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12/11/2023

O soldado adormecido

Muitos alegam que não conseguem ler Os sertões (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909), por causa de seu tamanho volumoso e de seu estilo aparentemente impenetrável, mas o leitor que seguir este conselho infeliz perderá a seguinte cena — apresentada somente vinte páginas após o início da primeira parte, intitulada “A Terra”:

Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão, e protegido por ela — braços longamente abertos, face volvida para os céus — um soldado descansava.
Descansava... havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses — braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme — o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria — lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.
Os cavalos mortos naquele mesmo dia, semelhavam espécimes empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.

O capítulo chama-se “Higrômetros singulares” e é sobre como o clima dos sertões da Bahia — palco onde acontece a famosa campanha da guerra contra o povoado de Canudos, razão de todo o livro — é tão estranho que, de dia, é de um calor insuportável para quem está acostumado com a temperatura amena do sudeste do Brasil, e, de noite, é de um frio enregelante para quem esperava alguma coerência naquele ambiente. Mas este não é caso: o clima dos sertões é tão bizarro que permite essa ambiguidade moral espelhada no corpo do pobre soldado morto, caído provavelmente durante a expedição fracassada do coronel Moreira César, ocorrida em julho de 1897 — um corpo que, apesar de destituído de vida, ainda assim serve como instrumento para o estudioso analisar minuciosamente as metamorfoses estranhas do ambiente que ali reina.
O estudioso, no caso, é ninguém menos que Euclides da Cunha, um jovem de 31 anos que, como correspondente do jornal republicano O Estado de S. Paulo, estava naquele lugar inóspito para cobrir a quarta expedição feita pelo Exército brasileiro contra o povoado monarquista de Canudos, liderado pelo anacoreta Antônio Conselheiro. A queda definitiva do “arraial maldito” aconteceria somente no dia 3 de outubro de 1897, quando enfim a cabeça de Conselheiro seria decepada para mostrar à sociedade nacional que os inimigos da República não tinham perdão — mas Euclides não estava lá no dia para testemunhar o evento, já que apresentava sintomas de febre e de hemoptise e por isso teve de ir embora. Recolhido na fazenda de seu pai, Manuel Rodrigues, ele começava a rememorar o que tinha observado na visita e pouco a pouco percebia que algo estava mudando em seus ideais de defensor da República brasileira. O que tinha visto não era só um combate do progresso técnico contra o primitivismo religioso, como pensavam muitos de seus contemporâneos, tão republicanos quanto Euclides. O que viu foi a própria natureza da realidade tal como ela se apresenta a cada um de nós nesses momentos cruciais em que somos obrigados a aceitar ou não se aprendemos a lidar com sua indiferença.
Como mostrar essa revelação ao leitor comum? O episódio do instrumento singular que Euclides faz questão de inserir logo no início do seu “livro vingador” mostra justamente sua preocupação por tal abordagem. Apesar de marcante para quem lê Os sertões — o livro que seria reelaborado na memória do jovem correspondente e publicado cinco anos após a campanha sangrenta de Canudos —, é de notar que não há nenhuma menção ao soldado morto nas páginas do Diário de uma expedição ou da Caderneta de campo, escritos que Euclides redigiu enquanto estava no centro do redemoinho e que seriam publicados após sua morte. Como ele teria encontrado este aparelho singular? Será que tal fato realmente existiu — uma vez que faz parte de um livro que pretende contar os fatos como aconteceram, um livro que conta uma narrativa para provar ao seu público que esta guerra tinha sido um verdadeiro massacre?
De acordo com Rodrigo Gurgel, em Esquecidos e superestimados, o surgimento do soldado morto pode ter outras fontes — não necessariamente ligadas à realidade. O episódio teria um caráter de “fantasia”, não no sentido de algo que foi elaborado completamente pela imaginação, mas como algo que reelabora o fato real em função de um modelo literário, transcendendo o mero evento para a possibilidade de que o leitor também imagine que há outros fatores que estão em jogo na descrição da campanha de Canudos, muito além da busca por uma verdade factual que reduza o aspecto trágico da História a ser narrada. A suposição de Gurgel é a de que o modelo do episódio não foi algo que precisava ter sido vivenciado por Euclides no lugar descrito, mas sim na própria literatura — no caso, o famoso poema de Rimbaud, “O adormecido do vale”. Se lermos seus versos com atenção, é espantoso perceber as semelhanças:

Era um recanto verde onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono,
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, ó Natureza — aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

Gurgel faz suposições insólitas sobre a possibilidade de Euclides ter conhecido ou não as poesias de Rimbaud enquanto escrevia Os sertões, todas baseadas nos fatos apresentados por Frederic Amory em Euclides da Cunha: uma odisseia nos trópicos, sem dúvida a biografia mais completa do escritor. É bem possível que Euclides tenha conhecido o soneto do poeta francês; à época da redação de seu livro, ele viveu em São José do Rio Pardo entre 1898 e 1901 — e teve intensa convivência com o intendente da pequena cidade, Francisco Escobar, um jovem culto que conhecia a poesia francesa como poucos, graças a sua vasta biblioteca de autodidata. Como Amory afirma que Euclides conhecia o trabalho de Maurice Rollinat, um poeta contemporâneo de Rimbaud, o que lhe faltava para também ter lido os poemas do rebelde Arthur? A pergunta de Gurgel é importante para a exatidão dos estudos literários, mas é fundamental que o leitor, fascinado com o episódio do soldado morto, se pergunte: até que ponto tudo o que é relatado em Os sertões aconteceu de verdade? E mais: como isso afeta a importância dessa obra na nossa sensibilidade nacional?
[…]

Martim Vasques da Cunha, in A poeira da glória

11/05/2017

Se nos permite uma sugestão


PARA: EUCLIDES DA CUNHA
ASSUNTO: OS SERTÕES

Senhor,

Nesses dias de econômicos 140 toques, é digno de louvor seu fôlego, que o levou a produzir uma obra de mais de 1 milhão de caracteres. Mas, por favor, raciocine conosco: quem, em sã consciência, empunharia esse catatau e o leria na praia, na piscina ou mesmo na cama, antes de dormir? Sim, o leitor é, antes de tudo, um forte (kkkkk), mas não vamos exagerar. Nos tempos atuais, o que tem de gente com tendinite não é um fator a ser desprezado. As estimativas da OMS estão aí, para comprovar.
Por isso, na hipótese de nosso parecer final vir a ser favorável (não conseguimos terminar a primeira parte, bem pedregosa, por sinal), seria de bom alvitre considerar a possibilidade de uma edição apenas em e-book, já que o leitor digital não pesa mais de 200 gramas. E ainda há que se ponderar uma vantagem: o dispositivo oferece a opção de se clicar na palavra e a definição da mesma surgir na tela instantaneamente. Como seu livro está coalhado de termos esdrúxulos, tal facilidade evitaria que o leitor precisasse recorrer amiúde ao dicionário.
Entraremos em contato posteriormente.
PS: Um de nossos colaboradores (freelancer no departamento de marketing), afeito à numerologia, aventou a troca do “i” de seu nome por um “y”: Euclydes. Fica a dica.
Maria Emilia Bender, in Revista Piauí

14/03/2016

Um sonho de geólogo

Ilustração: Rodrigo Rosa

É uma sugestão empolgante.
Vai-se de boa sombra com um naturalista algo romântico, imaginando-se que por ali turbilhonaram, largo tempo, na idade terciária, as vagas e as correntes.
Porque, a despeito da escassez de dados permitindo uma dessas profecias retrospectivas, no dizer elegante de Huxley, capaz de esboçar a situação daquela zona em idades remotas, todos os caracteres que sumariamos reforçam a concepção aventurosa.
Alentam-na ainda: o estranho desnudamento da terra; os alinhamentos notáveis em que jazem os materiais fraturados, orlando, em verdadeiras curvas de nível, os flancos das serranias; as escarpas dos tabuleiros terminando em taludes a prumo, que recordam falaises; e, até certo ponto, os restos da fauna pliocena, que fazem dos caldeirões enormes ossuários de mastodontes, cheios de vértebras caldeirões desconjuntadas e partidas, como se ali a vida fosse, de chofre, salteada e extinta pelas energias revoltas de um cataclismo.
Há também a presunção derivada de situação anterior, exposta em dados positivos. As pesquisas de Fred Hartt, de fato, estabelecem, nas terras circunjacentes a Paulo Afonso, a existência de inegáveis bacias cretáceas; e sendo os fósseis que as definem idênticos aos encontrados no Peru e México, e contemporâneos dos que Agassiz descobriu no Panamá - todos estes elementos se acolchetam no deduzir-se que vasto oceano cretáceo rolou as suas ondas sobre as terras fronteiras das duas Américas, ligando o Atlântico ao Pacífico. Cobria, assim, grande parte dos Estados setentrionais brasileiros, indo bater contra os terraços superiores dos planaltos, onde extensos depósitos sedimentários denunciam idade mais antiga, o paleozóico médio.
Então, destacadas das grandes ilhas emergentes, as grimpas mais altas das nossas cordilheiras mal apontavam ao norte, na solidão imensa das águas...
Não existiam os Andes o Amazonas, largo canal entre altiplanuras das Guianas e as do continente, separava-as, ilhadas. Para as bandas do sul o maciço de Goiás - o mais antigo do mundo - segundo a dedução de Gerber, o de Minas e parte do Planalto Paulista, onde fulgurava, em plena atividade, o vulcão de Caldas, constituíam o núcleo do continente futuro ...
Porque se operava lentamente uma sublevação geral: as Nassas graníticas alteavam-se ao norte arrastando o conjunto geral das terras numa rotação vagarosa em torno de um eixo, imaginado por Em Liais entre os chapadões de Barbacena e a Bolívia. Simultaneamente, ao abrir-se a época terciária, se realiza o fato prodigioso do alevantamento dos Andes; novas terras afloram nas águas: tranca-se, num extremo, o canal amazônico, transmudando-se no maior dos rios; ampliam-se os arquipélagos esparsos, e ganglionam-se em istmos, e fundem-se; arredondam-se, maiores, os contornos das costas; e integra-se lentamente, a América.
Então os terrenos da extrema setentrional da Bahia, que se resumiam nos cachopos de quartzito de Monte Santo e visos de Itiúba, esparsos pelas águas, avolumaram-se, num ascender contínuo. Elas nesse vagaroso altear-se, enquanto as regiões mais altas recém-desvendadas, se salpintavam de lagos, toda a parte média daquela escarpa permanecia imersa. Uma corrente impetuosa, de que é forma decaído a atual da nossa costa, enlaçava-a. E embatendo-a longamente, domina enquanto o resto do país, ao sul, se erigia já constituído, e corroendo-a, e triturando-a, remoinhando para oeste e arrebatando todos os materiais desagregados, modelava aquele recanto da Bahia até que ele emergisse de todo, seguindo o movimento geral das terras, feito informe amontoado de montanhas derruídas.
O regímen desértico ali se firmou, então, em flagrante antagonismo com as disposições geográficas: sobre uma escarpa, onde nada recorda as depressões sem escoamento dos desertos clássicos.
Acredita-se que a região incipiente ainda está preparando-se para a Vida: o líquen ainda ataca a pedra, fecundando a terra. E lutando tenazmente com o flagelar do clima, uma flora de resistência rara por ali entretece a trama das raízes, obstando, em parte, que as torrentes arrebatem todos os princípios exsolvidos - acumulando-os pouco a pouco na conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza - sem impedir, contudo, nos estios longos, as insolações inclementes e as águas selvagens, degradando o solo.
Daí a impressão dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão - quase um deserto - quer se aperte entre as dobras de serranias nuas ou se estire, monotonamente, em descampados grandes…
Euclides da Cunha, in Os Sertões

10/01/2016

Primeiras impressões

http://papoglobal.com/portal/wp-content/uploads/2014/12/OS-SERT%C3%95ES.jpg 

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça - dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam - no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos - é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.
Dissociam-na nos verões queimosos; degradam-na nos invernos torrenciais. Vão do desequilíbrio molecular, agindo surdamente, à dinâmica portentosa das tormentas. Ligam-se e completam-se. E consoante o preponderar de uma e outra, ou o entrelaçamento de ambas, modificam-se os aspectos naturais. As mesmas assomadas gnáissicas caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares, que surgem em numerosos pontos, dando, às vezes, a ilusão de encontrar-se, de repente, naqueles ermos vazios, majestosas ruinarias de castelos -- adiante se cercam de fraguedos, em desordem, mal seguros sobre as bases estreitas, em ângulos de queda, incombentes e instáveis, feito loghans oscilantes, ou grandes desmoronamentos de dolmens; e mais longe desaparecem sob acervos de blocos, com a imagem perfeita desses "mares de pedra" tão característicos dos lugares onde imperam os regímens excessivos. Pelas abas dos cerros, que tumultuam em roda - restos de velhíssimas chapadas corroídas -, se derramam, ora em alinhamentos relembrando velhos caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajens fraturadas, delatando idênticas violências. As arestas dos fragmentos, onde persistem ainda cimentados ao quartzo os cristais de feldspato, são novos atestados desses eleitos físicos e mecânicos que, despedaçando as rochas, sem que se decomponham os seus elementos formadores, se avantajaram ao vagar dos agentes químicos em função dos fatos meteorológicos normais.
Deste modo se tem a cada passo, em todos os pontos, um lineamento incisivo de rudeza extrema. Atenuando-o em parte, deparam-se várzeas deprimidas, sedes de antigos lagos, extintos agora em ipueiras apauladas, que demarcam os pousos dos vaqueiros. Recortam-nas, no entanto, abertos em caixão, os leitos as mais das vezes secos de ribeirões que só se enchem nas breves estações das chuvas. Obstruídos, na maioria, de espessos lastros de blocos entre os quais, fora das enchentes súbitas, defluem tênues fios de água, são uma reprodução completa dos oueds que marginam o Saara. Despontam-lhes em geral, normais às barrancas, estratos de um talcoxisto azul-escuro em placas brunidas reverberando a luz em fulgurar metálico - e sobre elas, cobrindo extensas áreas, camadas menos resistentes de argila vermelha, cindidas de veios de quartzo, interceptando-lhes, discordantes, os planos estratigráficos. Estas últimas formações, silurianas talvez, cobrem de todo as demais à medida que se caminha para NE e apropriam-se a contornos mais corretos. Esclarecem a gênese dos tabuleiros rasos, que se desatam, cobertos de uma vegetação resistente, de mangabeiras, até Jeremoabo.
Para o norte, porém, inclinam-se mais fortemente as camadas. Sucedem-se cômoros despidos, de pendores resvalantes, descaindo em quebradas onde enxurram torrentes periódicas, solapando-os; e pelos seus topos divisam-se, alinhadas em fileiras, destacadas em lâminas, as mesmas infiltrações quartzosas, expostas pela decomposição dos xistos em que se embebem.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente - ofuscante, num irradiar ardentíssimo.
As erosões constantes quebram, porém, a continuidade destes estratos que ademais, noutros pontos, desaparecem sob as formações calcárias. Mas o conjunto pouco se transmuda. A feição ruiniforme destas, casa-se bem a dos outros acidentes. E nos trechos em que elas se estiram, planas, pelo solo, desabrigadas de todo ante a acidez corrosiva dos aguaceiros tempestuosos, crivam-se, escarificadas, de cavidades circulares e acanaladuras fundas, diminutas mas inúmeras, tangenciando-se em quinas de rebordos cortantes, em pontas e duríssimos estrepes que impossibilitam as marchas.
Deste modo, por qualquer vereda, sucedem-se acidentes pouco elevados mas abruptos, pelos quais tornejam os caminhos, quando não se justapõem por muitas légua aos leitos vazios dos ribeirões esgotados. E por mais inexperto que seja o observador - ao deixar as perspectivas majestosas, que se desdobram ao Sul, trocando-as pelos cenários emocionantes daquela natureza torturada, tem a impressão persistente de calcar o fundo recém-sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens…
Euclides da Cunha, in Os Sertões

05/01/2014

A seca (trecho)

Imagem: Google

De repente, uma variante trágica.
Aproxima-se a seca.
O sertanejo adivinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo.
Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará.
Buckle, em página notável, assinala a anomalia de se não afeiçoar nunca, o homem, às calamidades naturais que o rodeiam. Nenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano; e no Peru as crianças ao nascerem têm o berço embalado pelas vibrações da terra.
Mas o nosso sertanejo faz exceção à regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estoico. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível.
Com os escassos recursos das próprias observações e das dos seus maiores, em que ensinamentos práticos se misturam a extravagantes crendices, tem procurado estudar o mal, para o conhecer, suportar e suplantar. Aparelha-se com singular serenidade para a luta. Dois ou três meses antes do solstício de verão, especa e fortalece os muros dos açudes, ou limpa as cacimbas. Faz os roçados e arregoa as estreitas faixas de solo arável à orla dos ribeirões. Está preparado para as plantações ligeiras à vinda das primeiras chuvas.
Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas; atenta longamente nos quadrantes; e perquire os traços mais fugitivos das paisagens...
Os sintomas do flagelo despontam-lhe, então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... Do mesmo passo nota que os dias, estuando logo ao alvorecer, transcorrem abrasantes, à medida que as noites se vão tornando cada vez mais frias. A atmosfera absorve-lhe, com avidez de esponja, o suor na fronte, enquanto a armadura de couro, sem mais a flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos ombros, esturrada, rígida, feito uma couraça de bronze. E ao descer das tardes, dia a dia menores e sem crepúsculos, considera, entristecido, nos ares, em bandos, as primeiras aves emigrantes, transvoando a outros climas...
É o prelúdio da sua desgraça.
Vê-o acentuar-se, num crescendo, até dezembro.
Precautela-se: revista, apreensivo, as malhadas. Percorre os logradouros longos. Procura entre as chapadas que se esterilizam várzeas mais benignas para onde tange os rebanhos. E espera, resignado, o dia 13 daquele mês. Porque em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a Providência.
Euclides da Cunha, in Os sertões

24/07/2011

Trecho final de "Os Sertões", de Euclides da Cunha




O cadáver do Conselheiro

          Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro.
        Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do "famigerado e bárbaro" agitador.    Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefato, e esquálido, olhos fundos cheios de terra - mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.
          Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa - único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! - , faziam-se mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma massa angulhenta de tecidos decompostos.
      Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava, afinal, extinto aquele terribilíssimo antagonista.
      Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita - e, como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores...
     Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura... 

Capítulo VII

Duas linhas

         É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...

FIM


11/07/2011

Canudos não se rendeu


Fechemos este livro.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.
Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem. . .
Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos...
E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante - e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa História ?
Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.


Excerto final de Os Sertões, de Euclides da Cunha