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20/10/2019

A festa da natureza

Chegando o tempo do inverno,
Tudo é amoroso e terno,
Sentindo o Pai Eterno
Sua bondade sem fim.
O nosso sertão amado,
Estrumicado e pelado,
Fica logo transformado
No mais bonito jardim.

Neste quadro de beleza
A gente vê com certeza
Que a musga da natureza
Tem riqueza de incantá.
Do campo até na floresta
As ave se manifesta
Compondo a sagrada orquesta
Desta festa naturá.

Tudo é paz, tudo é carinho,
Na construção de seus ninho,
Canta alegre os passarinho
As mais sonora canção.
E o camponês prazentero
Vai prantá fejão ligero,
Pois é o que vinga premero
Nas terras do meu sertão.
Patativa do Assaré

30/09/2019

O sertão

O sertão não conhece o mar. O mar não conhece o sertão. Não se tocam. Não se veem. Não se buscam. Mas há em ambos a mesma grandeza, a mesma imponência, a mesma inescrutabilidade. Sobre um e outro se estende esse mesmo enigma das majestades indecifráveis. De um e outro ressalta a mesma expressão de energia, força e poder a que se não resiste. Um e outro se nos antolham, do mesmo modo, como dois reservatórios insondáveis e inesgotáveis de vida.
Ante um e outro nos sentimos nulos, em todo o acanhamento do nosso nada, e temos a visão da imensidade, a sensação do infinito, a impregnação do eterno. É a comoção religiosa, que vibrava entre os primeiros navegadores, quando, ao avistarem a ourela das praias, onde se franja o pélago azulado, lhes saía d’alma todo um hino em um só grito: “O mar!”, “o mar largo!”. Assim me rebentava, há pouco, do seio, ao dar com os olhos na primeira orladura da região das matas e das serras este clamor íntimo de alvoroço: “O sertão! o sertão livre!”.
Não será livre o sertão? É, senhores, como se fizéssemos estoutra pergunta: “Não é livre o mar?”.
A questão, quanto ao mar, não existe, embora a vejamos estabelecida, a outra luz, em termos, que lhe tornem duvidosa a resposta. As potências navais contendem pelo domínio das suas armas nas estradas marítimas. Mas não há tratados, que logrem subjugar o indômito elemento das vagas. Juntasse embora o orgulho humano todos os seus monstros de guerra; e todos eles juntos não conseguiriam abaixar o dorso das águas eternas. Fundisse embora a indústria humana todo o metal, que se acumula nas entranhas da terra; e todo o ferro do planeta, minerado e forjado, não daria cadeias bastantes, para acorrentar a fúria de um maremoto. Cobrissem embora todas as frotas do mundo com o enxame dos seus navios a superfície inteira das ondas; e um movimento destas as poderia sepultar nas profundezas do abismo. Só Deus possui o jugo, a que se curva o oceano.
Mas se o Criador o mandasse calar; se lhe ordenasse às correntes que parassem, e, esfriando-lhe as entranhas, lhe comprimisse debaixo da mão onipotente as ondas remansadas, a vasta massa guardaria na sua imobilidade a imagem do movimento subitamente paralisado, o aspecto de uma grandeza adormecida à espera de outro milagre do céu, que a volvesse ao calor e inconstância de sua existência agitada.
Rui Barbosa, in Antologia

17/09/2019

Encontros e encantos - Guimarães Rosa

[...] A construção de um lugar fantástico
A palavra “sertão” é curiosa. A sonoridade sugere o verbo “ser” numa dimensão empolada. Ser tão, existir tanto. Os portugueses levaram a palavra para África e tentaram nomear assim a paisagem da savana. Não resultou. A palavra não ganhou raiz. Apenas nos escritos coloniais antigos se pode encontrar o termo “sertão”. Quase ninguém hoje, em Moçambique e Angola, reconhece o seu significado.
João Guimarães Rosa criou este lugar fantástico, e fez dele uma espécie de lugar de todos os lugares. O sertão e as veredas de que ele fala não são da ordem da geografia. O sertão é um mundo construído na linguagem. “O sertão”, diz ele, “está dentro de nós.” Rosa não escreve sobre o sertão. Ele escreve como se ele fosse o sertão.
Em Moçambique nós vivíamos e vivemos ainda o momento épico de criar um espaço que seja nosso, não por tomada de posse, mas porque nele podemos encenar a ficção de nós mesmos, enquanto criaturas portadoras de História e fazedoras de futuro. Era isso a independência nacional, era isso a utopia de um mundo sonhado.

A instauração de um outro tempo
Já vimos que o sertão é o não-território. Veremos que o seu tempo não é o vivido mas o sonhado. O narrador do Grande sertão: veredas diz: “Estas coisas de que me lembro se passaram tempos depois”. E ele poderia dizer de outro modo: as coisas importantes passam sempre para além do tempo.
O que Rosa perseguiu na escrita foi (estou citando) “essa coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, a que chamamos de ‘realidade’, e que é a gente mesmo, o mundo, a vida”. A transgressão poética é o único modo de escaparmos à ditadura da realidade. Sabendo que a realidade é uma espécie de recinto prisional fechado com a chave da razão e a porta do bom-senso [...].
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

21/06/2016

Saudade dessa terra infernal

“– Não interrompendo... Como é que se tem saudade dessa terra infernal?
Moço, sertanejo não se adoma no brejo. O sertão é pra nós como homem malvado pra mulher: quanto mais maltrata, mais se quer bem. Aperreia, bota pra fora e, na primeira fuga, se volta em cima dos pés.
E levantando-se para fechar a porta:
- E foi a seca que me deu coragem. Porque saber sofrer, moço, isso é que é ter coragem.”
José Américo de Almeida, in A Bagaceira

28/04/2016

Lulinha Alencar - Cem Gonzaga*



*Belíssimo CD de Lulinha Alencar, grande sanfoneiro potiguar, de Rafael Godeiro, que afirma no encarte: "Nasci no sertão potiguar no dia treze de dezembro e fui batizado como nome de Luiz. Não deve ser por acaso que esse meu primeiro disco seja uma homenagem a outro Luiz também nascido em treze de dezembro, no sertão pernambucano. Reside nessa ligação afetiva e artística o motivo para o Cem Gonzaga, que faz um trocadilho com a influência e ao mesmo tempo a ausência de um dos maiores mestres da música brasileira."

22/01/2016

Ia chover: a caatinga ressuscitaria

Google Imagens

Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia porquê, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no céu. A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a. solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.
Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
Eram todos felizes. Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria, as nádegas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.
A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.
A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.
Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam a cara triste de Sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A catinga ficaria verde. Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.
Graciliano Ramos, in Vidas Secas

21/01/2016

Invernada no sertão

O sertanejo amola a enxada,
Bate estaca na cerca, troca arame,
Faz o broque da malva e do velame,
Ara as terras da serra e da baixada,
Quando a nuvem destampa a invernada,
Corta a terra, abre cova, põe o grão,
E espera, do céu, a redenção,
E da terra, a fartura pro seu lar,
O inverno chegou para animar
O caboclo sofrido do sertão.

Em mil regos água se derrama,
Rebentando nas pedras do serrote,
Bezerro pelo prado dá pinote,
Galinha cacareja, cisca a grama,
Marmeleiro ligeiro pega rama,
Passarada entoa uma canção,
Mané Besta na ponta dum mourão,
Faz firula por não saber cantar,
O inverno chegou para animar,
O caboclo sofrido do sertão.

Papa-sebo bicora uma saúva,
Berra um bode ao longe, a vaca muge,
A ovelha se farta na babuge,
Abrem flores nas “Toucas de Viúva,”
Natureza celebra quando a chuva,
Se despenca do céu e cai no chão,
Cada vivo renasce numa ação,
Que o milagre da chuva fez brotar,
O inverno chegou para animar,
O caboclo sofrido do sertão.
Zenóbio Oliveira

07/12/2015

Eita bixiga taboca, isso só tem no sertão

Xarope de Malvarisco,
Pra curar tosse puxada,
Um rosário na portada,
Pra proteger de corisco,
Um cordão de São Francisco,
Pra frear assombração,
Catuaba com limão,
Pra animar velho coroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um pirão de Sabaru,
Na hora da gororoba,
Café de Mangirioba,
Com o mel do Capuxu,
Melador de Cumaru,
Pra curar constipação,
Uma piraca a carvão,
Pra espantar muriçoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Uma tigela de fuba,
Peneirada em urupemba,
Um cavalo de catemba,
De talo de carnaúba,
Reza braba que derruba,
Mau-olhado e maldição,
Duas moças num pilão,
Caçulando uma paçoca
Eita bixiga taboca
Isso só tem no sertão.

O povo escutando um jogo,
Num rádio antigo da SEMP,
Um bule em riba da trempe,
Com café pegando fogo,
Uma galinha com gogo,
Babando que só o cão,
Um galo ciscando o chão,
Doido pra achar minhoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Tarrafa malha miúda,
Pra pesca de sabaru,
Banha de tejuaçu,
Pra dor de garganta aguda,
O chá da folha de arruda,
Pra descer menstruação,
Ninho de palha no chão,
Pra deitar galinha choca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um baú na camarinha,
E um monte de troço dentro,
Uma horta de coentro,
No terreiro da cozinha,
Um poleiro de galinha,
Nos dois ganchos dum pinhão,
E o roçado de feijão,
Precisando duma broca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Quixó, fojo, landuá,
Arataca e arapuca,
Tocaia, facho, cumbuca,
Mundé de pegar preá,
Anzol, rede de pescar,
Negaça, sangra, alçapão,
Garrucha, funda, facão,
E espingarda de soca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Batata de macambira,
Pra fazer ração bovina,
Uma cerca de faxina,
Amarrada com embira,
Cortiço de Jandaíra,
Pendurado no oitão,
Um pinto na plantação,
Pinicando tamboroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.
Zenóbio Oliveira

24/09/2014

Sertão é quando menos se espera



“Um lugar conhece outro é pôr calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida. Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas — e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção. 
Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Quadrante que assim viemos, pôr esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos. Sertão, — se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, pôr si, quando a gente não espera, o sertão vem. O sertão não chama ninguém às claras, mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…”
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

24/04/2014

O Sertão, do mesmo ângulo*

 
Foto de 03 de janeiro de 2013

Foto de 19 de abril de 2014

Fotografei do mesmo ângulo, a partir da janela da cozinha de minha sogra, D. Socorro Marinho, em Pau dos Ferros – RN, em épocas diferentes, ou seja, antes e durante o inverno. Reparem nos arvoredos e nas Moitas ressequidos, esquálidos, sem vida. Com as chuvas, viçosas, revigoradas. O pasto já não deixe ver o arame farpado. É o milagre da água, da invernada.

04/03/2014

A seiva doce do massapê

Mesmo a grafia indicando som aberto, a sonoridade do mato consagrou o som fechado, massapê. Mais bonito e mais próximo da sua compleição. Até porque cada palavra acaba incorporando na sonoridade da pronúncia o formato da coisa nominada.
Quando no sertão, vítima das secas e dos teóricos distantes, que se arvoram em conhecedores das dores daqui, as primeiras chuvas do ano adocicam a seiva dos tabuleiros e recepcionam a maciez colorida do capim de seda, o plantador de feijão remexe com as mãos a umidade do massapê. Depois, põe a mão em forma de aba sobre os olhos e paquera as torres do Nascente.
Os primeiros brotos da cebola braba animam-se nos quintais anunciando mais uma espera. Junta-se a eles o cantar dobrado do sabiá, que só canta assim nas vésperas de chuva. Em ano de seca fechada, o sabiá trina uma toada linear, sem dobra, sem risco do desafino. Ele não quer iludir as sementes guardadas num frasco de plástico, longe do gorgulho, que semearão a terra molhada para a colheita no tempo das fogueiras.
Quem sabe disso tudo é Tico de Quinola, habitante da ponta do banco de cumaru, na parte oeste do balcão da bodega de Priquitim, onde ele se aboleta desde cedo, a receber agrados de cachaça, acompanhada de pequenos pedaços de laranja ou mais raramente um naco de queijo de coalho.
Fala pouco, como toda gente sabida. Ouve primeiro, para não desagradar a opinião do freguês passante. Pode lhe custar uma dose perdida. Já foi aluno do “Almino Afonso”.
“Tão falando numa seca verde”, diz Leon de Amância, puxando conversa. Não foi suficiente pra Tico manifestar-se. Aguardou mais alguma extensão da fala. “Nem sei o que danado é isso, seca verde”? Essa observação meio pergunta de Leon foi a deixa pra ele expor sua opinião sem medo.
“Seca verde é o governo. Nós aqui só conhecemos secas cinza”. Falou animado, já recebendo uma boa bicada do visitante, acompanhada duma lasca de queijo. E aí deitou lição: “Mostrar juazeiro verde, mesmo na seca, não é vantagem. Nem floração do mofumbo. Nem pingos nas rochas da Casa de Pedra. Pra isso não se precisa das promessas calejadas do governo. E quem enricou com promessa foi São Severino dos Ramos”.
Nas telas das TVs do Sudeste, o Nordeste aparece muito rapidamente, nas previsões do tempo. E o Rio Grande do Norte inexiste. A moça passa a mão depressa pelo mapa daqui, enquanto se detém demoradamente nas nuvens de cada pedaço dos Estados de lá.
Mesmo assim, o furabarreira continua animando o matuto. O inchu e o inchuí tão nem aí. Enchem de mel claro suas capas, como a dar o dedo aos “sertanistas” de longe. Não conhecem nem as cidades onde moram e exibem cultura, querem conhecer o Sertão, que não permitiu ainda suas entranhas a ninguém. Quando muito, uma brecha à linguagem.
Enquanto isso, Tico de Quinola toma mais uma no cumaru de Priquitim. Té mais.
François Silvestre, in Novo Jornal, de 01/03/2014

23/10/2013

Salmo Sertânico

Cruzo esses mundos sertânicos
que me habitam o âmago,
a escalar pedras e montes,
pisando a vegetação rasteira e outras palavras miúdas...

Nas costas, um matulão de incertezas,
de inquirições agnósticas,
perguntas tantas vezes repetidas,
sob o Sol desses desertos...

Carrego a minha Dúvida,
mas não, meu ateísmo.

Saibam todos que Deus, nessas léguas perdidas,
é uma necessidade vital.
É como o ar fresco e úmido, que leva as cabras
sempre mais alto, nesses montes desertos.
Deus está nas nuvens mais densas
e umedece o nariz dos caprinos...
Nesses sertões,
busca-se Deus, com olhos de cabra sedenta.
Os olhos dos viajores bramam por Deus.
Assim são os olhos da alma.
Alma?
Sim, isso, que nos faz ter gana de viver.
Isso, em que flui, instintiva, a lei natural da sobrevivência.
Esse vapor d'água,
que brilha nos olhos dos rebanhos assustados;

Essa nuvem cor de chumbo sobre a caatinga, está prenhe de Deus,
O mesmo Deus de Baruch Spinoza, encobre os céus dos sertões.
O Deus que de repente desabará, pluvial, sobre essa Dúvida
e encharcará a chã sequiosa dessa caminhada.

Deus, nessas léguas sertânicas, é essa necessidade radical,
no âmago estremecido da vida.

Subo este monte, carregando a minha sede,
e alço meus olhos aos céus cinzentos.

Sopra, invisível, um vento umedecido.
Sinto o sagrado em minhas narinas...
Eurico, sertânico
(bramando, "como o cervo, pelas correntes das águas...")
Com humilde dedicatória a Elomar, imenso criador de cabras, palavras e canções.

16/08/2013

Ser tão resistência

Fonte da imagem: Google

I

João Carnaúba, dos Carnaúbas da Várzea de Baixo, nos seus 56 anos de vida, afirmava que nunca tinha visto uma seca daquela.  Já não dormia, e quando isso ocorria, não era sono, só pesadelos. Apareciam os animais de sua gleba gigantes, mas esquálidos, a superlativar o sofrimento na forma de mugidos, relinchos, balidos e berros, numa onomatopeia que o despertava em alvoroço.
Todos sofrem com a seca. Todavia, João Carnaúba não se preocupava tanto com os seus familiares e agregados. Os animais, domesticados, dependiam sobremaneira dos zelos e encaminhamentos do homem. E a escassez d’água e de alimentos atingiam mais duramente os brutos que os humanos.
Para fugir dos pesadelos, esse homem já saia de casa de madrugada, a perscrutar o céu, a forçar indícios que viessem amenizar o seu sofrimento e dos outros. Em vão. Com os primeiros raios, como que a trazer-lhe à realidade, encaminhava-se ao curral para levar os animais para beber da pouca água que ainda restava no açude.
Quanto à comida, não tinha mais que se falar da existência de ração verde para os animais: palmas e macambiras já tinham se acabado, restando só recolher – cada vez mais distante – xique-xiques e mandacarus para serem assados em fogueiras para a queima dos espinhos, para serem juntados a uma forragem que incluía até papelão.
Estava uma situação estarrecedora. Dona Chiquinha, esposa de João, repisava: “Homem, venda esse gado por qualquer preço, fiado se necessário. Eu não aguento mais esse sofrimento desses pobres brutos. Eles estão consumindo nossos recursos e nossas forças”. Carnaúba retrucava: “A quem, mulher? Se nossos vizinhos estão na mesma penúria, sem pasto e sem água, lutando para escapar com os seus. Além do mais, vender a um marchante para descarnar o quê nessas ossadas?”
Certo era que não havia mais dinheiro para sustentar o gado com rações de farelos e outros nutrientes caros, pois se vendesse uma rês por mês, só dava para sustentar, com parcimônia, duas reses. A matemática era infalível: nessa pisada, o pequeno rebanho desapareceria...
A longa estiagem afetava os homens e os animais. Não se ouviam os cantos dos pássaros; tão-só, um agouro, longe, a deprimir mais o contexto e o ambiente. A tristeza dos animais, notadamente a bovina, contaminava a todos. João Carnaúba, típico sertanejo do semiárido, tinha um constante olhar vago, marcante nos desesperançado.

II

Tudo parado. De vez em quando, o silêncio é quebrado pelo cantar monótono das cigarras, aqui e alhures. O mormaço é sufocante. Animais e pássaros evitam se deslocar e se agasalham nas raríssimas sombras e abrigos. A terra está ressequida há cerca de oito meses, num estado abiótico. Não há que se falar em flora: tão-só galhos e troncos, que acinzentam a visão.
Às vezes surge um pequeno pé-de-vento, que não traz frescor, mas sim vai crescendo e se transforma num redemoinho, levantando tudo que posso ser suspenso com sua força. Findo o fenômeno agourento, observa-se a sujidade deslocada.
Visto por cima, o tom cinza é pontilhado por carcaças de animais, notadamente reses que não resistiram à fome e à sede. No mais, pequenos oásis, os juazeiros, esses sertanejos que teimam em permanecer verdes, num ambiente tão adverso para se demonstrar verdura.
Nos barreiros, pequenos açudes e riachos resta quase nada, ou estão totalmente vazios. Difícil encontrar água, nessas condições, que não seja para o consumo do astro-rei. Jogue-se um pouco de água que, instantaneamente, o precioso líquido se esvai.
Nada se move. De repente os animais se inquietam. E se apercebe a mudança. O mormaço cresce. E a torre se avoluma, refletindo os raios solares num tom laranja. Já se veem raios, e se ouve os trovões, ao longe. Uma aragem benfazeja e contínua prepara o terreno para o grande ato. O rebombo está mais próximo e mais forte, replicado até as abas da serra.
Cai o primeiro pingo e outro, e outro, e outro, de forma lenta, aqui, ali, acolá. Surge o cheiro característico da terra ressequida sendo aguada, que envolve a tudo e a todos. Já se ouve a chuva grossa se aproximando. A Natureza agora atua com vigor.
Pequenos filetes de água se avolumam, descem nas depressões e se agrupam nos córregos, que afluem nos riachos, a desaguar nos açudes e barragens ressequidos.
Chove forte. Já a força da água barrenta dos riachos carrega carcaças de animais, galhos, árvores inteiras, tudo que estava no seu leito seco.
Quem não conhece esse fantástico ecossistema se impressionará com o antes e o depois. Como que por milagre, rebrota toda a fauna sertaneja logo após a primeira chuva. Parece que adormecido, em estado de torpor, à espera da sagrada água, o pasto vigora no outrora campo desnudo. As árvores trocam a sobriedade da cor cinza. Há alegria, o estado de ânimo é outro quando chove no sertão. A flora e a fauna revigoradas, em todo seu esplendor.
Além do mais, retorna à região o tiziu, com seu característico canto que o nomeou, a saltitar verticalmente para fazer corte às fêmeas, e impressionar os adversários. Parada a invernada, o tiziu vai a outras paragens, até o retorno das águas.

III

Após a colheita segura e os animais engordados, João Carnaúba, garboso e falastrão, proseia no balcão da Botega com Tenório Barbalho, seu vizinho: “Compadre, três anos seguidos de seca, eles diziam! E falavam também em esquentamento e esfriamento de água do mar, dos ventos que vinham da Amazônia e dos oceanos, esses palavreados dos homens das ciências não quer dizer nadinha de nada, compadre. Eles podem ser sabidos lá com seus estudos, mas não mandam na natureza. Quando Deus fia, pode cortar as terras, amigo, e jogar as sementes”. Tenório Barbalho confirmava com a cabeça e, cofiando a barba, sentenciou: “Amigo João, para justificar os erros das previsões deles, agora alegam que essa chuvarada é obra de uma frente fria. Que essa frente fria desgarre todo ano, que será bem vinda”.
Após três meses de invernada, renasce a alegria sertaneja. As festas juninas são revigorantes, com farturas de comidas, bebidas e forró. E queima-se mais lenha na fogueira – é certo - em homenagem aos padroeiros sertanejos. Mas os meteorologistas não se fazem de arrogantes e participam prazerosamente das festas.
Se a privação de algumas coisas necessárias é parte essencial da felicidade, então o sertanejo é feliz. Depois de infindáveis meses em que lutou pela vida – dele e dos circunjacentes – e aprendeu a suportar as agruras que a natureza lhe traz, a sua sabedoria empírica já entende que tudo é cíclico: vida e morte; bem e mal; real e ideal; seca e inverno. E goza esse período de bonança certo que não será permanente.
Elilson José Batista, in Revista Cruviana n° 5, p. 126-130

17/11/2012

Factus est

O que fez o verão também fez
esta água parada água de mal viver.
Fez o dia de cacto e macambira, o dia de sono e sol
sobre a sombra dos pequizeiros. Fez a luz nos olhos
das onças pretas. Os bichos bravos
pisando macio nas folhas secas. As passadas fundas
na areia das trilhas
onde os comboios de jumentos
levaram suas cargas
de carne-seca, farinha e rapadura.
O que fez da vida a selva escondida nos troncos
sob o sol. Fez os olhos da pedra
que vence os verões. Fez as palhas da carnaúba
e as águas cortadas
águas mornas
água de barro
água de cacimba
que a sede não refuga.
O que parou as águas fez irreal este silêncio
dos chapadões. Fez os bichos obstinados
de sol e de poeira: as cabras as formigas
os cupins o homem sóbrio
e os seus dias de mal viver.
H. Dobal, poeta piauiense

15/11/2012

Noel num vem

In todo ano é igual
Se aprochegando o Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do céu
E arrisca é dele num vim.

Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de brinquedo
Só se vê mermo im retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os dedo.

Me diga, o caba que veve
Nas frialdade das neve
No mei daquelas lonjura
Que diabo vem vê pra cá?
Só se for pa esturricar
No oco dessa quentura.

Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no sertão
Pra cumer preá cum fava?

Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num pissui
Se nas estrada da roça
As vez inté as carroça
Se ingancha nos pidrigúi!?

Inda duvido tombem
Que os animá que ele tem
Nesses camim lhe carregue
No mei desses carrapicho
Só sendo que aqueles bicho
Vai ter os casco dum jegue.

O natal de nossas banda
Num tem os carrim que anda
Nem robô que conta estora
Num tem trenzim que apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e chora.

Nós tem buneca de trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.

Nós tem buneco de barro
Tem as nota de cigarro
E os cachorro de areia
Tudo coisa de arremedo
Foi num foi se esfola um dedo
Chutando bola de meia.

Vamo dexar de ilusão
Que o véi da televisão
Cum baiba branca na cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.

Não vá pensar que é quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem fuxica
Mais eu lhe digo: se aquete
Que esse veim da charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio de Oliveira

02/10/2012

Desertão, saartão, sertão…

Imagem: Wikipédia

Andando esses dias, Senhor Redator, pelo sertão mundo afora, levando na bruaca enfeitada com arte de pregaria a fortuna das palavras de gente importante como Felipe Guerra, Eloy de Souza, Câmara Cascudo, Juvenal e Oswaldo Lamartine – fachos luminosos do sertão à luz das lamparinas feito – olhei o mato esturricado, e pensei cá comigo: a estética da civilização sertaneja é a caatinga seca. No inverno, os verdes se parecem. Na fartura, a paisagem épica cede lugar ao dionisíaco. Tudo é festa para os olhos.
Foi ali, na secura daquele mundo sem brandura e sem amavio que floresceu a sociedade rude dos vaqueiros, no dizer bonito de Euclydes da Cunha. Longe da civilização do açúcar, de senhores de engenho aristocráticos, ricos de escravos pobres de tudo. O compadrio não nasce entre dominadores e dominados. Ao contrário do sertão, onde o senhor de terras e de gados divide a cria dos bezerros com os seus vaqueiros, é padrinho dos seus filhos e, juntos, seja na seca ou no inverno, dividem a vida e a lida.
Nem citei nas minhas conversas com os alunos do Sesc, sempre tão atenciosos e que encontrei naqueles vastos auditórios, a Conferência de Lajes que Eloy de Souza fez para tão poucos ouvidos e passou anos perdida. Foi Vingt-Un Rosado que um dia encontrou nos guardados de um sertanejo velho e zeloso do que ouvira no tempo de moço. Não falei do alvoroço do seu coração, mas contei lembranças antigas de Juvenal Lamartine puxando o fio da memória dos velhos costumes do seu grande sertão.
Como foi bom repetir a belíssima e lúdica descrição de Câmara Cascudo a projetar no plano infantil os traços e costumes da tradição na vida real. A imaginação recriando no quintal da infância o sertão do menino: dos bois de osso, dos açudes feitos com cacos de louça, da água escorrendo nas valas abertas a unha. Um sertão em miniatura, mas, na repetição mágica de cada gesto, o concerto maquinal de um mundo real, embora vivido num sopro de vida que reinventa, alegoricamente, o tempo morto.
Olhando aquela gente ouvindo cada palavra num silêncio monástico fiquei convencido da velha certeza que tantas vezes aprendi com Oswaldo Lamartine: há qualquer coisa de bíblico no sertão. Na pastoral dos seus lajedos. Na solidão das suas pedras. Na tristeza dos bichos no cantochão do aboio a apascentar os rebanhos. Um rio cheio é um deslumbramento, avisa Câmara Cascudo. E o açude, no sono das suas águas mansas quando acorda no quebrar da barra para repetir, a cada dia, o milagre da criação.
Seja como for, é um mundo inteiro que vive ali encantado naqueles mundos de lonjura e solidão, feitos de abandono, mas espiados por olhos que ninguém vê. Mundo que nasce e morre a cada inverno e a cada seca. Morre até que as primeiras chuvas acordem no seu chão velho a babugem que dormia e que volta para reinaugurar nos homens e nos bichos a alegria da vida. Sertão vazio, perdido entre caminhos sem ninguém, e que um dia se levanta depois do sono das horas sem vida. Desertão, saartão, sertão…
Vicente Serejo, in O Jornal de Hoje, 28/08/2012

22/06/2012

Vidas Secas - Conversa com Walnice Nogueira Galvão


No acervo de fotografia do Instituto Moreira Salles encontram-se imagens relevantes do sertão de Minas Gerais e do Nordeste brasileiro. A convite do blog do ims, a professora Walnice Nogueira Galvão – especialista em dois escritores que retrataram a geografia física e humana dessa região, Guimarães Rosa e Euclides da Cunha – analisa um conjunto de fotos de Maureen Bisilliat, Alfredo Vila-Flor, Claude Santos, Jair Dantas, Flávio de Barros e Edu Simões.
Segundo a professora, é possível identificar três módulos no conjunto que lhe foi apresentado: natureza, guerra e estética. Um outro elemento é ainda destacado: a figura do encourado. A professora ressalta, por fim, o valor do álbum de Flávio de Barros, único profissional que fotografou a Guerra de Canudos (1896-1897), recuperado pelo Instituto Moreira Salles. Veja o vídeo aqui: http://blogdoims.uol.com.br/ims/divisoes-do-sertao-conversa-com-walnice-nogueira-galvao/

12/06/2012

Sertão do velho Lula em harmonias

Saudades. A palavra oficialmente conhecida somente nos idiomas galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, falta, distância e amor. A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar". Saudade, foi o que sentiu o público convidado ao assistir a primeira apresentação do Projeto Concertos Sinfônicos Clássicos do Baião - Tributo a Gonzagão, na noite do domingo passado no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, em Mossoró.


Unindo Orquestra Sinfônica da UFRN e artistas potiguares, Sesc põe na estrada o projeto Concertos Sinfônicos Clássicos do Baião - Tributo a Gonzagão. Estreia foi sábado e termina em 2013.

O concerto, promovido pelo Sesc/RN em parceria com a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), encantou crianças, adultos e idosos que rememoram clássicos de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, rearranjados numa envolvente sinfonia de cordas, instrumentos de sopro e, por que não, zabumba, triângulo e sanfona? Se estivesse vivo, Luiz Gonzaga completaria, no dia 13 de dezembro deste ano, 100 anos. "É uma justa homenagem que fazemos a maior figura da cultura nordestina no ano do seu centenário de nascimento. Não houve escolha melhor para o projeto", relatou o diretor regional do Sesc/RN, Laumir Barreto.
E quem chamou o público ao espetáculo foi o ator/cantor Caio Padilha, que parecia conversar com Gonzagão através de imagens exibidas em telões, contendo entrevistas que o maior ícone da cultura nordestina concedera no passado. No vídeo, Luiz Gonzaga explicava como um cantor do sertão nordestino se montava: com um gibão, uma sanfona e chapéu de couro. Já na primeira seleção de músicas tocadas pela orquestra sob a regência do maestro André Muniz,  a emoção da platéia era evidente e os músicos foram aplaudidos de pé.
Visivelmente emocionada, a cantora Khrystal foi a primeira a subir ao palco e interpretou o clássico "Baião". Em seguida, o dramático "Assum Preto" ganhou um tom ainda mais melancólico proporcionado pelos instrumentos da orquestra e com uma emocionante performance de Valéria Oliveira. Como uma espécie de coringa, atuando e cantando, Caio Padilha interpretou "Que nem jiló", seguido pelo tímido, mas não menos talentoso, Widger Valle com a canção "Danado de bom". A esta altura, a orquestra e os cantores já tinham arrebatado a emoção da platéia e Luiz Gonzaga parecia estar ali, a cada novo vídeo projetado.  Nem menina, nem mulher, num vestidinho branco esvoaçante, Camila Masiso embalou o "Xote das Meninas", uma das mais conhecidas do Gonzagão. "Esta música reflete de alguma forma, o momento pelo qual estou passando neste momento. Não que eu só pense em namorar, mas me sinto mais madura, mais mulher", brincou a intérprete. A noite parecia ter caído com as imagens do luar e do céu estrelado projetadas nos telões. O sanfoneiro Zé Hilton, acompanhado por músicos da Orquestra, tocam "Luar do Sertão" enquanto o público se encarrega de cantarolar a canção.
Em alguns momentos, a cumplicidade da orquestra com as imagens de Luiz Gonzaga era tão intensa que em "Dança Mariquinha", o passado e o presente se uniram numa comunhão complexa e harmoniosa de sons: era como se Luiz Gonzaga chamasse a orquestra para o acompanhar naquela canção. Para o professor Alípio Neto, que ao longo do concerto cantou quase todas as músicas, aquele foi um momento único. "Eu lembrei do meu pai e das músicas que ele cantava para mim e para meus irmãos. Estou muito emocionado", relatou.  Os olhos marejados do professor mossoroense pareciam navegar pelos mares da saudade. No encerramento, todos os cantores se uniram à orquestra e cantaram "Asa Branca", acompanhada em coro pelo público. O concerto foi encerrado com "Vida de Viajante", que em seus versos descreve o que pode ter sido a vida do "Rei do Baião", feita de alegria e saudade. 
A primeira edição do Projeto Parcerias Sinfônicas do Sesc/RN foi realizada entre o segundo semestre de 2011 e o primeiro quadrimestre deste ano. Foram realizadas dez apresentações com a cantora Camila Masiso e os músicos da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Para a segunda edição, cujas apresentações começaram domingo passado em Mossoró, a direção regional do Sesc/RN optou por convidar mais artistas e homenagear o centenário de nascimento de Luiz Gonzaga.
"A ideia surgiu do desejo de aliar a marca Sesc a uma orquestra. Após algumas análises, reuniões e negociações, a parceria com a Orquestra da UFRN foi fechada. Nosso objetivo é proporcionar música de qualidade, unindo o erudito ao popular à população em geral. É a cultura como instrumento de educação", analisou o diretor regional do Sesc/RN, Laumir Barreto. Todos os concertos são gratuitos e geralmente ocorrem em locais abertos. Até janeiro de 2013, serão realizadas mais 12 apresentações em cidades potiguares e três em São Paulo, no Sesc Itaquera e Pinheiros.
Nas duas edições, o Sesc/RN, com apoio do Sesc Nacional, já investiu cerca de R$ 1,6 milhão na produção e execução dos concertos. Além disso, os músicos que compõem a orquestra, a maioria deles estudantes da UFRN, recebem uma ajuda de custeio mensal para comparecerem aos ensaios. Para Laumir Barreto, um dos maiores diferenciais deste projeto, que é pioneiro dentre os demais Sescs do país, é a inclusão de artistas e técnicos genuinamente potiguares. "Não adianta ter boas ideias se não dispormos de pessoas qualificadas e isso nós encontramos aqui no estado, além dos cantores maravilhosos, claro", enfatizou Laumir Barreto.
Experimentos ao som de Luiz Gonzaga
Em uníssono, os artistas convidados pelo Sesc e pelo maestro André Muniz para participarem do projeto, se diziam honrados e nervosos momentos antes da apresentação. Com 15 anos de carreira, a cantora Khrystal subiu ao palco para cantar acompanhada por uma orquestra pela primeira vez. "Eu me sinto privilegiada. Pelo requinte dos arranjos, pelas músicas em si. É uma oportunidade massa", resumiu a intérprete. Ela acredita que, a partir da participação neste projeto, novas oportunidades de trabalho surgirão.
Homem de poucas palavras, o cantor Widger Valle não escondia sua ansiedade enquanto aguardava o início do espetáculo. "Existem músicas do Luiz Gonzaga que são um verdadeiro trava-línguas. O "danado de bom" me deu um trabalho danado para decorar", confessou o artista. Ele disse que o fato de subir ao palco com uma orquestra era um grande desafio mas a recompensa vinha com os aplausos do público.  Caio Padilha, que atua no concerto como cantor e ator, comentou que todos os envolvidos aceitaram o convite "estremecidos".
Para Camila Masiso, a oportunidade de cantar nas duas edições do projeto foi um grande presente. "Com uma orquestra, a música de Luiz Gonzaga fica ainda mais emocionante", relatou.   De acordo com o maestro e regente André Muniz, a qualidade do concerto mostra que é possível fazer música de qualidade com os artistas locais. "A gente sempre vai lançar luz sobre os grandes valores que temos em nosso estado", destacou. Ele criticou, entretanto, a falta de apego do potiguar pela cultura local e a baixa autoestima em relação ao potencial que poderia ser explorado. "Se fosse em outro estado, um concerto como este já teria sido internacionalizado", comentou Muniz.
Além do crescimento profissional dos cantores e músicos envolvidos, o Projeto Parcerias Sinfônicas proporcionou, ao lado do regente, um aumento no número de concertos da Orquestra. De apenas três realizados em 2009, para este ano já foram confirmados 35. "Este projeto é tudo o que sempre quis na minha vida", confidenciou André Muniz.
Integram o concerto Tributo a Gonzagão cerca de 70 músicos e cinco intérpretes - Caio Padilha, Camila Masiso, Khrystal, Valéria Oliveira, Widger Valle - e o sanfoneiro Zé Hilton.  
Ricardo Araújo, in www.tribunadonorte.com.br