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28/08/2025

Capítulo Segundo | Um certo pé de Laranja Lima



Lá em casa, cada irmão mais velho criava um mais moço. Jandira tomara conta de Glória e de outra irmã que fora dada para ser gente no Norte. Antônio era o quindim dela. Depois Lalá tomara conta de mim até bem pouco tempo. Até ela gostar de mim, depois parece que enjoou ou ficou muito apaixonada pelo namorado dela que era um almofadinha igualzinho ao da música: de calça larga e paletó curtinho. Quando a gente ia aos domingos fazer o footing (o namorado dela falava assim) na Estação, ele comprava bala pra mim que dava gosto. Era para eu não falar nada em casa. Nem também podia perguntar a Tio Edmundo o que era aquilo, senão descobriam…
Meus outros dois irmãozinhos morreram pequenos e eu só ouvi falar deles. Contavam que eram dois bugrezinhos Pinagés. Bem queimadinhos e de cabelos negros e lisos. Por isso que a menina se chamou Aracy e o menino, Jurandyr.
Depois então vinha o meu irmãozinho Luís. Esse quem tomava mais conta dele era Glória e depois eu. Ninguém precisava tomar conta dele, porque menininho mais lindo, bonzinho e quietinho não existia.
Foi por isso que quando ele falou com aquela falinha toda sem errar, e eu que já ia ganhar o mundo da rua, mudei de ideia.
Zezé, você vai me levar ao Jardim Zoológico? Hoje não está ameaçando chuva, não é?
Mas que gracinha, como ele falava tudo direitinho. Aquele menino ia ser gente, ia longe.
Olhei o dia lindo todo de azul no céu. Fiquei sem coragem de mentir. Porque às vezes eu não estava com vontade e dizia:
Tá doido, Luís. Veja só o temporal que vem!…
Dessa vez agarrei a mãozinha e saímos para a aventura do quintal.
O quintal se dividia em três brinquedos. O Jardim Zoológico. A Europa que ficava perto da cerca bem-feitinha da casa de seu Julinho. Por que Europa? Nem meu passarinho sabia. Lá que a gente brincava de bondinho de Pão de Açúcar. Pegava a caixa de botão e enfiava todos eles num barbante (Tio Edmundo falava cordel). Eu pensei que cordel fosse cavalo. E ele explicou que era parecido, mas cavalo era corcel. Depois a gente amarrava uma ponta na cerca e a outra na ponta dos dedos de Luís. Subia todos os botões e soltava devagarzinho um por um. Cada bonde vinha cheio de gente conhecida. Tinha um bem pretão que era o bonde do negro Biriquinho. Não raro ouvia uma voz do outro quintal:
Você não está estragando a minha cerca, Zezé?
Não senhora, D. Dimerinda. Pode ver.
É assim que eu gosto. Brincando bonitinho com o irmão. Não é melhor assim?
Podia ser mais bonito, mas no momento que o meu “padrinho”, o capeta, me empurrava, não podia haver nada mais gostoso do que fazer artes…
A senhora vai me dar uma folhinha no Natal, como no ano passado?
O que você fez da que eu dei?
Pode ir lá dentro ver, D. Dimerinda. Está em cima do saco do pão.
Ela riu e prometeu. O marido dela trabalhava no armazém de Chico Franco.
O outro brinquedo era Luciano. Luís, no começo, tinha um medo danado dele e pedia pra voltar puxando as minhas calças. Mas Luciano era amigo. Quando me via, soltava guinchos fortes. Glória também não queria aquilo, dizendo que morcego é vampiro e chupa sangue de criança.
É não, Godóia. Luciano não é desses. É amigo. Ele me conhece.
Você com essa mania de bicho e de falar com as coisas…
Foi um custo a convencer que Luciano não era um bicho. Luciano era um avião voando no Campo dos Afonsos.
Olhe só, Luís.
E Luciano rodava em volta da gente todo feliz como se compreendesse o que se falava. E compreendia mesmo.
Ele é um aeroplano. Está fazendo…
Embatucava. Precisava pedir de novo para Tio Edmundo repetir aquela palavra. Não sabia se era acorbacia, acrobacia ou arcobacia. Era uma daquelas. Só que não devia ensinar errado ao meu irmãozinho.
Mas agora ele estava querendo o Jardim Zoológico.
Chegamos até perto do galinheiro velho. Dentro, as duas frangas claras estavam ciscando, e a velha galinha preta era tão mansa que a gente até coçava a cabeça dela.
Primeiro vamos comprar os bilhetes de entrada. Dê-me a mão que a criança pode se perder nessa multidão. Viu como está cheio aos domingos?
Ele olhava e começava a enxergar gente por toda a parte e apertava mais minha mão.
Na bilheteria empinei a barriga para a frente e dei um pigarro para ter importância. Meti a mão no bolso e perguntei à bilheteira:
Até que idade criança não paga?
Até cinco anos.
Então uma de adulto, faz favor.
Peguei as duas folhinhas de laranjeira de bilhete e fomos entrando.– Primeiro, meu filho, você vai ver que beleza são as aves. Olhe papagaios, periquitos e araras de todas as cores. Aquelas bem cheias de penas diferentes são as araras arco-íris.
E ele arregalava os olhos extasiado.
Caminhávamos devagar, vendo tudo. Vendo tanta coisa que até eu vi por trás de tudo que Glória e Lalá estavam sentadas no tamborete e descascavam laranjas. Os olhos de Lalá me olhavam de um jeito... Será que já tinham descoberto? Se já, aquele Jardim Zoológico ia acabar em grandes chineladas na bunda de alguém. E só quem podia ser esse alguém era eu.
E agora, Zezé, o que nós vamos visitar?
Novo pigarro e pose.
Vamos passar nas jaulas dos macacos. Tio Edmundo diz sempre, os símios.
Compramos algumas bananas e atiramos aos bichos. A gente sabia que aquilo era proibido, mas como tinha muita multidão, os guardas nem davam conta.
Não se chegue muito perto que eles atiram cascas de banana em você, pequerrucho.
Eu queria era chegar logo nos leões.
Já vamos lá.
Relanceei a vista onde as duas “símias” chupavam laranja. Da jaula dos leões, daria para escutar a conversa.
Chegamos.
Apontei as duas leoas amarelas, bem africanas. Quando ele quis alisar a cabeça da pantera negra…
Que ideia, pequerrucho. Essa pantera negra é o terror do Jardim. Ela veio pra cá porque arrancou dezoito braços de domadores e comeu.
Luís fez uma cara de medo e retirou o braço apavorado.
Ela veio do circo?
Veio.
De que circo, Zezé? Você nunca me contou antes.
Pensei e pensei. Quem que eu conhecia que tinha nome pra circo?
Ah! Veio do circo Rozemberg.
Mas lá não é padaria?
Já estava ficando difícil enganar ele. Começava a ficar muito sabido.
É outro. É melhor sentarmos um pouco e comer a merenda. Andamos muito.
Sentamos e fingimos que comíamos. Mas meu ouvido estava lá, escutando as conversas.
A gente devia aprender com ele, Lalá. Veja só a paciência que ele tem com o irmãozinho.
É, mas o outro não faz o que ele faz. Isso já é maldade. Não é arte.
Tá certo que ele tem o diabo no sangue, mas mesmo assim é engraçado. Ninguém fica com raiva dele na rua, por mais que pinte…
Aqui ele não passa sem tomar umas chineladas. Um dia ele aprende.
Joguei uma flecha de piedade nos olhos de Glória. Ela sempre me salvara e eu sempre prometia a ela que não ia fazer nunca mais…
Mais tarde. Agora não. Eles estão brincando tão quietinhos…
Ela já sabia de tudo. Sabia que eu tinha ido pelo valão e entrado nos fundos do quintal de D. Celina. Fiquei fascinado com a corda de roupa balançando ao vento uma porção de pernas e braços. Aí o diabo me disse que eu podia dar uma queda ao mesmo tempo em todos os braços e pernas. Eu concordei com ele que ia ser muito engraçado. Procurei no valão um caco de vidro bem afiado e subi na laranjeira e cortei a corda com paciência.
Eu quase que caí ao mesmo tempo que aquilo tudo veio abaixo. Um grito e todo mundo correu.
Acode minha gente, que a corda rebentou.
Mas uma voz, não sei de onde, gritou mais alto.
Foi aquela peste do menino de seu Paulo. Eu vi ele trepando na laranjeira com um caco de vidro…
Zezé?
Que é, Luís?
Conte pra mim como é que você sabe tanta coisa do Jardim Zoológico?
Já visitei muitos na vida.
Mentia, tudo o que eu sabia era Tio Edmundo quem me contara e até me prometera me levar lá um dia. Mas ele andava tão devagarzinho que quando a gente chegasse lá, já não existia mais nada. Totoca fora uma vez com Papai.
O que eu gosto mais é o da Rua Barão de Drummond, na Vila Isabel. Você sabe quem foi o Barão de Drummond? Claro que você não sabe. É muito criança para saber dessas coisas. O tal Barão devia ser muito amigo de Deus. Porque foi ele que ajudou Deus a criar o jogo de bicho e o Jardim Zoológico. Quando você ficar maiorzinho…
As duas continuavam lá.
Quando eu ficar maiorzinho o quê?– Ai que criança perguntadeira. Quando você chegar lá, eu ensino os bichos e o número dos bichos. Até o número vinte. Do número vinte até o número vinte e cinco, eu sei que tem vaca, touro, urso, veado e tigre. Não sei direito o lugar deles, mas vou aprender para não ensinar errado.
Ele estava se cansando do brinquedo.
Zezé, cante pra mim a Casinha Pequenina.
Aqui no Jardim Zoológico? Tem muita gente.
Não. A gente já veio s’imbora…
É muito grande a letra. Vou cantar só o pedaço que você gosta.
Sabia que era onde falava de cigarras.
Abri o peito.

Você sabe de onde eu venho
É de uma casinha que tenho
Fica junto de um pomar…
É uma casa pequenina
Lá no alto da colina
E se vê ao longe, o mar…

Pulei uma porção de versos.

Entre as palmeiras bizarras
Cantam todas as cigarras
Ao pôr de oiro do sol.
Do beiral vê-se o horizonte.
No jardim canta uma fonte
E na fonte um rouxinol…

Parei. Elas continuavam firmes lá me esperando. Tive uma ideia; ficava cantando ali até chegar de noite. Elas iam acabar desistindo.
Mas qual o quê. Cantei a Casinha toda, repeti, cantei “Por teu afeto passageiro” e até Ramona. As duas letras diferentes que eu sabia de Ramona... e nada. Aí me deu um desespero danado. Era melhor acabar com aquilo. Fui lá.
Pronto, Lalá. Pode me bater.
Virei as costas e ofereci o material. Trinquei os dentes porque a mão de Lalá tinha uma força danada no chinelo.
[…]

José Mauro de Vasconcelos, em O meu pé de laranja lima

24/08/2025

Capítulo Primeiro | O descobridor das coisas


A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta1, gato ruço de mau pelo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua, eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. E eu estava me lembrando de uma música que Mamãe cantava quando eu era bem pequenininho. Ela ficava no tanque, com um pano amarrado na cabeça para tapar o sol. Tinha um avental amarrado na barriga e ficava horas e horas metendo a mão na água, fazendo sabão virar muita espuma. Depois torcia a roupa e ia até a corda. Prendia tudo na corda e suspendia o bambu. Ela fazia igualzinho com todas as roupas. Estava lavando a roupa da casa do Dr. Faulhaber para ajudar nas despesas da casa. Mamãe era alta, magra, mas muito bonita. Tinha uma cor bem queimada e os cabelos pretos e lisos. Quando ela deixava os cabelos sem prender, dava até na cintura. Mas bonito era quando ela cantava e eu ficava junto aprendendo.

Marinheiro, Marinheiro
Marinheiro de amargura
Por tua causa, Marinheiro
Vou baixar à sepultura…

As ondas batiam
E na areia rolavam
Lá se foi o Marinheiro
Que eu tanto amava…

O amor de Marinheiro
É amor de meia hora
O navio levanta o ferro
Marinheiro vai embora…

As ondas batiam…

Até agora aquela música me dava uma tristeza que eu não sabia compreender.
Totoca me deu um puxão. Eu acordei.
Que é que você tem, Zezé?
Nada. Tava cantando.
Cantando?
É.
Então eu devo estar ficando surdo.
Será que ele não sabia que se podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se não sabia, eu não ensinava.
Tínhamos chegado à beira da Estrada Rio-São Paulo.
Passava tudo nela. Caminhão, automóvel, carroça e bicicleta.
Olhe, Zezé, isso é importante. A gente primeiro olha bem. Olha para um lado e para outro. Agora.
Atravessamos correndo a estrada.
Teve medo?
Bem que tive, mas fiz não com a cabeça.
Nós vamos atravessar de novo juntos. Depois quero ver se você aprendeu.
Voltamos.
Agora você sozinho. Nada de medo que você está ficando um homenzinho.
Meu coração acelerou.
Agora. Vai.
Meti o pé e quase não respirava. Esperei um pedaço e ele deu o sinal para que eu voltasse.
Pela primeira vez, você foi muito bem. Mas esqueceu uma coisa. Tem que olhar para os dois lados para ver se vem carro. Nem toda hora eu vou ficar aqui para lhe dar o sinal. Na volta, a gente treina mais. Agora vamos que eu vou mostrar uma coisa para você.
Agarrou a mão e saímos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.
Totoca.
Que é?
Idade da razão pesa?
Que besteira é essa?
Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era “precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença.
Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua cabeça.
Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de laço.
Por que gravata de laço?
Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando Tio Edmundo me mostra retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço.
Zezé, deixe de acreditar em tudo que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso.
Então ele é filho da puta?
Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco.
Você falou que ele era mentiroso.
Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele, e falou assim de seu Labonne: “O filho da puta do velho mente pra burro”... E ninguém bateu na boca dele.
Gente grande pode dizer, que não faz mal.
Fizemos uma pausa.
Tio Edmundo não é... Que é que é mesmo trongola, Totoca?
Ele girou o dedo na cabeça.
Ele não é, não. Ele é bonzinho, me ensina as coisas e até hoje só me deu uma palmada e não foi com força.
Totoca deu um pulo.
Ele deu uma palmada em você? Quando?
Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão.
Vai buscar que eu dou.
Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão.
Totoca riu.
Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca.
Eu continuava pensando em Tio Edmundo.
Totoca, criança é aposentado?
O quê?
Tio Edmundo não faz nada, ganha dinheiro. Não trabalha e a Prefeitura paga ele todo mês.
E daí?
Criança não faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais.
Aposentado é diferente, Zezé. Aposentado é quem já trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele, vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você.
Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar. Também não tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe.
Paramos e Totoca apontou a casa.
É bem ali. Você gosta?
Era uma casa comum. Branca de janelas azuis. Toda fechada e caladinha.
Gosto. Mas por que a gente tem que mudar para cá?
É bom a gente sempre se mudar.
Ficamos observando pela cerca um pé de mangueira de um lado e um tamarindeiro do outro.
Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.
Demorou um pouco, em silêncio.
Totoca, vão trazer a pantera negra e as duas leoas pra cá?
Claro que vão. E o escravo aqui é que vai ter que desmontar o galinheiro.
Me olhou com certa meiguice e pena.
Eu é que vou desmontar o Jardim Zoológico e armar ele aqui.
Fiquei aliviado. Porque senão eu teria que inventar uma nova coisa para brincar com o meu irmãozinho mais novo: Luís.
Bem, viu como eu sou seu amigo, Zezé. Agora não custava me contar como foi que você conseguiu “aquilo”…
Juro, Totoca, que não sei. Não sei mesmo.
Você está mentindo. Você estudou com alguém.
Não estudei nada. Ninguém me ensinou. Só se foi o diabo que Jandira diz que é meu padrinho, que me ensinou dormindo.
Totoca estava perplexo. No começo até me dera cocorotes para eu contar. Mas nem eu sabia contar.– Ninguém aprende essas coisas sozinho.
Mas ficava embatucado porque realmente ninguém vira ninguém me ensinar nada. Era um mistério.
Fui me lembrando de alguma coisa que tinha acontecido uma semana antes. A família ficou atarantada. Começou quando eu me sentei perto de Tio Edmundo na casa de Dindinha, que lia o jornal.
Titio.
Que é, meu filho?
Ele puxou os óculos para a ponta do nariz como toda gente grande e velha fazia.
Quando o senhor aprendeu a ler?
Mais ou menos com seis ou sete anos de idade.
E uma pessoa pode ler com cinco anos?
Poder, pode. Ninguém gosta de fazer isso porque a criança ainda é muito pequena.
Como é que o senhor aprendeu a ler?
Como todo mundo, na Cartilha. Fazendo B mais A: BA.
Todo mundo tem que fazer assim?
Que eu saiba, sim.
Mas todo mundo mesmo?
Ele me olhou intrigado.
Olhe, Zezé, todo mundo precisa fazer assim. Agora me deixe terminar a minha leitura. Veja se tem goiaba no fundo do quintal.
Colocou os óculos no lugar e tentou se concentrar na leitura. Mas eu não saí do canto.
Que pena!…
A exclamação saiu tão sentida que ele de novo trouxe os óculos para a ponta do nariz.
Não adianta, quando você quer…
É que eu vim lá de casa, andei pra burro só para contar uma coisa para o senhor.
Então vamos, conte.
Não. Não é assim. Primeiro preciso saber quando o senhor vai receber a aposentadoria.
Depois de amanhã.
Deu um suave sorriso me estudando.
E quando é depois de amanhã?
Sexta-feira.
Pois na sexta-feira o senhor não quer trazer um Raio de Luar pra mim, da cidade?
Vamos devagar, Zezé. O que é Raio de Luar?
É o cavalinho branco que eu vi no cinema. O dono dele é Fred Thompson. É um cavalo ensinado.
Você quer que eu traga um cavalinho de rodas?
Não, senhor. Quero aquele que tem uma cabeça de pau com rédeas. Que a gente coloca um cabo e sai correndo. Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde.
Ele continuou rindo.
Compreendo. E se eu trouxer, o que eu ganho?
Eu faço uma coisa pro senhor.
Um beijo?
Não gosto muito de beijos.
Um abraço?
Aí eu olhei Tio Edmundo com uma pena danada. Meu passarinho lá dentro falou uma coisa. E eu fui lembrando que muitas vezes tinha escutado... Tio Edmundo era separado da mulher e tinha cinco filhos... Vivia tão sozinho e caminhava devagar, devagar... Quem sabe se ele não andava devagar era porque tinha saudade dos filhos? E os filhos nunca vinham fazer uma visita para ele.
Dei a volta na mesa e apertei com força o seu pescoço. Senti o seu cabelo branco roçar na minha testa, bem macio.
Isto não é pelo cavalinho. O que eu vou fazer é outra coisa. Vou ler.
Você sabe ler, Zezé? Que história é essa? Quem foi que lhe ensinou?
Ninguém.
Você está com lorotas.
Me afastei e da porta comentei:
Traga meu cavalinho sexta-feira pra ver se eu não leio!…
Depois, quando foi de noite e Jandira acendeu a luz do lampião porque a Light cortara a luz por falta de pagamento, eu fiquei na ponta dos pés para ver a “estrela”. Tinha um desenho de uma estrela num papel e embaixo uma oração para proteger a casa.
Jandira, me pegue no colo que eu vou ler ali.
Deixe de invenções, Zezé. Estou muito ocupada.
Pois me pegue e veja se eu não sei ler.
Olhe, Zezé, se você estiver me aprontando alguma, você vai ver.
Me colocou no colo e me levou bem atrás da porta.
Então, leia. Quero ver.
Aí eu li mesmo. Li a oração que pedia aos céus bênção e proteção para a casa e afugentasse os maus espíritos.
Jandira me depositou no chão. Estava de queixo caído.
Zezé, você decorou aquilo. Você está me enganando.
Juro, Jandira. Eu sei ler tudo.
Ninguém pode ler sem ter aprendido. Foi Tio Edmundo? Dindinha?
Ninguém.
Ela pegou um pedaço de jornal e eu li. Li direitinho. Ela deu um grito e chamou Glória. Glória ficou nervosa e foi chamar Alaíde. Em dez minutos uma porção de gente da vizinhança veio ver o fenômeno.
Era isso que Totoca estava querendo saber.
Ele ensinou e prometeu o cavalinho se você aprendesse.
Não foi, não.
Eu vou perguntar a ele.
Pois vá perguntar. Eu não sei dizer como foi, Totoca. Se eu soubesse, eu contava pra você.
Então vamos embora. Você vai ver. Quando precisar de uma coisa…
Pegou minha mão, zangado, e me puxou de volta para a casa. Aí ele pensou numa coisa para se vingar.
Bem feito! Aprendeu cedo demais, seu bobo. Agora vai ter que entrar na Escola em fevereiro.
Aquilo tinha sido ideia de Jandira. Assim a casa ficava a manhã inteira em paz e eu aprendia a ter modos.
Vamos treinar a Rio-São Paulo. Porque não pense que no tempo da Escola eu vou ficar de sua empregada, atravessando você todo tempo. Você é muito sabido, que aprenda logo isso também.

***

Taqui o cavalinho. Agora eu quero ver.
Abriu o jornal e me mostrou uma frase de reclame de um remédio.
– “Esse producto se encontra em todas as pharmacias e casas do ramo.”
Tio Edmundo foi chamar Dindinha no quintal.
Mamãe. Até Pharmacia ele leu direitinho.
Os dois juntos começaram a me dar coisas para ler e eu lia tudo.
Minha avó resmungou que o mundo estava perdido.
Ganhei o cavalinho e novamente abracei Tio Edmundo. Então ele pegou no meu queixo e me falou emocionado:
Você vai longe, peralta. Não é à toa que você se chama José. Você será o Sol, e as estrelas vão brilhar ao seu redor.
Fiquei olhando sem entender e pensando que ele era mesmo trongola.
Isto você não entende. É a história de José do Egipto. Quando você crescer mais, eu conto essa história.
Eu era doido por histórias. Quanto mais difíceis, mais eu gostava.
Alisei o meu cavalinho bastante tempo e depois levantei a vista para Tio Edmundo e perguntei:
A semana que vem, o senhor acha que eu já cresci?…

José Mauro de Vasconcelos, em O meu pé de laranja lima

10/08/2023

Capítulo Terceiro | Todo trem é uma rua que caminha


Ricardo e Roberto aos poucos foram se habituando à nova vida. Os meses substituíram aquele verão escaldante por um friozinho até de certo modo impertinente.
Não era tão agradável levantarem-se às cinco e meia, tomar um café mais ou menos magro e se encaminharem para a estação, onde pegavam o trem de seis e meia, um Maria-Fumaça que saía de Bangu e oferecia a oportunidade de viajarem sentados e juntos. Os outros, os que vinham de Campo Grande e Santa Cruz, surgiam lotados, com gente até pendurada nas plataformas.
Hoje, porém, o dia surgira de um modo todo especial. Juntos no mesmo banco olhavam a paisagem do trem. Muitos já se conheciam de vista ou então formavam amizades. Conversavam os seus problemas, retificavam as dificuldades da vida ou simplesmente se queixavam sem solução alguma.
Roberto olhou de relance o rosto calmo e grave do irmão. Certamente pensaria os mesmos pensamentos ao mesmo tempo que os seus.
Ricardo, o que você achou da novidade?
A resposta custou a vir e assim mesmo com um balançar de ombros, indiferente.
Não consegui nem dormir direito essa noite.
Eu notei.
É tudo quanto você me diz?
Precisamos pensar com calma no assunto. Muita calma mesmo. Seria melhor pensar durante o dia e na volta a gente conversar sem pressa...
Nada mais disse, mas a frase de Rômulo martelava o seu ouvido, o ouvido da sua estupefação.
Estamos ricos de novo. Poderemos dentro de uma semana voltar para a cidade. Basta de pobreza!...”
Revia na memória o irmão torcendo os dedos de alegria.
Voltaremos em breve à civilização. Basta de rua descalça, de gente suja, de verão sufocante. De poeira e lama.”
Roberto não se conteve e tornou a interrogar o irmão.
Seriamente, Ricardo, você acha que Mabel voltará a ser a mesma?
Sorriu antes da resposta.
Certamente sim.
Meu Deus! Aqueles meses deveriam ter modificado ao menos certas atitudes da mãe. Não. A mesma, a mesma, não poderia ser. Alguma coisa de mais profundo deveria ter personificado e atingido o íntimo de Mabel. Ela teria descoberto tudo de falso e negativo da vida. Entretanto, não olvidava o seu sorriso de satisfação, quando Rômulo anunciou o que qualificaria de boa-nova.
Amigos. Chegou o momento. O aneurisma de tio Hermes arrebentou. Vamos ter dinheiro aos montes.
Depois, cinicamente, continuou:
Nunca rezei, implorei e desejei tanto na vida que um aneurisma estourasse.
Ricardo o olhara duramente, sem comentar. Roberto ficou perplexo. Mas o sorriso de Mabel não desapareceu do seu rosto por todo o resto da noite.
O trem andava, parava, apitava e recomeçava a marcha contando os dormentes da estrada. Em Realengo, o trem tornava-se tão cheio que parecia voltar de novo o calor do verão. Isso porque todo mundo viajava de janelas arreadas para evitar a invasão do carvão. No verão ainda era pior, porque a roupa clara de brim se sujava incrivelmente e Mabel não parava de se lamuriar. Reclamava seus dedos gastos no tanque e a grosseria de calos que existiam nas palmas de sua mão.
Baleiro. Baleiro. Quem quer mariola. Paçoquinha de amendoim. Balas, caramelos e chocolates!
Pedia licença e empurrava o cestinho por entre o amontoado de gente no corredor do trem.
A professora, que ao lado de outra professora fazia um tricô feio e marrom, parecia não se incomodar com o resto da humanidade e muito menos com o gritar-me-nino do vendedor de balas. Não se lembrava que o garoto levantara-se antes do sol, atravessara ruas descalças a pé, pegara o seu tabuleiro de mercadoria barata e se arriscava à ira dos fiscais, para amealhar uns míseros tostões e ajudar a mãe ou o pai.
Juro que eu não rezei para que o aneurisma de tio Hermes rebentasse. Nem ao menos desejei isso. Embora algumas vezes pensasse em voltar para a cidade e viver uma vida mais humana e menos cansativa.
Ricardo cutucou o seu braço.
Você está pensando em voz alta. Eu também não desejei isso.
Mas Rômulo declarou abertamente.
Rômulo é assim mesmo. Sempre foi assim.
Retornou o pensamento a Mabel. Será que a mãe também rezara para que “aquilo” acontecesse? Mas não queria fazer mau juízo.
Do outro lado, mais para a frente, surgiu uma discussão danada. Era uma voz esganiçada de mulher quase aos brados.
O senhor bem que poderia fechar essa janela. Tá pensando que é dono do mundo?
Num penso em nada, viu? A gente é que está morrendo de calor e abafamento.
É melhor morrer de calor do que ficar com os olhos cheios de carvão, engraçadinho. O senhor porque usa bicicleta em cima dos olhos não liga.
Ora, dona, engraçadinho é a avó. Eu sou pai de oito filhos e não ando de trem pra passear. São oito bocas pra alimentar. Gente pra calçar. Escola pra comprar uniforme, papel e livros, viu?
Não estou especulando a vida de ninguém, mas se o senhor fosse um cavalheiro fechava a janela e já.
E se a senhora fosse uma dama comprava um Buick e viajava sozinha.
Aí a discussão esquentou mais. Encorpou até. A mulherzinha não calava. Tinha de ganhar a briga.
Se pudesse comprar um Buick comprava antes um manual de boa educação para o senhor.
Os incomodados é que se mudam.
Uma criancinha principiou a chorar. E a turma do “deixa disso” entrou em cena.
Calma, minha gente. Calma. Discutir por uma bobagem dessas.
Ouviu-se o ruído da janela levantando o vidro. A criança parou de chorar aos poucos e a mulher regougou ainda algumas coisinhas e tudo voltou ao que era antes. Com mais calor e menos carvão.
Tio Hermes tinha deixado uma herança enorme. Seria dividida entre Mabel e tia Clarissa. Enquanto montava o legado, Roberto nem imaginava. Mas Rômulo manifestara tamanha alegria que a coisa deveria andar por alto.
O trem avançava o seu destino, só que suas rodas gritavam nos trilhos uma palavra que só Roberto entendia:
Copacabana! Copacabana! Co-pa-ca-ba-na!!!
Passou a mão sobre a fronte suada. E agora? Voltar à mesma vida. Ora todos voltariam, se voltariam. Era como se viessem de uma viagem em redor do mundo. Entrariam no mesmo nível social com a cara mais limpa, mais lambida. E com o dinheiro de novo, novos jantares, novas reuniões, novos baralhos e roletas vivas durante noites e noites.
Passou um aleijado que sempre subia em Deodoro e saltava em Bento Ribeiro. Era o esmoler das terças-feiras. Já tinha até a freguesia certa.
Empurrava, espremia a multidão e lá ia com a sua muleta e sem uma perna. Ao se afastar, muita gente comentava.
Dê não, moça. Ele tem até uma porção de casa. Pede por vício. É como aquele cego cearense lá do Engenho de Dentro. Dizem até que dá uma porcentagem pro cobrador...
Mas o que dou é tão pouco que nem ajuda.
Pois aí é que está. Esse pouco poderia ajudar a quem mesmo precisasse.
O trem encheu mais. E apareceu mais gente comprimida. Dessa vez uma turma que carregava marmita dentro de pasta, porque a economia era maior do que comer no batente. Engraçada a alegria com que conversavam. Na certa continuavam a conversa principiada na espera da estação.
Esse tal de Pimenta não entende é de nada de futebol. Onde já se viu colocar esse tal de Lopes na ponta-direita do selecionado nacional?
Mas dizem que o homem é bom mesmo.
Vocês já viram esse homem jogar alguma vez? Já ouviram falar dele antes disso tudo?
Não. Mas por mim eu emendava a linha do Flamengo com Romeu. Botava Valido, Romeu, Leônidas, Perácio e um ponta-esquerda qualquer.
Isso é que não. Tem o Patesko que joga com o Perácio no Botafogo.
Por mim, não. Sapecava mesmo a linha do Fluminense: Bioró, Romeu, Sandro, Tim e Hércules. Tá?
Sim. Mas tu sisquicia do Diamante. Sem Diamante Negro, linha de ataque não é de nada.
Veio o cobrador das passagens no seu uniforme azul-marinho com riscas douradas no quepe e no colarinho.
Passagem, faz favor.
Triquete-triquete-triquete. Picoteava a passagem. Ou recolhia ou devolvia a quem continuava até à Central. Veio se intrometendo no meio da gente toda e se debruçando sobre os bancos.
Uma voz resmungou.
Peste desse Brozoário! Faz uma semana que ele não aparece e logo hoje, que entrei pela linha e não comprei passagem, ele vem.
Ricardo riu da expressão. Na certa aquele homem nem sabia o que vinha a ser Brozoário. Ouvira de alguma parte e para ele aquilo era tão forte como um palavrão.
Na sua frente o distinto cavalheiro que lia um livro o tempo todo abriu o paletó e retirou do bolsinho do colete o bilhete. Recebeu-o de volta sem tirar os olhos do livro. A capa conservadíssima tal o acuro que o dono lhe dispensava: O Judeu Errante.
Pois foi junto do distinto cavalheiro à sua frente que se deu uma vaga em Marechal Hermes. Tratava-se de um senhor gordo, de testa suarenta e sobretudo um pescoço se enforcando numa gravata velha, derramando banha pela gola do batido paletó. Colocou a pasta da marmita sobre o colo e abanou-se com as mãos roliças e pequeninas.
Uff! Até que às vezes Deus tem pena da gente. Tava com meus calos que pareciam brasa de vulcão.
Ricardo sorriu olhando o homem. Era daqueles que não paravam de falar a viagem inteira. O homem dirigiu-se ao distinto cavalheiro que lia a seu lado.
Se eu não pegasse essa beira acho que desmaiava de cansaço. Fui dormir quase na hora de levantar. Quebrou o pau lá em casa, sô. A vizinha tem um bandão de galinha, mas não cerca elas. Resultado, as bichas invadiram o fundo do quintal da patroa e ciscaram as mudas de hortaliças que tinham acabado de ser plantadas. Foi um bate-língua dos diabos. A patroa que tem maus bofes sentou varada de bambu nas galinhas. Quando cheguei tava o rolo formado. Entrei de frente. Resultado, fomos parar na delegacia.
Hum...
Ricardo sorriu bondosamente, mas o homem queria mesmo era conversar com o distinto. Olhou para o irmão, mas ele nem notava o que se passava. Estava perdido na conversa, em frente de duas professoras bem usadas, para não dizer velhuscas. A que contava a história fazia dengues na voz.
Juro que não sei o que fazer. Mas é um moreno de botar Clark Gable no chinelo. Um tipão de ombros largos. Remador do Flamengo. Uns olhos verdes enormes. Um bigode fininho. Um cabelo negro e liso que cai para a frente...
E daí?
Daí não sei que fazer...
Mas, se o senhor pensa que ficou só na coisa da galinha, está redondamente enganado. A gente foi se deitar pertinho da meia-noite. E quem é que dormia? Todo mundo nervoso dentro de casa. Tomando água de flor de laranjeira. Indo lá fora na casinha, abrindo a porta da cozinha que rangia pra burro.
Hum...
Um tipo assim e com aquele sorriso tira a serenidade de qualquer mulher. Fala com a gente, devorando a gente com aquele modo de sorrir. Sabe o que ele me propôs?
Não. Mas você vai contar.
Claro. Te conto tudo na vida. Não fosse você minha amiga de infância. Bem, ele me convidou para irmos sábado na sessão das quatro no Metro-Passeio. Nem sei se devo ir.
Se fosse eu ia de olhos fechados...
Além daquele rebuliço dentro de casa, o calor danou-se mesmo. O lençol, a cama, tudo esquentava que nem fogo. Eu pensei abrir a janela. Mas a patroa reclamou que entrava mosquito. Falei que a gente abria e botava flit. Mas aí quem pegou fogo foi ela. Se eu estava doido. Logo hoje que ela tivera um trabalho dos diabos para passar cera no soalho...
Imagine ficar numa fila às quatro na cidade. Fila que não acaba mais. Chamando a atenção ao lado daquele atleta bronzeado, maravilhoso. De repente passa um conhecido. E os comentários vão na certa se espalhar.
Ora, querida. Que importa? É você quem dá o duro pegando trem de madrugada. Se sacrificando. Que falem. Mesmo sem a gente fazer nada na vida falam, quanto mais...
Porque na verdade a prefeitura só espia pra cidade mesmo. Copacabana é um luxo. O carnaval leva rios de dinheiro e agora até estádios milionários para um bandão de homem de calça curta correr atrás de uma bola. Um bando de marmanjos que não tem mais o que fazer. O mundo está mesmo perdido. E o resultado é esse: o capim cresce comendo os cantos da rua. Quando chove a rua vira lama pura. E junto ao capinzal se formam poças de água podre e os mosquitos nascem à vontade. Vida, santo Deus!
Hum...
Você iria?
Com um homem desses eu ia até à lua.
Não sei. Fico com medo porque não sei as suas intenções...
E quando a gente ia pegando no sono depois de tanta encrenca. Era mais uma modorra que sono mesmo. Sabe o que aconteceu, moço? Uns vagabundos que não têm nada que fazer ficaram discutindo a formação do selecionado brasileiro. Era um tal de pôr Romeu e tirar Luisinho. Um tal de entrar Diamante Negro e colocar Perácio que não acabava mais. É de deixar qualquer cristão enlouquecido...
Hum...
Como um homem pode botar a cabeça da gente a perder. Só penso nisso. Até quando eu estou dando aulas enxergo os seus olhos dentro do quadro-negro.
Como é que ele se chama?
Ramon. Ah! Ramon dos meus pecados!...
Aí eu não me guentei mesmo. Pulei da cama e abri a janela com estrondo. “Vocês não têm mais o que fazer? E vêm logo perturbar o sono de quem trabalha e tem que se levantar de madrugada? Por que não vão conversar lá na esquina?” Sabe o que eles me responderam, sabe? Xingaram o nome da minha santa mãe que descansa no céu e ainda me mandaram tomar no fiofó...
Aí deu-se a surpresa. O homem distinto do Judeu Errante virou o rosto para o gordo e em vez do hum soltou toda a sua bílis.
Quer saber de uma coisa? Quer? Pois bem. Lá em casa aconteceu algo de parecido. Só que em vez de galinhas eram perus. Até que na sua rua o povo ainda é muito bondoso e pacato. Além de gente conversando sobre futebol, o senhor sabe como fui acordado? Mas sabe mesmo? Com Orlando Silva fazendo uma serenata para mim. Imagine só. Orlando Silva às quatro e meia da manhã cantando “Rosa”, de Pixinguinha, para me acordar. Tá?
O gordo descontrolou-se todo e nem soube responder. O distinto voltou impassível seus olhos para a continuação da viagem do Judeu.
Felizmente o trem já tinha atravessado Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz e chegava em Madureira, onde o gordo se levantou com a sua pasta de couro preto-russa.
Rapidamente em seu lugar se postou um indivíduo mais ou menos moço, muito perfumado e de cabelos bastante encaracolados, fugindo da moda, porque a moda era alisar ao máximo os cabelos, como o fazia George Raft. Mal o trem rodou nos trilhos, pôs-se a cantarolar baixinho um bolero da moda, com uma sofrível vozinha de falsete.
Vou?
Vá.
Depende.
Do quê?
Não sei. Mas já estamos chegando a Cascadura. De Cascadura até Engenho de Dentro eu te digo se vou.
Alguém comentou em Cascadura.
Não é mesmo que estão começando a instalar as redes elétricas para os novos trens? Vai ser um luxo de matar.
Besteira. É mesmo que dar pérolas aos porcos. É só botar trem mais maneirinho e limpo que o povo rebenta em dois tempos.
Surgiu a estação de Quintinho.
Vou?
Pois claro, mulher.
Encantado apareceu na sua estação apinhada.
Acho que vou mesmo. Tudo indica que vá.
Se não for me dê o endereço que eu vou voando.
Engenho de Dentro apareceu bem perto. Ela se levantou e foi tentar abrir o público no corredor do trem.
Pela última vez perguntou.
Vou mesmo?
Claro que deve ir. Não é sempre que se encontra um homem assim na vida.
O que pode a força de uns olhos verdes. Até amanhã.
Mas ao passar por um mulatão de quase dois metros sentiu-se agarrada no braço por uma mão calejada e forte. Olhou o mulato espavorida. Ele sorria cinicamente nos dentes de ouro.
Sabe, dona, se eu fosse a senhora ia. Mas ia agora e ficava esperando até sábado. Porque na vida a senhora nunca viu uma coisa dessas. Um homem desse tipo não existe nem pra Gata Borralheira. Quanto mais pra senhora. Se aparecesse um homem desses, de verdade, eu acho que até eu ia voando...
Ela se esgueirou nervosa e o mulato riu gostosamente. Sabia que naquele aperto e na pressa de descer não estava se arriscando a levar com a sombrinha pelas fuças.
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José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça