Mostrando postagens com marcador João Guimarães Rosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Guimarães Rosa. Mostrar todas as postagens

16/08/2025

Carta de Manuel Bandeira a João Guimarães Rosa

AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!

Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo.
Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso.
Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.
Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?
Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.
Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada.
Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?
O sertão é uma espera enorme.
E o silêncio?
O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.
Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa’uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades.
Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:
O diabo não há! Existe é o homem humano.
Soscrevo.
13/3/1957

Manuel Bandeira, em Revista Prosa, verso e arte

04/06/2024

O mundo à revelia

 


[…]
Diadorim me chamou, fomos caminhando, no meio da queleleia do povo. Mesmo eu vi o Hermógenes! ele se amargou, engulindo de boca fechada. ― Diadorim ― eu disse ― esse Hermógenes está em verde, nas portas da inveja... ― Mas Diadorim por certo não me ouviu bem, pelo que começou dizendo: ― Deus é servido... Não sosseguei. Aquele pessoal tribuzava. O encarregado da Sempre-Verde abriu cozinha: panelas grandes e caldeirões, cozinhando de tudo o que vale a valer. Tinha sempre algum batendo mão-de-pilão. Digo, não por nada não, mas pelo exato ser: eu tinha estalando nos meus olhos a lembrança do Hermógenes, na hora do julgamento. De como primeiro ele, sortuno, não se sobressaía, só escancarava muito as pernas, facãozão na mão; mas depois ficou artimanhado, com uma tristeza fechada aos cantos, como cão que consome raivas. E o Ricardão? Esse: uma pesadureza na cara toda, mas, quando esbarrou de cochilar, aqueles olhos grossos, rebolando que nem apostemados, sem bom preceito. Assente, enfim, tudo estava passado, terminado. Estava? Pois, pedi espera a Diadorim, na beira do rego, eu queria cuidar do meu cavalo, dissesse, desarrear e escovar. Dei com o Hermógenes. Dito, a bem, eu cacei onde estava o Hermógenes, tempo parei perto dele. Virando que eu quis ir lá, e escutar, quase quis. Um dizer ouvi: ― ...Mamãezada... Ao que seria? O Hermógenes não era nenhum toleimado, para desfazer na decisão de Joca Ramiro. Mamãezada? Mais não ouvi, relembro que não sei direito. Com pouco, Zé Bebelo estava dando as despedidas. Se viu, montado num bom cavalo de duas cores, arreado com sela boa de Minas-Velhas. Deram que levasse carabina, suas outras armas, e cruz-cruz cartucheiras. Aí já tinha jantado. E o bornal com matlotagem. Sobre o cavalo se houve, se upou na sela. Se foi. Saíu em marcha de estrada, sem olhar para trás, o sol na beira. Só o Triol devia de prestar acompanhamento a ele, por o uso de resguardado território, de uma légua. Me deu certa tristeza. Mas a minha satisfação ainda era maior.
Daí, estávamos todos pegando o que comer, que eram essas grandes abundâncias. Angú e couve, abóbora moranga cozida, torresmos, e em toda fogueira assavam mantas de carnes. Quem quisesse sôpa, era só ir se aquinhoar na porta-da-cozinha. A quantidade de pratos era que faltava. E assaz muita cachaça se tomou, que Joca Ramiro mandou satisfazer goles a todos ― extraordinária de boa. O senhor havia de gostar de ver aquela ajuntação de povo, as coisas que falavam e faziam, o jeito como podiam se rir, na vadiação, todos bem comidos, entalagados. Daí, escureceu. Homens deitados no chão, escornados até quase debaixo do mijo dos cavalos pastantes. Eu estava que impava, queria um bom sono. A ver, fui com Diadorim para o rumo dos pés de fruta, seguindo o rego. Com a entrada da noite, o passar da água canta friinho, permeio, engrossa, e a gente aprecia o cheiro do musgúz das árvores. Zé Bebelo tinha ido embora, para sempre, no cavalo de duas cores, fez pouca poeira. Nós estávamos no jaz ali, repimpados, enfunando as redes. Disso não esqueço? Não esqueço. A gente estava desagasalhados na alegria, feito meninos.
Eu tinha vindo para ali, para o sertão do Norte, como todos uma hora vêm. Eu tinha vindo quase sem mesmo notar que vinha ― mas presado, precisão de agenciar um resto melhor para a minha vida. Agora me expulsassem? Do jeito, isto é, tinham repelido para trás Zé Bebelo. Não me esqueci daquelas palavras dele! que agora era o mundo à revelia... Disse a Diadorim. Mas Diadorim menos me respondeu. Ao dar, que falou! ― Riobaldo, você prezava de ir viver nOs-Porcos, que lá é bonito sempre ― com as estrelas tão reluzidas?... Dei que sim. Como ia querer dizer diferente! pois lá nOs Porcos não era a terra de Diadorim própria, lugar dele de crescimento? Mas, mesmo enquanto que essas palavras, eu pensasse que Diadorim podia ter me respondido, assim nestas fações: ― … Mundo à revelia? Mas, Riobaldo, desse jeito mesmo é que o mundo sempre esteve... Toleima, sei, bobeia disso, a basba do basbaque. Que eu dizia e pensava numa coisa, mas Diadorim recruzava com outras. ― ...Zé Bebelo, Diadorim: que é que você achou daquele homem? ― ainda indaguei. ― Para ele, de agora, não tem dia nem noite: vai seu rumo, fazendo a viagem... Teve sorte! Entestou foi com Joca Ramiro ― com sua alta bondade... ― foi o que Diadorim me respondeu. E ficou pensando, ficamos. Aí quando eu acabei até à pontinha meu cigarro, ainda perguntei: ― A ver, quem salvou Zé Bebelo da morte? Diadorim, o que quis me dizer foi em tanto segredo, que ele puxou a beira da minha rede, para a gente falar quase cara a cara: ― Ah, quem salvou Zé Bebelo de morte? Pois, abaixo de Joca Ramiro, por começar foi ele Zé Bebelo mesmo. Depois, numa ponta do dito de Zé Bebelo, tomou figura Só Candelário ― homem esquipático e enorme de si, mas fiel, e que põe mais de trezentas armas. Cabras que, por um gesto dele, avançam e matam e matam... Eu queria que ele tivesse explicado o fato de outro jeito. Mas Diadorim estava prosseguindo: ― ...A ser que você viu o Hermógenes e o Ricardão, gente estarrecida de iras frias... Agora, esses me dão receio, meu medo... Deus não queira... Depois, ele terminou assim: ― ... Ao enquanto Joca Ramiro pode precisar da gente, você mesmo me prometeu, Riobaldo: a gente persiste por aqui. Prometi outra vez, confirmei. Desde, no sereno da noite, não se conversou mais, não me recordo.
Diadorim estava triste, na voz. Eu também estive. Por que? ― há-de o senhor querer saber. Por causa de Zé Bebelo ter ido embora; e aquilo era motivo? Depois de Paracatú, é o mundo... Zé Bebelo ido, sei lá bem porque, tirava meu poder de pensar com a ideia em ordem, e eu sentia minha barriga demais cheia, demais de tantas comidas e bebidas. Só o que me consolava era ter havido aquele julgamento, com a vida e a fama de Zé Bebelo autorizadas. O julgamento? Digo! aquilo para mim foi coisa séria de importante. Por isso mesmo é que fiz questão de relatar tudo ao senhor, com tanta despesa de tempo e miúcias de palavras. ― O que nem foi julgamento legítimo nenhum! só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão... ― o senhor dirá. Pois! por isso mesmo. Zé Bebelo não era réu no real! Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo! Daquela hora em diante, eu cri em Joca Ramiro. Por causa de Zé Bebelo. Porque, Zé Bebelo, na hora, naquela ocasião, estava sendo maior do que pessoa. Eu gostava dele do jeito que agora gosto de compadre meu Quelemém; gostava por entender no ar. Por isso, o julgamento tinha dado paz à minha ideia ― por dizer bem! meu coração. Dormi, adeus disso. Como é que eu ia poder ter pressentimento das coisas terríveis que vieram depois, conforme o senhor vai ver, que já lhe conto?
Curtamente! dali da Sempre-Verde, com um dia mais, desapartamos. O bando muito grande de jagunços não tem composição de proveito em ocasião normal, só serve para chamar soldados e dar atrasamento e desrazoada despesa. Constava que João Goanhá torasse para a Bahia, e que o Antenor seguindo rumo em beira do Ramalhada, com um punhado dos hermógenes. Novas ordens, muitas ordens. Alaripe ia vir comTitão Passos.Titão Passos chamou a gente! Diadorim e eu. Se tinha um roteiro, sendo para ser! o mais encostado possível no São Francisco, até para lá do Jequitaí, e mais. Aquilo, por que? A gente não ia junto com Joca Ramiro, em caso de lhe a ele podermos valer, em caso, com maior ajuda, mão a mão? Ah, mas nossa tarefa era de muito encoberto empenho e valor: pelo que tínhamos de estanciar em certos lugares, com o fito de receber remessas; e em acontecer de vigiar algum rompimento de soldados, que para o Norte entrassem. Arreamos, montamos, saímos. Naquela mesma da hora, Joca Ramiro dava partida também, de volta para o São João do Paraíso. Lá ia ele, deveras, em seu cavalão branco, ginete ― ladeado por Só Candelário e o Ricardão, igual iguais galopavam. Saíam os chefes todos ― assim o desenrolar dos bandos, em caracol, aos gritos de vozear. Ao que reluzia o bem belo. Diadorim olhou, e fez o sinal-da-cruz, cordial. ― Assim, ele me botou a benção... ― foi o que disse. Dá sempre tristezas algumas, um destravo de grande povo se desmanchar. Mas, nesse dia mesmo, em nossos cavalos tão bons, dobramos nove léguas.
As nove. Com mais dez, até à Lagoa do Amargoso. E sete, para chegar numa cachoeira no Gorutuba. E dez, arranchando entre Quem-Quem e Solidão; e muitas idas marchas: sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Mas saímos, saímos. Subimos. Ao quando um belo dia, a gente parava em macias terras, agradáveis. As muitas águas. Os verdes já estavam se gastando. Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros. O marrequim, a garrixa-do-brejo, frangos-dágua, gaivotas. O manuelzinho-da-cróa! Diadorim, comigo. As garças, elas em asas. O rio desmazelado, livre rolador. E aí esbarramos parada, para demora, num campo solteiro, em varjaria descoberta, pasto de muito gado.
[…]

Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

05/01/2024

Partida do audaz navegante


Na manhã de um dia em que brumava e chuviscava, parecia não acontecer coisa nenhuma. Estava-se perto do fogo familiar, na cozinha, aberta, de alpendre, atrás da pequena casa. No campo, é bom; é assim. Mamãe, ainda de roupão, mandava Maria Eva estrelar ovos com torresmos e descascar os mamões maduros. Mamãe, a mais bela, a melhor. Seus pés podiam calçar as chinelas de Pele. Seus cabelos davam o louro silencioso. Suas meninas-dos-olhos brincavam com bonecas. Ciganinha, Pele e Brejeirinha — elas brotavam num galho. Só o Zito, este, era de fora; só primo. Meia-manhã chuvosa entre verdes: o fúfio fino borrifo, e a gente fica quase presos, alojados, na cozinha ou na casa, no centro de muitas lamas. Sempre se enxergam o barranco, o galinheiro, o cajueiro grande de variados entortamentos, um pedaço de um morro — e o longe. Nurka, negra, dormia. Mamãe cuida com orgulhos e olhares as três meninas e o menino. Da Brejeirinha, menor, muito mais. Porque Brejeirinha, às vezes, formava muitas artes.
Nesta hora, não. Brejeirinha se instituíra, um azougue de quieta, sentada no caixote de batatas. Toda cruzadinha, traçadas as pernocas, ocupava-se com a caixa de fósforos. A gente via Brejeirinha: primeiro, os cabelos, compridos, lisos, louro-cobre; e, no meio deles, coisicas diminutas: a carinha não-comprida, o perfilzinho agudo, um narizinho que-carícia. Aos tantos, não parava, andorinhava, espiava agora — o xixixi e o empapar-se da paisagem — as pestanas til-til. Porém, disse-se-dizia ela, pouco se vê, pelos entrefios: — “Tanto chove, que me gela!” Aí, esticou-se para cima, dando com os pés em diversos objetos. — “Ui, ui-te!” — rolara nos cachos de bananas, seu umbigo sempre aparecendo. Pele ajudava-a a se endireitar. — “...E o cajueiro ainda faz flores...” — acrescentou, observava da árvore não se interromper mesmo assim, com essas aguaceirices, de durante dias, a chuvinha no bruaar e a pálida manhã do céu. Mamãe dosava açúcares e farinhas, para um bolo. Pele tentava ajudar, diligentil. Ciganinha lia um livro; para ler ela não precisava virar página.
Ciganinha e Zito nem muito um do outro se aproximavam, antes paravam meio brigados, de da véspera, de uma briguinha grande e feia. Pele é que era a morena, com notáveis olhos. Ciganinha, a menina linda no mundo: retrato miúdo da Mamãe. Zito perpensava assuntos de não ousar dizer, coisas de ciumoso, ele abrira-se à espécie de ciúmes sem motivo de quê ou quem. Brejeirinha pulou, por pirueta. — “Eu sei por que é que o ovo se parece com um espeto!” —; ela vivia em álgebra. Mas não ia contar a ninguém. Brejeirinha é assim, não de siso débil; seus segredos são sem acabar. Tem porém infimículas inquietações: — “Eu hoje estou com a cabeça muito quente...” — isto, por não querer estudar. Então, ajunta: — “Eu vou saber geografia.” Ou: — “Eu queria saber o amor...” Pele foi quem deu risada. Ciganinha e Zito erguem olhos, só quase assustados. Quase, quase, se entrefitaram, num não encontrar-se. Mas, Ciganinha, que se crê com a razão, muxoxa. Zito, também, não quer durar mais brigado, viera ao ponto de não agüentar. Se, à socapa, mirava Ciganinha, ela de repente mais linda se envoava.
— “Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?” — Brejeirinha especulava. — “É, hem? Você não sabe ler nem o catecismo...” Pele lambava-lhe um tico de desdém; mas Pele não perdia de boazinha e beliscava em doce, sorria sempre na voz. Brejeirinha rebica, picuíca: — “Engraçada!... Pois eu li as 35 palavras no rótulo da caixa de fósforos...” Por isso, queria avançar afirmações, com superior modo e calor de expressão, deduzidos de babinhas. — “Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?” Porque gostava, poetista, de importar desses sérios nomes, que lampejam longo clarão no escuro de nossa ignorância. Zito não respondia, desesperado de repente, controversioso-culposo, sonhava ir-se embora, teatral, debaixo de chuva que chuva, ele estalava numa raiva. Mas Brejeirinha tinha o dom de apreender as tenuidades: delas apropriava-se e refletia-as em si — a coisa das coisas e a pessoa das pessoas. — “Zito, você podia ser o pirata inglório marujo, num navio muito intacto, para longe, lo-õ-onge no mar, navegante que o nunca-mais, de todos?” Zito sorri, feito um ar forte. Ciganinha estremecera, e segurou com mais dedos o livro, hesitada. Mamãe dera a Pele a terrina, para ela bater os ovos.
Mas Brejeirinha punha mão em rosto, agora ela mesma empolgada, não detendo em si o jacto de contar: — “O Aldaz Navegante, que foi descobrir os outros lugares valetudinário. Ele foi num navio, também, falcatruas. Foi de sozinho. Os lugares eram longe, e o mar. O Aldaz Navegante estava com saudade, antes, da mãe dele, dos irmãos, do pai. Ele não chorava. Ele precisava respectivo de ir. Disse: — “Vocês vão se esquecer muito de mim?” O navio dele, chegou o dia de ir. O Aldaz Navegante ficou batendo o lenço branco, extrínseco, dentro do indo-se embora do navio. O navio foi saindo do perto para o longe, mas o Aldaz Navegante não dava as costas para a gente, para trás. A gente também inclusive batia os lenços brancos. Por fim, não tinha mais navio para se ver, só tinha o resto de mar. Então, um pensou e disse: — “Ele vai descobrir os lugares, que nós não vamos nunca descobrir...” Então e então, outro disse: — “Ele vai descobrir os lugares, depois ele nunca vai voltar...” Então, mais, outro pensou, pensou, esférico, e disse: — “Ele deve de ter, então, a alguma raiva de nós, dentro dele, sem saber...” Então, todos choraram, muitíssimos, e voltaram tristes para casa, para jantar...”
Pele levantou a colher: — “Você é uma analfabetinha ‘aldaz’.” — “Falsa a beatinha é tu!” — Brejeirinha se malcriou. — “Por que você inventa essa história de de tolice, boba, boba?” — e Ciganinha se feria em zanga. — “Porque depois pode ficar bonito, uê!” Nurka latira. Mamãe também estava brava? Porque Brejeirinha topara o pé em cafeteiras, e outras. Disse ainda, reflexiva: — “Antes falar bobagens, que calar besteiras...” Agora, fechou os olhos que verdes, solene arrependida de seu desalinho de conduta. Só ouvirá o rumorejo da chuvinha, que estarão fritando.
A manhã é uma esponja. Decerto, porém, Pele rezara os dez responsos a Santo Antônio, tãoquanto batia os ovos. Porque estourou manso o milagre. O tempo temperou. Só era março — compondo suas chuvas ordinárias. Ciganinha e Zito se suspiravam. Soltavam-se as galinhas do galinheiro, e o peru. Saía-se, ao largo, Nurka. O céu tornava a azul?
Mamãe ia visitar a doente, a mulher do colono Zé Pavio. — “Ah, e você vai conosco ou sem-nosco?” — Brejeirinha perguntava. Mamãe, por não rir nem se dar de alheada, desferia chufas meigas: — “Que nossa vergonha!...” — e a dela era uma voz de vogais doçuras. A manhã se faz de flores. Então, pediu-se licença de ir espiar o riachinho cheio. Mamãe deixava, elas não eram mais meninas de agarra-a-saia. De impulso, se alegraram. Só que alguém teria de junto ir, para não se esquecerem de não chegar perto das águas perigosas. O rio, ali, é assaz. Se o Zito não seria, próprio, essa pessoa de acompanhar, um meiozinho-homem, leal de responsabilidades? Cessou-se a cerração do ar. Mas tinham de vestir outras roupas quentes. — “Oh, as grogrolas!” Brejeirinha de alegria ante todas, feliz como se, se, se: menina só ave. — “Vão com Deus!” — Mamãe disse, profetisa, com aquela voz voável. Ela falava, e choviam era bátegas de bênçãos. A gentezinha separou-se.
A ir lá, o caminho primeiro subia, subvexo, a ladeirinha do combro, colinola. Tão mesmo assim, os dois guarda-chuvas. Num — avante — Brejeirinha e Pele. Debaixo do outro, Zito e Ciganinha. Só os restos da chuva, chuvinha se segredando. Nurka corria, negramente, e enfim voltava, cachorra destapada ditosa. Se a gente se virava, via-se a casa, branquinha com a lista verde-azul, a mais pequenina e linda, de todas, todas. Zito dando o braço a Ciganinha, por vezes, muito, as mãos se encontravam. Pele se crescia, elegante. E ágil ia Brejeirinha, com seu casaquinho coleóptero. Ela andava pés-para-dentro, feito um periquitinho, impávido.
No transcenso da colineta, Zito e Ciganinha calavam-se, muito às tortas, nos comovidos não-falares. Sim, já se estavam em pé de paz, fazendo sua experiência de felicidade; para eles, o passeio era um fato sentimental. Descia-se agora a outra ladeira, pegando cuidado, pelo enlameável e escorregoso, poças, mas também para não pisar no que Brejeirinha chamava de “o bovino” — altas rodelas de esterco cogumeleiro. Ali, com efeito, andavam bois: “o boi, beiçudo”; aí, Brejeirinha levou tombo. Ela disse que Mamãe tinha dito que eles precisavam de ter: coragem com juízo. Mas, isso, era mentirinhas. E, o que pois: — “Agora, já me sujei, então agora posso não ter cuidado...” Correu, com Nurka, pela encosta inferior, no verdinho pasto. Pele ainda ralhou: — “Você vai buscar um audaz navegante?” Mas, mais. Entanto, à úmida, à luz, o plano capim — e floriu-se: estendem-se, entremunhadas, as margaridinhas, todas se rodeiam de pálpebras.
O que se queria, aqui, era a pequena angra, onde o riachinho faz foz. Abaixo, aos bons bambus, e às pedreiras de beira-rio, ouvindo o ronco, o bufo d’água. Porque, o rio, grossoso, se descomporta, e o riachinho porém também, seu estuário já feio cheio, refuso, represado, encapelado — pororoqueja. — “Bochechudo!” — grita-lhe Brejeirinha. Sumiu-se a última areiinha dele, sob baile de um atoalhado de espumas, no belo despropositar-se, o bulir de bolhas. Brejeirinha já olhou tudo de cor. Cravou varetas de bambu, marcando pontos, para medir a água em se crescer, mudando de lugar. Porém, o fervor daquilo impunha-lhe recordações, Brejeirinha não gostando de mar: — “O mar não tem desenho. O vento não deixa. O tamanho...” Lamentava-se de não ter trazido pão para os peixes. — “Peixe, assim, a esta hora?” — Pele duvidava. Divagava Brejeirinha: — “A cachoeirinha é uma parede de água...” Falou que aquela, ali, no rio, em frente, era a Ilhazinha dos Jacarés. — “Você já viu jacaré lá?” — caçoava Pele. — “Não. Mas você também nunca viu o jacaré-não-estar-lá. Você vê é a ilha, só. Então, o jacaré pode estar ou não estar...” Mas, Brejeirinha, Nurka ao lado, já vira tudo, em pé em volta, seu par de olhos passarinhos. Demorava-se, aliás, o subir e alargar-se da água, com os mil-e-um movimentos supérfluos.
A gente se sentava, perto, não no chão nem em tronco caído, por causa do chovido do molhado. Ciganinha e Zito, numa pedra, que dava só para dois, podiam horas infinitas; apenas, conversando ainda feito gente trivial. Pele saíra a colher um feixe de flores. Mais não chuviscava. Brejeirinha já pulando de novo. Disse: que o dia estava muito recitado. Voltava-se para a contramargem, das mais verdes, e jogava pedras, o longe possível, para Nurka correndo ir buscar. Depois, se acocora, de entreter-se, parece que já está até calçada com um sapatinho só. Mas, sem se desagachar, logo gira nos pezinhos, quer Ciganinha e Zito para ouvirem. Olha-os.
— “O Aldaz Navegante não gostava de mar! Ele tinha assim mesmo de partir? Ele amava uma moça, magra. Mas o mar veio, em vento, e levou o navio dele, com ele dentro, escrutínio. O Aldaz Navegante não podia nada, só o mar, danado de ao redor, preliminar. O Aldaz Navegante se lembrava muito da moça. O amor é original...”
Ciganinha e Zito sorriam. Riram juntos. — “Nossa! O assunto ainda não parou?” — era Pele voltada, numa porção de flores se escudando. Brejeirinha careteou um “ah!” e quis que continuou: — “... Envém a tripulação... Então, não. Depois, choveu, choveu. O mar se encheu, o esquema, amestrador... O Aldaz Navegante não tinha caminho para correr e fugir, perante, e o navio espedaçado. O navio parambolava... Ele, com o medo, intacto, quase nem tinha tempo de tornar a pensar demais na moça que amava, circunspectos. Ele só a prevaricar... O amor é singular...”
— “E daí?”
— “A moça estava paralela, lá, longe, sozinha, ficada, inclusive, eles dois estavam nas duas pontinhas da saudade... O amor, isto é... O Aldaz Navegante, o perigo era total, titular... não tinha salvação... O Aldaz... O Aldaz...”
— “Sim. E agora? E daí?” — Pele intimava-a.
— “Aí? Então... então... Vou fazer explicação! Pronto. Então, ele acendeu a luz do mar. E pronto. Ele estava combinado com o homem do farol... Pronto. E...”
— “Na-ão. Não vale! Não pode inventar personagem novo, no fim da estória, fu! E — olha o seu ‘aldaz navegante’, ali. É aquele...”
Olhou-se. Era: aquele — a coisa vacum, atamanhada, embatumada, semi-ressequida, obra pastoril no chão de limugem, e às pontas dos capins — chato, deixado. Sobre sua eminência, crescera um cogumelo de haste fina e flexuosa, muito longa: o chapeuzinho branco, lá em cima, petulante se bamboleava. O embate e orla da água, enchente, já o atingiam, quase.
Brejeirinha fez careta. Mas, nisso, o ramilhete de Pele se desmanchou, caindo no chão umas flores. — “Ah! Pois é, é mesmo!” — e Brejeirinha saltava e agia, rápida no valer-se das ocasiões. Apanhara aquelas florinhas amarelas — josés-moleques, douradinhas e margaridinhas — e veio espetá-las no concrôo do objeto. — “Hoje não tem nenhuma flor azul?” — ainda indagou. A risada foi de todos, Ciganinha e Zito bateram palmas. — “Pronto. É o Aldaz Navegante...” — e Brejeirinha crivava-o de mais coisas — folhas de bambu, raminhos, gravetos. Já aquela matéria, o “bovino”, se transformava.
Deu-se, aí, porém, longe rumor: um trovão arrasta seus trastes. Brejeirinha teme demais os trovões. Vem para perto de Zito e Ciganinha. E de Pele. Pele, a meiga. Que: — “Então? A estória não vai mais? Mixou?”
— “Então, pronto. Vou tornar a começar. O Aldaz Navegante, ele amava a moça, recomeçado. Pronto. Ele, de repente, se envergonhou de ter medo, deu um valor, desassustado. Deu um pulo onipotente... Agarrou, de longe, a moça, em seus abraços... Então, pronto. O mar foi que se aparvolhou-se. Arres! O Aldaz Navegante, pronto. Agora, acabou-se, mesmo: eu escrevi — ‘Fim’!”
De fato, a água já se acerca do “Aldaz Navegante”, seu primeiro chofre golpeava-o. “Ele vai para o mar?” — perguntava, ansiosa, Brejeirinha. Ficara muito de pé. Um ventinho faz nela bilo-bilo — acarinha-lhe o rosto, os lábios, sim, e os ouvidos, os cabelos. A chuva, longe, adiada.
Segredando-se, Ciganinha e Zito se consideram, nas pontinhas da realidade. — “Hoje está tão bonito, não é? Tudo, todos, tão bem, a gente alegre... Eu gosto deste tempo...” E: — “Eu também, Zito. Você vai voltar sempre aqui, muitas vezes?” E: — “Se Deus quiser, eu venho...” E: — “Zito, você era capaz de fazer como o Audaz Navegante? Ir descobrir os outros lugares?” E: — “Ele foi, porque os outros lugares ainda são mais bonitos, quem sabe?...” Eles se disseram, assim eles dois, coisas grandes em palavras pequenas, ti a mim, me a ti, e tanto. Contudo, e felizes, alguma outra coisa se agitava neles, confusa — assim rosa-amor-espinhos-saudade.
Mas, o “Aldaz Navegante”, agora a água se apressa, no vir e ir, seu espumitar chega-lhe já re-em-redor, começando a ensopação. Ei-lo circunavegável, conquanto em firme terrestreidade: o chão ainda o amarrava de romper e partir. Brejeirinha aumenta-lhe os adornos. Até Ciganinha e Zito pegam a ajudar. E Pele. Ele é outro, colorido, estrambótico, folhas, flores. — “Ele vai descobrir os outros lugares...” “— Não, Brejeirinha. Não brinca com coisas sérias!” “— Uê? O quê?” Então, Ciganinha, cismosa, propõe: — “Vamos mandar, por ele, um recado?” Enviar, por ora, uma coisa, para o mar. Isso, todos querem. Zito põe uma moeda. Ciganinha, um grampo. Pele, um chicle. Brejeirinha — um cuspinho; é o “seu estilo”. E a estória? Haverá, ainda, tempo para recontar a verdadeira estória? Pois:
— “Agora, eu sei. O Aldaz Navegante não foi sozinho; pronto! Mas ele embarcou com a moça que ele amavam-se, entraram no navio, estricto. E pronto. O mar foi indo com eles, estético. Eles iam sem sozinhos, no navio, que ficando cada vez mais bonito, mais bonito, o navio... pronto: e virou vagalumes...”
Pronto. O trovão, terrível, este em céus e terra, invencível. Carregou. Brejeirinha e o trovão se engasgam. Ela iria cair num abismo “intacto” — o vão do trovão? Nurka latiu, em seu socorro. Ciganinha, e Pele e Zito, também, vêm para a amparar. Antes, porém, outra, fada, inesperada, surgia, ali, de contraflor.
— “Mamãe!”
Deitou-se-lhe ao pescoço. Mamãe aparava-lhe a cabecinha, como um esquilo pega uma noz. Brejeirinha ri sem til. E, Pele:
— “Olha! Agora! Lá se vai o ‘Aldaz Navegante’!”
— “Ei!”
— “Ah!”
O Aldaz! Ele partia. Oscilado, só se dançandoando, espumas e águas o levavam, ao Aldaz Navegante, para sempre, viabundo, abaixo, abaixo. Suas folhagens, suas flores e o airoso cogumelo, comprido, que uma gota orvalha, uma gotinha, que perluz — no pináculo de uma trampa seca de vaca.
Brejeirinha se comove também. No descomover-se, porém, é que diz: — “Mamãe, agora eu sei, mais: que ovo só se parece, mesmo, é com um espeto!”
De novo, a chuva dá.
De modo que se abriram, asados, os guarda-chuvas.

Guimarães Rosa, in Primeiras estórias

19/09/2023

Viver é muito perigoso…


Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério — foi Medeiro Vaz. Que um homem antigo… Seu Joãozinho Bem-Bem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele por dentro consistia. Joca Ramiro — grande homem príncipe! — era político. Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou. Sô Candelário se endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos era o pelo prêço de amigos: só por via deles, de suas mesmas amizades, foi que tão alto se ajagunçou. Antônio Dó — severo bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja. Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado raivoso em sua toda justiça. Ricardão, mesmo, queria era ser rico em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim. E o “Urutú-Branco”? Ah, não me fale. Ah, esse… tristonho levado, que foi — que era um pobre menino do destino…
Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar — Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca — e afia — que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra que? Deixa: bobo com bobo — um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta…

Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

21/07/2019

A carta de Nhorinhá

Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. O senhor ouvindo seguinte, me entende. O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. E um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias. Tem até sobrado. Deu capim no telhado da igreja, a gente escuta a qualquer entrar o borbôlo rasgado dos morcegos. Bicho que guarda muitos frios no corpo. Boi vem do campo, se esfrega naquelas paredes. Deitam. Malham. De noitinha, os morcegos pegam a recobrir os bois com lencinhos pretos. Rendas pretas defunteiras. Quando se dá um tiro, os cachorros latem, forte tempo. Em toda a parte é desse jeito. Mas aqueles cachorros hoje são do mato, têm de caçar seu de-comer. Cachorros que já lamberam muito sangue. Mesmo, o espaço é tão calado, que ali passa o sussurro de meia-noite às nove horas. Escutei um barulho. Tocha de carnaúba estava alumiando. Não tinha ninguém restado. Só vi um papagaio manso falante, que esbagaçava com o bico algum trem. Esse, vez em quando, para dormir ali voltava? E eu não revi Diadorim. Aquele arraial tem um arruado só! é a rua da guerra... O demónio na rua, no meio do redemunho... O senhor não me pergunte nada. Coisas dessas não se perguntam bem.
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita.Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta ― só o deo-gratias, e o troco. Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando! ― A pátria não pode nada com a velhice... Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas ― ele dizia! aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucúia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. Essa Nhorinhá tinha lenço curto na cabeça, feito crista de anú-branco. Escreveu, mandou a carta. Mas a carta gastou uns oito anos para me chegar; quando eu recebi, eu já estava casado. Carta que se zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões, nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e capangas. Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja dobrada, se rasgando. Mesmo tinham enrolado noutro papel, em canudo, com linha preta de carretel. Uns não sabiam mais de quem tinham recebido aquilo. Ultimo, que me veio com ela, quase por engano de acaso, era um homem que, por medo da doença do toque, ia levando seu gado de volta dos gerais para a caatinga, logo que chuva chovida. Eu já estava casado. Gosto de minha mulher, sempre gostei, e hoje mais. Quando conheci de olhos e mãos essa Nhorinhá, gostei dela só o trivial do momento. Quando ela escreveu a carta, ela estava gostando de mim, de certo; e aí já estivesse morando mais longe, magoal, no São Josezinho da Serra ― no indo para o Riacho-das-Almas e vindo do Morro dos Ofícios. Quando recebi a carta, vi que estava gostando dela, de grande amor em lavaredas; mas gostando de todo tempo, até daquele tempo pequeno em que com ela estive, na Aroeirinha, e conheci, concernente amor. Nhorinhá, gosto bom ficado em meus olhos e minha boca. De lá para lá, os oitos anos se baldavam. Nem estavam. Senhor subentende o que isso é? A verdade que, em minha memória, mesmo, ela tinha aumentado de ser mais linda. De certo, agora não gostasse mais de mim, quem sabe até tivesse morrido... Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai avante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!
Sendo isto. Ao dôido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença.Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas ― e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

04/06/2019

Viver é muito perigoso...

Ilustração: Rodrigo Rosa

[…] No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...
A que, o que logo vi, que Marcelino Pampa, por bem de seu dispor, não dava altura. A tento de se acertar nos primeiros rumos de se mexer, ele me chamou, mais João Concliz. ― Os Judas estão aqui mesmo, de nós a umas quinze léguas, e sabem da gente. Deveras atacar, não atacam, com este tempo de todas chuvas e ribeirões cheios. Mas vão fechando modo de rodear a gente, de menos longe, porque a quantidade deles é à farta... Recurso, que eu acho, é dois! ou se fugir para o chapadão, enquanto tempo ― mas é perder toda esperança e diminuir da vergonha... Ou, então, forçar tudo e experimentar um caminho por entremeio deles! se vai para a outra banda do Rio, caçar João Goanhá e os outros companheiros... Mais ainda não sei, quero toda razoável opinião. Assim ele, Marcelino Pampa, disse. ― Mas, se souberem a notícia que Medeiro Vaz morreu, hoje mesmo é capaz que sejam de vir em riba de nós... ― foi o que João Concliz achou; e estava muito certo. Eu não atinava com o que dizer, as confusões dessas horas me encostavam. O que era, na situação, que Medeiro Vaz havia de fazer? E Joca Ramiro? E Sô Candelário? Ao esmo, esses pensamentos em mim. Ai de, foi que reconheci como súcia de homens carece de uma completa cabeça. Comandante é preciso, para aliviar os aflitos, para salvar a ideia da gente de perturbações desconformes. Não sabia, hoje será que sei, a regra de nenhum meio-termo. Sem ação, eu podia gastar ali minha vida inteira, debulhando. Também, logo depois, depois de muitos silêncios e poucas palavras, Marcelino Pampa resolveu que, de tarde, nossa conversa ia ter repetição. Atontados, três.
Dali, fui para perto de Diadorim. ― Riobaldo, ― ele mal disse ― você está vendo que não temos remédio... Aí, esbarrou, pensou um tempo, com uma mão por cima da outra. ― E vocês, que foi que determinaram de se fazer? ― me perguntou. Respondi! ― Hoje de tarde é que se toma decisão, Diadorim. Você está mal satisfeito? Ele endireitou o corpo. Foi, falou! ― Sei o meu. Cá por mim, isso tudo pouco adianta. Quente quero poder chegar junto dum dos Judas, para terminar! Eu sabia que ele falava coisas de pelejar por cumprir. Eu tinha mais cansaço, mais tristeza. ― Quem sabe, se... Para ter jeito de chegar perto deles, até se não era melhor... ― assim ele desabafou, em trago; e recolhido num estado de segredo. Por seus grandes olhos, onde aquilo redondeou, cri que armasse agarrar o comando, por meio de acender o bando todo em revolta. Qualquer loucura, semelhante, era a dele. Mas, não; mais disse: ― Foi você, mesmo, Riobaldo, quem governou tudo, hoje. Você escolheu Marcelino Pampa, você decidiu e fez... Era. Gostei, em cheio, de escutar isso, soprante. Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos ― Marcelino Pampa, eu e João Concliz, ― não se teve nem o tempo de principiar. Pelo que ouvimos: um galope, o chegar, o riscar, o desapêio, o xaxaxo de alpercatas. Sendo assim o Feliciano e o Quipes, que traziam um vaqueirinho, escoltado. Que vieram quase correndo. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos, e as feições dele mudavam ― de mestre pavor.
― Arte, que este tal passou, às fugas, meio arupa. Pegamos. Aí ele tem grande coisa pra contar... ― e empurraram um pouco o vaqueirinho. De medo ― a gente olhava para ele ― e de nossos olhos ele se desencostava. Afe, por fim, bebeu gole de ar, e soluceou:
― E um homem... Só sei... E um homem...
― Te acerta, mocinho. Aqui você está livre e salvo. Aonde é que está indo? ― Marcelino Pampa regrou.
― E briga enorme... E um homem... Vou indo pra longe, para a casa de meu pai... Ah, é um homem... Ele desceu o Rio Paracatú, numa balsa de burití...
― Que foi mais que o homem fez? ― então João Concliz perguntou.
― Deu fogo... O homem, com mais cinco homens... Avançaram do mato, deram fogo contra os outros. Os outros eram montão, mais duns trinta. Mas fugiram. Largaram três mortos, uns feridos. Escaramuçados. Ei! E estavam a cavalo... O homem e os cinco dele estão a pé. Homem terrível... Falou que vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha, no rancho. Emprestei. Tinham matado um veadinho campeiro, me deram naca de carne...
― Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros dizem? Aí e que jeito, que semelhança de figura é que ele tem?
― Ele? O jeito que é o dele, que ele tem? Em é mais baixo do que alto, não é velho, não é moço... Homem branco... Veio de Goiás... O que os outros falam e tratam! Deputado. Desceu o Rio Paracatú numa balsa de burití... ― Estávamos em jejum de briga... ― ele mesmo disse. Ele e seus cinco deram fogo feito feras. Gritavam de onça e de uivado... Disse! vai remexer o mundo! Desceu o Rio Paracatú numa balsa de burití... Desceram... Nem cavalo eles não têm...
― E ele! Mas é ele! Só pode ser... ― aí alguém lembrou. ― E é. E, então, está do nosso lado! ― outro completou.
― Temos de mandar por ele... ― foi a palavra de Marcelino Pampa. ― Onde é que estará? Na Pavoã? Alguém tem de ir lá... ― E ele... E ver a vida! quem pensava? E é homem danado, zuretado... ― Está a favor da gente... E ele sabe guerrear... E era. Repegava a chuva, trozante, mas mesmo assim o Quipes e Cavalcânti montaram e saíram por ele, da Pavoã no rumo. De certo não acharam fácil, pois até à hora de escurecer não tinham aparecido. Mas! aquele homem, para que o senhor saiba, ― aquele homem! era Zé Bebelo. E, na noite, ninguém não dormiu direito, em nosso acampo. De manhã, com uma braça de sol, ele chegou. Dia da abelha branca.
De chapéu desabado, avantes passos, veio vindo, acompanhado de seus cinco cabras. Pelos modos, pelas roupas, aqueles eram gente do Alto Urucúia. Catrumanos dos gerais. Pobres, mas atravessados de armas, e com cheias cartucheiras. Marcelino Pampa caminhou ao encontro dele; seguinte de nosso comandante, nós formávamos. Valia ver. Essas cerimônias.
― Paz e saúde, chefe! Como passou?
― Como passou, mano?
Os dois grandes se saudavam. Aí Zé Bebelo reparou em mim:
― Professor, ara viva! Sempre a gente tem de se avistar... De nomes e caras de pessoas ele em tempo nenhum se esquecia. Vi que me prezava cordial, não me dando por traidor nem falso. Riu redobrado. De repente, desriu. Refez pé para trás.
― Vim de vez! ― ele disse; disse desafiando, quase.
― Em boa veio, chefe! E o que todos aqui representamos... ― Marcelino Pampa respondeu.
― A pois. Salve Medeiro Vaz!...
― Deus com ele, amigo. Medeiro Vaz ganhou repouso…
― Aqui soube. Lux eterna... ― e Zé Bebelo tirou o chapéu e se persignou, parando um instante sério, num ar de exemplo, que a gente até se comoveu. Depois, disse:
― Vim cobrar pela vida de meu amigo Joca Ramiro, que a vida em outro tempo me salvou de morte... E liquidar com esses dois bandidos, que desonram o nome da Pátria e este sertão nacional! Filhos da égua... ― e ele estava com a raiva tanta, que tudo quanto falava ficava sendo verdade.
― Pois, então, estamos irmãos... E esses homens?
Os urucuianos não abriram boca. Mas Zé Bebelo rodeou todos, num mando de mão, e declarou forte o seguinte:
― Vim por ordem e por desordem. Este cá é meus exércitos!...
Prazer que foi, ouvir o estabelecido. A gente quisesse brigar, aquele homem era em frente, crescia sozinho nas armas.
Vez de Marcelino Pampa dizer!
― Pois assim, amigo, por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos, juntos vamos.
― Amizade e combinação, aceito, mano velho. Já, ajuntar, não. Só obro o que muito mando; nasci assim. Só sei ser chefe.
Sobre curto, Marcelino Pampa cobrou de si suas contas. Repuxou testa, demorou dentro dum momento. Circulou os olhos em nós todos, seus companheiros, seus brabos. Nada não se disse. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Depressa deu, o consumado!
― E chefe será. Baixamos nossas armas, esperamos vossas ordens...
Com coragem falou, como olhou para a gente outra vez.
― Acordo! ― eu disse, Diadorim disse, João Concliz disse; todos falaram! ― Acordo!
Aí Zé Bebelo não discrepou pim de surpresa, parecia até que esperava mesmo aquele voto. ― De todo poder? Todo o mundo lealda? ― ainda perguntou, ringindo seriedade. Confirmamos. Então ele quase se aprumou nas pontas dos pés, e nos chamou!
― Ao redor de mim, meus filhos. Tomo posse! Podia-se rir. Ninguém ria. A gente em redor dele, misturando em meio nosso os cinco homens do Urucúia. Adiante! ― Pois estamos. E o duro diverso, meu povo. Mas os assassinos de Joca Ramiro vão pagar, com seiscentos-setecentos!... ― ele definiu, apanhando um por um de nós no olhar. ― Assassinos ― eles são os Judas. Desse nome, agora, que é o deles... ― explicou João Concliz.
― Arre, vote! dois judas, podemos romper as alelúias! Alelúia! Alelúia! Carne no prato, farinha na cúia!... ― ele aprovou, deu aquilo feito um viva. Nós respondemos. E assim era que Zé Bebelo era. Como quando trovejou: desse trovoo de alto e rasto, dos gerais, entrementes antes dos gotêjos de chuva esquentada: o trovão afunda largo, pé da gente apalpa a terra. Conforme foi: trovejou de cala-a-boca ― e Zé Bebelo tocou um gesto de costas da mão, respeitoso disse: ― Isto é comigo... Do que se tratava, retorno e conto, ele o seguinte revelou: ― Tudo eu não tinha, com os meus, munição para nem meia-hora... A gente reconheceu mais a coragem dele. Isto é, qualquer um de nós sabia que aquilo podia ser mentira. Mesmo por isso, somenos, por detrás de tanta papagaiagem um homem carecia de ter a valentia muito grande.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

16/01/2019

Ver

De tudo que João Guimarães Rosa escreveu, acho a estória do Miguilim a mais bonita. Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do sertão, precisava andar um dia a cavalo pra se chegar no mais próximo. Mas Miguilim via um mundo embaçado e pensava que o mundo era assim. Não via o passarinho no galho da árvore nem os brotos do milho saídos do chão. Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro. Desgostava. Batia. E no coração de Miguilim o ódio crescia. Mas um dia chegou um doutor montado em cavalo bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os olhos pra ver melhor. “Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...” E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito. “Olha agora!” Miguilim olhou. “Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...” Leiam e comparem, e vejam se o Miguilim não é o João. Os dois eram míopes sem saber. O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do João quando pôs os óculos pela primeira vez. E os dois brincavam com os mesmos brinquedos, até os boizinhos de sabugo, brancos, vermelhos e pretos, esses pretejados no fogo do fogão de lenha... Lendo o Miguilim aprendo sobre o João.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

06/09/2018

Sujeito escovado!

Nossas armas, com parte das roupas, campeamos um seguro lugar, deixamos escondidas. Aí, a gente se ajustou no meio do pessoal daquele doutor, que estava na mineração, que eu já disse e o senhor sabe.
Por que não ficamos lá? Sei e não sei. Sesfrêdo esperava de mim toda decisão. Algum remorso, de não se cumprir de ir, de desertados? Não vê que não, desafasto. Gente sendo dois, garante mais para se engambelar, etcétera de traição não sopra escrúpulos, como nem de crime nenhum, não agasta! igual lobisomem verte a pele. Só se, companheiros sobrantes, a gente amiúda no ajuizar o desonroso assunto, isto sim, rança o descrédito de se ser tornadiço covarde. Mas eu podia rever proveito, caçar de voltar dali para a casa-grande de Selorico Mendes, exigir meu estado devido, na Fazenda São Gregório. Temeriam! Assim e silva, como em outro tempo, adiante, podia flauteado comparecer no Buritís Altos, por conta de Otacília ― continuação de amor. Quis não. Suasse saudade de Diadorim? A ponto no dizer, menos. Ou nem não tinha. Só como o céu e as nuvens lá atrás de uma andorinha que passou. Talvez, eu acho, também, que foi juvenescendo em mim uma inclinação de abelhudice! assaz eu queria me estar misturado lá, com os medeiro-vazes, ver o fim de tudo. Em mês de agosto, burití vinhoso... Arassuaí não eram os meus campos... Viver é um descuido prosseguido. Aí, as noites cambando para o entrar das chuvas, os dias mal. Desenguli. ― Tempo de ir. Vamos? ― eu disse para Sesfrêdo. ― Vamos, demais! ― o Sesfrêdo me respondeu.
Ah, eh e não, alto-lá comigo, que assim falseio, o mesmo é. Pois ia me esquecendo! o Vupes! Não digo o que digo, se o do Vupes não orço ― que teve, tãomente. Esse um era estranja, alemão, o senhor sabe! clareado, constituído forte, com os olhos azuis, esporte de alto, leandrado, rosalgar ― indivíduo, mesmo.
Pessoa boa. Homem sistemático, salutar na alegria séria. Hê, hê, com toda a confusão de política e brigas, por aí, e ele não somava com nenhuma coisa: viajava sensato, e ia desempenhando seu negócio dele no sertão ― que era o de trazer e vender de tudo para os fazendeiros: arados, enxadas, debulhadora, facão de aço, ferramentas rógers e roscofes, latas de formicida, arsênico e creolinas; e até papa-vento, desses moinhos-de-vento de sungar água, com torre, ele tomava empreitada de armar. Conservava em si um estatuto tão diverso de proceder, que todos a ele respeitavam. Diz-se que vive até hoje, mas abastado, na capital ― e que é dono de venda grande, loja, conforme prosperou. Ah, o senhor conheceu ele? 0 titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor frasêia? Wusp? E. Seo Emílio Wuspes... Wúpsis... Vupses. Pois esse Vupes apareceu lá, logo vai me reconheceu, como me conhecia, do Curralinho. Me reconheceu devagar, exatão. Sujeito escovado! Me olhou, me disse: ― Folgo. Senhor estar bom? Folgo... E eu gostei daquela saudação. Sempre gosto de tornar a encontrar em paz qualquer velha conhecença ― consoante a pessoa se ri, a gente se acha de voltar aos passados, mas parece que escolhidas só as peripécias avaliáveis, as que agradáveis foram. Alemão Vupes ali, e eu recordei lembrança daquelas mocinhas ― a Miosótis e a Rosauarda ― as que, no Curralinho, eu pensava que tinham sido as minhas namoradas. ― Seo Vupes, eu também folgo. Senhor também estar bom? Folgo... ― que eu respondi, civilizadamente. Ele pitava era charutos. Mais me disse: ― Sei senhor homem valente, muito valente... Eu precisar de homem valente assim, viajar meu, quinze dias, sertão agora aqui muito atrapalhado, gente braba, tudo... Destampei, ri que ri, de ouvir.
Mas o mais garboso fiquei, prezei a minha profissão. Ah, o bom costume de jagunço. Assim que é vida assoprada, vivida por cima. Um jagunceando, nem vê, nem repara na pobreza de todos, cisco. O senhor sabe! tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade. São árvores que pegam poeira. A gente às vezes ia por aí, os cem, duzentos companheiros a cavalo, tinindo e musicando de tão armados ― e, vai, um sujeito magro, amarelado, saía de algum canto, e vinha, espremendo seu medo, farraposo! com um vintém azinhavrado no conco da mão, o homem queria comprar um punhado de mantimento; aquele era casado, pai de família faminta. Coisas sem continuação... Tanto pensei, perguntei! ― Para que banda o senhor tora? E o Vupes respondeu! ― Eu, direto, cidade São Francisco, vou forte. Para falar, nem com uma pontinha de dedo ele não bulia gesticulado. Então, era mesmo meu rumo ― aceitei ― o destinar! Daí, falei com o Sesfrêdo, que quis também; o Sesfrêdo não presumia nada, ele naquilo não tinha próprio destaque.
Mas os caminhos não acabam.Tal por essas demarcas de Grão-Mogol, Brejo das Almas e Brasília, sem confrontos de perturbação, trouxemos o seoVupes. Com as graças, dele aprendi, muito. O Vupes vivia o regulado miúdo, e para tudo tinha sangue-frio. O senhor imagine! parecia que não se mealhava nada, mas ele pegava uma coisa aqui, outra coisinha ali, outra acolá ― uma moranga, uns ovos, grelos de bambú, umas ervas ― e, depois, quando se topava com uma casa mais melhorzinha, ele encomendava pago um jantar ou almoço, pratos diversos, farto real, ele mesmo ensinava o guisar, tudo virava iguarias! Assim no sertão, e ele formava conforto, o que queria. Saiba-se! Deixamos o homem no final, e eu cuidei bem dele, que tinha demonstrado a confiança minha…
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

29/05/2018

João Goanhá

Ilustração: Rodrigo Rosa 

João Goanhá, por valentão e verdadeiro, nem carecia de estadear orgulho. Pessoa muito leal e briosa. Ele me disse: ― Agora, da gente não sei o que vai ser... Para guerra grande, eu acho que só Joca Ramiro é que era capaz... Ah , mas João Goanhá também tinha suas cartas altas. Homem de grito grosso. E, mesmo ignorante analfabeto, de repente ele tirava, sei não de onde, terríveis mindinhas ideias, mortes diversas. Assim a gente experimentava, cá e cá, falseando fuga. Os campos-gerais ali também tem. Tombadores. Arre, os tremedais; já viu algum? O chão deles consiste duro enxuto, normal que engana; quem não sabe o resto, vem, pisa, vai avançando, tropa com cavalos, cavalama. Seja sem espera, quando já estão meio no meio, aquilo sucrepa: pega a se abalar, ronca, treme escapulindo, feito gema de ovo na frigideira. Ei! Porque, debaixo da crosta seca, rebole ocultado um semifundo, de brejão engulidor... Pois, em roda dali, João Goanhá dispôs que a gente se amoitasse ― três golpes de homens ― tocaiando. Ao de manhã, primeiro passaram os do sargento Leandro, esses eram os menos, e um guia pagavam, por conhecer o caminho firme. Mas fomos lá, às pressas espalhamos de lugar os ramos verdes de árvore, que eles tinham botado para a certa informação. No depois, vinham os do tenente. Tenente, tenente, tu quer! Seguidos por ali entraram, ah. Dos nossos, uns, acolá, deram tiros, por disfarçação. Iscas! Cavalaria dos praças se avexou. Ave, e pronto, de repente foi! a casca de terra sacudia, se rachou em cruzes, estalando, em muitos metros ― balofou. Os cavalos entornados ― era como despejar prateleiras cheias ― e os soldados aiando gritos, se abraçavam com os animais caintes, ou com o ar, uns a esmo desfechavam mosquetão. Mas encalcados se afundando, pra não mais. A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi ― ôi... Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena.
Tanto por tanto, daí se encachorraram mais em nós, por beber vinganças. De campos e matas, vargens e grotas, em cada ponto para trás, dos lados e adiante da gente, ei eram só soldados, montão, se gerando. Furado-do-Meio. Serra do Deus-Me-Livre. Passagem da Limeira. Chapada do Covão. Solón Nelson morreu. Arduininho morreu. Morreram o Figueiró, Batata-Roxa, Dávila Manhoso, o Campêlo, o Clange, Deovídio, Pescoço-Preto, Toquim, o Sucivre, Elisiano, Pedro Bernardo ― acho que foram esses, todos. Chapada do Sumidouro. Córrego do Poldro. Mortos mais uns seis. Corrijo! com outros, que pegos presos ― se disse que foram acabados! Doideamos. A Bahia estava cercada nas portas. Achavam de tomar regalia de desforra na gente, até qualquer molambo de sujeito, paisano morador. Ah, às vezes, perdiam ligeiro essa graça... Gerais da Pedra. Lá, o Eleutério se apartou da gente, umas cem braças, e foi, a pé, bateu em porta duma cafua, por esclarecer. O capiau surgiu, ensinou alguma coisa, errada. Eleutério agradeceu, deu as costas, veio andando uns passos. O capiau então chamou. Eleutério virou para trás, para ouvir o que havia, e levou na cara e nos peitos o cheio duma carga de chumbo fino. Cegou, rodou, entrupicado, arreganhava os braços, todo se sarapintando das manchas vermelhas, que cresciam. O cabelo dele aumentou em pé. E a soldadesca atirava, de emboscados no mato do córrego, e na beira do cerrado, da outra banda. O capiau se encobriu detrás do fôrno de assar biscoito ― de lá fazia pontaria com a espingarda ― e balas nossas levantavam terra ao redor dali, feito um ciscado de cachorro grande. Dentro da cafua também restavam outros soldados; que deram contas a Deus. Ataliba, com o facão, pregou o capiau na taipa da cafua, ele morreu mansinho, parecia um santo. Ficou lá, espetado. Nós ― eh ― bom. Conseguimos aragem. Até em um ponto de a salvo conversarmos.
Serra Escura. Nem munição nem de-comer não sobravam. De forma que a gente carecia de se separar, cada um por seu risco, como pudesse caçar escape. Se esparramavam os goanhás. De si por si, quem vivesse viesse para cá do Rio, para reunião: na juntura da Vereda Saco dos Bois com o Ribeirão Santa Fé. Ou ir de direto para onde estivesse Medeiro Vaz. Ou, caso o inimigo rondasse perto demais, então no Burití-da-Vida, São Simão do Bá, ou mais em riba, ali onde o Ribeirão Gado Bravo é vadeável. Ao que João Goanhá mandou. A pressa era pressa. O ar todo do campo cheirava a pólvora e a soldados. Diante de mim, nunca terminava de atar as correias do gibão um Cunha Branco, sarado, cabra velho guerreiro: ele boiava língua em boca aberta. E medo, meu, medi muito maior. Se despedimos. Escorregando sem rumo, eu fui, vim, o Sesfrêdo comigo também, viemos. Com a graça de Deus, saímos fora da roda do perigo. Chegamos no Córrego Cansanção, não longe do Arassuaí. Por durante um tempo, carecíamos de ter algum serviço reconhecido, no viver tudo cabe.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

23/04/2018

Regra do mundo é muito dividida

Galopando junto com o Sesfrêdo, larguei aquele lugar do Burití das Três Fileiras. Pesares que me desenrolavam. E então eu decifrei meu arranque de ter querido vir com o Sesfrêdo. Que ele, se sabia, tinha deixado, fazia muitos anos, em terras do Jequitinhonha, uma moça que apaixonava, e que era a mocinha de cabelos louros. ― Sesfrêdo, me conta, me fala nesse acontecer... ― nem bem cem braças andadas eu já pedia a ele. Era como se eu tivesse de caçar emprestada uma sombra de um amor.
― E você não volta para lá, Sesfrêdo? Você aguenta o existir? ― perguntei. ― Guardo isso, para às vezes ter saudade. Berimbau! Saudade, só... ― e ele alargou as ventas, de tanto riso. Vi que a estória da moça era falsa. De inventar pouco se ganha. Regra do mundo é muito dividida. O Sesfrêdo comia muito. E sabia assoviar seguido, copiando o de muitos pássaros.
Ao viável, eu tinha de atravessar as tantas terras e municípios, jogamos uma viagem por este Norte, meia geral. Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido. A que viemos: por Extrema de Santa Maria ― Barreiro Claro ― Cabeça de Negro ― Córrego Pedra do Gervásio ― Acarí ― Vieira ― e Fundo ― buscando jeito de encostar no de São Francisco. Novidade não houve. Passamos, numa barca. Só sempre bater para o nascente, direitamente em cima de Tremedal, chamada hoje Monte-Azul. Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá, na Jaíba, até à Serra Branca, brabas terras vazias do Rio Verde-Grande. De madrugada, acordamos em sua janela um velhozinho, dono de um bananal. O velhozinho era amigo, executou o recado. Daí a cinco madrugadas, retornamos. Era para vir alguém, quem veio foi João Goanhá, próprio. E as descrições que deu foram de todas as piores. Sô Candelário? Morto em tiroteio de combate, metralhadoras tinham serrado o corpo dele, de esguêlha, por riba da cintura. O Alípio, preso, levado para a cadeia de algum lugar. Titão Passos? Ah, perseguido por uma soldadesca, tivera de se escapar para a Bahia, pela proteção do Coronel Horácio de Matos. Só mesmo João Goanhá era quem ainda estava. Comandava saldo de uns homens, os poucos. Mas coragem e munição não faltavam. ― E os Judas? ― perguntei, com triste raciocínio! por que era que os soldados não deixavam a gente em paz, mas com aqueles não terçavam? ― Se diz que eles têm uma proteção preta... ― João Goanhá me esclareceu! ― O Hermógenes fez o pauto. E o demônio rabudo quem pune por ele... Nisso todos acreditavam. Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que eu fui o primeiro que cri.
Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade. Porque ele sabia que os Judas, reforçados, tinham resolvido passar o Rio em dois lugares, e marcharem em cima de Medeiro Vaz, para acabar com ele de uma vez, no país de lá. Onde era que o perigo, Medeiro Vaz precisava de nós.
Mas não pudemos. Mal a gente se tocou, para a Cachoeira do Salto, e esbarramos com tropa de soldados ― tenente Plínio. Foi fogo. Fugimos. Fogo no Jacaré Grande ― tenente Rosalvo. Fogo no Jatobá Torto ― sargento Leandro. Volteamos. Sobre aí, me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. No formato da forma, eu não era o valente nem mencionado medroso. Eu era um homem restante trivial. A verdade que diga, eu achava que não tinha nascido para aquilo, de ser sempre jagunço não gostava. Como é, então, que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém. Acho, acho, é do influimento comum, e do tempo de todos. Tanto um prazo de travessia marcada, sazão, como os meses de seca e os de chuva. Será? Medida de muitos outros igualasse com a minha, esses também não sentindo e não pensando. Se não, por que era que eram aqueles aprontados versos ― que a gente cantava, tanto toda-a-vida, indo em bando por estradas jornadas, à alegria fingida no coração?
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

25/02/2018

Coração meu foi forte

Isto, sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados? De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa ― não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Nem para se definir calado, em si, um assunto contrário absurdo não concede seguimento. Voltei para os frios da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher!
Ou conto mal? Reconto.
Ao que nós acampados em pé duns brejos, brejal, cabo de várzea. Até, lá era favorável de defender que os cavalos se espairassem ― por ter manga natural, onde se encostar, e currais falsos, de pegar gado brabeza. Natureza bonita, o capim macio. Me revejo, de tudo, daquele dia a dia. Diadorim restava um tempo com uma cabaça nas duas mãos, eu olhava para ela. Seja por ser, Riobaldo, que em breve rompemos adiante. Desta vez, a gente tange guerra... ― pronunciou, a prazer, como sempre quando assim, em véspera. Mas balançou a cabaça: tinha um trem dentro, um ferro, o que me deu desgosto; taco de ferro, sem serventia, só para produzir gastura na gente. ― Bota isso fora, Diadorim! ― eu disse. Ele não contestou, e me olhou de um hesitado jeito, que se eu tivesse falado causa impossível. Em tal, guardou o pedaço de ferro na algibeira. E ficava toda-a-vida com a cabaça nas mãos, era uma cabaça baiana fabricada, desenhada de capricho, mas que agora sendo para nôjo. E, como me deu sede, eu peguei meu copo de corno lavrado, que não quebra nunca, e fomos apanhar água num poço, que ele me disse. Era por esconso por uma palmeira ― duma de nome que não sei, de curta altura, mas regrossa, e com cheias palmas, reviradas para cima e depois para baixo, até pousar no chão com as pontas. Todas as palmas tão lisas, tão juntas, fechavam um coberto, remedando choupã de índio. Assino que foi de avistarem umas assim que os bugres acharam ideia de formar suas tocas. Aí a gente se curvar, suspendia uma folhagem, lá entrava. O poço abria redondo, quase, ou ovalado. Como no recesso do mato, ali intrim, toda luz verdeja. Mas a água, mesma, azul, dum azul que haja ― que roxo logo mudava. A vai, coração meu foi forte. Sofismei! se Diadorim segurasse em mim com os olhos, me declarasse as todas as palavras? Reajo que repelia. Eu? Asco! Diadorim parava normal, estacado, observando tudo sem importância. Nem provia segredo. E eu tive decepção de logro, por conta desse sensato silêncio? Debrucei, ia catar água. Mas, qual, se viu um bicho ― rã brusca, feiosa! botando bolhas, que à lisa cacheavam. Resumo que nós dois, sob num tempo, demos para trás, discordes. Diadorim desconversou, e se sumiu, por lá, por aí, consoante a esquisitice dele, de sempre às vezes desaparecer e tornar a aparecer, sem menos. Ah, quem faz isso não é por ser e se saber pessoa culpada?
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas