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18/05/2026

Filosofar

É evidente: não há outra condição de vida tão adequada para filosofar como essa em que você agora vive.

Marco Aurélio, em Meditações

31/08/2025

O trabalho da filosofia

A causa universal é como uma torrente: carrega tudo consigo.
Quão indignas são essas pobres pessoas engajadas em questões políticas, supondo que atuam como filósofos! Tolos.
Pois bem, faça o que a natureza agora exige. Caso esteja em seu poder, movimente-se e não se importe se alguém o observará ou não. Não espere pela República de Platão. Satisfaça-se com os menores progressos, e não os desconsidere.
Quem pode mudar as opiniões dos homens? Sem mudança de opinião, o que mais há senão a escravidão dos homens, que lamentam enquanto fingem obedecer?
Mencione Alexandre, Filipe e Demétrio de Faleros. Somente eles próprios dirão se descobriram as exigências da natureza comum e se treinaram de acordo. Todavia, se agiram como heróis de uma tragédia, ninguém me condenou a imitá-los.
Simples e modesto é o trabalho da filosofia. Não me desvie rumo à insolência e ao orgulho.

Marco Aurélio, em Meditações

20/01/2025

Filosofia não é truque

A filosofia não é um truque para atrair o público; não foi concebida para exibição. É uma questão, não de palavras, mas de fatos. Não é exercida para que o dia possa ter alguma diversão antes de acabar, ou para que nosso ócio possa ser aliviado de um tédio que nos aborrece. A filosofia molda e constrói a alma; ordena a nossa vida, orienta a nossa conduta, mostra-nos o que devemos fazer e o que devemos deixar por fazer; ela se senta ao leme e dirige nosso curso enquanto vacilamos em meio às incertezas.

Sêneca, em Epístolas sobre a Virtude

16/12/2024

Um pecado original dos filósofos

— Em todas as épocas os filósofos se apropriaram das teses dos perscrutadores de homens (moralistas) e as estragaram, tomando-as incondicionalmente e querendo demonstrar como necessário o que eles viam apenas como indicação aproximada ou como verdade de uma década, própria de uma região ou cidade — quando justamente dessa forma acreditavam se pôr acima deles. Assim, na base das célebres doutrinas schopenhauerianas do primado da vontade sobre o intelecto, da imutabilidade do caráter, da negatividade do prazer — que são todas erradas, tais como seu autor as entendia — encontraremos verdades populares, assentadas pelos moralistas. Já o termo “vontade”, que Schopenhauer converteu em designação comum de muitos estados humanos e inseriu numa lacuna da língua, com grande vantagem para si mesmo, enquanto moralista — pois ficou livre para falar da “vontade” tal como Pascal havia dela falado —, já a “vontade” de Schopenhauer resultou numa desgraça para a ciência em suas mãos, graças ao furor filosófico da generalização: pois dessa vontade faz-se uma metáfora poética, quando se afirma que todas as coisas da natureza teriam vontade; por fim, com o objetivo de aplicá-la em toda espécie de disparate místico, foi mal utilizada para uma reificação falsa — e todos os filósofos da moda repetem e parecem saber exatamente que todas as coisas têm uma vontade, e mesmo que são essa vontade (o que, segundo a descrição que se faz dessa vontade-toda-uma, significa tanto quanto querer absolutamente o estúpido Diabo como Deus).

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

16/11/2024

No princípio

No princípio, era a Poesia. No cérebro do homem só havia imagens... Depois, vieram os pensamentos... E, por fim, a Filosofia, que é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas.

Mário Quintana, em Caderno H

17/02/2023

Retorno à filosofia

Caso você tivesse simultaneamente uma madrasta e uma mãe, obedeceria àquela, porém sempre retornaria a esta. Agora, faça o mesmo com a corte e a filosofia: retorne frequentemente a esta e se apoie nela. Desse modo, o que encontrar na corte parecerá mais tolerável e você se demonstrará mais tolerante.

Marco Aurélio, in Meditações

23/05/2022

O que pode conduzir o homem?

Na vida humana, o tempo é um ponto. A substância, um fluxo. A percepção, opaca. O corpo, putrescível. A alma, um turbilhão. A fortuna, incerta. A fama, duvidável. Em resumo: o que pertence ao corpo é uma correnteza; à alma, um sonho e uma névoa; à vida, uma guerra e uma estadia temporária em terra estrangeira; à fama póstuma, o esquecimento.
O que, então, pode conduzir o homem? Somente a filosofia. Essa consiste em:
I. Manter nosso gênio interior inviolado e ileso, acima da dor e do prazer e livre do despropósito, da falsidade, da hipocrisia e da dependência da ação ou inação de outrem.
II. Aceitar as ocorrências e a porção que nos foi alocada—proveniente de onde nós mesmos viemos, onde quer que seja.
III. Aguardar, com uma mente alegre, a morte—uma dissolução dos elementos dos quais todo ser vivo é composto.
Caso os elementos não sejam danificados ao continuamente se transformarem em outros, por que ficar apreensivo diante da dissolução deles? Essa transformação está de acordo com a natureza. E nada que é natural pode ser ruim.

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

13/10/2021

I - Só a dor é positiva – Tormentos da existência – O nada preferível à vida – O fim da filosofia não é consolar – O otimismo insustentável de Leibnitz – Pecado original – O mundo, um lugar de penitência

Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode-se dizer que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.
Assim como um regato corre sem ímpetos enquanto não encontra obstáculos, do mesmo modo, na natureza animal, a vida corre inconsciente e descuidosa quando coisa alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu algum choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste, isto é, tudo o que há de desagradável e de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não nos atentamos à saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta; não apreciamos o conjunto próspero dos nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que nos desgosta. – O bem-estar e a felicidade são, portanto, negativos, só a dor é positiva.
Não conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas metafísicos, que explicam o mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir… O bem, a felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um desgosto.
Acrescente-se a isso que, em geral, achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo que as dores a excedem sobremaneira.
Se quereis num momento esclarecer-vos a esse respeito, e saber se o prazer é superior ao desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a impressão do animal que devora outro com a impressão do que é devorado.
A mais eficaz consolação em toda desgraça, em todo sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: esse remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta daí para o conjunto?
Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a esta hora – doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura etc.
Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a história só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E, da mesma maneira, a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda parte encontra-se um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.
Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que não nos deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia forçando-nos de chicote em punho. – Poupa apenas aqueles que entregou ao aborrecimento.
Portanto, assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse sujeito à pressão da atmosfera, do mesmo modo, se o peso da miséria, do desgosto, dos revezes e dos vãos esforços fosse banido da vida do homem, o excesso da sua arrogância seria tão desmedido que o faria em bocados, ou pelo menos o conduziria à insânia mais desordenada e à loucura furiosa. – Em todo tempo, cada um precisa ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o navio carece de lastro para manter-se em equilíbrio e andar direito.
Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se essa raça num país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível – ver-se-ia então os homens morrerem de tédio ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe. Assim, para semelhante raça, nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam.
Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão se passar em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente vai se passar, as crianças são inocentes culpados, condenados não à morte, mas à vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença. – Nem por isso todos deixam de ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: “Hoje é mau, e cada dia o será mais – até que chegue o pior de todos”.
Quando se representa, tanto quanto é possível fazê-lo de uma maneira aproximada, a soma de miséria, de dor e de sofrimentos de todas as espécies que o Sol ilumina no seu curso, deve-se concordar que valeria muito mais que esse astro tivesse o mesmo poder na Terra para fazer surgir o fenômeno da vida que tem na Lua, e seria preferível que a superfície da Terra, como a da Lua, se mantivesse ainda no estado de cristal.
Pode ainda se considerar a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada. Seja como for, aquele para quem a existência é quase suportável, à medida que avança em idade, tem uma consciência cada vez mais clara de que ela é, em todas as coisas, um disappointment, nay, a cheat [uma decepção, ou melhor, uma fraude], em outros termos, que ela possui o caráter de uma grande mistificação, para não dizer de um logro…
Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação, e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade.
Perder-se-ia a cabeça, se se observasse a prodigalidade das disposições tomadas, essas estrelas fixas que brilham inumeráveis no espaço infinito, e não têm outro fim senão iluminar mundos, teatros da miséria e dos gemidos, mundos que, no mais feliz dos casos, só produzem o tédio: – pelo menos a apreciarmos a amostra que nos é conhecida.
Ninguém é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são para lastimar!
A vida é uma tarefa que devemos desempenhar laboriosamente; e, nesse sentido, a palavra defunctus é uma bela expressão.
Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade pela geração futura para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo menos, não hesitariam em impor esse a ela a sangue frio?
O mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em diabos atormentadores.
Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação – e isso simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem tudo o que fez. Ide à igreja e deixai os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os indigentes e os filosofastros a esses, podem-se encontrar doutrinas ao gosto de cada um. Perturbar o otimismo obrigado dos professores de filosofia é tão fácil como agradável.
Brama produz o mundo por uma espécie de pecado ou desvario, e permanece ele próprio no mundo para expiar esse pecado até estar redimido. – Muito bem! – No budismo, o mundo nasce em seguida a uma perturbação inexplicável, que se produz após um longo repouso nessa claridade do céu, nessa beatitude serena, chamada Nirvana, que será reconquistada pela penitência; é como que uma espécie de fatalidade que se deve compreender no fundo de um sentido moral, ainda que essa explicação tenha uma analogia e uma imagem exatamente correspondente na natureza pela formação inexplicável do mundo primitivo, vasta nebulosa donde surgirá um sol. Mas os erros morais tornam mesmo o mundo físico gradualmente pior e sempre pior, até ter tomado a sua triste forma atual.
Para os gregos, o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade insondável. Essa explicação é suportável, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd vive em guerra com Ahriman: – isso ainda se pode admitir. – Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu bel-prazer e muito voluntariamente, produz este mundo de miséria e de lamentações, e que ainda se felicita e se aplaude, é que é demasiado forte! Consideremos, portanto, nesse ponto de vista, a religião dos judeus como a última palavra entre as doutrinas religiosas dos povos civilizados; o que concorda perfeitamente com o fato de ser ela também a única que não tem absolutamente nenhum vestígio de imortalidade.
Ainda mesmo que a demonstração de Leibniz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre os mundos possíveis este é sempre o melhor, essa demonstração não daria ainda nenhuma teodicéia. Porque o criador não só criou o mundo, mas também a própria possibilidade; portanto, devia ter tornado possível um mundo melhor.
A miséria, que alastra por este mundo, protesta demasiado alto contra a hipótese de uma obra perfeita devida a um ser absolutamente sábio, absolutamente bom, e também todo poderoso; e, de outra parte, a imperfeição evidente e mesmo a burlesca caricatura do mais acabado dos fenômenos da criação, o homem, são de uma evidência demasiado sensível. Há aí uma dissonância que não se pode resolver. As dores e as misérias são, pelo contrário, outras tantas provas em apoio, quando consideramos o mundo como a obra da nossa própria culpa, e portanto como uma coisa que não podia ser melhor. Ao passo que, na primeira hipótese, a miséria do mundo torna-se uma acusação amarga contra o criador e dá margem aos sarcasmos, no segundo caso, aparece como uma acusação contra o nosso ser e a nossa vontade, bem própria para nos humilhar.
Conduz-nos a este profundo pensamento de que viemos ao mundo já viciados, como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que, se a nossa existência é de tal modo miserável, e tem por desenlace a morte, é porque temos continuamente essa culpa a expiar. De um modo geral, não há nada mais certo: é a pesada culpa do mundo que causa os grandes e inúmeros sofrimentos a que somos votados; e entendemos essa relação no sentido metafísico, e não no físico e empírico. Assim, a história do pecado original reconcilia-me com o antigo testamento; é mesmo a meus olhos a única verdade metafísica do livro, embora aí se apresente sob o véu da alegoria. Porque a nossa existência assemelha-se perfeitamente à consequência de uma falta e de um desejo culpado…
Quereis ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos orientar na vida e de encará-la incessantemente sob o seu verdadeiro prisma. Habituai-vos a considerar este mundo como um lugar de penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já os mais antigos filósofos (Clem. Alex. Strom. L. III, c. 3, p. 399.) e alguns padres da Igreja (Augustin. De civit. Dei, L. XI, 23.).
A sabedoria de todos os tempos, o bramanismo, o budismo, Empédocles e Pitágoras confirmam esse modo de ver; Cícero (Fragmenta de philosophia, v. 12, p. 316, ed. Bip.) conta que os sábios antigos, na iniciação dos mistérios, ensinavam: nos ob aliqua scelera suscepta in vita superiore, poenarum luendarum causa natos esse. Vanini, que acharam mais cômodo queimar que refutar, exprime essa ideia da maneira mais enérgica quando diz: Tot tantisque homo repletus miseriis, ut si christianae religioni non repugnaret: dicere auderem, si doemones dantur, ipsi, in hominum corpora transmigrantes, sceleris poenas luunt (De admirandis naturae arcanis, dial L. p. 353.). Mas, mesmo no puro cristianismo bem compreendido, a nossa existência é considerada como a consequência de uma falta, de uma queda. Se nos familiarizarmos com essa ideia, não esperaremos da vida senão o que ela pode nos dar, e longe de considerarmos as suas contradições, seus sofrimentos, seus tormentos, suas misérias grandes ou pequenas, como coisas inesperadas, contrárias às regras, achá-los-emos perfeitamente naturais, sabendo bem que na Terra cada um sofre a pena da sua existência, e cada um a seu modo. Entre os males de um estabelecimento penitenciário, o menor não é a sociedade que nele se encontra. O que a sociedade dos homens vale, sabem-no aqueles que mereceriam outra melhor, sem que seja necessário que eu o diga. Uma bela alma, um gênio, podem por vezes experimentar aí os sentimentos de um nobre prisioneiro do Estado, que se encontra nas galés rodeado de celerados vulgares; e, como ele, procuram isolar-se. Em geral, porém, essa ideia sobre o mundo torna-nos aptos a ver sem surpresa, e ainda mais, sem indignação, o que se chamam as imperfeições, isto é, a miserável constituição intelectual e moral da maior parte dos homens, que sua própria fisionomia nos revela…
A convicção de que o mundo e, por conseguinte, o homem são tais que não deveriam existir é apresentada de modo que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; que se pode esperar, de fato, de uma tal espécie de seres? – Penso, às vezes, que a maneira mais conveniente de os homens se cumprimentarem, em vez de ser Senhor, Sir etc. poderia ser: “companheiro de sofrimentos, soci malorum, companheiro de miséria, my fellow-sufferer”. Por muito original que isso pareça, a expressão é contudo fundada, lança sobre o próximo a luz mais verdadeira, e lembra a necessidade da tolerância, da paciência, da indulgência, do amor ao próximo, sem o que ninguém pode passar, e de que, portanto, todos são devedores.

Arthur Schopenhauer, in As dores do Mundo

05/02/2020

‘Kos’, a filosofia norueguesa para ser feliz que você precisa compartilhar com os outros / Como é o estilo de vida que baseia a felicidade em momentos de intimidade compartilhados

Os noruegueses encontram a felicidade no 'kos', uma filosofia que significa fazer coisas simples, mas cercados de amigos. Hjerkinn Dovre (Visitnorway.com) 

Vivemos em um mundo em que as tendências podem durar apenas uma temporada, um mês e as horas de um trending topic. Poucas modas têm tempo para amadurecer, evoluir. O modelo escandinavo é uma exceção. Não importa se você é dinamarquês, norueguês ou sueco, mas a maneira de entendê-lo na Escandinávia continua maravilhando há mais de meio século onde quer que alguma de suas empresas aterrisse, por menor que seja.
Esse gosto pelo racional, o prático e o bonito em um mesmo elemento não é mais do que o reflexo de um estilo de vida que fascina tanto ou mais do que suas coleções de decoração e interiores. Uma idiossincrasia em que o fundamental é olhar a vida com otimismo. “É preciso ter muita coragem e uma personalidade muito forte para que países que ficam às escuras seis meses por ano continuem sendo os mais felizes do mundo”, se espanta a ensaísta Helen Russel (The Year of Living Danishly). Em Oslo, por exemplo, a noite dura 16 horas em dezembro... e está a centenas de quilômetros ao sul das regiões mais setentrionais.
Vem justamente da Noruega a última filosofia escandinava que quer cristalizar além de suas fronteiras: o kos. Já conhecemos o hygge dinamarquês (a exaltação da simplicidade) e muitos adotaram o lagom sueco (baseado em “evitar a pomposidade, manter os pés no chão, comemorar o que cada um contribui no lugar da imagem, preocupar-se pelas histórias pessoais e não pelos produtos”, de acordo com seus criadores). Os noruegueses adotam os dois conceitos e o levam ao exterior sob uma premissa: “Colocar o foco em si mesmo”, diz Anette Barstad, professora de ioga em Ålesund, o povoado Art Nouveau do centro de Noruega.
Traduzível como “o confortável e acolhedor, passar bons momentos até criar um instante de intimidade prazerosa”, o kos se transformou em objeto de culto. Até no inverno. “Apreciamos e aproveitamos ao máximo a natureza, de modo que um bom momento para um norueguês sempre incluirá um passeio pelas montanhas com amigos. No inverno não existe plano melhor do que sair para esquiar, comer laranjas e uma barrinha de chocolate Kvikk, continuar esquiando e finalizar o dia em uma cabana de madeira sentados ao lado do fogo”, diz Patricia Pitarch do escritório espanhol da Innovation Norway.
Ainda que todas as filosofias escandinavas de estilo de vida tenham pontos em comum – a felicidade a partir da simplicidade, sem espalhafato, a fuga do consumismo sem sentido e do embelezamento a qualquer custo – há diferenças. Ao contrário do hygge dinamarquês, por exemplo, o kos não pode ser entendido em solidão. “É tudo aquilo que te faz sentir bem, um bem-estar mental, mas sempre relacionado à socialização, que esse bom momento seja com amigos e familiares”, prossegue Pitarch.
A capacidade dos escandinavos para ‘mudar as circunstâncias’ e tentar ver as coisas que podem parecer ruins para os outros como uma oportunidade é o começo para encontrar esses momentos de bem-estar sem que a temperatura exterior importe. Carpe diem: “Em sua origem, o termo era entendido como sinônimo de sobrevivência, um fogo aceso e uma refeição durante esses invernos longos, frios e escuros”, afirma o jornalista Arve Uglum.
O Kos se relaciona com uma palavra que só existe como tal em norueguês: koselig, que é precisamente a sensação de bem-estar em plena natureza, nos apaixonando pela paisagem e nos sentindo em casa. Não é preciso sofrer um ataque ao estilo síndrome de Stendhal diante de um fiorde e atravessando um bosque, e sim uma genuína comoção com o que nos cerca.
O objetivo do kos é que as pessoas se unam para criar momentos de intimidade. E praticá-lo é tão simples como objetivo. Não há receitas prontas, cada um encontra essa felicidade em ações diferentes. Não é preciso neve, chaminés, fiordes... Até mesmo os festivais de música são organizados “levando em consideração não somente as bandas que irão tocar, e sim também as oportunidades de socialização que o público terá”, disse a crítica musical Katrine Sviland em um estudo feito pelo Ministério do Turismo da Noruega sobre o assunto.
Exportar a filosofia a outros países, compartilhar seu estilo de vida, também passa por adotar costumes alheios. Em sua procura por momentos de kos, os escandinavos, experimentam – a sua maneira, é sempre bom dizer – até com a comida. É um clássico na Suécia e na Noruega se reunir na sexta-feira para jantar tacos, que têm pouco ou nada a ver com os tex-mex originais. Jovens e idosos vão a esses jantares; e até os supermercados têm descontos especiais para os que não perdem um Taco Fredag (sexta).
Como afirma Patricia, “o kos é um estilo de vida menos pretensioso, o prazer diante do simples, as pequenas alegrias que fazem com que você se sinta bem. Por que não tentar focar nos momentos que nos fazem realmente felizes?”.
Sergio Cabrera, in www.elpais.com

19/10/2018

Como Bertrand Russell foi impedido de lecionar na Faculdade Municipal de Nova York (trecho)

I
Depois da aposentadoria dos dois professores de filosofia, Morris Raphael Cohen e Harry Overstreet, os integrantes do Departamento de Filosofia da Faculdade Municipal de Nova York (College of the City of New York), bem como a administração da instituição, concordaram em convidar um filósofo eminente a preencher uma das posições vagas. O Departamento recomendou que fosse feito um convite a Bertrand Russell, que na época lecionava na Universidade da Califórnia. Essa recomendação foi aprovada com entusiasmo pelo corpo docente e pelo reitor em exercício da faculdade, pelo comitê administrativo do Conselho de Educação Superior e, finalmente, pelo próprio Conselho, que aprova as indicações nesse grau. Ninguém com fama e distinção comparáveis jamais havia lecionado na faculdade municipal. Dezenove dos vinte e dois integrantes do Conselho estiveram presentes à reunião em que a indicação foi discutida, e todos os dezenove votaram a seu favor. Quando Bertrand Russell aceitou o convite, Ordway Tead, presidente do Conselho, enviou-lhe a seguinte carta:

Meu caro professor Russell:
É com um profundo sentimento de privilégio que aproveito esta oportunidade para notificá-lo de sua indicação como professor de filosofia da Faculdade Municipal para o período de 1 o de fevereiro de 1941 a 30 de junho de 1942, em observância à decisão tomada pelo Conselho de Educação Superior em sua reunião do dia 26 de fevereiro de 1940.
Sei que sua aceitação desta indicação trará brilho ao nome e às conquistas do Departamento e da Faculdade, bem como aprofundará e estenderá o interesse da faculdade pelas bases filosóficas da vida humana.

Concomitantemente, o reitor em exercício, Mead, divulgou um informativo à imprensa afirmando que a faculdade tinha a sorte singular de assegurar os serviços de um catedrático de renome mundial como lorde Russell. A data desse acontecimento foi 24 de fevereiro de 1940.
Tendo em vista os desdobramentos posteriores, faz-se necessário enfatizar dois fatos. Bertrand Russell deveria lecionar os seguintes três cursos, e não outro:

Filosofia 13: Estudo dos conceitos modernos de lógica e de sua relação com a ciência, a matemática e a filosofia.
Filosofia 24B: Estudo dos problemas dos fundamentos da matemática.
Filosofia 27: As relações das ciências puras com as aplicadas e a influência recíproca entre a metafísica e as teorias científicas.

Além do mais, na época em que Bertrand Russell foi nomeado, apenas homens podiam assistir a cursos diurnos em matérias de artes liberais na Faculdade Municipal.

II
Quando a indicação de Russell tornou-se pública, o bispo Manning, da Igreja Episcopal Protestante, escreveu uma carta a todos os jornais de Nova York, em que denunciava a ação do Conselho. “O que se pode dizer de faculdades e universidades”, escreveu ele, “que afirmam à nossa juventude ser um professor responsável de filosofia (...) um homem que é propagandista reconhecido de um pensamento contrário à religião e à moral, e que especificamente defende o adultério (...). Será que alguém que se importe com o bem-estar do nosso país estará disposto a ver tais ensinamentos disseminados com a aceitação de nossas faculdades e universidades?” Retomando a ofensiva alguns dias depois, o bispo acrescentou: “Há aqueles que têm tanta confusão moral e mental que nada veem de errado na indicação (...) de alguém que, em seus escritos publicados, disse que ‘fora dos desejos humanos não existe padrão moral’”. Deve-se notar, aliás, que, se fosse requisito dos professores de filosofia rejeitar o relativismo ético em suas diversas formas, como o bispo Manning dava a entender, metade ou mais deles teria de ser sumariamente demitida.
A carta do bispo foi o sinal de uma campanha de difamação e intimidação sem igual na história dos Estados Unidos desde o tempo de Jefferson e Thomas Paine. Os jornais eclesiásticos, a editora Hearst e praticamente todos os políticos democratas juntaram-se ao coro de difamação. A indicação de Russell, dizia The Tablet, veio como um “choque brutal e aviltante para os antigos nova-iorquinos e todos os verdadeiros norte-americanos”. Exigindo que a indicação fosse revogada, a publicação, em seu editorial, descreveu Russell como um “professor de paganismo”, como “o anarquista filosófico e niilista moral da Grã-Bretanha (...) cuja defesa do adultério transformou-se em algo tão detestável que há relatos de um de seus ‘amigos’ falando mal dele”. O jornal jesuíta semanal, America, foi ainda mais educado. Referia-se a Russell como um “defensor da promiscuidade sexual sem nenhuma vitalidade emocional ou intelectual, divorciado e decadente (...) que, no momento está doutrinando os alunos da Universidade da Califórnia (...) a respeito de suas regras libertárias relativas à vida licenciosa em questões de sexo e amor promíscuo e casamento inconstante (...). Esse indivíduo corrupto (...) que traiu sua ‘mente’ e ‘consciência’ (...), esse professor de imoralidade e ateísmo (...) que foi posto no ostracismo por ingleses decentes”. As cartas aos editores desses periódicos eram ainda mais frenéticas. Se o Conselho de Educação Superior não rescindisse seu contrato, dizia um dos correspondentes de The Tablet, então “Areias movediças ameaçam! A serpente está no relva! O verme está ocupado na mente! Se Bertrand Russell fosse honesto pelo menos consigo mesmo, declararia, como fez Rousseau: ‘Não posso olhar para nenhum dos meus livros sem tremer; em vez de instruir, corrompo; em vez de alimentar, enveneno. Mas a paixão me cega, e com todos os meus belos discursos não sou nada além de um canalha’.” A carta era uma cópia de um telegrama enviado ao prefeito LaGuardia. “Imploro à V. Exa.”, o texto prosseguia, “que proteja a nossa juventude da influência perniciosa dele e de sua pena envenenada – um símio de talento, ele é o ministro do mal entre os homens.”
Nesse ínterim, Charles H. Tuttle, integrante do Conselho e leigo de destaque na Igreja Episcopal Protestante, anunciou que, na reunião seguinte do Conselho, no dia 18 de março, ele entraria com uma moção para que a indicação fosse reconsiderada. Tuttle explicou que, na época da indicação, ele não estava a par das opiniões de Russell. Teria votado contra se as conhecesse na época. Faltando apenas alguns dias para a reunião, os fanáticos então fizeram tudo o que podiam para amedrontar os integrantes do Conselho e expandir o catálogo de pecados de Russell. “Nosso grupo”, disse Winfield Demarest, da Liga da Juventude Norte-Americana, “não concorda com a ideia de Russell relativa a alojamentos para ambos os sexos.” Exigindo uma investigação do Conselho de Educação Superior, o Journal & American (hoje Journal-American), da editora Hearst, afirmava que Russell apoiava a “nacionalização das mulheres (...), a gravidez fora do casamento (...) e crianças educadas como penhor de um Estado leigo”. Por meio do dispositivo de fazer citações fora de contexto de um livro escrito havia muitos anos, também classificava Russell como expoente do comunismo. Apesar da oposição bastante conhecida de Russell ao comunismo soviético, ele passou a ser, a partir de então, constantemente citado como “pró-comunista” pelos zelotes. De todos os aspectos dessa campanha de ódio, talvez nenhum tenha sido mais abjeto do que essa paródia deliberada.
Moções exigindo a expulsão de Russell e também, regra geral, a expulsão dos membros do Conselho que haviam votado a favor de sua indicação eram aprovadas diariamente por diversas organizações muito conhecidas por seu interesse na educação, tais como a Filhos de Xavier, a representação em Nova York da Associação Central Católica da América, a Antiga Ordem dos Hibérnicos, os Cavaleiros de Colombo, a Ordem dos Advogados Católicos, a Sociedade do Santo Nome de Santa Joana d’Arc, a Conferência Metropolitana dos Ministros Batistas, a Conferência do Meio-Oeste da Sociedade das Mulheres da Nova Inglaterra e Os Filhos da Revolução Norte-Americana do Estado de Nova York. Essas eram relatadas na imprensa, juntamente com profundas orações da parte de luminares clericais, cujos ataques se centravam cada vez mais em torno de duas acusações: de que Russell era estrangeiro e, portanto, estava legalmente impedido de lecionar na faculdade, e de que suas opiniões a respeito do sexo eram, de algum modo, incentivos ao crime. “Por que não pôr os homens do FBI atrás do seu Conselho de Educação Superior?”, perguntava o reverendo John Schultz, professor de Eloquência Sagrada no Seminário Redentorista em Esopus, Estado de Nova York. “Aos jovens desta cidade”, prosseguia o notável erudito, “ensina-se que não existe tal coisa como a mentira. São ensinados que os assaltos são justificáveis, assim como os roubos e os saques. São ensinados, como Loeb e Leopold foram ensinados na Universidade de Chicago, que crimes cruéis e desumanos são justificáveis.” Desnecessário dizer que todas essas coisas pavorosas estavam intimamente ligadas à indicação de Bertrand Russell – “a mente superior por trás do amor livre, da promiscuidade sexual para os jovens, do ódio aos pais”. Como se isso não bastasse, Russell também foi associado, por outro orador, a “poças de sangue”. Ao falar durante o café da manhã anual de confraternização da Sociedade do Santo Nome do Departamento de Polícia de Nova York, o monsenhor Francis W. Walsh lembrou aos policiais ali reunidos que eles tinham, na ocasião adequada, aprendido o significado completo do chamado “triângulo matrimonial” ao encontrar um dos cantos do triângulo em uma poça de sangue. “Ouso dizer, portanto”, ele prosseguiu, “que os senhores se juntarão a mim ao exigir que qualquer professor culpado de ensinar ou escrever coisas que multiplicarão os palcos sobre os quais essas tragédias se representarão não sejam tolerados nesta cidade nem recebam apoio dos contribuintes (...).”
Ao passo que o prefeito LaGuardia permaneceu em um silêncio bem estudado, diversos políticos do Tammany entraram em ação. Sua concepção de liberdade acadêmica foi muito bem revelada por John F.X. McGohey, primeiro procurador distrital substituto do estado de Nova York e presidente da associação Filhos de Xavier (hoje juiz McGohey), que protestou contra o uso do dinheiro dos contribuintes para “pagar pelo ensino de uma filosofia de vida que nega a Deus, desafia a decência e contradiz completamente o caráter religioso fundamental de nosso país, nosso governo e nosso povo”. No dia 15 de março, três dias antes da próxima reunião marcada do Conselho, o presidente distrital do Bronx, James J. Lyons, uma das principais armas da oposição a Russell, apresentou uma moção na Câmara Municipal pedindo que o Conselho cancelasse a nomeação do professor. A moção foi aprovada por 16 votos contra 5. Deve ficar aqui registrado, como testemunho permanente de sua coragem e indiferença ao sentimento da multidão, que o republicano Stanley Isaacs defendeu vigorosamente Bertrand Russell e o Conselho de Educação Superior. Além de apresentar sua resolução, Lyons anunciou que, na discussão do próximo orçamento, ele apresentaria uma moção para “acabar com a linha que fornece a compensação financeira para esta nomeação perigosa”. O presidente distrital Lyons, no entanto, foi brando e suave, em comparação com o presidente distrital do Queens, George V. Harvey, que declarou, num comício popular, que, se Russell não fosse deposto, instalaria uma moção para que toda a verba de 7.500 milhões de dólares, para a manutenção das faculdades municipais no ano de 1941, fosse suspensa. Se as coisas acontecessem à sua maneira, ele disse, “as faculdades seriam religiosas, americanas, ou seriam fechadas”. No mesmo comício de protesto, outros oradores eminentes e dignos foram ouvidos. Referindo-se a Russell como um “cão”, o vereador Charles E. Keegan observou que, “se tivéssemos um sistema adequado de imigração, esse vagabundo não poderia aportar dentro de mil milhas de distância da nossa terra”. Mas já que desembarcara, a senhorita Martha Byrnes, escrivã do condado de Nova York, disse ao público o que fazer com o “cão”. Russell, bradou ela, deveria ser “coberto de piche e penas e ser expulso do país”. Isso, acredito, é o que os oradores queriam dizer quando falavam em “devoção” e na maneira “americana” de fazer as coisas.
Paul Edwards, in Apêndice do livro Por que não sou cristão, de Bertrand Russell

27/09/2018

Sonho em grego

Varredor de rua fala grego.”
Cotidiano, 20 mar. 1997

Cansado depois de um dia de exaustivo trabalho, o varredor de rua que falava grego adormeceu e teve um sonho. Estava de novo na mesma avenida que havia varrido só que, por algum ato maligno, o lixo que ele recolhera havia voltado: as sarjetas estavam cheias de papéis, de garrafas vazias, de restos de comida. Desanimado, ele olhava aquilo sem saber o que fazer quando de repente avistou, saindo das sombras da noite, três vultos. Três homens vestindo túnicas gregas, o que, fora do período carnavalesco, não deixava de chamar a atenção. O primeiro impulso do varredor foi sair correndo – só lhe faltava ouvir reclamações daqueles estranhos tipos sobre a sujeira. Os três, porém, mostravam-se amistosos. Falando em grego, informaram que tinham vindo de um passado longínquo e de um país igualmente longínquo para conhecer uma pessoa que, embora simples, dominava um idioma tão erudito. Cada vez mais intrigado, o varredor perguntou quem eram.
Eu me chamo Sócrates – disse o homem. – E estes aqui são Platão e Aristóteles.
Com isto, teve início uma animada conversa, que se prolongaria por toda a noite. Os três filósofos queriam saber a opinião do varredor a respeito de suas obras. Ele não se fazia de rogado. Para Sócrates, por exemplo:
Esta história de “só sei que nada sei’’ não está mais com nada, Sócrates. Isto é conversa de cara querendo escapar da Justiça. Hoje em dia as pessoas querem saber das coisas. Além disto, aquela coisa de ensinar filosofia caminhando pelos bosques acabou. Você agora tem de se ligar na Internet.
Para Platão, ele também tinha uma advertência:
Essa coisa de amor platônico acabou, meu amigo. Agora é pão, pão, queijo, queijo. Ou seja: ajoelhou, tem de rezar. Percebe o que estou dizendo?
Platão não percebia muito bem, mas prometeu pensar no assunto. Já Aristóteles, embaraçado, resolveu desviar a conversa para a biologia – e se deu mal. O varredor não o poupou de suas críticas:
Há muito tempo eu estava para lhe dizer, Aristóteles, que aquela teoria da geração espontânea, de bichos nascendo do lixo, já era. Olha, eu trabalho com lixo há muito tempo e posso garantir: bicho, aqui, só os que já existiam. Agora, se você me falar de clonagem é outro papo.
Os filósofos, muito impressionados, agradeceram os conselhos e perguntaram o que podiam fazer pelo homem. O varredor não teve dúvidas:
Vocês podiam me ajudar a recolher esse lixo.
Mas isso, nem em sonho. Filosofia remove bem os entulhos do pensamento. Lixo propriamente dito é outro departamento.
Moacyr Scliar, in O imaginário cotidiano

04/08/2018

Parece, madame? Que nada, é

Este ensaio, escrito em 1899, não tinha sido publicado previamente. Está aqui reproduzido principalmente devido a seu interesse histórico, já que representa a primeira revolta de Russell contra a filosofia hegeliana, da qual era adepto ao entrar em Cambridge. Apesar de sua oposição à religião não ser, naquele tempo, tão pronunciada como ficaria a partir da Primeira Guerra Mundial, algumas de suas críticas tinham as mesmas bases.

A filosofia, na época em que ainda era gorda e próspera, alegava prestar, a seus devotos, uma variedade de serviços dos mais importantes. Oferecia-lhes conforto na adversidade, explicação na dificuldade intelectual e orientação na perplexidade moral. Não é surpresa nenhuma o fato de o novato, ao ser apresentado a um exemplo de seus usos, exclamasse com o entusiasmo da juventude:

Mas como a filosofia divina é atraente!
Não é severa nem ranzinza, como os tolos obtusos supõem,
Mas tão musical quanto o alaúde de Apolo.

Mas esses dias felizes estão no passado. A filosofia, pelas vitórias vagarosas de suas próprias crias, foi forçada a abandonar, uma por uma, suas altas pretensões. Dificuldades intelectuais, em sua maior parte, foram dominadas pela ciência – as alegações ansiosas da filosofia a respeito de algumas questões excepcionais, que ela ainda se esforça para responder, são vistas pela maior parte das pessoas como resquícios da Idade das Trevas e estão sendo transferidas, com toda a velocidade, para a ciência rígida do sr. F.W.H. Myers. Perplexidades morais – que, até pouco tempo atrás, eram incluídas pelos filósofos, sem hesitação, em seu próprio domínio – foram abandonadas, por McTaggart e pelo sr. Bradley, aos caprichos das estatísticas e do bom-senso. Mas o poder de prover conforto e consolo – o derradeiro poder dos impotentes – continua pertencendo à filosofia, como supõe McTaggart. E é exatamente essa possessão que nesta noite desejo roubar aos pais decrépitos de nossos deuses.
Pode parecer, à primeira vista, que a questão poderia ser solucionada rapidamente. “Sei que a filosofia pode proporcionar conforto”, McTaggart poderia dizer, “porque com certeza ela me reconforta.” Tentarei provar, no entanto, que essas conclusões que lhe trazem conforto são conclusões que não se derivam de sua posição geral – de fato, reconhecidamente não derivam dela, sendo mantidas, ao que parece, apenas porque lhe trazem conforto.
Como não desejo discutir a verdade da filosofia, mas apenas seu valor emocional, devo partir de uma metafísica que se baseia na distinção entre Aparência e Realidade e que considera a segunda atemporal e perfeita. O princípio de qualquer metafísica desse tipo pode ser resumido em poucas palavras. “Deus está no céu, tudo está errado no mundo” – essa é sua última palavra. Mas parece supor-se que, como Ele está em Seu céu, e sempre esteve lá, podemos esperar que algum dia desça à terra – se não para julgar os vivos e os mortos, pelo menos para recompensar a fé dos filósofos. Sua longa resignação, no entanto, a uma existência puramente celestial, parece sugerir, em relação aos assuntos terrenos, um estoicismo no qual seria temerário basear nossas esperanças.
Mas falemos a sério. O valor emocional de uma doutrina, como um conforto na adversidade, parece depender de seu prognóstico do futuro. O futuro, emocionalmente falando, é mais importante do que o passado, ou até mesmo do que o presente. “Tudo está bem quando acaba bem”, é o ditado do senso comum. “Muitas manhãs feias se transformam em um lindo dia” não passa de otimismo; ao passo que o pessimismo diz:

Quantas manhãs absolutamente gloriosas já vi
Adulando o topo das montanhas com olho soberano,
Beijando com face dourada as pradarias verdes,
Cobrindo riachos pálidos com alquimia celestial,
E logo permitindo às mais vis das nuvens percorrer
Com um feio ancinho sua face celestial,
E do mundo desamparado seu rosto esconder,
Fugindo invisível para o oeste com esta desgraça.

E assim, emocionalmente, nossa visão do universo em relação ao bom ou ao mau depende do futuro, do que ele será; sempre nos preocupamos com o que virá com o tempo, e, a menos que tenhamos certeza de que o futuro será melhor do que o presente, é difícil enxergar onde encontraremos consolo.
De fato, o futuro está tão ligado ao otimismo que o próprio McTaggart, embora todo o seu otimismo dependa da negação do tempo, sente-se compelido a representar o Absoluto como um estado de coisas futuro, como uma “harmonia que algum dia deve se tornar explícita”. Seria indelicado apelar a essa contradição, já que foi o próprio McTaggart quem me fez tomar consciência dela. Mas o que desejo alegar é que qualquer conforto que se possa derivar da doutrina de que a Realidade é atemporal e eternamente boa existe única e exclusivamente por causa dessa contradição. Uma Realidade atemporal não pode ter uma ligação mais íntima com o futuro do que tem com o passado: se sua perfeição não apareceu até agora, não existe razão para supor que algum dia aparecerá – aliás, é muitíssimo provável que Deus permaneça em Seu céu. Podemos, com igual propriedade, falar de uma harmonia que algum dia pode ter sido explícita; pode ser que “meu desgosto está à frente e meu regozijo ficou para trás” – e é óbvio que isso nos traria muito pouco conforto.
Toda a nossa experiência está ligada ao tempo; nem se poderia imaginar uma experiência atemporal. Mas, mesmo que isso fosse possível, não seríamos capazes, sem contradição, de supor que algum dia viveremos tal experiência. Qualquer experiência, de acordo com o que a filosofia pode mostrar, provavelmente se assemelhará à experiência que conhecemos – se isso nos parece ruim, nenhuma doutrina de uma Realidade distinta das Aparências pode nos dar esperança de nada melhor. Caímos, de fato, em um dualismo desesperado; por um lado, temos o mundo que conhecemos, com seus acontecimentos agradáveis e desagradáveis, suas mortes, fracassos e desgraças; por outro lado, um mundo imaginário, que batizamos de mundo da Realidade, compensando, pela amplidão da Realidade, a ausência de qualquer outro sinal de que tal mundo exista. Ora, nossa única base para esse mundo de Realidade é o que a Realidade teria de ser se fôssemos capazes de compreendê-la. Mas, se o resultado da nossa construção puramente ideal revela-se bem diferente do mundo que conhecemos – do mundo real, na verdade – se, além do mais, apreendermos dessa mesma construção que jamais chegaremos a experimentar o chamado mundo da Realidade, a menos que seja no sentido de que já não experimentamos nada mais –, então não consigo ver o quê, no que diz respeito ao conforto dos males presentes, ganhamos com toda a nossa metafísica. Tomemos, por exemplo, uma questão como a imortalidade. As pessoas desejaram a imortalidade, seja como compensação para as injustiças deste mundo, seja – o que é motivo mais respeitável – como possibilidade de voltar a encontrar depois da morte aqueles que de fato amaram. Esse último desejo é algo que todos sentimos e por cuja satisfação, se a filosofia pudesse satisfazê-lo, deveríamos nos sentir imensamente gratos. Mas a filosofia, na melhor das hipóteses, só pode nos garantir que a alma é uma realidade atemporal. Em que pontos do tempo ela poderá aparecer, se é que aparecerá em algum tempo, é, portanto, completamente irrelevante, e não há nenhuma interferência legítima, por parte de tal doutrina, no que diz respeito à existência depois da morte. Keats pode continuar desapontado:

Que jamais tornarei a olhar-te,
Jamais ter-me-ei regozijado no poder mágico
Do amor irrefletido!

E não poderá ser um grande consolo para ele ouvir que “criatura justa de uma hora” não é uma frase exata do ponto de vista metafísico. É ainda verdade que “O tempo virá para levar embora meu amor” e que “Este pensamento é como uma morte que não tem outra escolha senão chorar para ter aquilo que teme perder”. E assim acontece com todas as partes das doutrinas da Realidade perfeita e atemporal. Tudo aquilo que agora parece maligno – e a lamentável prerrogativa do que é maligno é parecer que assim o é –, o que quer que agora pareça maligno, poderá continuar, até onde sabemos, ao longo de todo o tempo, a atormentar nossos últimos descendentes. E em tal doutrina não existe, para mim, qualquer vestígio de conforto ou de consolo.
É verdade que o cristianismo, assim como todos os otimismos anteriores, representou o mundo como eternamente governado por uma Providência benevolente e, portanto, metafisicamente bondosa. Mas esse constituiu, no fundo, apenas um recurso para comprovar a futura excelência do mundo – para provar, por exemplo, que homens bons seriam felizes depois da morte. Foi sempre essa dedução – feita de maneira ilegítima, é claro – que forneceu conforto. “Ele é um bom camarada, por isso tudo ficará bem.”
Pode-se dizer, de fato, que existe conforto na mera doutrina abstrata de que a Realidade é boa. Pessoalmente, não aceito a prova dessa doutrina, mas, mesmo que verdadeira, não consigo ver por que ela deveria ser reconfortante. Porque a essência da minha contenção é que a Realidade, tal como é construída pela metafísica, não tem qualquer tipo de relação com o mundo da experiência. Trata-se de uma abstração vazia, a partir da qual nenhuma interferência isolada pode ser feita, validamente, em relação ao mundo das aparências, mundo no qual, não obstante, estão todos os nossos interesses. Até mesmo o interesse puramente intelectual, do qual a metafísica se origina, é um interesse por explicar o mundo das aparências. Mas em vez de realmente explicar esse mundo verdadeiro, palpável e sensível, a metafísica constrói um outro mundo fundamentalmente diferente, tão diferente, tão desconectado da experiência verdadeira, que o nosso mundo cotidiano continua sem ser afetado inteiramente por ele e dá continuidade a seu caminho como se não existisse absolutamente nenhum mundo da Realidade. Se ao menos fosse possível considerar o mundo da Realidade como um “outro mundo”, como uma cidade celestial que existisse em algum lugar nos céus, poderia sem dúvida haver conforto na ideia de que outros vivem a experiência perfeita que nos falta. Mas, se nos dizem que tal nossa experiência, como a conhecemos, é a experiência perfeita, isso nos deve deixar gelados, já que não pode provar que nossa experiência é algo melhor do que é. Por outro lado, dizer que nossa experiência não é de fato a experiência perfeita construída pela filosofia é interromper o único tipo de existência que a realidade filosófica pode ter – já que Deus, em Seu céu, não pode ser concebido como pessoa isolada. Logo, ou nossa experiência existente é perfeita – o que é uma frase vazia, pois não a torna melhor do que antes –, ou não existe experiência perfeita, e o nosso mundo da Realidade, que não é experimentado por ninguém, existe apenas no livros de metafísica. Em qualquer um desses casos, parece-me, não é possível encontrar na filosofia os consolos da religião.
Existem, é claro, diversas situações em que seria absurdo negar que a filosofia possa nos dar conforto. Podemos encontrar no filosofar uma maneira agradável de passar nossas manhãs – nesse sentido, o conforto gerado pode até, em casos extremos, ser comparável àquele de beber como maneira de passar as noites. Podemos, ainda, tomar a filosofia do ponto de vista estético, como provavelmente a maior parte de nós toma Spinoza. Podemos usar a metafísica, a exemplo da poesia e da música, como meio de produzir uma disposição, de nos propiciar uma certa visão do universo, uma certa atitude em relação à vida – o estado de espírito resultante sendo avaliado em função, e na proporção, do grau de emoção poética despertada, e não em proporção à verdade das crenças alimentadas. Nossa satisfação, de fato, parece ser, nessas disposições, o oposto exato das profissões da metafísica. É a satisfação de esquecer o mundo real e seus males, e de persuadir a nós mesmos, por um certo momento, da realidade de um mundo que nós mesmos criamos. Essa parece ser uma das premissas que Bradley usa para justificar a metafísica. “Quando a poesia, a arte e a religião”, diz ele, “tiverem deixado completamente de despertar interesse, ou quando não mostrarem mais nenhuma tendência de lutar contra os problemas extremos, chegando a um acordo com eles; quando a noção de mistério e de encanto não mais levar a mente a vagar sem rumo e amar aquilo que não sabe o que é; quando, em resumo, o crepúsculo deixar de ter encanto – então a metafísica será inútil.” O que a metafísica faz por nós é, nesse sentido, essencialmente o que, digamos, A Tempestade faz por nós – mas seu valor, nesse sentido, é bem independente de sua verdade. Não é porque a magia de Próspero nos faz conhecer o mundo dos espíritos que valorizamos A Tempestade; não é porque, esteticamente, somos informados a respeito do mundo do espírito que valorizamos a metafísica. E isso faz emergir a diferença essencial entre a satisfação estética, que concedo à filosofia, e o conforto religioso, que lhe nego. Para a satisfação estética, a convicção intelectual é desnecessária, de modo que podemos escolher, quando assim desejarmos, a metafísica que nos dê o máximo disso. Para o conforto religioso, por outro lado, a crença é essencial, e estou afirmando que não obtemos conforto religioso da metafísica em que acreditamos.
É possível, no entanto, introduzir um refinamento nesse argumento adotando-se uma teoria mais ou menos mística da emoção estética. Pode-se defender que, apesar de nunca sermos capazes de experimentar completamente a Realidade como ela é de verdade, algumas experiências aproximam-se dela mais do que outras, e tais experiências, pode-se dizer, são propiciadas pela arte e pela filosofia. E, sob a influência das experiências que a arte e a filosofia às vezes nos propiciam, parece fácil adotar essa visão. Para aqueles que têm paixão pela metafísica, provavelmente não existe emoção tão rica e linda, tão completamente desejável, quanto a noção mística, que a filosofia às vezes propicia, de um mundo transformado pela visão beatífica. Como Bradley diz, ainda, “Alguns de um modo, outros de outro, parece que tocamos as coisas que existem além do mundo visível e que entramos em comunhão com elas. De diversas maneiras encontramos algo mais elevado, que tanto nos sustenta quanto nos humilha, tanto nos castra quanto nos apoia. E, em algumas pessoas, o esforço intelectual para compreender o Universo é uma das maneiras principais para assim experimentar a Divindade. (...) E isso parece ser”, ele prossegue, “outra razão para que algumas pessoas se dediquem ao estudo da verdade suprema.”
Mas será que também não é essa uma razão para esperar que tais pessoas não encontrem a verdade suprema? Se é que de fato a verdade suprema carrega qualquer semelhança com as doutrinas apresentadas em Appearance and Reality. Não nego o valor da emoção, mas nego sim que, rigorosamente falando, seja ela, em qualquer sentido específico, uma visão beatífica ou uma experiência relativa à Divindade. Em certo sentido, é claro, toda experiência é uma experiência relativa à Divindade, mas, em outro, como toda experiência se acha igualmente no tempo, e a Divindade é atemporal, nenhuma experiência é a experiência da Divindade – “como tal”, eu teria que completar, não sem pedantismo. O abismo entre a Aparência e a Realidade é tão profundo que não temos qualquer base, até onde posso ver, para considerar algumas experiências mais próximas do que outras da experiência perfeita da Realidade. O valor das experiências em questão deve, portanto, basear-se inteiramente em sua qualidade emocional, e não, como Bradley parece sugerir, em algum grau superior de verdade que se possa atribuir a elas. Mas, se assim é, elas são, no máximo, os consolos da filosofice, e não da filosofia. Constituem uma razão para a busca da verdade derradeira, já que são flores que devem ser colhidas ao longo do caminho; mas não constituem uma recompensa por sua obtenção, já que como tudo parece sugerir, as flores só crescem no início da estrada, desaparecendo muito antes de termos alcançado o final da nossa jornada.
A visão que defendi sem dúvida não é inspiradora, nem algo que, se aceito de maneira generalizada, provavelmente incentivaria o estudo da filosofia. Eu poderia justificar meu texto, se assim o desejasse, com a máxima de que “onde tudo está podre, é função do homem gritar peixe fedido”. Mas prefiro sugerir que a metafísica, quando busca ocupar o lugar da religião, realmente entendeu sua missão de maneira errada. Que seja capaz de ocupar esse lugar eu admito; mas ela o faz, afirmo, à custa de ser uma má metafísica. Por que não reconhecer que a metafísica, assim como a ciência, justifica-se pela curiosidade intelectual, devendo ser guiada apenas pela curiosidade intelectual? O desejo de encontrar conforto na metafísica produziu, todos precisamos reconhecer, uma grande quantidade de raciocínio falacioso e de desonestidade intelectual. Disso, pelo menos, o abandono da religião nos livraria. E, como a curiosidade intelectual existe em algumas pessoas, é provável que servisse para libertá-las de certas ilusões que persistem até hoje. “O homem”, para citar Bradley mais uma vez, “cuja natureza é tal que pretende consumar seu principal desejo por um único caminho, vai tentar encontrá-lo nesse caminho, seja qual for ele, e independentemente do que o mundo ache disso; se não o fizer, será um homem desprezível.”
Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

27/10/2017

Temos que nos arriscar

Mal podemos acreditar no filósofo a quem tudo deixa indiferente; não acreditamos na tranquilidade do estoico, não desejamos sequer a impavidez, porque a própria condição humana nos lança na paixão e no medo, e são as lágrimas e o júbilo que nos permitem conhecer o que é. Eis por que somente o impulso ascendente nos liberta das perturbações anímicas e não é pela supressão que nos encontramos.
Temos, pois, que nos arriscar a ser homens e, enquanto homens, fazermos o que pudermos para alcançar a independência conquistada. Sofreremos então sem queixume, desesperar-nos-emos sem nos afundarmos, abalados mas nunca completamente derrubados quando suspensos à íntima independência que em nós se gera.
A filosofia, porém, é a escola dessa independência, não a sua posse.
Karl Jaspers, in Iniciação filosófica

27/09/2017

Filosofia, poesia e folia...

O homem tem sentido muito pouca alegria: esse, somente, meus irmãos, é o nosso pecado original

Aos que dançam aos sons coloridos da fantasia, aos que fazem os corpos tremer, voar e mostrar, essas pitadas de filosofia, poesia e folia, escritas por Nietzsche, discípulo de Dionísio, deus do vinho, das festas, das orgias e do prazer… Fantasiado de filosofo ele se junta aos cordões de foliões… Eu poderia crer somente num deus que dançasse. E quando vi o meu demônio eu o encontrei sério, rigoroso, profundo e solene: era o espírito da gravidade por ele todas as coisas afundam. Não se mata por meio do ódio. Mata-se por meio do riso. Venham, vamos matar o espírito de gravidade! Agora estou leve! Agora eu voo! Agora um deus dança através do meu corpo.”
Num homem real se esconde uma criança... que deseja brincar…
Somente na dança eu sei contar a parábola das coisas mais altas! Quanto a mim, gosto da vida: borboletas e bolhas de sabão e todas as coisas que, entre os homens, se assemelhem a elas. Vendo flutuar essas almas leves, tolas, moveis, pequenas isso seduz Zaratustra a lágrimas e canções.”
O homem tem sentido muito pouca alegria: esse, somente, meus irmãos, é o nosso pecado original.
Um homem de verdade deseja duas coisas: perigo e brincar.
A maturidade de um homem consiste em achar de novo a seriedade que se tinha como criança ao brincar.
E vocês, para quem a vida é um trabalho furioso e agitação, não estão cansados da vida? Não estão maduros para a pregação da morte? Todos vocês, que amam o trabalho furioso, o que é rápido, novo e estranho na verdade vocês acham difícil suportar vocês mesmos. O seu trabalho é uma fuga, uma vontade de se esquecerem de vocês mesmos. Se acreditassem mais na vida, não se agitariam tanto. Mas vocês não têm conteúdo suficiente em vocês mesmos para esperar e nem mesmo tempo para a preguiça.
Digo-lhes: é preciso ter caos dentro de si mesmo para ser capaz de dar à luz uma estrela dançante.
As palavras e os sons, não são eles pontes iridescentes e etéreas entre coisas eternamente separadas? Os nomes e os sons não foram dados às coisas para que nós as achássemos mais refrescantes? A fala é uma deliciosa loucura. Por meio dela o homem dança sobre todas as coisas.
O fundo do meu mar é tranquilo: quem poderia imaginar que nele vivem monstros brincalhões? Minhas profundezas são imperturbáveis. Mas elas cintilam com enigmas e risos nadantes.
Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre espinhos e papoulas vermelhas. Para as crianças, sou ainda um sábio, e também para os espinhos e papoulas vermelhas.
Foi-se a penumbra hesitante da minha primavera! Foi-se a maldade dos meus flocos de neve no verão. Tornei-me verão inteiramente, meio-dia de verão! Verão nas esferas altas com fontes frescas e silêncio abençoado. Oh! Venham meus amigos, para que o silêncio se torne mais abençoado ainda!
O deleite do artista naquilo que é passageiro, a alegria do artista que desafia todo sofrimento, é meramente uma imagem brilhante de nuvens e céu espelhada no lago negro da tristeza.
Rubem Alves, in Folha de S. Paulo (Cotidiano, 08/03/2011)