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06/11/2024

Relendo Rilke (e com direito a Jorge Amado)

Ao som das canções de Sarah Vaughan, dei ultimamente – embora já dele tão distanciado por tantas e tão grandes causas – de reler o poeta Rainer Maria Rilke. Andei folheando as Cartas a um jovem poeta, os Sonetos a Orfeu e algumas Elegias de Duíno. E o que tenho a dizer é o seguinte: poucos seres tão poéticos nasceram nunca de uma mulher. Pouquíssimos, como esse Grande Enfermo, viveram tanto em poesia e se abandonaram mais fundamente, náufrago irremediável, à avidez de suas águas onde o esperava o indizível abandono.
Nunca vida humana fechou-se mais completamente dentro de uma mística. Chega a ser impressionante. Rilke passou, como aquele “afogado pensativo”, a descer os “azuis verdes” dos céus e dos rios que a visão de Jean-Arthur Rimbaud confundiu no seu poema “Le Bateau ivre”. O poeta viveu em transe poético constante, amargurando seu espírito contra todos os temas da Vida, do Amor e da Morte, a que piedosamente amou como uma única entidade.
Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação. Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se despojar do seu alburno humano. Seus poemas menores vencem lentamente todos esses “graus do terrível”, num crescimento espontâneo para a grande enflorescência, de onde penderão os melhores frutos, desejosos de renovação na terra.
Em 1910 Rilke terminava os seus famosos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde contou, com uma beleza raras vezes alcançada em prosa, a história elegíaca da destruição de um ser votado à fatalidade irremediável da mágoa. Porque é mágoa, mais que angústia, o que colhemos dessa narrativa: a mágoa do mal-entendido humano, o solilóquio desolador do homem desajustado à vida. A qualidade do sofrimento que lhe vem dessa torturante criação, como que lhe afina ainda mais a sensibilidade, já de si tão aguçada para todos os sussurros da poesia. O poeta pena, como penou por um momento o Cristo, da coexistência íntima da dúvida e da certeza, enquanto vagueia, morbidamente enfraquecido pela doença, pelos lugares que mais ama na Europa: Paris, a Rússia e os países escandinavos, intermitentemente.
Em fins de 1911, instado pelos príncipes de Tour e Taxis, Rilke vai passar sozinho o inverno no Castelo de Duino. Um belo dia de janeiro, passeando às bordas de um penhasco sobre o Adriático, diz ter ouvido no vento o mistério de uma voz que lhe dizia: “Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio à hierarquia dos anjos?” Eriçado, e ao mesmo tempo atônito com o milagre dessas palavras que lhe surgiam com a própria poesia desejada, o poeta as anotou e, nesse mesmo dia, escrevia o primeiro movimento desse bloco sinfônico a que chamou Elegias de Duíno. Tão temperados se achavam nele os motivos da obra em perspectiva que, em poucos dias, escrevia a segunda da série e o começo de quase todas as outras.
Mas o impulso cessou. Por dez anos Rilke calou-se, à espera de que nele as palavras encontrassem seu lugar exato no grande puzzle poético que se desencadeara. Em Paris, na Espanha e em Munique acrescentou fragmentos a algumas das elegias, sofrendo terrivelmente da descontinuidade com que a poesia se revelava. E não seria senão depois da Primeira Grande Guerra, no seu refúgio da Suíça, em Muzot, que num sopro de criação poucas vezes igualado, só comparável talvez a certos instantes de música e de pintura em Miguelangelo e Beethoven, escreveria em três semanas as oito elegias restantes, Os 55 Sonetos a Orfeu e vários outros poemas a que chamou Fragmentarishes. Fora o último espasmo de vida nesse eterno, sereno moribundo. A Morte, sua amiga, desobjetivava-o poucos anos depois, como “um rio que leva”. Rilke recusou o médico: queria morrer a sua morte.
Mas, depois, o mal-estar em que me deixou essa combinação de Rilke e Sarah Vaughan... Foi quando tive a boa ideia de ler tua novela A morte e a morte de Quincas Berro D'água, Jorge. Que mortes tão diferentes... Que beleza, Jorge, que beleza!

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

09/07/2024

Perene

Vaza-me os olhos e ainda poderei ver-te,
obstrui-me o tímpano e poderei ouvir-te ainda…
Sem pés, posso ir ao teu encontro.
Sem língua, posso evocar-te sempre.
Corta-me os braços, poderei abraçar-te.
E envolver-te com meu coração como se fosse a mão.
Despedaça-me meu coração e meu cérebro palpitará,
Do mesmo modo, fielmente.
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue.

Rainer Maria Rilke a Lou Andreas Salomé

14/12/2021

A ética da solidão


A criação literária, para Rilke, é uma experiência assustadora: algo terrível permanece sempre oculto e o escritor precisa saber que há um núcleo impermeável às palavras. Transformado, pela vocação, em aprendiz de feiticeiro, o autor submete-se à escassez da revelação – como o relâmpago cruzando o céu de um anjo. Esse pequeno vislumbre – o Belo, a arte verdadeira – só pode ser percebido na coragem da solidão.
Penetrar nesse território sagrado é buscar o humano desprovido de disfarces. Em Cartas a um jovem poeta, Rilke escreve o roteiro dessa dolorosa passagem em direção à essência. O ato de arrancar a fantasia cotidiana grudada à carne não significa apenas recolher-se à solidão seminal da criação. Mas, especialmente, desistir da moeda mais cobiçada, o reconhecimento, cruzar o pior dos umbrais – a indiferença – e encontrar o mais amedrontador dos mundos, povoado pela necessidade absoluta.
Nas palavras dirigidas a Franz Xaver Kappus, que lhe pediu socorro num momento decisivo da vocação, Rilke expõe as bases do seu processo criativo. É de sua própria literatura que está falando, limite que libera o caráter universal de uma obra considerada difícil. Mas não se trata de uma introdução ao que parece intrincado nos seus outros livros. É, antes, uma convivência com eles, uma irmandade – talvez mais feliz na clareza, mas igualmente soberba na claridade.
Cartas a um jovem poeta é a antologia de uma correspondência. Isso acontece graças a uma dupla generosidade. Primeiro, a do escritor consagrado que dedica parte do seu tempo a orientar um autor iniciante. Segundo, a do destinatário que omite sua participação, como forma de reconhecer uma espiritualidade superior. Esta é uma das lições deste pequeno livro. Pois não basta talento ou determinação, é preciso desprendimento. Compartilhar com o outro os segredos mais íntimos, e reconhecer no semelhante a possibilidade do gênio, gera o ambiente necessário para a literatura de verdade, que confere dignidade ao presente e desafia a voragem do tempo.
Ao aconselhar a solidão contra o brilhareco da vida literária, Rilke reconhece nela a verdadeira face da natureza humana, a fonte da arte que não pode ser apartada de uma vida norteada pela ética. É aí que reside a lucidez da espiritualidade, antídoto à irracionalidade da crítica – território minado do pseudopensamento científico. É como se fosse uma esgrima contundente contra o obscurantismo, uma forma de contrapor a seriedade do trabalho poético à superficialidade das análises. Esse aspecto polêmico reveste as Cartas de um alcance mais profundo do que o simples conselho, e mais amplo do que o trato do trabalho literário. A obra de arte, ser misterioso, precisa mais de amor do que compreensão para revelar seus segredos.
A receita amarga da sinceridade como resposta à admiração de Kappus é a lição mais dura deste feixe de palavras que cruza um século sem perder o fio do seu corte. Cem anos depois, as Cartas funcionam como um alerta para os vícios da nossa época, submetida, mais do que qualquer outra, à sordidez da superficialidade, justificada como insumo democratizador. É como se Rilke nos esperasse no futuro, com seus princípios intactos, não para cobrar a conta, mas com sua iluminação eternamente disponível para uma vida mais completa. Graças à tradução de Paulo Rónai, intelectual e multilinguista húngaro naturalizado brasileiro, as Cartas chegam até nós com o viço da linguagem bem resolvida. É quando os talentos de línguas diversas se sintonizam para privilegiar a leitura e, por meio dela, o conhecimento e a emoção. Rilke está bem acompanhado por Paulo Rónai e Cecília Meireles – que verteu para nossa língua A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke, publicada na sequência das Cartas. A excelência da criação exige que as editoras encontrem as pessoas certas, para que a literatura se universalize em sua diversidade. O trabalho de Cecília Meireles na tradução da saga do ancestral morto na batalha, pinçado pelo poeta na história familiar, abre as portas para uma viagem literária de inúmeras revelações. A principal delas é que o mito pode ser encontrado – ou criado – a partir dos detalhes da memória pessoal e da saga comunitária.
Para Rilke, o trabalho demiúrgico do escritor não está acima ou fora do humano. Talvez o preceda – e esse é o aspecto mítico e ancestral da sua poesia. Ou apenas o revele na sua verdadeira grandeza – e esse deve ser o segredo da sua força e permanência.

Nei Duclós, in Prefácio a Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke

10/03/2021

1926… Pasternak, Tsvetáieva, Rilke

          O que está acontecendo em 1926, quando os três poetas estão escrevendo uns para os outros?
No dia 12 de maio, a “Sinfonia nº 1 em fá menor” de Chostakóvitch é executada pela primeira vez, pela Filarmônica de Leningrado; o compositor tem dezenove anos.
No dia 10 de junho, o idoso arquiteto catalão Antonio Gaudí, na caminhada que faz todos os dias do local onde está sendo construída a Catedral da Sagrada Família até uma igreja no mesmo bairro, em Barcelona, para assistir à missa das vésperas, é atropelado por um bonde, fica estirado na rua, sem socorro (porque ninguém o reconheceu, pelo que dizem), e morre.
No dia 6 de agosto, Gertrude Ederle, dezenove anos, americana, nada do cabo Gris-Nez, na França, até Kingsdown, na Inglaterra, em catorze horas e 31 minutos, e se torna a primeira mulher a cruzar a nado o canal da Mancha e a primeira mulher a superar um recordista masculino, competindo num esporte de alto rendimento.
No dia 23 de agosto, o ídolo do cinema Rodolfo Valentino morre de endocardite e septicemia num hospital em Nova York. N
o dia 3 de setembro, uma torre de aço de transmissão de rádio (Funkturm), de 138 metros de altura, com um restaurante e um mirante, é inaugurada em Berlim.
Alguns livros: volume 2 do Minha luta, de Hitler, Edifícios brancos, de Hart Crane, Winnie Puff, de A. A. Milne, A terceira fábrica, de Viktor Chklóvski, O camponês de Paris, de Louis Aragon, A serpente emplumada, de D. H. Lawrence, O sol também se levanta, de Hemingway, O assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, Os sete pilares da sabedoria, de T. E. Lawrence.
Alguns filmes: Metropolis, de Fritz Lang, A mãe, de Vsevolod Pudóvkin, Nana, de Jean Renoir, Beau Geste, de Herbert Brenon.
Duas peças: Um homem é um homem, de Bertolt Brecht, e Orfeu, de Jean Cocteau.
No dia 6 de dezembro, Walter Benjamin chega a Moscou para uma estada de dois meses. Não se encontra com Boris Pasternak, de 36 anos de idade.
Pasternak não vê Marina Tsvetáieva há quatro anos. Desde que ela deixou a Rússia, em 1922, os dois tornaram-se os mais queridos interlocutores um do outro, e Pasternak, tacitamente reconhecendo em Tsvetáieva a poeta maior, fez dela a sua primeira leitora.
Tsvetáieva, que tem 34 anos, vive na penúria, com o marido e dois filhos, em Paris.
Rilke, que tem 51 anos, está morrendo de leucemia num sanatório na Suíça.

Cartas: Verão de 1926 é um retrato do delírio sagrado da arte. São três participantes: um deus e dois adoradores, que são também adoradores um do outro (e que nós, os leitores de suas cartas, sabemos ser futuros deuses).
Um casal de jovens poetas russos, que durante anos trocaram cartas fervorosas sobre a obra e a vida, passam a corresponder-se com um grande poeta alemão que, para ambos, é a poesia personificada. Essas cartas de amor tridirecionais — pois se trata de cartas de amor — são uma incomparável dramatização do entusiasmo pela poesia e pela vida do espírito.
Retratam uma esfera de sentimento temerário e de pureza de aspiração que seria, para nós, um desperdício descartar como “romântica”.
A literatura escrita na Alemanha e na Rússia era particularmente dedicada à exaltação espiritual. Tsvetáieva e Pasternak sabem alemão e Rilke estudou e alcançou um domínio razoável do russo — os três impregnados pelos sonhos de divindade literária promulgados naquelas línguas. Os russos, amantes da poesia e da música alemãs desde a infância (as mães dos dois eram pianistas), esperam que o grande poeta da época seja alguém que escreva na língua de Hölderlin e Goethe. E o poeta de língua alemã teve como um amor de juventude, e como sua mentora, uma escritora, nascida em São Petersburgo, com quem ele viajou duas vezes à Rússia, e desde então considerou aquele país a sua verdadeira pátria espiritual.
Na segunda viagem à Rússia, em 1900, Pasternak de fato viu e provavelmente foi apresentado ao jovem Rilke.
O pai de Pasternak, pintor famoso, era um estimado conhecido de Rilke. Boris, o futuro poeta, tinha dez anos de idade. É com a sagrada recordação de Rilke ao embarcar num trem com a sua amante, Lou Andreas-Salomé — eles permanecem respeitosamente anônimos —, que Pasternak começa Salvo-conduto (1931), a sua maior realização na prosa.
Tsvetáieva, é claro, nunca pôs os olhos em Rilke.
Os três poetas são sacudidos por necessidades aparentemente incompatíveis: a solidão mais absoluta e a mais intensa comunhão com outro espírito de opiniões afins. “Minha voz só consegue soar pura e límpida quando absolutamente solitária”, diz Pasternak ao seu pai, numa carta. O ardor modulado pela intransigência guia todos os escritos de Tsvetáieva. Em “Arte à luz da consciência” (1932), ela escreve:

O poeta só pode ter uma prece: não compreender o inaceitável — que eu não compreenda, para que eu não seja seduzida... que eu não ouça, para que eu não responda... A única prece do poeta é uma prece por surdez.

E os dois passos de dança característicos da vida de Rilke, tal como a conhecemos por suas cartas para uma variedade de correspondentes, sobretudo mulheres, são a esquiva de qualquer intimidade e uma oferta de solidariedade e compreensão incondicionais.
Embora os poetas mais jovens se declarem acólitos, as cartas rapidamente se tornam uma troca entre iguais, uma competição de afinidades. Para aqueles familiarizados com os ramos principais da empolada e não raro imponente correspondência de Rilke, pode ser uma surpresa descobri-lo reagindo quase no mesmo tom ávido, jubiloso, que os seus dois admiradores russos. Mas ele nunca tivera interlocutores desse calibre. O Rilke soberano, didático, que conhecemos das Cartas para um jovem poeta, escritas entre 1903 e 1908, desapareceu. Aqui há apenas conversação angélica. Nada a ensinar. Nada a aprender.
A ópera é agora o único meio em que ainda se aceitam exaltações de entusiasmo. O dueto que conclui Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss, cujo libreto é de um contemporâneo de Rilke, Hugo von Hofmannsthal, oferece uma efusividade comparável. Sem dúvida, nos sentimos mais confortáveis com o hino ao amor como renascimento e autotransformação, cantado por Ariadne e Baco, do que com os arroubos de sentimento amoroso expressos pelos três poetas.
E essas cartas não são duetos de encerramento. São duetos que tentam, e por fim não conseguem, ser trios. Que tipo de posse mútua os poetas almejam? Em que medida esse tipo de amor consome e é exclusivo?
A correspondência começou entre Rilke e Pasternak, tendo o pai de Pasternak como intermediário. Depois, Pasternak sugeriu a Rilke escrever para Tsvetáieva, e a situação se converte numa correspondência à trois. Última a entrar na arena, Tsvetáieva rapidamente se torna a força deflagradora, tão potentes, tão escandalosas são a sua carência, a sua coragem, a sua nudez emocional. Tsvetáieva é a implacável, superando primeiro Pasternak e depois Rilke. Pasternak, que não sabe mais o que pedir a Rilke, retira-se (e Tsvetáieva também pede uma pausa na correspondência entre eles); Tsvetáieva pode pensar numa ligação erótica, avassaladora. Implorando que Rilke conceda um encontro, tudo o que consegue é afastá-lo. Rilke, por seu turno, fica em silêncio. (Sua última carta para ela foi no dia 19 de agosto.)
O fluxo de retórica alcança o precipício do sublime e desaba na histeria, na angústia, no terror.
Porém, curiosamente, a morte parece bastante irreal. Como os russos ficam aturdidos e chocados quando “esse fenômeno da natureza” (assim consideravam Rilke), em certo sentido, não mais existe. O silêncio havia de ser completo. O silêncio que agora tem o nome de morte parece uma depreciação grande demais.
Portanto, a correspondência tinha de continuar.
Tsvetáieva escreve uma carta para Rilke alguns dias depois de saber que ele havia morrido no fim de dezembro e dedica a ele uma longa ode em prosa (“Sua morte”) no ano seguinte. O manuscrito de Salvo-conduto, que Pasternak completa quase cinco anos após a morte de Rilke, termina com uma carta a Rilke. (“Se você estivesse vivo, esta é a carta que eu lhe enviaria hoje.”) Guiando o leitor por um labirinto de prosa memorialística elíptica até o âmago da interioridade do poeta, Salvo-conduto é escrito sob o signo de Rilke e, ainda que de forma inconsciente, em competição com Rilke, tentando equiparar-se ou mesmo ultrapassar Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), a obra máxima de Rilke em prosa.
No início de Salvo-conduto, Pasternak fala sobre viver ao máximo e dedicar-se aos momentos em que “um sentimento completo irrompe no espaço com toda a vastidão do espaço à sua frente”. Nunca antes se fez, de modo tão agudo, tão arrebatador, uma síntese dos poderes da poesia lírica como nessas cartas. A poesia não pode ser abandonada, não se pode renunciar a ela, quando a pessoa é “o servo da lira”, como Tsvetáieva ensina a Pasternak numa carta em julho de 1925. “Com a poesia, caro amigo, é como no amor; não há separação, até que ela nos largue.”
Ou até que a morte intervenha. Tsvetáieva e Pasternak não desconfiavam que Rilke estava gravemente enfermo. Ao saber que havia morrido, os dois poetas se mostraram incrédulos: falando de modo cômico, parecia injusto. E quinze anos depois, Pasternak ficaria surpreso e com remorsos ao receber a notícia do suicídio de Tsvetáieva, em agosto de 1941. Reconheceu que não havia entendido a inevitabilidade da desgraça que a aguardava, caso ela resolvesse voltar para a União Soviética com a família, como fez em 1939.
A separação tornou tudo repleto. O que teriam dito Rilke e Tsvetáieva um para o outro, caso se encontrassem de fato? Sabemos o que Pasternak não disse para Tsvetáieva quando se reencontraram rapidamente após treze anos, em junho de 1935, no dia em que ele chegou a Paris no terrível papel de delegado soviético oficial para o Congresso Internacional de Escritores em Defesa da Cultura: não a avisou que não devia voltar para Moscou, não devia pensar em voltar.
Talvez os êxtases canalizados nessa correspondência pudessem apenas ser expressos em separado, e em resposta à maneira como eles se frustraram mutuamente (assim como os grandes escritores invariavelmente exigem demais dos leitores e são frustrados por eles). Nada consegue empalidecer a incandescência daquelas trocas ao longo de alguns meses, no ano de 1926, quando eles se exprimiam com veemência uns para os outros e faziam suas exigências impossíveis, gloriosas. Hoje, quando “tudo está naufragando na vulgaridade” — a expressão é de Pasternak —, seus entusiasmos e sua perseverança parecem uma jangada, um farol, uma praia.

Susan Sontag, in Ao Mesmo Tempo – Ensaios e Discursos

18/12/2018

Relendo Rilke (e com direito a Jorge Amado)

Ao som das canções de Sarah Vaughan, dei ultimamente - embora já dele tão distanciado por tantas e tão grandes causas - de reler o poeta Rainer Maria Rilke. Andei folheando as Cartas a um jovem poeta, os Sonetos a Orfeu e algumas Elegias de Duino. E o que tenho a dizer é o seguinte: poucos seres tão poéticos nasceram nunca de uma mulher. Pouquíssimos, como esse Grande Enfermo, viveram tanto em poesia e se abandonaram mais fundamente, náufrago irremediável, à avidez de suas águas onde o esperava o indizível abandono.
Nunca vida humana fechou-se mais completamente dentro de uma mística. Chega a ser impressionante. Rilke passou, como aquele “afogado pensativo”, a descer os “azuis verdes” dos céus e dos rios que a visão de Jean-Arthur Rimbaud confundiu no seu poema “Le Bateau ivre”. O poeta viveu em transe poético constante, amargurando seu espírito contra todos os temas da Vida, do Amor e da Morte, a que piedosamente amou como uma única entidade.
Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação. Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se despojar do seu alburno humano. Seus poemas menores vencem lentamente todos esses “graus do terrível”, num crescimento espontâneo para a grande enflorescência, de onde penderão os melhores frutos, desejosos de renovação na terra.
Em 1910 Rilke terminava os seus famosos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde contou, com uma beleza raras vezes alcançada em prosa, a história elegíaca da destruição de um ser votado à fatalidade irremediável da mágoa. Porque é mágoa, mais que angústia, o que colhemos dessa narrativa: a mágoa do mal-entendido humano, o solilóquio desolador do homem desajustado à vida. A qualidade do sofrimento que lhe vem dessa torturante criação, como que lhe afina ainda mais a sensibilidade, já de si tão aguçada para todos os sussurros da poesia. O poeta pena, como penou por um momento o Cristo, da coexistência íntima da dúvida e da certeza, enquanto vagueia, morbidamente enfraquecido pela doença, pelos lugares que mais ama na Europa: Paris, a Rússia e os países escandinavos, intermitentemente.
Em fins de 1911, instado pelos príncipes de Tour e Taxis, Rilke vai passar sozinho o inverno no Castelo de Duino. Um belo dia de janeiro, passeando às bordas de um penhasco sobre o Adriático, diz ter ouvido no vento o mistério de uma voz que lhe dizia: “Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio à hierarquia dos anjos?” Eriçado, e ao mesmo tempo atônito com o milagre dessas palavras que lhe surgiam com a própria poesia desejada, o poeta as anotou e, nesse mesmo dia, escrevia o primeiro movimento desse bloco sinfônico a que chamou Elegias de Duíno. Tão temperados se achavam nele os motivos da obra em perspectiva que, em poucos dias, escrevia a segunda da série e o começo de quase todas as outras.
Mas o impulso cessou. Por dez anos Rilke calou-se, à espera de que nele as palavras encontrassem seu lugar exato no grande puzzle poético que se desencadeara. Em Paris, na Espanha e em Munique acrescentou fragmentos a algumas das elegias, sofrendo terrivelmente da descontinuidade com que a poesia se revelava. E não seria senão depois da Primeira Grande Guerra, no seu refúgio da Suíça, em Muzot, que num sopro de criação poucas vezes igualado, só comparável talvez a certos instantes de música e de pintura em Miguelangelo e Beethoven, escreveria em três semanas as oito elegias restantes, Os 55 Sonetos a Orfeu e vários outros poemas a que chamou Fragmentarishes. Fora o último espasmo de vida nesse eterno, sereno moribundo. A Morte, sua amiga, desobjetivava-o poucos anos depois, como “um rio que leva”. Rilke recusou o médico: queria morrer a sua morte.
Mas, depois, o mal-estar em que me deixou essa combinação de Rilke e Sarah Vaughan... Foi quando tive a boa ideia de ler tua novela A morte e a morte de Quincas Berro D'água, Jorge. Que mortes tão diferentes... Que beleza, Jorge, que beleza!
Vinicius de Moraes, in Prosa

11/08/2018

O solitário

Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.
Rainer Maria Rilke (Tradução de Maria João Costa Pereira)

08/11/2017

Devo criar?

Por isso, meu caro senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades onde a sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta “Devo criar?” Aceite essa resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte o chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.
Rainer Maria Rilke, in Cartas a um jovem poeta

16/07/2017

Carta sobre Paul Klee



Castelo de Berg am Irchel
Cantão de Zurique
23 de fevereiro de 1921

Meu querido Hausenstein,

quanta razão você teve em me enviar precisamente esse livro! Fui completamente tomado e desde ontem que o estou lendo. O que me surpreende é que você tenha chegado a apresentar as condições, o destino, a fatalidade dessa obra (incomensurável, sempre pensei): você faz isso com uma infalibilidade e uma profundidade que não só ajudam a compreender o trabalho de Klee como me parecem ser decisivas, porque se tenta aqui realizar um corte único na situação presente do artista.
Todos nós vimos a vinda dessa fuga do acontecimento que se desenrola no invisível, essa renúncia, preparada simultaneamente em todas as partes de um mundo que se desliga do equivalente sensível. O profundo desespero da criação em Cézanne, sua luta para “realizar” me deram muitas vezes a impressão de uma violência, na tentativa de voltar a unir, a qualquer preço, o objeto e sua significação; mas já naquele momento o preço era a oblação, a renúncia cotidiana, o sacrifício da vida em favor daquilo que nenhuma apropriação pode subtrair.
Sobre o que Cézanne fez, por mais prodigioso que tenha sido seu triunfo, parece legível a palavra “fatalidade”. É graças ao fato de você não ter hesitado em escrever isso, em inscrever isso na existência de Klee, que você tem, no horizonte deste testemunho, a liberdade necessária para caracterizar as alturas extraordinárias a que pode chegar um homem, caso permaneça atento ao chamado dos dons que lhe são próprios, e caso resista sempre à tentação de empregar meios de expressão que não têm a exatidão a ser atingida. Como os náufragos, ou como aqueles que ficam aprisionados pelas geleiras do mar polar, e que ainda assim conseguem, até o fim, recolher seus sofrimentos e suas emoções para traçar uma última curva de vida na margem totalmente pura da folha em que, até então, ninguém havia chegado; assim Klee (segundo o seu livro) se consagra a descrever as associações e os contatos que nos ligam às aparências defronte de nós. Estas, livres de conexões, se desviam e o ajudam tão pouco que, “ébrio de ausência”, às vezes se torna capaz de utilizar as formas como uma superabundância de sua própria privação.
Talvez aqui seja o ponto onde tem início a clarividência que o destaca, e da qual tive um pressentimento no passado, na época em que (foi em 1915) pude ter na minha casa, durante vários meses, 40 trabalhos dele.
Naquele tempo eu já tinha adivinhado que seu desenho muitas vezes era transcrição de música. Ou melhor, naquele período, inclusive sem ele ter dito que sempre tocava violino, infatigavelmente, tinha adivinhado essa transcrição da música. Para mim, esse é o ponto mais desconcertante da sua existência de artista; pois, se a música de fato oferece ao traço do lápis uma base de necessidades que valem tanto num campo quanto no outro, em todo caso não consigo observar sem algum abalo esse tipo de conivência das artes, dando as costas para a natureza: como se um dia devêssemos sofrer um assalto do inferno e nos encontrarmos espantosamente indefesos.
Acrescento a essas linhas apressadas meus agradecimentos e saudações.
Sinceramente, seu

Rainer Maria Rilke

p.s. Por acaso Klee (tudo isso me faz pensar nele) conhece minhas observações publicadas com o título (que não é meu) de Urgeräusch [ruído primordial]? Envie um exemplar para ele com minhas saudações.

28/03/2017

Relendo Rilke (E com direito a Jorge Amado)

Ao som das canções de Sarah Vaughan, dei ultimamente - embora já dele tão distanciado por tantas e tão grandes causas - de reler o poeta Rainer Maria Rilke. Andei folheando as Cartas a um jovem poeta, os Sonetos a Orfeu e algumas Elegias de Duino. E o que tenho a dizer é o seguinte: poucos seres tão poéticos nasceram nunca de uma mulher. Pouquíssimos, como esse Grande Enfermo, viveram tanto em poesia e se abandonaram mais fundamente, náufrago irremediável, à avidez de suas águas onde o esperava o indizível abandono.
Nunca vida humana fechou-se mais completamente dentro de uma mística. Chega a ser impressionante. Rilke passou, como aquele “afogado pensativo”, a descer os “azuis verdes” dos céus e dos rios que a visão de Jean-Arthur Rimbaud confundiu no seu poema “Le Bateau ivre”. O poeta viveu em transe poético constante, amargurando seu espírito contra todos os temas da Vida, do Amor e da Morte, a que piedosamente amou como uma única entidade.
Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação. Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se despojar do seu alburno humano. Seus poemas menores vencem lentamente todos esses "graus do terrível", num crescimento espontâneo para a grande enflorescência, de onde penderão os melhores frutos, desejosos de renovação na terra.
Em 1910 Rilke terminava os seus famosos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde contou, com uma beleza raras vezes alcançada em prosa, a história elegíaca da destruição de um ser votado à fatalidade irremediável da mágoa. Porque é mágoa, mais que angústia, o que colhemos dessa narrativa: a mágoa do mal-entendido humano, o solilóquio desolador do homem desajustado à vida. A qualidade do sofrimento que lhe vem dessa torturante criação, como que lhe afina ainda mais a sensibilidade, já de si tão aguçada para todos os sussurros da poesia. O poeta pena, como penou por um momento o Cristo, da coexistência íntima da dúvida e da certeza, enquanto vagueia, morbidamente enfraquecido pela doença, pelos lugares que mais ama na Europa: Paris, a Rússia e os países escandinavos, intermitentemente.
Em fins de 1911, instado pelos príncipes de Tour e Taxis, Rilke vai passar sozinho o inverno no Castelo de Duino. Um belo dia de janeiro, passeando às bordas de um penhasco sobre o Adriático, diz ter ouvido no vento o mistério de uma voz que lhe dizia: “Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio à hierarquia dos anjos?” Eriçado, e ao mesmo tempo atônito com o milagre dessas palavras que lhe surgiam com a própria poesia desejada, o poeta as anotou e, nesse mesmo dia, escrevia o primeiro movimento desse bloco sinfônico a que chamou Elegias de Duíno. Tão temperados se achavam nele os motivos da obra em perspectiva que, em poucos dias, escrevia a segunda da série e o começo de quase todas as outras.
Mas o impulso cessou. Por dez anos Rilke calou-se, à espera de que nele as palavras encontrassem seu lugar exato no grande puzzle poético que se desencadeara. Em Paris, na Espanha e em Munique acrescentou fragmentos a algumas das elegias, sofrendo terrivelmente da descontinuidade com que a poesia se revelava. E não seria senão depois da Primeira Grande Guerra, no seu refúgio da Suíça, em Muzot, que num sopro de criação poucas vezes igualado, só comparável talvez a certos instantes de música e de pintura em Miguelangelo e Beethoven, escreveria em três semanas as oito elegias restantes, Os 55 Sonetos a Orfeu e vários outros poemas a que chamou Fragmentarishes. Fora o último espasmo de vida nesse eterno, sereno moribundo. A Morte, sua amiga, desobjetivava-o poucos anos depois, como “um rio que leva”. Rilke recusou o médico: queria morrer a sua morte.
Mas, depois, o mal-estar em que me deixou essa combinação de Rilke e Sarah Vaughan... Foi quando tive a boa idéia de ler tua novela A morte e a morte de Quincas Berro D'água, Jorge. Que mortes tão diferentes... Que beleza, Jorge, que beleza!
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

27/12/2016

Carta a um jovem poeta

Paris, 17 de fevereiro de 1909

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. (...) Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a sim mesmo na hora mais tranquila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início de formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza - relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas nesse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal com se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha a significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar em si e nessa natureza a que se aliou.
Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
(...)
Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke
Rainer Maria Rilke, em Cartas a um jovem poeta (tradução de Paulo Ronái)

14/09/2016

Elegias de Duíno: Quarta Elegia

Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno?
Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves
migradoras. Precipitados ou vagarosos
nos impomos repentinamente aos ventos
e tornamos a cair num lago indiferente.
Conhecemos igualmente o florescer e o murchar.
No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda,
alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor.

Nós, porém, quando pensamos totalmente o Uno,
logo sentimos o lastro do Outro. A hostilidade;
aguarda, muito perto. Os amantes não hesitam, sem cessar,
entre limites – eles que aspiravam refúgio, espaço, busca?
Compõe-se, então, para a fugitiva imagem de um momento
um fundo de oposição, penosamente, para que
a possamos ver; que clareza se nos proporciona,
a nós que ignoramos o contorno da sensação,
aderidos ao exterior de sua forma. – Quem
desconhece a angustiosa espera diante
do palco sombrio do próprio coração?
Olhai: ergue-se o pano sobre o cenário
de um adeus. Fácil de compreender. O jardim habitual
a oscilar ligeiramente. Só então aparece o bailarino.
Ele não. Basta. E enquanto se move com desenvoltura,
muda de aspecto; torna-se um burguês
e entra na casa pela porta da cozinha.
Não quero essas máscaras ocas, prefiro
o boneco de corpo cheio. Susterei
o títere, os cordéis e o rosto
feito de aparência. Estou aqui, à espera.
Ainda que as lâmpadas se apaguem, ainda
que me digam: “acabou-se”, – ainda que do palco
se evole o vácuo na corrente de ar cinzento,
ainda que os antepassados silenciosos
não estejam ao meu lado, nem mulher, nem mesmo
a criança de olhos castanhos e estrábicos, –
ficarei à espera. Sempre há o que ver.

Não tenho razão? Tu, que por mim provaste
a amargura da vida, pai, penetrando
a minha, tu, que provaste a infusão
turva de meu destino, quando ao teu lado
crescia, e, inquieto pelo ressaibo de futuro
tão estranho, puseste à prova
meu olhar velado ainda; – tu, meu pai,
que desde que morreste, tantas vezes |
na esperança que levo em mim, tens medo,
e que por meu destino incerto abandonas
a serenidade dos mortos, reinos
de serenidade, – não tenho razão?
E vós – não tenho razão? – vós que me
amastes pelo tímido início de amor
que vos tinha e do qual me evadia,
pois o espaço que amava em vosso rosto
em espaço cósmico se transformava. – Enquanto
aguardo diante do palco dos títeres, – não,
quando me transformar inteiramente num intenso
olhar, um Anjo surgirá para refazer
o equilíbrio, como o ator que anima os títeres.
Anjo e boneco: haverá por fim espetáculo.
Congrega-se então o que, sem cessar,
nossa existência mesma desagrega. E nasce
das nossas estações o ciclo da transformação
total. Muito acima de nós, o Anjo brincará.
Olhai, os moribundos não mais suspeitariam
que é pretexto e irrealidade tudo o que aqui
fazemos. Oh, dias da infância, em que atrás
das figuras havia mais do que passado e em que
diante de nós não se abria o futuro!
Crescíamos, é certo, aspirando, às vezes,
tornar-nos grandes, talvez por amor
daqueles que nada mais tinham, senão
o “ser grandes”. E lá permanecíamos,
em nossos caminhos solitários,
na alegria do perdurável, nos limites
do mundo e do brinquedo, no espaço que desde
a origem foi criado para um puro evento.

Quem mostra uma criança tal como é? Quem a
situa na constelação com a medida da distância
em suas mãos? Quem faz sua morte
com pão cinzento que endurece, – ou a abandona
dentro da boca redonda, como o coração
de uma bela maçã?... Compreendemos facilmente
os criminosos. Mas isto: conter a morte,
toda a morte, ainda antes da vida,
tão docemente contê-la e não ser perverso,
isto é inefável.
Rainer Maria Rilke

16/03/2016

Palavras de crítica

Não há nada menos apropriado para tocar uma obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretendia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.”
Rainer Maria Rilke, in Cartas a um jovem poeta

04/03/2016

Revivendo

Encontro a ti em todas estas coisas
para as quais eu sou bom e assim feito um irmão:
nas mais pequenas te assemelhas à semente
e nas maiores deixas ver tua grandeza.

Tal é o jogo maravilhoso das forças
que assim servindo passam por todas as coisas:
nas raízes crescendo, nos troncos se escondendo
e nos ramos como que revivendo.
Rainer Maria Rilke

25/02/2016

Acredito nas noites

Tu, escuridão da qual descendo
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.
já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
– assim como também ela reúne
pessoas e potências…
e pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim…
Acredito nas noites.
Rainer Maria Rilke