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11/07/2024

Poema para Galileu ( a muitas vozes)

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar – que disparate, Galileu!
e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação –
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscava os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilômetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão direta dos quadrados dos tempos.

Antônio Gedeão, em Antologia Poética

18/06/2022

O filho do músico


O campanário isolado da Catedral de Pisa pendia perigosamente para o sul. Era uma aparência peculiar, mas o fenômeno não atraía atenção fora da própria cidade. Os toscanos estavam acostumados a torres ostentosas tanto em edifícios privados como públicos, e era fato aceito que, de vez em quando, uma ou outra dessas torres podia se espatifar no chão.
A torre incorporava dois dos traços característicos dos toscanos: primeiro, sua intensa necessidade de chamar a atenção para si mesmos – colocar-se acima dos outros literalmente. Em segundo lugar, a quase miraculosa combinação de perícia, conhecimento técnico e talento artístico, que fizeram da Toscana, e em particular de sua capital, Florença, o centro indiscutível de arquitetura, escultura e pintura do mundo ocidental durante uma época que um futuro admirador viria a batizar de Renascença.
Essa época de ouro estava definitivamente em declínio no ano de 1564.
Cosme I de Médici era duque da Toscana. Os Médici haviam sido originalmente médicos, mas depois voltaram-se para os negócios e a atividade bancária. Por mais de um século a família dominara Florença com seu poder e riqueza. Mas novos tempos tinham chegado à Europa, uma era de monarquia absoluta, e o poder precisava ser legitimado com base na linhagem de nobreza e no direito divino do governante. Cosme adquirira um título de duque e se estabelecera como governante absoluto. Mudara-se do Palazzo Vecchio, no antigo e vibrante centro da cidade, do outro lado do rio Arno, para o enorme e isolado Palazzo Pitti. Ali, a régia distância da vida banal da cidade, o duque e sua corte viviam com uma pompa de causar inveja a vários reis da Europa.
O músico Vincenzo Galilei tinha a mesma idade de Cosme de Médici. Também provinha de uma velha família florentina com um ancestral médico. Aí cessava abruptamente qualquer semelhança com os Médici. Riqueza e poder haviam escapado por completo da família Galilei.
Para Vincenzo, a corte do duque era um local de trabalho, uma arena na qual podia tocar alaúde e viola de gamba. Mas ele não conseguia ter serviço suficiente, nem ali nem em Florença como um todo. As coisas ficaram ainda mais difíceis quando ele se casou com Giulia, uma mulher vinte anos mais nova. Sua família era de Pisa, e Vincenzo sentiu-se obrigado a se mudar para lá. Não foi uma decisão fácil para um florentino patriota. Mas o custo de vida em Pisa era mais baixo, um músico tinha menos concorrência e, acima de tudo, sua esposa tinha família na cidade – uma gente prática, trabalhadora, que vivia do comércio de lã e podia, vez por outra, dar algum trabalho a um parente pobre.
A relação entre Florença e Pisa nunca fora muito cordial. Em sua Divina comédia, o maior filho de Florença, Dante Alighieri, retrata Pisa como um berço de traição e coloca alguns eminentes nativos de Pisa nas profundezas mais profundas do Inferno. Mas as duas cidades não eram mais rivais de igual categoria. Da sua posição de uma das mais ricas e poderosas cidades da Europa, Pisa degenerara numa sonolenta cidade provinciana toscana, firmemente regida a partir de Florença.
Vincenzo casara-se para manter a continuidade da família Galilei: sua Giulia estava grávida. Em 15 de fevereiro de 1564, o filho primogênito do casal nasceu numa casa alugada perto da igreja de Sant’Andrea, a meio caminho entre a universidade e o palácio local dos Médici. Seguindo uma tradição toscana relativamente comum, o menino recebeu como nome de batismo a forma singular do nome de família: Galileo [Galileu]. Ele ganhou o nome do fundador original da linhagem no século XV, o médico que estava agora enterrado num lugar que não era nada menos que a igreja de Santa Croce.
Vincenzo Galilei não era somente um músico habilidoso e reconhecido compositor. Era um homem culto. O que mais o interessava era a teoria da música. Ele estudara com conhecidos humanistas em Veneza e Roma e estava envolvido com a escrita de uma grande tese na qual tentava ambiciosamente reviver a música contemporânea retornando aos princípios da antiguidade.
O jovem Galileu não foi filho único. Sua mãe Giulia deu à luz mais seis filhos em rápida sucessão, mas apenas um irmão e duas irmãs sobreviveram até a idade adulta. Vincenzo logo percebeu que o filho mais velho era extraordinariamente talentoso e merecedor de atenção especial. Ele ensinou Galileu a tocar alaúde, e o menino logo se tornou um músico de qualidade.
O garoto também aprendeu duas outras coisas da dedicação especial do pai em educá-lo. A primeira foi que ninguém jamais deveria se contentar com a sabedoria aceita, mesmo que viesse das fontes de maior autoridade, e sim combinar reflexões teóricas com experimentos práticos e chegar a suas próprias conclusões.
A segunda coisa aprendida foi que tal trabalho pioneiro era, com frequência, literalmente desvalorizado. Vincenzo vivia lutando para prover a si mesmo e sua família. Em 1572, mudou-se de volta para Florença sozinho. Cosme acabara de ser elevado a grão-duque, e as comemorações ofereceram oportunidade para um bom músico brilhar na corte. Mas Giulia e as crianças tiveram de permanecer com sua família em Pisa, e é tentador imaginar o jovem Galileu ouvindo os parentes de sua mãe fazendo comentários sobre quem precisava sustentá-lo, junto com seu irmão e suas irmãs.
Em 1574, o grão-duque Cosme morreu. Era um tirano temperamental que certa vez matara um servo porque este havia dito ao filho de Cosme que o pai estava considerando se casar novamente; mas era também um patrono generoso e um governante empreendedor, que trouxera prosperidade para o seu grão-ducado na Itália central. A maioria dos toscanos não alimentava grandes expectativas em relação ao filho do soberano, Francisco, e seus piores temores se concretizaram. A esposa de Francisco morreu em circunstâncias misteriosas, e após sua morte ele celebrou um extravagante matrimônio com sua infame amante, Bianca. Pior ainda foi o fato de o novo grão-duque ter protegido o irmão mais novo, Pietro, que estrangulara a esposa num ataque de ciúmes.
Era nessa corte que Vincenzo deveria ganhar a vida, em sua maior parte. A mudança de grão-duque não o assustou, pois trouxe Giulia e seus filhos para morar com ele em Florença. A família se estabeleceu perto de uma das pontes sobre o rio Arno, a Ponte delle Grazie. Era um lugar prático para se morar. O Palazzo Pitti do grão-duque ficava nas proximidades.
O menino Galileu, de dez anos, viera para casa. Sua família pertencia a Florença. Ele sempre se considerou florentino. Mas seu pai não estava satisfeito com a educação que o menino podia receber na cidade de seus antepassados. No ano seguinte mandou Galileu para um remoto mosteiro em Vallombrosa – o vale das sombras –, ao norte de Regello, em Valdarno, cerca de trinta quilômetros a sudeste de Florença.
O contraste com uma cidade como Florença dificilmente poderia ter sido maior. O mosteiro tinha uma localização belíssima, mas era completamente isolado e a uma altitude de mais de mil metros, cercado por uma floresta de árvores frondosas, bem como abetos pesados e escuros com troncos esbranquiçados.
Vincenzo sabia o que estava fazendo. Os monges desse mosteiro pertenciam à tradição intelectual florentina. Era um ambiente inspirador, muito além do padrão geral dos mosteiros. Aqui, o talentoso garoto poderia aprender grego, latim e lógica.
Galileu foi um aluno aplicado, que apreciou minuciosamente a vida nessas redondezas isoladas, espartanas. Mas gostou muito mais do lugar do que o pai esperava. Após dois anos quis entrar para a ordem, e apresentou-se como noviço.
Talvez uma paixão religiosa juvenil tivesse motivado essa decisão, mas Galileu também percebeu que a vida estrita de um monge lhe proporcionava oportunidades de trabalho e estudo, livre dos cuidados materiais que a vida de cidadão trazia. Vincenzo, porém, não teve simpatia pela decisão do primogênito. Em 1579, pegou a estrada montanhosa cheia de curvas até o mosteiro e trouxe de volta para casa o rapaz de quinze anos.
Os motivos do pai podem ter sido evitar que Galileu ficasse preso num local e ambiente que, no longo prazo, jamais poderiam lhe oferecer desafios suficientes. Porém o mais provável era que frios cálculos financeiros estivessem por trás dessa “expedição de resgate”. Vincenzo teria de fazer contribuições para os custos correntes do mosteiro se o filho se tornasse monge. Filhas podiam ser candidatas plausíveis para a vida monástica. Também precisavam ser subsidiadas, é claro, mas se em vez disso se casassem, o pai tinha de achar um dote, então de qualquer modo as filhas custavam dinheiro. Contudo, um filho como Galileu deveria encontrar um trabalho pago, para que pudesse ajudar nas despesas da família.
Mas que carreira o filho escolheria?

Atle Naess, in Galileu Galilei