I
Era
preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos
mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou
nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera
dos sonhos lúcidos,
era
preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares,
vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas
mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada,
se bem que o heroísmo se banhe em ironia,
era
preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua
pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse
recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas
coisas, sobcolor de poema.
Para
dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo
mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo -
inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco,
sapatos compridos, olhos melancólicos,
vagabundos
que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas
tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a
fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo
dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.
Bem
sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e
costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e
entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as
mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.
Não
é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles
não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem
faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como
um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos
jardins.
Falam
por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de
tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da
vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de
música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e
salvaram-se.
Falam
por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os
parias, os falidos, os mutilados, os deficientes,
os
indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os
pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.
E
falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de
vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os
instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada
troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
Carlos
Drummond de Andrade