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03/05/2026

Loucura diferente

A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo. A pré-visão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

09/01/2025

Loucura diferente

A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo. A pré-visão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

16/07/2020

Loucura x sanidade

Às vezes não tenho tanto a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria das pessoas o encara quando o faz.
William Faulkner, in Na Minha Morte

30/04/2020

A sabedoria da loucura

Não é significativo que a língua inglesa chame as bebidas alcoólicas pelo nome de “spirits”? Donde essa curiosa sugestão? Penso que ela tem origens religiosas. No Pentecostes, os discípulos foram possuídos pelo Espírito, falaram e entenderam línguas que até então lhes eram desconhecidas, e os circunstantes tiveram a nítida impressão de que estavam bêbados. Pentecostes é loucura, nonsense, a quebra das regras familiares de compreensão, a revelação de um conhecimento que havia permanecido oculto até então, é Babel ao contrário. A sabedoria emerge da loucura. Aquilo a que damos o nome de “realidade” é “feitiço”. “É preciso fazer parar o mundo”, dizia D. Juan, o bruxo. Se isso não acontecer, ele não poderá ser visto com olhos diferentes.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

16/01/2020

Loucura e religião

Disse o Riobaldo e eu digo “amém”. “Todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Eu, cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca... Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles...” (João Guimarães Rosa). Espantei-me quando li. Ecumenismo maior não pode existir. Se o Riobaldo fosse cardeal, ah! Sua Santidade, Bento XVI ia ter um trabalhão...
Acontece assim comigo também: não perco ocasião de religião. Tenho sangue de católico. Meu avô ia ser padre. Se tivesse sido, este texto não existiria. Lá no sobrado de vidros coloridos, no sótão, entre as telhas e o forro, ficavam guardadas as velharias numa canastra. Entre elas, uma carta do meu avô, interno do Caraça, já vestido de batina preta, dirigida ao seu pai, pedindo dez tostões para comprar uma batina nova porque a sua já estava velha. Tenho também sangue de espírita, que eles chamam de espiritualista ou kardecista, qualquer nome é bom.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

10/11/2018

Um mundo em que nada é resoluto

Existe, nesta terra, algo que escape à dúvida, à exceção da morte? - à única coisa que é certa no mundo? Continuar a viver duvidando de tudo - eis um paradoxo que não é dos mais trágicos, uma vez que a dúvida é bem menos intensa, bem menos difícil do que o desespero. A mais frequente dúvida é aquela abstrata, em que se compromete apenas uma parte do ser, contrariamente ao desespero, em que a participação é orgânica e total. Um certo diletantismo, um tanto quanto superficial caracteriza o ceticismo em visto do desespero, este fenômeno tão estranho e complexo. Eu faço bem em duvidar de tudo e em encarar o mundo com um sorriso de desprezo - e isto não me impedirá de comer, de dormir tranquilamente ou de me casar. No desespero, do qual somente vivendo se extrai a profundidade, esses atos somente são possíveis pagando o preço de esforços e sofrimentos. Nos cumes do desespero, ninguém tem mais direito ao sono. Assim, um desesperado autêntico não esquece jamais sua tragédia: sua consciência preserva a dolorosa atualidade de sua miséria subjetiva. A dúvida é uma inquietude ligada aos problemas e às coisas, e procede do caráter insolúvel de toda grande questão. Se os problemas essenciais pudessem ser resolvidos, o cético voltaria a um estado normal. Que diferença em relação à situação do desesperado, que nem mesmo a resolução de todos os problemas tornaria menos inquieto, uma vez que sua inquietude brota da própria estrutura da existência. Não são os problemas, então, mas as convulsões e chamas interiores que torturam. Pode-se lamentar que nada se resolva aqui na terra; ninguém, apesar disso, suicida-se devido a isto - a inquietude filosófica influi muito pouco na inquietude total de nosso ser. Eu prefiro mil vezes uma existência dramática, atormentada pelo seu destino e submetida ao suplício das chamas mais ardentes, à existência do homem abstrato, atormentado por questões não menos abstratas e que somente lhe afetam superficialmente. Eu desprezo a ausência do risco, da loucura e da paixão. Quão fecundo, em vista disto, é um pensamento vivo e apaixonado, irrigado pelo lirismo! Quão dramático e interessante é o processo por meio do qual espíritos inicialmente atormentados por problemas puramente intelectuais e impessoais, espíritos objetivos a ponto de esquecerem-se de si, são, uma vez surpreendidos pela doença e sofrimento, fatalmente levados a refletir sobre sua subjetividade e sobre as experiências a afrontar. Os homens objetivos e ativos não encontram neles mesmos recursos suficientes para fazer de seu destino um problema. Para que estes se tornem subjetivos e universais a uma só vez, eles devem descer, um a um, todos os degraus de um inferno interior. Enquanto não se está reduzido a cinzas, não se pode obter a filosofia lírica - uma filosofia em que a ideia tem raízes tão profundas quanto a poesia. Acessa-se, então, uma forma superior de existência, onde o mundo e seus problemas inextrincáveis não merecem sequer mais desprezo. Não é uma questão de excelência nem de valor particular do indivíduo; fato é, simplesmente, que nada, fora de nossa agonia pessoal, nos interessa mais.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

04/03/2018

Do louco e do sábio

Voltemos à feliz espécie dos loucos. Passada a vida alegremente, sem medo ou pressentimento da morte, emigram diretamente para os Campos Elísios e vão deleitar com as suas facécias as almas ociosas e pias. Comparai agora ao destino do louco o de um sábio a vossa escolha. Citai-me um modelo de sabedoria que tenha gasto a sua infância e a juventude no estudo das ciências e que tenha perdido o mais belo tempo da sua vida em vigílias, cuidados e trabalhos sem fim e que se tenha privado, para o resto da sua vida, de todos os prazeres. Vereis que foi sempre pobre, miserável, triste, tétrico, severo e duro para consigo mesmo, insuportável e desagradável para com os outros, pálido, magro, servil, envelhecido antes do tempo, calvo antes da velhice, votado a uma morte prematura. Que importa, aliás, que morra, se nunca chegou a viver! Tal é o belo retrato deste sábio.
Erasmo de Roterdan, in Elogio da loucura

25/02/2018

Capítulo 8 - Razão Contra Sandice

Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:
La maison est à moi, c'est à vous d'' sortir.
Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão.
- Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.
- Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...
- Que mistério?
- De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A Razão pôs-se a rir.
- “Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa”.
E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, ainda grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente andará até a consumação dos séculos.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

23/02/2018

Loucura e amor

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
Friedrich Nietzsche, in Assim falava Zaratustra

11/10/2017

Loucura

A loucura é rara em indivíduos – mas em grupos, partidos, nações e eras ela é a regra.”
Friedrich Nietzsche

24/03/2017

Loucura diferente

A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo. A pré-visão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

12/07/2016

31/03/2016

Loucura e consciência

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.
Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

20/02/2016

Dose de loucura

"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais. Sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome  de vida. Mergulharíamos na tristeza todos os dias, se com essa espécie de prazeres não dissipássemos o tédio que parece ter nascido conosco."
Erasmo de Rotterdam, in Elogio da loucura

08/02/2016

Dissimulação

Dissimular, enganar, fingir, fechar os olhos aos defeitos dos amigos, ao ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, não será, acaso, avizinhar-se da loucura? Beijar, num transporte, uma mancha da amiga, ou sentir com prazer o fedor do seu nariz, e pretender um pai que o filho zarolho tenha dois olhos de Vênus, não será isso uma verdadeira loucura? Bradem, pois, quando quiserem ser uma grande loucura, e acrescentarei que essa loucura é a única que cria e conserva a amizade. Falo aqui unicamente dos homens, dos quais não há um só que tenha nascido sem defeitos, e admitindo que, para nós, o homem melhor seja o que tem menores vícios.”
Erasmo de Rotterdam, in Elogio da loucura

29/01/2016

Os sábios têm duas línguas

Considerareis deplorável o fato do homem não ter asas para voar como os pássaros, ou quatro pés como os quadrúpedes, ou a fronte armada de chifres como o touro? Lamentareis a sorte de um belo cavalo, pelo fato de não ter aprendido gramática ou de não comer bem? Deplorareis um touro, pelo fato de não ser adestrado na palestra?
Portanto, assim como o cavalo não é infeliz por ignorar a gramática, assim também não o é o louco, pois a loucura é natural no homem. Se bem que, com Platão, o provérbio de Alcebíades diga que a verdade se encontra no vinho e nas crianças, contudo é a mim, particularmente, que convém esse elogio, porque, segundo o testemunho de Eurípedes, tudo o que o tolo encerra no coração ele o traz também impresso na cabeça e o manifesta nas palavras. Mas, os sábios, segundo o mesmo Eurípedes, têm duas línguas, uma para dizer o que pensam e a outra para falar conforme às circunstâncias: quando o querem, têm talento para fazer o preto aparecer como branco e o branco como preto, soprando com a mesma boca o calor e o frio e exprimindo com palavras exatamente o contrário do que sentem no peito.”

Erasmo de Rotterdam, in Elogio da loucura

24/01/2016

A cura da loucura

Um grego, de cujo nome não me recordo, era do mesmo parecer, e a sua história é tão engraçada que eu até quero contá-la. Esse homem era louco de todas as formas: desde manhã muito cedo até tarde da noite, ficava sentado sozinho no teatro e, imaginando que assistia a uma magnífica representação, embora na realidade nada se representasse, ria, aplaudia e divertia-se à grande. Fora dessa loucura, ele era, em tudo o mais, uma ótima pessoa: complacente e fiel com os amigos; terno, cortês, condescendente com a mulher; indulgente com os escravos, não se enfurecendo quando via quebrar-se uma garrafa. Seus parentes deram-se ao incômodo de curá-lo com heléboro; mal, porém, ele voltou ao estado que impropriamente se chama de bom senso, dirigiu-lhe esta bela e sensata apóstrofe: “Meus caros amigos, que fizeram vocês? Pretendem ter-me curado e, no entanto, mataram-me; para mim, acabaram-se os prazeres: vocês me tiraram uma ilusão que constituía toda a minha felicidade”. Tinha sobras de razão esse convalescente, e os que, por meio da arte médica, julgaram curá-lo, como de um mal, de tão feliz e agradável loucura, mostraram precisar mais do que ele de uma boa dose de heléboro.”
Erasmo de Rotterdam, in Elogio da Loucura

27/11/2015

Loucura?!

Quando reflito sobre quão reais e verdadeiras são para o louco as coisas da sua loucura, não posso deixar de concordar com a essência da declaração de Protágoras de que 'o homem é a medida de todas as coisas'.”
Fernando Pessoa