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26/04/2023

O óbvio ululante

Num encontro social que tive com Nelson Rodrigues, disse-lhe que ia lhe fazer algumas perguntas. Mas que, sendo ele homem de muitas facetas, eu lhe pediria apenas uma: a da verdade. Ele aceitou prontamente e cumpriu. Parecia aliás ansioso para dizer algumas verdades. Eu também ando.
Você se inclina mais para a esquerda ou para a direita?
Eu me recuso absolutamente a ser de esquerda ou de direita. Sou um sujeito que defende ferozmente a sua solidão. Cheguei a essa atitude diante de duas coisas: lendo dois volumes sobre a guerra civil na História. Verifiquei então o óbvio ululante: de parte a parte todos eram canalhas. Rigorosamente todos. Eu não quero ser nem canalha de esquerda nem canalha de direita.
Você se referiu à solidão. Você se sente um homem só?
Do ponto de vista amoroso eu encontrei Lúcia. E é preciso especificar: a grande, a perfeita solidão exige uma companhia ideal. Mas, diante do resto do mundo sou um homem maravilhosamente só. Uma vez fiquei gravemente doente, doente para morrer. Recebi em três meses de agonia três visitas, uma por mês. Note-se que minha doença foi promovida em primeiras páginas de jornais. Aí eu sofri na carne e na alma esta verdade intolerável: o amigo não existe.
Existe sim, Nelson, foi falta de sorte sua. Eu passei quase três meses no hospital e recebia visitas até de estranhos, e eu não sou o que se chama de simpática. Pergunto-me até o que é que eu dei aos outros para que viessem me fazer companhia. Não, não acredito que não se tenha amigos. É que são raros.
Ou eu dou muito pouco ou os outros não aceitam o que eu tenho para dar.
Mas você tem sucesso real – e sucesso vem quando se dá alguma coisa aos outros. Você dá.
Eu tenho o que chamaria de amigos desconhecidos. São sujeitos que eu nunca vi, que cruzam comigo numa esquina, numa retreta, num velório. Certa vez fui a uma capelinha ver um colega morto. Eram duas horas da manhã. Uma mocinha saiu do velório com um caderninho na mão: quero ter a honra de apertar a mão do autor de A vida como ela é, e me pediu o autógrafo. Senti que estava vivendo um momento de pobre ternura humana. Eis o que eu queria dizer: o amigo possível e certo é o desconhecido com quem cruzamos por um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esses podemos ser amados. O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência.
Mas Hélio Pellegrino é seu amigo, e Otto Lara Resende é seu amigo.
Não. Eu é que sou amigo de ambos. É possível que um de nós ame alguém. O difícil (não quero dizer impossível) é que esse alguém nos ame de volta. Hoje mesmo almocei com Hélio Pellegrino. Por causa de uma opinião minha, ele, com a sua cálida e bela voz de barítono de igreja, dizia para mim: é mentira, é mentira! Nunca me ocorrera nesta encarnação ou em vidas passadas, chamar Hélio Pellegrino de mentiroso. Naquele momento ele pôs entre nós a mais desesperada e radical solidão da terra. Tal agressividade não devia existir na história da amizade. E o Otto nunca me deu um telefonema! Estou dizendo isso com a maior, a mais honrada, a mais inconsolável amargura.
Isso não quer dizer nada: Otto é meu amigo, e já o provou várias vezes, no entanto é raríssimo um telefonema seu. Nelson, você fala em encarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Ou teosofista? Acredita na reencarnação?
Sou apenas cristão, se é que eu o sou. A única coisa que me mantém de pé é a certeza da alma imortal. Recuso-me a reduzir o ser humano à melancolia do cachorro atropelado. Que pulhas seríamos se morrêssemos com a morte.
Mas aonde vai nossa alma, depois de mortos?
Aí está o mistério e o mistério não impede evidentemente que a alma seja imortal. Você antes me perguntou em quantos empregos eu estava escrevendo. Tenho três colunas diárias, obrigatórias (escrevo muito mais para atender a pedidos insuportáveis): num faço duas crônicas e no outro também faço uma crônica de futebol. Quando vou escrever um romance ou uma peça de teatro estou em plena estafa e tenho que fazer um superesforço. Acho que minhas condições de trabalho são desumanas. Eu me considero um fracassado. Não me realizei nem acho que alguém se realize. Mas a coisa mais importante do mundo é o amor, e, para uma pessoa como indivíduo, é a solidão. Sou um romântico num sentido quase caricatural. Acho que todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. Para mim, o amor continua além da vida e além da morte. Digo isso a você e sinto que se insinua nas minhas palavras um ridículo irresistível, mas vivo a confessar que o ridículo é uma das minhas dimensões mais válidas.
Nelson, você tem conversado, como todo mundo, com muitas pessoas. Todas as conversas se parecem com essa nossa?
Não, eu estou fazendo um esforço, um abnegado esforço, para não trapacear com você.
É preciso dizer que, durante os minutos que demorou nossa conversa, ele não sorriu nenhuma vez: com a verdade grave não se sorri, parecia dizer.
Você é um homem de sucesso. Até que ponto o sucesso interfere na sua vida pessoal?
Não interfere justamente porque eu e Lúcia fundamos a nossa solidão.
Você está gostando de conversar comigo?
Profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

30/12/2022

A Realeza de Pelé


Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade [Albert] Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.
O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: — “Eu.” Insistiram: — ”Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: — “Eu.” Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage, e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.
Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompeia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!” De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para a frente, e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe, ao encalço ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompeia e encaçapou de maneira genial e inapelável.
Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente, que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau.
Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.

Nelson Rodrigues, in Manchete Esportiva, 8 de março de 1958

13/04/2022

O ser humano fracassou

J. J. R. O que o senhor tem a dizer sobre o ser humano?
Nelson Rodrigues“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo”. — Aparenta desânimo. — “O ser humano, tal como imaginamos, não existe”. — Expressa-se, de forma veemente: — “É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez”. — Diz enquanto retira um cigarro do maço e manipula um isqueiro: — “Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete”. — Engrossando e reforçando o timbre de voz: — “Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.” — Neste instante, aproxima-se e em voz baixa, fumando mais um cigarro: — “O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.” — Silêncio prolongado. — “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha’”. — E, em tom eloquente: — “Não há nada que fazer pelo ser humano: o homem já fracassou”.

Nelson Rodrigues, in entrevista ao repórter J. J. Ribeiro, do jornal O Opiniático

27/09/2020

Agonia

Uma semana antes do casamento, foram os dois ao cinema ver um filme, se não me engano, de Clark Gable. No fim, o mocinho era assassinado da maneira mais ignominiosa e pelas costas. E, assim, varado de balas, Clark Gable agonizou e morreu no colo da mocinha. Alberto saiu do cinema indignado:

Ora, bolas!

Quê, meu filho?

E ele:

Ah, se eu soubesse que acabava assim, não vinha, nem amarrado!

Eu gostei.

O rapaz parou, no meio da calçada:

Gostou? Oh, toma jeito, Conceição. Tira o cavalo da chuva! Te digo mais: foi o fim mais besta que eu já vi na minha vida!

Ela, temperamento macio, doce, não insistiu. Tinha horror às discussões. Mas, no fundo, gostara mesmo do desfecho sinistro. As fitas que acabavam mal, em morte, agonia e luto, causavam nela um duplo sentimento de fascínio e repulsa. A coisa que mais adorava era ver a heroína, de luto fechado, chorando o bem-amado morto. Ou vice-versa. E quando não havia, em causa, um morto ou morta, ela, na plateia, ao lado de Alberto, bocejava, desinteressada de tudo e de todos, querendo voltar para casa.


O soluço

Era uma boa menina, delicada, de uma fragilidade física impressionante. Constava, mesmo, que sofria do coração, e a família, preocupada, vivia atrás dela, cheia de cuidados e prevenções: “Fulana, não faz isso! Não faz aquilo! Sobe a escada devagar!”

Se apanhava um resfriado trivial, se acusava uma coriza sem maiores consequências, pai, mãe, tias, se arremessavam em pânico. Era colocada na cama, quase que à força; fechavam todas as janelas, por causa dos golpes de ar; e, de dez em dez minutos, impingia-se o termômetro na axila da pequena. Havia, naquela família de emotivos, de nervosos, a ideia de que Conceição ia morrer, de repente, em plena mocidade.

Uma das tias, velha solteirona, já chorava por conta.

Quanto ao noivo, o Alberto, formava, com a menina, um contraste escandaloso. Tostado de sol, um físico de Victor Macture, carnudo, atlético, tudo nele parecia exprimir um apetite vital tremendo. Com uma saúde de ferro, não pensava na morte, julgava-se mais ou menos eterno.

Ao voltar do cinema, com a noiva, sete dias antes do casamento, fez-lhe um pedido formal:

Queres me fazer um favor?

Faço.

Insistiu.

Um favor de mãe pra filho?

Claro!

Então não me fala mais em morte, sim? Arranja outro assunto, meu anjo.

Que diabo!

Ele reclamava e, vamos e venhamos, com razão. Porque, desde o começo do namoro, o assunto de Conceição era esse. Ou falava na morte alheia ou se divertia imaginando a própria.

Fazia as perguntas mais surpreendentes, como, por exemplo, esta:

Será que eu vou ficar feia, quando morrer?

O rapaz, mais do que depressa, procurava uma madeira, batia, ao berro de:

Isola!

De fato, ela queria ser e fazia questão de ser uma morta bonita, dessas que “parecem dormir”. E se não falava de si mesma, falava dos outros. Já contara e recontara ao noivo, não sei quantas vezes, todas as agonias e todas as mortes da família. Sobretudo a morte do avô. Durante 15 dias, o velho teve um soluço que resistia, bravamente, a tudo. O médico da família dera injeção, o diabo, mas em pura perda. Até que veio a morte e o ancião pode descansar.

Durante vários dias, a família, na obsessão auditiva daquele soluço imortal, julgava ouvi-lo, muito depois do enterro, nas salas, nos quartos, nos corredores.

E Alberto, apesar de sua vitalidade quase bestial, deixou-se impressionar por essa infinita agonia.

Sonhou com o soluço sobrenatural. Via o gogó do moribundo subindo e descendo. O pior é que, no fim de certo tempo, ele também começou a se interessar, a se apaixonar pelas histórias fúnebres.

De vez em quando, procurava reagir, como no caso do filme de Clark Gable.

Mas, quantas vezes, sem sentir, ficou horas ouvindo Conceição falar dos parentes mortos?

Ia para casa pensando em assombração e fazia, com uma graça triste, a reflexão:

Eu acabo maluco e a família não sabe!


O casamento

Até que chegou o dia do casamento, ou como disse o médico da família, numa satisfação profunda, o “grande dia”.

No quarto, vestindo-se, Conceição criava uma hipótese deslumbrante: a de morrer, no altar, com grinalda e véu. Essa morte muito linda a tentou de uma maneira quase irresistível. Quando uma das tias, com infinito cuidado, colocou a grinalda, Conceição não se conteve, fez a pergunta quase alegre e frívola:

E se eu morresse hoje?

Em redor, houve um burburinho:

Cruz, credo!

Foi repreendida:

Você tem cada uma!

Deixou-se levar para a igreja, ia numa ardente meditação. Entretanto, não morreu no altar, embora tanto o desejasse. Voltou para a casa dos pais, toda iluminada.

O noivo a olhava muito e parecia dizer: “Minha!” Estava em plena euforia da propriedade.

Na saída, debaixo de uma apoteose de arroz, ele quase pragueja, pois se lembrara, sem que nem pra que, do soluço imortal do avô. Rosnou para si mesmo: “Carambolas!”

Mas a felicidade subiu-lhe à cabeça: esqueceu o velho defunto.

Durante 48 horas, foram o homem e a mulher mais felizes do mundo. Maravilhada com o amor, Conceição não falava na morte. Sem sentir, a relegara para um plano inteiramente secundário. Já admitia que a vida fosse assim, sempre, e que jamais os problemas práticos pudessem interferir na lua de mel!

Todavia, 48 horas depois, cometeu uma imprudência: levantou-se, de manhã cedinho, no seu pijama leve, de um cinza transparente, e foi, descalça, para o banheiro. As chinelinhas de arminho ficaram embaixo da cama.

Lá no banheiro, escovou os dentes, sem pressa e sempre com os pés nus no ladrilho frio.

Depois, ocorreu-lhe um voluptuoso capricho: chamou o marido e, juntos, tomaram banho. Brincaram um tempão debaixo do chuveiro.

Outra qualquer faria isso e muito mais, sem conse-quências. Conceição, porém, era de uma fragilidade apavorante.

No café, ao pôr manteiga nas fatias torradas, experimentou um arrepio. Fez o brevíssimo comentário:

Ué!

Mais tarde, veio a coriza. Depois, uma febrícula. À meia-noite e pouco, ela, com a temperatura mais elevada e atormentada pelo frio, chamou o marido que, ao lado, cochilava.

Baixou a voz:

Eu vou morrer, Alberto!

Que ideia!

Vou sim, Alberto. Sei que vou morrer!

Ele acabou praguejando:

Perde essa mania de morte, Conceição! Isso que você tem é um resfriado bobo!…


A promessa

Alta madrugada, ela o acordou de novo. A febre a embelezava, dava-lhe graça triste e ardente. Estava com a obsessão da morte. Repetia com uma doce e monótona tristeza: “Vou morrer, vou morrer...”

O marido, já com um começo de medo, ensaiou o protesto prosaico:

Sossega!

Ela, surda às objeções, aos contra-argumentos, explicava que uma só coisa a apavorava na morte, era ser enterrada. Desde criança ouvia falar em “terra fria”, em “sete palmos de terra”, em “túmulo”, “jazigo perpétuo”, etc., etc.

Parecia-lhe que os defuntos deviam sentir a falta de ar e de luz.

Seria tão bom que os mortos pudessem ficar em casa, na sala, no quarto, com as mãos em repouso, entrelaçadas. Era a febre, com certeza, que a fazia dizer essas loucuras.

Malgrado seu, o marido se deixava impressionar. Dir-se-ia que a febre da esposa se transmitia a ele e o embriagava, também. Pensou: “Acabo doido!”

Quase ao amanhecer, Conceição, mais febril do que nunca, fez-lhe o pedido:

Se eu morrer,não quero ser enterrada. Você esconde o meu corpo debaixo de qualquer coisa...

Ele, alarmado, não sabia o que dizer:

Morrer como? Ninguém vai morrer, ora essa, que bobagem!

Conceição teimava, abraçada a ele, falando quase boca com boca:

Jura que não serei enterrada, jura!

Acabou admitindo:

Juro.

Por Deus?

Por Deus!

Por sua vez, cansado, ele cochilou mais meia hora. Foi o bastante para sonhar com o soluço do avô.

Acordou e, durante alguns momentos, teve uma alucinação auditiva. Ouvia o soluço. Não podia ser, meu Deus, era impossível! Só então percebeu: quem estava com soluço era Conceição.

Quis chamar um médico, ou alguém, mas a mulher, já acordada, não deixou. E, na verdade, ele já não acreditava em nenhum remédio terreno para o mal sutil e inexplicável que estava levando a pequena.

Vez por outra, dizia de si para si: “Não estou raciocinando direito.” Mas já a própria loucura não o assustava. Talvez a desejasse como uma solução. Durante dois dias não saiu do quarto. Encerrado, ali, o casal tinha uma companhia única: o soluço. Alberto dormia e, no próprio sonho, o escutava. Ao despertar, lá estava ele. Mas, uma manhã, acordou e não ouviu nada.

Compreendeu que a esposa estava morta.


Monte Cristo

Cinco dias depois, os vizinhos começaram a sentir um cheiro horrível. Investiga daqui, dali, acabaram desconfiando. Entraram no quarto e encontraram a esposa morta e o marido, sentado no chão, de barba crescida, quase à Monte Cristo.

Os mais sensíveis levaram o lenço ao nariz. Alberto, quase sem voz, explicou que a mulher pedira para não ser enterrada. Levaram-no, do quarto, moribundo e variando. Sua última pergunta foi esta:

Não estão ouvindo um soluço?

Nelson Rodrigues, in A vida como ela é 

20/09/2020

O escravo etíope

 

Saiu do colégio com 15 anos e trouxe para o mundo a sua inocência maravilhada. Ninguém mais sensível e exclamativa. De uma fragilidade física impressionante, qualquer esforço dava-lhe palpitações, falta de ar; uma simples aragem a resfriava. O médico da família, que a examinou várias vezes, repetia:

Tem uma saúde muito delicada. É preciso cuidado, muito cuidado.

Havia na família, o medo ou o presságio de que viesse a sofrer do peito como uma tia que morrera tísica. Filha de pais ricos, era tratada na palma da mão, com os mimos de uma princesa. E justamente por ser tão fina e frágil, de uma natureza tão delicada e suscetível, ninguém a contrariava. Aos 16 anos, teve o seu primeiro namorado. Era um primo, ótimo rapaz, educadíssimo, simpático e mesmo bonito, aristocrata nos modos, ideias e sentimentos. Ela se chamava Margô e ele, Paulo. Pareciam feitos um para o outro. Para as duas famílias foi, como se disse, “um achado”. Não houve duas opiniões. Todos disseram: “Ótimo, ótimo.” E o pai, que tinha a religião do dinheiro e a ideia fixa da pompa, exigia, esfregando as mãos:

Quero um casamento de arromba! — e sublinhava: — Um casamento que deixe todo mundo besta!


Preparativos nupciais

Enfim, foi proclamado o noivado. O velho — que era de origem plebeia e tivera de criar, tostão a tostão, a própria fortuna — queria um vestido de noiva inédito e deslumbrante, que embasbacasse a cidade. Acirrava as mulheres, dando murros na mesa: “Gastem sem dó nem piedade.” Na sua mania, fazia cálculos alucinados: “Um vestido de uns cem, duzentos contos.” Tal desperdício arrepiava as presentes. A própria noiva sentia-se desfalecer. Mas ele, desvairado, batia nos próprios bolsos: “Gastem! Eu pago! Pago!” Sob esse estímulo, todas as mulheres da casa se entregaram a um verdadeiro delírio. A mania de grandeza se transmitiu e se generalizou. Catou-se por entre páginas de revistas o figurino ideal. Afinal, descobriu-se um modelo encantador. O velho olhou e deu sua adesão: “Bacana.” A filha, muito mais aristocrática que o pai, suspirou:

Como é bonito, meu Deus!

Um batalhão de costureiras pôs-se a trabalhar, dia e noite, no vestido mágico.

Quando uma delas cansava, o velho vinha lá de dentro com a ideia do suborno. “Eu pago extraordinário! Dou gorjeta, o diabo!” Já a cerimônia estava com data marcada. E quando o vestido ficou pronto, uma meia dúzia de parentes mais chegadas, inclusive a mãe, se fecharam com a noiva no quarto. Então lânguida, delicada, com seu aspecto de flor de luxo, Margô vestiu peça por peça. Houve um momento em que só ficaram faltando a grinalda e o véu. Ao redor, havia histerismos. Primas, tias, cunhadas, suspiravam:

Que amor! Que amor!

Na verdade, era algo de indescritível. No meio de tanta alvura, a fragilidade física de Margô era ainda mais tocante. Faltavam uns 15 dias para o casamento. E, à noite, depois do jantar, ela se queixou de palpitações. As pessoas próximas se entreolharam num pavor de pneumonia. Alguém sugeriu: “Vai ver que foi um golpe de ar!” Passou. Mas na hora de se despedir do noivo, Margô fez-lhe o pedido:

Precisava de um favor teu.

Ele, sempre cavalheiresco, limitou-se a dizer:

Dois.

Margô baixou a vista, fugindo do seu olhar intenso:

Eu queria adiar o nosso casamento.


Mistério

Justiça se lhe faça: ele foi impecável. Explicou que naturalmente estaria muito interessado em que o casamento fosse o mais rápido possível. “Mas já que você quer, meu anjo...” Um pouco vaga, Margô explicou que não se sentia bem, que devia ter alguma coisa e, enfim, que andava nervosa, etc., etc. Paulo com sua polidez irrepreensível afirmou: “Por mim não há dúvida.” Quem se doeu com a transferência foi o velho. Estava mais ansioso pelo casamento do que os noivos. Gemeu, desabando numa cadeira:

Que caso sério! Que caso sério!

Margô foi ao médico, que a examinou meticulosamente. Não achou, no seu estado, a menor novidade. Continuava fisicamente delicada, mas não apresentava nenhum sintoma que sugerisse doença. Passaram-se dois, três, cinco meses. A família do noivo estranhava:

Que diabo! Vocês se casam ou não se casam?

Ele parecia abdicar dos próprios direitos:

Quem decide é Margô.

Protesto geral:

E você não pia? Ora veja! Não está certo, não está direito!

Sob a pressão dos parentes, foi conversar com a noiva:

Meu anjo, precisamos marcar uma nova data.

Ela suspirou:

Já? Vamos esperar mais um pouco.

Como ele insistisse, embora com um máximo de tato e delicadeza, Margô acabou concordando. Houve um conselho de família, com a presença dos noivos, fixou-se o casamento para daí a três meses. Todos se animaram de novo. Houve a febre dos preparativos. Mãe, tias e amigas se reuniam planificando a festa. Foram ver se o vestido de noiva estava com alguma mancha; fizeram, nele, uma revisão minuciosa, com medo de alguma possível barata. O pai, com sua vocação para o desperdício, foi de uma liberalidade estupenda, outra vez:

Acho mais negócio fazer outro vestido!

A mãe, que era uma senhora fina, interrogou os noivos: “Como é? Vocês vão viajar?” Margô teve que admitir: “Não pensamos nisso.” Então, a santa senhora fez-lhe uma repreensão: “Minha filha, acho você uma noiva tão não sei como; muito desanimada.” Sorriu, lânguida: “Sou assim, mamãe.” E a outra: “Está errado. Você deve se corrigir. Onde já se viu?” Finalmente, deu para a filha e o futuro genro a sugestão:

Se eu fosse vocês, sabem o que eu fazia? Uma viagem! — e já animada, já excitada pela própria ideia, continuou: — Casamento sem viagem de núpcias é tão sem graça! Vocês podiam ir à Europa, aos Estados Unidos!

O noivo pareceu impressionado; comentou, grave: “Boa ideia.” Virou-se para Margô: “Você não acha, Fulana?” Ela respondeu:

Não. Acho pau. Gosto de ficar em casa.

Dois dias depois, pediu que se adiasse, de novo, o casamento. Houve assombro na família. Crivaram-na de perguntas: “Mas adiar por quê? Qual o motivo?” Ela, desesperada, procurou um motivo, como se estivesse disposta a inventá-lo; disse, por fim: “Ando nervosa.” Insistiram, e a menina acabou perdendo cor, pulso, até desmaiar. Uma semana depois, a mãe foi sondá-la: “Você gosta mesmo do Paulo, minha filha?” Disse que sim, que gostava, mas que...

Ainda uma vez, o noivo foi magnífico: concordou com o adiamento.


A sogra

Quem não gostou foi a futura sogra. Chamou o filho. Instigou-o: “Essa menina está fazendo você de gato e sapato. Isso não é papel! Onde é que nós estamos?” Ele, que adorava a noiva, que a colocava acima de tudo e de todos, cortou o debate: “Vamos mudar de assunto, sim, mamãe?” A velha, porém, era tremenda. Largou o filho, com as seguintes palavras: “Está certo, não se fala mais nisso. Mas quero te dizer uma coisa: aqui há dente de coelho.” E o fato é que, sem dizer nada a ninguém, ela andava desconfiadíssima. De quem ou de que, nem ela própria saberia dizê-lo. Nesta mesma tarde, porém, recorreu a vários conhecidos, atrás de uma informação, até que descobriu um detetive particular. Chamou o homem; perguntou:

O senhor é discreto?

Um túmulo!

Ótimo. Eu preciso mesmo de um túmulo. Trata-se do seguinte...

Incumbiu o sujeito de acompanhar os passos de Margô; advertiu: “Pode ser palpite meu, mas não custa apurar.” O Fulano concordou, grave: “Evidente! Evidente!” Deixou-o, com a super-recomendação: “Ninguém pode saber disso!” Quarenta e oito horas depois, o detetive reaparecia, de olho esgazeado. Contou, longamente, o que apurara. De vez em quando, interrompia o relatório para exprimir seu estupor: “De arder! De arder!” Assombrada, a velha balbuciou: “Eu só acredito vendo com os meus próprios olhos!” E o detetive: “Amanhã, eu mostro o homem à senhora!”


O bem-amado

No dia seguinte, encontraram-se a velha e o detetive na porta de uma companhia de ônibus. Súbito, o profissional indica: “Olha o homem!” Ela espiou. Lá vinha ele, no meio de outros motoristas, um negro gigantesco. Segundo apurara o detetive, ele saíra, no último carnaval, no rancho, de escravo etíope, com o dorso nu e retinto. A velha, fora de si, gaguejava: “Quer dizer que é esse o namorado de minha nora?” O detetive pigarreou:

Isto é, mais do que namorado. Eu apurei tudo, direitinho. Tenho endereços, o diabo. E posso provar.

Então, a velha cambaleou. Seu estômago se contraiu, sofreu, ali mesmo, uma náusea violenta. Afastaram-se; ela pagou o preço que ele impôs e partiu num táxi. Como era uma mulher viril, de muito gênio, preferiu ir, de uma vez, à casa da menina. E, lá, fez um escândalo medonho. Quiseram expulsá-la; foi chamada de louca. Ela, em desespero de causa, virou-se para a própria Margô que, sem uma palavra, ouvia tudo:

É verdade ou não é?

Todos se voltaram na direção da menina. Então, aquela mocinha frágil, fina, que desfalecia ao aspirar um perfume mais intenso, ergueu o olhar firme, quase cruel. Disse apenas, sem medo:

É verdade.

A ex-futura sogra saiu dali feliz e vingada. Foi um escândalo pavoroso. O pai veio, esbravejante. Falou em dar tiros. Ela o conteve com a ameaça: “Se fizer isso, eu me mato!”

Ante a perspectiva do suicídio, a família capitulou. Tiraram o rapaz da companhia de ônibus, arranjaram um emprego. E, um dia, casaram-se às escondidas. No seguinte carnaval, quando o sogro passava, de Cadillac, pela praça Onze, viu o genro, num rancho — fantasiado de escravo etíope.

Nelson Rodrigues, in A vida como ela é

07/09/2020

O abandono

Tinha do próprio casamento e do marido morto uma lembrança penosa. O marido era uma nobre alma, que vivia para a esposa e para o filho. Mas tudo que ele fizesse, de bom, de heroico, de sublime, esbarrava diante de sua falta de amor. E isso, essa falta de amor, era pior do que o ódio. Crispava-se quando o pobre-diabo vinha fazer-lhe festa. Houve uma vez, em que não pôde, não aguentou, explodindo:
Não me beija! Não quero seu beijo! Que coisa aborrecida!
Ele já estava doente, na ocasião. Foi talvez este episódio que antecipou o fim. Seis meses depois ela, sem nenhum luto interior, tinha a sua primeira experiência amorosa, na pessoa do casado Romualdo. Viu, então, que o marido a interessava menos que o mata-mosquitos anônimo que vinha pôr creolina no ralo. Foi uma paixão feroz que acabou, como vimos, da maneira mais estúpida do mundo. Durante dias, Lucília, numa tristeza obtusa, esperou um telefonema, um bilhete, um recado. Nada. Absolutamente nada. Depois soube, por terceiros, que ele andava com uma datilógrafa extranumerária numa autarquia; tinham sido vistos no Passeio Público, onde tiravam retratos, no lambe-lambe. Lucília, fora de si, encerrava-se no quarto, ficava horas, de bruços, na cama, chorando. Já o julgamento do filho não a interessava mais. O garoto, diante do seu pranto, perguntava:
Que é que a senhora tem, mamãe?
Não aborrece! Não amola! Sai daqui, anda!
Na presença do filho, ligava para o escritório do bem-amado. De lá, queriam saber quem era.
Lucília se identificava. Então, a resposta infalível era: “Não está.” Uma vez, porém, coincidiu que o próprio atendesse. Mas quando percebeu que era ela, explodiu:
Me deixa em paz, sim? Quero sossego! Vê se não me chateia.
O filho não fazia comentário. Era uma testemunha muda de tudo. Guardara, porém, o nome e o repetia: “Romualdo, Romualdo.” Conhecia-o, de vista. Pensava nele, dia e noite, com essa obstinação de amor ou de ódio. E já não saía mais de casa, não jogava mais bola; passava as horas ao lado de Lucília, de olhos muito abertos, como se esse desespero o fascinasse, apesar de tudo. Ouviu quando a mãe, numa crise maior, amadiçoou o homem que a abandonara:
Tomara que ele morra, meu Deus! Fique debaixo de um automóvel! Tomara, meu Deus!
Por fim, ela já não queria mais nada; ou, por outra, queria morrer. Não comia e seu desmazelo, de atitudes, de roupas, de higiene, era aterrador. Passava dias com uma mesma combinação. Outras vezes, do fundo do seu desespero, fazia a reflexão: “Há três dias que não escovo os dentes.” O filho se abraçava a ela, chorava:
Não fique assim, mamãe! Não chore mais!
Certa vez, na rua, o garoto ouviu dizer que não se nega nada a quem está morrendo, a quem vai morrer. O “último” pedido de alguém, justamente por ser o “último” é alguma coisa de terrível e sagrado, que cumpre obedecer, sob pena de maldições tremendas. Então, afirmou:
Ele volta, mamãe! Volta, sim! Juro por Deus!
Nelson Rodrigues, in A vida como ela é

04/09/2020

História de amor

Então, começou a mais doce, a mais sofrida história de amor. Voltava, dos seus encontros com Romualdo, em sobressalto. O filho estava sempre na rua, jogando bola ou em brincadeiras turbulentas com amigos, de sua idade. Uma vez, deu um chute, e com tanta infelicidade, que a unha do dedo grande do pé saltou longe. O negócio inflamou; e Lucília, quando chegou, de uma entrevista amorosa, tomou-se de vergonha e de remorso. Pensou, lavando o pé machucado: enquanto ela se divertia com um homem, além do mais casado, o filho, sozinho, estava precisando de seus cuidados. Vamos que fosse uma coisa pior que um simples esfolamento de dedo. Que remorsos não sentiria? O menino, corajoso, quase não se queixava. E era ela quem tinha de perguntar:
Está doendo?
Mais ou menos.
E Lucília:
Quando estiver doendo, diga!
No dia seguinte, Lucília apareceu triste. Suspirava:
Que vida!
Romualdo acabou se enfezando:
Que vida, por quê? Ela, então, pôs as cartas na mesa:
Reconheço que a culpada sou eu, porque você, sendo casado, eu não devia... Não. Romualdo, não está direito.
Fez uma pausa, antes de completar:
Se, ao menos, você vivesse só pra mim!
Foi brutal:
Ora, Lucília, ora! No mínimo, você está querendo que eu deixe minha mulher! Sou capaz de apostar!
Despediram-se sem carinho. E ele, ressentido, mal se deixou beijar. Disse, apenas:
Vai com Deus, vai!
Nessa noite, ele fez confidências a um amigo. Quando este soube que havia um filho no meio, um marmanjão de 12 anos, foi categórico:
Abacaxi autêntico!
E Romualdo insistiu:
Você não acha um desaforo que ela queira, imagine, que eu deixe minha mulher?
Evidente!
No primeiro encontro, Romualdo rompeu fogo:
Das duas, uma: ou você muda de cara, faz uma cara alegre ou então, minha filha, vamos acabar com esse negócio. Já não estou gostando, nada, nada!
Já o termo “negócio” pareceu-lhe de uma abominável grosseria, de um prosaísmo ultrajante. Além disso, a agressividade, como se ela fosse uma qualquer! Exaltou-se, também:
Não grite! Está pensando que eu sou o quê?
Grito, pronto, grito! Não topo chiquê! Comigo, não!
Ela não disse uma, nem duas. Apanhou a bolsa, que estava em cima da mesa: olhou-se instintivamente, no pequeno espelho; e, num passo lento, encaminhou-se para a porta. Parou um segundo, uma fração de segundo. Esperava talvez que Romualdo a chamasse. Teria, então, voltado, e tudo terminaria numa reconciliação feroz. Mas ele, esbravejou:
Mulheres é que não faltam, inclusive a minha!
Podia haver pontapé mais claro, mais insofismável, mais absoluto? Saiu para nunca mais.
Nelson Rodrigues, in A vida como ela é