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16/11/2024

O poeta e seu mestre

Tiro da sua cartola
repleta de astros,
mil sobrenaturais
paisagens de infância.

Sua bengalinha
queima os ditadores,
destrói as muralhas
libertando os anjos.

Calço seu sapato
e eis que percorro
a branca anatomia
de pássaros e flores.

Repito seus gestos
de amor e renúncia,
de música ou luta,
de solidariedade.

Carlitos!
Teu bigode é a ponte
que nos liga ao sonho
e ao jardim tão perto.

José Paulo Paes, em Poesia completa

02/06/2020

Injeção letal

Fotograma do filme Monsieur Verdoux (1947), de Charles Chaplin

Eu era bem pequeno quando soube que seres humanos executavam outros. Não, não era matar. Sabia que havia muitas mortes assassinas e guerras. Mas “executar” é um jeito diferente de matar: jeito científico, frio, legal, morte que tranquiliza a sociedade.
Um nenezinho de vinte meses... Fora roubado do seu berço, filho do famoso aviador Charles Lindenberg... Foi encontrado morto e o suposto criminoso — digo “suposto” porque sua culpa nunca foi provada — afirmou sua inocência até o fim. Mas a sociedade precisa encontrar um culpado para se vingar. Toda execução é um ato de vingança.
Depois — anos da guerra fria, o mundo estava cheio de espiões comunistas —, um casal de cientistas, os Rosenberg, foi acusado de passar segredos atômicos para os soviéticos. Foram também mortos na cadeira elétrica.
Fico a imaginar o caráter, a alma de uma pessoa que se dedica a inventar uma máquina que será usada para matar com a bênção do Estado. Pergunto-me: Sua alma será pura ou assassina? Guillotin, inventor da guilhotina: sua alma, como seria ela? Ele nunca matou. Não foi um criminoso. Só criou um instrumento de matar.
Quem terá tido a ideia de uma “cadeira elétrica”? Terá sido inventada por uma pura explosão de criatividade individual ou sido construída por encomenda, por físicos, eletricistas e biólogos?
Imagino os últimos passos do condenado, as pernas trêmulas, o medo perpassando cada centímetro do seu corpo... Terminada a caminhada, o condenado terá de se assentar, e será amarrado para impedi-lo de qualquer quebra da etiqueta do momento. E a sua cabeça será coberta com um capuz para proteger as testemunhas do horror de ver o seu rosto. Que brilho sairá dos seus olhos enquanto seu corpo vai sendo atravessado por milhares de volts?
O outro de que me lembro foi Caryl Chessman, que passou muitos anos na prisão, chegando a diplomar-se em direito. Dessa vez o método foi outro: o prisioneiro amarrado numa cadeira, as testemunhas do lado de fora da câmara isolada, pastilhas de cianureto são jogadas dentro de um ácido. O vapor começa a subir. O condenado prende a respiração — a respiração será a morte e ele não quer morrer. Até que o corpo não resiste, respira... A cabeça tomba... Uma testemunha da execução de Caryl Chessman, que se tornara seu amigo, relatou que seu último gesto antes da inspiração mortífera foi uma piscada matreira de olho com um sorriso...
Pergunto: esse que foi executado hoje é o mesmo que cometeu um crime anos antes? O condenado no passado não será uma outra pessoa, inocente, no presente?
A execução de Teresa Lewis, numa das penitenciárias dos Estados Unidos, me fez pensar. Execução caridosa, hospitalar, indolor, por uma injeção letal... Perguntei-me, num impulso de humor negro, se todas as normas médicas haviam sido obedecidas... Desinfetaram o lugar onde a agulha ia ser introduzida para evitar alguma infecção?
Sua execução me fez lembrar uma outra, com que termina um filme de Charles Chaplin, Monsieur Verdoux (1947)...
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

04/01/2020

Monsieur Verdoux

Monsieur Verdoux é um filme de 1947, dirigido e estrelado por Charles Chaplin. A Wikipédia o descreve como filme do gênero “humor negro”. Humor negro é um gênero de humor que faz uso de “situações de mau gosto, usualmente de natureza mórbida, para fazer rir”. Mas, quando o vi, em nenhum momento senti vontade de rir. Portanto, seu script nada tem de humor. Para mim, ele está mais próximo da tragédia... Em Portugal, apareceu com o nome de Barba Azul, que, a meu ver, é um equívoco, porque coloca na sombra o segundo personagem do filme, que faz contraponto com Monsieur Verdoux.
Coisa semelhante os pregadores fizeram com a parábola chamada de “o filho pródigo”. Mas onde se encontra o segundo irmão, que não era pródigo? O sentido da parábola vem, precisamente, do contraponto que acontece entre os dois irmãos. Fazendo silêncio sobre o segundo filho, a parábola perde completamente o seu sentido. Chamar o filme de Barba Azul é perder o seu sentido.
Monsieur Verdoux era um homem casado com uma mulher paralítica, com quem havia tido uma filha. Sem meios para sustentar esposa e filha a quem muito amava, ele inventou uma técnica para ganhar dinheiro: viajava com olhos de caçador, procurava mulheres ricas e solitárias, envolvia-as numa trama amorosa, convencendo-as a passar seus investimentos econômicos para ele, matava-as e fazia o corpo desaparecer. Até aqui, o filme é uma simples repetição da estória do Barba Azul... Monsieur Verdoux era um assassino amoroso; matava não por maldade, mas por compaixão.
Mas, paralelamente à estória de Monsieur Verdoux, corria ao mesmo tempo uma outra. Era tempo de guerra. Tempo de guerra é tempo de muitas mortes. Só que as muitas mortes das guerras não são assassinatos, não são crimes. São atos impostos pelas razões do poder bélico. Não há culpados. Aqueles que matam muitos são heróis, recebem condecorações.
Não estou bem certo acerca dos detalhes que se seguem... Aparece o segundo personagem da estória: um industrial que se enriquecera com a fabricação de canhões... Como se sabe, a fabricação, venda e uso de armas é uma das grandes fontes da riqueza e do progresso das nações.
Muitos anos atrás, eu li um livro com o título Report from the Iron Mountain. Era o fim da guerra fria. O fim da guerra fria trazia um perigo: um esfriamento no negócio das armas. Pois é claro: sem a ameaça de guerra, a demanda de armas seria menor. O dito livro continha um relatório: o governo dos Estados Unidos, preocupado com o impacto econômico da paz, reuniu vários cientistas e lhes propôs um problema: “Que rumo deveria tomar a economia norte-americana se um período de paz viesse para o mundo?”. Os ditos cientistas, depois de analisar a questão, concluíram: “Um período de paz teria consequências imprevisíveis, devastadoras, catastróficas, impensáveis, para a economia norte-americana”. É preciso reconhecer: a economia dos países ricos depende pesadamente da produção e venda de armas. É preciso reconhecer: o crime e o terrorismo são o lado negro, escondido, do progresso econômico.
O desfecho do filme é a revelação da alma dessas irmãs gêmeas, política e economia: o fabricante de canhões fica mais rico e é condecorado. Monsieur Verdoux é descoberto e guilhotinado.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

04/09/2019

O Chaplin das crianças

Fotograma de Tempos Modernos, de Charles Chaplin 

Não faz muito tempo, passaram Tempos modernos aqui, outra vez, e a gurizada foi ver e gostou. Achou engraçado engraçado, não apenas engraçado curioso. Você e eu não temos mais condições de julgar um filme de Chaplin. A obra de Chaplin faz parte do nosso patrimônio cultural e mental. A gente a reverencia mesmo sem ver. Gosta por obrigação. Mas as crianças não tinham nenhum compromisso com Chaplin, mal sabiam de quem se tratava, e gostaram porque gostaram. E eu suspirei aliviado. Uma vez, tínhamos visto juntos uma coleção de curtas-metragens antigos — inclusive do Chaplin —, e a reação geral fora de profunda chateação. Minha também, só que eu não podia confessar. E saí da experiência com sombrias premonições. Acabara-se a inocência do mundo.
As pessoas se preocupam com o efeito da violência na sensibilidade das crianças, mas minha preocupação é um pouco diferente. Tenho medo que esta seja uma geração à prova de deslumbramento. Uma geração dessensibilizada não pela desumanidade que a técnica moderna transmite, mas pela própria técnica moderna. Certamente, não eram menos violentos do que os seriados de TV de hoje as comédias pastelão de 50 anos atrás, quando pastelão era apenas uma das muitas coisas que as pessoas levavam na cara. Mas a novidade do cinema — a primeira arte elétrica, o primeiro divertimento industrial — prevenia contra a banalização da violência. Todos os saltos dados pela técnica do entretenimento e da informação desde então nos encontraram dispostos ao deslumbramento. Me lembro que quando a televisão mostrou as primeiras tomadas da Lua, diretamente da nave que a circundava, ficamos, os adultos, de boca aberta, emocionados, na frente da TV até que uma das minhas filhas entrou na sala e perguntou quando aquilo ia acabar, que ela queria ver um desenho animado.
Sinto muito que meus filhos não terão mais nada com o que se emocionar no desenvolvimento da técnica de divertir, mas talvez seja melhor assim. A técnica não quer dizer mais nada para quem nasceu na era da televisão. A técnica já chegou a Marte e não tinha nada lá, grande coisa. Mas a simples astúcia do corpo de um comediante, a sabedoria de um gesto feito há 50 anos e mal preservado em celulóide, ainda é compreendida e ainda faz rir. Talvez o fim do deslumbramento com a técnica seja o começo da verdadeira inocência, depurada e receptiva, e muito mais bem informada do que a nossa.
A tentação da pieguice é grande, nesta hora em que fazemos a elegia não só de um grande artista como da nossa inocência superada, e a melhor maneira de evitá-la é elogiar aquilo que, em Chaplin, não pertence à nossa geração, mas a transcende. Quem, como eu, se criou numa época em que Chaplin já era mais uma legenda do que uma celebridade do cotidiano, herdou mesmo assim todas as conotações que cercavam o seu nome, desde o primeiro encanto com o cinema da geração que nos precedeu, até a solidariedade política com o homem internacional e perseguido. Mas o que transcende a nossa época e hoje encanta as crianças é o que importa em Chaplin. O Carlitos vagabundo que para duas gerações simbolizou a vítima de um mundo cruel, revisto com outros olhos, não se mostra tão vítima assim. Carlitos dava tanto quanto apanhava, e ficava com a mocinha mais vezes que a perdia. A máquina não derrotou Carlitos, como a técnica não dessensibilizou nossos filhos, e a permanência de Carlitos é a prova das duas coisas.
Carlitos era um irreverente, tão irreverente quanto Groucho Marx, embora sem as suas frases, mas a minha geração insistiu em sentimentalizá-lo até o desfiguramento. Desconfio que as crianças das nossas crianças rirão de nós tanto quanto de Carlitos quando, no futuro, revirem os seus filmes e as nossas elegias.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

06/12/2016

Canto ao homem do povo Charles Chaplin

I

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes,
os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
Carlos Drummond de Andrade

12/08/2016

Canto ao homem do Povo - Charles Chaplin


http://www.doctormacro.com/Images/Chaplin,%20Charlie/Chaplin,%20Charlie_01.jpg 

I


Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.
E falam as flores que tanto amas quando pisadas,

falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
Carlos Drummond de Andrade

17/07/2016

Humanizarmo-nos

“Pensamos muito, mas sentimos pouco. Temos mais necessidade de espírito humano do que de mecanização.”
Charles Chaplin

13/03/2016

Para os tempos atuais: Discurso de Charlie Chaplin em "O grande ditador", legendado em português



“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria dos outros. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Desenvolvemos a velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: Não se desesperem! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Vocês não são máquinas! Vocês são homens! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odeiem! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumano.
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutem pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens! Está em todos vocês! Vocês, o povo, têm o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vocês, o povo, têm o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo decente que vai dar ao homem uma chance de trabalhar, que dê futuro à mocidade e segurança aos idosos.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos nós. Soldados, em nome da democracia, vamos todos nos unir!
Então, dirige-se a Hannah :
Hannah, está me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!.”
Charles Chaplin, in Discurso final do filme O Grande Ditador

06/03/2016

Neste mundo há lugar para toda a gente

“Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviamo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.
O avião e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destes inventos é um apelo à fraternidade universal, à união de todos. Neste momento, a minha voz alcança milhões de pessoas através do mundo, milhões de homens sem esperança, de mulheres, de crianças, vítimas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes. Àqueles que podem ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm receio de ver a humanidade progredir. O ódio dos homens há-de passar, e os ditadores morrem, e o poder que tiraram ao povo, o povo o retomará. Enquanto os homens morrerem, a liberdade não perecerá.”
Charles Chaplin, in discurso final de O Grande Ditador

07/05/2015

Perdoar é nobre

“Falar pouco é virtude, aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo. Para qualquer escolha se segue alguma consequência; vontades efêmeras não valem a pena. Quem faz uma vez, não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente. Não é preciso perder pra aprender a dar valor, e os amigos ainda se contam nos dedos. Aos poucos você percebe o que vale a pena: o que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos.”
Charles Chaplin

09/11/2013

O discurso final de "O grande ditador"


"Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio nos aproximou. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, a união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora. Milhões de desesperados: homens, mulheres, criancinhas, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que podem me ouvir eu digo: não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais, que vos desprezam, que vos escravizam, que arregimentam vossas vidas, que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos. Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão. Não sois máquina. Homens é que sois. E com o amor da humanidade em vossas almas. Não odieis. Só odeiam os que não se fazem amar, os que não se fazem amar e os inumanos.
Soldados! Não batalheis pela escravidão. Lutai pela liberdade. No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens. Está em vós. Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas; o poder de criar felicidade. Vós o povo tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam. Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão. Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e a prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos. Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam. Estamos saindo da treva para a luz. Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah. A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah. Ergue os olhos." 
Charles Chaplin

01/08/2013

Heróis e tiranos

“A humanidade não se divide em heróis e tiranos. Suas paixões, boas ou más, foram-lhes dadas pela sociedade, não pela natureza.”
Charles Chaplin

26/12/2012

Viva intensamente

"A Vida é uma peça de teatro que não permite ensaios... Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente cada momento de sua vida... Antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."
Charles Chaplin

14/08/2012


"Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis."
Charles Chaplin