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09/05/2026

Ser bom

Qual é a sua arte? Ser bom. Como essa é bem realizada, senão mediante teoremas gerais — alguns referentes à natureza universal e outros à constituição típica do homem?

Marco Aurélio, em Meditações

23/02/2026

Acerca da sinceridade e bondade

Impossibilite-os de acusarem-no corretamente de falta de sinceridade e bondade. É possível fazer com que as acusações sejam mentirosas. Afinal, quem poderá impedi-lo de ser sincero e benévolo? Não admita viver se não for. A razão não admite.

Marco Aurélio, em Meditações

29/03/2024

Não existe ofício desprezível

Um santo varão pediu a Deus que lhe revelasse quem ia ser seu companheiro no Paraíso. A resposta veio em sonhos: “O açougueiro do teu bairro”. O homem afligiu-se sobremaneira por tão vulgar e indouta personagem. Jejuou e tornou a pedir, em oração. O sonho repetiu-se: “O açougueiro do teu bairro”. Chorou o piedoso, rezou e pediu.
Novamente visitou-o o sonho: “Na verdade, se não fosses tão piedoso, serias castigado. Que achas de desprezível em um homem cuja conduta desconheces?” Foi ver o açougueiro e perguntou-lhe sobre sua vida. O outro lhe disse que repartia seus ganhos entre os pobres e as necessidades de sua casa, e admitiu que isto muitos faziam; recordou, então, que uma vez resgatara uma prisioneira da soldadesca em troca de uma grande soma de dinheiro. Educou-a e achou que ela era apropriada para que a desse em matrimônio ao seu filho único, quando chegou um jovem forasteiro que se notava estar angustiado e que disse que tinha sonhado que ali se encontrava sua prometida desde criança, aquela que havia sido sequestrada por uns soldados. Sem vacilar, o açougueiro entregou-lhe a jovem. “Verdadeiramente és um homem de Deus”, disse o santo curioso e sonhador. Do fundo de sua alma desejou avistar-se uma vez com Deus para agradecer-lhe em sonho o bom companheiro que lhe havia sido destinado para a eternidade. Deus foi sóbrio: “Não há ofício desprezível, meu amigo”.

Rabino Nisim, in Hibbur Yafé Mehayeschua (O Mundo dos Sonhos)

06/10/2022

Palavras

Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.

José Saramago, in O caderno

27/12/2021

Aja com bondade

Observe com atenção e perceberá: tudo acontece justamente. Digo em relação não somente ao encadeamento dos eventos, mas também à justiça. É como se os acontecimentos fossem obra de quem atribui valor a cada coisa. Continue atento. Aja em harmonia com a bondade — com o que é particular de um homem bom. Atenha-se a isso quando agir.

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

25/10/2021

Bondade

O único valor que considero revolucionário é a bondade, que é a única coisa que conta.

José Saramago, in As palavras de Saramago

19/05/2018

Do desprendimento da bondade

Quando a bondade se mostra abertamente já não é bondade, embora possa ainda ser útil como caridade organizada ou como ato de solidariedade. Daí: “Não dês as tuas esmolas diante dos homens, para seres visto por eles”. A bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom; será, no máximo, um membro útil da sociedade ou zeloso membro de uma igreja. Daí: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita.”
(...) O amor à sabedoria e o amor à bondade, que se resolvem nas atividades de filosofar e de praticar boas ações, têm em comum o fato de que cessam imediatamente - cancelam-se, por assim dizer - sempre que se presume que o homem pode ser sábio ou ser bom. Sempre houve tentativas de dar vida ao que jamais pode sobreviver ao momento fugaz do próprio ato, e todas elas levaram ao absurdo.
Hannah Arendt, in A condição humana

19/10/2017

Luto pela bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria, amanhã, a esse sacerdote: “Você não pode batizar ninguém porque é anticomunista.” Não diria ao outro: “Não publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque você é anticomunista.” Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais títulos além desse, sem trazerem na cabeça uma regra-, uma palavra rígida, um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que não esperem ninguém, nunca mais, à porta do município para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da Câmara Municipal. Não quero que ninguém fuja em gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor senão como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível. De tantos encontros entre a minha poesia e a polícia, de todos esses episódios e de outros que não contarei porque repetidos, e de outros que não aconteceram comigo, mas com muitos que já não poderão contá-los, resta-me no entanto uma fé absoluta no destino humano, uma convicção cada vez mais consciente de que nos aproximamos de uma grande ternura. Escrevo sabendo que sobre as nossas cabeças, sobre todas as cabeças, existe o perigo da bomba, da catástrofe nuclear, que não deixaria ninguém nem nada sobre a Terra. Pois bem: nem isso altera a minha esperança. Neste momento crítico, neste sobressalto de agonia, sabemos que entrará a luz definitiva pelos olhos entreabertos. Entender-nos-emos todos. Progrediremos juntos. E esta esperança é irrevogável.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

30/04/2017

De que serve a bondade

1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertolt Brecht

12/01/2017

Da virtude e da bondade

Parece-me que a virtude é coisa diferente e mais nobre do que as inclinações para a bondade que nascem em nós. As almas bem ajustadas por si mesmas e bem nascidas seguem o mesmo andamento e apresentam nas suas ações a mesma aparência que as virtuosas. Porém a virtude significa não sei quê de maior e mais ativo do que, por uma índole favorecida, deixar-se conduzir docemente e tranquilamente na esteira da razão. Aquele que com uma doçura e complacência naturais menosprezasse as ofensas recebidas faria coisa mui bela e digna de louvor; mas aquele que, espicaçado e ultrajado até o âmago por uma ofensa, se armasse com as armas da razão contra o furioso apetite de vingança e após um grande conflito finalmente o dominasse, sem a menor dúvida seria muito mais. Aquele agiria bem, e este virtuosamente: uma ação poder-se-ia dizer bondade; a outra, virtude, pois parece que o nome de virtude pressupõe dificuldade e oposição, e que ela não pode se exercer sem combate. Talvez seja por isso que chamamos Deus de bom, forte e liberal, e justo; mas não O chamamos de virtuoso: Os Seus atos são todos naturais e sem esforço.
Metelo, o único de todos os senadores romanos a se ter proposto, pela força da sua virtude, a resistir à violência de Saturnino, tribuno do povo em Roma, que queria à viva força fazer passar uma lei injusta em favor da plebe, e tendo assim incorrido nas penas capitais que Saturnino estabelecera contra os que a rejeitassem, mantinha com os que naquela situação extrema o conduziam à praça uma conversa assim: que agir mal era coisa fácil demais e muito cobarde, e agir bem quando não houvesse risco era coisa vulgar; mas agir bem quando houvesse risco era o próprio ofício de um homem de virtude. Essas palavras de Metelo representam-nos muito claramente o que eu queria provar: que a virtude rejeita a comodidade como companhia; e que esse caminho fácil, ameno e em suave declive, por onde se conduzem os passos bem ajustados de uma boa inclinação natural, não é o da verdadeira virtude. Ela pede um caminho áspero e espinhoso; quer ter ou dificuldades externas para combater, como a de Metelo, por meio das quais o destino se compraz em interromper o vigor da sua marcha, ou dificuldades internas que lhe são provocadas pelos apetites desordenados e pelas imperfeições de nossa condição.
Michel de Montaigne, in Ensaios

09/09/2015

Os bons e os retos de coração


Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração reto, e aos não flexíveis e submissos.
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração reto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reivindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra.”
Pablo Neruda, in Nasci para Nascer

19/08/2015

Ninguém está livre de culpa

Se quisermos ser juízes imparciais em qualquer circunstância, devemos, antes de mais, ter em conta que ninguém está livre de culpa; o que está na origem da nossa indignação é a ideia de que: Eu não errei e Eu não fiz nada. Pelo contrário, tu recusas admitir os teus erros! Indignamo-nos quando somos castigados ou repreendidos, cometendo, simultaneamente, o erro de acrescentar aos crimes cometidos, a arrogância e a obstinação. Quem poderá dizer que nunca infringiu a lei? E, se assim for, é bem estreita inocência ser bom perante a lei! Quão mais vasta é a regra do dever do que a regra do direito! Quantas obrigações impõem a piedade, a humanidade, a bondade, a justiça e a lealdade, que não estão escritas em nenhuma tábua de leis!
Mas nós não podemos satisfazer-nos com aquela noção de inocência tão limitada: há erros que cometemos, outros que pensamos cometer, outros que desejamos cometer, outros que favorecemos; por vezes, somos inocentes por não termos conseguido cometê-los. Se tivermos isto em conta, somos mais justos para com os delinquentes, e mais persuasivos nas admoestações; em todo o caso, não nos iremos contra os homens bons (de fato, contra quem não nos sentiremos irados, se nos irarmos contra os homens bons?), muito menos contra os deuses: na verdade, não é por causa deles, mas devido à nossa condição de mortais que sofremos tantos incômodos. - Mas as doenças e as dores assaltam-nos. - De qualquer maneira, teremos que sair desta morada decadente que nos foi atribuída. Supões que alguém disse mal de ti: pensa se não terás tu começado primeiro, pensa nas pessoas sobre quem já disseste mal.”
Sêneca, in Da ira

10/07/2015

Não fazer mal a outrem

Quando nós dizemos o bem, ou o mal... há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação... No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades... Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar esta simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. 'Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti' parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do gênero por onde se chega não ao egoísmo mas à relação humana.”
José Saramago, in Revista Diário da Madeira, Junho de 1994

22/03/2015

De que serve a bondade

1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht

11/12/2014

Desejo de ser infeliz


“Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
Em suma – disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja – retrucou o Selvagem em tom de desafio. – Eu reclamo o desejo de ser infeliz.”
Aldous Huxley, in Admirável mundo novo