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04/09/2024

Ensaio da Paixão | V

 


A eminência parda

No começo da tarde o sol finalmente atravessou as grades da única janela e projetou-se no quarto: uma faixa que crescia quadrada no rosto de Cisco. Como sempre, ele acordou aflito, o rosto suado. Levantou-se de um pulo, e, também como sempre, a tontura o obrigou a sentar-se. Pensava em voz alta:
A bebida e o cigarro estão acabando comigo.
Passou a mão no rosto, lembrando-se da Paixão que se aproximava, o que o deixava tenso, mas feliz. Ele era talvez a única pessoa realmente indispensável do grupo, além de Isaías; talvez — e ele sentia a agulhada da culpa — talvez nem Isaías seja mais indispensável. Ano após ano, Cisco foi se transformando no factótum da Paixão, o coordenador, o quebra-galho, o juiz de paz, em princípio mais por incompetência alheia do que por liderança própria, mas o que era apenas um desejo de participar ativamente (e, quem sabe, o terror de voltar à vida na cidade) foi se transformando — quem mais mereceria, além dele? — numa ambição vaga, às vezes uma leve safadeza, essa ânsia de se tornar verdadeiramente grande e importante na ilha; em alguns sonhos apavorantes, via-se passando por cima de Isaías, literalmente pisando-lhe o pescoço com uma indiferença atroz, o que provocava esse difícil, incômodo, desconjuntado sentimento de culpa sempre que abria os olhos de manhã. Em passos lentos, foi até a janelinha e, feito prisioneiro, agarrou as grades com as mãos, olhando para fora, o paredão de mato da montanha adiante.
Já é tarde.
Entrou no banheiro anexo que ele mesmo ergueu pedra a pedra, e deu uma mijada prolongada. Depois, pegou de baixo da cama suas luvas de boxe, tamanho profissional. Enquanto vestia as luvas, tentava planejar o dia, já cortado pela metade — preciso acordar mais cedo. Dias e dias sem fazer nada, como se continuasse preso no mesmo apartamento de cinco anos atrás. Repetiu, como uma reza:
Preciso me casar, e urgente.
Tentava puxar o barbante da luva direita com os dentes, o mesmo esforço inútil e irritante de todas as manhãs. Deu uns pulinhos, simulando luta no apertado ringue do quarto. Desfechou no ar alguns golpes rápidos e violentos, por baixo, por cima, respirando fundo, a catarreira se atropelando na garganta, suor correndo da testa, cabelos nos olhos. Foi à janela e cuspiu para fora um jato reto e violento — uma técnica que desenvolvia com eficiência e algum prazer, como quem purifica não a garganta, mas a alma — e voltou aos golpes. Sentindo-se já aquecido, avançou em direção do grande adversário: as paredes de pedra. Respirou fundo, colocou-se em guarda a meio metro das pedras e desfechou afinal uma saraivada de golpes, que do choque nos punhos percorriam o corpo inteiro até o alto da cabeça. Braços doendo, cambaleou até a cama, arrancou as luvas e ficou largado alguns minutos, bufando. Um bom começo.
Respiração voltando ao normal, a mão ainda um pouco trêmula tateou uma chave debaixo do travesseiro, com que abriu um pequeno cofre de madeira, onde ele escondia um estoque de centenas de cigarros de todas as marcas, filados ao longo do ano de quem quer que fumasse perto dele. Pegou um ao acaso, fechou o cofre, escondeu a chave e, cigarro aceso, deu uma tragada embrutecedora e anestésica. Quando já sentia o gosto nauseante do filtro, apagou-o num cinzeiro abarrotado — preciso limpar isso aqui — e abriu o cadeado da porta, arrepiando-se com a aragem fresca do início de tarde. De calção, sem camisa, olhou as próprias pernas — tortas, ossudas, sobre dois pés imensos e chatos. Preferiu vestir as calças de brim, sem lavar há tempos — preciso me casar — e calçou as velhas sandálias de borracha. Mais tarde tomaria um banho na represa, naquelas águas geladas, para lavar a ressaca e romper a inércia do dia.
Trancou a porta da cela com corrente e cadeado, como sempre, e escondeu a chave num vão de pedra. Contornando a casa, entrou no corredor que dava ao pátio central. Pela fresta da primeira porta, viu Aninha estendida sob o lençol, belos cabelos negros e lisos soltos no travesseiro, os seios à mostra, entre luz e sombra: uma lâmina de sol cortava-a ao meio — e Cisco sentiu uma emoção vaga por vê-la assim, uma emoção que ele tentou engolir rapidamente. Sair daqui, e já — mas ficou. Aninha moveu-se, revelando agora um trecho de perna. Não, não: essa mulher não me serve. Para vencer um impulso de desejo, pensou em acordá-la aos gritos, batendo palmas, como sempre fazia no amanhecer dos ensaios, o grande momento de Cisco: Vamos lá, uma hora da tarde! Levanta que logo tem ensaio! Chega de festa! — mas avançou silencioso e sentou-se na beira da cama. Desenhava com os olhos o rosto de Aninha, os cabelos, os seios que subiam e desciam na respiração suave. Ela mexeu-se, lenta, resmungou baixíssimo, por fim abriu os olhos inchados:
Cisco!? — e, rápida, escondeu os seios no lençol. — Que susto você me deu!
Provavelmente passou a noite puxando fumo. Com Rômulo, talvez? Sozinha? Não, é inútil — ela não me serve.
Estava te admirando, mocinha. Você sabe que sempre tive uma paixão secreta por você. Mas você não se importa comigo.
Ela riu.
Mentiroso! Então me dá um beijo de bom dia!
Ele avançou para beijá-la a boca, ela desviou suave a cabeça para sentir os lábios no rosto. Cisco disfarçou o mal-estar de quem pisa em falso:
Você me maltrata demais. Meu coração não aguenta.
Um longo bocejo, braços se abrindo:
Tive um sonho muito ruim, Cisco. Sonhei que meus pais me perseguiam com uma metralhadora, no meio do mato. Eu tentava fugir e não conseguia sair do lugar. E eu estava nua. Tinha um monte de gente me espiando detrás das árvores. Daí começou a chover... Não me lembro mais, uma sensação horrível... O que você acha?
Não acho nada. Uma mulher muito complicada. De complicado, chega eu. Não serve. Disfarçou o desinteresse:
Mocinha, quando você tiver um sonho ruim desses, dá uma corrida até o meu quarto — e ele ria, que ela entendesse a brincadeira —, bate três vezes na minha porta e dorme comigo. — Como um profeta da Paixão, altissonante: — Eu te protegerei!
Ela se escondia no lençol:
Não tem graça, Cisco. Eu sei o que você quer.
O teu amor, ora!
Amor assim não é amor! Você é muito materialista. — Pensou em Miro, que chegaria breve, uma boa lembrança. — Cisco, você só pensa nisso, o tempo todo? Não pode ser apenas meu amigo?
A conversa enveredava pelos caminhos da seriedade. Cisco protegeu-se:
Nunca! Mulher a gente come.
A mão direita de Aninha desfechou tapas erráticos nele, enquanto a esquerda protegia os seios com o lençol:
Como você pode ser tão estúpido, tão idiota?! Seu sujo, cara de pau, machista, some daqui!
Ele se defendia falsamente da aparente falsa agressão (mas os socos de brincadeira cada vez mais fortes). Contrito:
Você não entende nada de amor, Aninha. Depois tem esses sonhos ruins. Azar o seu.
Ela balançava a cabeça: como podia existir um sujeito tão contraditório como ele?
Apesar de tudo, gosto de você, Cisco. Não adianta se fingir de mau. Você não é quem pensa ser. Você é muito querido, sabia?
Isso você diz pra todo mundo.
É que todo mundo aqui é querido. Essa ilha é minha salvação.
Ele apalpou o braço, a careta no rosto:
O teu soco doeu, Aninha.
Tadinho do Cisco... Vamos fazer as pazes. Venha, me abrace, me dê bom dia!
E ele sentiu no peito os peitos de Aninha, o corpo miúdo, no rosto a face macia. Ela tem perfume. Fechou os olhos.
Você é uma ninfa…
O que é mesmo uma ninfa?
Ninfa? — O desejo, era só o desejo bruto que sentia: Preciso de uma mulher, preciso me casar; mais que isso: preciso desesperadamente trepar... — Ninfa eram deusas da Antiguidade, novinhas, tesudinhas, fofinhas, que viviam no mundo da lua.
Ela achou graça. Afastou-se dele, fitando-o como quem investiga:
Que bonito. Você fala bonito mesmo dizendo besteira. Você bota sexo em tudo, mas tem o dom da palavra, Cisco.
Voltar à realidade: ele mordeu o lábio. Qualquer envolvimento com Aninha redundaria em fracasso e num inaceitável ego ferido. Já tinha representado o seu papel de sempre; agora era preciso manter distância. Levantou-se sério, outra voz, solenizando a mentira:
Negócio seguinte, Aninha: já é tarde, todo mundo já saiu da cama e já almoçou.
[…]

Cristovão Tezza, em Ensaio da Paixão

22/08/2024

Ensaio da Paixão — IV


O escritor e sua esposa

No convés de primeira classe do Leonardo da Vinci, à beira de uma piscina de águas cristalinas, estendidos em espreguiçadeiras e bebendo uísque on the rocks, Antônio e Hellen conversavam.
Meu bem, não poderia haver comemoração melhor para os meus trinta e cinco anos: uma visita à selva. Você não acha?
Hellen sacudia o gelo do copo, pensativa. Trocou o copo de mão e encostou os dedos gelados na barriga ainda discreta de Antônio.
Ai!
Eu acho que você merece.
Ele sorria:
A selva ou o teu ataque de gelo?
As duas coisas, querido. Para falar a verdade, para ser bem, bem sincera, essa tua... ahn... visita não me agrada muito. Que extravagância! Tão boa que está a viagem! Poderíamos ir direto, até Buenos Aires, como todo mundo.
Ele não levou a observação a sério.
Claro, claro. Eu já sabia. Você nunca vai entender…
Sei. — Sorrindo: — Sou burra mesmo, não? Como é o nome daquele livro? O gênio e a deusa…
The genius and the goddess, um texto menor do Huxley.
É. Você, o gênio, o escritor de sucesso, o teórico e o romancista. E eu, a deusa…
Gostosa... — cochichou ele.
E burrinha, não é? Não é isso mesmo que você pensa, bem no fundo?
Está bem, meu amor, eu me entrego. Minha doce burrinha. — Deu mais um gole. A misteriosa combinação de seres tão diferentes. Por que estavam casados? A delicadeza do rosto, o tecido dos cabelos macios entre os dedos, a admiração da leitora. Ou o dinheiro? Teria sido mesmo o dinheiro? Alguém, de fato, casa por dinheiro, ou essa ideia não passa de um folhetim — um folhetim que ele, Antônio Donetti, jamais escreveria? — Vou te confessar uma coisa, Hellen.
Coisa boa ou coisa ruim? Se for ruim, guarde com você.
Ele se irritou — detestava essas leviandades da mulher, que impediam a sequência emocional das pequenas coisas, a emoção que talvez salvasse sua vida, ultimamente amarga em segredo, um sentimento muito vago e muito presente que não tinha coragem sequer de formular: a de que traía algo fundamental; a de que traía algo irrecuperável. Hellen, sábia, corrigiu-se a tempo, segurando carinhosamente a mão dele:
Desculpe. O que você queria confessar?
Que te amo.
Ela riu:
Ah, isso eu já sabia.
Mas eu não.
O beliscão (não tão simbólico) na coxa dele, a raiva fingida:
Ah é? Pois repita, se for homem! — e os dedos apertando.
Não, não, não! Retiro o que eu disse.
Assim é melhor. Agora me dá um beijo.
Beijaram-se, ele discreto, ainda carregando o peso da mentira, o azedo da covardia e a dor do beliscão; e ela devorante e escandalosa:
Meu gênio gostoso…
Voltaram a beber, cada um deu um gole. Terei mesmo casado por dinheiro, sem nenhuma outra razão? Próximo deles, um grupo de jovens se divertia aos gritos e velhas senhoras pálidas se lambuzavam de óleo. Uma moça tímida aproximou-se, um livro à mão:
Desculpe... interromper vocês... Me disseram... — Sorria desengonçada, não sabia onde botar as mãos, as pernas, o corpo, a alma; e olhava para trás, para o outro lado da piscina, onde a família (um par de velhos gordos e sorridentes) aguardava ansiosa a investida da filha — ... É que... O senhor que escreveu este livro?
Hellen devassou a moça de alto a baixo, erguendo os óculos de sol. O marido compensou a curiosidade impiedosa da mulher com uma gentileza exagerada:
Ah, pois não... Fui eu, sim... Meu primeiro romance. Mas já saiu a quarta edição, revista.
A moça não entendeu, espantou-se:
Em revista, assim? — e imitou com as mãos inseguras o formato de uma revista. Ante o sorriso constrangedor de Hellen, calou-se: podia-se ver o calor e o rubor avançando na sua face. O silêncio, o olhar da mulher e a indiferença do autor folheando o livro eram insuportáveis. Coração disparado, prosseguiu: — Desculpe. Eu... eu não entendo de livro. Quer dizer... meu pai... — e ela apontou o velho imponente na espreguiçadeira, um ar de militar aposentado — ... meu pai está lendo... ele gosta muito... eu também... — e o olhar de Hellen, fixo, sorridente, o escritor sem levantar a cabeça do próprio livro. — Eu... queria um autógrafo, assim, quer dizer, é a primeira vez que vejo um escritor de livros e…
Mais um pouco e choraria. Antônio afinal abriu-se num sorriso:
Claro, claro! Só que... Hellen, você tem uma caneta na bolsa? — Sorriu para a moça, que ela não tivesse medo: — Você sabe, casa de ferreiro…
Ela, instantaneamente feliz, aquilo acabaria logo:
Caneta? Eu trouxe! Aqui, ó!
Ótimo. Qual o seu nome?
Prissila, com dois esses.
Hellen ergueu a cabeça, curiosa:
Você é filha única?
Ahn? Ah, sim, eu sou...— Já havia notado — e voltou a fechar os olhos.
Caneta em punho, livro aberto na página de rosto, incomodou-se com a inexplicável grosseria da mulher. Por que dizer aquilo? Sentiu pena da moça, provavelmente forçada pelo pai a ver o escritor in loco, com observações do tipo Isso é cultura, minha filha!, e ela com uma má vontade dos infernos, suando de desespero diante do escritor e de sua insuportável esposa, com a resignação e o estoicismo de quem paga uma promessa. Juventude! A juventude moderna, ele pensava, não passa de uma burrice vazia, estéril, morta aos vinte anos, com esses olhos de galinha legorne vendo o mundo como quem vê uma vitrine de luzes coloridas que piscam, aqui, ali, ali, aqui, uma galinha solta banhada de tédio, agitação e estupidez. Afinal comoveu-se. Como se comovia fácil com a miséria do mundo sobre a qual se propunha eventualmente a refletir nos seus livros para aquela meia dúzia (no caso dele, aquela dúzia) de leitores capazes de mergulhar fundo no poço da realidade... Eram poucos, conformava-se, seriam sempre poucos, até o fim dos tempos.
Tôni! A moça está esperando!
Ah, claro! É que escrever dedicatória é... — mas calou-se; explicar sempre piorava as coisas.
Prissila, trocando a perna de apoio, mentia, delicada:
Não tem pressa, não. — Arriscou alguma coisa: — Os escritores... é... são distraídos, não? Pensam muito! — encerrou séria, sorridente e em pânico.
Desta vez, Hellen foi suave:
Tem razão. O Antônio é superdistraído. Vive no mundo da lua.
Deve ser... ahn... — já havia começado a frase, e agora não havia outra solução senão terminá-la, o quanto antes: — Deve ser bom ser assim, é, ahn... culto, né?
O culto, involuntário e barulhento feito uma pedra que rola, soou como uma estranha ironia no coração do escritor. Imaginou imediatamente a dedicatória: Prissila, larga teu pai bunda-mole e vá viver a vida. Mas era muito difícil ser grosseiro. Frestando as pernas dela, afinal apetitosas até as coxas, quando então antecipavam uma futura obesidade, quase escreveu: Tesãozinho, deixe de ser boba, saia dando por aí, frenética, que a vida é curta. Um beijo na boca do... Os demônios invadindo sua cabeça: Dionísio sempre foi mais interessante que Apolo. Outro gole de uísque — aquela dedicatória durava uma eternidade, e ele começou a suar — e o intelectual ameno, gentil, equilibrado e falso ressurgia das cinzas: Prissila: há um pássaro no teu coração. Esta não, é demais. (A moça aguardava, numa abnegação que já lhe dava um toque de superioridade, a ponto de incomodar a mulher do escritor — seu marido gênio emburrecera?) Ou então — ele ponderava — o didatismo singelo, pré-messiânico: Que este livro revele a outra Prissila que se oculta em você. Três mil páginas publicadas e era derrotado, mais uma vez, por uma dedicatória. Hellen, indócil, simulava indiferença:
Acho esse o pior livro do Antônio.
Um frio na espinha do escritor, aquele segundo cada vez mais frequente em que caía no abismo da distância: o que havia em comum entre ele e a mulher? Respirou fundo, escreveu rápido: À Prissila, com o abraço amigo do — e a assinatura ilegível. Sorriu e entregou o livro, furioso consigo próprio — sou um homem imaturo —, furioso com a mulher, com a moça, com a traição literária, com a vida, o mundo e o inferno: fracasso e derrota, o destino universal. A moça despediu-se sorridente, ele nem respondeu. Pediu outro uísque, o peito seco, a mão trêmula. Hellen — ela conhecia exatamente cada detalhe dos humores do marido, e sabia quando ele de fato se tornava perigoso — fechou os olhos e ficou em silêncio, à espera. Calculou: mais dois minutos e ele emitirá uma sentença filosófica.
Donetti devolveu ao garçom o copo vazio e pegou outro, cheio. Deu um gole prolongado, repetiu a pergunta que sempre se fazia — por que não era um monge iogue? — e devagar foi se sentindo mais calmo. De olhos fechados, sentiu a mão de Hellen avançar carinhosa e arrependida sobre a dele.
Os escritores nunca entenderão os homens.
Por que, meu bem?
Porque os artistas têm uma razão profunda para viver que supera todo o resto: expressar e realizar a sua arte. Por esse impulso, eles fazem qualquer coisa. O resto da humanidade não é assim. São bancários, médicos, professores, lixeiros, funcionários públicos, gerentes de lanchonete, serralheiros, que, ao fim e ao cabo, vivem apenas porque nasceram. É uma coisa que jamais vou compreender. A menos que se acredite em Deus.
E o que tem a ver uma coisa com outra?
Tudo. — Pensou um instante. — Ou melhor: nada. Estou só fazendo piada. Eu jamais seria um filósofo. — O esboço de raciocínio acabou por deprimi-lo mais: — A verdade é que não compreendo nada do que se passa comigo, nem com os outros. Acho que por isso os meus livros fazem algum sucesso aqui no Brasil. Absolutamente ninguém está interessado em qualquer coisa verdadeiramente séria, essencial.
Mais um gole. A depressão metafísica abraçou-o, gorda, imensa, mole, e ele recebeu-a, todos os poros abertos, numa entrega irônica, quase prazerosa. Mas não por muito tempo: era preciso, sempre, levantar de novo.
O que eu estou necessitando mesmo é de um banho selvagem. Tenho a impressão de que agora, aos trinta e cinco, minha literatura vai mudar de rumo. Para melhor.
Hellen continuava acariciando as mãos do marido.
Eu sempre acreditei em você. — Brincou: — Acho que você não ganhou o Nobel ainda por pura perseguição.
Ele riu alto, mas com alguma ansiedade; o Nobel, de fato, não era ainda um sonho descartado para sempre. Para se livrar desse pequeno fantasma, desviou-se para as férias na ilha, com a mesma abnegação de quem resolve deixar de fumar, parar de beber, levantar cedo, cuidar da saúde:
Enfrentar dois ou três meses nessa ilha, longe da civilização, não vai ser muito fácil. Mas é preciso.
Hellen tateou em sentido contrário, gentil e insinuante:
Meu amor, falando sério: por que a gente não vai direto a Buenos Aires? Só a trapalhada que vai ser parar este navio imenso…
Está tudo acertado, Hellen. Aliás, ele já está parando faz horas... O capitão é meu amigo e meu leitor. Foi colega do meu pai na escola dos oficiais. Para falar a verdade, o desembarque já se transformou em outra atração do cruzeiro. Estão todos com inveja da nossa aventura!
Bem, espero que a gente não sofra muito. Você sabe que sou alérgica a mosquitos. E não suporto desconforto! Já passei da idade!
Bobagem, Hellen. A ilha é o paraíso.
Ah, nos livros é tudo uma maravilha. Mas esses lugares são cheios de aranhas, bichos, ui, que horror! Só de pensar me arrepia!
Ele segurou a mão dela, protetor — e feliz por vê-la momentaneamente mais frágil.
Você está comigo, meu anjo. Fique tranquila. Estou dizendo há meses: lá tem lugares belíssimos, cascatas, grutas de pedra, ruínas antigas. Vou tirar fotos, realizar meu sonho secreto de me tornar um bom fotógrafo. Além disso, o personagem central do meu próximo romance é um fotógrafo.
Sei. E vai para uma ilha deserta. É isso?
Ele riu.
Isso eu não decidi ainda...Ela se animou um pouco.
Bem, se é como você fala... tem mesmo lugares bem desabitados?
Só tem lugar vazio. A ilha é praticamente deserta.
O cochicho saboroso e safado:
Tudo bem, eu vou com você. Mas quero tirar umas fotos nuas — esse é o meu desejo secreto — e ela riu. — Você tira?
Tiro: a roupa e as fotos.
Finalmente risadas felizes. O sexo, meu Deus, o sexo! Como é bom! Mas ela não se convencia:
E o teatro, não vai ser uma chatice?
Meu bem, o teatro é essencial. Para isso que viemos.
Para isso que você veio. Não me inclua, por favor. Esse negócio de teatro moderninho você já sabe que não é comigo... Desde que me espirraram sangue de uma galinha assassinada no palco, em São Paulo, lembra?... Ui, que horror... não posso nem lembrar…
Ele riu.
Quanto a isso, acho que você não precisa ter medo. O teatro desse tal de Isaías pode ser tudo, menos moderno. A coisa tem um toque medieval. Parece que é um ritual, uma mistura de teatro com religião, praticamente sem plateia, a não ser meia dúzia de pescadores e alguns extraterrestres, como nós dois. Eu quero muito conhecer o velho Isaías. Tem fama de maluco.
Ele que escreveu a peça?
Pelo que sei, não tem nada escrito. É bem possível que o velho não saiba nem escrever.
Que horror!
É isso aí, meu anjo. Tomo aqui meu uísque sossegadinho a bordo do Da Vinci, e o Brasil se abarrota de analfabetos. E ainda me chamam de escritor popular, como se alguém que sabe escrever pudesse ser popular aqui. No máximo, meio popular... acho que é o meu caso.
Ela pensava, mexendo o gelo no copo.
Mas espere aí. Se não tem nada escrito e se é todo mundo analfabeto, vamos aprender o que nessa ilha?
Essa é boa... não tenho a mínima ideia. Pense na curtição da coisa. Cabeça aberta. É para isso que vamos lá.
Está bem, mas fica selado meu protesto solene. Se é para o teu bem…
Você vai gostar, Hellen. Prometo.
Ele sentiu a brisa gostosa do mar, novamente feliz com a vida e com o amor. Talvez fosse o caso de, tranquilo, não esperar mesmo mais nada da mulher além daquela cativante infância recuperada, aquele terno e doce faz de conta, regado com os prazeres breves e intensos da pele. Sentia na mulher uma grande qualidade: ela jamais ameaçaria o paredão fechado do mundo dele. Uma descansada e completa solidão a dois.
De repente, a voz no alto-falante:
Senhoras e senhores! A ilha que vemos a estibordo é uma das paisagens mais maravilhosas do Atlântico Sul. Aqui, neste lugar esquecido e selvagem, vive um estranho profeta que todos os anos representa, durante a Semana Santa, a vida de Cristo! Ladies and gentleman! Here, in this beautiful island…
Correria desabalada de turistas para a proa, binóculos e máquinas fotográficas, dedos apontados, bocas abertas, ahs e ohs por toda parte.
Olha, filha, que beleza!
Mui hermoso!
It’s beautiful!
Das kleine wonder!
Ma che isola belissima!
Vinte minutos mais tarde, um boy percorria o convés, tabuleta pendurada no pescoço:
Mister António! Mister António!
Era hora de partir. Antônio vestiu uma camisa, Hellen uma blusa leve, recolheram sacolas, malas e frasqueiras do camarote. O escaler, com dois marujos, estava pronto para descer e levá-los à ilha. O capitão em pessoa — todo de branco, elegante, cinematográfico — veio despedir-se do casal, afirmando categórico, para o bando internacional de curiosos que rodeava o momento do adeus, que Antônio ainda escreveria um grande livro sobre o exótico lugar. Pipocaram três ou quatro fotografias — e um cochicho se esparramou pela assistência, dando conta de que se tratava de uma lua de mel, provavelmente paga em barras de ouro, daí a extraordinária deferência da Companhia em parar um transatlântico (seriam parentes do armador?), informação que fez multiplicar as fotos até se transformar numa verdadeira ovação em palmas.
Devolvendo os cumprimentos com acenos tímidos, afinal os dois embarcaram, ajeitaram-se sob a orientação dos marujos, roldanas e cabos giraram e o escaler desceu ao mar.
Hellen procurava ansiosa alguma coisa na mochila.— Você trouxe o Repelex?
Trouxe. Comprei dez tubos.
Mil adeuses da amurada. E em poucos minutos chegaram a uma enseada tranquila e acostaram num pequeno trapiche, onde duas figuras — um altíssimo, louro, outro mais baixo, moreno — os aguardavam.

Cristovão Tezza, em Ensaio da Paixão

15/08/2024

Ensaio da Paixão | III


Toco e o anjo

Toco tinha dois metros de altura e um anjo da guarda. Toda manhã a mesma angústia: abrir os olhos, piscar, sentir a vã esperança de liberdade, e afinal vê-lo, de novo, o maldito anjo — pendurado nas tarrafas e redes do quarto, escondido atrás dos caniços, varas e fios de pesca, olhando para ele, guardando-o a uma distância segura, sempre um pouco assustado, talvez até mesmo com vergonha de viver naquela indiscrição eterna. Não dormia, não sumia; somente guardava-o. Fosse Toco onde fosse, acompanhava-o o anjo miúdo, a dois, três metros de distância, com seu silencioso bater de asas — e sempre com medo, temendo a mão de Toco, as pedras que quase o acertavam, temendo a fúria, o ódio de Toco. Nesses ataques esporádicos, voava célere, desaparecendo por alguns instantes. Mas bastava Toco suspirar, fechar e abrir os olhos — e lá estava de novo o anjinho, na fresta da porta, no telhado, no galho de árvore, atrás das pedras, o olhar em Toco, alerta, mas respeitoso.
Por fim, acostumou-se com o anjo. Excepcionalmente, chegava a falar com ele, embora jamais ouvisse uma resposta: o anjinho era mudo. E Toco, ao se perceber falando, sentia um medo adicional: o de que percebessem seus monólogos, e bastava pensar nisso, na invasão do que tinha de mais íntimo, para odiar o anjo com mais força:
Um dia te acerto, desgraçado.
Outras vezes, nas noites melancólicas, de lua, filosofava:— Por que você não é um passarinho? Te botava na gaiola, ficava teu amigo.
E, quando bebia vinho com Edgar e depois vagava solitário pelos caminhos da ilha, preparava armadilhas, oferecia doces:
Vem aqui, meu anjo! Vem aqui perto, come um doce! — e a mão esquerda trêmula, pronta a agarrar e esgoelar a figurinha de asas.
Mas o anjo nunca se aproximava.
Naquela manhã de janeiro, acordou tarde e ficou na cama pensando na vida. Uma sonolência gostosa, o calor, a perspectiva da pesca e, principalmente, da Paixão que se aproximava, com a multidão de amigos, das mulheres que ele amava e que logo iriam povoar a ilha, como todos os anos. Sensação de preguiça e felicidade, a beleza serena do ritual de Cristo, as conversas e bebidas noite adentro, as mil paixões avulsas, a solidão compartilhada…
Finalmente acordou de vez, levantou-se, vestiu um calção, desviou-se das redes e tarrafas penduradas, passou indiferente pelo anjo, foi ao banheirinho da segunda escada e mijou com estrépito. Depois, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho: duas espinhas na face ainda sem barba. Lembrou a voz de Dilma: Você tem um rosto bonito. O que eu queria mesmo era viver com você — e Toco sorriu. Estufou o peito nu e viu-se cônsul romano, digno e corrupto no palácio das prostitutas. Então — um gesto largo, lento, nobre — tu és o Cristo? De noite, à beira do mar, lembrou (um ano distante) o choro de Dilma: Você não gosta de mim — e o beijo na boca. Lembrou também o peixe enorme que pescou num fim de tarde, nas Grutas: oito quilos. No canto do espelho, o rosto do anjo a fitá-lo, com espanto e medo.
Sacudiu a cabeça — esquecer — e subiu à cozinha. Enquanto comia pão e bebia leite, ainda sonolento, ouvia a máquina de costura trabalhando sem parar numa saleta próxima, por certo a Vó e a Mãe preparando as vestes da Paixão, com os velhos tecidos de sempre, infinitamente retalhados e costurados em novas combinações. Mastigando o pão — diante de tantas mulheres imaginárias que logo povoariam a ilha —, fantasiava um modo de explicar preventivamente à Dilma que talvez ela não fosse a mulher ideal para ele, mas se sentia incapaz dessa façanha. Dilma, eu acho que... — e não sairia disso, tomado de um mutismo que até a ele irritava; não era bem timidez, era uma espécie intuitiva de filosofia, essa ausência angustiante de palavras. Bem, talvez esse ano ela não viesse, e o problema — se é que havia algum problema em algum lugar — se resolveria por conta própria.
Pelo olhar do anjo sentadinho na janela, percebeu que alguém se aproximava. Rômulo atravessou o pátio central que dava para a cozinha e estacionou à porta, violão debaixo do braço. Sem dúvida, tinha acabado de acordar. A voz baixa e rouca:
Tudo bem com você?
Cabelos sempre desfeitos, ar cansado, queixo meio caído, Rômulo era lento de fala e de gestos. Há alguns meses dormia no chalé de Edgar.
Tudo bem, cara. Come aí qualquer coisa.
Tô sem fome. Os mosquitos quase me matam essa noite. Pô, não foi fácil.
A Mãe gritou de dentro da casa:
Alguém de vocês que leve comida pras galinhas!
Toco livrou-se rápido:
A lata está aí no chão, Rômulo.
Tudo bem. — Virou-se para sair, parou, voltou-se. — Toco, tem um cigarro?
Não fumo.
O sorriso cansado de Rômulo.
Ah, é. Que bobeira a minha — e afastou-se dois passos, voltando em seguida para pegar a lata de milho das galinhas.
Como que para compensar o sonho com as mulheres, ou talvez pelo olhar severo do anjinho, a lembrança da Paixão despertou em Toco um sentido franciscano de responsabilidade, quase um bater no peito de contrição. Doravante, todos precisavam acordar mais cedo e preparar-se para os ensaios. Acabava agora a prolongada folga de fim de ano. Mas a severidade súbita foi vencida mais uma vez pela sensação gostosa do dia ensolarado. Vigiado pelo anjo, agora na outra ponta da mesa, pensava no que fazer antes: aproveitar o resto da manhã para pescar, tomar banho na enseada ou ler o penúltimo capítulo das aventuras do capitão Krupp, um velho volume sem capa que ele lia há meses. Para pescar, já era muito tarde. E, quanto à leitura, queria prolongar ainda mais o prazer da história, a expectativa do fim. O capitão Krupp era um homem corajoso e triste, apaixonado por uma deusa raptada por um pirata também corajoso e triste. Seria uma luta desesperada. Toco se imaginava um tanto capitão Krupp (e também Lord Jim, para compensar o excesso de grandeza, um outro livro que ele já lera umas três vezes) — e sonhava com o dia em que sairia pelo mundo numa longa viagem. Rômulo apareceu de novo na porta, lata de milho ainda na mão:
Toco, tá chegando alguém na praia, dá pra ver ali de cima. Será que não era bom a gente…
Antes que Rômulo terminasse de arrastar a frase, Toco já descia o morro, contornando a casa. Correu pelo caminho entre as árvores que separavam a encosta da enseada e, já na praia, viu Pablo tentando puxar a canoa cheia d’água e Miro ajoelhado na areia.
Pablo! Miro! Viva!
Pablo nem olhou, lutando na água. Miro abraçou-o demoradamente:
Eh, Toco, firme! E aí?!
Tudo bem, velhão! E teus quadros?
Pois dessa vez acertei! Ninguém vai botar defeito! Depois te mostro os esboços. — Agoniado: — Me diga: a Aninha veio?
Faz tempo.
Alegria, alegria!
Mas, bah, tem horas que dá tudo certo!
Toco gritou ao Pablo:
E aí, bicho louco!? — Ao Miro: — Vamos lá dar uma ajuda que ele deve estar furioso…
Esse Pablo é muito engraçado!…
Toco e Pablo afinal se abraçam, velhos amigos.
Levou azar na canoa?
Me fodi. Ajuda a puxar, que esse bosta do Miro não serve pra nada. Primeiro vamos tirar a água.
Toco, braços de Hércules, virou a canoa de borco:
Segura na popa que eu aguento aqui.
Carregaram a canoa até terra firme. Pablo, encharcado, vasculhava a mochila.
O cigarro, pelo menos, não molhou.
Me arruma um — pediu Miro.
Mas que cara de pau! Pega aí.
Não chia, Pablo. Depois eu compro outro maço. — Ao Toco: — A venda funciona ainda?
Funciona. Só que lá em Garapa, no outro lado da ilha.
Pablo afinal sorriu:
É só pra saber, porque dinheiro o Miro não tem mesmo.
Só espere eu vender umas telas, Pablo. Um mês de farra por minha conta!
Tô esperando. — Pablo tirava as calças.
Tem mulher por perto? Se tiver eu já como aqui mesmo. Porra, que atraso.
Deram risadas, Pablo vestiu um calção quase seco e os três sossegaram na sombra, olhando o mar. Os assuntos se atropelavam em silêncio, a ânsia de colocar a vida em dia, mil detalhes para contar — e era tudo tão importante! Esperavam que o principal viesse à tona, vivendo a emoção discreta do reencontro. Miro, indócil, enterrou o toco de cigarro no chão e levantou-se:
Vou andar, pessoal, arrumar minhas tralhas. O Isaías, a Vó, a Mãe, tudo bem?
Tudo estava bem na ilha. Mas, antes de subir, ele achou melhor esclarecer:
Negócio seguinte, Toco: eu quero pintar nesses dois meses. Quero ver se pego uma gruta do sul e trabalho dia e noite. Preciso me livrar dos ensaios. O que você acha?
Fala com o Cisco.
O nome caiu como uma sombra no rosto de Miro. Toco suavizou:
Mas acho que com você não tem problema, já está por dentro. Depois você explica pra ele.
Tudo bem. — Pegou a mochila, o pacote dos quadros. — Vou subindo, tô morrendo de fome. Vocês ficam?
Vamos dar um tempo.
Miro avançou dois passos, parou, olhou em volta, riu sozinho:
Essa ilha é demais. Nasci de novo — e seguiu adiante.
Pablo fumou o cigarro até o filtro e arremessou-o longe com um peteleco. Vendo o anjo coçar a asa, empoleirado na canoa, Toco pensava em Pablo, o velho amigo. Costumavam falar pouco, mas compartilhariam horas e horas de silêncio.
A Carmem já veio, Toco?
Não ainda. Vocês dois são os primeiros do ano.
Eu tinha que vir. Não aguentava mais de dor de estômago. Meu último emprego foi de guardião de estacionamento. Sempre chegava um filho da puta pra pegar o carro às quatro da madrugada.
Toco achou graça.
E aquela menina que você comentou ano passado?
Casou. Com outro, é claro.
Riram. Pablo quase começava a se sentir bem:
É chegar aqui e melhora tudo. Quer dizer, pelo menos no primeiro dia. Mas eu sei: devagar vou me emputecendo com coisas miúdas e no fim é um inferno. Você entende isso?
Toco riscava a areia.
Acho que entendo. Vamos tomar uns porres de vinho. Aí fica tudo claro.
É.
Pausa. Pablo ia dizer qualquer coisa, desistiu, e acabou falando, uma ansiedade mal disfarçada:
Já distribuíram os papéis?
Não ainda. Mas vai ser daquele jeito: cada um escolhe o seu. Sempre deu certo. O que você quer ser?
Um segundo apenas de incerteza — e a confissão abrupta:
Jesus Cristo. Eu queria fazer o Cristo. Eu sei que não tenho imaginação, que não sei falar direito, mas eu queria. — Segurou o braço de Toco, que contemplava o anjo alarmado com a ideia, boquiaberto diante dele. — O que você acha?
Eu acho muito bom, Pablo. Já comentei com o Cisco e concordamos que você seria o Cristo certo para esse ano. Fique tranquilo.
Pablo suspirou — e imediatamente imaginou-se no grande Sermão da Montanha: as pernas tremendo, a voz sufocada, a multidão ansiosa, os braços erguidos, o sol no rosto. O rosto de Carmem: eu te amo, Pablo. Depois, as chicotadas sob a cruz e a redenção final. Um belo começo de ano.
Quem já está aí, Toco?
Pouca gente. A casa ficou meio vazia. Edgar…
Saudades dele...
... Aninha, o Barros…
O Barros!? Aquele filho da puta?
É. Faz uns três ou quatro meses. Eu quase nunca vejo.
Ainda bem. E quem mais?
O Rômulo…
O mosca-morta?
É.
Bom, pelo menos arranjo umas cannabis de vez em quando…
Riram. E Pablo se entusiasmava, antecipando a Paixão:
Tomara que venha bastante gente boa esse ano. Fazer uns ensaios porretas, de limpar a alma. O velho Isaías está bom?
Firme, do jeitão dele, no meio do mato. Só se vê de longe.
Grande figura, o Isaías... O Isaías salvou minha vida. Se não fosse essa Paixão, eu já tinha dado um tiro na cabeça. — Mais assunto: — E a pesca?
Outro dia peguei um robalo de cinco quilos.
E camarão?
Ainda tem bastantinho.
Planos:
Um dia desses fazemos um acampamento nas Grutas, levamos vara, linha, isca, tarrafa. E eu levo a Carmem, ah, a Carmem! Toco, por Deus do céu, se ela quiser transar comigo como quis no ano passado, largo tudo, venho pra cá, planto uma horta e tenho um filho com ela. Quero sossego. Ficar olhando as bananeiras. Coçando o saco na beira da represa. Ó meu braço: só de pensar fico arrepiado. — De repente sério: eram coisas demais ao mesmo tempo, o sonho desmoronava. — Mas... me diga: por que uma coisa tão simples é tão difícil?
Agora o anjo vigiava Toco por trás, oculto nas ramagens.
Não sei, Pablo.
Os dois pensavam, súbito melancólicos. De repente, Pablo levantou-se assustado e apontou o mar:
Caralho! O que é aquilo?!Toco também se ergueu, assombrado:
Olha lá, cara!... que puta navio!…

Cristovão Tezza, em Ensaio da Paixão

11/08/2024

Ensaio da Paixão – II


Batalha nos céus

A casa de Isaías era uma bizarra construção ao pé da montanha, feita de pedras, madeira, tijolos, troncos, folhas de zinco, portas velhas, chapas de compensado, telhas de todo tipo — um material recolhido ao longo dos anos, trazido pelo mar, comprado de segunda mão, desenterrado de ruínas, que foi criando, a partir de uma sala inicial, uma sequência caótica de corredores, quartos, escadas, saletas, meias-águas, pátios, morro acima ou morro abaixo, de acordo com os acidentes do terreno e com a necessidade, de modo a abrigar algumas dezenas de filhos, amigos, curiosos, visitantes que ali chegavam e iam ficando ou se revezando, numa espécie anárquica de tribo, sob a autoridade silenciosa e distante daquele velho de barbas longas.
Nos últimos anos, só era visto ali de madrugada, quando todos dormiam. Depois de percorrer os mil e um caminhos da casa, subir e descer degraus no silêncio dos pés descalços, regar folhagens, colocar e recolocar tudo no lugar numa impossível ordenação — conchas, cadeiras, estatuetas, garrafas — em meio a um monólogo sussurrado com a irritação de quem não terá tempo de consertar o mundo inteiro, como desejaria, e depois de tirar o leite de duas vacas que gostavam de fugir dele e destroçar a pequena horta, e de ajeitar alguns paus caídos da velha cerca, e de juntar um que outro lixo e recolher um copo de vinho escondido numa touceira, e de olhar em volta, desanimado — o mundo é muito grande para as nossas mãos pequenas —, costumava afinal comer um pão com manteiga, alguns legumes sem tempero, e subir a encosta, sua verdadeira morada.
Assim fez, naquele amanhecer de janeiro. Subia o morro com a vagareza e a pontualidade do sol, parando em cada plantação, em estreitas e engenhosas plataformas de pedra, carpindo o mato, abrindo covas, semeando, transplantando mudas — e às vezes interrompendo o trabalho para uma cachimbada. Naquela manhã estava preocupado, entretanto: tinha uma missão a cumprir. Mais algumas horas de trabalho e decidiu subir a escadaria até o topo da montanha.
Eram mil degraus irregulares de pedra, numa picada abrupta e estafante, que ele mesmo construíra, dia após dia, até o alto, uma clareira de vista magnífica para os quatro pontos cardeais, onde soprava um vento eterno. Subia devagar, cada vez mais devagar, ajeitando matos e flores, podando ramagens, e sempre monologando, um resmungo sussurrado que ia dando sentido aos gestos e parecia criar, só pela força da voz, um outro mundo.
Às vezes parava, sentava num degrau, tirava o cachimbo e o fumo e os fósforos de um bolsão da túnica surrada, e fumava, pensativo; entre uma baforada e outra, redesenhava as linhas, as cores, os sons e as curvas das extensões da ilha só com um olho e a ponta do cachimbo riscando o espaço, a mão estendida. E pensava, também, na tarefa difícil que teria nos próximos dois meses, uma tarefa que exigia, como todos os anos, proteções maiores que simplesmente a força do desejo. Distraído entre o desenho e o pensamento, batia o cachimbo na pedra, limpava-o com carinho, guardava-o e prosseguia a subida.
Finalmente chegou ao topo da montanha. A única coisa erguida naquela pequena vastidão vazia era um banco de pedra, capaz de resistir ao vento. Em todas as direções, via-se o mar e a grande curva do horizonte. Ele estava no centro do mundo. Isaías sentou-se, cruzou as pernas e, sem pressa, recomeçou a lida com o cachimbo, agora de má vontade, como se perseguido pelo vento que lhe sacudia os cabelos ralos. Acima dele, o céu — e nuvens negras que começaram a encobrir o sol, a ilha e a encapelar as águas.
Mas ele não olhava para cima. Cuidava do cachimbo, quase indiferente, pensando no que iria falar, enquanto as nuvens — negras e brancas, armando-se imponentes — formavam um volume gigantesco nos céus, que parecia uma versão ampliada e grandiosa dele mesmo. A sombra repentina na clareira e a sensação angustiante de que o momento mais uma vez se aproximava o levaram a se refugiar na lembrança dos velhos tempos, quando ele ainda repetia ladainhas da Bíblia — no tempo em que ele ainda sabia ler. Com os anos, foi esquecendo as falas e inventando outras, mais irritadas, sentindo-se cada vez mais semelhante ao próprio Deus.
Senhor... — recitava ele sem levantar a cabeça, lidando com o cachimbo agora indócil nas mãos — ... aqui estou eu de novo, a... a... a pedir... — mas alguma coisa estava errada: a falta de convicção, e ao mesmo tempo a irritação pelo cachimbo que não acendia — ... a pedir a proteção que o senhor não me tem dado nos últimos anos. Minha paciência se esgota! — vociferou por fim, na última tentativa de acender o fumo.
E veio a trovoada:
MISERÁVEL! TENHO PERCEBIDO O TEU DESPREZO PELA CRENÇA! TODA A MEMÓRIA DO MEU CULTO E DO CULTO DO MEU FILHO TRANSFORMA-SE, NAS TUAS MÃOS IMPURAS, NUM RITUAL CORROMPIDO. NÃO VEJO FÉ, MAS CINISMO; NÃO VEJO HUMILDADE, MAS ARROGÂNCIA; NÃO VEJO RESPEITO, MAS SODOMA E GOMORRA! EM NADA ÉS DIFERENTE DO RESTO! — E O SUSPIRO DE DEUS, AINDA COM UM FIAPO DE PACIÊNCIA, SE FEZ OUVIR NA TERRA. — QUE TENS A DIZER AGORA?
Isaías tentava manter a calma. Irritava-o aquela nuvem imensa, aquela sombra enorme.
Não pense que me põe medo com essa trovoada. Venho por bem, em paz!
TU ME INSULTAS!
Isaías suspirou, o cansaço de uma vida inteira.
Ouça com atenção: a verdade é que o Senhor está velho e cego. Não há neste mundo inteiro um só desgraçado que lhe dê um tostão furado. E eu, sozinho, sem ajuda de ninguém, a não ser com este bando... com esta corja de aflitos e desesperados que vem comer de graça por dois meses, e eu me dou ao trabalho de venerar o Senhor.
TU AINDA ME INSULTAS, MISERÁVEL? CHAMAS VENERAÇÃO A ESTE CRISTO DECADENTE QUE CRUCIFICAS TODO ANO?
Finalmente aceso o cachimbo, Isaías tentava pôr a cabeça em ordem. Era preciso conversar com calma, mas ressurgia nele a velha desconfiança das palavras, a sensação de inutilidade profunda de todo aquele arrazoado lógico. Era impossível qualquer comunicação verbal: se pudesse se fazer sentir, se Deus pudesse ler seus pensamentos, compreender suas intenções mais subterrâneas — ele estaria salvo. Mas não: era preciso voltar à retórica vazia, à paciência que se tem com os velhos, com os doentes, com os moribundos. Suspirou. Era preciso recomeçar, enfrentar aquela sombra que se movia furiosa diante dele.
Senhor…
As nuvens se acalmaram, talvez comovidas com a aparente contrição.
... vou tentar me explicar.
Silêncio. Deus aguardava, soberano. Em Isaías, a angústia crescente — mais uma vez, não conseguiria.
Quero devolver a Deus a grandeza de Deus.
Gostou do que disse: como quem descobre a chave. Mas a trovoada:
O QUÊ? DEVOLV…
Espere! É isso! Quero te tornar grande, necessário! Quero te usar para salvar os homens! — Levantou-se agitado do banco de pedra, apontou com o cachimbo o mar revolto onde muito ao longe se debatia uma canoa. — Está vendo aqueles dois aflitos? — Desesperava-se por demonstrar a Deus a nitidez que sentia na alma: — Está vendo? Aqueles…
TU ME…
Espere! Eu tenho de falar! Aquelas duas sombras perdidas no mar e no mundo são a matéria-prima do meu ritual! Esta ilha vai se encher de loucos e perdidos, de doentes que nada sabem da vida, de homens e mulheres cegos, de gente na escuridão, de seres massacrados de mesquinharias, jovens corrompidos e sem saída nem futuro; e eu faço eles viverem, sem nada ensinar, porque nada se ensina, Senhor — e esse nada se ensina, dedo sacudindo, soava com a força de uma advertência —, eu faço eles tirarem de dentro da alma, por conta própria, toda a grandeza possível da nossa vida curta e vazia; eu deixo eles maiores do que eles de fato são... Não percebe, Senhor? Mas para isso preciso também da sua ajuda, Deus miserável e egoísta, de ajuda e não de rezas, que não servem para nada! Preciso de sua ajuda renovada, porque, bem ou mal, o Senhor é o meu único modelo!
Emocionado pela força da voz, Isaías chorava, agora: via a canoa distante dançando aflita no mar e chorava. Afinal envergonhado, o céu em silêncio, abaixou a cabeça, enxugou as lágrimas com a manga da túnica, sentou-se de novo no banco de pedra e, mais uma vez, olhou as nuvens de frente. Não era um pedido de desculpa; era apenas o reconhecimento de um pequeno fracasso:
Falei demais, eu sei. Perdi o rumo da fala. — A fúria súbita, o dedo de novo apontado aos céus: — Mas o Senhor não pode compreender? O Senhor também se torna grande na Paixão! Em que outro lugar do mundo, me diga, em que outro lugar o Senhor alcança esta estatura viva? Responda!
De novo as lágrimas: a ânsia de soltar as amarras, todas as amarras da limitação da vida, romper as mesquinharias do próprio Deus, fazê-lo voltar a si. E já previa a resposta, balançando desolado a cabeça cansada: todos os velhos condicionamentos, a cegueira milenar do poder, o temor da heresia, os chavões da divindade. As trovoadas, tomando fôlego, descambaram medonhas céu abaixo:
TUAS PALAVRAS NÃO ME COMOVEM, MISERÁVEL ARROGANTE E ATREVIDO! OUÇO INSULTOS E MAIS INSULTOS DE UM MORTAL DE TRÊS METROS DE ALTURA! QUE QUERES, MALDITO? QUE EU AGRADEÇA POR ME CORROMPERES? POIS EU DESPREZO TEUS GANIDOS DE SEMIDEUS! — O braço de Deus, uma nuvem negra, atravessou Isaías de um lado a outro: — CUIDADO! EU ADVIRTO: A MORTE TE RONDA, TE ESPREITA, TE ESPERA, DE BRAÇOS DADOS COM O DEMÔNIO! SERÁ A ÚLTIMA VEZ!
Envolto na escuridão, Isaías respondeu, cego, aos gritos:
Não tenho medo! Não me assusta! O meu jogo é limpo e venho em paz! Não tenho culpa se o Senhor não me compreende! É a sua salvação, miserável!
Sentiu a cortante ironia dos céus:
MINHA SALVAÇÃO?! — e seguiu-se uma gargalhada terrível. — TU ME MISTURAS COM TODOS OS DEUSES, TU ME JOGAS LAMA E ME TRANSFORMAS EM BÁRBARO, EM BEZERRO DE OURO! E CHAMAS A ISTO SALVAÇÃO? NÃO TOLERO A VULGARIDADE DOS TEUS TOTENS, A ARROGÂNCIA DAQUELES PEQUENOS DEUSES PAGÃOS, NÃO SUPORTO TEUS RITUAIS PANTEÍSTAS! TU FAZES DE CRISTO, MEU FILHO, UM HOMEM COMUM. POIS OUVE BEM: OU TU TE HUMILHAS E ME ADORAS COMO DEVO SER ADORADO, O ÚNICO DEUS DE TODOS OS TEMPOS, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA, PREGANDO TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO, OU NÃO TE AJUDAREI EM NADA!
O Senhor não passa de um velho estúpido e cego, insensível ao mundo dos homens! Pois fique aí, no seu paraíso morto, enquanto eu recrio a vida na terra. E tem mais: não quero rebanho, mas solidão.
Agora as nuvens subiam, deixando ainda um rastro de trovoadas:
JÁ TIVE PACIÊNCIA DEMAIS, MALDITO! MAS AINDA POSSO PERDOAR E TE AJUDAR. ARREPENDE-TE! ARREPENDE-TE!
Súbito, o céu se abriu, inteiro azul. Isaías suspirou, exausto, mas aliviado. Fizera o seu trabalho, cumprira a sua parte. O resto não era com ele. Voltou a preparar o cachimbo, que se apagara na luta. Resmungou:
Sozinho, de novo sozinho. Carregar o mundo nas costas. Todo ano é o mesmo inferno.
Olhou para o alto, absorto, como quem constata, já conformado, um fato inexorável:
Ele não compreende. Ele não compreende mais nada.
E começou a descer o morro.

Cristovão Tezza, em Ensaio da Paixão