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01/12/2021

O criador de abelhas (trecho)

No dia de S. Valentim de 1989, último dia da sua vida, a lendária cantora pop Vina Apsara acordou a soluçar de um sonho sobre um sacrifício humano em que ela era a vítima. Homens de tronco nu, todos parecidos com o ator Christopher Plummer, tinham-na agarrado pelos pulsos e pelos tornozelos. O corpo dela estava esparramado, nu, e contorcia-se sobre uma laje polida que tinha gravada a imagem do pássaro-serpente Quetzalcoatl. A boca aberta da serpente emplumada era o contorno de um buraco negro escavado na pedra e embora ela tivesse igualmente a boca escancarada para gritar, os únicos ruídos que ela ouvia eram os plops dos flashes; mas antes que pudessem rasgar-lhe a garganta, antes que o seu sangue vivo fosse borbulhar na terrível taça, Vina acordou ao meio-dia na cidade de Guadalajara, no México, numa cama de hotel ao lado de um desconhecido nas vascas da agonia, um mestiço completamente nu, de vinte e poucos anos, identificado pela exaustiva cobertura de imprensa que seguiu a catástrofe como Raúl Páramo, o playboy herdeiro de um famoso barão da construção civil que, entre muitas outras coisas, era dono do hotel. Vina transpirara abundantemente e os lençóis encharcados tresandavam à tristeza sem sentido daquele encontro noturno. Raúl Páramo estava inconsciente, tinha os lábios lívidos e o seu corpo era periodicamente sacudido por espasmos que ela reconheceu como sendo idênticos às suas próprias convulsões durante o sonho. Passados momentos ele começou a emitir uns ruídos medonhos pela traqueia, como se alguém estivesse a degolá-lo, como se o seu sangue estivesse a jorrar do sorriso escarlate de uma ferida invisível para uma taça irreal. Vina, em pânico, saltou da cama e apanhou as suas roupas, as calças de cabedal e o top de lantejoulas douradas com que acabara o seu número na noite anterior, no palco do Centro de Convenções da cidade. Completamente desesperada, entregara-se desdenhosamente àquele João-Ninguém, àquele rapaz com menos de metade da sua idade, escolhera-o quase ao acaso entre a chusma que enchia os corredores dos camarotes, os lagartos de átrio de hotel, os pretendentes com o seu ramo de flores, os capitães de indústria, a aristotrampa, os barões da droga, os príncipes da tequila, todos com limousines e champanhe e cocaína e talvez até diamantes para oferecer à estrela da noite.
O rapaz tinha-se apresentado, com muitos rapapés e bajulações, mas ela não estava interessada em saber o nome dele, nem o montante da sua conta no banco. Colhera-o como se fosse uma flor para pôr entre os dentes, mandara-o vir com o seu apetite feroz, começando a devorá-lo assim que se fechara a porta da limousine e antes que o motorista tivesse tempo de fazer subir o vidro que garantia a privacidade dos passageiros. Mais tarde o motorista, afogado em tequila pelos jornalistas, falara num murmúrio reverente dela e do seu corpo nu, daquela sua nudez invasora e predatória que era como um milagre, quem havia de dizer que ela já ia nos quarenta e tal, parecia que Alguém lá de Cima a queria deixar ficar sempre na mesma. Eu faria tudo por aquela mulher, gemia o motorista, iria a duzentos quilômetros à hora se ela quisesse andar depressa, teria ido contra um muro de betão, se fosse seu desejo morrer.
Só quando se achou no corredor do undécimo andar do hotel, cambaleante e seminua, tropeçando nos jornais da manhã ainda não recolhidos pelos hóspedes com cabeçalhos gritantes acerca dos ensaios nucleares dos franceses no Pacífico e dos tumultos na província de Chiapas cuja tinta fresca lhe sujou os pés nus, só então é que ela percebeu que os aposentos que abandonara eram a sua própria suite no hotel e que fechara a porta deixando a chave dentro e que a sua sorte, naquele momento de máxima vulnerabilidade, fora ter esbarrado em mim, o senhor Umeed Merchant, fotógrafo, mais conhecido como “Rai”, seu amigo — por assim dizer — dos velhos tempos de Bombaim, e o único profissional do mundo que não sonharia fotografá-la naquele preparo deliciosamente escandaloso, toda ela momentaneamente desfocada, e — pior que tudo — aparentando a idade que tinha, eu, o único caçador de imagens que nunca lhe apanharia aquele ar acossado e gasto, aquele desamparo, aqueles olhos inchados e olheirentos, aquela cascata emaranhada de cabelos tingidos de vermelho, arames tremelicantes no alto da cabeça como o penacho de um pica-pau, aquela lindíssima boca trémula e hesitante, de bordos já sulcados pelos minúsculos fiordes dos anos implacáveis, o próprio arquétipo da deusa selvagem do rock a caminho da decadência. Ela decidira tornar-se ruiva para aquela tournée porque, aos quarenta e quatro anos, resolvera começar de novo, iniciar uma carreira a solo sem Ele e pela primeira vez há muitos anos viajara sozinha sem Ormus: não era pois de admirar que se sentisse desorientada e perdida a maior parte do tempo. E muito só. Há que admiti-lo: na vida pública como na privada, a verdade é que quando não estava com ele, estivesse com quem estivesse, ela estava só.
Desorientação: perda dó Oriente. E do seu sol, Ormus Cama.
Não fora por pura sorte que ela chocara comigo. Eu andava sempre por perto. Sempre no seu encalço, sempre à espera que ela me chamasse. Se ela quisesse, haveria dezenas de outros como eu, centenas, milhares. Mas estou convencido de que só havia eu. E a última vez que ela pediu auxílio, não pude dar-lho e ela morreu Acabou a meio da sua vida, foi uma canção incompleta abandonada no meio da ponte, privada do direito de continuar o poema, de encontrar a rima final.

*

Duas horas após eu a ter salvo do abismo daquele corredor do hotel, um helicóptero levava-nos até Tequila, onde Don Angel Cruz, proprietário de uma das maiores plantações de piteira azul e da célebre destilaria Angel, um cavalheiro célebre pela amplitude da sua doce voz de contratenor, pela rotundidade da sua barriga e pela sua pródiga hospitalidade, tinha organizado um banquete em sua honra. Entretanto, o jovem playboy amante de Vina fora conduzido ao hospital, fulminado por uma série de ataques produzidos pelo abuso de droga, tão graves que acabaram por ser fatais; e, devido ao que aconteceu a Vina, durante os dias seguintes o mundo teve direito a análises detalhadas do sangue do morto, e do conteúdo do seu estômago, intestinos, escroto, cavidades oculares, do seu apêndice, do cabelo, em suma, de tudo menos do cérebro cujo conteúdo foi julgado sem interesse, e fora completamente alterado pela droga a tal ponto que ninguém foi capaz de entender as suas últimas palavras, pronunciadas durante o delírio final. Contudo, uns dias mais tarde, quando a informação já tinha circulado na Internet, um amador de ficção fantasista designado por <elrond@rivendel.com> proveniente do bairro Castro de São Francisco explicava que Raúl Páramo estivera a falar orcish, o linguajar infernal inventado pelo escritor Tolkien para uso da criadagem de Sauron, o Senhor das Trevas: Ash nazg durbatulûk, ash nazg gimbatul, agsh thrakatulûk, agsh burzum-ishi krimpatul. Logo a seguir, boatos de práticas satânicas, ou talvez saurônicas, espalharam-se imparavelmente por toda a Net. Lançou-se a ideia de que o amante mestiço fora adorador do Diabo, um criado-de-sangue do submundo e que tinha dado a Vina Apsara um precioso mas maléfico anel que provocara a subsequente catástrofe e a arrastara para o Inferno. Por essa altura Vina já se estava transformando em mito, tornando-se num vaso de eleição onde qualquer idiota podia colocar as suas idiotices ou, digamos, um espelho cultural: podemos perceber melhor a natureza dessa cultura se dissermos que o seu espelho mais fiel seria um cadáver.
Um anel para os governar a todos, um anel para os encontrar, um anel para os prender a todos e encerrá-los nas trevas. Sentei-me ao lado de Vina Apsara no helicóptero para Tequila, e não vi nos seus dedos nenhum anel a não ser a pedra lunar que ela nunca tirava, a sua ligação com Ormus, o preito do seu amor.
Vina tinha mandado toda a sua equipa pela estrada, escolhendo-me a mim como único companheiro da viagem aérea, “entre todos vocês, seus sacanas, ele é o único em quem posso confiar”, rosnou ela. A equipa tinha arrancado uma hora à nossa frente, todo aquele maldito jardim zoológico dela, o seu reptiliano chefe de tournée, a hiena do seu assistente particular, os gorilas da segurança, o pavão do cabeleireiro, o dragão da publicidade. Mas quando o helicóptero sobrevoava o cortejo dos automóveis, a sombra que a tinha envolvido desde a nossa partida pareceu levantar-se e ela ordenou ao piloto que fizesse uma série de passagens por sobre os carros, cada vez mais baixo. Vi os olhos do homem esgazeados de pavor, as pupilas eram como pontas de alfinetes mas, tal como todos nós, estava completamente enfeitiçado por ela e cumpriu as ordens. Era eu que gritava “Sobe, sobe!” no microfone incorporado no capacete que nos protegia a cabeça enquanto o riso dela estralejava aos meus ouvidos como uma porta a bater ao vento, mas quando me virei para lhe dizer que tinha medo vi que ela estava a chorar. A polícia fora surpreendentemente amável com ela quando chegara ao local da overdose de Raúl Páramo, contentando-se em avisá-la de que poderia vir ela própria a ser objecto de um inquérito. Os seus advogados tinham intervindo nessa altura para terminar a conversa, mas desde então ela parecia tensa e instável, com um brilho excessivo como uma lâmpada antes de explodir, como uma supernova, como o universo.
Por fim ultrapassamos os veículos e voamos sobre colinas e vales cobertos do azul acinzentado das plantações de cactos; mudando de novo de disposição, ela começou a falar e a rir nervosamente para o seu microfone, insistindo em que estávamos a levá-la para um lugar que não existia, um sítio imaginário, um país das maravilhas: como era possível haver um sítio chamado Tequila? “é o mesmo que dizer que o whisky vem de Whisky ou o gin é fabricado em Gin”, gritava ela, “será o vodka algum rio da Rússia? Será em Rum que se fabrica o rum?” E depois, de novo sombria, a voz dela ficou quase inaudível com o ruído dos rotores: “e a heroína vem dos heróis e o crack é a trombeta do Juízo Final.” É possível que eu estivesse a assistir ao nascer de uma nova canção. Mais tarde, interrogados acerca daquela viagem de helicóptero, tanto o piloto como o co-piloto se recusaram, por pura lealdade, a divulgar quaisquer detalhes daquele monólogo em que ela baloiçava a todo o momento entre a exaltação e o desespero. “Estava muito animada”, disseram eles, “além de que falava em inglês, por isso não percebemos nada”.
Em inglês, mas não só. Como só estava eu, ela podia tagarelar no calão mais popular de Bombaim, Mumbai ki kachrapati baat-cheet, em que uma frase pode começar numa língua, continuar numa segunda e até numa terceira e voltar de novo à primeira. Chamávamos-lhe Hug-me, do seu acrônimo: Hindi-Urdu-Gujarati-Marathi-English. Os naturais de Bombaim da minha espécie eram gente que falava cinco línguas mal e nenhuma bem.
Separada de Ormus Cama naquela tournée, Vina descobrira as limitações tanto verbais como musicais do seu próprio material. Tinha escrito novas canções para pôr em relevo a sua voz celestial de múltiplas oitavas, que lembrava a de Yma Sumac, que era como que uma escada até ao firmamento e que Vina afirmava agora não ter sido suficientemente explorada pela música de Ormus; mas nesta tournée, tanto em Buenos Aires como em São Paulo, na Cidade do México ou em Guadalajara ouvira apenas umas mornas reações do público a essas canções, apesar da presença de três bateristas brasileiros loucos e da parelha de guitarristas argentinos que travavam um duelo tão a sério que cada número ameaçava acabar com uma luta à navalhada. Nem sequer o artista convidado, a velha super-vedete mexicana, Chico Estefan conseguira entusiasmar as audiências; pelo contrário, a sua face ultraplastificada, o seu sorriso de dentes falsos apenas chamava a atenção para a juventude em declínio da própria Vina, cruelmente refletida no espelho da média de idade dos espectadores: a malta jovem não tinha comparecido, pelo menos em número suficiente, nem nada que se parecesse.
Mas rugidos de aplausos saudavam cada um dos grandes sucessos do catálogo mais antigo de V.T.O. e a verdade inegável é que durante esses números a loucura dos batuqueiros tornava-se divina, os duelos dos guitarristas atingiam o sublime e até o velho devasso do Estefan parecia regressar das verdes pastagens do Além. Vina Apsara cantou palavras e músicas de Ormus Cama e, de repente, a multidão minoritária dos jovens começou aos saltos e pareceu endoidecer subitamente, milhares e milhares de mãos a moverem-se em uníssono, formando em linguagem de surdos-mudos o nome da grande banda, ao compasso dos seus gritos atroadores.
V!T!O!
V!T!O!
Volta para ele, diziam os gritos. Precisamos... Precisamos de vocês juntos. Não deitem fora o vosso amor. Não se separem, queremos que façam as pazes.
VTO: “Vertical take off”. Ou “Vina to Ormus”. Or “We to”. Traduzido em Hug-me como “V-TO”. Ou uma referência ao foguetão V2. Ou V para “paz”, o que todos desejavam, e T para “two”, sendo eles os dois e O para Love, o seu amor. Ou uma homenagem a um dos grandes edifícios da cidade natal de Ormus: A Orquestra Terminus. Ou um nome inventado há muito, quando Vina vira um reclame a néon relativo a um refresco de outros tempos, Vimto, que só tinha três letras iluminadas, Vimto sem im.
V...T...Ohh
V...T...Ohh
Dois gritos e um suspiro. O orgasmo do passado, cujo anel ela trazia no dedo. Ao qual ela sabia que tinha de voltar, apesar de mim.

Salman Rushdie, in O Chão Que Ela Pisa

25/09/2017

Angela Carter


Na última vez em que visitei Angela Carter, poucas semanas antes de sua morte, ela insistiu em se aprontar para o chá, embora estivesse sofrendo dores consideráveis. Sentou-se, de olhos brilhantes, ereta, a cabeça inclinada como a de um papagaio, os lábios satiricamente apertados e partiu para a séria atividade da hora do chá — fornecer e receber as últimas sujeiras —, cortante, boca suja, apaixonada. Era assim que ela era: provocantemente desbocada — uma vez, quando terminei um relacionamento que ela não aprovava, telefonou-me para dizer: “Bom. Agora você vai poder me visitar muito mais” — e ao mesmo tempo cortês a ponto de enfrentar um sofrimento mortal para ser gentil em um formal chá da tarde.
A morte deixava Angela genuinamente furiosa, mas tinha um consolo. Ela havia feito um “imenso” seguro de vida pouco antes de o câncer se manifestar. A perspectiva de a seguradora ser obrigada, depois de receber tão poucos pagamentos, a entregar uma fortuna aos “seus meninos” (o marido, Mark, e o filho, Alexander) a divertia muito e inspirou uma maligna ária de comédia negra diante da qual era impossível não rir.
Ela planejou cuidadosamente seu funeral. As instruções para mim eram ler o poema de Marvell “Uma gota de orvalho”. Isso foi uma surpresa. A Angela que eu conhecia havia sido sempre a mulher mais escatologicamente anti-religiosa, alegremente sem Deus; no entanto, queria a meditação de Marvell sobre a alma imortal — “aquela gota, aquele raio / da clara Fonte do Eterno Dia” — pronunciada diante de seu corpo morto. Seria uma última piada surrealista, do tipo “graças a Deus morri ateu”, ou uma reverência à alta linguagem simbólica do metafísico Marvell, da parte de uma escritora cuja linguagem era também de alto tom e repleta de símbolos? Note-se que no poema de Marvell não aparece nenhuma divindade, a não ser “o Todo-Poderoso Sol”. Talvez Angela, sempre uma doadora de luz, estivesse nos pedindo, no final, para imaginá-la se dissolvendo nas “glórias” daquela luz maior: o artista simplesmente se tornando parte da arte.
Ela era uma escritora individual demais, feroz demais, para se dissolver assim tão fácil: alternadamente formal e insolente, exótica e vulgar, refinada e grossa, preciosa e vagabunda, fabulista e socialista, púrpura e preta. Seus romances não são iguais aos de ninguém, desde a coloratura transexual de The passion of New Eve [A paixão de Nova Eva] à fila de coristas de music-hall de Wise children [Crianças espertas]; mas o melhor dela, em minha opinião, são os contos. Às vezes, na dimensão do romance, a voz característica de Carter, aquelas enfumaçadas cadências de comedora de ópio interrompidas por dissonâncias ásperas ou cômicas, aquela mistura da opulência de opala-e-seixo-do-Reno com disparates, pode ser cansativa. Nos contos, ela é capaz de deslumbrar e arrebatar, e terminar enquanto está ganhando.
Carter chegou quase inteiramente formada; um de seus primeiros contos, “A very, very great lady and her son at home” [Uma grande, grande dama e seu filho em casa], já está repleto de temas carterianos. Ali estão seu amor pelo gótico, a linguagem opulenta e a alta cultura; mas também pelos fedores baixos — pétalas de rosa caindo que soam como peidos de pombos, e um pai que tem cheiro de esterco de cavalo, e intestinos que são “grandes niveladores”. Aí está o eu enquanto performance: perfumado, decadente, langoroso, erótico, perverso; muito parecido com a mulher alada, Fevvers, heroína de seu penúltimo romance, Nights at the circus [Noites no circo].
Outro conto do início, “A victorian fable” [Uma fábula vitoriana], anuncia seu vício por todos os arcanos da linguagem. Esse texto extraordinário, parte “Jabberwocky”, parte Pale fire [Fogo pálido], exuma o passado como nunca antes, ao exumar palavras mortas: “In every snickert and ginnel, bone-grubbers, rufflers, shivering-jemmies, anglers, clapperdogeons, peterers, sneeze-lurkers and Whip Jack with their morts, out of the picaroon, fox and flimp and ogle” [Em todo beco e viela, falsos mendigos, desordeiros, arrombadores, assaltantes, mendigos natos, pescadores, vagabundos, falsos marinheiros com suas mulheres, vindos da pirataria, espreitam, batem carteiras, namoram].
Saibam do seguinte, dizem essas primeiras histórias: esta escritora não é arroz com feijão; ela é um foguete, uma roda de fogos de artifício. Sua primeira coletânea intitula-se Fireworks [Fogos de artifício].
Salman Rushdie, in Cruze esta linha

29/12/2015

Um pai mágico


Escrevi meu primeiro conto em Bombaim, com dez anos de idade. O título era “Over the rainbow” [Além do arco-íris]. Não passava de uma dúzia de páginas, aplicadamente datilografadas pela secretária de meu pai em papel fino, que acabaram perdidas em algum ponto dos labirínticos deslocamentos de minha família entre a Índia, a Inglaterra e o Paquistão. Pouco antes da morte de meu pai, em 1987, ele me informou ter encontrado uma cópia embolorando em um velho arquivo, mas apesar de meus pedidos nunca me mostrou. Esse incidente sempre me intrigou. Talvez ele nunca tenha encontrado de fato o conto e nesse caso teria sucumbido à tentação da fantasia, e esse foi o último dos muitos contos de fadas que me contou. Ou então ele realmente encontrou o conto e guardou-o para si como um talismã e lembrete de tempos mais simples, considerando-o um tesouro dele, não meu — seu pote de ouro nostálgico e paternal.
Não me lembro de muita coisa do conto. Era sobre um menino bombainense de dez anos de idade que um dia se vê no começo de um arco-íris, um lugar tão ilusório quanto qualquer final com pote de ouro e igualmente tão promissor. O arco-íris é largo, tão largo quanto uma calçada, e construído como uma escadaria grandiosa. Naturalmente, o menino começa a subir. Esqueci quase todas as suas aventuras, exceto um encontro com uma pianola falante cuja personalidade era um improvável híbrido de Judy Garland, Elvis Presley e os “cantores de fundo” dos filmes indianos, muitos dos quais faziam O Mágico de Oz parecer realismo de vida cotidiana.
Minha fraca memória — que minha mãe chamava de “esqueçória” — é, provavelmente, uma bênção. Enfim, me lembro do que é importante. Lembro que O Mágico de Oz (o filme, não o livro, que não li em criança) foi minha primeiríssima influência literária. Mais que isso: lembro que quando foi mencionada a possibilidade de eu ir para a escola na Inglaterra, isso me soou tão excitante quanto qualquer viagem além do arco-íris. A Inglaterra parecia uma perspectiva tão maravilhosa quanto Oz.
O mágico, porém, estava bem ali, em Bombaim. Meu pai, Anis Ahmed Rushdie, era um pai mágico para filhos jovens, mas tendia também a ter explosões, ataques de raiva trovejantes, relâmpagos de faíscas emocionais, baforadas de fumaça de dragão e outras ameaças do tipo das também praticadas por Oz, o grande e terrível, o primeiro Mago De Luxe. E quando a cortina se abriu e nós, seus filhos em crescimento, descobrimos (como Dorothy) a verdade sobre a impostura adulta, foi fácil para nós pensar, como ela, que nosso homem devia ser um homem muito mau mesmo. Levei metade da vida para entender que a grande apologia pro vita sua do Grande Oz cabia igualmente bem para meu pai; que ele também era um homem bom, mas um mago muito ruim.
Salman Rushdie, in Cruze esta linha

16/11/2015

Apaixonar-se: uma espécie de queda

“Mas eu continuava querendo acreditar naquilo em que acreditam todos os apaixonados: que a coisa em si é melhor do que qualquer alternativa, mesmo quando não correspondida, derrotada, louca. Eu queria apegar-me à imagem do amor como uma fusão de almas, uma mistura, como o triunfo do impuro, do vira-lata, juntando o melhor de nós de modo a sufocar o que tínhamos de solidão, isolamento, austeridade, dogmatismo, pureza; o amor como democracia, como a vitória do Plural, do homem-algum-é-uma-ilha, do dois-é-bom, e a derrota do Uno, do apartheid, do limpinho, do mesquinho.
Tentei ver a falta de amor como arrogância, pois quem, senão aquele que não ama, pode considerar-se completo, um ser que tudo vê e tudo sabe? Amar é perder a onipotência e a onisciência. Apaixonar-se é mergulhar na ignorância; sim, é uma espécie de queda. Fechando os olhos, saltamos de um rochedo na esperança de cair em algo macio. Nem sempre é macio; mas ainda assim, eu repetia a mim mesmo, ainda assim, sem esse salto ninguém vive de verdade. O próprio salto é um nascimento, mesmo quando termina em morte.”
Salman Rushdie, in O último suspiro do mouro

23/11/2012

A Deus


Caro Deus,
Se Você existe, e se é como O descrevem — onisciente, onipresente e, acima de tudo, onipotente —, com certeza não irá tremer em seu assento celestial ao ser confrontado por um simples livro [“Os Versos Satânicos”] e seu escrevinhador, não é? Os grandes filósofos muçulmanos com frequência discordam em relação à Sua relação precisa com os homens e os atos humanos.
Ibn Sina (Avicena) argumentava que Você, por estar muito acima do mundo, limitava-se a tomar conhecimento dele em termos muito gerais e abstratos. Ghazali discordava. Qualquer Deus “aceitável ao islã” conheceria em minúcias tudo o que acontecesse sobre a superfície da terra e teria uma opinião a respeito.
Bem, Ibn Rushd não aceitava isso, como Você há de saber se Ghazali estivesse certo (e não saberá se quem tivesse razão fosse Ibn Sina ou Ibn Rushd). Para Ibn Rushd, a opinião de Ghazali tornava Você muito parecido com os homens — com os homens com suas discussões tolas, suas dissensões mesquinhas, seus pontos de vista triviais. Imiscuir-se nos assuntos humanos estaria abaixo de Você, e O diminuiria. Por isso, é difícil saber o que pensar.
Se Você é o Deus de Ibn Sina e Ibn Rushd, nesse caso nem sabe o que está sendo dito e feito neste exato momento em seu nome. No entanto, se Você é o Deus de Ghazali, e lê os jornais, vê a TV e toma partido em disputas políticas e até literárias, não acredito que pudesse fazer objeções a “Os Versos Satânicos”, ou a qualquer outro livro, por mais ignóbil que fosse. Que espécie de Todo-Poderoso poderia se deixar abalar pela obra de um homem? Ao contrário, Deus, se porventura Ibn Sina, Ghazali e Ibn Rushd estivessem todos errados e Você não existisse, também, nesse caso, Você não teria problemas com escritores e com livros.
Chego à conclusão de que minhas dificuldades não são com você, Deus, mas com Seus servos e seguidores no mundo. Uma famosa romancista me disse, certa vez, que tinha parado de escrever ficção durante algum tempo porque não gostava de seus admiradores. Fico a me perguntar se Você compreende a posição dela. Obrigado por Sua atenção (a menos que não esteja prestando atenção: Veja acima).
Salman Rushdie, in Joseph Anton - Memórias