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18/09/2020

A prova dos passarinhos

 

O Professor viu com desgosto a rapariga aproximar-se empurrando aquele terrível carrinho. Na verdade, alguém da família do bebé – um homem por certo – havia aplicado uma espécie de traga-areia à frente das rodas, o que permitia que ela o fizesse deslizar com extrema facilidade mesmo nos locais ondulados. Sobre o assento do carrinho, um antigo modelo que deveria ter pertencido a um outro bebé agora já homem, a criança de tenra idade abanava a cabeça com os olhos fechados. Mãe e criança ainda exalavam um cheiro repelente a parto e amamentação. Ora ele que tinha posto os óculos de ver ao longe para contar os pássaros, sentindo aquele cheiro sanguíneo a carne tenra, era obrigado a parar. E sempre que parava, pensava para si – Nunca farás a prova.

E no entanto, o Professor tinha-se dado ao trabalho, dois meses antes, de tomar assento num barulhento autocarro onde passavam filmes americanos, a fim de poder ele mesmo escolher um local sossegado onde pudesse executar essa prova. Durante a viagem, que afinal demoraria muito mais tempo do que constava do horário, tivera a oportunidade de perguntar a um homem, que pela fala lhe parecia ser da região para onde se dirigia, que praia lhe aconselhava para poder observar pássaros. O homem tinha a tez muito escura, e apesar de vestir um blusão em cujas costas se lia uma palavra em sueco, estava sulcado de infinitas rugas. “Fugiram todos” – havia dito o homem, apanhado pelo espírito de tragédia que em determinada altura da vida assalta certo tipo de pessoas. Mas o Professor acabara por encontrar um quarto tranquilo, diante duma pequena praia, onde lhe fora assegurado que ninguém o incomodaria, e donde poderia ver vários gêneros de pássaros em bandos, picando restos de peixe, assim que o verão chegasse.

Em bandos?” – havia perguntado, sentindo que estava a ser servido por um bom instinto.

Nuvens deles!”

Ora a palavra bando revestia-se de grande importância para o Professor. Afinal, ele procurava aquele lugar determinado, porque havia pensado que chegara a altura de fazer a prova. No inverno anterior, alguém – um aluno por certo – lhe enviara a cópia duma página de que só depois havia identificado a autoria e proveniência. Ocupava escassas doze linhas, e, apesar de não possuir uma boa memória, no mesmo dia ele havia-as aprendido de cor. Chamava-se Argumentum Ornithologicum e abria com uma frase cuja música não lhe saía daquela parte do pensamento, onde as ideias perdem o sentido, para se transformarem em impulso. Era uma divagação de Borges – “Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número?” – repetia desde então, de olhos fechados. Mas as linhas determinantes eram as que melhor dizia em voz alta – “Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, pois ninguém conhecerá ao certo a sua conta…” Ora o Professor queria ser capaz de contar um número inteiro de pássaros voando, para demonstrar o contrário do que sempre fizera por outros argumentos, tendo demonstrado até então, com imenso furor, que Deus não existia. Para mudar tão radicalmente de opinião, precisava de tempo, dum bom bando e de silêncio à sua volta, embora do silêncio imaginado sempre constasse o repetido barulho do mar. Já não era um homem novo. Poder erguer o dedo e contar um, dois, nove, dez, doze pássaros, um número determinado e finito deles, tinha-se transformado numa questão de princípio. Por isso, havia poupado arduamente durante três estações, e feito a viagem de ida e volta na bruta camioneta, exatamente para poder fazer a prova, durante uma tarde em que estivesse só na praia, com o Sol a inclinar-se no horizonte. O seu pensamento era fixo. Encontrar-se-ia de calças arregaçadas junto à água, um bando passaria no sentido do poente, e ele iria contar os animais um a um, entrando, desse modo simbólico, na ciência oculta dos números inteiros de Deus. O número seria definido. Esse iria ser o momento mais importante da sua vida. E na sua ideia, que tinha alguma coisa de obsessivo e amoroso como se aparentado com um beijo projetado no futuro, sempre estaria só com o seu pensamento, sem a presença de mais ninguém. Quando subisse na direção da casa onde alugara o quarto, o Professor contava então ser outro homem. E no entanto, passado quase um mês de estadia, ainda não fora possível atingir o seu fim.

Ali estava a areia, e ali o mar. Ali estava a tarde e os bandos de pássaros, que nem sabia se eram pombas, se gaivotas, se garças, se outra espécie qualquer. Aliás, os nomes não lhe interessavam. Mas, ao contrário do que lhe fora prometido pela criatura que lhe alugara a parte de casa, veraneantes que sobejavam de outras praias ocupavam a areia durante o dia, e muitos aí ficavam até ser noite. Além do mais, vinham carregados de objetos barulhentos, como se tivessem concentrado a mecânica e a tecnologia em seu redor com medo de se perderem num deserto qualquer que temiam atravessar. Tudo em seu redor piscava e rugia. E quando esse furor se escoava ao fim do dia pela ligeira encosta, por infelicidade, descia a rapariga com o bebé, deitado no carrinho traga-areia. A sua figura, cuja carne acabara de ser rasgada pela maternidade, interpondo-se entre ele e os pássaros, impedia-o de se concentrar. O bando passava, ele começava a contar Um, dois, três, quatro… mas quando atingia a quinta criatura, a figura da rapariga, empurrando a criança, intrometia-se desesperadamente. E aquele era o seu antepenúltimo dia. Pela centésima vez, um belo bando acabava de se lhe escapar. Ah! Se essa criatura pudesse adivinhar o mal que lhe causava! Para que ela voltasse para trás com aquele carrinho, o que não daria! – O Professor tomou-se de coragem, abandonou a cadeira de lona na areia e, num impulso, ditado sem dúvida pela determinação que a vontade sugere à beira da perda, começou a caminhar na direção da rapariga. Só vagamente tinha consciência de que a sua intromissão se assemelhava à dum estúpido. Começou por sorrir na direção do bebé. Apesar de tudo, era difícil falar – “Sabe, precisava que uma tarde a senhora não viesse aqui com o seu carrinho…”

Mas aí a rapariga colocou-se à frente do objeto. Os seus olhos ficaram com um brilho amarelo, olhando em frente, imóvel, como o das lobas.

Pelo amor de Deus, não interprete errado!” – disse o Professor. “Trata-se dum problema muito pessoal. Precisava de ficar sozinho na praia, uma tarde só que fosse, e não consigo. Mal aquela gente parte, chega você. Sou um estudioso, queria contar os pássaros durante o voo…”

À medida que falava, ia levantando a voz, e a sensação vaga de que poderia parecer estúpido desvanecia-se. Por certo que uma mulher, que acabava de dar à luz, iria compreender que um homem pudesse desejar contar de forma precisa as unidades exatas dum bando de pássaros. Mas a rapariga, assustada, puxou de tal modo o carrinho na direção das casas que a criança se pôs a vagir. O coração do Professor contraiu-se de desgosto. “Espere, espere! Você nem imagina como eu seria capaz de a recompensar se amanhã você não viesse”. E procurando barrar-lhe o caminho – “Escureceu de todo, os bichos amalharam-se. Como posso contá-los em bando? Como posso?” – ainda disse. Mas agora ela já ia longe, empurrando o seu fardo rolante.

Naturalmente, o Professor foi assaltado nessa noite por uma longa insônia. Não que não pegasse no sono, porém, mal adormecia, os pássaros misturavam-se numa nuvem indistinta, empurrados pelo ruído dum carro. “Não conseguirei” – pensava, alagado em suor. Mas, no dia seguinte, quando a multidão de veraneantes começou a debandada com suas cestas e caixas de ruído, deixou-se invadir por um raio de esperança. “Talvez se tenha assustado e não venha hoje” – pensava. A rapariga, contudo, não deveria ser pessoa para se assustar por tão pouco. A fila começava agora a desviar-se da passadeira de tábua, exatamente porque o carrinho do bebé começava a descer. Aliás, de forma inesperada, a rapariga, cujos seios inchados deveriam estar cheios de leite, abandonou o trilho, abeirando-se da cadeira de lona onde o Professor se encontrava. Os seus olhos haviam perdido o amarelo do dia anterior.

Há uma hipótese de eu não vir passear com o bebé, mas para isso teria de falar com o meu marido…”

O Professor era uma pessoa educada. Tinha-se levantado da cadeira, ficando a olhar, incrédulo, para o rosto da rapariga.

Se eu fosse ao senhor, até ia já. Daqui a meia hora escurece outra vez, e nem eu subo nem você conta os pássaros. Se é isso que pretende fazer”.

Sim, é isso mesmo. Trata-se duma contagem muito importante. Ah! Nem imagina como é importante!”

Isso agora é consigo” – E retirando uma das mãos do guiador do carrinho que parecia jamais querer largar, indicou o pequeno tasco ao fundo, aberto no paredão, incitando-o a que o procurasse. Na verdade, o marido da rapariga parecia esperá-lo, em pé, atrás do balcão que servia a praia. A debandada vespertina de toda aquela gente nómada deixara o recinto deserto. Era um mocetão moreno, de bigode preto. Ao vê-lo, parou de mexer nas vasilhas e foi direito ao assunto.

Ainda bem que veio. Disse-me a mulher que você pretende ficar sozinho na praia…” – E revolvendo uma gaveta, retirou lá de dentro um papel onde estava escrita uma palavra. O mocetão começou a ler com dificuldade o que lá estava escrito. “Você é então um ornitólogo?

Não sou, mas tanto faz” – respondeu o Professor, cheio de esperança.

Pois se é ou não, é lá consigo. Tudo o que preciso saber é quanto dá para que a rapariga volte. A saúde do meu filho tem um preço. Quanto paga?”

Quanto pede?”

Eu diria que o equivalente a três noites de alojamento…”

O Professor começou a ver a tarde esvair-se.

Três noites de alojamento para que a sua mulher, uma vez só, me deixe lá em baixo sozinho? Ainda se fosse o equivalente a uma noite, mas três… Olhe que três noites é um preço muito alto!” – disse o Professor, e percebendo que tudo o que pudesse acrescentar aumentaria a sensação de que estava a comportar-se como um homem louco, abandonou a tasca vazia onde a luz do crepúsculo entrava às tiras pela janela. Em baixo, a mulher em pós-puerpério empurrava afanosamente o carrinho junto à água. A atmosfera era clara, e no céu não havia um único pássaro. Quando houve, os seus gritos passaram longe e o bando fez uma curva invertida no ar, como um avião esparso numa manobra de fuga. Depois escureceu. “Não é desta vez que consigo contá-los. Talvez nunca. Talvez eu deva para sempre imaginar o número indefinido. Isto é, tenho pensado certo e tenho ensinado certo, pois Deus não existe. E se existe, é como se não existisse, porque não se deixa contar para não se mostrar finito. Mas um Deus infinito que foge da vista dos que o buscam confunde-se com a busca. Não existe” – assim pensava o Professor, subindo a ligeira rampa de areia, transpirado, com a cadeira e a toalha às costas. E durante um momento, hesitou. Na verdade, não seria um exagero procurar a circunstância ideal em que viesse a contar os pássaros? Pois porque haveria de existir Deus se o número contado fosse finito, e não ter existência se o número fosse infinito? O Argumentum Ornithologicum, escrito pelo poeta argentino, bem até que poderia conter um desafio, mas porque conteria um método? Porquê? Não se trataria apenas duma simples aporia destinada mais a encantar do que a convencer? O que ganharia o discernimento se, certo dia, sentado na praia, viesse a contar, um a um, vinte ou trinta pássaros? Suavemente, como quem embrulha a última franja dum desejo, o Professor deixou que caísse, sobre o telhado da casa onde se havia hospedado, a penúltima noite do verão.

Então, no último dia, desceu à praia e ficou a ver repetir-se o mesmo andamento, o mesmo ruído, o mesmo bulício que afugentava as aves de cujo número tinha desistido. “Uma causa estúpida” – pensou. “Enveredei por uma demonstração errada. Uma demonstração que não só me ficou muito cara, como ainda poderia ter ficado mais, se acaso me tivesse deixado levar pela ganância daquele lorpa da tasca. “Ao que chegamos!” – ia pensando, enquanto caía a última tarde, e a sua vista não se desprendia do caminho das tábuas. Fazia bem não se desprender – As rodas traga-areia traziam, mais uma vez, a criatura diminuta envolvida em panos, e atrás dela a rapariga que cheirava a sangue e a leite. Rolavam os três na direção da sua cadeira. Ao aproximar-se, a rapariga parecia penalizada. Os seus olhos estavam mais escuros e moviam-se agora duma outra forma. Também o carrinho. Já não o escondia, antes o expunha. E embora o bebé dormisse com os punhos junto das orelhas, parada, ela movia a pega como se o quisesse adormecer duas vezes. O bebé ia e vinha diante dos olhos do Professor. A rapariga tinha-se sentado na areia.

– “Desistiu dos pássaros…” – disse ela. “Bem vejo que desistiu. E pensar que, por mim, o senhor ficava sozinho com eles! Mas está lá em casa o meu marido. Que desculpa haveria de lhe dar?” – Ela olhava para trás. A porta do tasco metido no paredão encontrava-se aberta. A rapariga deveria estar cansada, porque não se movia. Tinha escondido as pernas debaixo da saia, e de vez em quando o seu olhar roçava de novo o amarelo. Ao Professor chegava aquele cheiro a bebé que o estonteava e o levava para longe. Sobretudo, quando a rapariga o retirou da almofada e o colocou no colo. Ela desapertou o vestido e escondeu a face da criança na carne do seio. A última onda descia, a praia alongava-se. Subitamente, uns pássaros maiores que carriças e menores que gaivotas começaram a andar junto à onda, e ignorando a presença humana puseram-se a caminhar na sua direção. Na verdade, só o pulso do bebé, na ânsia de se alimentar, se movia. O Professor colocou os óculos de ver longe. Eram nove, os pássaros.

Pássaros, Professor!” – disse a rapariga, soltando um grito.

Encandeados pela barra vermelha do sol-posto, colaram-se à areia e depois levantaram voo. As penas brancas luziam. Os pássaros desenharam várias voltas como se pescassem alguma coisa no ar. O Professor não poderia contá-los no voo se não os tivesse contado em terra. Mas porque os tinha contado, sabia finitamente quantos eram. “Um, dois, três, seis, sete, nove…” – contava o Professor, invadido por intensa alegria. “Pois finalmente contei nove…” – murmurou ele.

Murmurou várias vezes. A rapariga colocou a criança na almofada e começou a subir demasiado devagar o trilho de tábua. Mas ele não podia dizer-lhe adeus. Não tinha idade para comprimi-la contra si, sem lhe transmitir a fragilidade da sua prova.

Lídia Jorge, in Antologia de contos

15/09/2020

Marido

Salve, Regina, mater misericordiae, vita, dulcedo, spes, imensa doçura, salva e vem. Vem e abafa a vida, a roupa, a sala e o fogão, abafa a espera com teu doce bafo. Ampara a vela, acende o fósforo, concentra o ar, protege da aragem a chama da vela até ele vir. Abafa o som, protege o som da ira dos inquilinos até ele tocar. Esconde-te invisível, acocora-te, vita, advocata, mãe suprema, minha Regina, para que não me deslargues, não desesperes, não me desconfines. Porque esperas? Abre as asas e protege já, protege de seguida, protege contínuo, sem intervalo, sem desfalecimento. Protege desde hoje, desde ontem, desde as duas, desde as dez da noite, desde as cinco, protege baixo, protege alto, protege depois, protege ora, dentro de dois minutos, daqui a duas horas, protege à tarde, et nunc, et sempre, et amanhã, et seculorum, bem como agora e na hora da nossa morte, ámen.
Protege-a bem.
Protege-a a ela e ao marido dela. Protege o marido da porteira até às sete. Porque ele trabalha na oficina até às cinco, ainda que a oficina só feche às sete, às vezes às dez, por vezes nem feche, e muitos fiquem a trabalhar pelo fim da tarde e pela noite dentro. O marido da porteira sempre larga às cinco. Ao quarto para as cinco, ele arruma o guardanapo e a marmita dentro da pasta e sai, mas só chega às sete. Claro que ele precisa de proteção, antes, depois e durante, porque sempre se está em perigo numa oficina-auto. Imenso perigo porque tem de se deitar sob carros inteiros e peças resvaladiças, o corpo completo no chão, a cabeça sob os motores, os olhos sob as alavancas mais perigosas. Rojar-se em grandes manchas de óleo que o sujam e o penetram do cheiro da oficina. Ele faz bem não continuar depois das cinco, por causa do perigo. Mas deveria vir logo para casa, trabalhar na gaiola dos pombos, folhear uma revista ou seguir uma série. Dormitar simplesmente no sofá do hall que ela transformou em saleta e a que chama sala. Aí bem poderia ele dormitar antes do jantar, e não estaria em perigo. Mas não, entre as cinco e as sete, o marido prefere passar em sítios que a porteira nem nomeia, e sair de lá com os olhos cheios do brilho do vidro. Como se o que se espelhasse nos olhos do marido fosse a vasilha, não o vinho. Além disso, o marido da porteira tem um vinho ereto, porque quanto mais toma mais perfila as pernas, a coluna e o corpo todo. O que, em princípio, deveria não constituir um perigo, mas constitui. Com as pernas desse modo esticadas, fica sujeito a bater com a cabeça numa esquina, a encalhar num lancil, a esfacelar um braço, a ir de encontro a um carro e ser atropelado.
Antes ficasse bambo como os outros. Imaginar a cara do marido sob uma roda em andamento provoca uma angústia vespertina na porteira. Por isso mesmo ela chama a Regina para lhe tirar a angústia e proteger o marido, antes de a proteger a ela e à casa. Proteger o trajeto, a porta, a casa, até ele vir e depois de ele vir, às sete. Mas há noites em que o marido não chega às sete, nem às oito, nem às nove. E se não chegar até às dez, ela sabe que não chegará senão de madrugada. É por isso que a hora crucial da vida da porteira acontece entre as cinco e as sete. É dentro desses minutos decisivos da tarde que se dita o dia e a noite da porteira. A porteira, aos cinco para as cinco, acende a vela, põe as mãos pedindo que ele chegue antes do jantar. Uma maçada se ele só vier de madrugada. Já ela o ouve tocar, depois subir, abrir a porta do elevador com dificuldade, sair de lá lentamente com o pé rígido, e depois a chave começa a cair junto da porta, sente levantá-la do chão, deve estar a revolver a chave, até que por fim ele a enfia, a roda, a desprende, a saca, fica dentro de casa e a casa se enche do seu hálito até às bacias e às janelas. Tropeça no sofá da saleta e chama – Lúcia! Ó Lúcia! E o chamamento atravessa as paredes do pequeno décimo, contíguo às chaminés e às antenas, aos escoadoiros da chuva, e se propaga ao interior de todo o prédio, e à varanda onde a porteira na realidade já está escondida, atrás das gaiolas, e protegida pela mão invisível da Regina. Com o coração a bater, Rex, Rex. A porteira escondida atrás do pombal clandestino da varanda, antes da madrugada. A bater, a bater, o coração descomposto da porteira. Rex e Regina, venham e salvem a porteira, salvem-na de madrugada, salvem-na acocorada no trono do pombal, com a cabeça sob os panos, no alto do seu mundo. No alto do grande mundo da madrugada. Salvem-na deste mundo, levem-na no escuro, tratem-na com doçura enquanto se esconde. Mater misericordiae, abre as asas, abafa o som do coração da porteira, apaga da vista do marido dela a luz que possa iluminar o ângulo escuro onde a porteira está escondida. O marido anda junto do pombal, passa hirto, com as mãos tensas, apalpando o que não vê, não a vê nem lhe toca, passa e vai. Alguma coisa nele chama alto e grita à procura dela. E a madrugada calada resplandece de luz frouxa e de doçura, no alto dos prédios.
Aliás, também a porteira tem imensa doçura. É com a voz muito doce que a porteira ao cair da noite se põe a chamar à janela pela Regina, cantando como o padre Romão canta para atingir o coração do Rex através da Regina. Pela salvação do mundo. Mas não canta alto como o padre Romão canta, movendo com as mãos a voz do coro. Pelo contrário, ela canta baixo, às vezes só move os lábios à janela para não atrair a ira dos inquilinos. Ainda que saiba que, se cantasse alto, melhor atingiria o ouvido da Regina. Mas não, a porteira aceita que o seu pedido seja cantado baixo. É que o prédio é alto, o barulho da rua, intenso, e mesmo assim, vem logo um recado pedindo que não cante a porteira na varanda. Há sempre alguém querendo dormir intensamente ou concentrar-se sobre um assunto. Há um aviador com horas perdidas querendo recuperá-las, um médico que, na noite passada, fez um serão noturno do tamanho de dois corredores. Dois advogados lutando, com a imparável cabeça dos advogados, entre a lei e a infração, vigiando a vigília. Não os pode perturbar. Só mexe os lábios – Regina, misericordiae. No nono andar há um recém-nascido com cólicas, no oitavo, um ancião que acabou de ser operado, gente querendo absoluto silêncio quando chegam as dez da noite. Ela não vai, por sua causa particular, incomodar tanta gente que logo abriria a janela reclamando o chamamento da porteira ao invocar as roupagens da Regina, doce, dulcedo.
Ainda que o devesse fazer desde o momento em que, na oficina-auto, o marido começa a arrumar a marmita na pasta, quinze para as cinco. Não o fez por respeito e determinação. Mas há dias, toda essa gente que tanto precisa dormir e vigilar em sossego, sem jamais se entender nem ver nem precisar de se reconhecer, parece ter-se entendido e combinado. A porteira não pode esquecer. Primeiro foi o advogado. O advogado do quinto, simulando um recibo perdido, chamou-a para lhe dizer que, se ela desejasse separar-se do marido, ele mesmo asseguraria a papelada da separação. Esclareceu, com o recibo na mão, como era só uma questão de papéis. E dobrou por fim o recibo para demonstrar a facilidade com que se dobrava um papel sob o vigor da lei. Bastavam umas testemunhas, mas, segundo o advogado do quinto, em cada andar do prédio havia duas pessoas dispostas a testemunhar pela porteira e pela lei. Também o médico. O médico do segundo andar encontrou-a como por acaso e disse-lhe, sem qualquer preâmbulo, que lhe passaria os atestados de que ela precisasse para mostrar em tribunal, reforçando a ideia de que de facto tudo era uma questão de papéis. Levava na mão a asa duma pasta, mas era como se também tivesse um recibo e o dobrasse diante da porteira. O médico do segundo estava à disposição da porteira. Contudo, mais esclarecedora tinha sido a assistente social do terceiro, naquele mesmo dia. Chamou-a para lhe falar de direitos, com a veemência com que habitualmente se fala de deveres. Tudo isso, desabridamente, entre portas. Aí a porteira entendeu que se haviam congregado todos contra o seu homem e perdeu a doçura, nesse dia mesmo. E perdeu a doçura porque um homem é um homem, spes nostra, ad te clamamus, Rex, Jessus, benedictus fructus ventris tui nobis post hoc exilium, ostende. E assim sucessivamente. Isto é, um homem é um homem e um sacramento ainda é mais do que um homem porque esse é uma liga entre dois e nem parte dele perece na Terra. Oh, vita, dulcedo!
Com o balde entre portas, nessa hora do dia, a porteira perdeu a doçura sem o mostrar, exatamente porque era doce. Era, e pôs-se a pensar sentada na cama, diante da vela por acender, que os habitantes daquele prédio de que era porteira lhe estendiam um tapete de negrume e solidão. Pensou como, para além do sacramento, seria triste a vida de porteira sem um marido que viesse da oficina-auto com o seu fato-macaco por tratar. Com quem ralharia, por quem iria ao talho, de quem falaria quando fosse às compras, para quem pediria proteção quando cantasse à janela por Salve Regina, a quem pertenceria quando os domingos viessem, e cada mulher saísse com seu homem, se ela nem mais teria o seu. A vida pareceu-lhe completamente absurda, como se todos se tivessem combinado para lhe arrancarem metade do corpo. Se, mal tinha deixado de ser criança, já procurava um homem, era porque de fato metade de si andava nesse homem desde sempre, por vontade de alguma coisa que o sacramento elevara mediante uma cerimônia. E agora, de repente, um conselho desses. Pensava a porteira, com a vela apagada, sentada na cama. Que ideia triste aquela de a assistente social dizer que uma mulher é um ser completo. Diante da vela. E quem atarraxava as lâmpadas do teto? Quem tinha força para empurrar os móveis? Quem espantava os ladrões de carros com dois tiros para o ar, do alto da varanda? Quem desarmava a cama, empurrava o frigorífico, consertava o carro quando avariava, reclamava o criado com voz grossa quando saíam a comer caracóis à beira-mar? Quem enfrentava os polícias quando na estrada faziam paragem? Quem conduzia e percebia as coisas do carburador? Quem? Quem? Que papel imprescindível, que pessoa necessária na vida da porteira. Para além do sacramento. Além disso, o seu homem tinha um bom caráter. Primeiro, porque fora da bebida nunca tinha querido bater nem matar, como tantos há. Depois, porque sempre podia ralhar com ele, que nunca ele respondia como tantos respondem. E o dinheiro? Que sorte tinha com o dinheiro. Ela era o cofre de tudo, com exceção do dinheiro que ele gastava quando ficava por lá, e como esse não chegava a vir, infelizmente, ela não podia amealhar. De resto, ela escondia o dinheiro onde ele nem sabia, e ele nem lho pedia nem queria ver. Quantos, por contraste, não passavam para as mãos das mulheres nem uma moeda, falsa que fosse. Não o seu marido. Ela é que o vestia, ela é que determinava a comida, ela é que o mandava pôr os pregos, ir buscar os pombos, alimentar os pombos. E ele calado. Os inquilinos não viam isso. E podia entregar-se à devoção. Quantos mais, naquela paróquia, deixavam que a mulher se entregasse à devoção? Havia até os que desconfiavam do padre Romão, e iam espreitar, e até proibiam as mulheres de fazer coro, perseguindo-as como no tempo dos Romanos e das catacumbas. Ora o marido da porteira nunca procedera assim. Pouco se ralava que ela fosse ou que viesse. Ficava dando grandes marteladas nas tábuas, fazendo gaiolas, raspando a sujidade dos pombos no terraço. Que importava então que voltasse com os olhos mais luzidios, e que, de vez em quando, a chamasse daquele jeito, estendendo o seu nome de Lúcia com um brado, perseguindo-a? Era só aquele instante em que gritava na sala da televisão, e enquanto a procurava pela varanda, ao todo uns quinze minutos de sobressalto. Depois, ele entrava em casa e, com as pernas abertas, caía no chão, perdia a rigidez das pernas e dormia, no meio da casa para onde ela voltava. Restava, pois, pedir pela casa da porteira. Que lhe retirasse o hálito, o ar, o álcool, o bafo, o sopro cardíaco daquela casa, o rouquido da pessoa caída no chão. De tarde haveria de acender a vela, mover os lábios, invocar ad te suspiramus gementes et flentes, advocata nostra, ergo, misericordes oculos ad nos converte. Ela pede.
Vai pedir. E a Regina se ergue, poisa, desce sobre a casa, cada dia uma vitória do céu sobre a terra, do espiritual sobre o mundo, a porteira sabe, nunca dará um passo para se separar do marido. Pensando nisso, chega a sentir um sentimento incristão. Apetece-lhe cuspir contra o conluio dessa gente. Quanta conversa não terão feito sobre a sua vida para terem ido tão longe, sobre ela, que nunca se mete na vida de ninguém. Ainda por cima, tinham-lhe falado como quem concede e dá uma prenda, ou faz uma surpresa. Não, na verdade não queriam ajudar a porteira. Esse sentimento diante da vela é tão esclarecido que ela experimenta uma nova coragem. É como se de repente sentisse uma força sobre-humana vir de dentro dela, sem precisar do auxilio da própria Regina. Está sentada, está esperando, vai ficar assim, cheia de força, sozinha, aguardando as cinco, as seis e as sete. Aguardando as oito e as nove. Ali mesmo. Não fugirá para o terraço, não permitirá que ninguém lhe oiça os passos, nem correrá diante dos brados do marido, Lúcia, ó Lúcia, aqueles gritos que ele dá, alvoroçando o prédio. Ela mesma estará junto da porta, e ele não precisará de chamar, porque a verá antes de qualquer outro objeto da casa. Ele há-de enxergá-la, mal entre. Com jeito, ela há-de acalmá-lo, em silêncio. E há-de correr a descalçá-lo para que as passadas sejam abafadas, há-de ampará-lo na queda para que se debruce sobre o sofá e não caia no chão. Há-de calá-lo, embalá-lo, desvalê-lo, retê-lo junto de si com voz baixa, massajar-lhe as pernas, esfregar-lhe as mãos. E assim, chegue ele quando chegar, ela estará numa espécie de paz. Ninguém ouvirá, ninguém correrá persianas pela sua chegada, ninguém mais se meterá na sua vida. Que mudança! Pensando nessa doce mudança, quase se deixa dormir. Se ele vier na volta da madrugada, até mesmo se já for dia, ela lhe dirá – Ah, como nos quiseram separar! Ainda tremo, marido! E assim, pode deixar-se dormir no sofá da sala, mesmo sem Regina. Que rápida passa a noite, quando se tem um pensamento bom. Como passa rápido o próprio sono da porteira. Devem ter-se avariado todos os relógios, porque passou sem dar por passar. Já o marido vem. Exato. Já tocou, agora subiu, agora rodou a chave, já caiu, já apalpou, já abriu a porta e ela já está a pé. Marido? Tal como ela pensou, ele parece estupefacto por vê-la. Parado entre as portas, com os olhos bem abertos a olhá-la. Marido? Ele avança na direção do interior da casa e senta-se devagar sobre o sofá. Sem dizer Lúcia, com os olhos eminentemente abertos. Depressa ela lhe tira os sapatos, esfrega-lhe as mãos, massaja-lhe as pernas, o marido parece estar a viver a maior surpresa alcoólica da sua vida. Debruçado, inerte, deixando-se trabalhar, mover e conduzir, com os olhos deslumbrados, estupefacto. Ele mesmo levanta os braços para que a porteira os dispa. Tudo sem ruído, sem aquele grito por Lúcia pelas empenas do prédio. Sem arrastar nenhuns sapatos, sem espancar nenhum móvel. Vejam como ele se vira, como o seu cabelo curto de homem lhe cai pela testa, como é bonito o lábio roxo do marido, sem som, só bafo. Ela até gosta do bafo a óleo e a álcool. Vejam como ele procura o casaco, como se senta na cama sem o menor ruído. Como procura nos bolsos. Mesmo a chave que cai não faz barulho, como numa cena longínqua, aproximada, a que se tirou todo o som. Como acende o isqueiro, como os olhos dele brilham sem ruído sob o isqueiro aceso. Lambe os lábios sob a chama, o marido da porteira, sem ruído. Nem ela produzirá uma única palavra. Será muda durante a noite, ela, e as paredes dela também serão mudas para que jamais alguém se atreva a insinuar uma vingança forçada, uma separação desventurosa, um desquite profano. Mater, misericordia, advocata nostra. Mesmo que ele lhe aproxime o isqueiro da cara e lho passe pelo cabelo. Ela se afastará do isqueiro. Porque não a comovem. De facto, todos os inquilinos, médicos, advogados, anciães, recém-nascidos, aviadores, assistentes sociais, trabalhadores por conta própria, por conta de outrem, patrões, criadas, podem dormir descansados. Não a demoveram. Afinal o que o marido queria não era incendiar-lhe o cabelo, mas apenas acender a vela. Com os olhos abertos, sem ruído. Oh, vela! Mater, vita, dulcedo, em silêncio como a noite quer, arde a vela. Deve-se apagar a luz, deixar que a vela brilhe no escuro da noite. Também ele se sente atraído pelo brilho da vela, direita, ateada. Ele toma a vela, traz a vela, traz a vela do Rex e da Regina até junto da porteira, puxa-lhe a roupa, aproxima a vela da camisa de nylon , com brilho e em silêncio. Ateia. Ateou? Ateou a camisa?
Ela vira-se, sai da cama, esfrega-se na parede, o fogo primeiro não alastra, depois de repente alastra, cola, passa ao cabelo, ela remove-se no chão, na carpete da sala, junto da porta, ainda abre a porta, mater, vita, ó doçura, ventris tui nobis post hoc exilium, ostende! Ó clemens, ó pia, advocata, em silêncio, dulcis Virgo Maria! A porta está aberta para toda a chama. A chama da porteira sai pela escada de serviço abaixo, correndo sem ruído até ao oitavo, ao sétimo, ao sexto. Só no quinto a chama da porteira para. Crepita. É a porta do advogado do quinto. Sem barulho, fica à porta do advogado, das testemunhas e da lei. A Regina assim quer que fique. Regina acocorada sobre ela, no quinto, de asas abertas sobre o quinto, e o marido no décimo. Ainda terá a vela? Abre as asas, advocata, levanta voo, leva a porteira, condu-la na maca, ergue-lhe a vista, Regina, separa-a definitivamente da cama, do balde e do fogão. Separa-a dos dez andares que o prédio tem, separa agora, et nunc, et sempre, et séculos, das janelas abertas, cheias das silhuetas dos inquilinos lilases e brancos pela fúria da última doce madrugada. Levem-na, Regina e Rex, com vossas quatro mãos, vossos quatro pés, deste lacrimarum valle, eia ergo, ad nos converte. Levem-na sem ruído, sem sirene, sem apito, sem camisa, sem cabelo, sem pele, post hoc exilium, ostende.
Lídia Jorge, in Antologia de contos