não me lembro de a gente ter visto ratos, Viola — disse ela.— Susan, tem ratos aqui. Estou matando uma dúzia por dia. Você precisa me ajudar. Ligue para o senhorio.
Não posso voltar, era o que eu estava pensando.
Nada.
Avisei a Susan:
Só vou ficar até o fim do ano. Ela poderia ter me dado um desconto no aluguel. Como mencionei, o valor do aluguel era controlado por lei. Ela morava ali havia décadas. Anos depois, talvez por volta dos anos 1990, eu estava trabalhando com alguém em São Francisco e contei o caso desse apartamento. No meio da conversa, essa pessoa me disse:
Eu me lembro de Susan Lawson. Ouvi dizer que ela tinha o pior apartamento que alguém já viu na vida. Todos os atores de Nova York sabiam disso.
Em defesa de Susan, a vida em Nova York era assim mesmo. Uma selva de pedra repleta de pessoas apressadas, esforçadas e cheias de sonhos, que trabalhavam duro para se dar bem na vida. Todas aglomeradas em prédios altos, cujos proprietários tinham como único propósito ver quantas pessoas conseguiam enfiar ali. Eu amava a austeridade da cidade. Amo como Nova York é viva. Só não gosto das moradias. Precisava de um lugar que mantivesse essa austeridade da cidade do lado de fora.
Na época, a área não era muito melhor que o apartamento. O trem da linha F quase nunca funcionava. Quando saía dele, via as mesmas pessoas em situação de rua. Uma mulher que sempre surgia com um novo hematoma. Mesmo todo dia participando de um pedacinho ínfimo de sua vida, dava para perceber que ela estava sendo espancada. Por vezes, chegando em casa, eu encontrava sangue na porta da frente do prédio, isolada pela fita zebrada da polícia. Isso acontecia por causa do CBGB, um antigo bar de motociclistas — que na época tinha perdido o glamour — no qual algumas das maiores estrelas do rock começaram a carreira: Patti Smith, The B-52s, Blondie, Joan Jett & the Blackhearts, Talking Heads. À noite, o lugar entrava em ebulição e esse tumulto culminava em muito vômito e sangue na entrada do meu prédio.
O apartamento nunca ficava frio. Conservava o calor. Sempre tinha água quente. A descarga sempre funcionava. Essas eram as únicas coisas boas de se morar ali. Eu ficava na faculdade o dia inteiro e só voltava à noite, mas passava todos os fins de semana em casa. E comia o dia todo. Comia, comia, comia. Nunca fui de beber, mas algumas vezes bebi uma cervejinha junto com a refeição. Ganhei quase nove quilos comendo baguete com salame, queijo, tomates e mostarda; uma panela de macarrão todos os dias; e quase meio litro de sorvete Häagen-Dazs de passas ao rum.
Comecei o curso na Juilliard com 18 outros colegas de classe. No fim do primeiro ano, éramos 14. Um foi expulso. Um foi cortado. Os outros dois desistiram; ambos eram alunos negros. Existem quatro grupos diferentes na Xilindrólliard, como chamávamos. Cada grupo recebe um número. Então, no primeiro ano o nosso era o 22. No segundo ano, 21; no terceiro, 20; e no quarto, 19.
No instante em que passei por aquelas portas na esquina da Sixty-Fifth com a Broadway, ficou evidente por que tantos eram expulsos ou iam embora desesperados. Era difícil. O que levava alguém a ser aceito era logo deixado em segundo plano. Eles não tinham interesse no que fazíamos bem, e sim no que fazíamos mal. Se você fosse uma mocinha sonhadora e ingênua, pediam que interpretasse o papel de uma matriarca pé no chão. Caso se mostrasse forte e emotivo, queriam ver seu lado mais leve, mesmo que para isso tivessem que pressioná-lo ao extremo.
John Styk, Robert Williams, Marian Seldes, Moni Yakim, Jude ­Leibowitz — esses eram nossos professores no primeiro ano. Começávamos cedo toda manhã, mais ou menos às oito, e raramente terminávamos antes de altas horas da noite. Tínhamos aulas de oratória, voz, Técnica de Alexander, movimento e estudo de cena.
A Técnica de Alexander ensina o ator a usar o corpo sem estresse nem tensão. Alunos do primeiro ano não atuavam com alunos do segundo, terceiro ou quarto, porque cada ano tinha seus objetivos específicos e era um grupo separado. O primeiro ano tinha como foco a descoberta. Encenamos uma peça de Shakespeare chamada Péricles.
Eles queriam ver o que tínhamos a oferecer. Foi dirigida pela grande atriz, hoje já falecida, Marian Seldes. Podíamos fazer o que quiséssemos. Para o projeto seguinte, recebíamos um papel completamente diferente de quem éramos, um papel para o qual ninguém nos escalaria. Interpretei uma personagem chamada Lily em Ah! ­Wilderness, de Eugene O’Neill. Ela era totalmente modesta, andava com passos muito contidos, tinha uma voz única, que mal dava para ouvir, sempre tímida. Sou tímida, mas essa não é a impressão que passo. Minha voz é muito intensa, grave e forte. Era um papel para o qual ninguém me escalaria. Esse era o método da Juilliard. Uma estrutura baseada e embebida no poder da transformação. Eles escolhiam o material. Eles escolhiam as peças e os papéis que achavam ter valor.
Passar o dia inteiro na faculdade, morar em um apartamento pés­simo, ter traumas e questões de ansiedade não diagnosticados e estar sozinha em Nova York, fazia-me sentir sobrecarregada. Pegava no sono na aula o tempo todo. Minha amiga Michelle vivia me acordando. Quando grandes atores iam à escola se apresentar, eu fingia estar muito animada, me sentava na fileira da frente nesses eventos e não demorava muito para minha cabeça tombar, minha boca se abrir e meus olhos começarem a revirar. Michelle acenava diante do meu rosto energeticamente, fazendo com os lábios: Acorda, porra!!! Ela parecia brava.
Era difícil ouvir e assistir aos atores convidados brancos, às palestras de dramaturgos brancos, aos projetos de brancos, aos personagens brancos, uma abordagem europeia do trabalho, do discurso, da voz, do movimento. Todos estavam voltados para nos moldar e esculpir em perfeitos atores brancos. Estava implícito que eles eram o padrão. Que eles eram os melhores. Sou uma atriz preta retinta de voz grave. Não importava o quanto eu me esforçasse, quando saísse para o mundo, seria vista como uma mulher preta retinta de voz grave. Meu Deus, quando saísse de lá para o mundo, eu seria chamada para trabalhos baseados em… mim. Tive que aceitar isso. E, admito, existem algumas peças clássicas e contemporâneas nas quais nunca quis atuar mesmo!A única outra pessoa negra no meu grupo era Cedric Harris. Havia na Juilliard apenas trinta negros no total de 856 alunos inscritos em todas as disciplinas: teatro, música e dança. Nós nos chamávamos de Bancada Negra. Eu fazia parte dessa convenção. Todo mês de janeiro tínhamos nossa celebração de Martin Luther King Jr., um programa de variedades. Diria que até hoje é um dos melhores trabalhos feitos por artistas que já vi. Em dança, música e teatro. Obras criativas eram montadas para homenagear a história negra, a autonomia negra… nós… eu. Tudo estava incluído, desde danças zulus até grandes óperas e música gospel. No nosso cotidiano, não tínhamos permissão de apresentar algo que não fosse ópera, balé ou clássicos europeus. Ponto-final. Até que fomos orientados a NÃO nos apresentarmos nas celebrações de MLK.Se atores entrassem na Juilliard e já estivessem trabalhando, eram veementemente incentivados a parar. Jazz, gospel, sapateado, dança moderna e qualquer material étnico estava na lista de proibições. Quando criamos a celebração de MLK, exploramos tudo o que constava nessa lista. Foi nossa forma de rebelião. Disseram-nos que arruinaríamos nosso instrumento. Bem, nossas almas também eram nosso instrumento.
Pouquíssimos membros do corpo docente compareciam. Nós nos sentíamos racial e individualmente castrados por uma filosofia fundamentada no apagamento de quem éramos e em dar à luz alguém artisticamente aceitável. Alguém que os brancos pudessem entender. Nossa paixão e vontade de nos apresentar, porém, se equiparava à falta de reconhecimento que recebíamos pela nossa contribuição para a faculdade. Em outras palavras, a ignorância deles nos fez trabalhar mais por nós mesmos e pelo nosso ofício.
Juilliard me forçou a entender o poder da minha negritude. Passei muito tempo da minha infância a defendendo, sendo ridicularizada por ela. E também durante a faculdade, tentando provar que era boa o bastante. Eu me compartimentalizei. Durante meu tempo na Juilliard, estava com raiva.
Sempre recebia a tarefa de fazer o discurso de abertura da celebração do MLK, e Laurie Carter, que era negra e uma das reitoras, sempre dizia: “Arrase! Fale o que você pensa.”Era a legitimação de uma voz calada por trauma, vergonha, insegurança. Ali estava Laurie, que encontrou um espacinho dentro de mim que ainda tinha vida e esperança, e o libertou.
Na primeira cerimônia, que ocorreu no Avery Fisher Hall, subi ao palco e contei uma história. Era a história de um escravizado no Caribe. Ele estava sempre fugindo.Era um homem forte e grande que não queria ser controlado. Toda vez que fugia, era capturado e espancado. Depois disso, fugia outra vez. Por fim, para contê-lo de uma vez por todas, decidiram matar outro escravizado. O corpo dele foi colocado nas costas do fugitivo. Amarram bem apertado. Obrigaram-no a trabalhar o dia inteiro, sob o sol quente, e à noite com o corpo nas costas. ­Obrigaram-no a dormir e correr com o corpo nas costas. Até que começou a se decompor. O homem grande e forte perdeu o apetite. Seu corpo foi infectado pela carcaça, começou a enfraquecer, e ele morreu. Perguntei: “Quantas pessoas negras nesta plateia se sentem como se tivessem um corpo amarrado às costas? Quantas estão tentando viver e lutar em uma sociedade que nos põe para baixo e está mais interessada em nossa morte do que em nossa vida?”
Silêncio. Eu estava falando a minha verdade. Era uma verdade carregada da dor de tudo que havia sido despejado em mim, consciente e inconscientemente. De repente, como um elefante sendo massacrado para ter as presas roubadas, eu estava reagindo, lutando pelo meu espaço.
Todo ano, eu tentava me encaixar em cada projeto e personagem. Achava que era o que eu devia fazer. Espartilhos e perucas europeias gigantescas que nunca se encaixavam sobre as minhas tranças. Ver meus colegas maravilhados com aquelas fantasias lindas e imaginando como a vida devia ser incrível nos anos 1780. A minha vontade era gritar: “Que merda!!! Sou diferente de vocês!! Se voltássemos a 1780, não poderíamos existir no mesmo mundo! Eu não sou branca!” O objetivo totalmente vergonhoso dessas atividades era óbvio: fazer cada aspecto da sua negritude desaparecer. E como eu poderia fazer isso? E, o mais importante, POR QUÊ??!!!Nenhum dos meus colegas precisava ter um dialeto urbano, sulista ou jamaicano perfeito para ser considerado excelente. “Eu sou NEGRA!!! Sou retinta com lábios carnudos, nariz largo e coxas grossas. Sou Viola!!”
A manifestação sempre fez parte da minha vida. Quer fosse ficando de joelhos ou rezando em silêncio. E Deus intervinha. No meu segundo ano na Juilliard, a faculdade estava oferecendo uma bolsa de estudos de 2.500 dólares para um aluno interessado em realizar um curso de verão que o fizesse crescer como artista, que o ajudasse a se desenvolver, que liberasse algo dentro de si. Precisávamos escrever uma redação de cinco páginas expondo as motivações. Escrevi sobre estar perdida. Que não havia como extravasar a paixão quando pediam que eu atuasse em papéis que não apenas não tocavam meu coração, mas que também não eram escritos para mim. Contei sobre o peso e o escopo distorcido da formação eurocêntrica. Consegui a bolsa de estudos.
Minha amiga Kris World, que cursava dança, ia à África todo verão com Chuck Davis, um coreógrafo de danças tradicionais africanas da North Carolina School of the Arts. Todo ano ele levava um grupo de pessoas, nem todas artistas, para um país diferente do continente africano, a fim de estudar a dança, a música e o folclore de diferentes povos. Naquele verão, ele ia à Gâmbia, no oeste africano, para estudar os povos uólofe, diola, mandinga e sosso.
A preparação, a viagem e a experiência na África causaram uma mudança cataclísmica na minha vida. Abriram um buraco no meu ser.
Tomei todas as vacinas necessárias antes da viagem. Queria comer tudo o que visse quando chegasse lá sem ter que me preocupar. Contei os dias, tomei o ônibus de Providence para o aeroporto JFK e voei com o grupo — composto exclusivamente de mulheres, e a maioria não atuava. Uma era enfermeira. A outra era professora. A terceira ficava meio isolada, parecia irritada. Ela se sentou e se encolheu. Não como se fosse dormir, mas encolhida de dor. Chorava e olhava pela janela. A quarta era uma enfermeira jamaicana muito gentil, mas extremamente tímida. E havia eu e Kris World. Eu só faltava pular no meu assento de tão animada!
Chegamos à Gâmbia após uma longa escala em Amsterdã. Era noite. O aeroporto era pequeno e não tinha área para retirada de bagagem. As malas simplesmente eram colocadas em uma grande pilha. Homens africanos fortes, de uniforme e com armas semiautomáticas estavam por toda parte. Encontramos nossas malas e saímos. Foi amor à primeira vista. Potente como um primeiro beijo ou uma excelente sessão de oração. O ar tinha um cheiro diferente. Tons de laranja, azul e roxo pintavam o céu enquanto o sol se punha. Um fraco toque de incenso misturado à brisa do oceano. A África me esperava.
Ficamos no Bungalow Beach Hotel, à beira-mar. Para nós, era como se fosse o Four Seasons, mas estava mais para um Motel 6. Kris World e eu dividimos uma suíte.
Cara, estava quente. Até hoje, quando está calor pra caramba, digo que está “quente como a África”. Era tão úmido que minhas roupas íntimas levavam três dias para secar depois de lavadas. Acordávamos às cinco da manhã e nos encontrávamos na praia. Chuck nos ensinava sobre o povo que encontraríamos naquele dia e nos ensinava alguns passos de dança. Rezávamos e corríamos para o mar, com roupa e tudo. Depois, voltávamos para o hotel e nos trocávamos. Chuck tinha contratado várias pessoas como motoristas, “embaixadores”. Eles nos pegavam no hotel e nos levavam para os chamados compounds. No carro, ríamos e cantávamos. O motorista nos ensinava uma canção do povo dele. O primeiro povo foi o mandinga. Os mandingas são o povo de Alex Haley, celebrado autor de Negras raízes — A saga de uma família e A autobiografia de Malcolm X. Passamos a maior parte do tempo com eles. Fomos ao compound, que era um aglomerado de quatro ou cinco casas de adobe nas quais membros de uma família viviam. Aprendemos sobre os tambores djembê, os tambores falantes… eles são chamados assim porque imitam os sons da fala.
Entrávamos na área aberta do compound e a família trazia todas as cadeiras disponíveis. Eles nos cumprimentavam como se fôssemos parentes que não viam há muito tempo. Havia alegria, animação! As crianças corriam para nos abraçar. Em seguida, vinham os tamboreiros, todos homens. A complexidade de cada papel que eles desempenhavam era surreal. As mulheres entravam no círculo prontas para uma dança chamada lenjeng, que imita o movimento de pássaros voando. Kris sussurrou no meu ouvido: “Elas estão se preparando para se soltar!”
Uma mulher entrava e começava a dançar. Ela usava uma lapa (saia) enrolada no corpo e um turbante. Enquanto sorria com uma alegria contagiante, seus pés batiam e os tambores seguiam o ritmo. Ela batia os pés e devagar, mas com determinação, seus braços subiam e os pés deixavam de bater para pular. Logo, parecia que ela estava voando. Outras mulheres começavam a ulular e mais uma mulher pulava para dentro do círculo, ficando cara a cara com a primeira. Elas se encaravam com muita intensidade, então seguravam a cabeça uma da outra e voavam juntas. A terra inteira parecia se mover. Poeira girava ao nosso redor. Estávamos testemunhando algo divino.
A dança continuaria por horas. Mais mulheres se juntavam. Algumas jovens, outras velhas. Quando terminavam, sentavam-se no chão e massageavam os pés umas das outras e ululavam. Enquanto tudo isso acontecia, entoavam uma música repetidas vezes que dizia, em tradução livre: “Eu não vim aqui por comida. Minha barriga está cheia. Eu não vim aqui por comida. Vim por muito mais.”
Eu a cantei tanto que se tornou uma oração. Eu estava ali por… algo. Eu clamava por algo.
Cada um de nós tinha que ficar de pé diante do grupo, cantar e dançar o lenjeng. Também tínhamos que aprender uma série de frases.

Sumole” — Olá, como você está?
Ibije” — Estou bem.
Kon te na te” — Como vai sua família?
Te na te” — Eles estão bem.
Kara be” — Estou aqui.
Kara jon” — Eu te vejo.

A propósito, tínhamos que cumprir todo esse ritual de cumprimentos ao começar uma conversa com alguém. Mesmo que só tivéssemos parado para pedir uma manga! Isso os deixava felizes. Serem vistos, se sentirem valorizados. A África me deixou zonza de alegria. Cada cheiro, som, cor afetavam meus sentidos de maneira apaixonante. Nenhum tom de amarelo, verde ou azul era igual aos que eu conhecia. Pessoas dedicadas à arte têxtil produziam a própria tinta. Eles faziam lapas, kufi (chapéus), grad boo boos (vestidos). Sem remorso algum, lindas peles retintas ficavam mais escuras sob o sol. Toda criança tinha muitas mulheres para cuidar delas. A tranquilidade com a qual as pessoas serviam umas às outras… O cabelo crespo, cacheado, a complexidade dos rituais, inúmeras linguagens.
Fomos a uma cerimônia de escolha do nome de um bebê. Depois de sete dias de nascido, o bebê recebe um nome. A taxa de mortalidade infantil era tão alta que os pais esperavam sete dias antes de nomear a criança. O bebê geralmente estava abaixo do peso, mas com certeza viveria depois que passasse da primeira semana. Esperávamos no compound até que os pais saíssem com o bebê da pequena casa de adobe. Havia mulheres amamentando crianças enquanto esperavam para celebrar.
Era um dia nublado e as mulheres estavam sentadas, rindo juntas. Tinham cabaças, grandes tigelas de madeira, diante delas e baldes com um pouco de água. Quando os pais saíam da casa, as mulheres paravam de amamentar e colocavam seus bebês no chão sobre um pedaço de pano. Voltavam a cobrir os seios com a roupa, viravam as tigelas dentro do balde com água, pegavam dois galhos e começavam a tamborilar nas cabaças em uníssono. Com orgulho. Com uma irmandade profunda. Presenciar aquilo tirou nosso fôlego! Kris World e eu vínhamos de uma instituição que nos oferecia uma formação clássica para nos tornarmos auteurs e estávamos testemunhando um espetáculo diante de nossos olhos. Aquilo era genial. Era arte! A expressão nascendo da necessidade de ter rituais para lidar com a vida. Quando terminavam, simplesmente baixavam os galhos, desviravam as cabaças dentro dos baldes com água, pegavam os bebês e voltavam a amamentar.
[...]

Viola Davis, in Em busca de mim