21/12/2020
A grande artista
09/12/2020
O discurso do general Loewenhielm
Karen Blixen, in A festa de Babette
04/12/2020
A festa de Babette
Karen Blixen, in A festa de Babette
30/11/2020
O general Loewenhielm
Karen Blixen, in A festa de Babette
18/11/2020
O hino
Karen Blixen, in A festa de Babette
11/11/2020
A tartaruga
Karen Blixen, in A festa de Babette
30/10/2020
A boa sorte de Babette
Karen Blixen, in A festa de Babette
23/10/2020
Natureza-morta
Karen Blixen, in A festa de Babette
15/10/2020
Uma carta de Paris
Quinze anos depois, numa noite chuvosa de junho, em 1871, a corda da campainha da casa amarela foi puxada violentamente três vezes. As donas da casa abriram a porta para uma mulher robusta, morena, mortalmente pálida, com um pacote no braço, que as fitou com olhos arregalados, deu um passo adiante e tombou sem sentidos sobre o limiar da porta. Quando as senhoras assustadas trouxeram-na de novo à consciência, ela se sentou, lançou-lhes mais um relance com seus olhos fundos, o tempo todo sem dizer palavra, tateou as roupas úmidas e apareceu com uma carta, que lhes estendeu.
A carta era de fato endereçada a elas, mas escrita em francês. As irmãs encostaram a cabeça uma na outra e a leram. Dizia o seguinte:
Senhoras!
Lembram-se de mim? Ah, quando penso nas senhoras meu coração se enche de lírios do vale! Será a lembrança da devoção de um francês capaz de comover seus corações a ponto de salvar a vida de uma francesa?
A portadora desta carta, Madame Babette Hersant, como minha linda imperatriz em pessoa, teve de fugir de Paris. A guerra civil assola nossas ruas. Mãos de franceses têm derramado sangue francês. Os nobres communards, em defesa dos Direitos do Homem, foram esmagados e aniquilados. O marido e o filho de Madame Hersant, ambos eminentes cabeleireiros femininos, foram fuzilados. Ela mesma foi presa como uma pétroleuse e escapou por pouco das mãos sanguinárias do general Galliffet. Perdeu todas suas as posses e não ousa permanecer na França.
Um sobrinho dela é cozinheiro a bordo do Anna Colbioernsson, com destino a Cristiânia (que é, segundo creio, a capital da Noruega), e conseguiu uma oportunidade de embarcar sua tia. É agora seu último e triste recurso!
Sabendo que fui outrora um visitante de seu magnífico país, vem até mim, perguntando se tenho conhecimento de alguma boa gente na Noruega, e me suplica que, se tal for o caso, lhe forneça uma carta para essas pessoas. Estas duas palavras, “boa gente”, imediatamente trouxeram-me diante dos olhos sua imagem, sagrada para meu coração. Eu a confio às senhoras. Como fará para chegar de Cristiânia a Berlevaag, não tenho ideia, tendo esquecido o mapa da Noruega. Mas é uma francesa e descobrirão que, mesmo em sua miséria, ainda encontra desembaraço, grandeza e estoicismo. Invejo-a em seu desespero: ela se verá diante de seus rostos. Quando a receberem misericordiosamente, enviem um pensamento misericordioso para mim na França. Por quinze anos, senhorita Philippa, lamentei que sua voz não houvesse enchido a Grand Opéra de Paris. Quando, esta noite, penso na senhora, sem dúvida cercada por uma família feliz e amorosa, e em mim, velho, solitário, esquecido pelos que outrora me aplaudiram e adoraram, sinto que deve ter escolhido a melhor parte da vida. O que é a fama? O que é a glória? O túmulo nos aguarda a todos! E ainda assim, minha Zerlina perdida, e ainda assim, soprano das regiões geladas!, à medida que escrevo, sinto que o túmulo não é o fim. No Paraíso, ouvirei sua voz novamente. Lá a senhora cantará, sem medos ou escrúpulos, como Deus quis que cantasse. Lá será a grande artista que Deus planejou. Ah, como encantará os anjos.
Babette sabe cozinhar.
Dignem-se receber, minhas senhoras, a humilde homenagem do amigo de outrora,
ACHILLE PAPIN
No pé da página, a título de P.S., iam desenhados com capricho os dois primeiros compassos do dueto entre Don Giovanni e Zerlina, assim:
As duas irmãs, até o momento, contavam apenas com uma pequena empregada de quinze anos para ajudá-las na casa e sentiam que não podiam se dar ao luxo de contratar uma governanta mais velha e experiente. Mas Babette afirmou que serviria a boa gente de Monsieur Papin de graça e que não aceitaria trabalhar para mais ninguém. Se a mandassem embora, provavelmente morreria. Babette permaneceu na casa das filhas do deão por doze anos, até a época desta história.
Karen Blixen, in A festa de Babette
28/09/2020
O namoro de Philippa
Um ano mais tarde, uma pessoa ainda mais notável do que o tenente Loewenhielm foi a Berlevaag.
O grande cantor Achille Papin, de Paris, cantara por um ano na Ópera Real, em Estocolmo, e lá, como em toda parte, arrebatara seu público. Certa noite, uma dama da corte, que sonhava em ter um romance com o artista, descrevera-lhe a paisagem selvagem e grandiosa da Noruega. Sua própria natureza romântica foi agitada pelo relato e ele incluiu no trajeto de volta à França uma passagem pela costa norueguesa. Porém, sentiu-se pequeno naquele cenário sublime; sem ninguém com quem conversar, mergulhou numa melancolia em que via a si mesmo como um velho em fim de carreira, até que num domingo, quando não conseguia imaginar outra coisa para fazer, foi à igreja e ouviu Philippa cantar.
Então, num lampejo, percebeu e compreendeu tudo. Pois ali estavam os picos nevados, as flores selvagens e as brancas noites nórdicas traduzidas em sua própria linguagem musical e levadas até ele pela voz de uma jovem. Como Lorens Lowenhielm, teve uma visão.
“Deus Todo-Poderoso”, pensou, “Vosso poder não conhece limites e Vossa misericórdia eleva-se até as nuvens! E aqui está uma prima-dona da ópera que vai deixar Paris a seus pés.”
Achille Papin, nessa época, era um belo quarentão, com cabelos pretos encaracolados e boca vermelha. A idolatria de nações não o estragara; era uma pessoa de bom coração e honesto consigo mesmo.
Foi direto à casa amarela, deu seu nome – que para o deão não dizia nada – e explicou que passava uma estadia em Berlevaag para cuidar da saúde e, enquanto isso, ficaria feliz em ter a jovem dama como sua pupila.
Não mencionou a Ópera de Paris, mas descreveu minuciosamente como seria lindo o canto da senhorita Philippa na igreja, para a glória do Senhor.
Em determinado momento cometeu um deslize, pois quando o deão perguntou se era um católico romano, respondeu segundo a verdade, e o velho clérigo, que jamais vira um católico romano, ficou um tanto pálido. Mesmo assim, o deão alegrou-se de poder exercitar o francês, que o lembrava seus dias de juventude, quando estudara as obras do grande escritor luterano francês Lefèvre d’Étaples. E, como ninguém era capaz de fazer frente a Achille Papin quando de fato punha todo seu empenho num assunto, no fim o pai acabou concordando, e observou para a filha: “Os caminhos do Senhor correm pelo oceano e pelas montanhas nevadas, onde o olhar do homem não enxerga nenhum rastro”.
Assim, o grande cantor francês e a jovem aprendiz norueguesa puseram-se a trabalhar juntos. As expectativas de Achille tornaram-se uma certeza e a certeza transformou-se em êxtase. Pensava: “Errei em pensar que estava ficando velho. Meus maiores triunfos encontram-se diante de mim! O mundo vai voltar a acreditar em milagres quando cantarmos juntos!”.
Após algum tempo, não conseguiu mais guardar seus sonhos para si mesmo e contou a Philippa sobre eles.
Ela iria, disse, subir como uma estrela acima de qualquer diva do passado ou do presente. O imperador e a imperatriz, os príncipes, as nobres damas e bels esprits de Paris iriam ouvi-la e verter lágrimas. As pessoas comuns também iriam venerá-la e levaria consolo e força aos injustiçados e oprimidos. Quando deixasse a Grand Opéra de braços dados com o mestre, a multidão a tiraria do cavalo e a conduziria nos ombros ao Café Anglais, onde uma ceia magnífica a aguardava.
Philippa não repetiu essas expectativas para seu pai ou sua irmã e essa foi a primeira vez em sua vida que guardava um segredo deles.
O professor agora dava à pupila o papel de Zerlina na ópera Don Giovanni, de Mozart, para estudar. Ele próprio, como tantas vezes antes, cantaria o papel de Don Giovanni.
Jamais em sua vida cantara como agora. No dueto do segundo ato – chamado o dueto da sedução – flutuava de emoção com a música celestial e as vozes celestiais. Quando a última nota comovente agonizou, agarrou as mãos de Philippa, puxou-a para junto de si e beijou-a solenemente, como um noivo beijaria a noiva diante do altar. Então a soltou. Pois o momento era sublime demais para quaisquer outros gestos ou palavras; Mozart em pessoa olhava os dois lá do alto.
Philippa foi para casa, disse ao pai que não queria mais saber de aulas de canto e pediu-lhe para escrever e dizer tal coisa a Monsieur Papin.
O deão disse: “E os caminhos do Senhor correm pelos rios, minha criança”.
Quando Achille recebeu a carta do deão, sentou-se imóvel por uma hora. Pensou: “Eu me enganei. Meu dia chegou. Nunca mais serei o divino Papin. E este pobre jardim inculto do mundo perdeu seu rouxinol!”.
Um pouco depois, pensou: “Fico me perguntando qual será o problema com aquela diabinha? Será que por acaso a beijei?”.
No fim, pensou: “Perdi minha vida por um beijo e não guardo a menor lembrança desse beijo! Don Giovanni beijou Zerlina e Achille Papin é quem paga! Tal é o destino do artista!”.
Na casa do deão, Martine pressentia que a questão era mais profunda do que parecia e perscrutava o rosto da irmã. Por um momento, com um ligeiro tremor, também imaginou que o cavalheiro católico romano talvez houvesse tentado beijar Philippa. Mas não imaginava que a irmã pudesse ter ficado surpresa e atemorizada com algo de sua própria natureza.
Achille Papin tomou o primeiro barco que saiu de Berlevaag.
Sobre o visitante do grande mundo, as irmãs falaram muito pouco; faltavam-lhes as palavras com que discuti-lo.
Karen Blixen, in A festa de Babette

