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13/01/2023

País tropical | Jorge Ben Jor, 1969


Depois de uma estreia retumbante, em 1963, com “Mas que nada”, “Chove chuva” e “Por causa de você, menina”, a música de Jorge Ben Jor, na época ainda Jorge Ben, vinha perdendo espaço. Num Brasil cada vez mais politizado e polarizado, a espetacular batida de seu samba-rock e o uso da guitarra elétrica passaram a ser vistos pela turma mais sectária da MPB como sinais inimigos, símbolos do imperialismo ianque e do abominável rock and roll.
País tropical” foi primeiro gravada em 1969 pelos tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, que adoravam o estilo de Jorge e tinham sua música como referência do movimento, marcando o início da sua volta ao sucesso, incorporando influências do Tropicalismo à sua maneira de compor. Logo em seguida, teve uma espetacular gravação de Sérgio Mendes nos Estados Unidos. Mas foi com Wilson Simonal que “País tropical” se tornou um dos maiores hits da história da música brasileira.
Em 1970, o carioca Wilson Simonal rivalizava com Roberto Carlos como o cantor mais popular do Brasil, como criador de um estilo alegre e dançante que chamava de “pilantragem”. Emplacando um sucesso atrás do outro, Simonal ouviu a música de seu velho amigo Jorge sobre as maravilhas de viver num país abençoado por Deus e bonito por natureza, de ser Flamengo e ter uma nega chamada Teresa, e adorou seu balanço irresistível. Encantou-se também com sua linguagem malandra e ufanista, que poderia se confundir com a radicalização nacionalista da ditadura na campanha “Brasil, Ame-o ou deixe-o”, mas se tornou o maior sucesso de sua carreira e uma das músicas mais queridas de nossa história.
Simonal também popularizou uma versão alternativa da letra, criada por Jorge, em que as palavras eram cantadas sem a última sílaba, e se tornou mais popular que a versão original: “Mó num pá tropi” se tornou ícone sonoro de um tempo.
Com uma levada rítmica empolgante e uma melodia intuitiva e fluente, a declaração de amor ao Brasil de Jorge, por sua qualidade e sinceridade, superou qualquer eventual conexão com o ufanismo autoritário e sobreviveu no tempo como um hino de alegria e brasilidade.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

14/10/2022

Mas que nada | Jorge Ben Jor, 1963


Apresentando-se como um “misto de maracatu”, este “samba de preto velho” promoveu uma revolução pacífica e festiva na canção brasileira. Lançado em 1963, inicialmente num 78 rpm com “Por causa de você, menina” no lado B, logo este samba diferente virou um sucesso em todo o Brasil, apesar de tachado de primitivo e infantil por boa parte da crítica. Com seu balanço original e seu vigoroso violão percussivo de sotaque afro, não dedilhado como na bossa nova, mas tocado com palheta como entre rockers e bluesmen, Jorge Ben Jor (na época ainda Jorge Ben) abriu novos caminhos para a música popular, num momento em que a bossa nova já dava sinais de esgotamento no Brasil. Uma volta às raízes que apontava para o futuro.
Ainda em 1963, “Mas que nada” também foi a faixa escolhida para abrir o álbum de estreia do cantor, Samba esquema novo, produzido por Armando Pittigliani e acompanhado pelo grupo de samba-jazz Os Copa 5, liderado pelo saxofonista e arranjador J.T. Meirelles.
Hoje considerado um clássico da MPB, o álbum também inclui sucessos como “Chove, chuva”, “Rosa, menina rosa”, “Vem, morena, vem” e “Balança pema”. Mas foi “Mas que nada” que melhor sintetizou o esquema novo de Jorge Ben Jor, com o apelo irresistível de sua levada e de sua letra rítmica e sonora, e começou a rodar o mundo. Com a espetacular versão de Sérgio Mendes & Brasil 66, tornou-se um big hit nos Estados Unidos e uma das músicas brasileiras mais regravadas no mundo. Da diva do jazz Ella Fitzgerald ao grupo de hip-hop Black Eyed Peas em 2006.
O tijucano Jorge Ben Jor (Jorge Duílio Lima Menezes, 1942), de remota origem etíope, cresceu ouvindo samba e também rock and roll, que seriam amalgamados em seu estilo. No início da carreira, tanto se apresentava no Beco das Garrafas, em Copacabana, reduto da bossa nova e do samba-jazz, quanto em bailes de rock nos subúrbios do Rio. Criticado pela MPB, a partir de 1965 teve lugar cativo no palco da Jovem Guarda, ao lado de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa, e, em seguida, foi abraçado pela Tropicália, que viu nele um instintivo pioneiro que realizava na prática a síntese musical que eles propunham e tentavam fazer na teoria.
Apesar de se dizer “misto de maracatu”, o gênero criado por Jorge se popularizou, mais apropriadamente, como samba-rock.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

07/06/2012

Um disco fundamental da MPB


Jorge Ben
Samba Esquema Novo
1963

Para a maioria dos pesquisadores da música popular brasileira o período mais importante de nossa história concentra-se entre os anos de 1930 a 1945. É o que chamam de época de ouro. Sem dúvida que esse foi um dos momentos mais ricos que tivemos, pois naquele espaço de 15 anos vimos florescer nomes como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Carmen Miranda, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Ataulfo Alves, Custódio Mesquita e muitos outros grandes artistas que marcaram o cancioneiro popular do Brasil. Contudo, um fato importante deve ser citado com o mesmo destaque, qual seja a grande coincidência que viria também 15 anos depois em 1960, quando o Brasil já demonstrava a maturidade de uma nova geração de músicos que despontaram nos meados dos anos cinqüenta e que se juntariam a outros que fariam da década de sessenta mais uma fase de ouro, fazendo-nos concluir que não tivemos um hiato muito grande de carência musical, apenas uma fase de adaptação durante os dez primeiros anos do pós-guerra e depois uma avalanche de novos talentos, que renovariam a música popular brasileira, e a fariam universal, desta vez de forma definitiva.
Após o advento da Bossa Nova o mercado e as condições históricas visualizavam um campo extremamente fértil para o surgimento de novos artistas e novas tendências musicais. Nesse contexto é que surge a figura de Jorge Ben, cantor e compositor carioca que iria trazer para o público brasileiro um novo som, um samba estilizado, diferente das concepções bossanovistas, com uma negritude e um balanço jamais vistos em nossa música popular, onde sua batida de violão, aliada a uma linha melódica totalmente renovada e moderna mais a ingenuidade de suas letras revelaram uma nova maneira de interpretar o samba, que ele chamou de esquema novo, título de seu primeiro LP lançado em 1963.
O destaque maior do disco estava nas canções "Mas que nada", e "Por causa de você, menina" anteriormente gravadas em um disco 78 rotações com Jorge Ben acompanhado do conjunto Copa 5 formado por, Meireles no sax, Pedro Paulo no trompete, Toninho no piano, Do Um Romão na Bateria e Manuel Gusmão no baixo, gravações estas que foram reaproveitadas no LP.
O sucesso foi imediato apesar de alguns críticos acharem as letras infantis, as harmonias pobres e o violão tocado errado e o que é mais curioso, eles pensavam que Jorge Ben seria um fenômeno passageiro, contrariando, pois os "entendidos" no assunto, o disco alcançou em apenas dois meses a cifra recorde para a época de 100 mil cópias vendidas transformando Jorge Ben da noite para o dia no maior fenômeno da música popular brasileira e não em mais um modismo efêmero, fato este que veio a se confirmar com seus discos posteriores, todos eles com músicas de excelente qualidade e grande apelo popular.
É importante citar algumas partes do comentário de Armando Pittigliani na contra-capa do disco: "O samba de Jorge Ben, da batida de seu violão à linha melódica e letra de suas composições revela um novo caminho nos horizontes de nossa música popular. É o esquema novo do samba. Reparem que a harmonia negroide transborda em todos os momentos de sua música (...) Seu inato talento musical proporcionou-lhe descobrir uma nova puxada para o nosso samba, fazendo do violão um instrumento, sobretudo, de ritmo. Na sua batida tanto se destaca o baixo como o desenho rítmico de sua pontuação na maneira toda sua de tocar. Um exemplo disso é o fato de várias faixas deste disco não contarem com o contrabaixo na orquestração. Somente o violão de Jorge já da a necessária marcação dispensando, portanto, aquele instrumento de ritmo. O balanço do acompanhamento repousa quase sempre no seu violão".
Outra música incluída no disco e que se tornaria em grande sucesso foi "Chove chuva", um dos clássicos de seu repertório. Em "Por causa de você, menina", ele inova na letra fazendo menção a Obá (deusa nagô do amor) e aos santos Sacundin e Sacundém e ainda aos guerreiros Dombim e Dombém, além de pronunciar a palavra você como "voxê", dando um toque especial e único à interpretação. Misture, portanto, essas expressões em nagô, inclua umas inflexões rítmicas influenciadas pelo som "mbira" rodesiano mais o balanço rítmico de seu violão que temos então a receita perfeita de realmente um novo som, popular, brasileiro e universal.
Mas a negritude estilizada do som de Jorge Ben e a influencia dos elementos afro em suas canções vem por ele mesmo traduzida ao afirmar em "Mas que nada", que "este samba que é misto de maracatu, é samba de preto velho, samba de preto tu". O LP Samba Esquema Novo contava também com as músicas, "Tim dom dom", de João Mello, única música não assinada por Jorge Ben, "Balança pema", "Rosa, menina, rosa", "Quero esquecer voce", "Ualá ualalá", "Vem morena", "É só sambar", "A tamba" e "Menina bonita não chora".
Quando hoje em dia fala-se em renovação na música popular brasileira, mistura de ritmos e novas experiências sonoras, que invariavelmente caem na mediocridade ou na mera preocupação de consumo, verificamos ao ouvir este disco de Jorge Ben, o quanto ainda precisamos aprender a sermos talentosos e revolucionários sem a necessidade de simplesmente ganhar dinheiro a qualquer custo, pois o talento é um dom natural que nem todos possuem e que não se vende barato. Viva seu Jorge Ben ou Benjor, você que já esta com todos os méritos na galeria dos grandes de nossa canção popular, continue com seu balanço, pois ele já é eterno. Sacundim, sacundem!
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

04/06/2011

Por que é proibido pisar na grama?



Acordei com uma vontade de saber como eu ia
E como ia meu mundo
Descobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos
Preciso de uma casa para minha velhice
Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos
Preciso às vezes ser durão
Pois eu sou muito sentimental meu amor
Preciso falar com alguém que precise de alguém
Pra falar também
Preciso mandar um cartão postal para o exterior
Pra meu amigo Big Joney
Preciso falar com aquela menina de rosa
Pois preciso de inspiração
Preciso ver uma vitória do meu time
Se for possível vê-lo campeão
Preciso ter fé em Deus
E me cuidar e olhar minha família
Preciso de carinho pois eu quero ser compreendido
Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui
E se ela ainda gosta de mim
Preciso saber urgentemente
Porque é proibido pisar na grama.

Composição: Jorge Ben Jor, na voz de Jussara Silveira