Clarice Lispector, in Todas as crônicas
26/04/2023
O óbvio ululante
30/12/2022
A Realeza de Pelé
Nelson Rodrigues, in Manchete Esportiva, 8 de março de 1958
13/04/2022
O ser humano fracassou
Nelson Rodrigues, in entrevista ao repórter J. J. Ribeiro, do jornal O Opiniático
27/09/2020
Agonia
Uma semana antes do casamento, foram os dois ao cinema ver um filme, se não me engano, de Clark Gable. No fim, o mocinho era assassinado da maneira mais ignominiosa e pelas costas. E, assim, varado de balas, Clark Gable agonizou e morreu no colo da mocinha. Alberto saiu do cinema indignado:
— Ora, bolas!
— Quê, meu filho?
E ele:
— Ah, se eu soubesse que acabava assim, não vinha, nem amarrado!
— Eu gostei.
O rapaz parou, no meio da calçada:
— Gostou? Oh, toma jeito, Conceição. Tira o cavalo da chuva! Te digo mais: foi o fim mais besta que eu já vi na minha vida!
Ela, temperamento macio, doce, não insistiu. Tinha horror às discussões. Mas, no fundo, gostara mesmo do desfecho sinistro. As fitas que acabavam mal, em morte, agonia e luto, causavam nela um duplo sentimento de fascínio e repulsa. A coisa que mais adorava era ver a heroína, de luto fechado, chorando o bem-amado morto. Ou vice-versa. E quando não havia, em causa, um morto ou morta, ela, na plateia, ao lado de Alberto, bocejava, desinteressada de tudo e de todos, querendo voltar para casa.
O soluço
Era uma boa menina, delicada, de uma fragilidade física impressionante. Constava, mesmo, que sofria do coração, e a família, preocupada, vivia atrás dela, cheia de cuidados e prevenções: “Fulana, não faz isso! Não faz aquilo! Sobe a escada devagar!”
Se apanhava um resfriado trivial, se acusava uma coriza sem maiores consequências, pai, mãe, tias, se arremessavam em pânico. Era colocada na cama, quase que à força; fechavam todas as janelas, por causa dos golpes de ar; e, de dez em dez minutos, impingia-se o termômetro na axila da pequena. Havia, naquela família de emotivos, de nervosos, a ideia de que Conceição ia morrer, de repente, em plena mocidade.
Uma das tias, velha solteirona, já chorava por conta.
Quanto ao noivo, o Alberto, formava, com a menina, um contraste escandaloso. Tostado de sol, um físico de Victor Macture, carnudo, atlético, tudo nele parecia exprimir um apetite vital tremendo. Com uma saúde de ferro, não pensava na morte, julgava-se mais ou menos eterno.
Ao voltar do cinema, com a noiva, sete dias antes do casamento, fez-lhe um pedido formal:
— Queres me fazer um favor?
— Faço.
Insistiu.
— Um favor de mãe pra filho?
— Claro!
— Então não me fala mais em morte, sim? Arranja outro assunto, meu anjo.
Que diabo!
Ele reclamava e, vamos e venhamos, com razão. Porque, desde o começo do namoro, o assunto de Conceição era esse. Ou falava na morte alheia ou se divertia imaginando a própria.
Fazia as perguntas mais surpreendentes, como, por exemplo, esta:
— Será que eu vou ficar feia, quando morrer?
O rapaz, mais do que depressa, procurava uma madeira, batia, ao berro de:
— Isola!
De fato, ela queria ser e fazia questão de ser uma morta bonita, dessas que “parecem dormir”. E se não falava de si mesma, falava dos outros. Já contara e recontara ao noivo, não sei quantas vezes, todas as agonias e todas as mortes da família. Sobretudo a morte do avô. Durante 15 dias, o velho teve um soluço que resistia, bravamente, a tudo. O médico da família dera injeção, o diabo, mas em pura perda. Até que veio a morte e o ancião pode descansar.
Durante vários dias, a família, na obsessão auditiva daquele soluço imortal, julgava ouvi-lo, muito depois do enterro, nas salas, nos quartos, nos corredores.
E Alberto, apesar de sua vitalidade quase bestial, deixou-se impressionar por essa infinita agonia.
Sonhou com o soluço sobrenatural. Via o gogó do moribundo subindo e descendo. O pior é que, no fim de certo tempo, ele também começou a se interessar, a se apaixonar pelas histórias fúnebres.
De vez em quando, procurava reagir, como no caso do filme de Clark Gable.
Mas, quantas vezes, sem sentir, ficou horas ouvindo Conceição falar dos parentes mortos?
Ia para casa pensando em assombração e fazia, com uma graça triste, a reflexão:
— Eu acabo maluco e a família não sabe!
O casamento
Até que chegou o dia do casamento, ou como disse o médico da família, numa satisfação profunda, o “grande dia”.
No quarto, vestindo-se, Conceição criava uma hipótese deslumbrante: a de morrer, no altar, com grinalda e véu. Essa morte muito linda a tentou de uma maneira quase irresistível. Quando uma das tias, com infinito cuidado, colocou a grinalda, Conceição não se conteve, fez a pergunta quase alegre e frívola:
— E se eu morresse hoje?
Em redor, houve um burburinho:
— Cruz, credo!
Foi repreendida:
— Você tem cada uma!
Deixou-se levar para a igreja, ia numa ardente meditação. Entretanto, não morreu no altar, embora tanto o desejasse. Voltou para a casa dos pais, toda iluminada.
O noivo a olhava muito e parecia dizer: “Minha!” Estava em plena euforia da propriedade.
Na saída, debaixo de uma apoteose de arroz, ele quase pragueja, pois se lembrara, sem que nem pra que, do soluço imortal do avô. Rosnou para si mesmo: “Carambolas!”
Mas a felicidade subiu-lhe à cabeça: esqueceu o velho defunto.
Durante 48 horas, foram o homem e a mulher mais felizes do mundo. Maravilhada com o amor, Conceição não falava na morte. Sem sentir, a relegara para um plano inteiramente secundário. Já admitia que a vida fosse assim, sempre, e que jamais os problemas práticos pudessem interferir na lua de mel!
Todavia, 48 horas depois, cometeu uma imprudência: levantou-se, de manhã cedinho, no seu pijama leve, de um cinza transparente, e foi, descalça, para o banheiro. As chinelinhas de arminho ficaram embaixo da cama.
Lá no banheiro, escovou os dentes, sem pressa e sempre com os pés nus no ladrilho frio.
Depois, ocorreu-lhe um voluptuoso capricho: chamou o marido e, juntos, tomaram banho. Brincaram um tempão debaixo do chuveiro.
Outra qualquer faria isso e muito mais, sem conse-quências. Conceição, porém, era de uma fragilidade apavorante.
No café, ao pôr manteiga nas fatias torradas, experimentou um arrepio. Fez o brevíssimo comentário:
— Ué!
Mais tarde, veio a coriza. Depois, uma febrícula. À meia-noite e pouco, ela, com a temperatura mais elevada e atormentada pelo frio, chamou o marido que, ao lado, cochilava.
Baixou a voz:
— Eu vou morrer, Alberto!
— Que ideia!
— Vou sim, Alberto. Sei que vou morrer!
Ele acabou praguejando:
— Perde essa mania de morte, Conceição! Isso que você tem é um resfriado bobo!…
A promessa
Alta madrugada, ela o acordou de novo. A febre a embelezava, dava-lhe graça triste e ardente. Estava com a obsessão da morte. Repetia com uma doce e monótona tristeza: “Vou morrer, vou morrer...”
O marido, já com um começo de medo, ensaiou o protesto prosaico:
— Sossega!
Ela, surda às objeções, aos contra-argumentos, explicava que uma só coisa a apavorava na morte, era ser enterrada. Desde criança ouvia falar em “terra fria”, em “sete palmos de terra”, em “túmulo”, “jazigo perpétuo”, etc., etc.
Parecia-lhe que os defuntos deviam sentir a falta de ar e de luz.
Seria tão bom que os mortos pudessem ficar em casa, na sala, no quarto, com as mãos em repouso, entrelaçadas. Era a febre, com certeza, que a fazia dizer essas loucuras.
Malgrado seu, o marido se deixava impressionar. Dir-se-ia que a febre da esposa se transmitia a ele e o embriagava, também. Pensou: “Acabo doido!”
Quase ao amanhecer, Conceição, mais febril do que nunca, fez-lhe o pedido:
— Se eu morrer,não quero ser enterrada. Você esconde o meu corpo debaixo de qualquer coisa...
Ele, alarmado, não sabia o que dizer:
— Morrer como? Ninguém vai morrer, ora essa, que bobagem!
Conceição teimava, abraçada a ele, falando quase boca com boca:
— Jura que não serei enterrada, jura!
Acabou admitindo:
— Juro.
— Por Deus?
— Por Deus!
Por sua vez, cansado, ele cochilou mais meia hora. Foi o bastante para sonhar com o soluço do avô.
Acordou e, durante alguns momentos, teve uma alucinação auditiva. Ouvia o soluço. Não podia ser, meu Deus, era impossível! Só então percebeu: quem estava com soluço era Conceição.
Quis chamar um médico, ou alguém, mas a mulher, já acordada, não deixou. E, na verdade, ele já não acreditava em nenhum remédio terreno para o mal sutil e inexplicável que estava levando a pequena.
Vez por outra, dizia de si para si: “Não estou raciocinando direito.” Mas já a própria loucura não o assustava. Talvez a desejasse como uma solução. Durante dois dias não saiu do quarto. Encerrado, ali, o casal tinha uma companhia única: o soluço. Alberto dormia e, no próprio sonho, o escutava. Ao despertar, lá estava ele. Mas, uma manhã, acordou e não ouviu nada.
Compreendeu que a esposa estava morta.
Monte Cristo
Cinco dias depois, os vizinhos começaram a sentir um cheiro horrível. Investiga daqui, dali, acabaram desconfiando. Entraram no quarto e encontraram a esposa morta e o marido, sentado no chão, de barba crescida, quase à Monte Cristo.
Os mais sensíveis levaram o lenço ao nariz. Alberto, quase sem voz, explicou que a mulher pedira para não ser enterrada. Levaram-no, do quarto, moribundo e variando. Sua última pergunta foi esta:
— Não estão ouvindo um soluço?
Nelson Rodrigues, in A vida como ela é
20/09/2020
O escravo etíope
Saiu do colégio com 15 anos e trouxe para o mundo a sua inocência maravilhada. Ninguém mais sensível e exclamativa. De uma fragilidade física impressionante, qualquer esforço dava-lhe palpitações, falta de ar; uma simples aragem a resfriava. O médico da família, que a examinou várias vezes, repetia:
— Tem uma saúde muito delicada. É preciso cuidado, muito cuidado.
Havia na família, o medo ou o presságio de que viesse a sofrer do peito como uma tia que morrera tísica. Filha de pais ricos, era tratada na palma da mão, com os mimos de uma princesa. E justamente por ser tão fina e frágil, de uma natureza tão delicada e suscetível, ninguém a contrariava. Aos 16 anos, teve o seu primeiro namorado. Era um primo, ótimo rapaz, educadíssimo, simpático e mesmo bonito, aristocrata nos modos, ideias e sentimentos. Ela se chamava Margô e ele, Paulo. Pareciam feitos um para o outro. Para as duas famílias foi, como se disse, “um achado”. Não houve duas opiniões. Todos disseram: “Ótimo, ótimo.” E o pai, que tinha a religião do dinheiro e a ideia fixa da pompa, exigia, esfregando as mãos:
— Quero um casamento de arromba! — e sublinhava: — Um casamento que deixe todo mundo besta!
Preparativos nupciais
Enfim, foi proclamado o noivado. O velho — que era de origem plebeia e tivera de criar, tostão a tostão, a própria fortuna — queria um vestido de noiva inédito e deslumbrante, que embasbacasse a cidade. Acirrava as mulheres, dando murros na mesa: “Gastem sem dó nem piedade.” Na sua mania, fazia cálculos alucinados: “Um vestido de uns cem, duzentos contos.” Tal desperdício arrepiava as presentes. A própria noiva sentia-se desfalecer. Mas ele, desvairado, batia nos próprios bolsos: “Gastem! Eu pago! Pago!” Sob esse estímulo, todas as mulheres da casa se entregaram a um verdadeiro delírio. A mania de grandeza se transmitiu e se generalizou. Catou-se por entre páginas de revistas o figurino ideal. Afinal, descobriu-se um modelo encantador. O velho olhou e deu sua adesão: “Bacana.” A filha, muito mais aristocrática que o pai, suspirou:
— Como é bonito, meu Deus!
Um batalhão de costureiras pôs-se a trabalhar, dia e noite, no vestido mágico.
Quando uma delas cansava, o velho vinha lá de dentro com a ideia do suborno. “Eu pago extraordinário! Dou gorjeta, o diabo!” Já a cerimônia estava com data marcada. E quando o vestido ficou pronto, uma meia dúzia de parentes mais chegadas, inclusive a mãe, se fecharam com a noiva no quarto. Então lânguida, delicada, com seu aspecto de flor de luxo, Margô vestiu peça por peça. Houve um momento em que só ficaram faltando a grinalda e o véu. Ao redor, havia histerismos. Primas, tias, cunhadas, suspiravam:
— Que amor! Que amor!
Na verdade, era algo de indescritível. No meio de tanta alvura, a fragilidade física de Margô era ainda mais tocante. Faltavam uns 15 dias para o casamento. E, à noite, depois do jantar, ela se queixou de palpitações. As pessoas próximas se entreolharam num pavor de pneumonia. Alguém sugeriu: “Vai ver que foi um golpe de ar!” Passou. Mas na hora de se despedir do noivo, Margô fez-lhe o pedido:
— Precisava de um favor teu.
Ele, sempre cavalheiresco, limitou-se a dizer:
— Dois.
Margô baixou a vista, fugindo do seu olhar intenso:
— Eu queria adiar o nosso casamento.
Mistério
Justiça se lhe faça: ele foi impecável. Explicou que naturalmente estaria muito interessado em que o casamento fosse o mais rápido possível. “Mas já que você quer, meu anjo...” Um pouco vaga, Margô explicou que não se sentia bem, que devia ter alguma coisa e, enfim, que andava nervosa, etc., etc. Paulo com sua polidez irrepreensível afirmou: “Por mim não há dúvida.” Quem se doeu com a transferência foi o velho. Estava mais ansioso pelo casamento do que os noivos. Gemeu, desabando numa cadeira:
— Que caso sério! Que caso sério!
Margô foi ao médico, que a examinou meticulosamente. Não achou, no seu estado, a menor novidade. Continuava fisicamente delicada, mas não apresentava nenhum sintoma que sugerisse doença. Passaram-se dois, três, cinco meses. A família do noivo estranhava:
— Que diabo! Vocês se casam ou não se casam?
Ele parecia abdicar dos próprios direitos:
— Quem decide é Margô.
Protesto geral:
— E você não pia? Ora veja! Não está certo, não está direito!
Sob a pressão dos parentes, foi conversar com a noiva:
— Meu anjo, precisamos marcar uma nova data.
Ela suspirou:
— Já? Vamos esperar mais um pouco.
Como ele insistisse, embora com um máximo de tato e delicadeza, Margô acabou concordando. Houve um conselho de família, com a presença dos noivos, fixou-se o casamento para daí a três meses. Todos se animaram de novo. Houve a febre dos preparativos. Mãe, tias e amigas se reuniam planificando a festa. Foram ver se o vestido de noiva estava com alguma mancha; fizeram, nele, uma revisão minuciosa, com medo de alguma possível barata. O pai, com sua vocação para o desperdício, foi de uma liberalidade estupenda, outra vez:
— Acho mais negócio fazer outro vestido!
A mãe, que era uma senhora fina, interrogou os noivos: “Como é? Vocês vão viajar?” Margô teve que admitir: “Não pensamos nisso.” Então, a santa senhora fez-lhe uma repreensão: “Minha filha, acho você uma noiva tão não sei como; muito desanimada.” Sorriu, lânguida: “Sou assim, mamãe.” E a outra: “Está errado. Você deve se corrigir. Onde já se viu?” Finalmente, deu para a filha e o futuro genro a sugestão:
— Se eu fosse vocês, sabem o que eu fazia? Uma viagem! — e já animada, já excitada pela própria ideia, continuou: — Casamento sem viagem de núpcias é tão sem graça! Vocês podiam ir à Europa, aos Estados Unidos!
O noivo pareceu impressionado; comentou, grave: “Boa ideia.” Virou-se para Margô: “Você não acha, Fulana?” Ela respondeu:
— Não. Acho pau. Gosto de ficar em casa.
Dois dias depois, pediu que se adiasse, de novo, o casamento. Houve assombro na família. Crivaram-na de perguntas: “Mas adiar por quê? Qual o motivo?” Ela, desesperada, procurou um motivo, como se estivesse disposta a inventá-lo; disse, por fim: “Ando nervosa.” Insistiram, e a menina acabou perdendo cor, pulso, até desmaiar. Uma semana depois, a mãe foi sondá-la: “Você gosta mesmo do Paulo, minha filha?” Disse que sim, que gostava, mas que...
Ainda uma vez, o noivo foi magnífico: concordou com o adiamento.
A sogra
Quem não gostou foi a futura sogra. Chamou o filho. Instigou-o: “Essa menina está fazendo você de gato e sapato. Isso não é papel! Onde é que nós estamos?” Ele, que adorava a noiva, que a colocava acima de tudo e de todos, cortou o debate: “Vamos mudar de assunto, sim, mamãe?” A velha, porém, era tremenda. Largou o filho, com as seguintes palavras: “Está certo, não se fala mais nisso. Mas quero te dizer uma coisa: aqui há dente de coelho.” E o fato é que, sem dizer nada a ninguém, ela andava desconfiadíssima. De quem ou de que, nem ela própria saberia dizê-lo. Nesta mesma tarde, porém, recorreu a vários conhecidos, atrás de uma informação, até que descobriu um detetive particular. Chamou o homem; perguntou:
— O senhor é discreto?
— Um túmulo!
— Ótimo. Eu preciso mesmo de um túmulo. Trata-se do seguinte...
Incumbiu o sujeito de acompanhar os passos de Margô; advertiu: “Pode ser palpite meu, mas não custa apurar.” O Fulano concordou, grave: “Evidente! Evidente!” Deixou-o, com a super-recomendação: “Ninguém pode saber disso!” Quarenta e oito horas depois, o detetive reaparecia, de olho esgazeado. Contou, longamente, o que apurara. De vez em quando, interrompia o relatório para exprimir seu estupor: “De arder! De arder!” Assombrada, a velha balbuciou: “Eu só acredito vendo com os meus próprios olhos!” E o detetive: “Amanhã, eu mostro o homem à senhora!”
O bem-amado
No dia seguinte, encontraram-se a velha e o detetive na porta de uma companhia de ônibus. Súbito, o profissional indica: “Olha o homem!” Ela espiou. Lá vinha ele, no meio de outros motoristas, um negro gigantesco. Segundo apurara o detetive, ele saíra, no último carnaval, no rancho, de escravo etíope, com o dorso nu e retinto. A velha, fora de si, gaguejava: “Quer dizer que é esse o namorado de minha nora?” O detetive pigarreou:
— Isto é, mais do que namorado. Eu apurei tudo, direitinho. Tenho endereços, o diabo. E posso provar.
Então, a velha cambaleou. Seu estômago se contraiu, sofreu, ali mesmo, uma náusea violenta. Afastaram-se; ela pagou o preço que ele impôs e partiu num táxi. Como era uma mulher viril, de muito gênio, preferiu ir, de uma vez, à casa da menina. E, lá, fez um escândalo medonho. Quiseram expulsá-la; foi chamada de louca. Ela, em desespero de causa, virou-se para a própria Margô que, sem uma palavra, ouvia tudo:
— É verdade ou não é?
Todos se voltaram na direção da menina. Então, aquela mocinha frágil, fina, que desfalecia ao aspirar um perfume mais intenso, ergueu o olhar firme, quase cruel. Disse apenas, sem medo:
— É verdade.
A ex-futura sogra saiu dali feliz e vingada. Foi um escândalo pavoroso. O pai veio, esbravejante. Falou em dar tiros. Ela o conteve com a ameaça: “Se fizer isso, eu me mato!”
Ante a perspectiva do suicídio, a família capitulou. Tiraram o rapaz da companhia de ônibus, arranjaram um emprego. E, um dia, casaram-se às escondidas. No seguinte carnaval, quando o sogro passava, de Cadillac, pela praça Onze, viu o genro, num rancho — fantasiado de escravo etíope.
Nelson Rodrigues, in A vida como ela é
