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25/06/2022

Marina | 1

No final da década de 1970, Barcelona era uma miragem de avenidas e becos, onde, só de cruzar a soleira de uma portaria ou de um café, uma pessoa poderia viajar para trinta ou quarenta anos antes. O tempo e a memória, a história e a ficção se fundiam como aquarelas na chuva naquela cidade feiticeira. Foi ali, sob o eco de ruas que já não existem, que catedrais e edifícios fugidos de alguma fábula tramaram o cenário desta história.
Na época, eu era um menino de 15 anos que mofava entre as paredes de um internato com nome de santo, nas margens da estrada de Vallvidrera. Naquele tempo, o bairro de Sarriá ainda conservava o aspecto de um pequeno povoado encalhado à margem de uma metrópole modernista. Meu colégio se erguia no alto de uma rua que subia do Paseo de la Bonanova. Sua fachada monumental sugeria mais um castelo do que uma escola. E sua silhueta angulosa de cor barrenta era um quebra-cabeça de torres, arcos e alas em trevas.
O colégio era cercado por uma cidadela de jardins, fontes, tanques lodosos, pátios e pinheirais encantados. Ao seu redor, edifícios sombrios hospedavam piscinas cobertas por um véu fantasmagórico de vapor, ginásios enfeitiçados de silêncio e capelas tenebrosas onde as imagens dos santos sorriam sob o reflexo dos círios. O edifício tinha quatro andares, sem contar os dois porões e o sótão com o claustro, onde viviam os poucos sacerdotes que ainda trabalhavam como professores. Os quartos dos internos se enfileiravam ao longo dos corredores cavernosos do quarto andar. Essas intermináveis galerias jaziam em perpétua penumbra, envoltas por um eco espectral.
Eu passava meus dias sonhando acordado nas salas de aula daquele imenso castelo, esperando pelo milagre que se produzia todo dia às cinco e vinte da tarde. Nessa hora mágica, o sol vestia os altos janelões de ouro líquido. A campainha tocava anunciando o fim das aulas e nós, os internos, dispúnhamos de quase três horas livres antes do jantar no refeitório. A ideia era de que esse tempo deveria ser dedicado aos estudos e à reflexão espiritual. Não me lembro de ter destinado um único dia dos muitos que passei ali a nenhuma dessas nobres tarefas.
Aquele era o meu momento favorito. Driblando o controle da portaria, partia para explorar a cidade. Costumava voltar para o internato, ainda a tempo de jantar, caminhando entre velhas ruas e avenidas enquanto anoitecia ao meu redor. Naqueles longos passeios, experimentava uma sensação de liberdade embriagante. Minha imaginação voava por cima dos edifícios e se erguia até o céu. Por algumas horas, as ruas de Barcelona, o internato e o meu triste dormitório no quarto andar sumiam. Por algumas horas, só com um par de moedas no bolso, eu era o sujeito mais sortudo do universo.
Muitas vezes, meu caminho me levava para aquela área que na época era chamada de deserto de Sarriá e que não era nada mais que um arremedo de bosque perdido numa terra de ninguém. A maioria das antigas mansões senhoriais, que nos bons tempos povoavam o norte do Paseo de la Bonanova, ainda estava de pé, embora em ruínas. As ruas que cercavam o internato traçavam uma cidade fantasma. Muros cobertos de hera vedavam a entrada em jardins selvagens nos quais se erguiam residências monumentais, palácios invadidos pelo mato e pelo abandono, nos quais a memória parecia flutuar como uma névoa que demora a se dissipar. Muitos desses casarões só esperavam a demolição e outros tinham sido saqueados por anos a fio. Alguns, no entanto, ainda estavam habitados.
Seus ocupantes eram membros esquecidos de famílias arruinadas. Uma gente cujo nome se escrevia em quatro colunas no La Vanguardia, na época em que os bondes ainda despertavam o temor reservado a invenções modernas. Reféns de um passado moribundo, negavam-se a abandonar o barco à deriva. Temiam que seus corpos se desfizessem em cinzas ao vento se ousassem pôr os pés fora de suas mansões devastadas. Prisioneiros, definhavam à luz dos candelabros. Muitas vezes, quando passava apressado diante das grades enferrujadas de um daqueles portões, eu tinha a impressão de que olhares assustados me acompanhavam por trás das janelas descascadas.
Uma tarde, no fim de setembro de 1979, resolvi me aventurar ao acaso por uma daquelas avenidas semeadas de palacetes modernistas que não tinha reparado antes. A rua descrevia uma curva que terminava num portão de ferro igual a tantos outros. Do outro lado da grade, estendiam-se os restos de um velho jardim marcado por décadas de abandono. Entre a vegetação, entrevia-se a silhueta de um casarão de dois andares. Sua fachada sombria se erguia por trás de uma fonte com esculturas que o tempo tinha vestido de musgo.

Começava a escurecer e o local me pareceu um pouco sinistro: rodeado por um silêncio mortal, só a brisa se atrevia a sussurrar uma advertência sem palavras.
Compreendi que tinha penetrado numa das zonas “mortas” do bairro e pensei que o melhor a fazer era voltar atrás e retornar ao internato. Estava me debatendo entre o bom senso e a fascinação mórbida por aquele lugar esquecido, quando descobri dois brilhantes olhos amarelos acesos no meio da escuridão, cravados em mim como punhais. Engoli em seco.
A pelagem cinzenta e aveludada de um gato se recortava imóvel diante das grades do portão da mansão. Um pequeno pardal agonizava entre seus dentes pontiagudos. Um guizo prateado pendia do pescoço do felino. Seu olhar me estudou por alguns segundos. Pouco depois, deu meia-volta e deslizou por entre as barras de ferro. Fiquei olhando enquanto ele se perdia na imensidão daquele éden maldito, levando o pardal em sua última viagem.
A visão daquela pequena lera altiva e desafiadora me cativou. A julgar por seu pelo lustroso e pelo guizo no pescoço, deduzi que tinha dono. Talvez aquela casa hospedasse algo mais que os fantasmas de uma Barcelona desaparecida. Cheguei mais perto e apoiei as mãos nas grades da entrada. O metal estava frio. As últimas luzes do crepúsculo iluminavam o rastro que as gotas do sangue do pardal tinham deixado através daquela selva. Pérolas escarlates desenhavam a trilha do labirinto. Engoli de novo, ou melhor, tentei engolir. Minha boca estava seca. Como se soubesse de alguma coisa que eu ignorava, o sangue latejava em minhas têmporas. Foi nesse instante que senti a porta ceder sob meu peso, e compreendi que estava aberta.
Quando dei o primeiro passo para o interior, a lua iluminava o rosto pálido dos anjos de pedra da tonte. Eles me observavam. Meus pés pareciam pregados no chão. Temia que a qualquer momento aqueles seres pulassem de seus pedestais e se transformassem em demônios armados de garras de lobo e línguas de serpente. Mas nada disso ocorreu. Respirei profundamente, considerando a possibilidade de desligar minha imaginação ou, melhor ainda, abandonar minha tímida exploração daquela propriedade. Mais uma vez, alguém decidiu por mim. Um som celestial invadiu as sombras do jardim como um perfume. Ouvi os contornos daquele sussurro desenharem uma ária acompanhada ao piano. Era a voz mais bonita que eu já tinha ouvido na vida.
A melodia me parecia familiar, mas não consegui identificá-la. A música vinha da casa. Segui seu rastro hipnótico. Lâminas de luz vaporosa se filtravam pela porta entreaberta de uma galeria envidraçada. Reconheci os olhos do gato, fixados em mim do parapeito de um janelão do primeiro andar. Fui me aproximando da galeria iluminada de onde saía aquele som indescritível. Era a voz de uma mulher. O brilho tênue de cem velas bruxuleava no interior. A luz revelava a cometa dourada de um velho gramofone, no qual girava um disco. Sem pensar no que estava fazendo, me peguei invadindo a galeria, fascinado por aquela sereia aprisionada no gramofone. Na mesa onde a engenhoca repousava entrevi um objeto brilhante e esférico. Era um relógio de bolso. Peguei-o e fui examiná-lo à luz das velas. Os ponteiros estavam parados e a tampa, rachada. Parecia de ouro e tão velho quanto a casa em que se encontrava. Um pouco mais adiante havia uma grande poltrona de costas para mim, diante de uma lareira sobre a qual pude apreciar o retrato a óleo de uma mulher vestida de branco. Seus grandes olhos cinzentos, tristes e sem fundo, dominavam a sala.
Subitamente, o encantamento se rompeu. Uma silhueta se ergueu da poltrona e virou na minha direção. Uma longa cabeleira branca e dois olhos acesos como brasas brilharam na escuridão. Só consegui ver duas imensas mãos brancas avançando para mim. Em pânico, saí correndo em direção à porta, mas no caminho tropecei no gramofone e derrubei-o no chão. Ouvi a agulha arranhando o disco. A voz celestial se rompeu num gemido infernal. Saltei para o jardim sentindo aquelas mãos roçarem minha camisa e atravessei-o com asas nos pés e o medo ardendo em cada poro do meu corpo. Não parei um instante sequer. Corri cada vez mais, sem olhar para trás até que uma pontada de dor perfurou minhas costelas e então percebi que mal conseguia respirar. Naquela altura, estava coberto de suor frio e as luzes do internato brilhavam 30 metros à minha frente.
Deslizei por uma porta ao lado das cozinhas, que ninguém nunca vigiava, e me arrastei para o meu quarto. Os outros internos já deviam estar no refeitório há tempos. Sequei o suor da testa e pouco a pouco meu coração recuperou seu ritmo habitual. Começava a me acalmar, quando alguém bateu na porta do quarto com os nós dos dedos.
Óscar, hora de descer para jantar — entoou a voz de um dos professores, um jesuíta racionalista chamado Segui, que detestava fazer papel de polícia.
Já estou indo, padre — respondi. — Um segundo.
Vesti apressadamente o paletó do uniforme e apaguei a luz do quarto. Através da janela, o espectro da lua se erguia sobre Barcelona. Só então me dei conta de que ainda segurava o relógio na mão.

Carlos Ruiz Zafón, in Marina

29/08/2018

Dias de Cinza: 1945-1949 (1)


Um segredo vale o que valem aqueles de quem temos de guardá-lo. Ao acordar, o meu primeiro impulso foi dar parte da existência do Cemitério dos Livros Esquecidos ao meu melhor amigo. Tomás Aguilar era um colega de estudos que dedicava o tempo livre e o talento à descoberta de geringonças engenhosíssimas mas de escassa aplicação prática, como o dardo aerostático ou o pião-dínamo. Ninguém melhor que Tomás para compartilhar aquele segredo. Sonhando acordado, imaginava o meu amigo Tomás e eu próprio apetrechados ambos de lanternas e bússola, prestes a desvendar os segredos daquela catacumba bibliográfica. Depois, recordando a minha promessa, decidi que as circunstâncias aconselhavam o que nos romances de intriga policial se denominava outro modus operandi. Ao meio-dia abordei o meu pai para o questionar acerca daquele livro e de Julián Carax, que no meu entusiasmo tinha imaginado célebres em todo o mundo. O meu plano era deitar mão a todas as suas obras e lê-las de fio a pavio em menos de uma semana. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o meu pai, livreiro de raça e bom conhecedor dos catálogos editoriais, nunca tinha ouvido falar de A Sombra do Vento ou de Julián Carax. Intrigado, o meu pai inspecionou a página com os dados da edição.
Segundo isto, este exemplar faz parte de uma edição de dois mil e quinhentos exemplares impressa em Barcelona, por Cabestany Editores, em Dezembro de 1935.
Conheces essa editora?
Fechou há anos. Mas a edição original não é esta, e sim outra de Novembro do mesmo ano, mas impressa em Paris... A editora é Galliano Neuval. Não me diz nada.
Então o livro é uma tradução? – perguntei, desconcertado.
Não refere que o seja. Pelo que aqui se vê, o texto é original.
Um livro em castelhano, editado primeiro em França?
Não será a primeira vez, com os tempos que correm – aduziu o meu pai. – Se calhar o Barceló pode-nos ajudar...
Gustavo Barceló era um velho colega do meu pai, dono de uma livraria cavernosa na rua Fernando, que capitaneava a fina-flor do grêmio de alfarrabistas. Vivia perpetuamente agarrado a um cachimbo apagado que desprendia eflúvios de mercado persa e descrevia-se a si próprio como o último romântico. Barceló sustentava que na sua linhagem havia um parentesco distante com lorde Byron, apesar de ser natural de Caldas de Montbuy. Talvez no intuito de evidenciar esta ligação, Barceló vestia invariavelmente à maneira de um dândi do século dezenove, usando lenço de pescoço, sapatos de verniz brancos e um monóculo sem graduação que segundo as más-línguas não tirava nem na intimidade da retrete. Na realidade, o parentesco mais significativo a seu crédito era o do progenitor, um industrial que tinha enriquecido por meios mais ou menos turvos em finais do século XIX. Segundo me explicou o meu pai, Gustavo Barceló, tecnicamente, nadava em dinheiro, e a livraria era mais paixão que negócio. Amava os livros sem reserva e, embora ele o negasse rotundamente, se alguém entrava na sua livraria e se apaixonava por um exemplar cujo preço não podia comportar, ele fazia um abatimento até onde fosse necessário, ou inclusivamente oferecia-lho se calculasse que o comprador era um leitor de categoria e não um diletante borboleteador. À margem destas peculiaridades, Barceló possuía uma memória de elefante e uma pedantaria que não lhe ficava atrás em porte ou sonoridade, mas se alguém sabia de livros estranhos, era ele. Naquela tarde, depois de fechar a loja, o meu pai sugeriu que fôssemos até ao café Els Quatre Gats, na Rua Montsió, onde Barceló e os seus compinchas mantinham uma tertúlia bibliófila sobre poetas malditos, línguas mortas e obras-primas abandonadas à mercê da traça.
Els Quatre Gats ficava a um pulo de casa e era um dos meus recantos predilectos de toda a Barcelona. Era ali que os meus pais se tinham conhecido no ano de 32, e eu atribuía em parte o meu bilhete de ida para a vida ao encanto daquele velho café. Dragões de pedra custodiavam a fachada encravada num cruzamento de sombras e os seus candeeiros de gás congelavam o tempo e as lembranças. No interior, as pessoas fundiam-se com os ecos de outras épocas. Guarda-livros, sonhadores e aprendizes de gênio compartilhavam mesa com a miragem de Pablo Picasso, Isaac Albéniz, Federico Garcia Lorca ou Salvador Dali. Ali, qualquer pobre diabo se podia sentir por uns instantes figura histórica pelo preço de um garoto.
Ora, Sempere – proclamou Barceló ao ver entrar o meu pai -, o filho pródigo. A que se deve a honra?
A honra deve-a ao meu filho Daniel, don Gustavo, que acaba de fazer uma descoberta.
Então venham sentar-se ao pé de nós, que há que celebrar esta efeméride – proclamou Barceló.
Efeméride? – sussurrei ao meu pai.
O Barceló só se expressa em esdrúxulas – respondeu o meu pai a meia voz. – Tu não digas nada, que ele ganha coragem.
Os companheiros de tertúlia abriram lugar para nós no seu círculo e Barceló, que gostava de se mostrar liberal em público, insistiu em convidar-nos.
Que idade tem o moço? – inquiriu Barceló, olhando-me de soslaio.
Quase onze anos – declarei.
Barceló sorriu-me, velhaco.
Ou seja, dez. Não ponhas anos a mais, mariola, que a vida lá tos porá. Vários dos companheiros de tertúlia murmuraram o seu assentimento.
Barceló fez sinais a um criado com aspecto iminente de ser declarado monumento histórico para que se aproximasse a fim de tomar nota.
Um conhaque para o meu amigo Sempere, do bom, e para o rebento um batido de leite, que tem de crescer. Ah, e traga umas lasquinhas de presunto, mas que não sejam como as de antes, hem?, que para borracha já temos a casa Pirelli – rugiu o livreiro.
O criado assentiu e partiu, arrastando os pés e a alma.
É o que eu digo – comentou o livreiro. – Como é que há-de haver trabalho, se neste país as pessoas não se reformam nem depois de mortas? Veja o Cid. É que não há remédio.
Barceló saboreou o seu cachimbo apagado, com o olhar aquilino a perscrutar com interesse o livro que eu segurava nas mãos. Apesar da sua fachada brincalhona e de tanto palavreado, Barceló era capaz de farejar uma boa presa como um lobo fareja o sangue.
Ora vejamos – disse Barceló, fingindo desinteresse. – Que me trazem vocês?
Dirigi um olhar ao meu pai. Ele assentiu. Sem mais preâmbulos, estendi o livro a Barceló. O livreiro pegou-lhe com mão conhecedora. Os seus dedos de pianista exploraram rapidamente textura, consistência e estado. Exibindo o seu sorriso florentino, Barceló localizou a página de edição e inspecionou-a com intensidade policial pelo espaço de um minuto. Os outros observavam-no em silêncio, como se esperassem um milagre ou autorização para respirar de novo.
Carax. Interessante – murmurou num tom impenetrável.
Estendi de novo a mão para recuperar o livro. Barceló arqueou as sobrancelhas, mas devolveu-mo com um sorriso glacial.
Onde é que o encontraste, garoto?
É um segredo – repliquei, sabendo que o meu pai devia estar a sorrir por dentro.
Barceló franziu o cenho e desviou o olhar para o meu pai.
Amigo Sempere, porque é o senhor e por todo o apreço que lhe tenho e em honra à amizade que nos une como a dois irmãos, fiquemo-nos por duzentas pesetas e não se fala mais nisso.
Isso vai ter de o discutir com o meu filho – aduziu o meu pai. – O livro é dele.
Barceló ofereceu-me um sorriso lupino.
Que dizes, pequenote? duzentas pesetas não é mau para uma primeira venda... Sempere, este seu miúdo há-de fazer carreira neste negócio.
Os companheiros de tertúlia riram-se da graça. Barceló olhou para mim satisfeito, puxando da sua carteira de pele. Contou os quarenta duros, que naquela época eram uma verdadeira fortuna, e estendeu-mos. Eu limitei-me a recusar em silêncio. Barceló franziu o cenho.
Olha que a cobiça é inevitavelmente um pecado mortal, hem? – aduziu.
Vamos, trezentas pesetas e abres uma caderneta de aforro, que na tua idade há que pensar no futuro.
Recusei de novo. Barceló lançou um olhar irado ao meu pai através do monóculo.
Não olhe para mim – disse o meu pai. – Eu aqui venho só como acompanhante.
Barceló suspirou e observou-me detidamente.
Vamos lá a ver, menino; mas o que é que tu queres?
O que eu quero é saber quem é Julián Carax, e onde posso encontrar outros livros que ele tenha escrito.
Barceló riu dissimuladamente e meteu de novo a carteira ao bolso.
Era, um acadêmico. Mas o que dá você a comer a este miúdo, Sempere? - gracejou.
O livreiro inclinou-se para mim com tom confidencial e, por um instante, pareceu-me entrever no seu olhar um certo respeito que lá não estava momentos atrás.
Vamos fazer um negócio – disse ele. – Amanhã, domingo, à tarde, passas pela biblioteca do Ateneo e perguntas por mim. Tu trazes o teu livro para que eu o possa examinar bem, e eu conto-te o que sei de Julián Carax. Quid pro quo.
Quid pro quê?
Latim, rapaz. Não há línguas mortas, mas sim cérebros amodorrados.
Parafraseando, significa que não há duros a quatro pesetas, mas que simpatizei contigo e te vou fazer um favor.
Aquele homem destilava uma oratória capaz de aniquilar moscas em voo, mas suspeitei de que, se queria averiguar alguma coisa sobre Julián Carax, mais me valeria ficar de boas relações com ele. Sorri-lhe beatificamente, mostrando o meu deleite com os latinórios e o seu verbo fácil.
Não te esqueças, amanhã, no Ateneo – sentenciou o livreiro. – Mas leva o livro, ou não há negócio.
De acordo.
A conversa desvaneceu-se lentamente no murmúrio dos restantes companheiros de tertúlia, derivando para a discussão de uns documentos encontrados nas caves do Escorial que sugeriam a possibilidade de don Miguel de Cervantes não ter sido senão o pseudônimo literário de uma peluda mulheraça toledana. Barceló, ausente, não participou no debate bizantino e limitou-se a observar-me do seu monóculo com um sorriso velado.
Ou talvez olhasse somente para o livro que eu segurava nas mãos.
Carlos Ruiz Zafón, in A sombra do vento

13/12/2016

A sombra do vento

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Nunca tinha ouvido mencionar aquele título ou o seu autor, mas não me importou. A decisão estava tomada. Por ambas as partes. Peguei no livro com extremo cuidado e folheei-o, deixando esvoaçar as suas páginas. Libertado da sua cela na estante, o livro exalou uma nuvem de pó dourado. Satisfeito com a minha escolha, voltei pelo mesmo caminho ao longo do labirinto levando o meu livro debaixo do braço com um sorriso impresso nos lábios. Talvez a atmosfera feiticeira daquele lugar tivesse levado a melhor sobre mim, mas tive a certeza de que aquele livro tinha estado ali à minha espera durante anos, provavelmente desde antes de eu nascer.
Naquela tarde, de volta ao andar da Rua Santa Ana, refugiei-me no meu quarto e decidi ler as primeiras linhas do meu novo amigo. Antes que me apercebesse, tinha caído dentro dele sem remédio. O romance relatava a história de um homem em busca do seu verdadeiro pai, que nunca tinha chegado a conhecer e cuja existência só descobriria graças às últimas palavras que a mãe pronunciava no seu leito de morte. A história daquela busca transformava-se numa odisseia fantasmagórica na qual o protagonista lutava por recuperar uma infância e uma juventude perdidas, e na qual, lentamente, descobríamos a sombra de um amor maldito cuja lembrança o havia de perseguir até ao fim dos seus dias. À medida que avançava, a estrutura do relato começou a lembrar-me uma daquelas bonecas russas que contêm inumeráveis miniaturas de si mesmas no interior. Passo a passo, a narração decompunha-se em mil histórias, como se o relato tivesse penetrado numa galeria de espelhos e a sua identidade se cindisse em dúzias de reflexos diferentes e ao mesmo tempo um só. Os minutos e as horas deslizaram como uma miragem. Horas mais tarde, aprisionado pelo relato, mal dei pelas badaladas da meia-noite na catedral a repicar ao longe. Enterrado na luz de cobre que o candeeiro flexível projetava, mergulhei num mundo de imagens e sensações como nunca as tinha conhecido. Personagens que se me afiguraram tão reais como o ar que respirava arrastaram-me para um túnel de aventura e mistério do qual não queria escapar. Página a página, deixei-me envolver pelo sortilégio da história e pelo seu mundo até que o sopro do amanhecer acariciou a minha janela e os meus olhos cansados deslizaram pela última página. Deitei-me na penumbra azulada do alvorecer com o livro sobre o peito e escutei o rumor da cidade adormecida a gotejar sobre os telhados salpicados de púrpura. O sono e a fadiga batiam à minha porta, mas resisti a render-me. Não queria perder o feitiço da história nem dizer adeus ainda às suas personagens.
Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos -, vamos regressar.
Para mim aquelas páginas enfeitiçadas serão sempre as que encontrei entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Carlos Ruiz Zafón, in A sombra do vento

12/01/2016

O cemitério dos livros esquecidos (trecho II)

Anda, Daniel, veste-te. Quero mostrar-te uma coisa – disse ele.
Agora? Às cinco da manhã?
Há coisas que só se podem ver no meio das trevas – insinuou o meu pai brandindo um sorriso enigmático que provavelmente tinha tomado de empréstimo de algum volume de Alexandre Dumas.
As ruas ainda languesciam entre neblinas e guardas-noturnos quando chegamos à porta da rua. Os candeeiros das Ramblas desenhavam uma avenida de vapor, pestanejando ao mesmo tempo que a cidade se espreguiçava e se desfazia do seu disfarce de aguarela. Ao chegar à Rua Arco del Teatro aventuramo-nos rumo ao Raval sob a arcada que prometia uma abóbada de bruma azul. Segui o meu pai através daquele caminho estreito, mais cicatriz que rua, até que o relume das Ramblas se perdeu atrás de nós. A claridade do amanhecer filtrava-se das varandas e cornijas em sopros de luz enviesada que não chegavam a roçar o solo.
Finalmente, o meu pai deteve-se defronte de um portão de madeira trabalhada enegrecido pelo tempo e pela umidade. Diante de nós erguia-se o que me pareceu o cadáver abandonado de um palácio, ou um museu de ecos e sombras.
Daniel, não podes contar a ninguém o que vais ver hoje. Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
Um homenzinho com traços de ave de rapina e cabeleira prateada abriu-nos a porta. O seu olhar aquilino poisou em mim, impenetrável.
Bom dia, Isaac. Este é o meu filho Daniel – anunciou o meu pai. - Está quase a fazer onze anos, e um dia ficará ele a tomar conta da loja. Já tem idade para conhecer este lugar.
O tal Isaac convidou-nos a entrar com um leve gesto de assentimento.
Uma penumbra azulada cobria tudo, insinuando apenas traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de frescos povoados de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Seguimos o guardião através daquele corredor palaciano e chegamos a uma grande sala circular onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula retalhada por feixes de luz que pendiam lá do alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu-me, piscando-me o olho.
Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.
Salpicando os corredores e plataformas da biblioteca perfilava-se uma dúzia de figuras. Algumas delas voltaram-se para cumprimentar de longe, e reconheci os rostos de diversos colegas do meu pai do grêmio de alfarrabistas. Aos meus olhos de dez anos, aqueles indivíduos afiguravam-se uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. O meu pai ajoelhou-se ao pé de mim e, sustendo-me o olhar, falou-me com aquela voz leve das promessas e das confidências.
Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel. Achas que vais poder guardar este segredo?
O meu olhar perdeu-se na imensidade daquele lugar, na sua luz encantada. Fiz um sinal de assentimento e o meu pai sorriu.
E sabes o melhor? – perguntou.
Abanei a cabeça em silêncio.
O costume é que a primeira vez que alguém visita este lugar tem de escolher um livro, aquele que preferir, e adotá-lo, assegurando-se de que ele nunca desapareça, de que permaneça sempre vivo. É uma promessa muito importante. Para toda a vida – explicou o meu pai. – Hoje é a tua vez.
Pelo espaço de quase meia hora deambulei entre os meandros daquele labirinto que cheirava a papel velho, a pó e a magia. Deixei que a minha mão roçasse as avenidas de lombadas expostas, tentando a minha escolha. Avistei, entre os títulos sumidos pelo tempo, palavras em línguas que reconhecia e dezenas de outras que era incapaz de catalogar. Percorri corredores e galerias em espiral povoadas de centenas, milhares de volumes que pareciam saber mais acerca de mim do que eu deles. Daí a pouco, assaltou-me a ideia de que atrás da capa de um daqueles livros se abria um universo infinito por explorar e de que, para além daqueles muros, o mundo deixava passar a vida em tardes de futebol e folhetins radiofônicos, contentando-se em ver até onde alcança o seu umbigo e pouco mais. Talvez fosse aquele pensamento, talvez o acaso ou o seu parente de gala, o destino, mas naquele mesmo instante soube que já tinha escolhido o livro que ia adotar. Ou talvez devesse dizer o livro que me ia adotar a mim. Assomava timidamente no extremo de uma estante, encadernado a pele cor de vinho e sussurrando o seu título em letras douradas que ardiam à luz que a cúpula destilava lá do alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com a ponta dos dedos, lendo em silêncio:

A Sombra do Vento
JULIÁN CARAX

Nunca tinha ouvido mencionar aquele título ou o seu autor, mas não me importou. A decisão estava tomada. Por ambas as partes. Peguei no livro com extremo cuidado e folheei-o, deixando esvoaçar as suas páginas. Libertado da sua cela na estante, o livro exalou uma nuvem de pó dourado. Satisfeito com a minha escolha, voltei pelo mesmo caminho ao longo do labirinto levando o meu livro debaixo do braço com um sorriso impresso nos lábios. Talvez a atmosfera feiticeira daquele lugar tivesse levado a melhor sobre mim, mas tive a certeza de que aquele livro tinha estado ali à minha espera durante anos, provavelmente desde antes de eu nascer.
Carlos Ruiz Zafón, in A sombra do vento

28/10/2015

O cemitério dos livros esquecidos (trecho)

Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.
Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel - advertiu o meu pai. – Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
Nem sequer à mamã? – inquiri eu, a meia-voz.
O meu pai suspirou, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida. – Claro que sim – respondeu, cabisbaixo.
Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo.
Pouco depois da guerra civil, um surto de cólera tinha levado a minha mãe. Enterráramo-la em Montjuic no dia do meu quarto aniversário. Só me lembro de que choveu todo o dia e toda a noite e que quando perguntei ao meu pai se o céu chorava lhe faltou a voz para me responder. Seis anos depois, a ausência da minha mãe era para mim ainda uma miragem, um silêncio gritante que até então não tinha aprendido a emudecer com palavras. O meu pai e eu vivíamos num pequeno andar da Rua Santa Ana, junto da praça da igreja. O andar ficava situado mesmo por cima da livraria especializada em edições de coleccionador e livros usados herdada do meu avô, um bazar encantado que o meu pai contava que um dia passasse para as minhas mãos. Criei-me entre livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos. Em criança aprendi a conciliar o sono enquanto explicava à minha mãe na penumbra do meu quarto as incidências da jornada, as minhas andanças no colégio, o que tinha aprendido nesse dia... Não podia ouvir a sua voz ou sentir o seu contacto, mas a sua luz e o seu calor ardiam em cada recanto daquela casa e eu, com a fé dos que ainda podem contar os seus anos pelos dedos das mãos, acreditava que, se fechasse os olhos e falasse com ela, ela me poderia ouvir de onde estivesse. Às vezes, o meu pai ouvia-me da sala de jantar e chorava às escondidas.
Lembro-me de que naquele alvorecer de Junho acordei a gritar. O coração batia-me no peito como se a alma quisesse abrir caminho e desatar a correr pelas escadas abaixo. O meu pai acorreu alvoroçado ao meu quarto e tomou-me nos braços, tentando acalmar-me.
Não consigo lembrar-me da cara dela. Não consigo lembrar-me da cara da mamã – murmurei ofegante.
O meu pai abraçou-me com força.
Não te preocupes, Daniel. Eu lembrar-me-ei pelos dois.
Olhámo-nos na penumbra, procurando palavras que não existiam. Foi a primeira vez que me apercebi de que o meu pai envelhecia e de que os seus olhos, olhos de névoa e de perda, olhavam sempre para trás. Pôs-se de pé e abriu as cortinas para deixar entrar a tíbia luz do alvorecer.”
Carlos Ruiz Zafón, in A sombra do vento

13/09/2014

Livro por dentro


“Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro.”
Carlos Ruiz Zafón, in A sombra do vento

18/05/2014

O medo

“Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas ações e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso.”
Carlos Ruiz Zafón, in O Jogo do Anjo

09/12/2013

A fé

"- A fé é uma resposta instintiva a aspectos da existência que não podemos explicar de outro modo, seja o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, a própria origem das coisas, o sentido da nossa vida ou a ausência dele. São aspectos elementares e de extrema simplicidade, mas as nossas limitações impedem-nos de responder de modo inequívoco a essas perguntas e por isso geramos, como defesa, uma resposta emocional. É simples e pura biologia.
- Então, a seu ver, todas as crenças ou ideais não passariam de uma ficção.
- Toda a interpretação ou observação da realidade o é necessariamente. Neste caso, o problema reside no facto de o homem ser um animal moral abandonado num universo amoral e condenado a uma existência finita e sem outro significado que não seja perpetuar o ciclo natural da espécie. É impossível sobreviver num estado prolongado de realidade, pelo menos para o ser humano. Passamos uma boa parte das nossas vidas a sonhar, sobretudo quando estamos acordados. Como digo, pura biologia."
Carlos Ruiz Zafón, in O Jogo do Anjo

12/12/2011

Nada nos faz acreditar mais que o medo

“Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas acções e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso”.

Carlos Ruiz Zafón, in O Jogo do Anjo