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28/02/2024

Velha infância | Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Davi Moraes e Pedro Baby, 2003

A carioca Marisa Monte (1967) e o baiano Carlinhos Brown surgiram – junto com Cássia Eller, Ed Motta e Adriana Calcanhotto – como as melhores novidades da MPB nos anos 1990. Originais, talentosos, independentes e muito diferentes entre si, os dois se tornaram parceiros com a belíssima “Segue o seco”, gravada por Marisa em 1994, um grande sucesso de público e de crítica.
Desde o início triunfal de sua carreira, aos 20 anos, com o megassucesso “Bem que se quis” (versão de Nelson Motta de “E pò che fà”, do italiano Pino Daniele) e a extraordinária regravação de “Comida”, dos Titãs, Marisa se aproximou de Arnaldo Antunes, que foi seu primeiro parceiro quando ela começou sua carreira de autora em seu segundo disco, com a canção “Beija eu” (1990) e seguiu como seu principal parceiro, ao lado de Brown, até hoje.
O paulistano Arnaldo Antunes surgiu como compositor e frontman dos Titãs nos anos 1980 e dez anos depois era considerado o melhor letrista de sua geração. Com o início de sua carreira solo em 1992, começou a compor com vários parceiros, e uma das mais frequentes e de mais sucesso foi Marisa Monte, pela perfeita sincronia que encontravam entre letra e música.
Em 2002, juntando suas diferentes origens, formações e estilos, a carioca, o paulista e o baiano criaram os Tribalistas e produziram o maior sucesso do ano no Brasil e um dos discos brasileiros de maior sucesso na França, na Itália, em Portugal, na Espanha e na Argentina em 2003, mesmo sem fazerem nenhuma apresentação pública ou entrevista do grupo.
O extraordinário sentido rítmico e popular de Brown se uniu à musicalidade de Marisa, desenvolvida no jazz, no samba e na música clássica, e à inteligência poética clássica e vanguardista de Arnaldo para criar a melhor síntese da MPB do terceiro milênio com os Tribalistas.
Entre grandes sucessos do disco, como “Já sei namorar”, “Carnavália”, “Um a um”, “O amor é feio”, o maior foi “Velha infância”. Além dos três Tribalistas, foram coautores os guitarristas Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes), numa síntese de quatro décadas de música brasileira e como expressão do espírito de brincadeira entre amigos que inspirou o disco.
E a gente canta / E a gente dança / E a gente não se cansa / De ser criança / A gente brinca / Na nossa velha infância.”

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

15/10/2023

Vou largar tudo para tocar pandeiro no Titãs

Se por uma sorte eu ficar na frente de Marisa Monte, darei um tiro na cabeça e, antes de morrer, balbuciarei: ‘‘Você é tudo, eu sou nada.” De noite, na cama, fico pensando naqueles que conseguem ser mais que simples mortais como eu, como você, como a maioria. Por que não nasci belo, completo, moderno e chique? Por que pertenço à massa duvidosa que duela com a própria imagem em frente ao espelho, se punindo por ser apenas mais um, entre tantos anônimos, inúteis passageiros, quando podia ter nascido Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Marisa Monte ou um dos Titãs? Por que não cheguei aos pés deles, nasci isso, essa coisa, coisa boba, pequena mostra do que as musas propõem? Ofereceram-me a vida, e desperdicei a chance de ser um Nijinski, um Fellini, um Titã do Iê-Iê-Iê.
Conheço os Titãs há tempos. São bons. Nascemos na mesma praia. Alguns, amigos de infância. Algumas namoradas em comum. Assisti ao primeiro show, no Sesc; capenga, ingênuo, fazendo cover da propaganda “A baratinha só pensa em DDD”. Mas o tempo aumentou a distância. Numa viagem para Brasília, embarcamos no mesmo avião. Iriam dar um show num ginásio. Eu, participar de uma feira de livros. Aos 28 anos, perto deles, já me sentia um intelectual velho, amassado pelos conceitos; até hoje não me livrei da bengala acadêmica, frequentando aulas de mestrado, buscando aprender algo que talvez não possa ser ensinado, sem nunca me sentir assado ao ponto. No desembarque, meu amigo Ivan, velho boêmio, baixo, barrigudo, feio como eu, me esperando numa alegria literária, ansioso por me mostrar os novos bares da cidade. Havia 13 garotas, as mais bonitas e gostosas de Brasília; muito arrumadinhas e perfumadas; cabelos esvoaçantes; ansiosas para o amor. Pergunto a elas o que faziam no aeroporto. Esperavam os Titãs, lógico. Olhei para a barriga do meu cicerone e senti a amargura de não ter nascido um Titã.
Eu queria ser um deles, segurar uma guitarra e fazer cara de mau, ter o camarim cheio de chiques e modernos, frequentar a MTV, ser bajulado por poetas concretistas que já bajularam os tropicalistas e são mestres na arte de bajular os seus seguidores, como se Deus devesse algo aos homens. Mas não. Intelecto, ora bolas, se perder pelo labirinto do conhecimento, enquanto Marisa Monte existe, tem um pulso que ainda pulsa, se banha com flores aromáticas, dorme só de calcinha e toma suco natural todas as manhãs. Ah, meu amigo, vou me aposentar, largar essas noites solitárias na frente de um computador gelado que não canta, não tem cheiro, não me ama. Abandonar as páginas incertas e, se me aceitarem, tocar pandeiro com os Titãs.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

02/03/2022

Rosa | Pixinguinha e Otávio de Souza, 1937


A valsa de Pixinguinha repousava esquecida na voz de Orlando Silva até Marisa Monte relançá-la em 1991, acompanhada pelo pianista e compositor japonês Ryuichi Sakamoto, em seu segundo álbum solo, Mais.
Uma façanha surpreendente, porque, se a belíssima melodia de Pixinguinha era de construção sofisticada, a enorme letra de Otávio de Souza já soava arcaica quando foi lançada por Orlando Silva em 1937. Tanto na construção rebuscada das frases quanto no abuso de palavras que começavam a cair em desuso, hoje relegadas aos dicionários, como “olor”, “lanceado”, “remir”, “olente”… Mas as literatices inflamadas não impediram o retumbante sucesso na época, em grande parte ajudado por “Carinhoso”, o lado A do 78 rpm lançado pela RCA Victor.
Tu és divina e graciosa / Estátua majestosa do amor / Por Deus esculturada / E formada com ardor / Da alma da mais linda flor / De mais ativo olor / Que na vida é preferida pelo beija-flor.”
Orlando teria conhecido as duas músicas quando participou de uma serenata a convite de Pixinguinha. Era a festa de um casamento em Bangu, e a certo momento da noite o compositor mostrou a letra que João de Barro tinha feito para o choro “Carinhoso” e também a então inédita “Rosa”. Faro apurado, Orlando quis gravar as duas, o que fez numa única sessão, em 28 de maio de 1937, para o disco lançado um mês depois.
Na época da gravação de Orlando Silva, compositores como Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo já tinham incorporado com sucesso a linguagem coloquial das ruas às suas canções, muitas delas usando construções e termos que poderiam ser escritos hoje. Apesar de seu romantismo exacerbado (ou por isso mesmo), “Rosa” bateu fundo no coração do público de Orlando. E refloresceu mais bela ainda cinco décadas depois na voz de Marisa, em gravação intimista, que contou apenas com o piano e os teclados de Sakamoto e a cuíca de Armando Marçal.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil