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16/04/2024
16/03/2024
28/02/2024
Velha infância | Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Davi Moraes e Pedro Baby, 2003
A
carioca Marisa Monte (1967) e o baiano Carlinhos Brown surgiram –
junto com Cássia Eller, Ed Motta e Adriana Calcanhotto – como as
melhores novidades da MPB nos anos 1990. Originais, talentosos,
independentes e muito diferentes entre si, os dois se tornaram
parceiros com a belíssima “Segue o seco”, gravada por Marisa em
1994, um grande sucesso de público e de crítica.
Desde
o início triunfal de sua carreira, aos 20 anos, com o megassucesso
“Bem que se quis” (versão de Nelson Motta de “E pò che fà”,
do italiano Pino Daniele) e a extraordinária regravação de
“Comida”, dos Titãs, Marisa se aproximou de Arnaldo Antunes, que
foi seu primeiro parceiro quando ela começou sua carreira de autora
em seu segundo disco, com a canção “Beija eu” (1990) e seguiu
como seu principal parceiro, ao lado de Brown, até hoje.
O
paulistano Arnaldo Antunes surgiu como compositor e frontman
dos Titãs nos anos 1980 e dez anos depois era considerado o melhor
letrista de sua geração. Com o início de sua carreira solo em
1992, começou a compor com vários parceiros, e uma das mais
frequentes e de mais sucesso foi Marisa Monte, pela perfeita
sincronia que encontravam entre letra e música.
Em
2002, juntando suas diferentes origens, formações e estilos, a
carioca, o paulista e o baiano criaram os Tribalistas e produziram o
maior sucesso do ano no Brasil e um dos discos brasileiros de maior
sucesso na França, na Itália, em Portugal, na Espanha e na
Argentina em 2003, mesmo sem fazerem nenhuma apresentação pública
ou entrevista do grupo.
O
extraordinário sentido rítmico e popular de Brown se uniu à
musicalidade de Marisa, desenvolvida no jazz, no samba e na música
clássica, e à inteligência poética clássica e vanguardista de
Arnaldo para criar a melhor síntese da MPB do terceiro milênio com
os Tribalistas.
Entre
grandes sucessos do disco, como “Já sei namorar”, “Carnavália”,
“Um a um”, “O amor é feio”, o maior foi “Velha infância”.
Além dos três Tribalistas, foram coautores os guitarristas Davi
Moraes (filho de Moraes Moreira) e Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes),
numa síntese de quatro décadas de música brasileira e como
expressão do espírito de brincadeira entre amigos que inspirou o
disco.
“E
a gente canta / E a gente dança / E a gente não se cansa / De ser
criança / A gente brinca / Na nossa velha infância.”
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
23/02/2024
21/12/2023
15/10/2023
Vou largar tudo para tocar pandeiro no Titãs
Se
por uma sorte eu ficar na frente de Marisa Monte, darei um tiro na
cabeça e, antes de morrer, balbuciarei: ‘‘Você é tudo, eu sou
nada.” De noite, na cama, fico pensando naqueles que conseguem ser
mais que simples mortais como eu, como você, como a maioria. Por que
não nasci belo, completo, moderno e chique? Por que pertenço à
massa duvidosa que duela com a própria imagem em frente ao espelho,
se punindo por ser apenas mais um, entre tantos anônimos, inúteis
passageiros, quando podia ter nascido Caetano Veloso, Guimarães
Rosa, Marisa Monte ou um dos Titãs? Por que não cheguei aos pés
deles, nasci isso, essa coisa, coisa boba, pequena mostra do que as
musas propõem? Ofereceram-me a vida, e desperdicei a chance de ser
um Nijinski, um Fellini, um Titã do Iê-Iê-Iê.
Conheço
os Titãs há tempos. São bons. Nascemos na mesma praia. Alguns,
amigos de infância. Algumas namoradas em comum. Assisti ao primeiro
show, no Sesc; capenga, ingênuo, fazendo cover da propaganda “A
baratinha só pensa em DDD”. Mas o tempo aumentou a distância.
Numa viagem para Brasília, embarcamos no mesmo avião. Iriam dar um
show num ginásio. Eu, participar de uma feira de livros. Aos 28
anos, perto deles, já me sentia um intelectual velho, amassado pelos
conceitos; até hoje não me livrei da bengala acadêmica,
frequentando aulas de mestrado, buscando aprender algo que talvez não
possa ser ensinado, sem nunca me sentir assado ao ponto. No
desembarque, meu amigo Ivan, velho boêmio, baixo, barrigudo, feio
como eu, me esperando numa alegria literária, ansioso por me mostrar
os novos bares da cidade. Havia 13 garotas, as mais bonitas e
gostosas de Brasília; muito arrumadinhas e perfumadas; cabelos
esvoaçantes; ansiosas para o amor. Pergunto a elas o que faziam no
aeroporto. Esperavam os Titãs, lógico. Olhei para a barriga do meu
cicerone e senti a amargura de não ter nascido um Titã.
Eu
queria ser um deles, segurar uma guitarra e fazer cara de mau, ter o
camarim cheio de chiques e modernos, frequentar a MTV, ser bajulado
por poetas concretistas que já bajularam os tropicalistas e são
mestres na arte de bajular os seus seguidores, como se Deus devesse
algo aos homens. Mas não. Intelecto, ora bolas, se perder pelo
labirinto do conhecimento, enquanto Marisa Monte existe, tem um pulso
que ainda pulsa, se banha com flores aromáticas, dorme só de
calcinha e toma suco natural todas as manhãs. Ah, meu amigo, vou me
aposentar, largar essas noites solitárias na frente de um computador
gelado que não canta, não tem cheiro, não me ama. Abandonar as
páginas incertas e, se me aceitarem, tocar pandeiro com os Titãs.
Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola
22/02/2023
02/03/2022
Rosa | Pixinguinha e Otávio de Souza, 1937
A
valsa de Pixinguinha repousava esquecida na voz de Orlando Silva até
Marisa Monte relançá-la em 1991, acompanhada pelo pianista e
compositor japonês Ryuichi Sakamoto, em seu segundo álbum solo,
Mais.
Uma
façanha surpreendente, porque, se a belíssima melodia de
Pixinguinha era de construção sofisticada, a enorme letra de Otávio
de Souza já soava arcaica quando foi lançada por Orlando Silva em
1937. Tanto na construção rebuscada das frases quanto no abuso de
palavras que começavam a cair em desuso, hoje relegadas aos
dicionários, como “olor”, “lanceado”, “remir”, “olente”…
Mas as literatices inflamadas não impediram o retumbante sucesso na
época, em grande parte ajudado por “Carinhoso”, o lado A do 78
rpm lançado pela RCA Victor.
“Tu
és divina e graciosa / Estátua majestosa do amor / Por Deus
esculturada / E formada com ardor / Da alma da mais linda flor / De
mais ativo olor / Que na vida é preferida pelo beija-flor.”
Orlando
teria conhecido as duas músicas quando participou de uma serenata a
convite de Pixinguinha. Era a festa de um casamento em Bangu, e a
certo momento da noite o compositor mostrou a letra que João de
Barro tinha feito para o choro “Carinhoso” e também a então
inédita “Rosa”. Faro apurado, Orlando quis gravar as duas, o que
fez numa única sessão, em 28 de maio de 1937, para o disco lançado
um mês depois.
Na
época da gravação de Orlando Silva, compositores como Noel Rosa,
Ary Barroso e Lamartine Babo já tinham incorporado com sucesso a
linguagem coloquial das ruas às suas canções, muitas delas usando
construções e termos que poderiam ser escritos hoje. Apesar de seu
romantismo exacerbado (ou por isso mesmo), “Rosa” bateu fundo no
coração do público de Orlando. E refloresceu mais bela ainda cinco
décadas depois na voz de Marisa, em gravação intimista, que contou
apenas com o piano e os teclados de Sakamoto e a cuíca de Armando
Marçal.
Nelson
Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
14/12/2021
21/10/2021
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