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30/07/2013

Um disco fundamental da MPB: Catullo, o poeta do sertão

Catullo, o poeta do sertão
Paulo Tapajós (1957)


A imagem do Nordeste brasileiro esteve durante muito tempo estereotipada no Sul do país: para os de baixo, o povo do norte, como eles também chamavam, era uma gente profundamente religiosa, mística, ainda o é, mas também exótica em seus costumes, fazia parte de um Brasil impenetrável e desconhecido, principalmente no final do século XIX e início do século XX. As atenções para seus graves problemas sociais vieram à tona de certa maneira com a publicação do livro Os sertões, de Euclides da Cunha que retrata com fidelidade o embate de Canudos e faz uma interpretação sobre o ser sertanejo.
Fora algumas poucas intervenções governamentais, seja no Império ou no nascedouro republicano, o Nordeste era uma terra de ninguém, pois o país vivia e respirava os ares da “cidade luz tropical”, o Rio de Janeiro, e a cultura pátria era medida pelo que nela se realizava, claro, que outros estados como por exemplo, São Paulo, tinham uma certa influência cultural “civilizatória', mas indiscutivelmente era a então capital do país que puxava o samba enredo da recém criada Escola de Samba Unidos da República Federativa do Brasil.
Mas se o sertanejo nordestino sempre foi um forte em sua luta pela sobrevivência, foi também um obstinado divulgador de sua própria cultura, não deixando ainda que a região figurasse apenas como um apêndice na geografia política do país e sim elemento integrador de uma nação plena de brasilidade, com suas características regionais próprias, mas sobretudo definindo a noção de nossa pluralidade cultural e reafirmando o conceito pleno de nação em sua totalidade. Assim a contribuição do Nordeste iria se somar a de outras regiões e o Brasil poderia descobrir-se sem discussão de mérito, pois a disputa em questão passaria ao largo de preconceitos ou discriminações e serviria como afirmativa de nossa identidade.
Desse modo, a partir do pressuposto da nacionalização de nossa cultura, os temas nordestinos tomam de assento o Rio de Janeiro aproveitando-se da sua importância enquanto caixa de ressonância nacional e passam a ser explorados por artistas e intelectuais vinculados as suas tradições regionais para divulgar o que poucos conheciam, ou fingiam apenas que existia.
Entre esses personagens responsáveis por essa nacionalização/integração nordestina destaca-se Catulo da Paixão Cearense, cuja referência ao valoroso estado nordestino encontra-se apenas no sobrenome, pois nasceu na cidade de São Luís do Maranhão, em 31 de janeiro de 1863. Em 1880 foi residir no Rio de Janeiro com a família. Na capital do império frequentou rodas de estudantes, foi boêmio, estivador, escriturário, mas sobretudo poeta e violonista, atividades que o consagrariam como uma das mais importantes figuras de seu tempo. Acompanhou de perto o crescimento da modinha enquanto gênero de música urbana largamente executada em serenatas, sendo o seu grande impulsionador nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do seguinte.
Como poeta torna-se uma celebridade e o Nordeste, o seu chão, a razão maior de sua poética. Seus livros vendiam-se aos milhares e com eles descortinava um imenso horizonte para uma compreensão maior desse lado do Brasil. Obras como O marrueiro, Sertão em flor, Alma do sertão, Um caboclo brasileiro, Mata iluminada, O milagre de São João, O sol e a lua e muitas outras revelaram liricamente um Brasil que os brasileiros precisavam conhecer. Mas se seus versos eram largamente recitados e conhecidos por todos, suas modinhas, ou as letras que fez para canções alheias, tinham o mesmo sentimento lírico das noites enluaradas inebriadas pelo mágico encantamento das serenatas noturnas da cidade que o abraçou, numa perfeita comunhão entre o sertanejo puro e o urbano boêmio e sentimental. Dois personagens num só, a união perfeita de um Brasil que se mostra por inteiro, sem divisionismos e onde a predominância de uma identificação matriz se une a uma cultura urbana e é essa mistura na medida certa que da o caráter definidor de nosso caráter.
Como modinheiro, Catulo produziu uma obra vastíssima e ajudou a fazer mais felizes as noites de luar de nosso país. Parte dessa sua contribuição à música popular brasileira esta registrada em três LPs produzidos pela gravadora Sinter entre os anos de 1955 e 1959 com interpretações do radialista, cantor e compositor Paulo Tapajós. Em 1957 após o sucesso do primeiro LP em 10 polegadas denominado Luar do sertão, é gravado o disco Catulo, o poeta do sertão, com um repertório de canções representativas do momento áureo da modinha brasileira. Dentre elas destacam-se, Vai ó meu amor ao campo santo e Os olhos dela, com Irineu de Almeida; Clélia, com Luiz de Souza; O poeta do sertãoTalento e formosura, com Edmundo Otávio Ferreira; Rasga o coração e Palma de martírio, com Anacleto de Medeiros.
Todas essas músicas foram gravadas em disco nos primeiros anos do século vinte e embalaram os corações do povo brasileiro. Nelas, o poeta/compositor se deixa entregar por inteiro traduzindo em versos e melodia um momento mágico de nossa cultura musical.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

11/02/2012

Um disco fundamental da MPB


CATULO, O POETA DO SERTÃO (1957)
Com Paulo Tapajós 

A imagem do Nordeste brasileiro esteve durante muito tempo estereotipada no Sul do país, para os de baixo o povo do norte como eles também chamavam era uma gente profundamente religiosa, mística, ainda o é, mas também exótica em seus costumes, fazia parte de um Brasil impenetrável e desconhecido, principalmente no final do século XIX e início do século XX. As atenções para seus graves problemas sociais vieram à tona de certa maneira com a publicação do livro Os sertões, de Euclides da Cunha que retrata com fidelidade o embate de Canudos e faz uma interpretação sobre o ser sertanejo.
Fora algumas poucas intervenções governamentais seja no Império ou no nascedouro republicano, o Nordeste era uma terra de ninguém, pois o país vivia e respirava os ares da “cidade luz tropical” o Rio de Janeiro e a cultura pátria era medida pelo que nela se realizava, claro, que outros estados como por exemplo, São Paulo, tinham uma certa influencia cultural “civilizatória', mas indiscutivelmente era a então capital do país que puxava o samba enredo da recém criada Escola de Samba Unidos da Republica Federativa do Brasil.
Mas se o sertanejo nordestino sempre foi um forte em sua luta pela sobrevivência, foi também um obstinado divulgador de sua própria cultura não deixando ainda que a região figurasse apenas como um apêndice na geografia política do país e sim elemento integrador de uma noção plena de brasilidade, com suas características regionais próprias, mas sobretudo definindo a noção de nossa pluralidade cultural e reafirmando o conceito pleno de nação em sua totalidade. Assim a contribuição do Nordeste iria se somar a de outras regiões e o Brasil poderia descobrir-se sem discussão de mérito, pois, a disputa em questão passaria ao largo de preconceitos ou discriminações e serviria como afirmativa de nossa identidade.
Desse modo a partir do pressuposto da nacionalização de nossa cultura os temas nordestinos tomam de assento o Rio de Janeiro aproveitando-se da sua importância enquanto caixa de ressonância nacional e passam a ser explorados por artistas e intelectuais vinculados as suas tradições regionais para divulgar o que poucos conheciam, ou fingiam apenas que existia.
Entre esses personagens responsáveis por essa nacionalização/integração nordestina destaca-se Catulo da Paixão Cearense, cuja referencia ao valoroso estado nordestino encontra-se apenas no sobrenome, pois, nasceu, na cidade de São Luís do Maranhão em 31 de janeiro de 1863 e em 1880 foi residir no Rio de Janeiro com a família. Na capital do império frequentou rodas de estudantes, foi boêmio, estivador, escriturário, mas sobretudo poeta e violonista, atividades que o consagrariam como uma das mais importantes figuras de seu tempo. Acompanhou de perto o crescimento da modinha enquanto gênero de música urbana largamente executada em serenatas sendo o seu grande impulsionador nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do seguinte.
Como poeta torna-se uma celebridade e o Nordeste, o seu chão, a razão maior de sua poética. Seus livros vendiam-se aos milhares e com eles descortinava um imenso horizonte para uma compreensão maior desse lado do Brasil. Obras como O marrueiro, Sertão em flor, Alma do sertão, Um caboclo brasileiro, Mata iluminada, O milagre de São João, O sol e a lua e muitas outras revelaram liricamente um Brasil que os brasileiros precisavam conhecer. Mas se seus versos eram largamente recitados e conhecidos por todos suas modinhas ou as letras que fez para canções alheias, tinham o mesmo sentimento lírico das noites enluaradas inebriadas pelo mágico encantamento das serenatas noturnas da cidade que o abraçou, numa perfeita comunhão entre o sertanejo puro e o urbano boêmio e sentimental, dois personagens num só, a união perfeita de um Brasil que se mostra por inteiro, sem divisionismos e onde a predominância de uma identificação matriz se une a uma cultura urbana e é essa mistura na medida certa que da o caráter definidor de nosso caráter.
Como modinheiro, Catulo produziu uma obra vastíssima e ajudou a fazer mais felizes as noites de luar de nosso país. Parte dessa sua contribuição à música popular brasileira esta registrada em três LPs produzidos pela gravadora Sinter entre os anos de 1955 e 1959 com interpretações do radialista, cantor e compositor Paulo Tapajós. Em 1957 após o sucesso do primeiro LP em 10 polegadas denominado Luar do sertão, é gravado o disco Catulo, o poeta do sertão, com um repertório de canções representativas do momento áureo da modinha brasileira. Dentre elas destacam-se, Vai ó meu amor ao campo santo e Os olhos dela , com Irineu de Almeida; Clélia, com Luiz de Souza; O poeta do sertão Talento e formosura , com Edmundo Otávio Ferreira; Rasga o coração Palma de martírio , com Anacleto de Medeiros.
Todas essas musicas foram gravadas em disco nos primeiros anos do século vinte e embalaram os corações do povo brasileiro, nelas o poeta/compositor se deixa entregar por inteiro traduzindo em versos e melodia um momento mágico de nossa cultura musical.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www. Luizamerico.com.br 

21/04/2011

Luar do Sertão

Não há, ó gente, oh não
Luar como este do sertão...
Oh que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão
Esse luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão
Se a lua nasce por delas da verde mata
Mais porem um sol de prata prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia
A nos nascer do coração
Se Deus me ouvisse
Com amor e caridade
Me faria essa vontade
O ideal do coração:
Era que a morte
A descontar me surpreendesse
E eu morresse numa noite
De luar do meu sertão.

Catullo da Paixão Cearense/João Pernambuco